TERCEIRO SET

16 Capítulo 15: Pra Ser Sincero


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Felipe passou a viagem inteira pensando em como dizer que precisavam conversar. No fim, descobriu que não existia um jeito de dizer aquilo sem parecer que alguma coisa estava prestes a acabar. O ônibus estacionou no Matero no fim da tarde.

Antes mesmo que as portas se abrissem, Fernando já estava de pé no corredor, tentando alcançar a mochila no bagageiro superior.

— Se isso cair na minha cabeça, você vai jogar de levantador no próximo jogo — Gabriel reclamou.

— Confia em mim.

— É exatamente por isso que eu tô preocupado.

Felipe sorriu, mas continuou sentado. Esperou quase todos descerem. Tinha feito aquilo durante as últimas dez horas. Esperado. Calculado. Medido.

Na ida, sentou ao lado de Maurício sem pensar muito no que significava. Tinham dividido comida, música, sono, espaço. Em algum momento, acordou praticamente encaixado no garoto e achou aquilo tão natural que demorou a perceber.

Na volta, escolheu uma poltrona nas primeiras fileiras. Sozinho. Não porque tivesse se arrependido, era justamente esse o problema. Na noite anterior, beijou Maurício na frente de três pessoas e só percebeu depois.

Felipe Sponatti não fazia coisas sem perceber. Não fazia quase nada sem pensar antes. E agora fazia.

Desceu. O estacionamento do Matero parecia exatamente como tinham deixado. Quase. Felipe caminhou até o bagageiro e puxou a própria mala.

— Como foi a viagem?

Reconheceu a voz antes de olhar.

Maurício estava ao lado dele, mochila em um dos ombros.

— Cansativa.

Felipe colocou a mala no chão.

— E você, conseguiu dormir?

— Mais ou menos.

Felipe olhou para ele. Por um instante, esqueceu todas as resoluções que tinha tomado durante a estrada.

— Eu não muito.

Maurício arqueou uma sobrancelha.

— Não?

Felipe aproximou-se apenas o suficiente.

— Faltou alguém pra me esquentar.

Maurício tentou segurar o sorriso. Falhou.

— Idiota.

— Já ouvi isso antes.

— Algumas vezes.

Os dois riram baixo. Quase escondidos pelo barulho das malas sendo retiradas e Felipe sentiu aquela mesma facilidade perigosa voltar. Era muito simples quando Maurício sorria. Esse era o problema.

Felipe respirou fundo.

— Mau...

— Hm?

— Acho que a gente precisa conversar.

O sorriso de Maurício desapareceu.

Felipe percebeu imediatamente.

— Não é—

— Caralho!

A voz de Fernando interrompeu. Todos olharam. Ele estava alguns metros adiante, encarando o CT do futebol.

— Não é possível.

Gabriel parou ao lado dele. Felipe acompanhou o olhar. O gramado novo estava praticamente pronto.

Na saída para a viagem, ainda havia máquinas, terra exposta, placas arrancadas. Agora uma extensão quase perfeita de verde ocupava o campo, com funcionários terminando os últimos detalhes.

Fernando soltou uma risada sem humor.

— A gente ficou fora dois dias.

Gabriel cruzou os braços.

— Pra fazer isso nessa velocidade...

Não terminou. Não precisava. Dinheiro, muito dinheiro.

Paulo apareceu carregando a mala.

— Pelo menos alguém nesse clube tá podendo gastar.

Dessa vez ninguém riu. Felipe olhou para o campo, depois para o ônibus atrás deles. Dez horas de estrada para economizar uma passagem aérea. À frente, um gramado novo instalado em tempo recorde. A conta era simples demais.

— Atenção aqui! — chamou um membro da comissão.

Os jogadores se aproximaram.

— Estão dispensados. Amanhã é folga, reapresentação quarta no horário normal. Recuperação pra quem jogou mais minutos. Não inventem de aparecer aqui quebrados.

Algumas comemorações. Fernando imediatamente virou para Lucas.

— Lá em casa hoje?

— Pra quê?

— Terminar aquela partida.

Lucas nem pensou.

— Fechou.

Felipe viu Maurício olhar para os dois. Não disse nada. Felipe quase perguntou, preferiu guardar. Cada um parecia estar começando a ter seus próprios segredos.

— Levo vocês.

Felipe fez a oferta quando chegaram ao estacionamento.

Lucas aceitou antes de Maurício.

— Por favor. Eu me recuso a andar mais 5 metros, que seja, hoje.

