THE LAST UNIVERSE
2 Bem Vindo de Volta Ao Inferno
CAPÍTULO IBem-vindo de volta ao Inferno
Coréia do Sul,1994.
Yoongi.
—Nunca achei que fosse viver muito. — A confissão lhe escapa de repente, em alto e bom som, ecoando pelo escritório e o deixando em completo silêncio.
Kim Namoo encolhe os ombros instintivamente, o arrependimento de deixar seus pensamentos mórbidos conhecidos faz seu estômago revirar. Ele não deveria dizer isso, especialmente hoje, quando está a trinta minutos de completar mais um ano de vida. Namoo vira o restante do copo de soju, o tick tack do relógio como uma campainha que anuncia seus sessenta anos batendo à porta.
É inevitável, porém, não pensar nos possíveis rumos que sua vida poderia ter levado. De sobrevivente de um massacre ainda na infância para um político amado pelo povo inevitavelmente o levam-no ao único questionamento possível:
Sessenta anos…como?
Talvez, seu cérebro tenha parado para refletir as improbabilidades de sua trajetória de vida agora porque nada caminhou para Kim Namoo em velocidade lenta da qual deixa pequenos espaços para reflexão. Não. Tudo foi frenético, intenso e acima de tudo descontrolado. Um carro sem freios definitivamente.
Com os ombros tensos e cotovelos apoiados no parapeito da janela, Namoo espera seu convidado dizer alguma coisa, algo voltado ao julgamento. “Você é o símbolo de superação desse país, velho. Como pode pensar nisso?” ou “Está começando a ficar sanil?”. Mas nada vem além do silêncio.
Uma brisa suave é soprada em seu rosto, bagunça os cabelos grisalhos e leva embora a tensão do seu corpo. É reconfortante como um abraço apertado. Namoo se sente um pouco bobo, é óbvio que Yoongi não o julgaria, ninguém é capaz de te compreender tão bem quanto aquele que atravessou o inferno ao seu lado. Min Yoongi também sobreviveu ao Massacre de Suncha e mais do que isso: foi por causa dele que Namoo conseguiu escapar.
Disso, a imprensa da época não ficou sabendo e certamente, pensa Namoo, não acreditaria. Um menino franzino de doze anos derrotar um batalhão inteiro, parece uma história fantasiosa.
Mas não foi. Namoo é a prova viva disso.
Há mais mistérios entre o céu e a terra que um homem pode sonhar, escreveu o poeta ¹. Os Primordiais é um deles.
Virando-se para encarar o convidado, Namoo se depara com um homem jovem, na casa dos vinte, cabelos negros alcançando-lhe a clavícula. Ao contrário do Kim, Yoongi quase não envelheceu em quatro décadas. Contudo, em contraste com a criança desnutrida e terrivelmente pálida da Cidade Subterrânea, há um homem forte e saudável.
E poderoso, Namoo lembra.
Yoongi está olhando o painel de fotos que ocupa a parede inteira. Ali está a vida toda do aniversariante registrada. Desde fotos raras de Suncha antes do massacre, dos habitantes seguindo suas rotinas pesadas; passando pelo jovem Namoo atuando na política, fazendo discursos poderosos em cima de palanques improvisados. Em uma foto, recortada do jornal, mostra Namoo sendo carregado para fora da Assembléia Nacional por dois seguranças logo após ameaçar o ex-governador da Cidade ². O ângulo conseguiu captar bem o terror do homem depois de ouvir que Namoo sabia perfeitamente que o Massacre só aconteceu sob o aval dos três governadores.
“Eu vou fazer vocês pagarem por isso!” Namoo tinha gritado enquanto era arrastado “Poderia ter nos salvado! Covarde!”
Foi um escândalo. O povo comprou a revolta de Namoo, a Assembleia Nacional o medo do governador.
