TERCEIRO SET

13 Capítulo 12: A Vida é Um Dia


● ━━━━━╮

╰━━━━ ○

O Matero tinha um som diferente na véspera de uma viagem. Não era mais barulhento. Era mais rápido.

Funcionários atravessavam corredores carregando caixas de isotônicos e bolsas térmicas. Roupeiros conferiam uniformes espalhados sobre grandes mesas. Fisioterapeutas organizavam equipamentos em malas que pareciam pequenas clínicas ambulantes. No estacionamento, o ônibus aguardava com o compartimento de bagagens aberto, enquanto dois auxiliares encaixavam cuidadosamente caixas de material esportivo ao lado das malas dos atletas.

Felipe atravessou o saguão cumprimentando praticamente todo mundo.

— Boa tarde, seu João.

— Boa viagem, capitão.

— Valeu.

Mais alguns passos.

— Felipe, assina isso aqui rapidinho?

Um funcionário do marketing lhe entregou uma autorização de uso de imagem. Assinou. Devolveu.

Continuou andando.

— Capitão!

Um garoto da base apareceu correndo com uma bola de vôlei nas mãos.

— Pode assinar?

Felipe sorriu.

— Claro.

Escreveu o nome rapidamente. O menino agradeceu como se tivesse acabado de ganhar um campeonato.

Felipe seguiu caminhando.

Às vezes tinha a impressão de que passava mais tempo sendo chamado pelo clube do que vivendo dentro dele.

No ginásio principal, os atletas chegavam aos poucos. Lucas entrou carregando uma mochila enorme nas costas e outra menor na frente do corpo. Fernando olhou para ele e arqueou uma sobrancelha.

— Cê tá indo disputar um campeonato ou mudar de cidade?

Lucas largou as mochilas no chão.

— Eu não sei quanto tempo dura uma concentração.

Fernando abriu uma das mochilas. Olhou para dentro. Piscou algumas vezes.

— Lucas... Tem um pacote de bolacha aqui.

— Tem.

— Quatro miojos.

— Vai que a comida do hotel é ruim.

Fernando continuou cavando. Encontrou um travesseiro, depois uma panela elétrica.

Parou.

Olhou para Gabriel.

— Ele trouxe uma panela.

Gabriel não pareceu nem um pouco surpreso.

— Eu imaginei.

Lucas cruzou os braços.

— Vocês riem agora. Quando der vontade de comer macarrão às duas da manhã... ninguém bate na minha porta.

Fernando fechou lentamente a mochila.

— Eu definitivamente vou bater.

Os três riram.

Maurício observava a cena alguns metros atrás, ainda vestia a mochila nas costas. Tudo aquilo era novidade.

A concentração. O ônibus. O hotel.

A primeira viagem oficial como atleta do Matero. Sentia a mesma ansiedade de quem viaja pela primeira vez sem a família.

Fernando percebeu.

Aproximou-se.

— Primeira viagem?

Maurício assentiu.

— Dá pra perceber?

Fernando sorriu.

— Pelo brilho no olho.

Deu um leve tapa em seu ombro.

— Aproveita. A primeira ninguém esquece.

Lucas apareceu imediatamente.

— E eu?

Fernando olhou para ele. Depois para as duas mochilas, depois para a panela.

— Você eu nunca vou esquecer mesmo.

○○○○

— Felipe!

A voz veio antes da pessoa. Um assessor do clube surgiu quase correndo.

— A imprensa quer fazer umas fotos antes da viagem.

Felipe respirou fundo.

— Agora?

— Cinco minutinhos.

Ele olhou rapidamente para o restante do grupo. Fernando já implicava com Lucas por causa da panela. Gabriel tentava impedir que Lucas colocasse a mochila dentro do carrinho de bolas. Maurício ria discretamente da discussão.

Felipe sorriu sem perceber. Queria ir até lá, sentar com eles. Participar da conversa. Ser apenas mais um atleta prestes a viajar.

— Capitão?

