TERCEIRO SET

5 Capítulo 04: Dois Pares de Olhos


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O elevador levou apenas alguns segundos até o térreo, mas Lucas conseguiu reclamar durante o trajeto inteiro.

— Eu continuo achando um absurdo ter que usar camisa social pra comer de graça.

Maurício ajeitou discretamente a gola.

— É um coquetel. Seja lá o que isso signifique.

— Continua sendo comida um pretexto pra comer de graça.

As portas se abriram.

Os dois atravessaram o hall do edifício e encontraram outros atletas seguindo na mesma direção. Alguns vestiam ternos completos. Outros tentavam equilibrar a elegância com o desconforto evidente de quem passava a maior parte da vida de bermuda e tênis.

Lucas caminhava olhando para todos.

— Tá vendo? Ninguém tá confortável.

— Acho que essa é justamente a intenção. Pode parecer uma confraternização, mas continua sendo trabalho.

Lucas riu.

— Se for, eu preferia estar de uniforme.

O centro de eventos do Matero ocupava um prédio separado do complexo esportivo.

À distância, lembrava muito mais um teatro do que um salão de festas.

A fachada de vidro refletia as luzes da entrada, enquanto funcionários recebiam os convidados com uma organização silenciosa que contrastava com o movimento intenso dos estacionamentos.

Assim que atravessaram as portas, Maurício diminuiu o passo. O ambiente parecia cuidadosamente pensado para contar uma história. Não havia faixas comemorativas, nem slogans ou banners chamativos.

As paredes eram ocupadas por fotografias em preto e branco das primeiras equipes do clube. Em nichos iluminados, troféus de épocas diferentes dividiam espaço com camisas históricas, bolas antigas e pequenas placas contando momentos marcantes da instituição.

Não era uma exposição sobre títulos.

Era uma exposição sobre longevidade.

Lucas acompanhava tudo girando a cabeça de um lado para o outro.

— Se eu quebrar alguma coisa aqui, será que eles parcelam no salário?

— Provavelmente te demitem e você ainda sai devendo.

— Então vou andar com as mãos no bolso.

Maurício sorriu, mas sua atenção já havia sido capturada por outra coisa. As pessoas.

Dirigentes caminhavam com a tranquilidade de quem conhecia cada centímetro daquele lugar. Patrocinadores conversavam em pequenos grupos, taças nas mãos, sempre acompanhados por alguém do clube.

Funcionários transitavam quase invisíveis, antecipando pedidos antes mesmo que fossem feitos. E os atletas... Os atletas pareciam convidados dentro da própria casa.

Havia uma ordem naquele salão que ninguém anunciava.

Mesmo assim, todos pareciam conhecê-la.

Maurício não.

Desde já aprenderia que ali, jogar talvez fosse a parte mais fácil. Ocupar aquele espaço seria um desafio muito maior.

— Vocês demoraram.

Fernando surgiu ao lado deles segurando duas taças de champanhe.

Entregou uma para Lucas.

— Aproveita antes que comecem os antidoping. — Tomou um gole. — Achei que vocês tinham desistido de vir.

Lucas apontou para a própria camisa.

— Eu quase desisti quando descobri que isso tinha botão demais.

Gabriel apareceu logo atrás, impecavelmente vestido, mas com a gravata ligeiramente torta. Laura ajeitava o nó enquanto ele sorria.

Fernando olhou para eles e balançou a cabeça.

— Você fez a Laura passar quinze minutos arrumando essa gravata.

— Ele não para quieto, não consigo operar milagres.

Laura encarou os meninos por alguns segundos, como se esperasse alguém apresentá-los.

— Ah! Mauricio, Lucas. Esta é Laura, a mulher de péssimo gosto que me trocou por Gabriel.

— Vamos fingir que não foi você que terminou comigo pra ficar... enfim, deixa pra lá. — Laura sorriu simpática. — Prazer, meninos. Gabriel já me falou bastante sobre vocês.

Lucas esperou um segundo antes de comentar.

