THE LAST UNIVERSE
3 Diário de Albert Braun
Junho de 1950.
Há um terrível defeito meu que todos os meus amigos próximos zombam e eu reconheço plenamente: não sei narrar nada de forma linear. E creio ter estendido essa peculiaridade a minha escrita.
Iniciei este diário falando — ou escrevendo — sobre Chelmno e Hoffman, mas eles são apenas o meio da narrativa de minha história. Existe um começo, belo e trágico, que precisa ser contado.
Um pouco antes da Segunda Guerra estourar, no final de 1937, quando eu ainda era um estudante de medicina descobri que estava apaixonado.
Por outro homem.
Não que minha atração pelo mesmo sexo fosse algo novo para mim, tinha passado a vida inteira atraído, em maior ou menor grau, por homens. Mas era isso: atração. Algo fácil de ser sufocado e seguir em frente. Porém, é possível sufocar o amor? Para mim, não. Nunca o controlo, o deixo fluir em meu ser como uma forte maré: sem controle.
O homem em questão se chamava Ethan Kaminski. Nascido na Polônia e criado nos subúrbios de Berlim, Ethan era um garçom de um bar que todos os estudantes da Universidade Livre de Berlim frequentavam. Carismático e de sorriso fácil, todos se davam bem com Ethan e eu não fui diferente. Toda vez que eu ia ao bar, isto é três vezes por semana quando minhas aulas terminavam mais cedo, Ethan e eu conversávamos durante horas, desde assuntos triviais à política contraditória do Fuhrer. Etha o odiava e parecia não querer esconder isso. Ele não atendia os apoiadores de Hitler e lançava olhares incriminadores para os universitários que o saudavam como salvador da pátria.
“Esse homem de bigode ridículo é um imbecil.” Ethan disse certa vez enquanto me servia uma cerveja “E quem o apoia é mais ainda.”
Ethan vinha de família judaica, percebia o antissemitismo nos discursos acalorados de Hitler de uma forma escancarada. Ele temia pelos seus iguais. E agora, é possível dizer que não estava errado.
O nazismo serve em um grande banquete tudo o que há de mais odioso no ser humano disfarçado de patriotismo e infelizmente meu pai ficou farto logo no prato principal: o antissemistismo.
Meu pai era dono de uma pequena fábrica de leite condensado, filiou-se ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães¹ na esperança de que, com novos contatos, o negócio decolasse. E realmente aconteceu com um acréscimo: meu genitor passou a acreditar que a escassez que a Alemanha passou depois da Primeira Guerra era exclusivamente culpa dos judeus. Esse discurso ficou tão intrínseco nele que demitiu todos os funcionários judeus, perguntava-me dia e noite se eu mantinha contato com algum da “raça inferior”.
Os genes de nossa família fazia todos os integrantes serem loiros de olhos claros, meu pai amava se identificar com a falácia de que éramos o ideal da “raça superior”. Nojento.
Um absurdo atrás do outro! Estava estudando para ser médico, salvar vidas independente se fosse a de um judeu, de um branco, de um negro!
Como dizer a um pai assim que seu único filho é homossexual? Só a possibilidade dele desconfiar me mantinha acordado durante a noite toda.
Eu performava bem a heterossexualidade, afinal, possuía todos os atributos de um “homem”: alto, voz profunda, ombros largos e forte. Assim como os Primordiais, eu me escondia, não em Cidades Subterrâneas mas dentro de mim mesmo.
Invejava meus amigos que podiam demonstrar livremente seu amor às suas amadas sem medo nenhum. Eu nunca vou poder fazer isso. Mesmo em 1950, ninguém vê as pessoas iguais a mim com bons olhos.
Então, cercado por uma infinidade de medo, a epifania de estar apaixonado serviu apenas para me inquietar. Porém, ao mesmo tempo,olhava para Ethan de longe e me perguntava como eu fui capaz de me surpreender com o coração acelerado e borboletas no estômago quando Ethan era o ser mais apaixonante do Universo.
Estávamos separados por três centímetros na altura e milhões de milhas nos sentimentos, assim pensava.
Seu rosto iluminava-se com o sorriso grande, os cabelos castanhos levemente ondulados balançavam toda vez que ria. A pele clara era salpicada por pintas no pescoço longo e por pequenas sardas no nariz; e os olhos…os olhos de Ethan eram lindos. Ambar. Nunca tinha visto esta cor em outra pessoa antes dele, deixava meus olhos azuis sem graça. Diferente de Hoffman, Ethan tinha uma beleza vivida. Não fria. Tudo nele brilhava.
