TERCEIRO SET
9 Capítulo 08: Dilata Meu Olho
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O sistema de som anunciou cinco minutos para o reinício das atividades. Os corredores do Matero voltaram a ganhar movimento, atletas recolhiam garrafas de água, preparadores carregavam caixas térmicas. Árbitros atravessavam o ginásio conferindo as súmulas da partida seguinte. Aos poucos todos voltavam para a quadra.
Maurício caminhava em silêncio, com as mãos escondidas nos bolsos do agasalho. A conversa interrompida com Felipe permanecia girando em sua cabeça.
"Vamos deixar esse papo pra depois da final."
Não era um não. Também não era um sim. Era uma espera. E, naquele momento, esperar parecia mais difícil do que jogar.
Assim que atravessou a porta do ginásio principal, foi recebido por um ambiente completamente diferente daquele da manhã. As arquibancadas estavam mais cheias, funcionários haviam aberto novos setores. Alguns atletas das equipes de basquete e futebol ocupavam as primeiras fileiras.
Representantes da diretoria circulavam próximos à quadra, fotógrafos testavam lentes maiores. Até o narrador parecia mais animado. A final transformava aquele torneio interno em um verdadeiro espetáculo.
Do outro lado da rede, Lucas já fazia alongamento.
Ao perceber Maurício, abriu um sorriso.
— Então... parece que chegamos de verdade.
Maurício devolveu o sorriso.
— Pelo jeito.
Fernando aproximou-se logo depois, girando uma bola de vôlei na ponta do dedo.
— Eu avisei que a gente ia se encontrar de novo.
Lucas deu uma risada.
— Você avisou isso pra metade do clube.
— Estatisticamente eu acertaria com alguém.
Os três riram.
O suficiente para aliviar alguns segundos da tensão.
— Boa sorte.
Lucas estendeu o punho.
Maurício tocou o dele.
— Pra você também.
Fernando juntou o próprio punho aos dois.
— Só não vale me bloquear de novo.
— Não prometo.
— Traidor.
Os três se separaram rindo.
Era curioso. Poucas semanas antes eram completos desconhecidos.
Agora... aquela breve conversa parecia suficiente para lembrar que nenhum deles enfrentava aquele dia sozinho.
Murilo caminhava entre as duas equipes observando o aquecimento. Não dizia quase nada. Anotava. Parava. Olhava novamente. Os diretores faziam o mesmo. Nenhum lance parecia pequeno demais para passar despercebido, Maurício percebeu que alguns olhares estavam voltados para ele.
Respirou fundo. Tentou ignorar.
Do outro lado da quadra, Paulo já discutia posicionamento com um dos centrais. Gabriel fazia embaixadinhas distraidamente com a bola, Lucas conversava com Fernando.
Tudo parecia normal. Só ele se sentia completamente fora do lugar.
— Maurício.
A voz veio ao lado. Era Felipe. Segurava uma bola debaixo do braço.
— Vem cá um minuto.
Os dois caminharam alguns passos para perto da linha de saque. Felipe olhou rapidamente para a quadra, depois para os companheiros. Como quem conferia se todos estavam ocupados.
Falou baixo.
Sem solenidade.
— Esquece quem tá olhando. Diretoria. Imprensa. Arquibancada. Nada disso entra em quadra, só entram seis jogadores.
Maurício ouviu em silêncio.
Felipe continuou.
— Você não precisa provar nada pra ninguém hoje. Só joga o vôlei que te trouxe até aqui.
Foi tudo. Nenhum discurso ou tentativa de retomar a conversa interrompida. Nem um pedido de desculpas, muito menos cobrança. Apenas aquilo.
Felipe bateu de leve na bola contra a própria coxa.
— Bora.
Virou-se e caminhou de volta ao restante da equipe. Maurício permaneceu parado por alguns segundos. Felipe havia lhe desejado boa sorte, depois lhe dera um "bom jogo". Agora agia como se a única coisa realmente importante fosse colocá-lo nas melhores condições para competir.
Aquilo dizia muito sobre o capitão. Talvez mais do que qualquer conversa pudesse dizer.
