Só um beijo
4 Capítulo 4
Dormir se mostrou um desafio.
Ochako passou boa parte da noite se revirando na cama, recapitulando toda a conversa que teve com o Bakugou no terraço, arrgh, ele tava tão… irritantemente fofo, normalmente ele é só irritante e tudo bem, ela consegue ver um certo encanto nisso, não entende como, mas vê, já no terraço, ele tava transbordando charme, chega a ser… detestável o quanto ela se deixou levar pelas palavras dele, lisonjeiras, irresistíveis, e irreais, fruto de um tipo de lavagem cerebral.
Ela o beijou na testa como se não fosse nada demais! Bom, na prática talvez não seja mesmo, a questão é no quê o tal beijo implica, Ochako já imaginava que aquilo não o traria de volta, e mesmo assim ela o fez pelo simples fato de querer tocá-lo, de estar perto dele por um segundinho e se perder no cheiro doce que ele exala, recolher migalhas para guardar na lembrança para quando ele retornar ao seu normal e voltar a tratá-la como mais uma “figurante” da sala.
Ela não tem que beijá-lo a não ser que não queira de verdade, de todas as coisas que o Bakugou disse ontem, essa foi provavelmente a mais impactante, ele não quer forçá-la a beijá-lo, deve ter percebido o quanto ela estava desconfortável e tratou de tranquilizá-la. O Bakugou a tranquilizando, que mundo invertido é esse em que eles estão? Ochako não sabe, mas ficou contente com a consideração dele.
Ela não deveria estar contente, mas não consegue evitar.
— Alôuuuu! Terra para Ochako! — ela volta à realidade com dedos cor de rosa se estalando bem à sua frente, a Mina está parada a milímetros de distância de seu rosto.
— Ah, desculpa, Mina-chan! Você tava falando alguma coisa?
— Hum… não, só tava te olhando viajar mesmo. — ela faz uma careta — Aqui, será que a Tsu vai gostar? — a rosada estende uma garrafinha d’água com estampa de sapinhos e plantas.
— Hahaha, é a cara dela! — Ochako dá risada, ela queria ter visto o objeto antes pois lhe parece um presente que combina mais com a melhor amiga do que o conjunto de luvas e touca verde-claros que ela acabou comprando, é bem… comum, mas ela estava pensando no quanto a Tsu sofre em períodos de inverno e… como o frio já passou, o conjuntinho estava pela metade do preço, foi um bom negócio, mas não é o presente mais espetacular do mundo, a melhor amiga dela merecia coisa melhor.
— Hum, é sim, mas… vem, vamos continuar olhando! Vamos naquela loja de artigos esportivos ali na frente.
— Hã… ok. — não é o melhor lugar para achar um presente pra Tsu, mas vai saber, fora que é sempre divertido sair para fazer compras com a Mina quando tem aniversário chegando, ela é uma companhia tão divertida que Ochako tá quase se esquecendo de ficar brava com ela por ter espionado a conversa com o Bakugou. Na verdade, ela não se esqueceu, mas… é melhor não comentar nada sobre o assunto e tentar esquecer o que rolou ontem, pelo bem de sua própria sanidade mental.
— Estas ou… estas? — a Mina pega alguns pares de luvas de combate.
— Mina-chan, você sabe que… as mãos da Tsu não cabem nessas luvas, né?
— Ain, detalhes! Anda, quais você prefere?
— Ah, eu acho que essas que vêm com bandagem são melhores., e esse tom de rosa é bem bonito.
— Rosa sempre é lindo, meu anjo. — ela joga a cabeça para fazer seus cabelos balançarem dramaticamente — Então fechou!
— Mas, Mina-chan, essas luvas são pequenas pra Tsu e… desculpa ser sincera, mas acho que não combina muito com ela, ela nem costuma usar as mãos em combate, geralmente usa as pernas e a língua… acho que ela não vai gostar.
— Ainda bem que não são pra ela, então. — ela sorri enquanto saca o dinheiro para pagar e depois que o moço do caixa as coloca numa sacola, Mina a estende para ela — Tó.
— Q-quê? Pra mim?! Mas nem é meu aniversário, Mina-chan, e elas são super caras! P-por que… você tá me dando isso? Por que… — Ochako a olha em espanto, e o sorriso sereno da amiga entrega tudo — Bakugou.