Maurício riu.

— Dramático.

— Você fala isso porque não ficou dez horas ouvindo o Fernando roncar.

— Eu não ronco! — Fernando gritou de algum lugar atrás deles.

Lucas virou.

— Ninguém tava falando com você!

Felipe abriu o carro. Maurício sentou na frente sem perguntar. Aquilo fez Felipe sorrir por meio segundo. Depois lembrou da conversa.

Ligou o carro. No caminho, Lucas falou o suficiente pelos três.

Sobre o jogo.

Sobre a folga.

Sobre a revanche que Fernando certamente perderia.

Felipe respondeu quando precisava. Maurício permaneceu mais quieto. De vez em quando, Felipe sentia o olhar dele. Não precisava perguntar para saber por quê.

Acho que a gente precisa conversar.

Três palavras tinham viajado com eles desde o Matero. Quando estacionou diante do prédio, Maurício não abriu a porta imediatamente.

— Quer subir?

Felipe olhou para ele.

— Pra quê?

— Café.

Lucas apareceu entre os bancos.

— Não tem café.

Maurício virou.

— Tem sim.

— Acabou antes da viagem.

Silêncio.

Maurício voltou para Felipe.

— Água?

Felipe riu. Sabia que deveria ir para casa, tomar banho, dormir. Organizar o que diria. Fazer aquilo do jeito certo. Mas estava começando a descobrir que fazer tudo do jeito certo tinha lhe custado coisas demais.

Desligou o carro.

— Água tá ótimo.

Maurício sorriu. E Felipe o acompanhou para dentro.

Lucas levou exatamente onze minutos para tomar banho. Maurício sabia porque passou os onze fingindo que não estava contando. Felipe estava sentado no sofá, o copo d'água que aceitara por falta de café entre as mãos. Maurício ocupava a outra ponta, uma perna balançando sem parar.

Nenhum dos dois tinha retomado a conversa.

Acho que a gente precisa conversar.

Maurício já tinha imaginado pelo menos sete finais diferentes para aquela frase. Nenhum bom. A porta do quarto se abriu. Lucas apareceu de banho tomado, cabelo ainda molhado e uma mochila pequena pendurada no ombro.

Maurício franziu a testa.

— Pra que a mochila?

— Vou pro Fernando.

— Eu sei. Pra que a mochila?

Lucas olhou para ela, como se a resposta fosse evidente.

— Não volto hoje.

Maurício demorou um segundo.

— Você vai dormir lá?

— Provavelmente.

— Por quê?

— Porque amanhã é folga e a gente vai jogar até tarde.

— Vocês passaram dez horas no mesmo ônibus.

— E?

Maurício abriu a boca.

Nada saiu.

— Nada.

— Então beleza.

Lucas apontou para Felipe.

— Boa noite, capitão.

— Boa noite.

Depois para Maurício:

— Se comporta.

— Vai embora.

Lucas riu e bateu a porta.

Silêncio.

Maurício continuou olhando para ela. Felipe, para Maurício. Os dois arquearam uma sobrancelha quase ao mesmo tempo.

— Estranho — Maurício disse.

— Um pouco.

— Enfim.

— Enfim.

E então não havia mais Lucas, nem Fernando, nem Gabriel. Nem dez horas de estrada para usar como desculpa. Só os dois. E aquela conversa.

Felipe colocou o copo sobre a mesa.

— Sobre o que eu falei lá embaixo...

Maurício sentiu o estômago apertar.

— Você quer parar?

Felipe franziu a testa.

— O quê?

— Isso.

Maurício gesticulou entre os dois.

— Seja lá o que for.

— Não.

A resposta veio tão depressa que Maurício pareceu se surpreender.

Felipe também.

— Não — repetiu, mais baixo.

O nó no rosto de Maurício desfez um pouco.

— Tá.

— Você achou que eu ia dizer isso?

— Você passou dez horas fugindo de mim num ônibus minúsculo e depois falou "a gente precisa conversar". Não parece exatamente o começo de uma declaração de amor.

Felipe soltou uma risada curta.

— Eu não tava fugindo. — Maurício apenas o olhou. — Tá. Talvez um pouco.

— Por quê?

Felipe respirou fundo. Ali estava a parte difícil, não porque não soubesse o que dizer. Porque dizer tornava tudo real.

— Porque ontem eu te beijei na frente de três pessoas sem nem perceber.

Maurício sorriu.

— Foi engraçado.

— Pra você.

