TERCEIRO SET

15 Capítulo 14: Deus Não Fez o Amor tão Lindo pra Ser Proibido


○ ╭────╮

╰────●

Maurício acordou antes do despertador. Por alguns segundos, não soube onde estava.

O teto não era o do apartamento. A cortina pesada deixava entrar uma faixa estreita de luz azulada. Do outro lado do quarto, Paulo dormia com um braço pendurado para fora da cama.

Então lembrou.

Hotel.

Jogo.

Matero.

Seu coração pareceu lembrar um segundo depois. Pegou o celular.

05h21.

— Não...

Virou para o outro lado e fechou os olhos. O café da manhã só abriria às seis e meia. O ônibus sairia às oito. A partida começaria às dez. Havia tempo. Esse era justamente o problema.

Tentou dormir novamente, não conseguiu. Aquela podia ser sua primeira partida oficial pelo Matero.

Podia.

Ninguém havia dito que jogaria. Paulo era o titular. Veterano. Experiente. Maurício era o garoto que chegou havia poucas semanas e ainda descobria onde ficavam algumas salas do clube.

Sabia disso, mas seu corpo parecia não saber.

Levantou. Foi ao banheiro e acendeu a luz. A própria cara no espelho não ajudou, jogou água no rosto.

— Beleza.

Apoiou as mãos na pia.

— É só um jogo.

Pensou.

— Seu primeiro jogo profissional.

Pensou mais.

— Num campeonato nacional.

Respirou.

— E você provavelmente nem vai jogar.

Encarou o próprio reflexo.

— Ajudou pra caralho.

Voltou para o quarto.

Às seis, já tinha tomado banho, reorganizado a mochila duas vezes e conferido três se as joelheiras continuavam exatamente onde as deixara. Pegou o celular.

Pensou em Lucas, devia estar dormindo. Na mãe, cedo demais. Então parou em Felipe. A conversa da noite anterior ainda estava aberta.

chegou no quarto?

sim

boa noite :)

boa noite, maumau

Maurício sorriu. A piscina voltou inteira, a lua tremendo sobre a água. A mão de Felipe em seu rosto.

"Acho que me acostumei com um beijo de boa-noite."

Por alguns segundos, o jogo desapareceu.

Digitou:

tá acordado?

Ficou olhando. Apagou. Não precisava acordá-lo só porque estava surtando às seis da manhã. Jogou o celular sobre a cama, foi escovar os dentes. Começou pelos de cima, depois os de baixo, depois os da frente. Parou.

Devagar, ergueu os olhos para o espelho.

— Ah, não.

Felipe fazia exatamente naquela ordem.

Maurício tirou a escova da boca.

— Nem fudendo.

Riu sozinho. Em algum momento entre cafés de posto, viagens de ônibus e beijos escondidos à beira de uma piscina, começou a colecionar pequenas partes dele.

Uma mania aqui.

Uma frase ali.

Um jeito de sorrir.

Talvez fosse isso que acontecesse quando alguém começava a ocupar espaço demais dentro da gente. Até escovar os dentes ganhava outro significado.

— Eu tô ficando doente.

Terminou rápido.

Às 06h23, desistiu de esperar. Vestiu o agasalho do Matero e saiu. O corredor estava vazio, entrou no elevador e apertou o térreo. Quando as portas começaram a fechar, encontrou o próprio reflexo. Dessa vez não viu apenas o garoto que tinha acordado cedo demais. Viu o escudo sobre o peito. Ficou olhando para ele durante a descida.

Talvez jogasse.

Talvez assistisse à partida inteira do banco.

Talvez sua estreia ainda demorasse dias.

Não importava. Bom... importava pra caralho.

Maurício sorriu. Mas estava ali. A centenas de quilômetros de casa, vestido com as cores do clube que aprendera a amar muito antes de o clube saber seu nome.

O coração ainda batia rápido, só que agora Maurício não tentou acalmá-lo. Deixou. Alguns dias mereciam começar assim.

Antes do sol.

Antes do café.

Antes mesmo que alguma coisa acontecesse, com o coração correndo na frente.

Quando Maurício chegou ao restaurante, Lucas já estava diante do buffet.

— Como você chegou antes de mim?

Lucas virou com um prato perigosamente cheio nas mãos.

— Eu tenho pernas maiores.

— Você tá comendo por quantas pessoas?

— Por mim e pelo Lucas que vai ficar nervoso daqui a pouco.

Maurício pegou um prato.

— Estratégico.

— Exatamente.

