Ochako suspira pelo que deve ser a milésima vez hoje e analisa o estrago em sua calça. Se ela enrolasse a barra até a canela, ainda daria para utilizá-la, mas isso provavelmente não é possível, o uniforme, mesmo o de ginástica, segue um padrão que ela deve respeitar. Bom, o jeito é cortar a parte queimada e reaproveitar a calça de alguma forma, amanhã ela pedirá uma nova e… será que tem que pagar?

Quando a jaqueta dela foi destruída na luta contra o Bakugou no Festival Esportivo, a escola lhe forneceu uma nova de graça, e se for uma cortesia que só acontece uma vez? Ela precisa checar isso amanhã, se tiver que pagar, a garota vai esperar mais um pouco e ver se alguém tem uma calça extra para emprestar, a Mina é quem tem as medidas mais parecidas com as dela, mas a da Yaomomo talvez também sirva, se Ochako pedir com jeitinho, pode ser que a vice-presidente até tope fazer uma calça nova e dar um descontinho.

Certo, então esta é a lista de afazeres pros próximos dias.

— Pedir uma calça de ginástica nova na administração.

— Se tiver que pagar, pedir para a Mina ou para a Yaomomo emprestar

— Reunir-se com a Jirou e com o Kirishima para fazer o trabalho de Teoria e Análise Heroica

— Beijar o Bakugou

— Comprar presente de aniversário da Tsu

Ochako sente o rosto queimar e amassa o papel levemente nas bordas ao reler o penúltimo item, mas limpa a garganta e se recompõe. Ela diz a si mesma como um mantra. “Não é nada demais. É só um beijo. É para o bem dele. Seja profissional.” talvez se ela repetir o bastante em sua cabeça, Ochako comece a acreditar nisso.

Ela sabe o que precisa fazer, o Aizawa-sensei disse que isso não é responsabilidade dela, mas… assim, meio que é? Ele a salvou da flechada, não fosse por aquilo, a arma teria a acertado em um ponto vital e… não, mas a flecha e o ferimento sumiram, ela provavelmente não teria sofrido nenhum dano grave, só… estaria louca de amor pela primeira pessoa em quem botasse os olhos, e se essa pessoa fosse o Bakugou?

Nossa, e se tivesse sido esse o caso? E se fosse ela bradando sua paixonite por ele, como ele reagiria? Será que ficaria constrangido e tentaria evitá-la como ela vem fazendo? Será que ele ficaria se questionando sobre agir ou não para resolver essa situação?

Não, o Bakugou a beijaria sem pestanejar, ele é um herói, se tirá-la dessa e livrá-lo da encheção de saco significa beijá-la, ele com certeza faria. E é por isso que Ochako deve beijá-lo, porque o Bakugou faria isso por ela.

Mesmo que… as situações não sejam exatamente equivalentes, ela não sabe da vida dele nesse aspecto, mas sabe que no caso dela, seria o seu primeiro beijo, no garoto que ela coincidentemente gosta. O Bakugou não gosta dela, pra ele seria como… respiração boca a boca, apenas um procedimento padrão para salvar uma vida. Não é assim pra ela, mas é assim que precisa ser.

Ochako tem que beijá-lo.

Mas assim que ela chega na área de convivência para jantar e o vê encostado contra o balcão, ela se depara com uma importante questão:

Como raios ela vai fazer isso?

O ideal seria resolver tudo o mais rápido possível, também conhecido como “agora”, mas não dá para simplesmente chegar nele e tascar-lhe um beijo, não na frente de todo mundo, Ochako prefere passar por essa humilhação de maneira mais privada.

Então… pedir um minutinho a sós com ele? De novo, não na frente de todo mundo, pode não ter muitas pessoas aqui no momento, mas dá para sentir os olhares curiosos deslizando dela até o Bakugou desde que Ochako adentrou o recinto. Mesmo que ela o convencesse a ir a um lugar mais reservado, o pessoal daria um jeito de bisbilhotar, tem pessoas com as individualidades perfeitas pra isso — o Shoji é muito reservado, provavelmente nem tem interesse nesse drama todo, mas a Jirou e a Hagakure? Ha, elas chegariam ao tal lugar antes dela e do Bakugou — simplesmente não dá.