— Espero que bem, né.

Fernando apenas suspirou.

— É por isso que eu não apresento meus amigos uns aos outros.

Os cinco riram.

Por um instante, Maurício esqueceu completamente o tamanho do salão. A sensação de deslocamento diminuía quando estava perto deles.

Mas bastou erguer os olhos novamente para perceber que o evento estava apenas começando.

Mais convidados chegavam.

Mais rostos desconhecidos preenchiam o ambiente.

E, embora ninguém dissesse em voz alta, havia uma expectativa coletiva crescendo no ar, como se todos aguardassem a chegada de alguém realmente importante.

Fernando ainda conversava com Laura quando o som ambiente diminuiu alguns decibéis. Não foi um anúncio, nem um aviso. Foi apenas o suficiente para que as conversas naturalmente baixassem de volume.

Maurício percebeu antes mesmo de entender o motivo. Alguma coisa havia mudado. Um dos garçons passou apressado ao lado deles, outro atravessou o salão carregando uma bandeja de espumantes em direção à entrada principal.

Próximo ao palco, dois funcionários ajustavam discretamente um púlpito que, até poucos segundos antes, nem parecia existir.

Lucas acompanhava tudo com a testa franzida.

— Vai começar?

Fernando olhou rapidamente para a porta.

— Ainda não.

— Então por que tá todo mundo com essa cara?

Gabriel respondeu antes dele.

— Porque chegou quem realmente interessa.

Maurício virou automaticamente para a entrada. Primeiro entraram alguns homens de terno, acompanhados por assessores e fotógrafos. Depois vieram dirigentes do clube, cumprimentos, apertos de mão, sorrisos treinados. Nada muito diferente do restante da noite.

Então uma nova movimentação percorreu o salão. Desta vez, quase instantaneamente, fotógrafos abandonaram outras conversas. Patrocinadores interromperam frases pela metade. Diretores atravessaram o ambiente em direção à porta. Alguns atletas fizeram o mesmo. Outros apenas observavam de longe, como se aquilo já fosse rotina.

Lucas inclinou a cabeça.

— Quem são?

Fernando respondeu quase sem olhar.

— Futebol.

Só isso.

Nenhum sobrenome.

Nenhum cargo.

Nenhuma apresentação.

A palavra, sozinha, bastava. Entraram primeiro alguns membros da comissão técnica, depois jogadores. Camisas sociais impecáveis, relógios que provavelmente custavam mais do que o carro de Fernando.

Logo atrás deles surgiu o treinador da equipe principal. Foi recebido como uma celebridade.

Abraços, fotos, tapinhas nas costas. Até o presidente do clube caminhou alguns passos para encontrá-lo.

Maurício observava tudo em silêncio. Ao redor deles, atletas de outras modalidades continuavam espalhados pelo salão. Ninguém os expulsava. Ninguém os ignorava diretamente. Mas também ninguém parecia procurá-los.

Era como assistir duas festas acontecendo no mesmo lugar.

Lucas soltou um riso baixo.

— Achei que esse evento fosse pra todo mundo.

Fernando sorriu de lado.

— É. — Fez uma pequena pausa antes de completar. — Só que alguns aqui valem mais que outros. E é de dinheiro mesmo que eu tô falando.

Gabriel tomou um gole do espumante.

— Acostuma. Vão te dizer que todos os atletas são importantes. Alguns até acreditam nisso.

Laura cruzou os braços.

— Mas na prática, a gente sabe quem são os queridos.

Ninguém respondeu. Porque ninguém precisava.

Naquele instante, um fotógrafo passou correndo por eles para registrar a chegada de mais um atacante do futebol, esbarrou no ombro de uma atleta.

Pediu desculpas sem sequer olhar para trás.

Continuou correndo. A atleta apenas ajeitou o vestido e voltou à conversa como se aquilo acontecesse todos os dias.

Maurício acompanhou a cena até ela desaparecer no meio da multidão. Começava a entender que o Matero era muito maior do que um clube.

Era uma cidade.