Tentou acompanhá-lo. Pão, fruta e café. Olhou para os ovos e desistiu. Seu estômago parecia ter recebido a notícia do jogo antes do restante do corpo. Sentaram perto da janela.

Lucas começou a comer.

Maurício começou a desmontar o pão em pedaços cada vez menores.

— Tá nervoso?

— Não. — mentiu.

— Beleza.

— Você?

— Muito.

Maurício levantou os olhos.

— Sério?

— Pra caralho.

Lucas tomou um gole de suco.

— Sonhei que o Murilo me colocava no jogo e eu entrava em quadra engatinhando.

Maurício riu.

— Pelo menos você entrava.

— Pensamento positivo. Gostei.

Era estranho como admitir o medo diminuía um pouco seu tamanho. Fernando apareceu logo depois, ainda bocejando.

— Bom dia, crianças.

Puxou uma cadeira.

Lucas olhou para ele.

— Você ainda fica nervoso antes de jogo?

— Claro.

Maurício esperou algum conselho de veterano.

Fernando pegou uma fatia de pão.

— Só aprendi a escolher minhas batalhas.

— Inspirador.

— Obrigado.

Gabriel foi o próximo. Chegou com um café nas mãos, cumprimentou os três e puxou outra cadeira, sem perguntar se podia, sem procurar outra mesa. Simplesmente sentou.

— Dormiram?

Fernando respondeu imediatamente:

— Perfeitamente.

Lucas quase engasgou.

— Você ficou jogando comigo até uma da manhã.

Gabriel parou com a xícara no meio do caminho.

— Vocês fizeram o quê?

Fernando olhou para Lucas, decepcionado.

— Muito bom. Entregou nós dois.

— Foi mal.

— Vocês sabem que tem um jogo hoje?

— Sabemos.

— E ficaram jogando videogame?

Lucas apontou para Fernando.

— Ele ganhou a última.

Fernando sorriu.

— Isso que importa.

Gabriel balançou a cabeça.

— Dois imbecis.

— Dois imbecis descansados — corrigiu Fernando.

Maurício ria quando viu Felipe entrar. E foi inevitável, seu coração fez aquela coisa estúpida outra vez, como se não tivesse passado dez horas ao lado dele no dia anterior. Como se não o tivesse beijado poucas horas antes, como se vê-lo ainda fosse uma surpresa.

Felipe serviu o prato, conversou rapidamente com um membro da comissão e olhou pelo salão. Encontrou a mesa.

Veio. Não perguntou onde sentaria.

Gabriel apenas puxou uma cadeira com o pé.

— Bom dia.

— Bom dia, capitão.

Felipe sentou. Só então Maurício percebeu, olhou ao redor.

Lucas.

Fernando.

Gabriel.

Felipe.

Ele.

Nos últimos dias, aquilo vinha acontecendo tantas vezes que ninguém mais parecia notar. Não havia convite, nem lugares marcados. Eles simplesmente chegavam e se encontravam.

Como se aquela mesa já existisse antes mesmo de escolherem uma.

Maurício gostou da ideia.

— Dormiu bem?

Felipe perguntou.

— Muito.

Lucas soltou uma risada.

Maurício fechou os olhos.

— Não.

Felipe olhou entre os dois.

— O quê?

— Ele acordou cinco e vinte.

— Lucas.

— Cinco e vinte?

Felipe tentou segurar o sorriso.

— O café nem tava aberto.

— Obrigado, eu descobri.

Fernando riu.

— Ele deve ter ficado sentado na porta esperando.

Maurício apontou para ele.

— Você tá muito falante pra alguém que ficou jogando videogame até uma da manhã.

Gabriel concordou:

— Finalmente alguém sensato.

Felipe ainda sorria quando olhou para o prato de Maurício.

O sorriso diminuiu.

— Você não comeu nada.

— Comi.

Felipe apontou para o pão destruído em pequenos pedaços.

— Você assassinou um pão.

Lucas começou a rir.

— Eu falei.

— Não tô com fome.

— Come mesmo assim.

Maurício arqueou uma sobrancelha.

— Você tá mandando em mim?

— Hoje? — Felipe tomou um gole de café. — Tô.

Fernando levantou os olhos do prato, depois olhou para Lucas. Lucas já olhava para ele. Nenhum dos dois disse nada. Maurício pegou um pedaço de pão e colocou na boca, encarando Felipe. Mastigou.

— Feliz?

— Muito.

O sorriso de Felipe veio fácil. Maurício sentiu o seu responder antes mesmo que pudesse evitar.