Mandar uma mensagem a ele? É a melhor opção, não fosse pela vergonha que ela sente assim que selecionou o contato dele para escrever a mensagem. Ochako tem o número dele desde a primeira semana de aula, a Yaomomo forneceu uma lista com os telefones da turma e ela salvou o de todo mundo, mas nunca mandou mensagem para ele, nunca houve necessidade ou sentido, então ela não tem nem ideia do que escrever em sua primeira mensagem direta para o garoto que gosta. E lá vai outro suspiro.

Essa situação talvez fosse bem mais fácil se ela não gostasse tanto dele.

Notando que o Kirishima está indo na direção do Bakugou, ela avança para a cozinha para pegar seu jantar, é ridículo como ela conta com o ruivo para distraí-lo da presença dela, Ochako só quer jantar em paz enquanto pensa em como vai abordá-lo para beijá-lo.

Ironicamente, não é o Bakugou que percebe ela ali, mas sim o Kirishima.

— Uraraka, e aí? Tava falando com a Jirou sobre nosso trabalho, a gente pode marcar pra amanhã? Hoje eu tô quebradão, a aula do All Might foi puxada!

— Ah… sim, foi mesmo. Por mim tudo bem também, vamos descansar hoje pra virmos com tudo amanhã! — ela ergue o punho e sorri antes de se afastar.

— Uraraka. — a voz do Bakugou parece ressoar em algum lugar bem fundo de seu ouvido — Você- como você tá? O que achou da aula do All Might? — oh, isso é… uma conversa que ela pode ter com ele em público.

— Ah, foi bem puxado, né? Assim que eu vi que ia contra o Todoroki-kun, senti um calafrio, achei que ele já tava até usando a individualidade em mim e a nossa luta nem tinha começado! — o Kirishima dá uma risadinha, já o Bakugou permanece com sua expressão que é praticamente marca registrada.

— Pode crer, mas você foi muito bem! Não é todo mundo que dá canseira pro Todoroki!

— É, né? — ela fica meio sem-graça, mas não consegue discordar do Kirishima. Ochako sabe que foi bem contra o melhor aluno da sala, ela perdeu porque… é O Todoroki, mas sente que deu seu melhor e está orgulhosa, mesmo que isso tenha lhe custado uma calça, tostada na barra e algumas queimaduras nas panturrilhas. Nossa, outra coisa para a lista de afazeres: passar uma pomada nessas queimaduras, estão ardendo um pouquinho — Enfim, bom jantar pra vocês, eu- — ela ergue um braço para acenar, e é nesse braço que o Bakugou pega antes que ela possa sair.

Ochako se sente gelar, dedos ásperos e ossudos envolvem o pulso dela com… delicadeza? Sim, o gesto foi meio brusco, mas o toque dele é tão gentil que mal dá para sentir.

— Quero falar com você.

— Hã… claro. — será mesmo que ela vai ter essa sorte e não precisar tomar a iniciativa? Seria ótimo!

— Não agora. Mais tarde, quando esse bando de figurante tiver ido dormir. — Vish!

— T-tudo bem, mas… você tem certeza que consegue ficar acordado até tão tarde? — Que… Ochako? Por que ela está o provocando? Será que ela bateu a cabeça durante a luta com o Todoroki e nem lembra?

— Se é por você, eu não ligo. — Ah lá! Tá vendo? É isso que ela ganha, o coração batendo tão forte que parece que vai criar pernas. Ela tava pedindo depois de ter feito gracinha com ele — Te mando mensagem quando a barra tiver limpa.

— V-você tem meu número?

— Eu passo pra ele! — o Kirishima se manifesta, e Ochako se sente um pouco mal por… ter esquecido por um minuto que o ruivo está aqui — Boa janta pra você!

