TERCEIRO SET
14 Capítulo 13: Singular
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O Matero ainda estava escuro quando o primeiro bagageiro do ônibus foi aberto.
Os refletores do estacionamento lançavam manchas amarelas sobre o asfalto molhado, e o frio da madrugada fazia todo mundo parecer um pouco mais mal-humorado do que o normal.
Paulo foi o primeiro a reclamar.
— Dez horas de ônibus. — Jogou a mochila no bagageiro. — Isso devia ser considerado tortura.
Fernando apareceu logo atrás carregando uma mala pequena demais para alguém que passaria vários dias fora.
— Bom dia pra você também.
— Ano passado a gente foi de avião.
Paulo não parecia disposto a abandonar o assunto. Gabriel surgiu segurando uma caneca térmica. Normalmente seria ele quem tentaria relativizar. Naquela manhã, não tentou.
— Ano passado a verba era outra.
Paulo olhou para ele.
— Então você concorda comigo?
Gabriel deu um gole no café.
— Infelizmente.
Lucas, ainda sonolento, acompanhava a conversa sem entender muito bem. Foi quando um caminhão passou lentamente pelo estacionamento em direção ao outro lado do complexo. Carregava enormes rolos de grama, atrás dele vinha outro, depois uma pequena retroescavadeira, Lucas apontou.
— O que é aquilo?
Gabriel acompanhou seu olhar.
— Reforma do CT do futebol.
— Reforma?
Fernando soltou uma risada curta.
Sem humor.
— Tão trocando o gramado.
Lucas franziu a testa. Olhou para o ônibus, depois para os caminhões.
— A gente vai passar dez horas num ônibus porque cortaram verba… — Fez uma pausa. — ...e eles tão trocando grama?
Ninguém respondeu imediatamente. Fernando colocou a própria mala no bagageiro.
— É isso.
Bateu duas vezes na lateral do ônibus.
— A gente já não vale mais nada mesmo.
Paulo bufou.
— Se fosse futebol, a gente já tava no aeroporto.
Murilo surgiu alguns metros atrás. Tinha ouvido, não comentou. Apenas consultou o relógio.
— Cinco minutos pra embarcar.
A conversa morreu ali. Mas não desapareceu, Felipe percebeu. Percebia quase tudo que acontecia naquele grupo.
Olhou para o outro lado do complexo. As máquinas já começavam a trabalhar sob os primeiros sinais da manhã, depois voltou os olhos para o ônibus. Não era a primeira vez que via aquilo. Provavelmente também não seria a última.
— Capitão.
Murilo chamou.
Felipe virou.
— Confere se tá todo mundo.
Ele assentiu.
— Pode deixar. Como sempre.
Felipe entrou primeiro, nem pensou. As primeiras poltronas do ônibus sempre haviam sido suas desde as categorias de base, perto da comissão. Perto de qualquer problema que surgisse.
Colocou a mochila no compartimento superior e sentou ao lado da janela. Pouco depois, Gabriel passou.
— Bom dia.
— Bom dia.
Paulo entrou reclamando do ar-condicionado antes mesmo que ele fosse ligado, depois Fernando. Lucas vinha logo atrás. Os dois discutiam alguma coisa sobre um jogo que Felipe não conhecia.
— Eu tô falando que aquele personagem tá quebrado.
— Você só fala isso porque perdeu.
— Eu perdi porque ele tá quebrado.
— Você perdeu porque é ruim.
Fernando colocou uma mão sobre o peito.
— Isso foi pessoal.
Os dois riram. Pararam praticamente no meio do corredor, Lucas apontou para duas poltronas vazias.
— Aqui.
Fernando sentou primeiro, Lucas ao lado. Nenhum dos dois pareceu notar que haviam feito isso sem consultar ninguém. Felipe notou, sorriu sozinho.
Maurício entrou alguns segundos depois. Cabelo bagunçado, moletom por cima da roupa oficial. Os olhos ainda pequenos de sono, carregava um travesseiro de pescoço que parecia grande demais para ele.
Quando passou pelas primeiras fileiras, seus olhos encontraram os de Felipe. Sorriu. Um sonolento, ainda assim suficiente. Felipe sorriu de volta.
— Bom dia.
— Bom dia.
Maurício continuou andando. Escolheu uma poltrona mais ao fundo. Sozinho. Encostou a cabeça na janela, fechou os olhos. Felipe permaneceu olhando por alguns segundos, depois desviou.