O assessor chamou novamente.

Felipe piscou.

— Tô indo.

Deu meia-volta, seguiu pelo corredor. Maurício acompanhou sua saída com os olhos. Só então percebeu quantas vezes alguém interrompia o caminho dele.

Felipe mal conseguia andar dez metros sem ser chamado por alguém. Lucas também percebeu, acompanhou o olhar do amigo.

— Às vezes esqueço que ele vive isso todo dia.

Maurício permaneceu observando Felipe desaparecer atrás da porta do departamento de comunicação. Pensou em chamá-lo. Desistiu.

Talvez aquela fosse a primeira coisa que ainda precisava aprender sobre gostar de alguém como Felipe. Havia momentos em que o clube o levava embora antes que qualquer outra pessoa pudesse alcançá-lo.

O corredor dos dormitórios já estava silencioso.

As portas fechadas escondiam conversas baixas, risadas ocasionais e o som distante de televisões ligadas. Alguns atletas ainda caminhavam de chinelo pelo corredor carregando garrafas d'água ou escovas de dente, mas a concentração começava, aos poucos, a impor seu próprio ritmo.

Felipe entrou no quarto, largou a mochila sobre a cama. Respirou fundo.

Pela primeira vez desde que chegara ao clube naquela tarde ninguém o chamava. Tirou o relógio, depois os tênis. Sentou-se na cama apenas para sentir o silêncio.

Durou menos de trinta segundos. Três batidas na porta. Nem precisou perguntar quem era.

— Entra.

Murilo abriu a porta sem cerimônia. Vestia o agasalho oficial do Matero, trazia uma pasta preta debaixo do braço. Olhou rapidamente para o quarto.

— Tá sozinho?

— Tô.

Murilo fechou a porta atrás de si. Permaneceu alguns segundos em pé como se organizasse mentalmente a conversa. Depois colocou a pasta sobre a escrivaninha.

— Amanhã começa de verdade.

Felipe apenas assentiu. Murilo abriu a pasta. Dentro dela havia escalas, estatísticas, mapas de saque, gráficos impressos. Foi apontando alguns papéis enquanto falava.

— O adversário força muito saque no fundo. Eles estudaram teu passe. Vão tentar tirar você da construção.

Felipe observava os papéis. Já conhecia quase tudo aquilo. Tinham passado a semana inteira estudando aqueles vídeos.

— Gabriel precisa acelerar mais a distribuição. Fernando vai ser importante nos momentos de pressão. O Paulo… — Murilo fez uma pequena pausa. — Espero que esteja num bom dia.

Felipe sorriu discretamente.

— Eu também.

Murilo não sorriu de volta. Fechou a pasta. Agora não havia mais estatísticas entre os dois. Só silêncio.

— Você sabe o tamanho desse campeonato.

— Sei.

— A gente precisa chegar, no mínimo, entre os quatro.

— Sei.

Murilo respirou fundo.

— Os patrocinadores tão inquietos. A diretoria também.

Felipe ergueu os olhos. Sabia que a conversa estava mudando de assunto. Murilo caminhou lentamente até a janela. Olhou o estacionamento.

O ônibus permanecia parado sob a iluminação do pátio.

— Esse ano vai ser diferente.

Felipe esperou.

— O clube tá passando por mudanças. Algumas pessoas estão só esperando um motivo pra dizer que o investimento no vôlei não vale mais a pena.

Silêncio.

Felipe conhecia aquele discurso. Não era novo. Mas daquela vez havia algo diferente na voz do pai. Cansaço.

Murilo virou-se.

— Você é o capitão. Tudo o que acontece com esse grupo passa por você.

Felipe assentiu outra vez.

— Eu sei.

— Sabe mesmo?

A pergunta veio mais dura do que o restante da conversa. Felipe permaneceu calado, Murilo deu dois passos na direção dele.

— Porque, às vezes... eu tenho a impressão de que você anda esquecendo disso.

Os dois se encararam.

Felipe respondeu com calma.