E, como toda cidade, tinha bairros mais valorizados do que outros.

Foi então que percebeu Felipe. Diferente dos jogadores do futebol, ele não estava cercado por fotógrafos. Nem esperando cumprimentos, nem parado observando a movimentação.

Enquanto todos olhavam para a entrada principal, Felipe caminhava na direção oposta. Conversava rapidamente com uma funcionária da organização, apontava para uma das mesas. Ajudava um garçom a reorganizar cadeiras que impediam a circulação, cumprimentava um patrocinador pelo nome. E seguia andando antes mesmo que a conversa pudesse se prolongar.

Maurício acompanhou aquele percurso inteiro com os olhos. Teve a impressão de que Felipe não estava participando da festa. Estava seguindo um roteiro

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O discurso do presidente terminou sob aplausos educados.

Uma música instrumental voltou a preencher o salão e, pouco a pouco, as conversas retomaram o volume de antes. O protocolo havia acabado. O trabalho, não.

Maurício ainda observava o movimento quando um funcionário passou apressado.

— Felipe, o pessoal da imprensa já chegou.

Felipe apenas assentiu. Nem teve tempo de responder.

— Felipe, o presidente pediu dois minutos.

Era outra pessoa. Outro pedido. Outro sorriso educado.

— Já vou.

Assim que deu um passo, uma mulher de crachá interceptou seu caminho.

— Desculpa interromper, mas o patrocinador do Isotônico quer uma foto antes da entrevista.

— Claro.

Ela sorriu, aliviada.

— Obrigada.

Felipe sorriu de volta. O mesmo sorriso educado e controlado. Praticamente ensaiado.

Maurício não tirava os olhos.

— Ele nem conseguiu sair do lugar.

Lucas deu de ombros.

— Fama.

Fernando soltou um riso baixo.

— Não. Responsabilidade.

Lucas olhou para ele.

Fernando apontou discretamente para Felipe.

— Repara.

Os quatro permaneceram em silêncio.

Felipe caminhou até o patrocinador, apertou as mãos. Posou para fotografias. Ouviu alguma coisa que fez todos rirem. Agradeceu. Virou para sair.

— Felipe!

Agora era um atleta das categorias de base. Devia ter quinze ou dezesseis anos, segurava uma camisa dobrada contra o peito.

— Você assina?

Felipe sorriu imediatamente. Pegou a caneta. Conversou com o garoto por alguns segundos, perguntou seu nome. Escreveu alguma coisa na camisa, entregou de volta.

O menino saiu praticamente flutuando. Antes que Felipe pudesse dar mais dois passos...

— Capitão!

Era um dos garçons.

— Conseguimos outra mesa, mas ela ficou na frente do palco. Você acha melhor deixar ou trocar?

Maurício franziu a testa.

— Por que ele tá perguntando isso pro Felipe?

Gabriel respondeu naturalmente.

— Porque ele vai saber.

— Mas isso não é trabalho da organização?

Laura sorriu.

— Em teoria.

Fernando tomou um gole do espumante.

— O problema é que, quando você resolve tudo, as pessoas param de pensar em quem realmente deveria resolver.

A frase ficou pairando entre eles. Felipe caminhava novamente.

Outra interrupção.

Outra conversa.

Outro cumprimento.

Outro favor.

Outro sorriso.

Em nenhum momento alguém perguntou se ele queria beber alguma coisa. Ou sentar, ou simplesmente descansar.

Maurício percebeu que Felipe carregava uma taça desde o início da cerimônia.

Ainda estava cheia.

— Ele nem bebeu.

Lucas olhou.

— Verdade.

Quase como se o comentário tivesse sido ouvido, Felipe levou finalmente a taça até a altura dos lábios.

Não chegou a beber.

— Felipe!

Uma assessora apareceu praticamente correndo.

— Desculpa... o pessoal da TV quer gravar uma chamada rapidinho.

Ele baixou a taça.

— Agora?

— Se puder.

Felipe respirou tão discretamente que quase ninguém percebeu.

