TERCEIRO SET
8 Capítulo 07: Sinto a Casca Formar na Ferida
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O refeitório do Matero nunca foi exatamente silencioso.
Sempre havia o tilintar de talheres, o cheiro forte de café recém-passado, atletas discutindo treinos, preparadores atravessando o salão com tablets nas mãos e alguém reclamando do cardápio do dia.
Naquela manhã... o silêncio chamava mais atenção que qualquer barulho.
As conversas existiam, mas pareciam baixas demais. As risadas morriam antes de ganhar força. Até as cadeiras sendo arrastadas soavam contidas, como se ninguém quisesse quebrar a concentração coletiva.
Era dia de competição. Não apenas mais um torneio. Era o dia em que a comissão técnica definiria o elenco principal da temporada.
Lucas terminava o segundo copo de café quando Fernando largou a bandeja sobre a mesa com um sorriso exageradamente otimista.
— Bom dia, meus futuros campeões.
Ninguém respondeu.
Fernando olhou para um, depois para outro.
— Nossa... Tá parecendo velório isso aqui.
Gabriel apenas continuou mexendo no pão com manteiga.
Lucas soltou um riso curto.
— Você fala isso porque já passou por umas cinco dessas.
— Seis.
Fernando corrigiu.
— E posso garantir que sofrer antes não melhora o desempenho de ninguém.
Olhou diretamente para Maurício.
— Principalmente você.
Maurício nem percebeu que estava girando a colher dentro da xícara havia quase um minuto. Parou apenas quando Lucas encostou discretamente o cotovelo no dele.
— Tá tudo bem?
— Tô.
A resposta saiu automática. Ninguém acreditou. Dormiu pouco, a conversa da noite anterior voltava inteira sempre que fechava os olhos.
"Você não sabe nada sobre mim."
A frase de Felipe parecia ecoar mais alto a cada lembrança. Continuava irritado. Ainda acreditava que tinha razão em parte. Mas também sabia... que havia atravessado uma linha.
Talvez tivesse transformado suas inseguranças em acusações. E isso o incomodava mais do que gostaria de admitir.
Fernando resolveu mudar de assunto.
— Aposto que hoje o Paulo vai reclamar até da cor da rede.
Gabriel sorriu.
Lucas respondeu.
— Se a rede estiver branca, ele vai dizer que preferia azul.
— Exatamente!
Fernando comemorou como se tivesse contado uma piada genial. Por alguns segundos... a mesa voltou a parecer uma mesa comum. Até que a porta principal do refeitório se abriu.
Felipe entrou. Vestia o agasalho oficial do Matero. Carregava uma mochila e um celular na mão. Conversava rapidamente com um dos coordenadores da competição enquanto caminhava. Nem havia pegado o café ainda.
Maurício sentiu o estômago contrair. Era ridículo. Bastava vê-lo entrar no ambiente para o coração acelerar.
Felipe encerrou a conversa, agradeceu ao coordenador e começou a atravessar o salão.
Cumprimentava praticamente todo mundo.
— Bom dia.
— Dormiu bem?
— Boa sorte hoje.
Recebia respostas parecidas.
Quando chegou perto da mesa deles, diminuiu o passo.
— Bom dia, pessoal.
Fernando respondeu primeiro.
— Bom dia, capitão.
Lucas ergueu a caneca.
— Hoje é nosso dia.
Gabriel fez apenas um aceno. Felipe sorriu de volta. Por um instante... Maurício esperou. Esperou que ele olhasse, que dissesse qualquer coisa. Nem precisava ser diferente. Um simples "bom dia" bastava. Felipe continuou andando, seguiu em direção ao balcão do café.
Maurício permaneceu imóvel, sentiu um aperto estranho no peito. Então era isso. A conversa da noite anterior realmente tinha mudado tudo.
Fernando percebeu o silêncio primeiro, depois Lucas. Os dois trocaram um olhar discreto. Nenhum comentou.
Do outro lado do salão, Felipe já conversava com a nutricionista sobre os horários do almoço entre os jogos. Em poucos segundos, um árbitro o chamou, depois um membro da diretoria. Logo em seguida, alguém da imprensa.
Era como se o capitão nunca conseguisse permanecer parado por mais de um minuto.
Maurício observava de longe. Começou a perceber quantas pessoas dependiam dele antes mesmo de a bola entrar em quadra. Ainda assim o vazio continuava ali. Porque, por mais ocupado que Felipe estivesse na cabeça de Maurício, havia apenas uma certeza. Ele não tinha olhado.