Alguns anos mais tarde resultou na foto de Namoo com a faixa presidencial. Presidente da República da Coreia. A ameaça foi cumprida, não necessariamente pelo presidente. Por coincidência, Yoongi havia voltado ao país na mesma época. O enterro do ex-governador não teve cerimônia aberta e nunca divulgaram a causa da morte.
A preferida de Namoo ocupa o maior espaço do mural. Nela, ele e sua falecida esposa, Kim A-Yeong, seguravam o filho recém nascido, Joon-Sik. Os três encaram a câmera, sorrindo abertamente. Seu filho sempre foi uma criança adorável, sorrindo para tudo e todos, derretendo os corações das mulheres mais velhas.
“Com certeza será um político também.” A-Yeong tinha comentado certa vez.
E não estava errada.
Hoje, com seus vinte e cinco anos, Joon-Sik concorre a prefeito de Seul. A campanha vinha sendo um sucesso inesperado por dois simples motivos: a) inimigos políticos herdados de Namoo que tentaram a todo custo manchar a imagem de Joon-Sik b) a candidata a vice-prefeita é uma mulher.
Por mais que amasse seu país, o ex-presidente sabia que a Coreia do Sul poderia ser cruel com as mulheres. Choi Eun é, de fato, uma mulher muito corajosa de enfrentar uma área predominantemente masculina sem abaixar a cabeça. E pelo andar da carruagem, talvez não seja incorreto dizer que Choi Eun será uma ótima vice-prefeita.
Mas Yoongi não está prestando atenção em nenhuma dessas fotos.
Sua atenção está toda sobre uma fotografia pequena, ainda de tom sépia, de 1950. Tirada alguns meses antes do massacre, a imagem mostra uma mulher baixa, cabelos presos em um coque, segurando uma enorme cesta de palha enquanto encara a câmera meio perdida. Quase escondido na saia da mulher está uma criança franzina e, diferente da mãe, tem um olhar afiado, quase mal humorado.
Namoro rir, o amigo ainda permanece com o mesmo olhar até hoje.
Com uma delicadeza impressionante,Yoongi passa a ponta dos dedos sobre a imagem da mulher. E qualquer rastro de diversão evapora de Namoo. O gesto de Yoongi é carregado de dor e saudade. A mulher, Min Haneul, era uma mãe incrível e tudo o que resta dela agora é apenas uma fotografia velha.
É injusto. Tudo o que aconteceu com ele é injusto. A garganta de Namoo fecha ao lembrar dos últimos momentos do seu pai, gritando para o filho fugir, prometendo que iria alcançá-lo. E a mãe de Yoongi…jogando-se na frente dele, sendo fuzilada inocentemente sem nenhuma misericórdia. Yoongi mal havia completado doze anos. Uma criança tendo que assistir a um show de horrores.
Não dá para perdoar. Pode passar séculos, milênios e a ferida ainda vai doer.
Notando para onde os pensamentos do amigo foram parar, Yoongi abaixa os dedos da foto e os põe nos ombros do outro homem. Eles se encaram por milésimos antes de Yoongi falar:
—Eu também achei que não fosse sobreviver.
E é tudo o que Namoo precisa ouvir para desmoronar.
O primeiro soluço é baixo, acompanhado de lágrimas espessas e antes que a racionalidade possa intervir, Namoo joga os braços ao redor de Yoongi, o envolvendo em um abraço apertado. Então as lágrimas correm como um riacho sem pretensão de cessar os soluços agora são altos e doloridos.
Doze anos…Yoongi só tinha doze anos.
Ninguém sabe que Namoo achou que também havia perdido o amigo naquele dia. Tudo estava escuro, o cheiro de pólvora e sangue o deixando tonto. O corpo pedia por descanso, a respiração saia em lufadas pesadas e os tiros faziam Namoo não olhar para trás. Yoongi estava ao seu lado até a chegada ao portão. Depois disso, tudo é um borrão em sua memória. Ele lembra do grito de Yoongi, do chão abaixo deles tremer e rachar ao meio. Suncha desmoronou, o portão caiu e Namoo não viu Yoongi por quase duas décadas. Ele passou vinte anos achando que Yoongi havia morrido.