Quase.

— Claro. Entregou a taça ao garçom mais próximo.

Nem olhou para ela.

Saiu acompanhando a assessora.

O garçom permaneceu parado por alguns segundos, segurando a bebida intacta, antes de colocá-la sobre uma mesa qualquer.

Maurício continuou olhando para a taça.

Não sabia explicar por quê.

Só teve a estranha sensação de que aquela cena dizia muito mais sobre Felipe do que todas as fotografias tiradas naquela noite.

Laura foi a primeira a quebrar o silêncio.

— Às vezes eu fico pensando quando foi a última vez que deixaram ele simplesmente ser um jogador.

Ninguém respondeu porque ninguém ali tinha essa resposta.

Foi então que Murilo surgiu do outro lado do salão, diferente dos demais convidados, ele não procurou patrocinadores. Não parou para cumprimentar diretores. Nem sorriu para fotógrafos. Seu olhar encontrou Felipe imediatamente.

Esperou que a gravação terminasse.

Quando Felipe se aproximou, Murilo falou baixo, quase sem mover os lábios.

— Precisamos conversar.

Felipe não perguntou sobre o quê. Não reclamou, nem demonstrou surpresa. Apenas fechou os olhos por um instante. Como quem já sabia que aquele momento chegaria.

Entregou o microfone à assessora. Agradeceu. Ajeitou o paletó. E seguiu o pai pelos corredores laterais do salão. Maurício acompanhou os dois até desaparecerem atrás de uma porta.

Por algum motivo, a primeira coisa que pensou não foi que Felipe era importante, foi que ele parecia cansado.

O salão continuava cheio.

A música voltou a ocupar o espaço entre as conversas. Garçons cruzavam o ambiente levando bandejas já pela segunda vez. A festa seguia normalmente.

Maurício percebeu, porém, que seus olhos continuavam voltando para o corredor onde Felipe havia desaparecido.

Não sabia exatamente por quê.

Talvez porque tivesse sido a primeira vez que viu o capitão perder aquele sorriso impecável.

— Você vem?

Lucas já caminhava em direção ao buffet.

— Antes que acabem com as coisas boas.

Maurício assentiu.

— Já vou.

Esperou alguns segundos. Talvez Felipe voltasse, não voltou. Sem pensar muito, atravessou discretamente o salão. O corredor lateral era muito mais silencioso.

As vozes da festa chegavam abafadas, quase como um ruído distante. Havia portas fechadas dos dois lados.

Salas de reunião. Escritórios. Depósitos. No fim do corredor, uma porta permanecia entreaberta.

Foi então que ouviu.

— ...isso não pode continuar assim.

Era Murilo. A voz baixa. Controlada.

Felipe respondeu quase imediatamente.

— Eu sei.

Silêncio.

Maurício parou sem perceber. Não pretendia escutar, mas também não conseguiu ir embora.

Murilo voltou a falar.

— Eles já começaram a perguntar.

— Eu imaginei que perguntariam.

— Está ficando difícil segurar.

Outro silêncio.

Mais longo.

Quando Felipe respondeu, sua voz parecia cansada.

— Você disse que ainda tínhamos tempo.

Murilo respirou fundo.

— Eu também acreditava nisso.

Maurício franziu a testa.

Tempo para quê?

A resposta nunca veio. Em vez disso, ouviu passos. Instintivamente deu um passo para trás. Os dois ainda permaneciam dentro da sala. Murilo falava mais baixo agora, quase impossível de entender. A única frase que atravessou a porta foi dita por Felipe.

Sem elevar a voz.

Mas pesada.

— Eu não quero misturar isso com a equipe.

Silêncio.

Murilo respondeu algo que Maurício não conseguiu ouvir.

Depois:

— Eu sei.

Felipe continuou.

— Eles não têm nada a ver com isso.

Mais uma pausa.

Murilo respondeu num tom firme, porém sem agressividade.

— Você acha que eu não sei?

A resposta demorou.