Gabriel começou a contar sobre a própria estreia profissional, uma história envolvendo nervosismo, banheiro e quase perder o aquecimento, e a mesa explodiu em risadas.

Por alguns minutos, o jogo deixou de existir. Maurício percebeu isso somente quando já estava terminando o café. A ansiedade ainda estava lá. Mas agora precisava dividir espaço com Lucas roubando comida do prato de Fernando, Gabriel tentando defender uma história indefensável e Felipe rindo ao seu lado.

Talvez fosse assim que uma família começasse.

Não com alguém dizendo que eram uma. Mas com cinco pessoas que, diante de um salão cheio de mesas vazias, começavam a escolher sempre a mesma.

O vestiário estava quase vazio quando Maurício entrou. Mas as camisas já estavam lá. Uma em cada lugar, perfeitamente dobrada sobre o banco, acompanhada pelo short e pelas meias. Acima delas, os nomes dos jogadores.

Maurício diminuiu o passo.

Lucas, logo atrás, quase bateu nele.

— Ô, Maumau.

Ele não respondeu. Já tinha encontrado a sua.

13.

Aproximou-se devagar. Durante anos, aquele uniforme existia do outro lado de alguma coisa. Da televisão, da arquibancada, de uma tela de celular, do sonho. Agora estava ao alcance de suas mãos.

Maurício tocou o tecido. O escudo do Matero no peito. Os patrocinadores. O número. Tudo igual às camisas que tantas vezes vira Felipe usar. Exceto por uma diferença pequena e absurda: aquela era dele.

— Caralho.

Maurício olhou para trás. Lucas também tinha parado diante da própria camisa. Segurava o uniforme aberto, observando o próprio nome nas costas.

— É — Maurício respondeu.

Lucas riu, mas os olhos já estavam brilhando.

— Acho que só caiu a ficha agora.

Maurício pegou a camisa e a abriu diante do corpo.

— Pra mim também.

Por alguns segundos, nenhum dos dois fez piada. Lucas olhou novamente para o próprio uniforme.

— A gente conseguiu, irmão.

Maurício gostou da frase. Olhou para o treze e sorriu.

— A gente começou.

Lucas ergueu os olhos. Então sorriu também.

— A gente começou.

O abraço veio rápido. Forte. Quando se afastaram, Lucas passou a mão pelo rosto.

Maurício estreitou os olhos.

— Você tá chorando?

— Vai tomar no cu.

— Tá chorando.

— Caiu alguma coisa no meu olho.

Maurício olhou para o vestiário impecavelmente limpo.

— Claro.

— Eu estrago esse momento agora.

Maurício riu.

— Tá bom.

Pegou o celular e fotografou a camisa. Mandou para a mãe sem escrever nada. A resposta chegou quase imediatamente.

Meu filho!!! ❤️ Que orgulho. Vai com tudo hoje. A gente tá assistindo!

Outra notificação apareceu em seguida.

Adriana.

Mãe já tá chorando.

E logo abaixo:

E PELO AMOR DE DEUS NÃO CAI NA TELEVISÃO

Maurício riu sozinho.

te amo também ❤️

A resposta veio:

frouxo

— Família?

Felipe havia acabado de entrar com Gabriel e olhava para o celular em sua mão.

— Minha irmã.

— Então provavelmente tava te xingando.

— Como você sabe?

— Soube que é o que irmãos fazem.

Felipe olhou para a camisa que Maurício ainda segurava.

Depois para o número.

— Ficou bonito.

Maurício ergueu o uniforme.

— O quê?

— Seu número.

Era uma frase boba.

Ainda assim, alguma coisa dentro dele aqueceu.

— Gostei do nove também.

Felipe sorriu.

— Puxa-saco.

— Tô tentando garantir vaga no time.

— Pessoa errada. Tem que puxar o saco do Murilo.

— Aí prefiro o banco.

Felipe riu e seguiu para o próprio lugar.

Maurício ficou olhando por um instante para as duas camisas.

13.

Alguns lugares adiante:

09.

Gostou daquela imagem.

Talvez porque estivesse apaixonado e pessoas apaixonadas encontrassem significado até em números pendurados num vestiário.

Vestiu a camisa. Ajeitou-a no corpo, olhou para baixo. O escudo estava sobre seu peito. Dessa vez não havia vidro, tela ou arquibancada entre eles. Maurício passou o polegar sobre ele.

Respirou fundo.

