Notas iniciais
Oii, pessoal! Posta The Last Universe por aqui mas também estou no Wattpad e no AO3! É uma história que venho trabalhando há alguns anos e minha primeira obra que estou publicando, hihi.

Escócia, 1950.

Diário de Albert Braun.

Há uma famosa cantiga na Alemanha chamada A Caminhada do Bravo Rei que sempre me intrigou; cantada em ritmo lento com flautas e violino melancólicos acompanhando, a canção narra a jornada de Demetrius Talbot a cidade de Jerusalém, Israel, numa tentativa de dominação. “No sétimo dia, do sétimo mês” como entoam, Demetrius, sem saber, inicia o maior conflito armado do planeta.

A Guerra dos Homens tinha como objetivo eliminar uma possível ameaça que crescia na Cidade Santa: os Primordiais.

Em trechos de uma carta enviada à Igreja, o próprio Demetrius dizia que os cidadãos estavam alarmados por seres parecidos com eles — mas não humanos — podiam controlar os quatro elementos, erguer estruturas inteiras apenas tocando o solo, curar as próprias feridas sem bálsamos. “Uma verdadeira blasfêmia” Talbot escreve, imaginando ser boatos sem fundamentos, pois “como podem meros humanos serem capazes de tamanhos atos que somente nosso Senhor detém poder?” Seis meses depois, Demetrius Talbot viaja a Israel e tem seu encontro com Aneesa el-Alle, uma Primordial descrita com olhos brancos, a líder de uma pequeno território acampado de outros de sua espécie.

O acampamento ainda estava em construção, possuindo um pequeno templo feito de pedra com setes sinos em volta. É por esse motivo que a primeira batalha da Guerra dos Homens é chamada de A Batalha das Doze Badaladas, pois demorou doze horas para Aneesa, com algumas dezenas de Primordiais, derrotarem Demetrius Talbot e seus homens.

Após isso, a História não foi gentil com os Primordiais.

O que começou em Jerusalém se espalhou por todo o mundo conhecido do século XI e poucos eventos históricos se comparam, em crueldade, o que aconteceu com os Primordiais. Perseguidos, massacrados e rechaçados a títulos de monstros, hoje, em pleno século XX, esses seres não passam de lendas folclóricas para a maioria das pessoas.

Contudo, não escrevo com o objetivo de falar o que todos nós já nascemos sabendo; mas sobre a verdade que nos escondem.

Depois da Guerra dos Homens, dizem os historiadores, os Primordiais foram aniquilados.

Mentira. Eles ainda estão entre nós, comem como os humanos, se vestem como humanos, casam-se com humanos: estão nas ruas, nas Cidades Subterrâneas, nos governos…

Eles existem. São tão reais quanto eu e você.

O que me leva a escrever essas palavras, caro leitor, é um desejo ardente de que, num futuro não tão distante, possamos conviver em paz com os Primordiais. Não será fácil desmistificar todas as mentiras, mas sou um cientista, sempre há mitos a serem derrubados e curas a se buscar. E agora, mais do que nunca, se faz necessário a descoberta dessas informações porque uma nova guerra está prestes a explodir e dessa vez, seremos nós, os humanos, a serem os aniquilados.

Os Primordiais não eram monstros antes da Guerra dos Homens, mas criamos alguns a partir dela. Cheguei a conhecer um deles e não posso não falar sobre Nils Hoffman e o inferno que ele quase chegou a causar no mundo.

O conheci quando me agarrava à esperança de morrer..

O ano era 1944, Segunda Guerra Mundial. Eu era um prisioneiro no campo de Chelmno¹ e diferente dos outros, não fui intoxicado num caminhão ou fuzilado quando cheguei. Por um motivo desconhecido, me mantiveram vivo por 7 meses. Desconfiava que eles queriam me ver definhar lentamente até finalmente morrer e realmente cheguei perto disso. Pesando 44kg distribuído num corpo de 1,86 de altura, eu parecia um cadáver ambulante.

Naquele dia em específico, lembro perfeitamente de acordar e encontrar dois dos meus companheiros de cela mortos do meu lado. Os soldados ordenaram que eu os carregassem até o pátio, onde já havia um montinho de corpos sendo jogados um em cima do outro. Então, os queimaram. Nunca esqueço do cheiro desagradavel de morte, de olhar para aquele monte e enxergar os braços rechonchudos de uma criança, do desespero de saber que no próximo dia aquilo se repetiria de novo e de novo…

Perto do fim do dia, dois soldados apareceram e sem nenhuma explicação saíram me arrastando pelos braços. Pela primeira vez, sorri. Pensava estar sendo levado para o fuzilamento, finalmente todo o inferno desapareceria e nunca mais precisaria carregar corpos. Lerdo engano. Conforme ia ficando mais longe da parede de fuzilamento, mais perto os blocos do quarteirão reservado aos soldados criava forma. Paredes esverdeadas, ainda me recordo, sem as sujeiras que rodeavam as celas dos prisioneiros, sem gritos ou lamúrias de dor mas sorrisos e conversa sendo jogada fora.