O sistema de som pediu atenção. Os atletas começaram a ser chamados um a um. Quando o nome de Felipe ecoou pelo ginásio, parte da arquibancada aplaudiu espontaneamente.
Ele apenas ergueu a mão em agradecimento, sem interromper o aquecimento. Depois vieram Fernando, Gabriel, Lucas e Maurício.
Ao ouvir o próprio nome, o estômago virou. Olhou automaticamente para a arquibancada. Encontrou Elisa de pé com as duas mãos unidas na altura do peito. Como se estivesse fazendo força junto com ele. Ao lado, Adriana agitava um pequeno pano verde improvisado como bandeira.
Quando seus olhares se encontraram, Elisa apenas sorriu.
Maurício respirou profundamente. Pela primeira na última semana, o medo começou a dividir espaço com outra sensação. A vontade de estar ali.
O árbitro levou o apito à boca, os capitães caminharam para o centro da quadra. Felipe e o capitão da equipe adversária apertaram as mãos.
O sorteio foi realizado.
Enquanto os jogadores ocupavam suas posições, Maurício olhou ao redor por um último instante. As arquibancadas, a família, os amigos do outro lado da rede, a comissão técnica. Felipe ajustando o bloqueio antes mesmo da primeira bola. Então sorriu sozinho.
Aquele era exatamente o lugar pelo qual tinha lutado a vida inteira.
O apito soou. A bola subiu. A final havia começado.
Durante alguns segundos, Maurício simplesmente esqueceu como respirar. O saque atravessou a rede. Recepção, levantamento, ataque. Ponto.
Tudo aconteceu rápido demais. Quando percebeu, o placar já marcava três a um para a equipe verde. Lucas vibrou do outro lado da rede. Fernando bateu na mão de Gabriel. Paulo gritava instruções antes mesmo da próxima bola entrar em jogo.
— Vamos!
— Mantém!
— Fecha a diagonal!
O ritmo parecia muito mais intenso do que qualquer treino.
As arquibancadas participavam de cada lance. Mesmo não sendo uma competição oficial, ninguém ali fingia que aquele jogo era apenas uma avaliação.
Aquele dia decidiria muita coisa.
Maurício tentou esquecer isso, mas não conseguiu. Seu primeiro passe saiu curto. O segundo obrigou o levantador a improvisar. No ataque seguinte, hesitou por um instante. Tempo suficiente para encontrar um bloqueio inteiro à sua frente.
A bola voltou.
Ponto da equipe verde.
O silêncio dentro da própria cabeça começou novamente.
"Você não pode errar."
"Todo mundo tá olhando."
"Você precisa provar que merece estar aqui."
Respirou fundo. Não adiantou, o jogo continuava escapando.
Felipe caminhou até ele enquanto todos voltavam às posições. Não parecia irritado, nem preocupado. Falou como se comentasse o clima.
— Esquece.
Depois voltou para sua posição.
Maurício assentiu, sem responder.
O segundo set começou exatamente como o primeiro havia terminado. Lucas parecia viver uma daquelas partidas em que tudo dava certo. Defendia bolas improváveis. Sorria. Comemorava.
Fernando provocava até quem não estava jogando. Gabriel equilibrava o time inteiro. Paulo seguia cobrando todos.
Mas...
curiosamente...
ninguém parecia se incomodar.
Aquilo fez Maurício lembrar da conversa que teve com Felipe semanas antes. Talvez Paulo realmente tratasse todos daquele jeito, talvez ele tivesse levado tudo para o lado pessoal.
Tentou afastar o pensamento. A bola voltou.
No ponto seguinte, a recepção saiu ruim. O levantador precisou correr. Maurício automaticamente deu um passo para resolver sozinho. Então ouviu.
— Deixa!
Era Felipe, a bola passou por ele. Outro companheiro assumiu, a jogada continuou. Ponto da equipe roxa.
Maurício respirou. Percebeu que nem toda bola precisava ser sua.
Pouco depois aconteceu outra. Dessa vez, Felipe chamou.
— Maurício!