Pouco depois, um aviso ecoou pelos corredores do centro de treinamento.
— Atenção, atletas. Todos os participantes da competição devem se dirigir ao Ginásio Principal em cinco minutos.
As conversas cessaram imediatamente.
Bandejas foram recolhidas.
Copos de café ficaram pela metade.
O dia havia começado de verdade.
O Ginásio Principal parecia outro lugar. Faixas dos patrocinadores cobriam as arquibancadas. Câmeras eram posicionadas atrás das linhas de fundo. Voluntários distribuíam credenciais. Jornalistas organizavam equipamentos próximos à quadra.
Funcionários corriam de um lado para o outro ajustando os últimos detalhes. Era estranho. Maurício treinava ali havia semanas, mas nunca o tinha visto daquele jeito.
Naquele instante... o Matero deixava de ser apenas um clube. Parecia uma pequena cidade funcionando ao mesmo tempo.
Murilo aguardava o grupo no centro da quadra. Braços cruzados, prancheta nas mãos. Esperou o último atleta entrar antes de começar.
— Bom dia.
A resposta veio em coro.
— Hoje vocês não estão disputando uma vaga. Estão disputando a confiança de quem vai trabalhar com vocês durante toda a temporada.
Fez uma pausa.
— Vitória ajuda. Mas não decide nada. O que nós vamos observar hoje é comportamento, tomada de decisão, comunicação, espírito coletivo. Quem joga pelo próprio número nunca dura muito tempo aqui. Quem faz o grupo crescer sempre encontra espaço.
Murilo caminhou lentamente enquanto falava.
— Vocês serão divididos em quatro equipes. Roxa. Verde. Branca. Preta. Cada uma misturando atletas experientes e novatos. Teremos semifinais e final. Nada de eliminados, todos jogarão. Todos serão avaliados.
Ele abriu a prancheta.
— Equipe Roxa...
Os nomes começaram a ser chamados. Maurício prendia a respiração sem perceber. Seu primeiro pensamento era apenas um.
"Tomara que eu fique com o Lucas."
Não aconteceu.
— ...Maurício Oliveira.
Ele deu um passo à frente.
— Felipe Sponatti.
Felipe caminhou até o mesmo lado da quadra. Os dois ficaram separados por apenas alguns metros. Nenhum dos dois disse uma palavra.
Murilo continuou lendo.
Quando terminou, Lucas estava na Equipe Verde, ao lado de Fernando, Gabriel... e Paulo André.
Lucas lançou um olhar para Maurício do outro lado da quadra e fez um gesto de "vai dar certo".
Maurício tentou responder com um sorriso, mas ele saiu pequeno demais.
A segurança que Lucas lhe transmitia durante os treinos havia desaparecido. Agora... teria de encontrar seu lugar ao lado da última pessoa com quem conseguiu conversar de verdade.
E essa talvez fosse a tarefa mais difícil daquele dia.
Os quatro grupos ocuparam lados diferentes do ginásio. Cada comissão recebeu uma prancheta. Preparadores físicos distribuíam coletes. A equipe de arbitragem fazia os últimos testes na rede.
As arquibancadas começavam a ganhar vida. Não eram centenas de pessoas, nem precisavam ser. Dirigentes do clube, representantes da federação, alguns jornalistas. Atletas das equipes de basquete e futebol do Matero, curiosos para acompanhar a avaliação. Funcionários e algumas famílias.
O suficiente para transformar aquele treino em algo muito maior do que um simples treino. Maurício terminava de prender a joelheira quando ouviu Murilo assobiar do outro lado da quadra.
— Dez minutos pro aquecimento!
Os grupos se espalharam. Felipe já conversava com dois veteranos da equipe roxa. Apontava para a quadra enquanto desenhava alguma movimentação com as mãos. Mesmo sem levantar a voz... todos naturalmente prestavam atenção.
Maurício observava de longe. Na noite anterior, tinha dito que Felipe nunca precisou conquistar aquele espaço. Agora bastava vê-lo durante cinco minutos para perceber que ninguém obedecia porque Murilo era seu pai. Obedeciam porque fazia sentido ouvi-lo.
Aquilo o incomodou. Porque talvez tivesse sido injusto.
— Mau!
A voz veio da arquibancada. Ele ergueu a cabeça imediatamente. Por um segundo acreditou ter imaginado. Mas então viu.
Elisa. De pé, segurando a bolsa junto ao peito. Ao lado dela, Adriana acenava com os dois braços como se estivesse tentando chamar alguém do outro lado da rua.
— Surpresa!