— Como foi que ele me disse mesmo? Ah é… “Toma aqui, faz a Cara de Lua comprar um par de luvas decente! E manda ela se ver comigo se tentar recusar.” — a imitação dela de Bakugou seria bem engraçada se Ochako não estivesse chocada — Aceita, Ochako-chan, ele tá te dando de coração.
— Não… — ela respira fundo — não é de coração. Ele pode até achar que é, mas… não é.
— E como você tem tanta certeza, hein?
— Porque… — será que ela deveria contar para a Mina sobre a individualidade? Ochako a adora, de verdade, mas a amiga ácida não é assim… a pessoa mais discreta do mundo, a Mina sabendo é quase o mesmo que a sala toda saber, talvez toda a escola! Pessoas aleatórias olhando-a, depois olhando para o infame Bakugou Katsuki e imaginando se ela vai beijá-lo ou não, ela com certeza não precisa de nada disso. Mas… elas são amigas, não são? Ochako precisa confiar mais na sua amiga — … promete que não conta pra ninguém?
— Contar o quê? Que o Bakugou levou uma flechada e agora tá caidinho por você, e o único jeito de fazer ele voltar ao normal é você dar uma bitoquinha nele? Pode deixar, minha boca é um túmulo! — ela faz um gesto de fechar um zíper sobre os lábios.
— O quê??? C-como você sabe, Mina-chan?
— Hehehe, vocês acham que eu sou a mais fofoqueira daquele grupo, é porque não conhecem o Kiri. — ela dá uma piscadinha — Ah, tô brincando, viu? Pode ficar tranquila que ele não saiu espalhando pra todo mundo, o Bakugou contou pra ele e ele contou pra mim porque a gente é “parça”, como ele diz. — faz muito sentido que ele tenha contado para o Kirishima, agora que ela pensa nisso, o Bakugou com certeza também sentiu a necessidade de falar sobre isso com seu melhor amigo, e a sorte é que o Kirishima é bem tranquilo e realmente não deve ter saído falando pra todo mundo, porque o Bakugou com certeza não pediu segredo. De toda forma, é surpreendente que a Mina não tenha partilhado isso com todo mundo… vai ver Ochako a julgou mal… — Vem, eu ainda preciso achar o presente da Tsu.
Depois de baterem perna por mais uma hora, Ochako e Mina estão no metrô voltando para a U.A., a amiga não mencionou mais o assunto em si, mas ficou jogando indiretinhas sobre o Bakugou, ela sente que deveria estar mais constrangida, mas não consegue, é bom ter mais alguém pra conversar, não que o Deku, a Tsu e o Iida não sejam ótimos, mas eles já deixaram bem claro que não vão dar palpite, que é tudo que a Mina faz sem rodeios. Ela está curiosa com o que aconteceu, quer entender melhor e… de certa forma, Ochako também quer, é bom falar sobre isso sem sentir que está lidando com um tabu ou algo do tipo.
— Qual o nome dessa moça mesmo? Achei essa individualidade dela maravilhosa! Será que eu posso ir visitá-la na cadeia?
— E levar o Kirishima-kun junto? — as duas riem de maneira cúmplice — Falando sério, parece legal e tal, mas te garanto, não é. Ele… diz e faz coisas que não combinam com ele, e… você precisa ver, tem um brilhinho nos olhos dele que faz parecer que ele tá hipnotizado, eu… me sinto muito mal em vê-lo assim.
— Jura? Pra mim o Bakugou parece ótimo! Assim, ele só tá diferente com você, né? Mas… nem sei se tá tão diferente assim, ele só tá… mais honesto.
— Ele disse mesmo que não consegue controlar a língua perto de mim, mas… argh, não importa! Porque de toda forma, ele… ele não é o Bakugou que eu conheço — e gosta.
— Honestamente, Ochako-chan, é bem a sua cara ficar sofrendo por conta disso! Tenho certeza que qualquer outra pessoa ia se esbaldar! Bom, eu sei que eu ia, pelo menos.
O comentário é casual e brincalhão, mas faz Ochako pensar nisso. Será que… uma parte dela tá evitando beijá-lo por… estar gostando da atenção que o Bakugou está lhe dando? Não, isso seria extremamente mesquinho! Fora que seria ridículo, porque ela sabe que essa atenção toda nem é real!