A defesa saiu perfeita. O contra-ataque nasceu dali. Ponto.
Felipe apenas levantou o polegar. Nem sorriu, nem comemorou exageradamente.
Só confirmou.
Era isso. Já era suficiente.
O time começou a crescer. Não porque alguém virou protagonista, mas porque todos começaram a aparecer. O central bloqueava, o levantador distribuía, o líbero organizava e Felipe conectava tudo.
Maurício percebeu uma coisa curiosa, durante semanas acreditou que Felipe comandava a equipe. Agora entendia que não. Felipe servia a equipe, a diferença parecia pequena. Mas mudava completamente a forma como todos jogavam ao redor dele.
O empate veio naturalmente. Um ponto de cada vez, sem desespero ou pressa. Quando o árbitro confirmou o fim do quarto set, o ginásio inteiro respondeu com aplausos. Um a um.
Tudo seria decidido no tie-break.
Os atletas caminharam até o banco para uma rápida pausa. Ninguém falava muito. Respiravam, tomavam água. Murilo aproximou-se apenas o suficiente para dizer:
— Continuem confiando no processo.
Mais nada. Felipe levantou-se antes mesmo do restante do grupo, olhou para cada companheiro, como se procurasse alguma dúvida. Encontrou apenas nervosismo, sorriu.
— Relaxem. É só vôlei, isso vocês já sabem fazer.
Fernando, do outro lado da quadra, ouviu a frase e começou a rir.
— Olha quem fala!
Até Lucas sorriu. A tensão diminuiu por alguns segundos. O árbitro chamou as equipes novamente.
O tie-break começou em um ritmo completamente diferente. Não havia mais espaço para ansiedade, só reação.
As jogadas se alongavam, as defesas arrancavam aplausos. Cada ponto parecia valer o dobro. A torcida agora comemorava qualquer bola salva.
Maurício já não pensava. Jogava.
E, curiosamente... foi justamente quando parou de tentar provar alguma coisa que começou a fazer diferença. Num dos últimos rallies da partida, uma bola desviou no bloqueio e caiu atrás da linha dos três metros.
Parecia perdida.
Maurício mergulhou. Conseguiu mantê-la viva por centímetros. O levantador correu, Felipe reorganizou o ataque apenas apontando com a mão. A bola cruzou novamente, mais uma defesa. Outra troca. Até que o central da equipe roxa encontrou um espaço entre o bloqueio adversário, a bola tocou o chão.
Apito.
Fim de jogo.
Durante um segundo... ninguém se mexeu. Depois o ginásio explodiu. A equipe roxa era campeã da competição interna. E, naquele instante, Maurício sentiu que não havia vencido sozinho. Sentiu que fazia parte de alguma coisa muito maior do que ele.
Maurício procurou alguém sem perceber que procurava. Seus olhos encontraram Felipe. O capitão ainda respirava pesado, as mãos apoiadas nos joelhos. Por um instante, também levantou os olhos.
Os dois se olharam. Não houve pensamento, nem decisão. Maurício apenas correu. Quando percebeu... já o abraçava. O impacto quase fez os dois perderem o equilíbrio.
Felipe instintivamente segurou suas costas para impedir a queda. O barulho do ginásio continuava existindo, mas parecia distante. Muito distante. Como se alguém tivesse diminuído todo o volume do mundo.
Maurício conseguia ouvir apenas a própria respiração e a de Felipe. Os dois tentando recuperar o mesmo ar. Sentiu o tecido úmido da camisa contra o rosto. O coração acelerado, as mãos firmes segurando suas costas.
Pela primeira vez... não existia capitão.
Não existia novato.
Não existia competição.
Nem discussão.
Nem orgulho.
Só dois jogadores que haviam acabado de conquistar alguma coisa juntos. Felipe afastou o rosto apenas o suficiente para olhá-lo. O topete, normalmente impecável, caía desordenado sobre a testa, uma gota de suor escorreu pela têmpora.
Ele sorriu. Não aquele sorriso educado ou o sorriso protocolar que oferecia aos patrocinadores. Sorriu com os olhos. Maurício nunca tinha visto aquele sorriso antes.