Ochako mastiga e engole o jantar sem perceber o que está fazendo, seu corpo está aqui, mas sua cabeça viajou no tempo com destino a algumas horas daqui pra frente.

Ao voltar para o quarto, a primeira coisa que ela faz é escovar os dentes. Se é pra beijá-lo, vai ser com gostinho de canela, não com o gosto do marmitão que ela acabou de bater.

***

Estaria completamente escuro na sala de estar não fosse pela luminária acesa próxima ao sofá, ela se aproxima como se não soubesse o que iria encontrar, mas sabe muito bem: o Bakugou está sentado, apoiando o queixo sobre a mão enquanto mexe no celular despretensiosamente.

Ochako gosta de observá-lo assim, ela está acostumada a vê-lo sempre irritado e gritando, então os momentos em que ele está calado e aparentemente calmo atraem o seu olhar, às vezes ela deixa seus olhos escaparem da lousa para admirá-lo fazendo anotações na aula, o cenho dele franzido não em irritação, mas em concentração, mas logo o Sero ou o Kaminari fazem alguma gracinha e ele vira com tudo para gritar com eles, acabando com a magia.

Dessa vez, ela mesma acaba com o momento ao soltar um tímido “...oi”, ele ergue a cabeça para olhá-la e lá está, um pouquinho abaixo das pupilas, aquele brilho estranho que surgiu no minuto em que a flecha o acertou, parece mais intenso assim contra a luz da luminária, de modo que ela consegue ver o formato dele. E claro, não seria ridículo o bastante se não fosse em forma de coração. Que individualidade risível, como dois heróis em treinamento na melhor escola da área se deixaram afetar por ela? Como o poderoso Bakugou Katsuki caiu no efeito dela assim tão fácil?

— Senta. — mesmo sem “por favor”, ela entende que é um pedido, não uma ordem. Ochako se senta ao lado dele. Mas antes que possa dizer qualquer coisa, ele sai de onde está, ficando em pé de frente para ela… e se ajoelhando logo depois.

Ah pronto! Ele tá tão louco na individualidade que vai pedí-la em casamento? Ochako aproveita que ele está com a cabeça baixa para fazer uma careta de zombaria, mas acaba arregalando os olhos e segurando um gritinho quando sente os dedos ásperos dele apertarem a perna dela.

— B-Bakugou-kun?! — o rosto dela parece um balão de ar quente, Ochako quase sente fumaça sair de suas orelhas.

— Tsk, mesmo que seja queimadura de primeiro grau, precisa tratar! — Ela está tão chocada e envergonhada que só fica observando a cena — Você lavou isso aqui?

— S-sim.

— Pelo menos isso. Me dá esse creme aí! — ele aponta com a cabeça pois suas mãos estão ocupadas MASSAGEANDO AS PERNAS DELA! E só então ela vê um pequeno tubinho jogado onde ele estava sentado. Ah, é pomada! Ela entrega para ele, certa de que já não sabe mais o que está acontecendo. — Tem uma bolha aqui, mas é de leve, deve melhorar em uma ou duas semanas.

— Sim, não foi nada demais! E-Eu consegui pular antes de o Todoroki-kun me acertar com o fogo, mas pegou um pouquinho…

— Aquele Meio a Meio imbecil, agora ele deu pra usar aquela porra de poder de fogo! Comigo ele arregou! — ele é agressivo no tom, mas gentil no toque, arde um pouco quando os dedos dele pressionam as partes mais queimadas, mas nem de longe chega a ser ruim, e então ele dá uma leve risada, e o coração dela falha uma batida — A cara de imbecil dele quando você tacou aqueles nacos de gelo foi engraçado pra porra! — sem saber o que responder, ela dá uma risada sem-graça, mas aí ele volta a ficar sério — O lance com ele é inutilizá-lo no lado direito antes de mais nada, o idiota é muito confiante no poder de gelo, se ficar sem ele, ele fica instável já que não tem tanto controle com o fogo. Pensa nisso na próxima. — ela poderia agradecer pela dica, mesmo que seja inútil agora que a luta já foi, mas o simples fato de receber uma dica dele já a deixa sem palavras — Mas você foi bem, pode melhorar, mas foi bem. — ele martela o último prego no caixão, e Ochako tá começando a achar que isso é um sonho.