Quando veio, quase parecia um pedido.

— Então me deixa resolver do meu jeito.

Maurício nunca soube exatamente por que aquela frase o atingiu.

Talvez porque, era a primeira vez que Felipe parecesse... jovem.

Não o capitão.

Não o exemplo.

Só um rapaz tentando convencer o próprio pai.

Antes que pudesse pensar em sair dali, ouviu passos novamente, desta vez muito próximos. A porta começou a abrir.

Maurício recuou imediatamente.

O coração acelerou, olhou ao redor. Não havia onde se esconder. A única saída era seguir andando. Foi exatamente o que fez.

Olhou rapidamente para o corredor. Não havia tempo para voltar sem ser visto, nem qualquer justificativa convincente para explicar por que estava ali.

A primeira porta ao lado estava entreaberta. Entrou. Fechou-a com cuidado, sem fazer barulho. Só então percebeu onde havia se escondido.

O cômodo era pequeno, estreito e iluminado por uma única lâmpada fria presa ao teto. Prateleiras metálicas ocupavam quase todas as paredes. Galões de produtos de limpeza, caixas de papel, baldes, rodos, vassouras e um aspirador antigo disputavam cada centímetro disponível.

Maurício soltou o ar devagar.

— Perfeito...

Mal havia terminado de murmurar quando ouviu a porta do corredor se abrir. As vozes de Murilo e Felipe ficaram mais próximas. Instintivamente deu um passo para trás.

O calcanhar encontrou alguma coisa, um cabo de rodo. O objeto deslizou lentamente pelo chão.

— Não...

Tentou segurá-lo antes que caísse. Ao se abaixar, bateu o ombro numa caixa de papelão. A caixa escorregou da prateleira, Maurício a segurou antes que atingisse o chão.

— Boa...

Mas, ao levantá-la de volta, empurrou sem querer a estrutura metálica. A estante respondeu com um estalo seco. Ele arregalou os olhos.

— Não, não, não...

Segurou a prateleira com as duas mãos. Por um segundo inteiro acreditou que tinha conseguido. Então um galão tombou, depois outro. Uma caixa caiu. Um balde bateu no chão.

E, finalmente, toda a estrutura metálica sacudiu com um estrondo que pareceu ecoar pelo corredor inteiro.

Maurício fechou os olhos.

— Ah, droga...

Do lado de fora, fez-se silêncio.

— Você ouviu isso? — perguntou Felipe.

— Deve ser o pessoal da limpeza. — A voz de Murilo soava distante, cansada. — Vem, estão esperando.

Houve uma pausa.

— Pode ir. Eu vejo o que foi.

Os passos se separaram. Um seguiu em direção ao salão, o outro veio na direção da porta.

Maurício respirou fundo.

— Ótimo.

A maçaneta girou, a porta se abriu lentamente. Felipe apareceu primeiro, olhou para dentro. Depois permaneceu completamente imóvel. Maurício também.

Os dois ficaram alguns segundos apenas se encarando.

Felipe quebrou o silêncio.

— Então... — Respirou fundo. — Sério?

Maurício continuava segurando a prateleira inclinada, numa posição tão desconfortável quanto ridícula.

— Eu posso explicar.

Felipe olhou para a estante, depois para Maurício, depois para o cabo de rodo caído no chão.

Voltou a encará-lo.

— Tenho um pouco de medo dessa explicação.

— Eu entrei aqui porque...

Maurício desistiu no meio da frase. Nem ele acreditaria na própria história. Felipe soltou um suspiro curto. Não de irritação, de resignação. Entrou no depósito e fechou a porta atrás de si.

— Tá pesada?

— Mais do que parece.

Felipe apoiou as mãos na lateral da estante.

— No três.

Maurício assentiu.

— Um...

— Dois...

— Três.

Empurraram juntos.

A estrutura voltou lentamente para a posição original. As caixas pararam de escorregar. Os galões deixaram de balançar.

Maurício sorriu, aliviado.

— Acho que foi.

Felipe observou a estante por mais um instante.

