Só um beijo
2 Capítulo 2
É como se nada tivesse acontecido.
Assim que ela o avistou chegando à sala de aula, Ochako não percebeu nada de diferente no Bakugou, ele vinha junto do Kaminari, do Kirishima, e da Mina, os três andando e rindo enquanto o loiro mantinha sua postura ligeiramente encurvada, como se não fizesse parte daquela caravana, mas com certeza fazia pelo jeito que o Kaminari olhou quando o Bakugou disse alguma coisa, provavelmente o corrigindo em algo ou apenas xingando-o.
Tudo parecia normal, o garoto explosivo gritou algo para o Kirishima e a Mina, ignorou o “Bom dia, Kacchan!” do Deku e, quando seu olhar encontrou brevemente com o dela, ele simplesmente virou a cara, ótimo!
Quer dizer, não “ótimo” de verdade, não é legal ser tratada assim, mas… pelo menos isso faz sentido, ele declarando que está apaixonado por ela e oferecendo-a a balinha que ganhou da Recovery Girl não faz.
Ainda bem que eles não se precipitaram e não tentaram o “método” que o Aizawa-sensei sugeriu para acabar com os efeitos da individualidade.
Viu, Ochako? Não tinha porque se afobar, nada que uma noite de sono não tenha resolvido, ele já voltou ao normal, e é como se nada daquilo ontem na enfermaria tivesse acontec-
Quando ela para de frente para a sala de aula, a porta já está aberta. O Bakugou abriu, e tá parado do lado esperando que ela passe. COMO UM VERDADEIRO CAVALHEIRO!
Ochako fica estática e o olha nos olhos, dessa vez ele não vira o rosto, e ela pode ver aquele mesmo brilho suspeito que viu ontem, assim que a flecha o acertou. Ah não…
— Com licença, Uraraka. Você não vai entrar? — a voz suave vem de trás dela, é o Todoroki, parado a alguns passos de distância e olhando como se tentasse encontrar algo que a impeça de entrar.
— Ah… eu, ah- sim! — ela abaixa a cabeça e adentra a sala sem olhar para o garoto logo a seu lado.
— Bakugou, o que- — o loiro fecha a porta na cara do Todoroki assim que ela passa, e Ochako fica chocada.
— Ei, pra quê ser grosso assim? — ela de repente esquece a vergonha dessa situação, realmente irritada diante do gesto dele.
— Eu tô apaixonado por você, não por ele.
É como se o ar na sala parasse de circular, conversas que estavam acontecendo se encerram, olhos que observavam vários outros lugares param todos neles dois, e o queixo dela vai ao chão.
“Vocês ouviram isso?”
“O que que ele disse? Tava viajando aqui, não ouvi.”
“Eu tô doido, ou o Bakugou acabou de…”
“O Bakugou se declarou pra Uraraka!”
“Vish! Olha a cara dela!”
— COMO É QUE ÉÉÉ? — a Mina bate a mão na mesa e os olha avidamente — Bakugou, o que foi que você disse?
— A-ah, não foi nada, nada! Ele- o Bakugou só tá- — Ochako tenta se explicar, sentindo o choque do Iida e da Tsu queimarem-na daqui.
— Ele disse que está apaixonado por ela, não por mim. — o Todoroki informa, fazendo Ochako invejar profundamente a Tooru, pois ela adoraria ser invisível nesse momento. Principalmente quando boa parte da sala manifesta um uníssono “O QUÊÊÊÊ?”
— M-m-mas como você solta uma bomba dessas assim? — a Mina soa indignada, mas ao olhá-la, Ochako vê que ela está sorrindo de orelha a orelha.
— Tsk tsk tsk, Bakugou, meu amigo Bakugou, por que você não me disse que estava a fim de se declarar? — o Kaminari se aproxima e o puxa pelo ombro — Eu teria te dado todas as dicas que você precisava, como por exemplo, eu teria te avisado que se confessar assim é uma ideia muito idiota.
— Sim, até porque ninguém entende mais de ideia idiota que o Kaminari. — a Jirou complementa.
— Exatamente! Não, peraí, isso não-
— Pô cara, realmente, se confessar assim é meio… não muito… másculo? — o Kirishima faz uma careta.
— Tsk, eu já tinha falado isso pra ela ontem, parem de falar merda!
Outro retumbante “O QUÊÊÊÊ?”
— Por favor, acalmem-se! — o Iida levanta e começa a mexer os braços — Mantenhamos nossa compostura enquanto alunos, mesmo diante do teor chocante do que acabamos de presenciar, e devo dizer que é deveras chocante — ele ajusta os óculos e olha diretamente para ela — e-enfim, queiram se acalmar.
— Ochako-chan, isso é verdade, ribbit?