Foi então que percebeu que seus corpos continuavam colados. O tempo voltou aos poucos, os gritos retornaram. As palmas. Os companheiros correndo ao redor.
Maurício soltou os braços imediatamente, deu um passo para trás. Passou a mão na nuca, sentiu o rosto aquecer. Sorriu sem graça.
— Desculpa... me empolguei.
Felipe ainda respirava fundo. Olhou para ele durante um instante, depois soltou uma pequena risada, daquelas que quase não fazem barulho.
Balançou a cabeça.
— Tá tudo certo.
Fez uma breve pausa.
Olhou para o placar eletrônico, depois voltou os olhos para Maurício.
— A gente ganhou.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse mais nada. Ao redor, a comemoração começava a tomar conta da quadra. Os companheiros da equipe roxa finalmente os alcançaram.
Abraços. Tapas nas costas. Gritos.
Alguém levantou o central que marcou o último ponto. Outro já tentava tirar uma foto com o troféu simbólico da competição. O instante entre os dois desapareceu no meio da festa.
Do outro lado da rede, a equipe verde permanecia reunida. Lucas respirava fundo, as mãos apoiadas nos joelhos. Fernando aproximou-se primeiro.
— Perder é uma droga.
Lucas soltou uma risada cansada.
— Obrigado pelo apoio.
— Mas perder pra eles dói um pouquinho menos.
Gabriel passou um braço pelos ombros dos dois.
— Vocês jogaram bem.
Paulo, porém, não parecia disposto a aceitar aquilo. Arrancou a fita do punho com um movimento brusco, chutou uma das cadeiras próximas ao banco de reservas.
O estrondo ecoou pelo ginásio.
Algumas pessoas olharam na direção dele.
— Merda!
Ninguém respondeu. Paulo pegou a mochila e saiu em direção ao vestiário sem olhar para trás. Fernando acompanhou a cena em silêncio.
— Ele não tá legal.
Gabriel assentiu discretamente.
— Faz tempo.
Lucas observou Paulo desaparecer pelo corredor. Depois voltou os olhos para a quadra. Maurício comemorava cercado pelos novos companheiros. Sorriu sozinho.
— Acho que ele encontrou mesmo o lugar dele.
Fernando acompanhou seu olhar.
Sorriu de canto.
— Encontrou.
Foi então que a arquibancada começou a se mover.
— MAU!
Adriana atravessou a escada praticamente correndo. Ignorou a recomendação de esperar a liberação da quadra e passou pela abertura lateral antes que algum funcionário pudesse impedi-la.
Maurício mal teve tempo de virar. Ela já estava abraçada nele.
— Você ganhou!
— Quase me derrubou.
— Mas ganhou!
Logo atrás vinha Elisa. Mais devagar, com aquele sorriso tranquilo que Maurício conhecia desde criança. Quando chegou perto, não disse nada, apenas segurou o rosto do filho entre as mãos.
Observou-o por alguns segundos. Os olhos marejaram.
— Tô orgulhosa de você.
Maurício sorriu e a abraçou demoradamente.
A poucos metros dali, Felipe assistiu à cena por um instante. Quase sem perceber, sorriu também.
— Felipe.
A voz de Murilo o trouxe de volta. O sorriso desapareceu naturalmente.
— A diretoria tá esperando. Tem imprensa também. Precisamos aproveitar enquanto o pessoal ainda tá na quadra.
Felipe apenas assentiu.
— Já tô indo.
Lançou um último olhar para Maurício, ainda abraçado à mãe e à irmã. Depois caminhou em direção ao centro do ginásio, onde já não o esperavam como filho. Nem como jogador. Mas como o rosto que representava o Matero.
As arquibancadas começaram a esvaziar. Os fotógrafos recolhiam os equipamentos. Alguns familiares aproveitavam os últimos minutos para tirar fotografias na quadra. Aos poucos... o ginásio voltava ao silêncio.
Os atletas permaneceram. Era a única coisa que Murilo havia pedido.
— Ninguém vai embora ainda.