Era estranho como pequenos gestos agora pareciam grandes. O beijo da noite anterior voltou à memória. Maurício retornando até a cama. A pergunta quase infantil.
"Um beijo de boa noite."
Felipe sentiu o próprio sorriso voltar.
— Você tá sorrindo sozinho?
Gabriel perguntou passando pelo corredor. Felipe endireitou a postura.
— Não.
Gabriel levantou uma sobrancelha.
— Tá bom.
E seguiu.
Do outro lado do ônibus, Lucas olhou para a poltrona vazia ao lado de Maurício, depois para Fernando.
— Merda.
Fernando parou de mexer no celular.
— O quê?
— Deixei o Mau sozinho.
Fez menção de levantar. Parou. Olhou para frente.
Felipe permanecia sozinho na primeira fileira. Uma ideia apareceu tão claramente em seu rosto que Fernando percebeu antes mesmo que ele falasse.
— Não.
Lucas olhou.
— Não o quê?
Fernando sorriu.
— Eu sei essa cara.
Lucas abriu um sorriso.
— Preciso da sua ajuda.
Fernando guardou o celular no bolso.
— Pode deixar.
Levantou.
Felipe viu quando ele se aproximou.
— O que foi?
Fernando fez uma expressão séria demais.
— Preciso da sua ajuda num negócio.
Felipe franziu a testa.
— Agora?
— Agora.
— O quê?
Fernando já caminhava.
— Vem.
Felipe levantou. Seguiu sem entender absolutamente nada. Passaram por algumas fileiras. Lucas fingia estar completamente concentrado no celular, Fernando continuou andando até a poltrona de Maurício.
Parou.
Felipe parou atrás dele.
— E aí?
Fernando apontou para o banco vazio.
— Senta aí um segundo.
Felipe olhou para ele.
— Por quê?
Fernando deu um empurrão leve em seu ombro, Felipe perdeu o equilíbrio e caiu de qualquer jeito na poltrona. Maurício abriu os olhos assustado. Demorou um segundo para reconhecer quem estava ao lado.
Então sorriu.
— Oi.
Felipe riu, ainda tentando entender.
— Oi.
Olhou para Fernando.
— Tá. Qual era mesmo a ajuda?
Fernando franziu a testa como se estivesse realmente tentando lembrar.
— Rapaz… — Fez uma pausa longa. — Esqueci.
Felipe estreitou os olhos, Fernando se inclinou. Falou baixo o suficiente para apenas ele ouvir.
— A gente vai passar as próximas dez horas dentro desse ônibus fedido. — Olhou discretamente para Maurício. — Acho que você não vai querer deixar o Maumau passar por essa experiência sozinho.
Felipe ficou completamente imóvel. Fernando sorriu, deu dois tapinhas no ombro dele.
— Boa viagem, capitão.
Voltou pelo corredor. Lucas levantou discretamente a mão, Fernando bateu na palma dele quando passou como se os dois tivessem acabado de executar a jogada mais perfeita da temporada.
Felipe observou a cena, depois olhou para Maurício. Ele já estava sorrindo.
— Eles fizeram isso de propósito, né?
Felipe suspirou.
— Acho que sim.
Maurício ajeitou o travesseiro.
— Quer voltar pra frente?
Felipe olhou para a primeira fileira. Murilo já conversava com um auxiliar, depois olhou para Maurício.
— Não. — Sorriu. — Acho que aqui tá bom.
Maurício tentou esconder o próprio sorriso, não conseguiu. O ônibus começou a se mover. Em poucos minutos o silêncio tomou conta do ambiente, Maurício sentiu uma leve pressão em seu ombro, Felipe havia adormecido. Mauricio o cobriu com sua manta, suas mãos se encontraram por baixo do cobertor, sentiu seus dedos se entrelaçarem, Felipe sorriu ainda de olhos fechados.
O ônibus já estava na estrada havia pouco mais de três horas quando diminuiu a velocidade. Maurício acordou com a sensação de que havia dormido apenas alguns minutos.
Abriu os olhos devagar. A cabeça de Felipe ainda em seu ombro, seus dedos dormentes, tentou soltar, mas Felipe parecia se recusar. O fone de ouvido ainda estava em uma das orelhas. O outro havia caído sobre o ombro. Maurício sorriu.
Era curioso. Felipe parecia muito mais novo quando dormia. Sem a postura do capitão, sem o peso de quem sempre precisava resolver alguma coisa. Só... Felipe.