A porta se abriu novamente. Murilo entrou acompanhado pela comissão técnica, prancheta debaixo do braço. As conversas diminuíram, Maurício sentou. Olhou para o treinador, depois para a camisa que agora vestia. Tê-la conquistado era uma coisa, descobrir se pisaria em quadra com ela... era outra.

Murilo não precisou pedir silêncio.

Entrou no vestiário e encontrou todos os olhos antes mesmo de abrir a boca. Maurício estava sentado diante do armário, com as mãos unidas entre os joelhos. O coração batia tão forte que parecia absurdo ninguém conseguir ouvi-lo.

— Formação inicial.

Pronto.

Murilo começou pelos ponteiros.

Depois centrais.

Oposto.

Levantador.

Cada nome retirava uma possibilidade até restar apenas aquela que Maurício já conhecia.

— Líbero, Paulo.

A expectativa morreu rápido. Ainda assim, doeu. Paulo assentiu com a tranquilidade de quem jamais consideraria outro resultado. Maurício abaixou os olhos, era o esperado.

Paulo era titular havia anos. Ele estava no elenco principal há poucas semanas. Sabia disso às cinco da manhã, sabia no café, sabia quando vestia a camisa. Mas saber nunca impediu ninguém de desejar.

Olhou para Lucas.

O amigo também não tinha sido chamado. Lucas fez uma careta. Maurício respondeu com outra, pelo menos dividiam o banco.

— Quem não começa continua no jogo — Murilo prosseguiu. — Quero todo mundo aquecido e prestando atenção. A oportunidade pode vir no primeiro ponto ou pode não vir hoje. Quando vier, eu não quero ninguém precisando acordar.

Os jogadores começaram a se levantar.

Maurício abaixou-se para ajustar o tênis.

— Bonita a camisa.

Reconheceu a voz. Paulo estava diante dele.

— Valeu.

O veterano observou o treze por um instante.

— Não foi dessa vez que roubou meu lugar.

Maurício ergueu os olhos. Não havia exatamente hostilidade no sorriso dele, mas também não havia brincadeira suficiente.

— Nem tentei.

Paulo sustentou o olhar.

— Ainda.

Dois tapinhas no ombro.

— Boa estreia.

E saiu. Maurício permaneceu imóvel por um instante.

Lucas aproximou-se.

— Não compra.

— Não comprei.

— Comprou um pouquinho.

Maurício bufou.

— Qual é a dele comigo?

Lucas acompanhou Paulo com os olhos.

— Talvez esteja com medo.

— De mim?

— Você é mais bonito.

Maurício olhou para ele.

— Vai se foder.

— Viu? Já tá melhor.

Maurício riu.

Precisava daquilo.

O corredor até a quadra devolveu o nervosismo inteiro. O ginásio da tarde anterior tinha desaparecido. Agora havia música, bandeiras, tambores, vozes batendo no teto e voltando maiores.

Maurício entrou.

Pela primeira vez, pisava numa quadra de competição usando o uniforme do Matero. Mesmo que fosse apenas para caminhar até o banco. Sentou-se ao lado de Lucas.

— Estranho — o amigo comentou.

— Muito.

Os titulares foram chamados. A cada nome, o ginásio reagia.

Maurício bateu palmas junto com os outros.

Quando Felipe caminhou para o centro da quadra, alguma coisa naquela imagem o atingiu diferente. Durante anos, ele assistia àquilo de longe. Felipe sob as luzes de um ginásio, camisa nove, postura ereta, capitão do Matero.

O homem que parecia pertencer àquele lugar desde sempre. Agora Maurício conseguia ver detalhes que a televisão nunca mostrara.

Felipe esfregando discretamente as mãos antes do primeiro saque, a respiração funda. O pequeno movimento dos ombros. Ele também sentia.

Talvez coragem não fosse a ausência de nervosismo.

Talvez fosse aprender a entrar em quadra levando-o junto.

Felipe virou o rosto, encontrou Maurício no banco. Não sorriu. Apenas ergueu o punho na altura do peito, Maurício fez o mesmo. Então o árbitro apitou, a bola subiu. O primeiro jogo oficial de Maurício pelo Matero começou.

Sem Maurício.

Ele se inclinou para a frente, os cotovelos sobre os joelhos e decidiu assistir a cada bola. Se a oportunidade viesse, estaria acordado.

O Matero perdeu o primeiro set por 25 a 21. Não tinha sido um desastre. Talvez isso irritasse Murilo ainda mais.

O time atacava bem, Gabriel distribuía o jogo com segurança, Felipe pontuava. Mas a defesa parecia sempre chegar um segundo atrasada.