Yoongi sobreviveu, mas passou coisas terríveis. Nada disso importa, agora ele está aqui retribuindo o abraço de Namoo.
Eles sobreviveram.
— Me desculpe, me desculpe — Namoo balbuciou ao se afastar de Yoongi. Ele enxugou as lágrimas e riu. — Não sei o que aconteceu.
Os cantos da boca de Yoongi se ergueram em um sorriso irônico,
— Tudo bem, velhos costumam ser pessoas emotivas.
Namoo não rebateu, mas porque sabia que Yoongi estava tentando reprimir o próprio choro. Ele só deu o trabalho de revirar os olhos.
Finalmente, o relógio bateu meia noite. É oficialmente 12 de setembro. Yoongi tirou do bolso uma caixa preta pequena do bolso e estendeu a Namoo.
— Feliz aniversário, velho.
— Obrigado, criança. — Namoo desatou o laço bem feito. Um rolex prateado brilhava dentro da caixa, o Kim amava relógios e não hesitou em pôr no pulso rapidamente.
— Fique ciente que é edição limitada. — Yoongi disse, ainda sorrindo — Um presente caro para um caro amigo.
— Oh, bem, desse jeito vou ter que usá-lo constantemente para mostrar o quanto estimo seus presentes.
Yoongi encheu dois copos de soju.
— Não espero menos. Ah, antes que eu me esqueça — Yoongi entregou um dos copos — Jin disse que vai dar seu presente quando te ver pessoalmente.
Namoo assentiu,divertido, imaginando qual presente inusitado Jin poderia lhe dar. Ano passado, ele presenteou Namoo com uma loja de frangos fritos, isso depois do ex-presidente deixar escapar que amava a comida. Talvez Namoo pudesse “deixar escapar” um genuíno interesse em uma viagem de férias para Bali…
— Diga a ele que ficarei no aguardo. Acho que tenho algo interessante para falar com ele.
Yoongi arqueou a sobrancelha, curioso. Ele não chegou a perguntar, no entanto, as batidas na porta do escritório o tiraram do foco.
— Entre. — Namoo disse e deu um sorriso grande quando Park SunHee entrou — SunHee-ah, o que aconteceu?
— Estão tocando a campainha sem parar. Perguntei quem era mas só disseram que queriam falar com o senhor.
— Essa hora?
— Deve ser um dos seus amiguinhos políticos vindo te desejar felicitações. — Yoongi falou, acomodando-se em uma poltrona.
— Isso soou um pouco ciumento para mim, Yoongi. Mas não se preocupe, vou despachá-los e voltar para você. — Namoo disse arrancando uma risadinha de SunHee — Fiquem aqui, já volto.
A porta fechou e SunHee percebeu que estava sozinha com Yoongi. O silêncio pairou sobre eles como uma nuvem pesada.
Ela mudou o peso de uma perna para outra, observou todos os detalhes irrelevantes do escritório: a rachadura quase imperceptível no canto da parede, os títulos expostos nas lombadas dos livros da estante…Até os próprios pés pareciam interessantes.
Yoongi, por outro lado, observava cada movimento da menina. SunHee é uma garota adorável de cabelos longos e boina vermelha e estava inquieta. Ela caminhou até a janela, atraída pela brisa suave.
Assim como Namoo, SunHee encostou no parapeito e se distraiu com a vista.
—Não é hora de a criança estar acordada. —A voz de Yoongi preencheu o silêncio e fez SunHee virar o rosto minimamente em sua direção, tinta azul manchava a bochecha esquerda dela.
—Tenho dezenove, não sou mais uma criança.
—Oh, nesse caso desejo boas vindas a vida adulta. É horrível, você vai odiar. SunHee riu e virou-se totalmente para Yoongi. Ele estendeu o copo intocado de soju.