Mas não deve ser, porque o toque firme e preciso dele é real demais, o coração acelerado dela é real demais, os olhos vermelhos dele a olhando com intensidade e algo semelhante à adoração é real, principalmente quando se aproximam, a respiração dele tão próxima ao rosto dela é real e… espera, o quê?

Ele tá perto, muito perto! Seus narizes estão quase se encostando e um cheiro doce lhe invade as narinas. Ochako ficou todo esse tempo pensando no que teria que fazer para beijá-lo, mas não pensou na possibilidade de o próprio Bakugou acabar tomando a iniciativa, isso é… ótimo, bem mais fácil pra ela, perfeito!

Tirando o fato de que não é, e ela com certeza não está pronta pra isso! Sentindo as pontas do indômito cabelo dele roçar-lhe a testa, Ochako se dá conta de que não é uma questão de “querer” ou “precisar” beijá-lo. Nunca foi.

A questão é que ela não consegue.

Ela vira a cabeça pro lado e fecha os olhos, fazendo um barulhinho patético de pavor. Segundos depois, ela abre um olho e o vê ainda consideravelmente próximo, mas não tanto quanto antes, uma das mãos dele não está mais passando pomada em sua perna, e sim segurando algo no sofá, é um… pacotinho de gaze?

Ele pega o pacotinho e volta a se ajoelhar, ah então… era isso! Ele não ia beijá-la! Ha… hahaha, como ela é trouxa!

— Pronto! Troca a gaze amanhã de manhã. — ele põe o pacotinho e a pomada nas mãos dela. Ele tá dando pra ela? — Boa noite!

— Bakugou-kun, espera! — ele espera — A conversa-era isso que você queria falar comigo? Tratar minhas queimaduras e… falar mal do Todoroki-kun?

— Claro que não, porra! — ele torce os lábios e a olha diretamente — As queimaduras, sim, eu vi que sua calça tava rasgada e que você não passou nenhum remédio-

— Eu ia passar antes de dormir, aí você disse que queria falar comigo e eu vim, ué. — ela cruza os braços — O que v- — de novo, ele se aproxima, e Ochako se arrepia quando ele se abaixa um pouquinho, de modo que a respiração dele faz cócegas em sua orelha direita.

— Eu até queria passar mais tempo com você, mas não com esses figurantes de merda assistindo. — ele sussurra, os pés dela parecem gelatina de tão moles.

— O quê? Não, mas não tem ninguém aq- — e então ela vê: um vulto que destoa do formato reto da geladeira, é algo curvo, quase que em formato de um ponto de interrogação, Ochako sabe bem o que é: um chifre. É a Mina ali, e mesmo que não dê pra ver, ela tem certeza que a rosada não está sozinha. — Vem! — ela pega a mão dele e o conduz para seu lado.

— Qualquer lugar que a gente for, esses enxeridos do caralho vão dar um jeito de vir atrás!

— Hum… tem um lugar que eles não conseguem chegar... — ela diz, guiando-o para fora do prédio — Promete que não vai fazer escândalo.

— Por que eu faria escând- EI CARALHO! — ele protesta assim que sente seu corpo começar a flutuar, Ochako o tocou no ombro antes de se tocar e agora os dois sobem lentamente rumo ao céu, bom não ao céu de verdade, mas eles flutuam graciosamente enquanto ela mantém um dedo indicador nos lábios para lembrá-lo de ficar quieto.