— B-bom, é que… ontem aconteceram umas coisas e… e… o Bakugou-kun teve um acidente e...
— Pô, ouvi mesmo que o Bakubro teve que ir pra Recovery Girl. — o Sero assobia.
— Jura? Mas foi sério? — o Kaminari indaga.
— Ele ficou um tempão lá, e o Aizawa sensei até pediu pro Koda e eu substituirmos os dois na missão de fazer compras. Né não, Koda? Fala aí! — o Kirishima observa, e o Koda não fala, apenas acena a cabeça timidamente.
— Talvez o Bakugou-kun tenha lidado diretamente com a morte e percebeu que a vida é curta e devemos ser honestos com as pessoas que amamos! — e a Tooru… viaja.
— Que inveja. — a voz grossa do Tokoyami pode ser ouvida.
— Ah, por quê? Você queria se declarar para alguém, Tokoyami-kun?
— Não, eu queria lidar diretamente com a morte.
— Credo!
— P-pessoal, vocês… vocês não tão vendo que eles estão constrangidos? Q-quer dizer, a Uraraka-san não parece confortável. — o Deku se manifesta.
— Obrigada, Deku-kun. — ela dá um sorriso sem-graça, e ouve um “tsk” revoltado a seu lado, Ochako se vira pra ele com a mesma irritação — V-você vai deixar a situação sair de controle assim? — ela questiona já que ela própria não conseguiu controlar essa bagunça, então seria bom se o Bakugou desse um de seus berros pelo menos para acalmar os ânimos do pessoal.
— Eu gosto de você, o resto é só encheção de saco de figurante. — ele cruza os braços.
— Caraca, másculo! — o Kirishima dá seu veredito. Ela já não pode mais contar com o melhor amigo dele para tentar apaziguar a situação.
— Apesar de ter fraseado da maneira mais deselegante possível — a Yaomomo limpa a garganta — o Bakugou-san tem razão, esse assunto diz respeito somente aos dois, vamos dá-los privacidade quando for a hora, mas agora, recomendo que se acalmem e voltem a focar nos estudos.
— Pô, Yaoyorozu! Você sabe que eu te respeito muito, assim, eu tenho um resPEITÃO por você. — o Mineta se vira para ela, olhando para cada parte dela que não os olhos — mas não dá pra focar na aula sabendo que o Bakugou, de todos os caras da classe, pode ser o primeiro a… você sabe. — aí ele faz uns gestos estranhos com as mãos e assobia, e Ochako tem uma breve noção do que ele quer dizer, ficando mais vermelha do que já está.
— Não, Mineta-san, não sei.
— Oh… eu posso te explicar ou então… posso te most- — ele termina a frase com um gritinho quando a porta é aberta novamente, dessa vez pelo professor Aizawa.
— Bakugou, Uraraka, Todoroki, vão para os seus lugares. — o Todoroki não sentou até agora? — Eu só direi isso uma vez, o Bakugou foi afetado por uma individualidade ontem e é possível que não aja como vocês estão acostumados a vê-lo, heróis profissionais estão sujeitos a incidentes como esses, não seria diferente com heróis em treinamento. Estamos tentando encontrar uma solução, então não há necessidade de prolongar esse assunto, quanto menos de atrapalhar minha aula com burburinhos. Fui claro?
— Sim, sensei! — a sala toda concorda, e Ochako sente certo conforto nessa tensão silenciosa que reinará enquanto o professor estiver vigiando… até que a Mina levanta a mão.
— Sim, Ashido?
— Por quanto tempo o Bakugou vai agir de um jeito que não estamos acostumados?
— Não sabemos ainda, mas não deve ser muito. Mas como eu disse, estamos procurando soluções, por ora ajam como sempre — não! Não pede pra eles agirem “como sempre”, sensei! — e… não se sintam pressionados a tentar ajudá-lo, isso não é função de vocês. — o olhar do Aizawa pousa nela, e Ochako entende o recado.
Ela não precisa beijá-lo se realmente não quiser. E… “querer” é uma palavra delicada, porque Ochako… até quer beijá-lo, quando se tem uma paixonite por alguém, esse tipo de pensamento pode cruzar sua cabeça de relance ao achar que esse alguém está particularmente bonito em um certo dia, ou… ao observar que os lábios desse alguém parecem levemente rachados ou você pode observar esse alguém beber água e se imaginar no lugar da garrafinha… é patético e meio bizarro, mas sim, Ochako já pensou em como seria beijar o Bakugou.
Mas isso tudo é hipotético, muito diferente da situação em que ela se encontra agora, beijá-lo não é só uma fantasia enamorada e boba, mas a solução para um problema, um problema que realmente acha que está apaixonado por ela e que, por conta disso, acha que é ok dizer para quem quer e quem não quer ouvir, que gosta dela. Então não, ela não quer beijá-lo
***
— O Bakugou está te encarando, Uraraka. — o Todoroki informa assim que eles se sentam para almoçar no refeitório.