—Quer experimentar?
SunHee pensou por um instante, então assentiu timidamente.
—Pegue — disse Yoongi e quando a menina fez menção de caminhar até ele, Yoongi acrescentou: —Não com as mãos.
SunHee ficou tensa.
—Eu não…
—Sem as mãos, senhorita Park.
SunHee respirou fundo.
Já faz um tempo desde que ela fez isto. Durante anos, a escuridão era uma entidade sufocada em SunHee, não por medo —ela a achava fascinante — mas pelas lembranças que invocava. Todas terríveis. A voz assustadora de sua mãe a repreendendo zumbia na sua cabeça…
Yoongi sacudiu levemente o copo. Ele a encarava, não com nojo igual à sua mãe fazia, mas com incentivo.
—Mostre.
Esqueça ela. SunHee pensou e fechou os olhos.
Yoongi assistiu, maravilhado, figuras negras se desprenderem dos cantos escuros do escritório e deslocarem até a menina. De pedaço em pedaço, as sombras formaram uma grande mão aberta que se estendeu até Yoongi. Ele pôs o copo na palma e ela regressou à menina que o pegou com as próprias mãos.
—Incrível. —Yoongi apontou para SunHee —Não repreenda seus poderes, SunHee. Você está segura agora.
A menina deu um sorriso nervoso.
—Eu estou tentando não fazer isso…Na verdade, eu até aprendi algo novo. —Ela pôs o copo de volta na mão de sombras, os dedos escuros fecharam-se no copo e quando abriram o objeto havia desaparecido.
Yoongi piscou e SunHee apontou para a mesa de Namoo. O copo estava ali, intacto.
Yoongi riu, então bateu palmas.
—É maravilhoso. — Ele se inclinou para frente —Não está se sentindo mais leve?
—Sim —SunHee respondeu, um pouco surpresa pelo sentimento —É como se eu tivesse tirado um peso dos meus ombros e…—Um barulho no andar debaixo a fez parar de falar. —Oh, isso soa como um cavalete caindo.
—O seu?— Yoongi pergunta, SunHee acena —Estava pintando a essa hora?
—Só tenho inspiração à noite e bem, eu pretendia terminar antes das quatro da manhã para dar a Namoo um presente adequado. —SunHee passa a mão pelos cabelos, quase derrubando a boina —É melhor eu ir checar se não estragaram a pintura, senão vou ter que fazer outra o mais rápido possível. Com licença, Yoongi.
—Peça para Namoo subir, ainda temos uma garrafa de whisky para esvaziar.
—Sim, senhor! —SunHee diz distante, já descendo as escadas correndo.
Então Yoongi espera.
Cinco minutos parecem razoáveis, dez minutos é suspeito e ele só resolve agir nos doze minutos, quando levanta e sai do escritório.
Os corredores que levam aos quartos estão escuros. A claustrofobia de Namoo o faz abrir todas as janelas possíveis, Yoongi conta cinco janelas gigantes no final da escadaria. Ele aproveita para espiar a rua, Namoo mora em um dos bairros mais nobres de Seul e consequentemente, um dos mais seguros. O que Yoongi espera encontrar na rua tão tarde da noite? Um espião com intenções assassinas como ele já foi um dia?
Paranoia. A vozinha da racionalidade sopra no seu ouvido, mas é abafada pelo instinto gritando: Tem alguma coisa errada.
O salão de visitas está, ironicamente, sem visitas. SunHee tinha razão, o cavalete está caído, estragando a pintura — que Yoongi não consegue identificar — e ele verifica se a faca está bem escondida debaixo da camisa larga.
Por que SunHee não recolheu o material de pintura?
Sussurros rastejam na cozinha. Os empregados tinham sido dispensados assim que Yoongi chegou, às 18 da tarde. É o arrastar de cadeira que faz Yoongi acelerar os passos e se deparar com SunHee sentada na ponta da mesa, com Namoo atrás dela, segurando seus ombros.
