Só um beijo
1 Capítulo 1
Aquele maldito ponto cego!
O Gunhead sempre a instruiu sobre, não adianta, tirando alguém que tenha nascido com uma individualidade de visão em 360 graus, todo mundo tem um ponto cego. Em situações onde um vilão está visivelmente instável e já não é um perigo só para outros como para si mesmo, é aconselhável atacá-lo no ponto cego, afinal, todo mundo, inclusive um vilão, tem um. Ochako é todo mundo, ela também tem um ponto cego, logo ali, bem na nuca, ainda mais vulnerável enquanto ela ajudava a evacuar passantes e curiosos de uma cena de crime em uma joalheria, já estava tudo praticamente resolvido e sua presença ali era mero acaso.
Embora no geral cada estudante seja responsável por fazer suas próprias compras, existem alguns itens básicos como temperos e certas comidas que são de uso coletivo, todos os alunos contribuem com alguma quantia e a cada duas semanas, dois estudantes ficam responsáveis por irem fazer as compras. Esses estudantes são escolhidos por um sorteio, e Ochako foi uma das contempladas dessa vez.
Ela estava no mercadinho quase em frente à joalheria e, assim que entendeu que se tratava de um assalto, já agilizou uma maneira de tirar desavisados ali de perto para não serem pegos de refém. “Não se preocupe, eu sou heroína em treinamento!” ela mostrou sua licença provisória para as pessoas e as afastou dali enquanto dentro da loja, um colega seu que por acaso também passava por aquela rua naquele momento rendia o bandido.
“Ele também é.” ela informava a todos tentando dar uma espiada no garoto problema da U.A., aquele mesmo do monstro de lama, aquele que foi acorrentado na final do Festival Esportivo, sim, aquele que o Eraserhead defendeu em cadeia nacional.
Bakugou Katsuki, o outro estudante escolhido pelo sorteio para ir fazer as compras, o menino explosivo que conseguiu sua licença provisória recentemente, um pouco atrasado em comparação à ela e à maioria da classe, mas conseguiu, e tá lidando com a situação como qualquer profissional faria.
Isso até ela ter ouvido o Bakugou berrando o nome dela. Ochako se virou e não teve tempo de reação, só viu uma flecha vindo em sua direção, disparada quando ela estava de costas. É uma sensação estranha a de saber do perigo iminente e a impotência diante dele. Ela não ia conseguir desviar da flechada e já esperava a dor, mas ela não veio.
Então Ochako abriu os olhos — ela nem percebeu que tinha os fechado — e ficou chocada, a dor não veio porque devia estar toda acumulada no ombro do Bakugou, parado diante dela como um escudo.
— B-Bakugou-kun? — o rosto dele parecia imóvel, os olhos radiavam um brilho que ela nunca viu antes.
Mesmo surpresa, Ochako lembrou-se do que aprendera nas aulas de primeiros socorros e não se apavorou, é um ferimento no ombro, não pegou nenhuma parte vital, mas é melhor estancar o sangue e evitar a perda, e aí…
Cadê o sangue?
Cadê a flecha?
Ela olha pro ombro dele e… é como se nada tivesse acontecido, mas… a flecha… a flecha ia acertá-la, ele entrou na frente e a protegeu. Bakugou Katsuki a protegeu de um ataque direto e se machucou, então… o que tá acontecendo?
— B-Bakugou-kun, você tá bem? O que aconteceu? — ela questionou, ele continuou parado de frente pra ela.
Ochako se viu refletida nos olhos dele, orbes avermelhadas que geralmente parecem estar pegando fogo naquele momento brilhavam com um pouco menos de intensidade, como se ele estivesse aliviado, relaxado… contente?
— Ainda bem que você tá bem. — foi só o que ele disse, e algo assim vindo dele já seria chocante o suficiente se logo em seguida o Bakugou não tivesse se inclinado pra frente, apoiando-se contra ela.
— B-Bakugou-kun? — se era a vergonha ou o calor, Ochako não tinha certeza… não, era definitivamente vergonha, ela se deu conta quando sentiu seu rosto pegar fogo ao ter dois braços enormes de fortes contornarem sua cintura. Sim, ela estava recebendo um abraço de Bakugou Katsuki.
E de novo aquela sensação de perigo e não saber o que fazer diante dele. Quer dizer, não que houvesse algum risco vindo dele, ela sabia que ele tem um controle muito preciso de sua individualidade e, mesmo se estivesse suando em litros, ainda não explodiria nada se não quisesse, o perigo ali vinha da própria Ochako, rosto ardente e coração desenfreado, e o risco de ele perceber o quanto esse abraço lhe afetou, mas o pior é que, assim como a flechada, ela não teve nenhuma capacidade de reação.
Ochako só deixou o Bakugou abraçá-la.
***
— Tudo prontinho, menino Bakugou. — a Recovery Girl termina de examiná-lo — Toma aqui uma bala. — ele aceita e a estende na direção dela.
— Quer?
— Hã… não, obrigada. — Ochako o olha com estranheza, Bakugou apenas dá de ombros e retira o docinho da embalagem, jogando-o na boca.
— Seus batimentos cardíacos estão acelerados, os exames de sangue voltaram e apontam um aumento de serotonina e dopamina, oxitocina também tá um pouco alta. — ela informa.
— E isso quer dizer o quê? — ele pergunta em um tom levemente irritado.
— Bom, quer dizer muitas coisas, mas… baseado no que eu ouvi sobre o incidente de hoje e o que estou vendo, quer dizer que você está apaixonado, menino Bakugou.