— Parece que sim.

O silêncio durou exatamente dois segundos. Então ouviu-se um estalo metálico. Os dois ergueram os olhos ao mesmo tempo.

— Não...

A prateleira inteira despencou para frente. Caixas, baldes, galões e cabos de vassoura caíram numa avalanche desajeitada.

Felipe puxou Maurício pelo braço por instinto, os dois conseguiram escapar por centímetros. A estrutura bateu com força contra a porta.

CLANG!

O depósito voltou ao silêncio. Só o som de um frasco rolando pelo chão permaneceu por alguns segundos.

Felipe olhou para a bagunça.

Depois tentou abrir a porta. A maçaneta girou, a porta não. Tentou novamente. Empurrou. Puxou. Nada. A estante havia deslizado exatamente o suficiente para prensar a porta pelo lado de dentro.

Maurício passou a mão no rosto.

— Isso... isso não é possível.

Felipe permaneceu alguns segundos olhando para a fechadura.

Depois respirou fundo.

Muito fundo.

Virou-se para Maurício.

— Você disse que podia explicar.

Fez uma pausa.

— Acho que agora nós temos tempo.

Os dois tentaram mais uma vez. Felipe empurrou a porta com o ombro. Maurício segurou a maçaneta e puxou ao mesmo tempo. Nada.

— Mais uma.

Empurraram juntos, a porta sequer estremeceu. Felipe deu dois passos para trás e apoiou as mãos na cintura.

— É... Acho que piorou.

Maurício soltou uma risada sem humor.

— Não sei se isso ajuda ou atrapalha.

Tentaram bater. Primeiro com as mãos, depois com um cabo de vassoura. Gritaram algumas vezes.

— Tem alguém aí?

— Ei!

Silêncio. Durante alguns segundos ainda conseguiam ouvir o burburinho da festa, depois a música mudou. Um grave eletrônico começou a vibrar através das paredes. Os aplausos deram lugar ao som da pista sendo aberta.

Felipe soltou o ar pelo nariz.

— Agora esquece.

Os dois desistiram quase ao mesmo tempo. Sentaram no chão, cada um encostado numa parede. O depósito voltou a ficar em silêncio, Felipe afrouxou o nó da gravata. Desabotoou os dois primeiros botões da camisa, passou a mão pelos cabelos.

O topete perfeitamente alinhado da cerimônia desapareceu em segundos. Maurício acompanhou cada movimento. Felipe percebeu.

— O quê?

Maurício desviou os olhos.

— Você sempre faz isso.

— Isso o quê?

— Arruma o topete com o dedo mindinho.

Felipe ficou alguns segundos olhando para a própria mão. Mexeu nela como se estivesse tentando confirmar. Depois deu uma risada baixa.

— Nunca reparei.

O silêncio voltou. Maurício passou a mão pelos bolsos, franziu a testa.

— Consegue ligar pra alguém? Meu celular... morreu.

Felipe fechou os olhos.

— Merda.

— O quê?

— O meu ficou na sala do Murilo.

Felipe apenas assentiu, nem pareceu estranhar. Maurício estranhou por ele. Desde que chegou ao Matero, nunca ouviu Felipe dizer "meu pai". Sempre dizia "Murilo". Como se o sobrenome pesasse menos que o parentesco.

Ficaram alguns segundos ouvindo apenas a música abafada do outro lado da parede. Maurício apoiou a cabeça atrás.

— Meio apertado aqui, né?

Felipe soltou um sorriso pequeno.

— Tô acostumado com ambientes sufocantes.

A resposta saiu leve demais para ser uma piada. Maurício virou discretamente o rosto. Felipe continuava olhando para a porta, não parecia estar falando daquele depósito.

— Difícil ser capitão?

Felipe pensou por um instante.

— Acho que essa é a parte fácil.

Maurício esperou.

Felipe continuou sozinho.

— As pessoas gostam de achar que liderança é dar discurso. Cobrar treino. Assumir a culpa quando perde. Isso é tranquilo.