Os olhos de SunHee estão lacrimejando, ela encara Yoongi assustada, com os lábios tremendo. Em contraste com a parede laranja, SunHee está mortalmente pálida.
A luz da cozinha pisca, como em um filme de terror. Arrepios sobem pela espinha de Yoongi, mas ele não demonstra a confusão de sentimentos e pensamentos acontecendo dentro dele.
—Você demorou. —Yoongi diz a Namoo —Pensei que tinha se perdido no meio do caminho.
A risada do ex-presidente é estridente.
—Não me perdi. Estou aqui, em carne e osso. —Outra risada, SunHee treme com o som.
Há, definitivamente, alguma coisa errada.
A cozinha, Yoongi percebe, está cheirando a morte. Não a sangue. A morte nua e crua. O odor forte vem de Namoo.
Seus sapatos, antes pretos e lustrosos,agora estão cinzas e molhados nas laterais. Namoo não saiu de casa, nem pisou em poças. A janela da cozinha está fechada. Namoo nunca fecha as janelas.
E, o mais esquisito, Namoo não para de sorrir.
Yoongi constantemente zoava Namoo por não conseguir manter os olhos abertos enquanto sorria.
"Ele também sorrir com os olhos " Jin falou certa vez.
Os olhos do ex-presidente estão totalmente abertos. O sorriso não alcança-lhes.
—Você não deveria estar dormindo, SunHee?—Yoongi fala, aproximando-se dos dois.
A menina abre a boca com dificuldade, ainda tremendo, mas não chega a falar.
—Quero ela aqui comigo — Namoo aperta os ombros dela, SunHee parece enjoada pelo cheiro e pela presença dele. Isso nunca aconteceu.
—E você quer ficar?— Yoongi questiona, olhando diretamente para ela.
Me dê algum sinal. Ele tenta transmitir com o olhar.
É fácil perceber a sombra se mexendo atrás dos dois, materializando-se na silhueta de SunHee.
—Oh, ela quer. Não é mesmo,querida? —Namoo rir novamente e coagida pelo aperto quanto pela presença, a menina responde:
—Sim. —Sai totalmente seco, sem sinceridade.
A sombra, pelo contrário, balança a cabeça de um lado para o outro, negando. A luz pisca freneticamente agora.
Já a três passos de Namoo, Yoongi pergunta:
—O que aconteceu no sétimo dia, do sétimo mês?— Vendo a confusão no rosto do homem, Yoongi cantarola num ritmo lento que uma vez lhe foi ensinado: —Am siebten tag des siebten monats geht Talbot nach Jerusalem³
—O quê…—Namoo não chega a concluir a frase, é interrompido pelo próprio grito de dor.
Ficando livre do aperto de seus ombros, SunHee imediatamente se joga no chão para longe das mãos frias do homem. Ela arqueja, horrorizada pela cena que presencia: Yoongi acabara de cravar uma faca no coração de Namoo.
Parte 2
O antebraço de Yoongi mantém o homem preso no balcão. Ele gira a faca duas, três vezes, ignorando o grito de dor da criatura abaixo dele; e depois retira apenas para comprovar sua tese: não há uma gota de sangue.
Pelo menos, não sangue vermelho.
Na faca, um pequeno filete dourado brilha na lâmina.
É um Primordial.
—Tudo isso porque eu não souber cantar a musiquinha?—O Primordial gargalha e Yoongi se dá conta o quanto odeia o som. Ele volta a enfiar a faca, dessa vez no estômago —Porra!
—Por que está aqui? Cadê o Namoo?
—Ele tentou matar o Namoo! —SunHee grita, quase chorando —Não está sozinho, o outro desapareceu com Namoo, eu não sei…
—A pirralha fala demais. —O Primordial sorri e estala os dedos.