— Chegamos no posto!
A voz de Fernando atravessou o ônibus inteiro.
— Quinze minutos!
Paulo abriu os olhos imediatamente.
— Quinze minutos dá tempo de comer?
Gabriel respondeu sem nem levantar da poltrona.
— Pra você, não.
O posto de gasolina parecia igual a todos os outros da estrada. Uma lanchonete,ma loja de conveniência. Algumas mesas de plástico espalhadas sob uma cobertura. O cheiro de café recém-passado misturado ao de diesel. Fernando voltou da loja equilibrando um saco enorme de paçocas.
Lucas arregalou os olhos.
— Cê comprou o estoque inteiro?
— Promoção.
— Quantas?
Fernando abriu o pacote.
— Não contei.
Lucas pegou uma, depois outra. Fernando deu um tapa na mão dele.
— Ô!
— Ué.
— Essas são minhas.
Gabriel passou por eles, pegou uma sem pedir.
— Agora não são mais.
Fernando olhou indignado.
— Eu odeio viajar com vocês.
— Mentira.
Disse Lucas, já abrindo outra.
— Você ama.
Maurício estava diante da máquina de café. Observava o líquido cair lentamente no copo de papel.
— Café de posto é uma instituição brasileira.
Felipe surgiu ao lado dele. Maurício olhou.
— Achei que você ainda tava dormindo.
— Eu nunca consigo dormir em ônibus. — Pegou outro copo. — Desde criança.
Maurício entregou o açúcar.
— Então por que você fecha os olhos?
Felipe deu de ombros.
— Pra fingir que consigo.
Os dois riram. Felipe misturou o café.
— Minha mãe dizia que viajar era o único momento em que dava pra pensar olhando pela janela.
Maurício sorriu.
— Ela viajava muito?
Felipe demorou um segundo.
— Bastante.
A resposta veio simples. Mas havia alguma coisa nela, Maurício percebeu. Não insistiu. Em vez disso, mudou naturalmente de assunto.
— Eu nunca viajei assim.
— Como?
— Com um time.
Felipe apoiou o cotovelo na bancada.
— Vai acostumar.
— Acho difícil.
— Por quê?
Maurício olhou ao redor. Fernando discutia com Lucas por causa das paçocas. Gabriel já tomava o terceiro café. Paulo perguntava para um funcionário se vendiam pão de queijo "de verdade".
Maurício sorriu sozinho.
— Porque eu tô achando tudo muito legal.
Felipe acompanhou seu olhar, depois voltou para ele.
— Não perde isso.
Maurício franziu a testa.
— Isso o quê?
— Esse encanto.
Fez uma pequena pausa.
— Tem gente que passa tanto tempo dentro do esporte que esquece de gostar dele.
Maurício permaneceu olhando para Felipe por alguns segundos. Achava curioso como ele dizia essas coisas como se fossem simples, como se não fossem bonitas.
Quando voltavam para o ônibus, Maurício percebeu uma sacolinha plástica na mão de Felipe.
— O que você comprou?
Felipe levantou discretamente. Duas garrafas de água. Um pacote pequeno de amendoim e um chocolate.
Maurício riu.
— Você sempre compra a mesma coisa?
— Sempre.
— Por quê?
Felipe deu de ombros.
— Não sei. Virou costume.
Maurício balançou a cabeça.
— Você tem umas manias muito específicas.
Felipe sorriu.
— Tenho.
— Aposto que dorme sempre do mesmo lado da cama.
— Durmo.
— Escova os dentes na mesma ordem.
Felipe ficou em silêncio.
Maurício arregalou os olhos.
— Não acredito.
— Primeiro em cima. Depois embaixo, depois os dentes da frente.
Maurício começou a rir.
— Meu Deus.
Felipe riu junto.
— Pode rir.
— Tô descobrindo que você é completamente maluco.
— E você?
Maurício pensou um instante.
— Eu conto histórias mentalmente quando fico nervoso.
Felipe olhou curioso.
— Histórias?
— Qualquer uma, sobre qualquer coisa. Só pra não pensar no motivo de eu estar nervoso.
Felipe sorriu.
— Eu sei.
Maurício franziu a testa.
— Como assim?
— Você faz isso desde o primeiro dia.
Os dois voltaram a caminhar. Lado a lado em silêncio. Maurício sorriu sozinho.