Silêncio.

— O complicado...

Parou.

Respirou.

"...é quando todo mundo precisa de uma versão diferente de você."

Maurício permaneceu quieto.

Felipe sorriu de canto.

— Maurício...

— Hum?

— Cê tá fazendo aquilo de novo.

— O quê?

— Tentando ser meu amigo.

Maurício bufou.

— Não viaja.

— Não?

— Não. — Deu de ombros. — Você que é muito convencido.

Felipe riu. Pela primeira vez naquela noite, uma risada de verdade.

Só que ela desapareceu tão rápido quanto surgiu. Felipe inclinou um pouco a cabeça.

— Ei.

Maurício não respondeu. Respirava mais rápido do que antes, as mãos apertavam o próprio joelho. Os olhos percorriam o depósito sem conseguir parar em lugar nenhum.

Felipe franziu a testa.

— Maurício.

Ele demorou alguns segundos para levantar o olhar.

— Tá tudo bem?

— Tô.

Mentira. O ar parecia menor. As paredes, mais próximas. Felipe olhou discretamente ao redor, depois voltou para ele. Falou num tom completamente diferente daquele usado na quadra.

Baixo.

Calmo.

Quase paciente.

— Ei...

Esperou Maurício encontrar seus olhos.

— Respira.

Fez uma inspiração lenta, exagerada de propósito.

— A gente já vai sair daqui.

Maurício tentou inspirar outra vez. O ar entrou pela metade, saiu antes de chegar ao fim. Seu peito parecia pequeno demais. As paredes do depósito pareciam menores a cada segundo. Felipe percebeu antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa.

Aproximou-se devagar.

— Ei...

Maurício apertava os próprios dedos com tanta força que os nós dos dedos haviam ficado brancos.

— Olha pra mim.

Ele balançou a cabeça negativamente.

— Não consigo...

A respiração ficou ainda mais curta. Felipe se ajoelhou diante dele, sem pressa. Como se qualquer movimento brusco pudesse piorar tudo.

Uma das mãos pousou atrás de sua nuca. A outra segurou de leve seu ombro. Nem forte, nem fraco. Só o suficiente para lembrá-lo de que havia alguém ali.

— Maurício.

Os olhos demoraram alguns segundos para encontrá-lo.

— Isso. Continua olhando pra mim. Respira junto comigo.

Felipe inspirou profundamente, bem devagar. Exagerando o movimento de propósito.

Expirou.

Esperou.

Inspirou outra vez.

— Assim. Vamos.

Maurício tentou acompanhar, falhou. Tentou de novo, o ar continuava preso. A garganta queimava, os olhos marejavam.

— Parece... — Respirou entrecortado. — Parece que eu tô morrendo...

Felipe sorriu de canto. Um sorriso pequeno, quase invisível.

— Não seja exagerado.

A voz saiu surpreendentemente tranquila.

— Você não tá morrendo. Só esqueceu como respira. Vamos lembrar juntos.

Outra inspiração.

Outra expiração.

Mais lenta.

Mais calma.

Pouco a pouco o peito de Maurício começou a acompanhar aquele ritmo. As mãos deixaram de tremer. Os ombros relaxaram alguns centímetros, o silêncio voltou a ocupar o depósito.

Foi só então que Maurício percebeu o quão perto estavam. Nunca tinha visto Felipe daquela distância, o topete impecável havia desaparecido. Algumas mechas caíam sobre a testa.

Os primeiros botões da camisa permaneciam abertos, a gravata pendia frouxa ao redor do pescoço. Não existia fotógrafo, nem patrocinador, nem torcida, nem capitão. Só um rapaz de vinte e quatro anos tentando acalmar outro.

Felipe também percebeu.

Os olhos de Maurício finalmente estavam tranquilos e presos aos seus. Por um instante... ninguém disse nada. Felipe sentiu o rosto aquecer. Desviou os olhos primeiro. No mesmo instante—

Toc. Toc. Toc. Três batidas na porta.