— Gabriel quase caiu da cama.

Felipe tentou não rir.

— Mau.

O sorriso dele desapareceu.

— Eu tô falando sério.

Felipe se inclinou para a frente.

— Fernando sabe. Lucas sabe. Gabriel sabe. Lorena sabe. E provavelmente já tem mais gente desconfiando.

— Laura.

Felipe levantou os olhos.

— A Laura sabe?

— Não sei. Mas ela olha pra gente com uma cara… E a essa altura Gabriel já contou de qualquer forma.

— Ótimo.

Maurício riu.

Felipe não conseguiu acompanhá-lo daquela vez.

— Tem uma regra no clube.

Isso bastou.

O silêncio voltou.

— Eu sei — Maurício respondeu.

— E não é só isso. Eu sou capitão. Você acabou de entrar no elenco. Se alguém quiser transformar isso numa questão de favoritismo, de ambiente de equipe, de qualquer merda...

— Podem.

— Podem.

Felipe esfregou as mãos.

— E você tá começando agora. Não quero que o que tá acontecendo comigo vire alguma coisa que prejudique você.

Maurício ficou quieto.

— E seu pai?

Felipe levantou os olhos.

— Principalmente ele.

A palavra permaneceu entre os dois.

Maurício se aproximou um pouco.

— Então você quer parar?

Outra vez. Dessa vez Felipe pensou. Não na resposta, pensou em como era estranho que ela fosse tão fácil. Meses atrás, teria feito uma lista mental.

Clube.

Contrato.

Pai.

Imprensa.

Carreira.

Maurício.

E teria escolhido a opção racional antes mesmo de chegar ao último item. Agora olhava para ele sentado naquele sofá pequeno, esperando uma resposta que tentava fingir não temer. E não havia lista nenhuma.

— Não.

Maurício respirou.

— Eu também não.

— Mas a gente precisa tomar cuidado.

— Tá.

— De verdade.

— Eu entendi, Felipe.

— E falar com os meninos. Ninguém pode comentar— Maurício segurou o rosto dele entre as mãos.

— Felipe. — Ele parou. — Eu entendi.

Felipe olhou para ele. Maurício sorriu.

— Você pensa pra caralho.

— Alguém precisa.

— Acho que você já pensa pelos dois.

Felipe riu. As mãos de Maurício desceram, mas não foram embora. Ficaram sobre as dele.

— Então… — Maurício hesitou. — O que a gente tá fazendo?

Felipe não respondeu. Porque não sabia.

— A gente tá ficando?

— Talvez.

— Isso foi uma pergunta.

— Eu sei.

Maurício riu.

— Você é péssimo nisso.

— Eu avisei.

— Namorando a gente não tá.

A palavra fez alguma coisa no peito de Felipe. Não ruim, só grande demais para aquele momento.

— Não.

— Amigos também não fazem isso.

Maurício aproximou o rosto e lhe deu um beijo rápido.

— Definitivamente não.

Felipe sorriu.

— Então eu não sei.

Maurício encostou a testa na dele.

— Eu também não.

E, estranhamente, Felipe não sentiu necessidade de resolver. Não precisavam de um nome naquela tarde. Não precisavam saber onde terminava. Pela primeira vez, o desconhecido não parecia uma ameaça.

— Um dia de cada vez? — Maurício perguntou.

Felipe entrelaçou os dedos nos dele.

— Um dia de cada vez.

O celular tocou.

Felipe fechou os olhos.

— Não.

Maurício riu.

— Atende.

— Não quero.

— Pode ser importante.

Felipe pegou o aparelho. Era alguém da comissão técnica.

Atendeu.

— Oi.

A resposta do outro lado apagou rapidamente seu sorriso.

— Mas eu acabei de sair daí.

Maurício observou.

Felipe se levantou.

— Agora?

Uma pausa.

— Tá. Meia hora.

Desligou.

— O que foi?

Felipe já procurava a chave do carro.

— Reunião no Matero.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não sei.

Felipe parou diante dele. Por algum motivo, não queria que aquela conversa terminasse com preocupação. Inclinou-se e o beijou.

— Um dia de cada vez.

Maurício sorriu.

— Esse ainda não acabou.

Felipe também sorriu.

— Ainda bem.

E foi embora.

Felipe levou vinte e sete minutos para voltar ao Matero. Achou um desaforo. Tinha acabado de atravessar dez horas de estrada, passado menos de uma hora longe do clube e agora caminhava novamente pelos mesmos corredores.