E como eu podia não me apaixonar quando sua beleza se estendia à sua risada, aos seus gestos e a sua vida?
Não havia nada de surpreendente em amar alguém igual a Ethan Kaminski. E o amei com toda a previsibilidade.
Certo dia, miserável por tantos sentimentos me afogando fiquei até tarde no bar bebendo tudo o que via pela frente, evitando o máximo olhar para Ethan. Ele me encarava, surpreso por eu beber tanto, sem saber que era a causa do meu sofrimento, na verdade, só parte dele.
Falhei em não segui-lo com o olhar a cada passo que dava. Sentia-me enciumado quando Ethan falava demais com um cliente, querendo que sua atenção estivesse voltada exclusivamente para mim; ao mesmo tempo, a temia. Se ele falasse comigo, sorrisse para mim eu não aguentaria, declararia meu amor pateticamente. Me segurei. Ethan também podia compartilhar dos pensamentos repulsivos sobre homossexuais e eu não saberia viver com seu desprezo. Preferiria me afastar dele, queria que ele me odiasse para que eu pudesse ter um motivo para esquecê-lo.
Mas não havia um.
E Ethan sempre foi bom demais.
“Albert” Ethan quase sussurrou meu nome, ele pôs gentilmente a mão sobre meu ombro "O bar está quase fechando e você ainda não parou de beber..."
Seu toque, sua voz, sua presença tudo era demais e o álcool potencializava tudo. Era quase insuportável ficar perto dele e não se entregar às migalhas que ele poderia oferecer. Era sufocante não permitir que meus afetos transbordassem.
Assustado e alcoolizado, me afastei do seu toque brutalmente e me levantei do banco. Tudo girava, com a intenção de pôr um espaço aceitável entre nós, acabei cambaleando para trás e tropeçando numa mesa que ainda não havia sido retirada. Fui ao chão junto com a garrafa e os copos, Ethan arfou e se aproximou de mim e eu, agindo feito um bicho acuado, rastejei sobre os vidros para longe dele.
Grunhi de dor com a palma sendo aberta pelos estilhaços, vermelho coloriu os vidros do meu sangue.
"Meu Deus, Albert, o que deu em você hoje?" Ethan se pôs de joelho, colocando meu braço atrás do pescoço dele para me levantar.
Com outro grunhido, retirei meu braço de forma bruta e o empurrei. Ethan se desequilibrou, mas seus reflexos foram rápido o suficiente para aparar uma possível queda com a mão direita sobre os cacos de vidros.
Ao contrário de mim, ele não demonstrou nenhuma dor, encarei espantado o seu ato temendo que tivesse se machucado por minha causa, o que não aconteceu. Mesmo com vidros entrando na sua mão, Ethan não sangrou.
"Estou bem, não se preocupe " Ele disse, talvez percebendo meu olhar sobre sua mão, ele a cobriu com o pano que usava para limpar o balcão. "Precisa de ajuda para ir pra casa? Posso te acompanhar"
"Não quero ficar perto de você. "
O sorriso de Ethan morreu e meu coração pareceu parar de bater.
"O quê?"
"Eu..." Comecei, minha língua pesava na boca, a garganta fechava para as palavras que queriam sair. Ethan estava parado, me olhando confuso e eu não iria conseguir dizer nada olhando nos seus olhos, então tapei os meus com as mãos, não importando de sujar o rosto com sangue. "Eu não quero mais você perto de mim, Ethan. Odeio esse bar, odeio você! "
Houve um segundo de silêncio, até Ethan terminar de quebrar meu coração com uma pergunta:
"Eu fiz alguma coisa de errado, Albert?"
Levantei como um raio e saí correndo do bar, tropeçando em mais duas mesas até a saída, foi só chegar na rua que eu deixei o soluço escapar.
Chorei feito criança.
Cada passo meu parecia aumentar as lágrimas. Com a visão meio turva, conseguia vislumbrar a lua minguante, a rua vazia, o céu sem estrelas e um futuro doloroso sem Ethan. Odiava a mim mesmo por ter sentimentos por ele, odiava o mundo por não aceitá-los. Naquele momento o amor era uma tragédia.
Sofrer bêbado em uma rua vazia te faz uma vítima perfeita para um assalto e não demorou muito para um grupo de cinco vândalos surgir da escuridão de um beco e me cercar. Tinham por volta de 17 a 20 anos, o mais forte foi o primeiro a me abordar.
"Perdido, senhor?" Ainda me lembro das sardas pontilhando seu rosto todo.
"Me deixe em paz" Falei grogue, não passando nenhuma ameaça real.