Minutos depois, ela faz um sinal com a cabeça e ele agarra o parapeito, puxando-a junto com ele para os dois terem chão firme quando ela restaura a gravidade. Eles estão no terraço do prédio dos dormitórios, e mesmo que os bisbilhoteiros viessem até aqui pelas escadas, não conseguiriam ouví-los direito ou mesmo vê-los sem denunciarem sua presença.

E pela primeira vez desde que ele foi atingido por essa individualidade, Ochako e Bakugou estão verdadeiramente sozinhos.

—-

— Você não tá passando mal. — ele observa quando os dois se sentam no chão, apoiando-se na parede, muito a contragosto dela que não queria se sentar sobre a jaqueta que ele estendeu, mas vendo que não ganharia essa discussão, ela acabou cedendo.

— Como foi rapidinho e a gente não se moveu muito, foi tranquilo. Eu tô melhorando bastante nesse sentido.

— Tsk, é melhor mesmo! Não entra na minha cabeça que um poder fodido como o seu tem um efeito colateral tão besta! — ela não pode reclamar porque por muito tempo foi algo que não entrava na cabeça dela também.

— Sabe, quando eu era criança, eu ficava imaginando o que aconteceria se eu fosse pra lua. Será que se eu tocasse nas coisas lá, eu adicionaria gravidade ao invés de tirar? Será que ao invés de passar mal, eu ficaria me sentindo super bem? Sei lá… — ela fala tudo isso olhando para o céu, tem poucas estrelas hoje e a lua está nova, não é tão reluzente quanto uma noite estrelada e de lua cheia, mas ainda tem seu encanto, sempre tem para ela. Ochako olha para o lado e encontra duas luas sangrentas observando-a atentamente — Q-que foi? E-eu sei que é bobagem, m-mas eu gosto de imaginar essas coisas!

— Não é bobagem. — ele a corrige — Nada do que vem dessa sua cabeça redonda é bobagem. — Que… droga! O rosto dela é um traidor e imediatamente se entrega ficando vermelho.

— Argh, você… você não sabe o que está falando! — ela vira a cara na tentativa de esconder o rubor.

— Eu sempre sei do que tô falando, Cara de Lua! — ah! Já faz um tempo que ele não a chama assim, a primeira e única vez foi na luta deles no Festival Esportivo, desde então, mesmo que eles nem interajam muito, ele sempre a chama pelo nome — Ha, é o apelido perfeito pra você mesmo.

— Tá, tá, porque você acha minha cara redonda e branca-

— E linda. Você é “Cara de Lua” porque é bonita como a lua! — é como a Tsu disse, ele parece ter muita convicção do que diz, mas Ochako sabe que isso não significa nada, esse elogio é tão vazio quanto qualquer grito de “Morre!” dele. O Bakugou não é ele mesmo nesse momento — Por que caralhos você não acredita em mim, porra?

— Porque eu sei que é só a individualidade daquela mulher mexendo com a sua cabeça. — ela sabe que ele realmente acredita no que está dizendo, mas isso não torna as palavras dele verdadeiras, então não dá para aceitá-las — Você… o que você sente, exatamente? Com essa individualidade e tal.

— Não sinto porra nenhuma. — ele dá de ombros — Mas toda vez que te vejo, eu… sei lá, é como se perdesse o controle do que falo, como se tudo que eu penso de você não conseguisse mais ficar preso dentro da minha cabeça.

— Bom, mas assim… você dá a entender que… sempre pensou essas coisas de mim e a individualidade te faz assumí-las em voz alta. — ela tenta não se deixar abalar e procura ajudá-lo a ver o quão absurdo é o que ele acabou de dizer.

— E se for isso? Algum problema, porra? — Todos! Porque isso não é verdade! E é horrível ela ficar aqui ouvindo essas coisas saírem da boca dele com tanta certeza, sabendo que não são reais e ele diria isso para qualquer que fosse a pessoa em quem ele botou os olhos primeiro, e… o pior, desejando que fossem reais. Mas ela não pode dizer nada disso pra ele. Ochako respira fundo e ergue a cabeça outra vez para admirar o céu de poucas estrelas e lua quase ausente — Uraraka.