— Ele está encarando-a desde que saímos da aula. Francamente, será que ele não se dá conta do quanto está sendo indiscreto? — o Iida complementa — Lamento se essa situação a deixa desconfortável, Uraraka-kun.
— N-não, tudo bem, não é culpa sua, Iida-kun.
— V-vocês sabem que o Kacchan tem um pouco de dificuldade em… processar sentimentos de maneira convencional, ele não deve estar sabendo lidar com a descoberta de estar a-apai-apaixonado por você, Uraraka-san.
— Não teve “descoberta” nenhuma, Deku-kun. — Ochako soa dura, mais do que gostaria — Q-quer dizer, é só o efeito de uma individualidade, ele não sabe o que está fazendo ou falando.
— Ele me pareceu bem seguro do que estava dizendo mais cedo, ribbit.
— É a individualidade, faz ele achar que gosta de mim, tentem ignorá-lo.
— Se ele estiver te incomodando, não podemos simplesmente ignorar, Uraraka. — o Todoroki diz.
— De fato, se você quiser que eu converse com ele, Uraraka-kun, o farei com gosto, é uma das minhas responsabilidades.
— Não, não precisa! P-podem deixar que eu mesma me resolvo com ele, eu… — ela suspira — eu já sei o que tenho que fazer.
— V-você sabe? — o Deku parece surpreso, e então ela percebe que não dá pra ficar guardando isso pra si mesma, Ochako precisa falar sobre isso com seus amigos, todo mundo pareceu ter opiniões sobre o assunto, e as deles realmente importam pra ela.
— Por favor, não contem pra ninguém, ok? O que acontece é que… — e ela explica tudo o que aconteceu ontem, falar sobre isso a deixa ainda mais envergonhada, mas não há outra maneira, ser honesta com eles é ser honesta consigo mesma.
— V-você tem que O QUÊ? — a voz do Deku fica uma oitava mais fina ao ouvir a possível solução para o problema — N-não, não é possível! Q-quer dizer, é plenamente possível pelo que você explicou, mas que individualidade estranha, quantos anos tem essa moça? Porque eu li um artigo recente sobre as individualidades da nova geração estarem se tornando cada vez mais complexas e… — ele dispara a falar, como esperado.
— Ochako-chan, você vai? — a Tsu parece preocupada — Você vai beijá-lo, ribbit? — os garotos se voltam para ela com tudo.
— E-eu não sei… eu… quero que ele volte ao normal, mas eu não quero… eu não quero… — a Tsu e o Deku parecem entender, eles sabem que ela está interessada no Bakugou, então devem imaginar o que beijá-lo representa para ela.
— Não é a maneira ideal de se perder um primeiro beijo. — o Todoroki analisa — Supondo que seja esse o seu caso. — Sim, é o caso, mas ele não precisa saber disso.
— Não precisa se justificar para nós, Uraraka-kun. — o Iida se ajeita em seu assento — Faça o que julgar necessário.
— Iida-kun! — o Deku fica chocado.
— Não esperava ouvir isso de você, Presidente. — a Tsu comenta.
— Estou seguindo a recomendação do Aizawa-sensei, meus caros. Ele deixou bem claro que estão procurando soluções, mas por enquanto só há uma concreta, que envolve a Uraraka-kun, cabe somente à ela avaliar se pode ou não lidar com a… atenção do Bakugou-kun e decidir como proceder a partir disso, a nós cabe somente apoiá-la em qualquer que seja a decisão. — ele acena com a cabeça para ela, como se estivesse batendo continência, Ochako se permite um breve sorriso, o Iida está cada vez mais parecido com o irmão mais velho que ela nunca teve.
— E-eu sei, mas… mas… — já o Deku não parece conformado, até que ele dá um longo suspiro e sorri, ela nunca viu um sorriso tão forçado no rosto dele — me desculpe, Uraraka-san, pode contar com a gente pro que precisar, ok?
Ochako não sabe como exatamente eles poderiam ajudar, quem tem que beijar o Bakugou é ela, afinal, mas realmente aprecia o apoio de seus amigos, além do mais, por mais que essa conversa pareça inconclusiva, de fato a ajudou a tomar uma decisão, ela não quer que seus amigos se preocupem com ela, que fiquem desconfortáveis por algo que não é culpa deles, o Aizawa disse para ela não se sentir pressionada, mas é impossível, não dá para não sentir que isso tudo pode se resolver se ela apenas deixar seu orgulho de lado e fazer o que tem que fazer.
O conceito de “querer” é um tanto delicado, mas o de “precisar” não é.
Ochako precisa beijar o Bakugou.
Fale com o autor