No banco, Maurício acompanhava cada bola. Paulo também sabia que não estava bem. Era possível perceber pelo jeito como batia nas próprias pernas depois de cada erro. No último ponto, uma bola defensável caiu a poucos centímetros dele.

Apito.

Fim do set. Paulo chutou o ar.

Murilo não disse nada enquanto os jogadores voltavam. Esperou todos se aproximarem.

— Eles já entenderam onde machucar a gente.

Olhou para a equipe.

— Então ou a gente resolve ou eles vão passar o jogo inteiro fazendo a mesma coisa.

Maurício sentiu Lucas tocar seu joelho.

— Ele vai mexer.

— Para.

— Tô falando.

— Lucas.

Murilo virou.

— Maurício.

Seu estômago caiu.

— Aquece.

Por um segundo, ele apenas ficou sentado. Lucas bateu em suas costas.

— Vai, porra.

Maurício levantou.

Quando Murilo fez a substituição, Paulo saiu sem olhar para ele. Maurício entrou, foi só depois de cruzar a linha lateral que percebeu: estava em quadra.

Não assistindo.

Não treinando.

Não disputando uma vaga.

Jogando pelo Matero.

O ginásio pareceu crescer ao redor. A torcida, as luzes, o placar. Tudo grande demais.

Felipe passou por ele.

— Respira.

— Tô respirando.

— Não parece.

— Vai se foder.

Felipe sorriu.

— Agora parece você.

O árbitro apitou.

Não havia mais tempo para ter medo.

A primeira bola veio nele. Claro que veio, Maurício recebeu. Não perfeitamente, mas o suficiente. Gabriel corrigiu. A jogada continuou. Ponto do Matero.

Maurício soltou o ar que nem sabia que segurava. A segunda veio mais forte. Dessa vez, o corpo respondeu antes da cabeça, passe na mão. Gabriel levantou. Felipe matou.

Ponto.

Quando voltou, Felipe bateu na mão dele.

— Boa.

Só isso. E foi suficiente. Aos poucos, o barulho deixou de parecer tão alto, a camisa deixou de parecer pesada. A quadra voltou a ter o tamanho que sempre teve. Era vôlei. Maurício sabia fazer aquilo.

O Matero venceu o segundo set, depois o terceiro. No quarto, o adversário já não encontrava os mesmos espaços. Em uma das últimas bolas, Maurício se jogou numa defesa quase perdida. A bola subiu torta, Gabriel correu para salvá-la e Fernando devolveu para o outro lado.

A jogada continuou.

Quando o ponto finalmente terminou a favor do Matero, Maurício ainda estava levantando do chão. Felipe passou por ele e estendeu a mão.

— Vambora, treze.

Maurício segurou.

Foi puxado de volta para os próprios pés. O sorriso veio antes que pudesse impedir.

25 a 19.

O último ataque morreu no chão adversário.

3 sets a 1.

O Matero tinha vencido. Maurício ficou parado por um segundo. Só um. Então Lucas veio do banco e praticamente pulou sobre ele.

— CARALHO, MAUMAU!

Maurício começou a rir. Fernando apareceu logo depois. Gabriel. Braços. Gritos. Mãos batendo em sua cabeça. No meio da confusão, encontrou Felipe.

O capitão não disse nada especial. Não precisava. Apenas bateu duas vezes em seu peito, bem sobre o escudo.

— Bom jogo.

Maurício sorriu.

— Eu sei.

Felipe arqueou uma sobrancelha. Maurício quase riu da própria resposta. Talvez algumas semanas antes tivesse guardado aquelas duas palavras como um troféu. Naquele dia, não precisava.

Ele sabia. Tinha entrado porque o time precisava, tinha feito seu trabalho. E, pela primeira vez, não precisava que ninguém lhe dissesse que merecia estar ali.

Mesmo assim, enquanto Felipe se afastava para cumprimentar os adversários, Maurício percebeu que continuava sorrindo.

Saber sozinho era bom. Ouvir dele ainda era melhor.

A vitória deixou o caminho de volta ao hotel mais barulhento. Fernando discutia sobre algum lance com Gabriel. Lucas repetia pela terceira vez uma defesa de Maurício, aumentando a dificuldade dela a cada versão.

— Da próxima vez que você contar, eu vou ter pulado na arquibancada pra buscar a bola.

— Mas foi quase isso.

— Eu só caí no chão.

— Humildade também é importante.

Maurício riu. Estava cansado. O corpo começava a cobrar cada mergulho, cada queda, cada músculo tensionado desde que acordou.