O rapaz riu debochado e me deu um soco no estômago, depois disso tudo foi muito rápido. Caí pela segunda vez na noite, dessa vez protegendo minha cabeça com os braços, o que não adiantou muito porque ainda conseguiram me acertar. Eles todos me batiam ao mesmo tempo, mãos apalparam meu paletó até achar a carteira, outras retiravam o relógio do pulso.
"Olha só, pegamos um peixe grande " Um deles falou, retirou as notas dentro da carteira e pediu para algum deles me erguer do chão, com os braços para trás, o que foi prontamente atendido. O menino bateu as notas no meu rosto "Você quer isso, hum? Não?" Ele bateu mais forte "Então vou ficar com ele "
Risadas se espalharam por eles e fui atingido por um soco no rosto que rasgou meu supercílio na hora, o que me segurava simplesmente me largou e bati a cabeça na calçada, sentindo sangue escorrer das têmporas.
Respiração fraca, tontura, visão turva…não demoraria muito para perder a consciência. O maior do grupo de vândalos, se preparou para dar o golpe que levaria ao desmaio, fechei os olhos, me preparando para a pancada que nunca veio. Tudo foi muito rápido. Houve um rosnado quase animalesco e então gritos de horror dos ladrões, abri os olhos quando quatro deles caíram ao meu lado inconscientes; o último estava sendo erguido pelo pescoço por um homem que estava de costas para mim. O menino se debateu e o aperto no pescoço aumentou, pensei estar delirando por uma possível contusão na cabeça ao ver o homem lançar o menino na parede com força o suficiente para rachá-la.
Tentei me mover, fugir dali mas tudo doía. Gemi de dor e o homem desconhecido correu até mim, me levantando com facilidade nos braços como se eu não pesasse nada.
“O que fizeram com você, Albert?” Sussurrou com pesar e só então reconheci a voz.
Era Ethan.
Antes que pudesse raciocinar como e porquê ele estava ali, eu desmaiei.
Acordei no meu apartamento e se não fosse pela dor excruciante no corpo todo pensaria que tudo não passava de um sonho. Estava sem minhas roupas, coberto de curativos bem feitos em todos os lugares; me sentei na cama com dificuldade vendo um copo de água e um comprido deixados na cômoda junto a um bilhete.
“Tome assim que acordar.
-Ethan”
A cabeça fervilhou com perguntas , como Ethan apareceu do nada? O que teria acontecido com os vândalos? Tomei o remédio e descansei por mais algum tempo, conforme a dor diminuía, eu lembrava dos detalhes. Quase gritando de dor nas costelas, consegui levantar e ir até a sala onde meus livros de medicina estavam espalhados pela mesa de centro, abertos em páginas aleatórias e procurei algum caso especial de pessoas que não sangravam. Folheando, acabei me deparando com uma imagem da anatomia de um possível Primordial comparada a um ser humano. Não havia diferença alguma. O texto ao lado da imagem dizia que Primordiais são, anatomicamente, iguais aos seres humanos e portanto, era impossível distingui-los a olho nu, era necessário observar seus sangues.
“O sangue humano, como todos sabem, fica acumulado em nosso corpo em todos os lugares. Corte qualquer parte do seu corpo e verá sangue escarlate escorrer das véias” O autor escreveu “Contudo, a pele do Primordial não é facilmente penetrável e em outras palavras, não é possível tirar sangue deles com objetos pontiagudos sequer, é necessário Primordium. Há relatos da Guerra dos Homens, onde todos os soldados precisavam banhar suas armas no Primordium para terem alguma chance de imobilizar os Primordiais já que, aplicando uma dose certa, os ditos ‘poderes’ deles eram drenados e as lâminas atravessava-nos retirando sangue dourado. Uma vez manchada com o sangue de Primordial, a espada era largada pois o sangue dourado demonstrou-se tóxico aos seres humanos(...) “
A cena de Ethan se esbarrando no vidro voltou a assombrar meus pensamentos e olhei para minhas próprias mãos que tinham marcas vermelhas irregulares preenchendo a palma. O vidro me cortou facilmente, mas o mesmo não aconteceu com Ethan.
Folheei o livro mais uma vez e parei numa página do qual o autor reunia relatos das cartas da Guerra dos Homens que citavam características incomuns dos Primordiais e a que mais me chamou atenção foi “força sobre-humana capaz de erguer rochas sem esforço algum”. Mais uma vez lembrei de Ethan jogando o último ladrão contra a parede, o erguendo do chão pelo pescoço com uma só mão.
Fechei os livros e me encostei no sofá, ali acendeu uma dúvida que mudaria totalmente minha vida: seria Ethan um Primordial?
A resposta não demorou a aparecer.
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