Maurício abriu um sorriso tão espontâneo que esqueceu completamente onde estava. Correu até a grade que separava a quadra das arquibancadas.
— O que vocês estão fazendo aqui?
Elisa riu.
— Seu avô queria vir também. Mas alguém precisava trabalhar.
Adriana completou:
— Então ele mandou a torcida oficial.
Maurício apoiou os braços na grade. Ainda parecia incrédulo.
— Vocês não falaram nada.
— Era surpresa.
Elisa segurou o rosto do filho entre as mãos por um instante. Como fazia desde que ele era criança.
— Não tinha como perder esse dia.
Maurício sorriu. Sentiu o peito aliviar pela primeira vez desde que acordara. Adriana entregou uma pequena sacola de papel pela grade.
— Sanduíche. Porque eu conheço você, fica nervoso e esquece de comer.
— Você trouxe comida escondida pro clube?
— Claro. A comida daqui deve ser sem sal.
Maurício riu. Um riso verdadeiro.
Do outro lado da quadra, Felipe ergueu os olhos por acaso. A cena chamou sua atenção. Não pelo abraço, pela mulher.
Ele conhecia aquele sorriso. Demorou apenas alguns segundos para lembrar.
Hospital.
Corredor.
Dois anos antes.
A mesma mulher que havia lhe oferecido café numa madrugada em que ele acreditava que o mundo inteiro estava desmoronando.
Elisa também o reconheceu. Sorriu imediatamente. Fez um pequeno gesto com a mão. Felipe respondeu com um aceno discreto.
Olhou ao redor para confirmar que Murilo ainda conversava com a arbitragem. Aproveitou aqueles poucos minutos livres e caminhou até a arquibancada.
Maurício já havia voltado para o aquecimento, nem percebeu.
— Bom dia.
Elisa abriu um sorriso caloroso.
— Eu sabia que lembrava de você.
Felipe sorriu de volta.
— Eu também. Fazia tempo.
— Dois anos. Você mudou bastante.
Ele soltou uma risada baixa.
— Espero que pra melhor.
— Com certeza.
Os dois ficaram alguns segundos em silêncio. Adriana observava curiosa.
Elisa então perguntou:
— E como você está?
Era uma pergunta simples. Mas Felipe demorou para responder, talvez porque fazia muito tempo que ninguém realmente perguntava.
— Acho que... bem.
Elisa inclinou levemente a cabeça.
Como se percebesse a resposta incompleta.
— Fico feliz. Naquele dia você parecia carregar o mundo inteiro nas costas.
Felipe baixou os olhos por um instante.
— Ainda carrego um pouco.
Os dois riram. Elisa tocou de leve o braço dele.
— Mas agora você não tá mais sozinho.
Felipe não respondeu.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ouviu Murilo chamando do centro da quadra.
— Felipe!
Ele virou imediatamente.
— Já tô indo!
Voltou a olhar para Elisa.
— Foi muito bom rever a senhora.
— Igualmente. E boa sorte hoje.
Felipe sorriu, dessa vez com sinceridade.
— Obrigado.
Quando voltou para a quadra, caminhou em silêncio. Passou os dedos distraidamente pela fita que prendia o pulso. Olhou rapidamente para Maurício, que fazia recepção ao lado da linha de fundo. Por um instante... enxergou muito mais do que um novato ansioso.
Viu um filho.
Um irmão.
Alguém que também carregava uma família inteira consigo. Talvez fosse por isso que as palavras da noite anterior ainda doessem tanto. Porque, pela primeira vez, conseguiu entender de onde elas tinham nascido.
Não as justificava, mas começava a compreendê-las.
O apito ecoou pelo ginásio. O tempo das reflexões havia terminado. Era hora de jogar.
O sistema de som anunciou a primeira semifinal. Os atletas começaram a ocupar seus lugares enquanto alguns espectadores se acomodavam nas arquibancadas.
As conversas diminuíram, o ginásio parecia prender a respiração. Murilo permaneceu próximo à mesa da comissão técnica. Ao lado dele, diretores do clube rabiscavam observações em folhas já marcadas por nomes, números e setas.
Ninguém estava ali apenas para assistir.
Todos avaliavam.
Fernando passou por Maurício já caminhando para a outra quadra.
— Não esquece de ganhar.
Lucas completou, sorrindo.
— Se perder, finge que nem me conhece depois.
Maurício conseguiu rir.
— Idiotas.
Os três tocaram os punhos rapidamente antes de seguirem para lados opostos.