Os jogadores se reuniram novamente próximos à linha dos três metros. Dessa vez não havia divisão entre vencedores e derrotados. Todos formavam um único grupo.
Alguns ainda respiravam ofegantes, outros seguravam garrafas de água sem sequer beber. Lucas procurou Maurício com o olhar, encontrou. Os dois trocaram um aceno discreto. Nenhum dos dois conseguiu sorrir.
A vitória da competição já parecia distante. Agora havia outra disputa. Muito mais silenciosa.
Murilo caminhou até o centro da quadra. Sem prancheta, sem apito. Apenas as mãos nos bolsos.
Esperou que o último murmúrio desaparecesse antes de começar.
— Primeiro... parabéns. — Olhou para o grupo inteiro. — O resultado da competição importava menos do que muita gente imaginava.
Alguns atletas levantaram a cabeça.
— O que nós observamos hoje não foi quem fez mais pontos. Nem quem ganhou mais sets. Foi quem ajudou o time a jogar melhor. Quem soube ouvir, quem soube competir. Quem continuou comprometido mesmo quando as coisas não deram certo.
Fez uma breve pausa.
— Isso é muito mais difícil de ensinar do que qualquer fundamento.
O silêncio permanecia absoluto. Até Fernando parecia incapaz de fazer alguma piada.
Murilo respirou fundo.
— Como vocês sabem... o elenco principal tem limite de vagas. Isso significa que alguns permanecerão no grupo profissional, outros disputarão a temporada pela equipe de desenvolvimento. E alguns seguirão caminhos diferentes.
Ninguém reagiu. Era exatamente a frase que todos esperavam ouvir. Mesmo assim doeu.
Murilo olhou rapidamente para os auxiliares. Recebeu um pequeno aceno. Então começou.
— Vou anunciar primeiro os atletas que permanecem no elenco principal.
Os veteranos vieram naturalmente.
— Gabriel Roman.
— Fernando Vetor.
— Felipe Sponatti.
— Paulo André Mascarenhas.
Nenhum deles demonstrou surpresa, apenas assentiram. Como se aquela confirmação fosse consequência do trabalho de anos. Murilo continuou. Vieram outros nomes.
Centrais.
Levantadores.
Opostos.
O grupo diminuía, restavam poucos novatos. Maurício sentiu o coração acelerar. Lucas mantinha os braços cruzados com tanta força que os dedos começavam a perder a cor.
Um nome.
Depois outro.
Mais um.
O silêncio aumentava a cada atleta chamado, até que Murilo levantou novamente os olhos.
— Lucas Pequeno.
Lucas permaneceu imóvel durante um segundo, como se precisasse confirmar que realmente ouvira o próprio nome. Fernando foi o primeiro a empurrar discretamente seu ombro.
— Vai, animal.
Lucas deu dois passos à frente, ainda incrédulo. Murilo voltou à lista. Restavam poucos nomes. Pouquíssimos.
Maurício percebeu que as mãos estavam tremendo, tentou escondê-las atrás do corpo. Não conseguiu.
Pensou no avô.
Na mãe.
Na irmã.
Pensou na mudança.
No hospital.
Na despedida de casa.
Pensou em todas as vezes em que quase desistiu.
Murilo levantou os olhos mais uma vez, os dois se encararam por um breve instante.
— Maurício Oliveira.
O mundo pareceu parar. Ele ouviu o próprio nome. Mas demorou alguns segundos para acreditar que era seu.
Fernando bateu palmas, Lucas abriu um sorriso tão grande que parecia maior do que o próprio ginásio. Maurício caminhou até a frente, as pernas pareciam leves demais. Parou ao lado de Lucas, os dois se olharam. Nenhum deles precisava dizer nada. Tinham conseguido.
Finalmente eram atletas do elenco principal do Matero.
Quando o último nome foi anunciado, Murilo dobrou lentamente a folha. Respirou fundo. Olhou para os atletas que permaneciam do outro lado, os que não haviam sido chamados.
O silêncio voltou. Dessa vez... muito mais pesado.
Porque todos sabiam que a lista ainda não tinha terminado.