Uma quarta figura adentra o recinto, vindo do corredor. É alto, com vestes antigas e surradas. A pele está descolando do rosto, corroída, deixando à mostra os ossos. Yoongi só consegue associá-lo a um zumbi.
Ele corre em direção a SunHee. Zumbis não deveriam correr.
As unhas da criatura são enormes e afiadas, SunHee está paralisada.
O Primordial se debate sob Yoongi, querendo fugir. Ele força o antebraço no pescoço do Primordial, tentando sufocá-lo para ganhar tempo. Yoongi está limitado em um ambiente fechado, não conseguindo raciocinar como usar seus poderes, se pelo menos tivesse…
Água.
Há correntes de água na cozinha.
Em um piscar de olhos, Yoongi desloca-se do Primordial e estende a mão para a pia. A torneira escapa pelo fluxo de água intenso e Yoongi a direciona para o zumbi, que é lançado na parede. Não irá matá-lo, certamente, mas serve de distração.
—Não esqueça que você tem poderes também! —Yoongi avisa a SunHee e acerta um soco no Primordial, forte o suficiente para deixá-lo zonzo.
Mas é claro que ele não invadiria a casa de um ex-presidente desarmado. A criatura puxa do bolso esquerdo uma faca, um pouco menor do que a de Yoongi e com a lâmina vermelha.
Primordium, Yoongi reconhece.
É um grande problema.
Pelo canto do olho, Yoongi não vê nem SunHee, nem o zumbi no cômodo. A água está inundando a cozinha, não é o melhor ambiente para luta que Yoongi já esteve.
—Meu mestre me disse que você é bom de luta. Rápido e mortal. —Os dois estão andando em círculo.
Yoongi zomba.
—Mestre?Quem te mandou aqui foi Jesus?
O Primordial gargalha e ataca.
É fácil desviar dos golpes, a princípio. São pesados e quase certeiros demais. Yoongi consegue feri-lo várias vezes em poucos segundos, mas não adianta, ele sabe que uma faca comum não tem efeito em um Primordial.
Yoongi o atrai até a janela, perto do fogão. Ele ouve barulhos vindos do salão de visitas e torce para SunHee está sabendo se defender. No último recuo, Yoongi sai completamente do campo de visão do Primordial;usa a mão direita para torcer o braço e a esquerda para impulsionar a cabeça dele contra a janela.
A faca de primordium cai na água. Yoongi a faz subir com um pequeno jato vindo de baixo para cima e a agarra. O Primordial se mexe e Yoongi crava novamente a faca nele.
Desta vez, obtendo mais efeito além de um gemido de dor. Sangue dourado escorre pelo peito dele.
—Só vou perguntar uma única vez: por que está aqui?
O Primordial reluta em responder e Yoongi bate a cabeça dele nos cacos de vidro da janela.
—Ele não deixa eu dizer! —A criatura grita, Yoongi pressiona a faca no seu pescoço. O Primordial parece assustado —Ele disse que precisava chamar sua atenção! Que você é uma peça importante…—ele abaixa o tom de voz, sussurrando: —Ele não deixa eu dizer….
—Quero nomes.
—Eu não posso, eu não posso!
Yoongi respira fundo, sem paciência. Prestes a bater a cabeça nele de novo, o Primordial grita:
—Não! Eu digo, eu digo! —Ele choraminga
—É Da…
Um tiro é disparado do lado de fora no mesmo instante e atinge em cheio a cabeça do Primordial, explodindo. Sangue dourado respinga no rosto de Yoongi e ele pisca, confuso.
O que acabou de acontecer?
Não dá tempo de abaixar, correr ou pensar. Outro tiro é disparado, atingindo Yoongi no braço esquerdo.
Ele geme de dor. Arde como o inferno. Ele sangra. Yoongi se joga no chão alagado da cozinha.
Raios e trovões caem para todo canto no lado de fora.
Yoongi tenta respirar, não é hora de perder a calma. Ainda há SunHee e Namoo para checar.