O prédio administrativo estava mais silencioso naquele horário. Quando abriu a porta da sala de reuniões, entendeu que não era uma convocação comum. Murilo estava lá.

Parte da comissão técnica também, dois diretores ocupavam uma das cabeceiras. E havia outros três atletas. Felipe reconheceu primeiro a capitã do vôlei feminino. Depois, o capitão do basquete. A última era Eduarda, do futebol feminino, ainda usando o agasalho do clube e mexendo impaciente numa caneta.

Ela levantou os olhos.

— Também te sequestraram na folga?

Felipe puxou a cadeira vazia.

— Eu nem cheguei a começar a minha.

Eduarda sorriu.

— Então ganhou.

Felipe sentou. Olhou novamente ao redor. Quatro modalidades. Quatro capitães. Faltava alguém.

Não havia nenhum representante do futebol masculino.

Aquilo dizia mais que qualquer pessoa naquela sala provavelmente diria.

— Podemos começar? — perguntou um dos diretores.

A porta foi fechada.

O discurso durou alguns minutos até chegar a algum lugar.

Momento delicado.

Reestruturação financeira.

Adequação de orçamento.

Responsabilidade coletiva.

Felipe conhecia aquela língua. Cresceu ouvindo homens de terno transformarem decisões desagradáveis em palavras bonitas.

— Alguns reajustes precisarão ser feitos ao longo da temporada — explicou o diretor. — E chamamos vocês porque, como capitães, são também representantes dos atletas. Precisamos que nos ajudem a alinhar expectativas dentro das equipes.

Eduarda parou de mexer a caneta.

Felipe cruzou os braços.

— Que reajustes?

Um pequeno silêncio.

— Logística, principalmente. Viagens, concentração, estrutura de treinamento. Algumas despesas precisarão ser revistas.

— Pessoal? — perguntou a capitã do vôlei feminino.

— Ainda estamos avaliando.

Ainda.

Felipe conhecia aquela palavra também.

O diretor continuou:

— É importante que todos entendam que esse é um esforço conjunto. O Matero precisa que cada modalidade faça sua parte.

Felipe olhou pela janela. Dali não conseguia ver o novo gramado, mas sabia que estava lá.

Verde. Perfeito. Praticamente pronto em dois dias.

Cada modalidade.

Quase riu. Não teve vontade.

— E o futebol masculino? — Eduarda perguntou.

A sala ficou quieta. Felipe virou discretamente para ela. Eduarda continuava olhando para o diretor.

— Eles também vão passar por reajustes?

A resposta demorou um pouco mais do que deveria.

— Cada departamento possui necessidades diferentes.

Eduarda assentiu lentamente.

— Entendi.

Todo mundo entendeu. Murilo estava calado desde o início. Felipe conhecia o pai o suficiente para perceber a irritação no maxilar travado. Por uma vez, estavam irritados com a mesma coisa.

— O que vocês estão pedindo — Felipe falou — é que a gente chegue nos jogadores e diga que eles vão trabalhar com menos estrutura entregando o mesmo resultado.

— Estamos pedindo compreensão.

— O campeonato não vai exigir menos porque nosso orçamento diminuiu.

Murilo finalmente falou:

— Felipe.

Não era repreensão. Era aviso. Felipe recostou na cadeira.

O diretor retomou:

— Ninguém está diminuindo a importância de vocês. Muito pelo contrário. Estamos pedindo que vistam a camisa num momento em que o clube precisa.

Felipe olhou para o escudo bordado no próprio peito. Passou a vida inteira vestindo aquela camisa. Estava começando a perceber quantas coisas diferentes as pessoas queriam dizer quando pediam isso.

A reunião terminou sem números. Felipe odiava reuniões sem números. Todo mundo saía sabendo que perderia alguma coisa, mas ninguém sabia exatamente quanto.

Eduarda alcançou-o no corredor.

— Acho que esse ano vai ser difícil.

Felipe soltou uma risada sem humor.

— Bem mais do que você imagina.

— Ah, eu imagino.

Ela guardou as mãos nos bolsos.

— O feminino já tem pouco espaço. Com menos dinheiro, acho que a gente não disputa nem o campeonato de botão.

Felipe olhou para ela.

— No que eu puder ajudar, pode contar comigo.

Eduarda assentiu. Não agradeceu. Talvez porque ambos soubessem que aquilo não era favor.

— Pode ter certeza que a gente vai precisar se unir.

O celular de Felipe vibrou.