Ochako tenta afastar esses pensamentos, forçando-se a não pensar no beijo que deu na testa dele na noite anterior. Quando ele abriu os olhos, mostrando que o brilho ainda estava lá, ela não se sentiu aflita ou decepcionada.
Ela ficou aliviada.
***
A festinha de aniversário da Tsu é super simples, mas não foi por falta de organização, as meninas só chegaram à conclusão que a garota rã não iria querer nada muito espalhafatoso, então montaram algo no estilo de um piquenique no gramado em frente aos dormitórios e pediram para o Sato agraciá-las com um de seus maravilhosos bolos, Ochako era a encarregada de trazer a amiga para a festa sem que ela desconfiasse muito, e… bom, não dá pra saber se funcionou ou não, a Tsu não demonstrou muita reação ao ouvir os gritos de “Surpresa!”, mas com certeza gostou do que foi preparado, dá para ver que ela ficou contente que todo mundo da turma A compareceu, além de boa parte da turma B também.
— Deku-kun, você experimentou o tonkatsu? Tá uma delícia!
— Nossa, se eu comer mais alguma coisa, acho que vou explodir! — ele passa a mão na barriga e faz uma cara sofrida, o que a faz rir — V-você… está rindo, que bom! Você parece sempre tão tensa e preocupada por esses dias.
— Pareço e estou. — ela dá uma risada sem-graça.
— A-ah, então… “aquele assunto” ainda não foi resolvido? — o Deku a olha como se estivesse falando sobre algo ilícito.
— Não, não foi. Eu… até me ofereci para… sabe, mas ele recusou, disse que é melhor eu não fazer isso se eu sentir que sou obrigada a fazer.
— Nossa, o Kacchan é tão leg- — os olhos dele brilham como glitter, mas um minuto depois ficam opacos em fingida indiferença — Q-quer dizer, ele só está fazendo a coisa certa, né? Não se esperaria nada além disso, mas… e-enfim, ele deve gostar muito de você, Uraraka-san, pra considerar os seus sentimentos acima de tudo.
— É, ele gosta. Por causa da individualidade. — ela resiste à vontade de revirar os olhos — Enfim, acho que o jeito por enquanto é esperar o Aizawa-sensei oferecer outras opções, vai saber, né? Talvez a individualidade acabe sumindo de um dia pro outro. — ah, se isso acontecesse, seria tão mais fácil! Ochako não sabe como reagiria se ele voltasse ao normal do nada, mas… isso não é sobre ela, pelo menos não deveria ser.
— Pois é… — ele coça a cabeça — Sabe, eu fiquei pensando sobre isso, Uraraka-san, você não achou que o Aizawa-sensei foi meio… evasivo na explicação sobre o que aconteceu com o Kacchan?
— Evasivo?
— É, sempre que acontecem incidentes assim, ele ou qualquer outro professor explicam direitinho como a individualidade funciona e o que dá para fazer para cancelar os efeitos dela… lembra daquela vez que eu fui acertado por uma individualidade que deixou meu cabelo completamente liso?
— Hahaha, é difícil esquecer! — ela não contém a risada, mas logo se recompõe — Desculpa, aonde você quer chegar, Deku-kun?
— É que… não sei, pelo que ele disse na aula e pelo que ele explicou pra você, eu… tenho a sensação de que tem algo faltando… — ele põe os dedos sob o queixo, e Ochako consegue ouvir as engrenagens dentro do cérebro dele trabalhando — Ao ser acertada pela flecha, é como se a pessoa recebesse uma alta dose de hormônios ligados à paixão e felicidade, assim que o Kacchan foi acertado, ele ficou dócil, não foi?
— Hã, sim.
— E como você estava bem na frente dele, ele se encantou por você… mas se é uma individualidade de ataque à longa distância e os efeitos só são úteis para o usuário no minuto em que aparecem, por que o Kacchan continuaria tendo que lidar com eles dias depois do ocorrido? A usuária estava alvejando você, que estava evacuando os civis e impedindo uma situação de refém… era para você ter ficado dócil, mas o Kacchan te protegeu, certo?