Murilo permaneceu alguns segundos em silêncio. A folha continuava dobrada em suas mãos. Olhou para os atletas que ainda permaneciam do outro lado da quadra, nenhum deles precisava perguntar. Todos já tinham entendido.
Ainda assim... ninguém queria ouvir.
Murilo respirou fundo antes de continuar.
— Os atletas que não foram chamados para o elenco principal disputarão esta temporada pela equipe de desenvolvimento.
Alguns ombros relaxaram imediatamente, outros permaneceram tensos. Ainda havia esperança.
Ele começou a anunciar os nomes. Maurício escutava cada um deles. Alguns eram garotos com quem cruzou nas categorias de base. Outros tinham treinado ao seu lado praticamente todos os dias.
Quando a lista terminou, ainda restavam quatro atletas. Quatro rapazes, todos muito jovens. Todos em silêncio.
Murilo guardou lentamente a folha no bolso. Dessa vez, não havia mais nada escrito. Precisava falar olhando para eles.
— Infelizmente... não conseguimos espaço para todo mundo.
Ninguém abaixou a cabeça, talvez porque todos ainda estivessem tentando entender.
Murilo continuou.
— Isso não significa que vocês não tenham qualidade. Nem que a carreira de vocês terminou hoje.
Fez uma pausa.
Olhou rapidamente para a arquibancada vazia, depois voltou aos atletas.
— Havia observadores de outros clubes aqui durante toda a competição. Alguns treinadores já conversaram conosco. Vocês serão recomendados, receberão referências positivas. Tenho certeza de que continuarão jogando. Talvez não aqui, mas em algum lugar, porque talento vocês têm.
O silêncio permaneceu. Um dos garotos enxugou discretamente os olhos, outro respirava tentando controlar o choro. Murilo aproximou-se deles.
Cumprimentou um por um.
Sem pressa.
— Obrigado pelo trabalho de vocês.
Foi sincero. Depois voltou para junto da comissão técnica, não havia mais nada que pudesse fazer.
O grupo começou a se dispersar lentamente. Alguns comemoravam, outros ligavam imediatamente para a família. Havia abraços. Fotos. Lágrimas. Tudo ao mesmo tempo.
Maurício procurou Lucas. Encontrou o amigo sorrindo enquanto tentava explicar para Fernando que ainda não acreditava no que tinha acontecido. Gabriel abraçava discretamente um dos atletas promovidos.
A vida seguia. Foi então que Maurício percebeu Felipe.
O capitão caminhava na direção dos quatro atletas dispensados. Não carregava prancheta, não havia fotógrafos por perto, nenhum diretor, nenhuma câmera. Só eles.
Felipe parou diante do primeiro garoto. Os dois conversaram por alguns segundos. Maurício não conseguiu ouvir. Viu apenas Felipe colocar a mão em seu ombro.
Depois apertou sua mão demoradamente, o garoto assentiu, tentando sorrir. Felipe seguiu para o segundo, depois para o terceiro.
No último, o rapaz já chorava abertamente. Felipe não disse muita coisa. Apenas o abraçou. Um abraço rápido, sem espetáculo ou plateia.
Quando terminou, os dois permaneceram alguns segundos em silêncio. Depois o garoto respirou fundo, agradeceu e saiu do ginásio carregando a mochila nas costas.
Felipe ficou parado observando-o ir embora. Sozinho. Como se também estivesse perdendo alguém.
Maurício acompanhava tudo de longe. Sem perceber, sentiu uma culpa estranha crescer dentro do peito.
Lembrou da noite em que acusou Felipe de nunca precisar lutar por nada. Lembrou da forma como disse aquilo.
"Você nunca precisou se esforçar pra estar aqui."
Agora via aquele mesmo homem dedicando o próprio tempo justamente às pessoas que já não tinham mais nada para oferecer ao clube.
Sem ninguém olhando.
Sem esperar reconhecimento.
Sem precisar fazer aquilo.
Talvez... pensou Maurício... ele realmente não soubesse nada sobre Felipe.
— Mau!