— Não esqueci.

Murilo cruzou os braços.

— Ótimo. Então continua assim. — Pequena pausa. — Não deixe questões pessoais interferirem.

O quarto pareceu diminuir de tamanho. Felipe respirou devagar.

— Nunca deixei.

Murilo sustentou seu olhar por alguns segundos, depois assentiu.

— Espero que continue desse jeito.

A frase parecia um conselho. Mas soava como um aviso. Murilo voltou a pegar a pasta. Antes de abrir a porta, falou sem olhar para trás.

— Descansa. Amanhã você vai precisar estar inteiro.

Felipe respondeu apenas com um:

— Boa noite.

A porta se fechou. O quarto voltou ao silêncio. Felipe permaneceu sentado na cama, os cotovelos apoiados nos joelhos. As mãos unidas diante do rosto. Queria acreditar que Murilo só estava preocupado com a estreia, mas conhecia o pai bem demais para isso.

Quando ele falava em "questões pessoais" raramente estava falando apenas de vôlei. Do lado de fora, ouviu passos no corredor.

Leves. Depois hesitantes. Como se alguém tivesse caminhado até sua porta e parado diante dela.

Maurício caminhava pelo corredor segurando um carregador enrolado na mão. Na verdade... nem precisava de um motivo. Desde o jantar vinha procurando uma desculpa qualquer para passar na porta do quarto de Felipe.

Talvez perguntar se estava tudo pronto para a viagem.

Talvez desejar boa sorte.

Talvez... só vê-lo por cinco minutos.

Parou diante da porta. Antes que pudesse bater, ouviu vozes. Reconheceu Felipe imediatamente. A outra levou apenas um segundo.

Instintivamente, deu um passo para trás. Não por querer escutar. Mas porque interromper aquela conversa parecia ainda pior. Do outro lado da porta, as vozes chegavam abafadas.

— ...você sabe o que tá em jogo.

Silêncio.

Felipe respondeu alguma coisa. Baixo demais. Maurício não conseguiu entender.

Murilo voltou a falar, dessa vez um pouco mais alto.

— Eu espero não precisar repetir isso durante a temporada.

Outra pausa.

Depois apenas um...

— Boa noite.

Maurício olhou rapidamente para os dois lados do corredor.

Tarde demais.

A maçaneta girou, Murilo abriu a porta. Os dois quase se chocaram. O treinador arqueou discretamente uma sobrancelha.

— Maurício?

Ele ergueu automaticamente o carregador como se aquilo explicasse qualquer coisa.

— Eu… É... Vim... Trouxe...

Olhou para o próprio carregador, depois para Murilo, depois para o carregador de novo.

— Esqueci por que eu vim.

Murilo quase sorriu.

Quase.

— O que faz acordado essa hora, rapaz? Amanhã a gente viaja cedo.

Maurício abriu a boca, nenhuma resposta saiu. Felipe apareceu logo atrás do pai. Levou menos de um segundo para entender a situação.

— Eu pedi pra ele trazer um carregador.

Disse com a naturalidade de quem comentava a previsão do tempo.

— O meu ficou no apartamento.

Maurício olhou para Felipe.

"Carregador?"

Felipe sustentou o olhar discretamente. Quase imperceptível.

Maurício entendeu.

— Isso. O carregador. Tinha esquecido.

Murilo alternou o olhar entre os dois, demorou alguns segundos. Longos segundos.

Então apenas assentiu.

— Certo. Boa noite.

Passou por Maurício sem dizer mais nada. Os passos desapareceram lentamente pelo corredor, os dois permaneceram imóveis até ouvirem a porta do dormitório vizinho fechar ao longe. Só então Felipe respirou.

— Entra.

Maurício entrou. Felipe fechou a porta. O quarto mergulhou num silêncio completamente diferente daquele do corredor. Maurício permaneceu segurando o carregador, depois levantou os olhos para Felipe.

— Tá tudo bem?

Felipe demorou um instante para responder. A primeira pergunta que fez foi outra.