Ignorando a dor, corre abaixado até o salão de visitas. Tiros também estão sendo disparados lá.
SunHee está abaixada sobre o corpo de Namoo. O zumbi, ou seja lá o que aquilo for, está partido ao meio. Demanda todo o autocontrole de Yoongi para não vomitar.
—SunHee! —Yoongi a alcança, ela grunhiu de dor ao deslocar-se para longe de Namoo.
O homem está ferido mas respirando. Seu rosto está machucado e há uma ferida aberta na barriga. Uma grande ferida, Yoongi observa, igual a um rasgo.
—Namoo, olhe para mim. —Ele pega o rosto do amigo entre as mãos —Você tem que ficar acordado, ok? Não feche os olhos.
—Yoongi…—Namoo fala, com dificuldade —Meu filho vai ter um menino. É um menino…meu neto.
—Você me contou —Yoongi verifica a ferida e tira a jaqueta para enrolar em torno do tórax dele. Yoongi está tremendo. —Você me contou.
Namoo põe a mão sobre as de Yoongi. De repente, há um nó na garganta do mais novo.
—Não adianta, Yoongi.
SunHee soluça ao lado dele.
—Não diga isso—Ela choraminga —O senhor vai ficar bem.
A janela do salão quebra.
Os tiros estão se intensificando. A casa deve estar cercada, não tem como eles saírem pelos fundo.
—Yoongi —Namoo o chama, Yoongi segura as suas mãos tentando passar algum conforto.
Eles se encaram. Tantas coisas são ditas naquele olhar de Namoo e Yoongi sabe decifrar todos eles, assim como os retribuem. Não se preocupe. Eu te amo.
—Nós…—Yoongi engasga, ele luta contra as próprias lágrimas — Nós vamos tirar você daqui.
Yoongi olha para SunHee, a perna dela também está arranhada. É profundo o suficiente para sangrar. Ele sabe que deve doer, mas não há tempo para um curativo.
—Preste atenção —Yoongi diz, mais áspero que gostaria —Você e o Namoo vão sair daqui e ir procurar ajuda no Rigel. Fica a sete quadras. Você vai ter que achar um homem chamado SeokJin e ele vai ajudar vocês. Me ouviu?
—Sete quadras? Eu não sei se consigo nos transportar por essa distância —SunHee tenta parar de chorar, está respirando com dificuldade, pulando de susto a cada tiro que ouve.
—Você tem que tentar. Por Namoo.
SunHee abaixa a cabeça, fungando, então a sacode.
—Eu vou tentar.
—Ótimo. Saia daqui. —Yoongi se levanta e SunHee agarra seu braço.
—E você?
—Eu vou ficar para distraí-los. Por isso é importante você ir até Jin, porque ele vai saber me achar, não importa aonde eu vá.
—Como? —SunHee pergunta, um pouco sem ar.
—Ele vai estar com a Nora.
—Quem diabos é Nora?! —A voz de SunHee aumenta, desesperada.
—Você está perdendo tempo. —Yoongi avisa, entredentes
SunHee xinga baixinho e segura a mão de Namoo. Sombras os envolvem e com um piscar de olhos eles não estão mais lá.
Os tiros cessaram imediatamente.
Com a faca empunhada na mão, Yoongi abre a porta. Está tonto, o primordium está agindo, drenando seus poderes e o deixando fraco.Ele dá três passos e é surpreendido por outro homem, maior e armado diante dele.
—Olá, Yoongi.
Ele dispara.
Uma.
Duas.
Três vezes consecutivas.
Yoongi se permite cair, nuvens carregadas cobrem o céu e uma tempestade se inicia. Antes de perder a consciência, ele ouve alguém sussurrar no seu ouvido:
—Bem-vindo de volta ao inferno.
¹: Frase de William Shakespeare.
²: Governadores da Cidade são os homens responsáveis pelas Cidades Subterrâneas.
³: Canção mencionada por Albert Braun no prólogo.
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