A primeira semifinal começou. Maurício assistia da lateral da quadra. As mãos cruzadas atrás do corpo, não conseguia ficar sentado. Lucas parecia completamente diferente. A ansiedade do café da manhã havia desaparecido. Em quadra, gritava, orientava. Comemorava cada ponto.
Fernando fazia exatamente o que sempre fazia. Falava o tempo inteiro. Até quando errava.
— Foi minha!
— Próxima!
— Bora!
Gabriel era o equilíbrio. Parecia jogar na mesma velocidade em qualquer situação. Paulo continuava sendo Paulo. Exigia, corrigia, reclamava. Mas, curiosamente, naquele time ninguém parecia levar para o lado pessoal.
Lucas respondia. Fernando devolvia alguma piada. E o jogo seguia. Maurício sorriu sem perceber.
Talvez Paulo realmente não implicasse apenas com ele. Talvez aquele fosse apenas o jeito dele de competir. O pensamento o fez lembrar da discussão da noite anterior.
O peso voltou imediatamente.
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— Equipe Roxa. Cinco minutos.
A voz de um dos organizadores ecoou pelo ginásio. Maurício respirou fundo. Era a vez deles. Os jogadores começaram o aquecimento.
Felipe reuniu o grupo no fundo da quadra. Não fez discurso, nem precisava. Apenas olhou para cada um.
— Primeira bola. Sempre simples. Nada de querer resolver sozinho. Se alguém travar... fala, a gente ajusta.
Todos assentiram. Felipe olhou rapidamente para Maurício, apenas um segundo. Depois continuou.
— Errou? Esquece. A próxima bola não sabe o que aconteceu na anterior.
Alguns sorriram. Era uma frase conhecida entre os veteranos, Maurício nunca a tinha ouvido. Mas gostou.
O grupo se dispersou. Enquanto caminhava para sua posição, ouviu passos se aproximando. Felipe passou ao seu lado, nem diminuiu muito o ritmo. Quase como se tivesse medo de transformar aquilo numa conversa maior.
Ainda olhando para a quadra, falou baixo.
— Boa sorte.
Duas palavras. Quase engolidas pelo barulho do ginásio. Maurício sequer teve tempo de responder. Felipe já estava do outro lado da rede conversando com o levantador.
Aquilo doeu mais do que qualquer discussão porque não havia raiva, nem ironia. Só uma distância educada. E, de repente Maurício percebeu que preferia mil vezes quando Felipe insistia em conversar.
O apito soou. A bola subiu. Nos primeiros pontos, Maurício parecia atrasado. Chegava um passo depois. Recebia travado, atacava sem confiança. O placar mostrava apenas alguns minutos de jogo.
Mas, na cabeça dele já parecia tarde demais. Foi então que começou a prestar atenção em Felipe. Não como amigo, nem como capitão. Como jogador.
Felipe quase não fazia os pontos mais bonitos da equipe. Mas estava em todos eles. Antes do saque, aproximava os companheiros. Depois da recepção, reorganizava o bloqueio, chamava quem estava perdido, acalmava quem errava, celebrava quem acertava.
Parecia enxergar a quadra inteira.
Em determinado lance, um dos novatos hesitou na cobertura. Felipe mergulhou para salvar a bola, levantou imediatamente.
— Boa!
Era impossível saber se o elogio era pela defesa ou pela tentativa. Pouco importava, o garoto voltou mais confiante na jogada seguinte. Maurício começou a entender. Capitães não eram escolhidos porque jogavam melhor, eram escolhidos porque faziam os outros acreditarem que conseguiam jogar melhor.
A compreensão veio quase como um soco. Na noite anterior, ele tinha reduzido Felipe a "o filho do técnico". Ali, diante dos próprios olhos, essa ideia parecia ridícula. A partir dali, tudo mudou.
Maurício parou de tentar resolver sozinho, passou a ouvir, a comunicar, a confiar. O jogo ficou mais leve. Sua recepção estabilizou, a defesa apareceu. Os ataques começaram a entrar. Num contra-ataque rápido, salvou uma bola quase perdida e permitiu que o levantador reorganizasse a jogada.
Ponto da equipe roxa.
O ginásio aplaudiu.
Felipe foi o primeiro a levantar o punho.
— Isso!
Era só uma palavra, mas Maurício sorriu pela primeira vez naquele dia.
O último ponto veio poucos minutos depois.
Apito.
Fim de jogo.
Os companheiros se cumprimentaram rapidamente, sem grandes comemorações. Ainda havia uma final pela frente.