— Você ouviu alguma coisa?

Maurício balançou a cabeça devagar.

— Não muito.

Fez uma pequena pausa.

— Mas ele parecia bravo.

Felipe desviou o olhar. Foi até a escrivaninha, pegou uma garrafa d'água. Abriu, bebeu um gole apenas para ganhar tempo.

— Tá preocupado com o campeonato. Só isso.

Maurício não respondeu imediatamente. Conhecia pessoas preocupadas, conhecia treinadores exigentes. Aquilo... parecia diferente.

Mas também conhecia Felipe. Se ele não queria falar, forçar não ajudaria. Então apenas colocou o carregador sobre a mesa.

— Acho que esse aqui nem é o seu.

Felipe olhou.

Sorriu pela primeira vez desde que Murilo deixou o quarto.

— Não é mesmo.

Os dois riram baixinho. A tensão diminuiu um pouco. Só um pouco. Mas já era suficiente para que eles conseguissem simplesmente ficar no mesmo lugar sem precisar fingir que vieram ali por causa de um carregador.

Felipe pegou o carregador da mesa.

— Acho que esse aqui não serve no meu mesmo.

Maurício deu de ombros.

— Acho que eu tava tão nervoso que peguei qualquer um.

Os dois riram baixinho.

A tensão da porta diminuía aos poucos, Felipe conectou o carregador ao celular. Nenhuma necessidade real. Só precisava fazer alguma coisa com as mãos.

Maurício permaneceu parado perto da porta. As duas camas de solteiro ocupavam quase todo o quarto. Uma luminária lançava uma luz amarelada que deixava tudo mais silencioso do que realmente era.

Felipe percebeu.

— Pode sentar.

Maurício olhou para a cama, depois para ele.

— Tenho medo de você me expulsar porque eu amassei o colchão do capitão.

Felipe sorriu.

— Tá vendo?

— O quê?

— Você agradece demais... e faz piada quando fica nervoso.

Maurício riu pelo nariz.

— E você continua analisando tudo.

Sentou-se na outra cama. Os dois ficaram alguns segundos olhando para o chão. Felipe foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Achei que… — Fez uma pausa. — Achei que essa semana fosse ser diferente.

Maurício levantou os olhos.

— Eu também.

Outra pausa. Felipe apoiou os cotovelos nos joelhos.

— A gente passou a semana inteira se vendo. Treino, academia, refeitório, quadra. E parecia… — Procurou a palavra. — Parecia que nunca dava tempo.

Maurício sorriu de lado.

— A gente virou aqueles casais que mandam "bom dia" e "boa noite" no WhatsApp porque não conseguem conversar o resto do dia.

Felipe riu.

— Casal?

Maurício sentiu as bochechas arderem.

— Eu sou muito ruim de mensagem, desculpa.

— Nossa Senhora, Felipe. Você tem preguiça de mandar uma risada, economiza até no "kk".

— É uma risada.

— Não é. "kk" é um pedido de socorro.

Felipe abaixou a cabeça, rindo.

— Eu não sei conversar por mensagem.

— Eu percebi.

— Eu também não sei conversar pessoalmente.

Maurício olhou para ele.

— Sabe, sim.

— Não sei.

— Sabe.

Felipe balançou a cabeça.

— Quando eu tô perto de você... parece que eu esqueço metade das palavras.

Maurício ficou completamente imóvel. Aquela frase tinha sido dita com tanta naturalidade que parecia impossível. Felipe percebeu o que acabou de confessar.

Coçou a nuca. Constrangido.

— Ficou estranho isso, né?

Maurício sorriu.

— Um pouco. Ainda tô me acostumando com você sendo “fofo”.

Silêncio.

Depois completou:

— Mas comigo acontece igual.

Os dois riram outra vez. Uma risada pequena, daquelas que só existem quando ninguém mais está vendo.

Maurício olhou para o relógio preso à parede. Já passava das dez.

— Amanhã o ônibus sai cedo.