Ainda assim, sentia-se leve.

Na entrada do hotel, percebeu que tinha deixado o carregador no ônibus.

— Sobe aí — disse a Lucas. — Já vou.

Voltou sozinho. Encontrou o carregador entre os bancos e desceu. Paulo estava encostado na lateral do ônibus. Maurício diminuiu o passo.

— Esqueceu alguma coisa?

— Carregador.

Ergueu o fio.

— Ah.

Paulo assentiu. Por um instante, Maurício achou que passaria direto.

— Jogou bem hoje.

Parou. Aquilo ele não esperava.

— Valeu.

Paulo desencostou do ônibus.

— Entrou bem. Deu estabilidade.

Maurício tentou entender se havia alguma ironia. Não encontrou.

— Obrigado.

— Mas fica de olho.

Ali estava. Maurício apertou o carregador entre os dedos.

— Com o quê?

Paulo deu um passo mais perto. A voz continuava tranquila, era justamente isso que tornava difícil saber como recebê-la.

— Com essa pressa.

— Que pressa?

— De ser visto.

Maurício franziu a testa.

— Eu não tô entendendo.

Paulo soltou uma risada curta.

— Tá sim. Você não é idiota.

O estacionamento estava quase vazio. Ao longe, alguns jogadores já desapareciam pela entrada do hotel.

— Na pressa de chegar, é importante não tentar ocupar o lugar de alguém.

Maurício sustentou o olhar.

— Isso quem tem que dizer é o Murilo, só cumpro ordens.

— Eu sei.

— Então qual é o problema?

Paulo sorriu. Não parecia exatamente bravo, tampouco parecia estar brincando.

— Nenhum.

Deu dois tapinhas no ombro de Maurício. O mesmo gesto que usara mais cedo no vestiário.

— Só tô te dando um conselho.

Passou por ele. Maurício virou.

— Paulo.

O veterano parou.

— Eu não tô tentando roubar lugar de ninguém.

Paulo olhou por cima do ombro.

— Ótimo. — Uma pausa. — Então a gente não vai ter problema.

Seguiu em direção ao hotel. Maurício permaneceu sozinho no estacionamento. O sol da tarde ainda era forte, mas alguma coisa naquela conversa tinha esfriado o dia. Olhou para o carregador em sua mão, depois para Paulo desaparecendo pelas portas de vidro. Não sabia se tinha acabado de receber um conselho ou uma ameaça.

Talvez Paulo também não soubesse.

E, naquele momento, Maurício decidiu que não gastaria sua primeira vitória tentando descobrir. Guardou o carregador no bolso e voltou para o hotel. Naquela noite, ele queria comemorar.

Às nove da noite, o quarto de Lucas e Fernando já parecia ter sido atingido por alguma espécie de desastre. Embalagens de comida sobre a escrivaninha, dois pares de tênis abandonados perto da porta. Quatro copos. Um pacote de salgadinho aberto na cama. E Lucas sentado no chão, controle nas mãos, gritando com uma televisão que definitivamente não tinha culpa de nada.

— NÃO FOI FALTA!

— Foi muito falta — Gabriel respondeu.

— Você nem sabe jogar isso.

— Sei reconhecer violência.

Fernando comemorou no outro controle.

— Finalmente alguém lúcido.

— Você roubou!

— Eu fiz um gol.

— Roubado.

Maurício assistia da cama, rindo.

— Vocês tão nisso há quanto tempo?

— Quarenta minutos — Gabriel respondeu.

Fernando corrigiu:

— Três partidas.

— Quatro — disse Lucas.

— A primeira não contou.

— Por quê?

— Eu tava conhecendo o controle.

Lucas olhou para Maurício.

— Ele trouxe o próprio videogame e meteu essa.

O celular de Maurício vibrou.

Pegou sem muita atenção.

Felipe.

tá onde?

Seu sorriso veio rápido demais.

no quarto dos meninos

Olhou para Lucas e Fernando discutindo novamente.

não tá dando pra ouvir eles gritando a cada partida?

A resposta chegou.

não kkk

Depois outra.

queria te ver

Maurício ficou olhando para aquelas três palavras. Não eram bonitas, não tinham nada de especial. Mas Felipe era tão ruim por mensagem que aquilo quase parecia uma declaração.

— Ih.

Maurício levantou os olhos.

Fernando o encarava.

— Que foi?

— Nada.

Lucas pausou o jogo.

— Não. Volta nessa cara.

— Que cara?

— Essa aí.

Gabriel olhou de um para o outro.