Era estranho. Por muito tempo ele sabia exatamente quem era o capitão Felipe Oliveira.
Agora... começava a conhecer o rapaz que escovava os dentes sempre na mesma ordem, comprava o mesmo chocolate em toda viagem e fingia dormir só para poder olhar a paisagem pela janela.
E, por algum motivo esse Felipe lhe parecia ainda mais bonito do que o outro.
A cidade já aparecia pela janela quando o ônibus entrou na avenida principal. Depois de quase dez horas de estrada, qualquer prédio parecia uma conquista.
Lucas espreguiçou os braços.
— Eu nunca mais quero entrar num ônibus na minha vida.
Fernando nem abriu os olhos.
— Daqui cinco dias a gente volta.
Lucas ficou alguns segundos em silêncio.
— Eu odeio você.
Fernando sorriu sem olhar para ele.
O hotel era simples. Nada lembrava os grandes centros de treinamento que Maurício imaginava assistir pela televisão. Recepção pequena, piso gasto, um restaurante no térreo, dois andares de quartos.
Ainda assim... para ele, parecia especial. Era sua primeira viagem como atleta profissional. Funcionários começaram a descarregar as malas enquanto a comissão técnica reunia o grupo no saguão.
Murilo segurava uma pequena pilha de cartões magnéticos.
— Prestem atenção. — Esperou o burburinho diminuir. — Vou chamar as duplas dos quartos. Quem escutar o nome, pega o cartão e sobe. Às dezessete horas todo mundo no ginásio pra reconhecimento da quadra.
Os jogadores assentiram. Murilo começou.
— Gabriel e Thiago.
Os dois pegaram o cartão.
— Espero que esse ronque menos que o Fernando.
Fernando respondeu imediatamente.
— Se reclamar muito eu troco com você.
— Deus me livre.
Algumas risadas surgiram.
Murilo continuou.
— Lucas e Fernando.
Lucas levantou o braço.
— Aí sim!
Olhou imediatamente para Fernando.
— Eu falei que valia a pena trazer o videogame.
Fernando parou no meio do caminho.
— Você realmente trouxe?
Lucas abriu um sorriso enorme.
— Claro.
Fernando passou a mão no rosto.
— A gente tá numa competição.
— Justamente. Vai precisar relaxar.
Fernando balançou a cabeça.
— Você é inacreditável.
Mesmo assim... não conseguiu esconder o sorriso. Os dois seguiram discutindo qual jogo inauguraria a televisão do quarto. Maurício observava a cena divertido, depois voltou a atenção para Murilo. Sem perceber... procurava apenas um nome. Felipe.
Murilo continuou distribuindo os cartões.
Outras duplas. Mais nomes. Até que finalmente chamou.
— Felipe.
Felipe ergueu os olhos, Murilo olhou rapidamente para a lista. Fez uma pausa quase imperceptível.
— Henrique.
Um dos centrais veteranos levantou a mão. Felipe caminhou até a frente, pegou o cartão. Agradeceu com um aceno. Maurício sentiu uma pequena fisgada no peito, tentou convencer a si mesmo de que era normal. Claro que era. Capitão e novato dificilmente dividiriam quarto. Ainda assim quando Felipe passou ao seu lado os dois se olharam por um instante.
Nenhum sorriso.
Nenhuma palavra. Só um entendimento silencioso.
"A gente já imaginava."
Murilo voltou para a lista.
— Maurício.
Ele levantou a cabeça imediatamente.
— Paulo.
Paulo já reclamava.
Os dois pegaram o cartão. Maurício agradeceu. Voltou para o grupo. Quando passou por Felipe outra vez ele apenas levantou discretamente o cartão magnético.
Como quem dizia:
"Paciência."
Felipe respondeu do mesmo jeito. Levantando o próprio, um gesto tão pequeno que ninguém mais teria entendido.
Enquanto subiam pelo elevador, Lucas equilibrava o videogame debaixo do braço. Fernando olhava para aquilo completamente incrédulo.
— Eu ainda não acredito que você trouxe isso.
— Eu falei.
— E onde você colocou?
Lucas respondeu com orgulho.
— No lugar da panela.
Fernando ficou alguns segundos encarando o amigo. Depois começou a rir.
— Você finalmente aprendeu a viajar.
Lucas deu um soquinho no braço dele.
— Eu evoluí.