Maurício.

tá tudo bem?

Antes que respondesse, outra mensagem:

quer jantar?

E então:

fiz lasanha <3

Felipe sorriu.

Um coração.

Maurício tinha colocado um coração.

Era ridículo como um símbolo tão pequeno conseguia diminuir uma sala inteira de problemas.

Digitou:

claro

— Esse sorriso não combina muito com a reunião que a gente acabou de ter.

Felipe levantou os olhos.

Eduarda o observava.

— Assunto particular.

— Ah.

Ela sorriu.

— Então não quero saber.

— Agradeço.

— Até quarta, Sponatti.

— Até.

Eduarda seguiu pelo corredor.

Felipe guardou o celular.

— Felipe.

Parou. Murilo vinha em sua direção.

— Preciso falar com você.

Em qualquer outro dia, Felipe perguntaria sobre o quê.

Em qualquer outro dia, acompanharia o pai até a sala.

Em qualquer outro dia, aquela conversa provavelmente ocuparia o restante da noite.

Mas havia uma lasanha esperando por ele. E alguém. Felipe pegou a chave do carro no bolso.

— Hoje não.

Murilo franziu a testa.

— Como?

— A gente conversa outra hora.

— Felipe, eu preciso—

— Eu tenho compromisso.

Continuou andando.

— Felipe.

Parou por um instante. Dois anos. Fazia quase dois anos desde a última vez que deu as costas ao pai daquele jeito. Naquela ocasião, também havia feito isso por Maurício. A diferença era que Maurício nem sabia que ele existia.

Felipe virou apenas o suficiente.

— Amanhã a gente conversa.

E foi embora. Dessa vez, havia alguém esperando. E Felipe estava começando a descobrir que isso mudava o peso de todas as outras coisas.

Quando Felipe voltou ao apartamento de Maurício, a porta abriu antes que ele terminasse de bater.

— Achei que você ia demorar mais.

— Também achei.

Maurício deu passagem.

— Então chegou na hora certa.

Felipe entrou e sentiu o cheiro antes mesmo de chegar à cozinha.

— Você fez mesmo?

Maurício fechou a porta.

— Por que você achou que eu tava mentindo?

— Não achei. Só não sabia que você cozinhava.

— Eu sei fazer umas três coisas. Não se empolga.

Felipe olhou para a travessa sobre o fogão.

— Lasanha é uma delas?

— Tecnicamente, mais de três agora.

Felipe riu. Tirou os tênis perto do sofá e deixou a chave sobre a mesa. O gesto aconteceu sem pensar como se estivesse chegando a algum lugar onde sabia que podia ficar.

Maurício percebeu. Não disse nada.

— E a reunião?

A pergunta veio enquanto colocava os pratos na mesa.

Felipe puxou uma cadeira.

— Cortes.

— Mais?

— Provavelmente.

Maurício sentou diante dele.

— Ruim?

Felipe pensou no gramado novo. Na reunião. Em Eduarda. No silêncio conveniente quando perguntaram pelo futebol masculino.

Pensou em Murilo chamando seu nome no corredor.

— Amanhã eu te conto.

Maurício o observou.

Felipe percebeu que precisava corrigir:

— Não tô escondendo de você.

— Eu sei.

— É só que...

Olhou para a lasanha. Depois para ele.

— Eu não quero falar do Matero agora.

Maurício sorriu.

— Então não fala.

Simples. Felipe gostou daquilo.

Passava tanto tempo cercado de pessoas que queriam respostas que quase tinha esquecido como era estar diante de alguém que aceitava um silêncio.

Experimentou a lasanha.

Mastigou.

Maurício esperava.

— E aí?

Felipe continuou mastigando de propósito.

— Felipe.

— Tô analisando.

— Vai se foder.

Felipe riu.

— Tá boa.

— Só boa?

— Muito boa.

— Melhor.

Maurício voltou ao próprio prato, satisfeito. Felipe ficou olhando para ele por um instante.

— O quê? — Maurício perguntou.

— Nada.

— Tá olhando.

— Posso olhar.

— Pode.

E continuaram comendo.

A noite não teve nada de extraordinário. Talvez por isso Felipe fosse se lembrar dela, Maurício colocou música. Felipe reclamou da escolha.Maurício aumentou o volume.

Discutiram sobre qual filme assistir e terminaram escolhendo um que nenhum dos dois realmente queria ver. Em algum momento, a travessa ficou vazia. Em outro, Felipe percebeu que já passava da meia-noite.

