Tão gelado quanto sangue.
11 Crime perfeito.
Notas iniciais
Somos suspeitos
De um crime perfeito
Mas crimes perfeitos
Não deixam suspeitos
Pra ser sincero – Engenheiros do Hawaii.
Setembro de 1966.
Annie bateu a porta do quarto e grunhiu tão alto que John sentiu raiva.
Ele ainda encarava aquele pedaço de papel na frente dele. Tudo que ele queria era fazer aquilo desaparecer. Ele teria que se apresentar dali a uma semana. Ele tinha apenas mais uma semana com Annie. Tudo estava acontecendo tão rápido na vida de John. Num minuto ele tinha Annie novamente, no outro ele queria ficar com ela até envelhecer e agora estava sendo proibido de continuar com ela por sabe-se lá quanto tempo. Ele odiava a guerra e odiava ser obrigado a ir para ela.
Mas era Annie o grande problema. Ela não era mais ela mesma. Ela estava cada vez mais triste. Ela odiava o trabalho novo. Ela odiava o velho apartamento.
Antigamente, Annie era uma grande estrela. Brilhante e expansiva. Hoje, Annie era como um grande buraco negro. Confuso e destrutivo.
Doía em John ver ela dessa forma. Como ela ficaria quando ele partisse? Ela não agüentaria ficar sozinha daquela forma.
O coração de John pesava. Ele não podia partir. Ir para uma guerra sem dia para voltar e se um dia voltaria...
Era demais. Ele colocou a mão na cabeça e suspirou. Eles não podiam mais brigar. Eles tinham que fazer as pazes, pois logo ele estaria de partida e não a veria mais. Ele sentiu vontade de chorar. Mas segurou. Ele tinha que ser forte e não só por si. Ele tinha que ser forte por ela também. Ele se recostou no sofá e olhou para o teto. Ele tinha tanta coisa na cabeça que sua cabeça doeu. Ele se levantou e foi até o banheiro. Pegou no armário de remédio uma aspirina. Correu até a cozinha e encheu um copo de água e engoliu o comprimido. Esperava que o remédio fizesse efeito, não queria ter uma dor de cabeça para completar o pacote de tragédias do dia.
Ele foi até o quarto e Annie estava sentada na escada de incêndio do lado de fora do prédio. Ela ainda usava aquele vestido vermelho com as longas meias, mas não usava sapatos. Ela roia as unhas e tinha uma folha de papel em seu colo. Estava escrevendo. Ele se sentou na cama e juntou as mãos entre as pernas meio abertas.
– Não quero te ver triste. – ele disse, mas ela não respondeu.
Annie estava completamente focada em sua escrita. Ela já havia conseguido publicar alguns de seus poemas em uma coletânea não tão famosa, sob o heterônimo Érika Martinez. Não era muito, mas já era um começo. John se sentia feliz por ela, mas ela não se sentia feliz por si mesma.
Uma brisa passou fazendo seus cabelos, que agora mais compridos que no começo do ano, se moverem lentamente. John pegou seu caderno de rascunho e desenhou. O modo como as mechas passavam em frente ao seu rosto, o modo como ela mordia o lábio interior enquanto pensava, como franzia o cenho com aquela expressão de pensativa. Ele a capturou naquele momento. Naquele momento, ela e ele eram as únicas pessoas no mundo.
Annie levantou os olhos do papel e lhe sorriu um sorriso envergonhado. Ela era ainda mais bonita daquele jeito. Ela se levantou e voltou para o quarto.
– Escrevi mais um. – ela lhe estendeu a folha de papel.
– E eu desenhei mais um. – ele lhe entregou o caderno.
John olhou o poema e leu cada palavra lentamente.
Meu coração é pesado.
Não, ele está pesado.
Sinto raiva, amargura,
Desilusão e
Quem sabe um pouco de solidão.
Minha alma é pesada.
Tão pesada que é difícil de carregar,
É tanto peso que chego a cansar.
Não quero mais carregar.
Ele novamente me olha
E não sei o que falar.
Só sei que sou pesada.
Pesada demais para mim aguentar.
John afastou os olhos do papel e a olhou nos olhos. Toda vez que ele lia um poema dela que era tão melancólico, ele sentia uma triste quase insuportável. Era como se ele não pudesse a fazê-la feliz, e isso o matava pouco a pouco.
– É lindo. – ela disse tocando a folha em que ele a havia desenhado.
John apenas assentiu. Ambos conseguiam criar beleza com as mãos, mas a beleza de Annie era uma beleza triste e cruel. Ele gostava de seus poemas logo no começo. Eles eram algumas vezes tristes, mas tinham uma luz alegre. Ele não conseguia explicar. Mas agora eram todos sobre como ela não conseguia mais aguentar o peso de tudo.
– O mesmo.
Ela deitou na cama.
– Não é. – ela disse. – É triste demais, melancólico demais. – Um suspiro escapou por entre seus lábios. – Eu sei que há algo de errado comigo e eu não sei como começou, mas só sei que me sinto assim.
Ela estava deitada encolhida na cama e ainda roia as unhas. Ele queria tirar a mão dela da boca e apertá-la contra si. Mas não fez. Ele viu o anel de noivado no dedo dela e a dor em seu coração cresceu. Eles deveriam se casar dali a três meses, mas agora tudo teria que ficar para quando ele voltasse da guerra.
–Não fale desse jeito. – disse John. – Eu estou aqui para ficar com você.
Ela deitou a cabeça na perna dele e ele acariciou os cabelos castanhos dela.
– Me desculpe por ter perdido a calma.
John apenas concordou. Ele lhe deu um beijo na testa e ela fechou os olhos.
– Eu não gosto de me sentir assim – ela disse baixinho. – Isso me corroeu por dentro e eu também não quero passar pelo eletrochoque. – Seus olhos estavam arregalados de medo. – Não quero passar pelo que a Sylvia ou a Esther passaram.
John pegou sua mão. Lê já não gostava mais que ela lesse Sylvia Plath, aquilo apenas fazia cada vez mais mal a ela.
Naquela relação ambos se amavam muito, mas ambos estavam se matando. Era como se um sugasse a vontade de viver do outro e isso já não era mais amor. Aquilo era o crime perfeito. Era o assassinato mais impecável de todos. Ambos morriam por dentro, sem nunca haver uma evidencia real. E o melhor de tudo, eles eram os únicos suspeitos nesse crime perfeito em que não existiam suspeitos.
Pra ser sincero
Não espero que você
Me perdoe
Por ter perdido a calma
Por ter vendido a alma
Ao diabo
Pra ser sincero – Engenheiros do Hawaii
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