Maurício permaneceu alguns passos atrás. O cartão do quarto girava entre seus dedos, não estava decepcionado, nem frustrado. Só... tinha imaginado, por alguns segundos, como teria sido dividir um quarto com Felipe.
Talvez conversar até tarde.
Talvez rir de qualquer coisa.
Talvez descobrir mais um daqueles pequenos detalhes que pareciam tornar o capitão cada vez mais humano. Suspirou.
Ainda havia muitos dias pela frente. E, de alguma forma isso já parecia suficiente.
O ginásio ficava a poucos minutos do hotel. O ônibus percorreu ruas estreitas até parar diante de um prédio baixo, de concreto aparente, cercado por árvores antigas, quando as portas se abriram, Maurício desceu primeiro.
Parou por um instante. Observou a fachada. Fernando percebeu.
— Primeiro ginásio fora de casa?
Maurício assentiu.
— Profissionalmente é sempre a primeira vez.
Fernando olhou para o brilho nos olhos dele.
— Justo. — Deu um leve empurrão em seu ombro. — Aproveita. E que não seja também a primeira derrota.
Lá dentro, o cheiro era sempre o mesmo.
Madeira.
Resina.
Borracha.
Rede.
Era curioso como ginásios espalhados pelo país inteiro pareciam compartilhar o mesmo perfume, alguns só pareciam mais mal tratados que outros.
Os atletas se espalharam naturalmente, alguns começaram a alongar. Outros caminhavam pela quadra conhecendo o piso. Maurício passou a mão discretamente sobre a rede, depois bateu a sola do tênis no chão.
Escutou o som seco da madeira. Era diferente do Matero. Mais rígido, mais rápido.
Felipe apareceu ao seu lado.
— Primeira coisa que você faz quando entra num ginásio?
Maurício sorriu, um pouco envergonhado.
— Eu gosto de sentir a quadra.
Felipe olhou para o chão, deu dois pequenos pulos.
— Eu também.
Os dois sorriram.
— Tá vendo? — Disse Maurício. — A gente tem mais manias do que imaginava.
Felipe respondeu com um sorriso discreto.
— Acho que sim.
Murilo apitou.
— Vamos!
O grupo se reuniu próximo à linha de fundo.
— Hoje ninguém vai morrer aqui. — Algumas risadas surgiram. — Reconhecimento. Só isso. Quero vocês sentindo iluminação, altura do teto, velocidade da quadra. Amanhã é outra história.
O treino começou leve. Passe. Levantamento. Ataque sem bloqueio. Alguns saques. Nada muito intenso. Maurício aproveitava cada minuto, sentia-se estranho, como se finalmente tivesse entrado na vida que imaginava desde criança.
Do outro lado da quadra, Felipe observava discretamente. Era difícil não notar. Maurício fazia tudo como quem ainda se encantava, corria para buscar cada bola, agradecia aos boleiros, cumprimentava funcionários do ginásio.
Parecia feliz simplesmente por estar ali. Felipe não conseguia evitar a admiração com o encantamento do rapaz. Fernando apareceu ao lado dele durante um intervalo.
— Tá olhando o Maumau jogar ou tá fazendo análise técnica?
Felipe desviou os olhos imediatamente.
— As duas coisas.
Fernando riu.
— Claro.
No fim do treino, Murilo liberou os atletas.
— Banho, jantar e descanso. Amanhã ninguém inventa moda.
O grupo começou a deixar a quadra aos poucos. Maurício caminhava devagar, olhando as arquibancadas vazias. Felipe o alcançou naturalmente.
— Gostou?
Maurício soltou uma risada.
— Acho que gostei até demais.
Felipe colocou a mochila nas costas.
— Dá pra ver.
— Tá tão na cara assim?
— Tá.
Os dois continuaram caminhando. Sem pressa. Passaram pelo banco de reservas, depois pela zona mista ainda vazia. Maurício olhava tudo como quem tentava guardar cada detalhe na memória.
— Sabe… — Disse de repente. — Eu imaginava esse momento faz tanto tempo... Que achei que, quando acontecesse, seria diferente.
Felipe virou o rosto.
— Diferente como?
Maurício pensou alguns segundos.
— Maior.
Olhou novamente para a quadra.
— Mas acho que as coisas importantes são assim mesmo. Acontecem... e a gente percebe que elas são feitas de detalhes.
Felipe ficou em silêncio.
Depois sorriu.
— Minha mãe dizia uma coisa parecida.
Maurício olhou curioso.
— O quê?