— Aham. — ela está tentando acompanhar ao máximo, mas é difícil quando ele começa a divagar assim.
— Vai ver os efeitos da individualidade são apenas para deixar um adversário atordoado e inutilizá-lo, mas há algum fator agravante no Kacchan em específico que o faz agir assim, o que será? Aargh, eu não sei! — ele balança a cabeça, passando a mão pelos cachos esverdeados freneticamente.
— Deku-kun. Se. Acalma. — ela põe a mão no ombro dele — Não precisa se preocupar com nada disso, ok?
— C-como eu não me preocupo, Uraraka-san? Dá pra ver o quanto você está preocupada com isso, e… o Kacchan deveria tomar mais cuidado com as coisas que ele diz, eu não… eu não quero que você se magoe. — Ochako sente um aperto no coração, o Deku está tão afetado pela situação como se ele estivesse diretamente envolvido.
— Tá tudo bem, eu não vou me magoar. — ela inclina a cabeça e sorri — Vem, acho melhor você abrir um espacinho aí na barriga pra esse bolo que o Sato-kun fez!
Ochako consegue desconversar, mas tem a sensação de que o Deku é que decidiu poupá-la de continuar nesse assunto, o que é bom, mas nem tanto. Eles prosseguem a conversa sobre o bolo e banalidades, até que o Kirishima se aproxima deles, e ele não está sozinho.
— Aí, Bakugou, achamos ela! — o ruivo informa — Agora você vai parar de dar chilique?
— Vai se foder, Cabelo de Merda! — ele esbraveja antes de se virar pra ela — E aí? Esse merdinha do Deku tá te incomodando?
— K-Kacchan!
— O quê? Lógico que não! — ela cruza os braços e o olha feio, ele não gosta disso, mas não responde nada, limitando-se a soltar um “tsk”.
— Hã… Midoriya, acho que o Tetsutetsu tá fazendo sinal pra gente, vamo lá! — o Kirishima abraça o Deku pelo pescoço e o leva dali, Ochako consegue ver um olho verde olhando-a de relance antes de se afastar.
— Então… não que não seja legal te ver aqui e tal, mas… por que você veio? Você nunca participa das festinhas da sala.
— Ah é? Como você sabe? Você sente minha falta nelas? — ele sorri diabolicamente, fazendo-a enrubescer violentamente — Eu tinha que vir se quisesse te ver hoje, fora que é aniversário da sua amiga.
— Engraçado você parecer que liga pra isso quando tentou arrumar confusão com meu outro amigo de graça. — ela resmunga — Não sei o que você ganha me agradando, mas já te adianto que maltratar o Deku não é o caminho.
— Hum… e qual o caminho, então?
— O quê?
— Pra te agradar, o que eu tenho que fazer? — Ochako sente seu corpo todo pegar fogo — Aquele imbecil do Deku te faz rir fácil, o que eu tenho que fazer pra você rir daquele jeito pra mim?
— B-bom, você… pode não fazer a Mina comprar um presente super caro pra mim, pra começo de conversa, e… hã, você… pode parar de me deixar envergonhada!
— Sua cara envergonhada é fofa pra caralho, mas isso eu não faço de propósito. — ele ergue as mãos levemente — eu não quero que você fique com vergonha perto de mim.
— E-então é só parar de ser charmoso e… — ela se dá conta da besteira que diz, limpando a garganta e evitando encarar o sorriso prepotente dele — enfim… é só você parar de agir todo galante, não combina com você.
— Tsk, eu sei o que combina e o que não combina comigo, Uraraka.
— Ah, não precisa ficar nervoso! Eu só tô dizendo que… não gosto quando você não é… você. — e para surpresa dela, agora é ele que fica vermelho, evitando-a olhar diretamente. Que… fofo!
E enquanto ela se delicia na expressão adoravelmente irritada dele, Ochako se dá conta de que sim, talvez uma parte dela queira muito que isso dure mais um pouco, mesmo que não seja verdadeiro, tem algo de extremamente encantador nele, algo que ela não gostaria de abandonar ainda.
Mas ela vai abandonar, porque Ochako quer muito beijá-lo. De verdade, dessa vez.
— Ei, Bakugou-kun?
— Que é?
— D-depois que a festinha acabar, você... você pode me acompanhar até meu quarto?
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