— Que cara?

— Deixa — Fernando respondeu.

Maurício ignorou todos.

Digitou:

vem aqui

A resposta apareceu quase imediatamente.

Maurício bloqueou o celular.

Lucas e Fernando continuavam olhando.

— Vocês são insuportáveis.

— A gente nem falou nada — Lucas respondeu.

— Esse é o problema.

Felipe apareceu poucos minutos depois. Fernando abriu a porta. Olhou para ele, depois para Maurício, depois novamente para Felipe.

— Boa noite, capitão.

— Boa noite?

Felipe entrou desconfiado. Lucas também o observava. Silêncio.

Gabriel franziu a testa.

— Que foi?

— Nada — Lucas e Fernando responderam juntos.

Felipe acabou rindo.

— Vocês são muito esquisitos.

— Senta aí — disse Maurício.

Felipe sentou ao lado dele na cama. A partida recomeçou.

E, pouco a pouco, o constrangimento desapareceu. Fernando ganhou, Lucas exigiu revanche. Gabriel pegou o controle e descobriu ser surpreendentemente bom.

Maurício ria encostado na cabeceira enquanto Felipe comentava as jogadas como se entendesse alguma coisa.

— Você nem sabe qual botão chuta.

— Sei sim.

— Qual?

Felipe apontou aleatoriamente.

— Esse.

Maurício começou a rir.

— Esse troca jogador.

— Foi o que eu quis dizer.

— Mentiroso.

Em algum momento, o joelho de Felipe encostou no dele.

Nenhum afastou.

Depois Maurício se inclinou para pegar o refrigerante e apoiou a mão na perna de Felipe sem perceber. Continuaram conversando. Felipe roubou salgadinho do pacote que estava no colo dele. Maurício reclamou e tomou de volta. Nada parecia importante. Talvez por isso fosse.

Não estavam sozinhos sob a lua, não havia corredor vazio ou piscina escondida. Havia amigos. Barulho. Controles sendo disputados.

E, no meio daquilo, os dois começavam a esquecer que precisavam pensar antes de chegar perto um do outro.

Quando Felipe olhou o horário, já passava das onze.

— Preciso voltar. Amanhã a gente sai cedo.

Fernando continuou olhando para a televisão.

— Boa noite.

— Boa.

Felipe levantou.

— Lucas.

— Boa, capitão.

— Gabriel.

— Até amanhã.

Maurício também levantou.

Felipe parou diante dele.

— Boa noite.

— Boa noite.

Então aconteceu. Sem pensar. Sem olhar ao redor.

Felipe inclinou o rosto e deu um selinho em Maurício.

Rápido.

Simples.

Maurício correspondeu com a mesma naturalidade.

Felipe abriu a porta.

— Até amanhã.

— Até.

A porta fechou. Silêncio.

Maurício continuou olhando para ela.

Um segundo. Dois. Então percebeu.

Virou devagar. Fernando tinha parado o jogo, Lucas segurava o controle no ar. Os dois exibiam exatamente a mesma expressão. Maurício sentiu o rosto queimar. Gabriel continuava olhando para a porta.

Piscou.

Olhou para Maurício, depois para a porta novamente.

— Tá.

Ninguém respondeu.

Gabriel apontou para onde Felipe acabou de sair.

— Alguém vai me explicar o que tá acontecendo?

Fernando mordeu o lábio. Lucas cobriu o rosto. Maurício fechou os olhos.

— Gabriel...

A compreensão chegou ao rosto dele.

— Pera.

Maurício já sabia.

— Não.

Gabriel arregalou os olhos.

— Você tá pegando o Felipe?

Fernando desabou na gargalhada.

— Fala baixo, caralho!

— O FELIPE?

— GABRIEL!

— O CAPITÃO?

— EU SEI QUEM ELE É!

Lucas já ria tanto que não conseguia falar.

Gabriel apontou para Maurício, completamente indignado.

— E vocês sabiam?!

Fernando levantou a mão.

— A gente meio que descobriu faz um tempo.

Gabriel olhou para os dois.

Depois para Maurício.

— E ninguém me contou?

Maurício jogou uma almofada nele.

— PORQUE NÃO TEM NADA PRA CONTAR!

Gabriel segurou a almofada.

Olhou para a porta.

Depois novamente para Maurício.

— Ele acabou de te dar um beijo na minha frente. A Laura não vai acreditar quando souber disso.

Uma pausa.

— Talvez tenha um pouquinho pra contar.