Felipe caminhou alguns passos antes de responder.
— Ela dizia que felicidade quase nunca faz barulho. — Baixou a vista. — Mas faz tempo.
Os dois seguiram andando. Sem dizer mais nada porque, naquele momento... nenhum dos dois precisava. A caminhada até o ônibus parecia pequena demais para tudo o que existia naquele silêncio.
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O restaurante do hotel ocupava praticamente todo o térreo. Não era grande. Algumas mesas compridas haviam sido unidas para acomodar a delegação inteira, o cheiro de comida caseira invadia o salão. Nada sofisticado no cardápio. Mas, depois de dez horas de estrada, ninguém parecia disposto a reclamar. Nem Paulo. O que, por si só, já era um acontecimento.
Fernando entrou primeiro, olhou a mesa. Depois anunciou:
— Hoje eu vou sentar longe do Paulo.
Paulo nem levantou a cabeça do prato.
— Era pra ser uma ofensa?
Algumas risadas surgiram imediatamente. Lucas puxou uma cadeira ao lado de Fernando. Gabriel sentou de frente para os dois, Maurício aproximou-se logo depois. Parou por um instante. Ainda procurava um lugar, antes que escolhesse... Fernando puxou outra cadeira.
— Maumau. Aqui.
Maurício sorriu.
— Valeu.
Sentou-se. Quase no mesmo instante, Felipe entrou no restaurante. Como sempre mais tarde que todo mundo. Tinha acabado de sair de uma rápida reunião com Murilo e a comissão técnica.
Pegou o prato, serviu-se rapidamente. Quando levantou os olhos... percebeu uma cadeira vazia. Exatamente ao lado de Maurício.
Fernando olhou para ele, depois bateu duas vezes no encosto da cadeira.
— Capitão. Tem vaga.
Felipe caminhou até lá naturalmente. Sentou-se. Nenhum dos dois comentou. Parecia… simples. E justamente por isso era tão diferente.
A conversa começou espalhada. Gabriel comentava sobre a quadra, Paulo insistia que o piso escorregava mais do que deveria, Fernando dizia que Paulo reclamaria até se jogassem no Maracanãzinho. Lucas interrompeu.
— Fernando.
— Hum?
— Você trouxe controle reserva?
Fernando levantou lentamente a cabeça.
— Você tá pensando no videogame durante o jantar?
— Tô organizando a logística.
— Meu Deus.
Gabriel balançou a cabeça.
— Eu nunca vi alguém levar uma competição de Fall Guys tão pouco a sério.
Lucas apontou o garfo para ele.
— Justamente por levar muito a sério, tenho que descansar.
Fernando completou.
— Ele fez uma planilha.
Lucas ficou completamente indignado.
— Era uma lista.
— Colorida.
— Organização.
— Com horário.
— Planejamento.
Fernando olhou para Maurício.
— Tá vendo o que eu tenho que aguentar?
Maurício ria tanto que quase derrubou o copo, Felipe observava a cena em silêncio. Depois riu também. Uma risada alta, espontânea. Fernando parou de falar e olhou para Gabriel, depois para Lucas. Os três trocaram um olhar rápido. Como quem tivesse acabado de notar a mesma coisa.
Felipe não percebia. Continuava ouvindo Lucas explicar, com toda a seriedade do mundo, por que havia levado dois controles "caso um descarregasse".
Maurício olhou discretamente para Felipe.
Era estranho. No Matero sempre havia alguém esperando muito dele. Ali, ele ria despreocupado. Talvez até ele mesmo esperava tanto de si que nunca se permitiu criar tanto vínculo com os companheiros.
Depois do jantar, alguns atletas permaneceram conversando no saguão. Outros voltaram para os quartos. Fernando levantou primeiro.
— Lucas. Bora. A gente tem um campeonato importantíssimo pra disputar.
Lucas entendeu imediatamente.
— Melhor de cinco?
— Melhor de sete.
— Justo.
Os dois desapareceram escada acima discutindo qual jogo inauguraria a televisão do quarto. Gabriel terminou o café, também levantou.
— Boa noite.
— Boa noite.
Paulo já bocejava antes mesmo de sair da cadeira. O grupo foi diminuindo até sobrarem apenas Felipe e Maurício.
Os dois caminharam juntos até o elevador sem dizer muita coisa. Não era necessário. As portas se abriram, entraram. O elevador começou a subir lentamente. Felipe olhou para o reflexo dos dois no espelho. Sorriu.