Como eles conseguiam ser tão plenos em meio a tanto sofrimento?

Os homens que me carregavam me jogaram numa sala sem janelas.

“Podem sair.” Disse uma voz vinda do fundo.

Movi meus olhos para uma figura de costas pondo um disco na vitrola. Beethoven preencheu o silêncio com a Sinfonia nº 5. O homem virou-se para me encarar com um sorriso brilhante.

Era lindo. Alto, com ombros largos e cabelos dourados repartidos à direita. O rosto parecia ser esculpido pelos deuses, conseguia ser másculo e angelical ao mesmo tempo. Poetas escreveriam facilmente sobre sua beleza, principalmente sobre seus olhos. Amendoados e suaves, diferente dos restos dos soldados. Eram tão escuros…quase não se enxergava a pupila, fazia um contraste bonito com a cor de seus cabelos.

“Doutor Braun, é um prazer vê-lo pessoalmente.” Ele falou, até sua voz era bonita, melodiosa. Tão desumanizado quanto um animal, eu tomei um leve susto ao ter alguém dizendo meu nome depois de tanto tempo. “Gosta de música? Eu particularmente amo. Sofro por não ter nenhum dom musical mas me conformo em ser um apreciador.”

Ele sentou-se elegantemente numa cadeira que não havia notado que estava ali.

“Sente-se, por favor.” Ele pediu e o fiz.

“Doutor Braun…”

“O que quer de mim?” Perguntei, soando rude porque apesar de se parecer um anjo encantador o homem á minha frente ainda usava a suástica nazista no peito.

“Você, doutor Braun. Eu quero você.” O homem respondeu naturalmente “Não faz ideia do trabalho que tive para encontrá-lo. Quando soube que estava aqui, fiquei preocupado de não chegar a tempo de vê-lo vivo…” Ele me olhou de cima a baixo “Mas vejo que cheguei a tempo. Ou não. “ Deu uma risada “Me chamo Nils Hoffman, perdão por não me apresentar antes. Não foi educado da minha parte.”

“Não tenho nada a oferecer. “ falei “Devolva-me a seus colegas e deixe eles me matarem.”

“De forma alguma, Albert. Ninguém vai te tirar de mim. E não seja tão humilde, um homem inteligente como você é um verdadeiro tesouro.” Hoffman tirou uma faca do bolso e estirou a manga do uniforme revelando o pulso pálido. “ Li sobre seu trabalho a respeito dos Primordiais e fiquei encantado com tanta precisão.”

Hoffman cortou o pulso. Observei, paralisado, a ferida cicatrizar antes mesmo do sangue escorrer. Caí da cadeira.

“Não é possível…”

“Tudo é possível, meu caro Albert” Hoffman guardou a faca e sorriu para mim “Meus companheiros são tolos, matam a própria espécie como se matam porcos no abate. Eles não enxergam como isso os enfraquecem,tão confiantes de seus ideais patéticos…” Ele caminhou em minha direção e agarrou meu queixo gentilmente “Mas eu sou diferente, Albert. Pretendo fazer com que minha espécie se una, que saiam das Cidades Subterrâneas, dos fossos e saibam do poder que carregam. Somos poderosos de uma forma que os humanos nunca vão ser. Por que aceitar viver escondido com tanto poder?”

“Me deixe ir…” Sussurrei, Hoffman aumentou o aperto e me forçou a encará-lo

“Nunca. Você vai me ajudar a partir de agora, Albert. Com seu conhecimento e o meu poder, viraremos o jogo e libertaremos meu povo.” Hoffman sorriu “Doutor Braun, você trabalhará para mim.”

Não sei explicar o que aconteceu comigo depois dessas palavras. Todo o meu desejo de morrer, o asco de ter aquelas mãos em mim, desapareceram e foram substituídos por uma verdadeira adoração a Hoffman. Naquele momento, tudo o que vi era ele, tudo o que eu queria era agradá-lo, tê-lo mais perto.

“Sim.”

Sem saber, tinha assinado um contrato fáustico com o próprio Diabo.






¹: O campo de Chelmno, localizado na Polônia, foi o primeiro a ser construído no regime nazista que servia como centro de exterminio dos judeus do Gueto de Lodz.