Os dois quase se assustaram. Uma voz surgiu do outro lado da porta.

— Tá tudo bem aí?

Maurício reconheceu imediatamente.

Fernando.

Antes que pudesse responder, Lucas falou logo atrás.

— A gente ouviu um barulho... — Fez uma pausa. — E também tamo procurando um whisky. Tem aí dentro?

Maurício soltou uma risada involuntária. Felipe respirou fundo, depois gritou:

— A GENTE TÁ PRESO AQUI!

Silêncio.

Do outro lado.

Então:

— Como é?

Fernando perguntou.

— A GENTE TÁ PRESO!

Ouviu-se um "eu falei que tinha alguém aí" vindo de Lucas. Alguns segundos depois começaram as tentativas de abrir a porta. Primeiro a maçaneta, depois empurrões.

— Sai da frente!

— Eu já tô!

— Não, você tá atrapalhando!

— Fernando, você que tá—

CRASH!

A porta finalmente cedeu. A estante deslizou alguns centímetros, luz invadiu o depósito. Fernando foi o primeiro a entrar, parou imediatamente. Lucas apareceu logo atrás. Também parou. Os dois permaneceram absolutamente imóveis.

Maurício estava sentado no chão, suado. A camisa aberta até o terceiro botão, ainda respirando fundo. Felipe permanecia ajoelhado ao seu lado, a gravata frouxa. O cabelo completamente bagunçado. Uma das mãos ainda apoiada na nuca de Maurício.

O silêncio durou três segundos.

Fernando olhou para um, depois para o outro. Sorriu lentamente.

— Parece que dessa vez... — Olhou novamente para Felipe. — ...não foi o capitão que precisou salvar o dia.

Lucas continuava tentando entender a cena. Piscou algumas vezes, olhou novamente.

— Eu... — Fez outra pausa. — Eu tenho tantas perguntas...

Maurício fechou os olhos.

— Nem começa.

Felipe soltou uma risada. Uma risada verdadeira. A primeira que Maurício presenciou desde que chegou ao Matero. E desde que os dois se conheceram, o silêncio entre eles já não parecia tão desconfortável.

Enquanto voltavam para o salão, Maurício caminhava alguns passos atrás do grupo. Ainda recuperava o fôlego.

Fernando e Lucas discutiam qual dos dois realmente havia arrombado a porta.

— Fui eu.

— Você só gritou.

— A intimidação também é técnica.

Maurício sorriu sozinho.

Felipe seguia alguns metros à frente, ajeitando distraidamente a gravata enquanto tentava colocar o topete minimamente no lugar. Então, sem olhar para trás, perguntou:

— Tá respirando direito?

Maurício demorou um segundo para responder.

— Tô.

Felipe apenas assentiu, continuou andando. Mal atravessou a porta do salão e uma voz o interceptou.

— Felipe.

Murilo esperava por ele exatamente onde o corredor encontrava o salão principal. Os fotógrafos continuavam circulando. A música seguia alta, ninguém parecia notar a conversa.

Murilo lançou um rápido olhar para o relógio.

— Onde você estava se escondendo?

Felipe respirou fundo antes de responder.

— Tivemos um problema.

— Depois você me conta.

Murilo nem esperou a explicação. Ajeitou discretamente o paletó do filho, como quem recolocava uma peça no lugar.

— Preciso de você aqui. — Fez uma pausa curta. — Faz a sua parte.

Felipe apenas concordou com a cabeça.

— Ok.

Murilo voltou imediatamente para o meio dos convidados. Felipe permaneceu parado por um instante. Respirou. Recompôs o sorriso. E caminhou em direção ao primeiro grupo de patrocinadores que já o aguardava.

Maurício observou de longe. Pela segunda vez naquela noite, viu Felipe vestir o mesmo sorriso.

Só que, agora, sabia que ele não surgia sozinho.

Era colocado.

Como a gravata.

Como o paletó.

Como parte do uniforme.

🏐

Fim do capítulo.

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— Henrique Bravi