— Engraçado.
Maurício virou o rosto.
— O quê?
— Acho que faz muito tempo que eu não jantava só sendo uma pessoa. Não o capitão, não o filho do treinador. Só... eu.
Maurício demorou alguns segundos para responder. Depois sorriu daquele jeito tranquilo que Felipe já começava a reconhecer.
— Gostei desse você.
As portas se abriram. Os dois seguiram pelo corredor. Sem perceber, cada dia ficava um pouco mais difícil imaginar como era a vida antes um do outro.
O quarto estava escuro. Maurício permanecia deitado de barriga para cima, encarando o teto. Ao seu lado, Paulo já respirava profundamente havia alguns minutos, em raros momentos em que não estava pegando no seu pé.
No quarto ao lado, através da parede fina, ainda era possível ouvir uma comemoração abafada.
Lucas e Fernando. Provavelmente alguma partida de videogame.
Fechou os olhos. Tentou dormir, não conseguiu. Sentia aquela ansiedade boa de quem viveu um dia tão cheio que o corpo cansou antes da cabeça. Virou para o lado.
Foi então que o celular vibrou sob o travesseiro. Franziu a testa. Quase meia-noite. Pegou o aparelho, a tela iluminou seu rosto.
Felipe
Ei.
Já dormiu?
Maurício sorriu antes mesmo de responder. Os dedos correram pelo teclado com uma urgência quase infantil, como se demorasse demais e a mensagem pudesse desaparecer.
Não consegui.
Acho que o Paulo vai me asfixiar com um travesseiro essa noite kkk.
Os três pontinhos apareceram imediatamente. Depois sumiram. Voltaram. Sumiram outra vez.
Maurício riu sozinho.
"Ele realmente pensa antes de escrever qualquer mensagem."
O celular vibrou novamente.
Me encontra na piscina.
Cinco minutos.
Maurício olhou para a cama ao lado. Paulo continuava completamente apagado. Respondeu apenas:
Tá.
O corredor estava vazio. As luzes noturnas do hotel deixavam tudo tingido por um amarelo suave. Maurício desceu as escadas para evitar o barulho do elevador, empurrou a porta de vidro. A piscina ficava nos fundos do hotel, a água refletia a lua cheia como um espelho azul-escuro. Nenhum vento. Nenhuma voz. Só o som distante da estrada.
Felipe já estava ali, sentado na borda da piscina. As mãos apoiadas para trás, o reflexo da água dançava em seu rosto. Quando ouviu os passos, levantou os olhos. Sorriu.
— Achei que você tivesse dormido.
Maurício aproximou-se devagar.
— Achei que você também.
Parou diante dele. Os dois ficaram alguns segundos apenas se olhando. Nenhum dos dois parecia saber exatamente por que estavam ali. E, naquele momento, isso não importava.
Maurício abriu a boca para dizer alguma coisa. Nunca conseguiu.
Felipe levantou-se diminuindo a distância entre eles. Pouco a pouco até que restou apenas o espaço de uma respiração.
Maurício sorriu.
Felipe levou uma das mãos ao rosto dele com a delicadeza de quem ainda descobria o caminho. E o beijou.
Devagar.
Sem pressa.
Sem medo de terminar rápido demais.
Quando se afastaram, continuaram próximos. Testa encostada, olhos fechados. Felipe soltou uma pequena risada pelo nariz.
— Acho...
Maurício esperou.
— Acho que me acostumei com um beijo de boa-noite.
Maurício abriu um sorriso tão grande que precisou abaixar a cabeça por um instante. Quando voltou a olhar para Felipe, seus olhos brilhavam.
— Que bom.
Felipe arqueou uma sobrancelha.
— Por quê?
Maurício deu um passo ainda mais perto. Segurou discretamente sua mão.
— Porque eu também.
Ficaram em silêncio observando a lua refletida na piscina.
À distância, o relógio da recepção marcou meia-noite. No dia seguinte haveria um jogo. Talvez o mais importante da vida de Maurício até então. Talvez mais um entre tantos para Felipe. Mas, naquela noite nenhum dos dois pensava em voleibol.
Pensavam apenas na estranha felicidade de descobrir que, às vezes, o melhor momento do dia acontecia justamente quando ele já tinha acabado.
🏐
Fim do capítulo.
💬 Agora eu quero saber de você:
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Nos vemos na próxima partida.
— Henrique Bravi
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