Enquanto caminhavam para a lateral da quadra, Felipe passou por Maurício, diminuiu o passo apenas o suficiente para tocar duas vezes seu ombro.
— Bom jogo.
E seguiu andando. Maurício ficou parado por um instante. O toque durou menos de um segundo, mas significava muito mais do que ele conseguiria admitir. Talvez... a conversa da noite anterior ainda não tivesse destruído tudo.
Talvez ainda existisse um caminho de volta. Ou talvez... ele apenas quisesse acreditar nisso.
O apito que encerrou a segunda semifinal trouxe um alívio momentâneo ao ginásio. Os atletas se espalharam pelos corredores do Matero.
Alguns seguiram direto para o refeitório. Outros aproveitaram para alongar, conversar ou simplesmente respirar. A final começaria pouco mais de uma hora depois.
Tempo suficiente para descansar. Tempo demais para pensar.
O refeitório voltou a ganhar vida. As mesas já não pareciam tão silenciosas quanto pela manhã, a tensão havia dado lugar à expectativa.
Lucas apareceu carregando duas bandejas.
— Achei que você tinha evaporado.
Maurício sorriu de leve.
— Quase.
Sentaram-se ao lado de Fernando e Gabriel.
Fernando falava animadamente sobre um bloqueio que tinha dado no primeiro jogo.
— Eu nem pulei tão alto assim. O cara simplesmente atacou na minha mão.
Gabriel riu.
— Você vai contar essa história até dezembro.
— Vou mesmo. É a melhor versão dela.
Lucas olhou para Maurício.
— E aí? Como foi?
Maurício demorou alguns segundos para responder.
— Melhor do que eu esperava.
Era verdade, mas ainda parecia incompleto. Enquanto mexia distraidamente no arroz, seus olhos percorriam o salão.
Procuravam alguém.
Sem sucesso.
Felipe não estava ali.
Depois do almoço, Maurício saiu sozinho. Precisava caminhar. O estômago continuava embrulhado, não de nervosismo, de culpa. Os corredores do Matero estavam quase vazios. A maior parte dos atletas permanecia descansando. O silêncio contrastava com o movimento do ginásio.
Foi quando ouviu passos. Ritmo constante, conhecido.
Felipe surgiu no fim do corredor, vestia novamente o agasalho do clube. Os fones de ouvido cobriam parte dos cabelos ainda úmidos do banho rápido entre os jogos. Caminhava olhando algumas anotações no celular.
Maurício respirou fundo.
Era agora.
Deu dois passos à frente.
— Felipe.
Ele tirou um dos fones.
— Oi?
Maurício tinha ensaiado aquela conversa durante toda a manhã. Nenhuma palavra apareceu, ficou alguns segundos em silêncio.
Felipe esperou.
Sem pressa.
— Eu...
Maurício olhou para o chão, depois para o corredor vazio, depois de volta para Felipe.
— Você jogou muito bem.
Felipe sorriu de canto. Era um sorriso pequeno, quase cansado.
— Valeu.
Outro silêncio.
Maurício respirou novamente, queria dizer que exagerou, queria dizer que pensara muito na conversa da noite anterior, queria perguntar se ainda estavam brigados. Nenhuma frase parecia suficiente.
Felipe percebeu.
Guardou o celular no bolso, esperou mais alguns segundos. Então falou com a mesma tranquilidade de sempre.
— Vamos deixar esse papo pra depois da final. Tudo bem?
Maurício levantou os olhos.
Felipe continuou.
— Agora... se concentra no jogo. É o mais importante.
Recolocou o fone no ouvido. Antes de seguir, fez uma leve pressão no ombro de Maurício. O mesmo gesto que fazia antes das partidas.
— Boa final.
E foi embora.
Sem pressa.
Sem mágoa aparente.
Sem olhar para trás.
Maurício permaneceu parado no corredor, assistindo Felipe desaparecer na curva. Sentia-se ainda pior porque aquela não tinha sido uma rejeição. Também não tinha sido um perdão.
Felipe simplesmente escolheu adiar. E isso obrigava Maurício a fazer exatamente o que ele menos queria naquele momento:
esperar.
Respirou fundo, passou as mãos pelo rosto. Do lado de fora, ouviu o sistema de som anunciar o início do aquecimento da final.
O tempo havia acabado. Ainda havia uma decisão para disputar.
Mas, enquanto caminhava de volta ao ginásio, Maurício percebeu que a partida mais difícil daquele dia talvez não fosse a que aconteceria dentro da quadra.
🏐
Fim do capítulo.
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Nos vemos amanhã, na próxima partida.
— Henrique Bravi
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