Felipe assentiu.

— Melhor você descansar.

Maurício levantou-se, caminhou até a porta. Segurou a maçaneta. Ficou alguns segundos parado. Felipe já imaginava que ele iria embora.

Então ouviu:

— Posso voltar aqui um segundo?

Felipe sorriu.

— Você nem saiu ainda.

Maurício riu. Deu dois passos para trás, parou bem na frente dele. Os dois permaneceram imóveis. Já não existia aquela urgência do bar, nem a adrenalina da competição, nem o improviso do depósito. Só o silêncio.

Maurício levantou uma das mãos devagar e tocou de leve a manga do agasalho de Felipe. Como quem ainda pedia permissão. Felipe diminuiu a distância entre os dois, sem pensar.

Maurício sorriu.

— Acho que faltou uma coisa.

— O quê?

— Um beijo de boa noite.

Felipe respondeu apenas inclinando a cabeça. O beijo foi curto, calmo. Quase inocente. Não havia pressa, nem necessidade de provar nada.

Quando se afastaram... continuavam perto o suficiente para sentir a respiração um do outro. Maurício sorriu daquele jeito que sorria quando esquecia de esconder o que sentia.

— Agora sim.

Felipe respirou fundo.

— Até amanhã.

— Até amanhã, capitão.

Virou-se para sair.

Felipe chamou antes que ele abrisse a porta.

— Maurício.

Ele olhou para trás. Felipe sorriu com um sorriso discreto. Mas completamente diferente dos que costumava dar em entrevistas.

— Dorme bem.

Maurício assentiu.

— Você também.

Abriu a porta. Saiu. Felipe ficou olhando para a porta fechada por alguns segundos. Levou os dedos aos próprios lábios. Era estranho.

Durante anos, o quarto da concentração sempre pareceu apenas um lugar onde ele esperava o dia seguinte.

Naquela noite parecia que alguém tinha deixado um pedaço de casa ali dentro.

A porta mal teve tempo de fechar. Fernando entrou carregando um travesseiro debaixo do braço, uma mochila pendurada em um ombro e uma garrafa d'água na outra mão.

Nem esperou convite. Foi entrando.

— Boa noite pra você também.

Largou o travesseiro sobre a cama vazia, depois a mochila. Olhou ao redor.

— Gostei do quarto.

Felipe ainda parecia alguns segundos atrasado em relação ao mundo.

— O que você tá fazendo aqui?

Fernando respondeu enquanto tirava o tênis.

— Sobrevivendo.

— Hã?

— Me colocaram no quarto com o Paulo.

Felipe riu.

— E...?

Fernando levantou um dedo.

— Em oito minutos… — Outro dedo. — Oito. Ele já tinha reclamado do colchão, do travesseiro, do ar-condicionado, da comida, da iluminação do corredor.

Felipe já ria.

Fernando concluiu:

— E da quinta geração da minha família.

Sentou-se na cama.

— Eu pedi asilo político.

Felipe balançou a cabeça, ainda sorrindo.

— Você também não é nenhum santo.

Fernando olhou para a porta fechada, depois para Felipe, depois voltou a olhar para a porta.

Silêncio.

Um sorriso apareceu lentamente.

— Então…

Felipe percebeu tarde demais.

— Não.

— O quê?

— Não tenta inventar desculpa.

Fernando cruzou os braços.

— Eu nem falei nada.

— Mas vai falar.

— Vou.

Pequena pausa.

— O Maurício saiu daqui faz uns quinze segundos.

Felipe abriu a boca. Nenhuma palavra saiu, Fernando fez uma cara pensativa.

— Engraçado... Porque eu jurava que o quarto dele era do outro lado do corredor.

Felipe coçou a nuca.

— É... Não é o que parece.

Fernando caiu na gargalhada.

— Rapaz... Você realmente acha que essa frase funciona?

Felipe passou a mão no rosto.

— Eu não sei o que dizer.