Olhou o horário.

Depois para Maurício deitado na outra ponta do sofá.

— Tá tarde.

Maurício virou o rosto.

— Tá.

Nenhum se mexeu.

— Eu devia ir.

— Devia.

Felipe esperou.

— Você não vai pedir pra eu ficar?

Maurício sorriu.

— Você quer que eu peça?

Felipe odiava como ele conseguia devolver perguntas daquele jeito.

— Talvez.

Maurício sentou.

— Então fica.

Duas palavras.

E Felipe ficou.

A cama de Maurício era pequena. Felipe descobriu isso assim que deitou.

— Como você dorme nisso?

— Normalmente sem um jogador de um metro e noventa ocupando metade.

— Espero que eu seja o único com esses atributos ocupando esse espaço.

— Olha, não é que ele sente ciúmes. Tô começando a achar que você é humano, Felipe.

Felipe riu. Tentou se ajeitar. O joelho encontrou o de Maurício, depois o braço, depois parecia não haver posição em que alguma parte dos dois não se tocasse.

— Acho que vou cair.

— Problema seu.

— Excelente anfitrião.

Maurício virou para ele. Estavam próximos demais para continuar brincando. O silêncio veio naturalmente. Felipe tocou o rosto dele. Maurício sorriu antes do beijo, dessa vez não havia piscina, nem corredor de hotel, nem amigos a poucos metros, nem relógio contando quanto tempo podiam ficar. Só eles.

O beijo demorou, depois outro. A proximidade cresceu, e por alguns instantes Maurício pareceu esquecer todas as inseguranças que costumavam chegar antes dele.

Até que não esqueceu.

Seu corpo ficou tenso.

— Espera.

Felipe parou imediatamente.

Afastou-se o suficiente para olhá-lo.

— O que foi?

Maurício respirou.

— Nada. É que… — Desviou os olhos. — Acho que a gente podia ir mais devagar.

Felipe levou um instante para entender. Quando entendeu, apenas assentiu.

— Claro.

Maurício voltou a olhá-lo. Parecia procurar alguma coisa em seu rosto, decepção, impaciência. Talvez uma pergunta. Não encontrou.

Felipe puxou o cobertor sobre os dois.

— No seu tempo.

A tensão nos ombros de Maurício diminuiu.

— Tá.

— Tá.

Ficaram quietos.

Depois Maurício se aproximou novamente, dessa vez apenas para repousar a cabeça no peito dele. Felipe passou um braço ao redor de seus ombros. O quarto ficou pequeno de um jeito diferente.

Aconchegante. Seguro.

Depois de alguns minutos, Felipe olhou para o teto.

— Maumau...

— Hmm?

— Que mal lhe pergunte...

Maurício soltou uma risada baixa.

— Lá vem.

Felipe hesitou.

— Você nunca... ficou tão próximo assim de alguém?

Silêncio. Felipe quase retirou a pergunta.

Então ouviu:

— Não.

Tão baixo que precisou prestar atenção. Felipe baixou os olhos. Maurício continuava com o rosto escondido contra seu peito.

— Tudo bem.

Mais silêncio.

— Você acha estranho?

— Não.

Maurício levantou um pouco a cabeça.

— Mesmo?

Felipe pensou.

— Eu acho estranho você colocar molho rosê na lasanha.

Maurício o encarou.

— Vai tomar no cu.

Felipe começou a rir.

— Isso aqui, não.

Maurício tentou manter a cara fechada. Não conseguiu, voltou a deitar sobre ele.

— Idiota.

Felipe beijou seus cabelos.

— Já ouvi isso antes.

E ficaram assim. Sem avançar, sem precisar. Felipe passou a vida acreditando que coragem era movimento.

Avançar.

Decidir.

Assumir.

Nunca hesitar diante do próximo passo.

Maurício, naquela noite, lhe mostrava uma possibilidade diferente. Às vezes, gostar de alguém também era saber parar quando ele pedisse. Esperar sem transformar espera em cobrança.

Ficar.

Felipe apertou o abraço apenas um pouco, tinham combinado um dia de cada vez. E, naquela cama pequena demais para os dois, com Maurício começando a adormecer sobre seu peito e o mundo inteiro finalmente do lado de fora da porta, Felipe decidiu cumprir o acordo.

Amanhã poderia esperar.

🏐

Fim do capítulo.

💬 Agora eu quero saber de você:

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Nos vemos na próxima partida.

— Henrique Bravi