Maurício tentou responder. Não conseguiu porque começou a rir. E, alguns segundos depois, os quatro estavam rindo juntos.

Sua primeira partida pelo Matero tinha terminado com uma vitória. Tinha entrado em quadra. Tinha jogado bem. Tinha sido ameaçado, ou aconselhado, por Paulo. E agora Gabriel havia descoberto que ele beijava o capitão do time.

Maurício caiu de costas na cama.

Talvez sua vida estivesse ficando complicada.

Mas, naquela noite, “complicada” parecia uma palavra bonita.

◉◉◉◉

Felipe só percebeu o que tinha feito quando a porta do quarto fechou atrás dele. Ficou parado. A mão ainda sobre a maçaneta.

Henrique dormia na outra cama, completamente alheio à pequena catástrofe que acabara de acontecer alguns metros corredor abaixo.

Felipe piscou uma vez, duas.

Tinha beijado Maurício na frente de todo mundo. Não exatamente todo mundo.

Fernando.

Lucas.

Gabriel.

Ainda assim. Contando nos dedos já parecia gente demais.

— Caralho.

Falou baixo. Sentou na beirada da cama, tentou reconstruir os últimos segundos.

Boa noite para Fernando.

Boa noite para Lucas.

Boa noite para Gabriel.

Maurício levantando.

Aquele sorriso. E então... um beijo.

Não tinha pensado. Esse era o problema. Ou talvez fosse justamente o contrário. Felipe levou as mãos ao rosto, um sorriso escapou entre os dedos. Não conseguia evitar.

Pela primeira vez em muito tempo, tinha feito alguma coisa sem antes imaginar todas as consequências possíveis.

Não tinha calculado, nem pesado riscos. Não tinha pensado no clube, Murilo, pai, sobrenome. Em nada.

Só quis beijá-lo e então o beijou. Simples.

Felipe deixou escapar uma risada quase silenciosa. Lorena ficaria insuportável se soubesse.

Te falta raiva.

Talvez não fosse raiva. Talvez lhe faltasse aquilo. Fazer alguma coisa porque queria. Não parecia assim tão difícil, afinal.

Deitou de costas na cama. O teto do quarto parecia menos interessante que o sorriso que ainda insistia em seu rosto. Maurício tinha jogado bem. Muito bem.

Felipe se lembrava da primeira bola, da insegurança desaparecendo aos poucos, da maneira como ele tinha se levantado depois daquela defesa no quarto set. Lembrava também da resposta depois do jogo.

"Bom jogo."

"Eu sei."

Sorriu novamente. Gostava daquela versão dele, talvez estivesse se dando conta que gostava de todas.

Virou para o lado. E então o sorriso diminuiu.

Fernando sabia.

Lucas sabia.

Agora Gabriel sabia.

Lorena sabia.

Laura provavelmente saberia.

Quantas pessoas mais precisariam perceber antes que aquilo deixasse de ser um segredo?

Felipe pegou o celular. Nenhuma mensagem. Ainda assim, as palavras de Murilo voltaram com uma precisão incômoda.

As regras, o clube. O que aconteceria se alguém entendesse errado. Ou, pior... entendesse certo.

Sentou-se novamente. Por alguns segundos, o velho Felipe voltou. O que calculava. O que antecipava. O que construía dez finais possíveis para uma história que mal tinha começado.

Talvez precisasse conversar com Maurício.

Precisavam tomar cuidado, estabelecer limites e parar de agirem como se estivessem sozinhos quando claramente não estavam.

Felipe abriu a conversa.

O nome de Maurício apareceu na tela. Começou a escrever.

Acho que a gente precisa conversar sobre...

Parou. Apagou.

A última mensagem de Maurício continuava ali.

vem aqui

Duas palavras e ele tinha ido porque Maurício queria vê-lo. Porque eles queriam. Porque, por alguns minutos, aquilo tinha sido suficiente.

Felipe bloqueou o celular e deitou novamente. A preocupação continuava ali, não desapareceria. Amanhã ele pensaria nela. Amanhã voltaria a ser capitão e voltaria ao Matero. Voltaria às regras e aos cuidados e a tudo aquilo que sempre soubera fazer tão bem.

Mas naquela noite permitiu que o sorriso voltasse. Tinha beijado Maurício na frente dos amigos.

Por acidente.

Por impulso.

Por felicidade.

E talvez fosse perigoso.

Felipe sabia. Só ainda não conseguia se arrepender e nisso mora o verdadeiro perigo.

🏐

Fim do capítulo.

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Nos vemos na próxima partida.

— Henrique Bravi