— O que foi, Bakugou-kun? — ele se inclina na direção dela da mesma maneira que fez antes, agora não tem gaze nem nada do lado dela que justifique ele estar tão perto. Ochako sente sua respiração se suspender, seus olhos colados nos dele. Ele vai beijá-la, ótimo! Isso vai acabar e ela vai poder voltar pro quarto e chorar enquanto tenta esquecer tudo que ele disse. A garota fecha os olhos e se prepara para o que está por vir.

— Você não tem que me beijar. — ele sussurra, e ela abre os olhos, arregalando-os.

— O… o quê? P-por que não? É… é o único jeito que a gente sabe que pode te tirar disso!

— Tsk, pra quê? Essa porra de individualidade não afeta meu poder, não me atrapalha nas aulas nem nos treinos, não tá mudando nada na minha vida, então que se foda! Fora que… você não quer me beijar. — ele desvia o olhar.

— Isso não é verdade! É lógico que eu quero! Eu quero te ajudar!

— Tsk, se você quer me beijar porque acha que é sua obrigação, então você não quer de verdade! Que merda é essa de fazer o que você não quer?

— M-mas…

— Se você me beijar, tem que ser porque você quer de verdade. Seria uma merda perder o primeiro beijo assim. — essa parte ele murmura.

— S-seria o primeiro pra você também? — ela pergunta em espanto.

— E se for? Primeiro, segundo, milésimo beijo, quem é que tá contando, porra? — a julgar por essa resposta, então… sim, ele também é BV — Você não tem que se forçar a nada, me entendeu?

— Sim, mas eu…

— “Mas” porra nenhuma! Você não faz qualquer merda que te dizem pra fazer, você caça outro jeito porque é inteligente pra porra e essa é uma da caralhada de coisas que eu gosto em você, então… relaxa!

— Você, VOCÊ, de todas as pessoas do mundo, tá me falando pra RELAXAR? — ela não contém o tom debochado.

— Tô. — ele confirma, cruzando os braços atrás da cabeça para usá-los como descanso para a cabeça enquanto olha para as estrelas, indicando que essa é sua palavra final.

E não, ela não relaxa, não tem como quando o Bakugou realmente acha que não tem nada de errado com ele no momento, tá tudo errado! Mas… Ochako tá exausta… e a noite tá linda e… ele fica muito fofo quando dorme.

É incrível e invejável como ele pega no sono rápido. Nas excursões escolares, ele é sempre o primeiro a se virar pro lado e puxar um sonoro ronco, Ochako queria ser assim…

Olhando-o dormir, é difícil não reparar a expressão pacífica dele, o Bakugou está sempre tenso, sempre procurando inimigos e se armando para uma batalha com quem quer que ele ache que esteja duvidando de suas capacidades, deve ser tão cansativo! Ela torce pra que, pelo menos durante o sono, ele encontre um pouco de paz consigo mesmo.

Ochako afasta a franja dele um pouco… será que… o beijo só vale se for na boca? O Aizawa-sensei nunca especificou isso. Mordendo o lábio inferior, ela se inclina e pousa seus lábios levemente sobre a testa dele. Apenas porque ela quer. Quer de verdade.

— Uraraka?

— N-não funcionou, né? — ela se afasta, comprimindo os lábios e virando o rosto.

— Sei lá.

— Ué, você ainda gosta de mim?

— Que pergunta é essa? Lógico que gosto!

É, como ela imaginava. Não funcionou.

Notas finais
Oioi! Chegando com mais um capítulo! A semana foi, de novo, cheia de altos e baixos. Mas pode ser que as coisas melhorem daqui pra frente. Eu tô trabalhando em outra cidade, e tava viajando todo dia, o que tava consumindo toda minha energia, agora vou me mudar, o que vai me dar mais tempo e quem sabe mais ânimo pra tentar voltar a escrever. Veremos... Obrigada por ler! Espero que esteja curtindo!