— Então não diz. — Fernando respondeu naturalmente. — Notícia velha.

Felipe franziu a testa.

— Como assim?

Fernando deitou na cama. As mãos atrás da cabeça.

— Lucas abriu a boca. Ele não consegue esconder nada de mim.

Felipe arregalou os olhos.

— O Lucas contou?

— Tentei arrancar do Maumau, mas ele desconversou.

Fernando sorriu.

— Mas Lucas me disse o suficiente.

Felipe fechou os olhos por um instante.

— Eu vou matar ele.

— Vai nada.

Fernando respondeu rindo.

— Além do mais... Eu já tinha percebido antes.

Felipe olhou curioso.

— Percebido o quê?

Fernando deu de ombros.

— Você.

Silêncio.

— Tem uma semana que você não para de sorrir.

Felipe permaneceu calado.

Fernando continuou olhando para o teto.

— Eu conheço você faz tempo demais. Você sempre sorriu. Mas agora é diferente.

Virou o rosto. Olhou diretamente para Felipe.

— Nunca tinha visto tanto seus dentes.

Felipe riu, envergonhado. Baixou a cabeça.

— Tá tão na cara assim?

Fernando respondeu sem pensar.

— Pra quem conhece você... Tá. Mas sua sorte é que aqui ninguém tá tão interessado na sua vida íntima assim.

Os dois permaneceram alguns segundos em silêncio. Fernando foi o primeiro a quebrá-lo, dessa vez sem brincadeira.

— Posso falar sério?

Felipe apenas assentiu. Fernando sentou-se na cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos.

— Eu gosto de ver você feliz. Tivemos nossas diferenças no começo, mas eu sempre te admirei. Diferente dos outros que relutaram a entender que você tá aqui pelo o que joga, não porque seu pai te protegeu, eu sempre soube que você seria grande.

Felipe levantou os olhos.

Fernando sorriu pequeno.

— Acho que eu tô velho demais pra competir com isso, a gente tá no mesmo barco, não tem motivo pra não sermos amigos.

Silêncio.

Depois respirou fundo.

— E como amigo que digo, toma cuidado.

Felipe já sabia que aquela frase viria. Mesmo assim... doeu.

— Acabei de cruzar com teu pai… — Corrigiu imediatamente. — Com o treinador no corredor.

O sorriso desapareceu do rosto.

— E ele não tava com uma cara muito boa.

Felipe desviou o olhar. Fernando percebeu, não insistiu.

Apenas concluiu:

— Não sei o que tá acontecendo. Nem é da minha conta. Mas... Se precisar de mim... Você sabe onde eu tô.

Felipe sorriu, dessa vez sem vergonha, sem máscara.

— Valeu.

Fernando levantou-se para apagar a luz. Parou ao lado do interruptor, olhou novamente para Felipe. Um sorriso malicioso voltou ao rosto.

— Agora... Só uma observação.

Felipe já sabia que vinha piada.

— Qual?

Fernando apagou metade da luz do quarto.

— Acho que o treinador ainda não tá preparado… — Fez uma pausa dramática. — Pra chamar o Maurício de genro.

Felipe jogou o travesseiro na direção dele. Fernando desviou rindo.

— Boa noite, capitão!

— Dorme logo, praga!

Fernando apagou a luz. Cinco segundos depois... Já roncava. Felipe permaneceu acordado, olhando para o teto escuro. Sorriu sozinho.

Era curioso. Durante anos, acreditou que precisava enfrentar tudo sozinho. Naquela noite, percebeu que talvez não precisasse mais.

Talvez, sem perceber estivesse começando a construir uma família que não tinha nada a ver com sobrenomes. E essa ideia lhe trouxe mais paz do que medo.

🏐

Fim do capítulo.

💬 Agora eu quero saber de você:

O que achou?

⭐ Se a história está te conquistando, não esqueça de votar no capítulo.

Seu apoio ajuda Terceiro Set a alcançar novos leitores.

Nos vemos na próxima partida.

— Henrique Bravi