Lucas apareceu praticamente correndo. Ainda segurava a folha com a relação do elenco.
— A gente conseguiu!
Maurício sorriu, abraçou o amigo. Mas, antes de sair da quadra, olhou uma última vez para Felipe. Ele continuava parado próximo à saída do ginásio. Cumprimentando, um a um, os garotos que deixavam o Matero.
Naquele instante... Maurício teve certeza de uma coisa. O capitão mais admirado do clube nunca era o homem que aparecia nas fotografias.
Era aquele que permanecia quando todos os outros já tinham ido embora.
○○○○
A noite caiu silenciosamente sobre o Matero. O ginásio, horas antes tomado por gritos, aplausos e bolas quicando no piso, agora permanecia escuro. Restavam apenas alguns refletores iluminando as alamedas entre os prédios. O clube parecia respirar mais devagar.
A alguns poucos quilômetros dali, no apartamento 214, Lucas ocupava metade do sofá. A caixa de pizza permanecia aberta sobre a mesa de centro. Fernando havia jurado que passaria "só cinco minutos". Quarenta minutos depois, continuava discutindo qual dos dois havia jogado melhor a final.
— Eu fui decisivo.
— Você perdeu.
— Detalhes.
Gabriel ria encostado na bancada da cozinha. Até Lucas já parecia recuperado da ressaca da noite anterior. Maurício observava aquela cena como quem tentava guardá-la em algum lugar.
Fazia menos de um mês e aquelas pessoas já pareciam fazer parte da sua vida havia muito mais tempo. A campainha tocou. Lucas levantou imediatamente.
— Deve ser outra pizza.
— A gente já pediu uma.
— Nunca é o bastante.
Abriu a porta. Não havia ninguém. Apenas uma caixa de papelão cuidadosamente apoiada sobre o capacho.
— Mau... Acho que é pra você.
Maurício aproximou-se. Seu nome aparecia escrito à mão. Nenhum remetente, franziu a testa. Pegou a caixa. Era surpreendentemente leve.
— O que é?
Lucas já tentava espiar.
— Não faço ideia.
Levou-a para o quarto, fechou a porta atrás de si. Sentou-se na cama. Por alguns segundos... apenas observou a embalagem. Desfez lentamente a fita adesiva, dobrou as abas de papelão.
Parou.
Ali dentro, cuidadosamente dobrada, estava uma camisa.
Amarela.
Gola verde.
Tecido antigo.
As mãos começaram a tremer antes mesmo que ele a tocasse. Conhecia aquele uniforme. Qualquer garoto que sonhasse vestir a camisa da Seleção conheceria. Era o modelo utilizado na conquista do primeiro ouro olímpico do vôlei brasileiro.
Passou os dedos sobre o tecido, depois percebeu. Assinaturas.
Uma.
Duas.
Dezenas.
O elenco inteiro.
Respirou fundo. No fundo da caixa havia apenas um cartão, pequeno, sem envelope. Escrito com uma caligrafia firme.
Pra te dar sorte na temporada.
Bem-vindo ao time.
Nada mais.
Nenhum nome.
Nenhuma assinatura.
Maurício sorriu sozinho. Sentiu o peito apertar, lembrou da discussão. Das palavras que nunca deveriam ter sido ditas, da forma como julgara alguém cuja história sequer conhecia.
Levantou-se. Caminhou até a varanda. Do outro lado da pequena alameda, o bloco D permanecia quase inteiro apagado.
Exceto por uma única janela. A luz ainda estava acesa. Maurício permaneceu olhando por alguns segundos.
Pensou em atravessar a rua, bater na porta. Agradecer. Pedir desculpas.
Não fez nenhuma das duas coisas. Sorriu de leve, voltou para dentro. Dobrou cuidadosamente o uniforme como quem segurava alguma coisa muito mais valiosa do que um pedaço de tecido.
Apagou a luz.
Na cobertura do bloco D... a luz continuava acesa.
🏐
Fim do capítulo.
💬 Agora eu quero saber de você:
O que você achou do presente?
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Nos amanhã, na próxima partida.
— Henrique Bravi
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