Ochako arregala os olhos e imediatamente se vira para ver a reação dele, já esperando por um surto, mas não tem nada. Bakugou permanece deitado na maca e olha para a heroína da cura com desinteresse.
— Tsk, isso é óbvio. Tô apaixonado por ela. — a garota vê o dedo dele apontado em sua direção, e seu cérebro parece parar de funcionar.
— O QUÊÊÊ??? — mas logo volta às funções normais, dando a ela o comando de tentar esconder o rosto envergonhado por entre as mãos, o que a leva a sair flutuando pela enfermaria.
— Por que diabos você tá tão surpresa? — ele pergunta, e há diversos motivos para ela estar reagindo assim: a franqueza dele em dizer isso como se não fosse nada, o fato de que a situação perdeu o controle e o sentido muito rápido ou… o fato de que não é fácil ouvir o garoto por quem ela vem mantendo uma infortunada quedinha há algum tempo dizer que está apaixonado por ela.
Claro que Ochako não vai mencionar o último, mas tenta se acalmar para respondê-lo. Por sorte, o Aizawa-sensei adentra a enfermaria e a poupa dessa tortura.
— Precisa que eu anule sua individualidade ou você pode descer sozinha? — o professor a questiona em seu costumeiro tom enfadonho. Ela apenas junta os dedos e pousa no chão meio desequilibrada.
— Ô, sua doida do caralho! Avisa antes de fazer isso pra eu poder te pegar! — o Bakugou a repreende… por não ter caído no colo dele, aparentemente. A cena deixa até os professores meio surpresos.
— Bakugou, você foi eficiente em neutralizar a ameaça, ótimo trabalho. Uraraka, bom trabalho em agir rápido e pensar na segurança dos civis acima de tudo, mas nunca abaixe a guarda, — normalmente, ela diria um “Sim, senhor!”, mas Ochako não entende porque tá recebendo um feedback ao invés de uma explicação sobre O QUE RAIOS TÁ ACONTECENDO AQUI! — A polícia já está tomando as devidas providências, inclusive contra o terceiro assaltante. Terceira, na verdade.
— Hã… sensei…
— O nome da individualidade é “Eros”, a usuária atira uma flecha de seu próprio braço e a pessoa afetada desenvolve uma forte atração pela primeira pessoa que vê, sendo tomada por um pico de emoções e hormônios, como se estivesse sob efeito de narcóticos.
— Nem vem que eu não tô chapado porra nenhu-
— Os hormônios liberados são praticamente os mesmos. Enfim, é só uma individualidade meio banal a princípio, mas que pode ser útil para imobilizar oponentes e… é especialmente problemática para mim, pois não consigo anular os efeitos. — ele olha fixamente para o Bakugou, deve estar tentando cancelar o que quer que esteja havendo na cabecinha esquentada do garoto — Falei com a polícia, a dona da individualidade disse que o efeito só passa se a vítima afetada for beijada pela pessoa por quem está interessada.
— Oh… parece um conto de fadas! — a Recovery Girl exclama.
— Isso é zueira, né? — a voz do Bakugou soa estranha, como se ele estivesse se contendo muito. Ao olhá-lo, Ochako percebe o quanto ele tá vermelho.
— C-com certeza é brincadeira. A… a moça que fez isso deve estar debochando da polícia. — ela dá um risinho nervoso.
— É uma possibilidade. Estou em contato com a polícia e eles vão questioná-la mais sobre as propriedades da individualidade, mas por ora, essa é a única maneira que temos. Se já estiverem liberados pela Recovery Girl, podem voltar aos dormitórios.
Ochako mal espera a Recovery Girl dar o ok e sai correndo de lá, nem pensar que ela vai andar até os dormitórios lado a lado com o Bakugou. Imagina se ele disser mais alguma coisa sobre isso ou se… realmente quiser tentar esse negócio de beijo? Não, não, não! Imagine ter seu primeiro beijo com o garoto que você gosta, mas… é só para livrá-lo de uma individualidade que o faz agir como se estivesse drogado perto dela? Humilhante demais! Ele nem gosta dela! Ele… nem estaria nessa se ela tivesse tomado mais cuidado! É culpa dela, sim, mas se assumir a responsabilidade por seu erro significa ter que por seu coração à mostra apenas para ser pisado, ela não vai fazer nada.
E pensar que ela estava toda ansiosa, talvez até um pouco empolgada depois de ter sido sorteada para ir com ele fazer as compras, agora ela não tem certeza se realmente gostaria que tivessem sido eles dois. Vê-lo apaixonado por outra pessoa talvez a chatearia um pouco, mas nada com o qual ela não conseguiria lidar. Agora, ter justamente ele apaixonado por ela? É, seria mais fácil se fosse qualquer outra pessoa.
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— Aizawa-kun, você é terrível! — a idosa o olha de soslaio — Você não explicou como a individualidade realmente funciona.
— Não sei do que a senhora está falando.
— Eu li o que a polícia enviou para ver como poderia ajudar o menino, no geral é mesmo uma individualidade bem banal que só deixa o adversário atordoado, mas ela também potencializa sentimentos que a pessoa já tem, é provável que o Bakugou-san não tivesse sido tão afetado se fosse qualquer outra pessoa que não a Uraraka-san na frente dele, posso saber o porquê de você ter omitido essa informação?
Um breve silêncio.
— Eu já faço demais por essas crianças, declarar os sentimentos delas já passa um pouco das minhas funções. Se o garoto quiser se confessar, ele mesmo que o faça. — o herói solta um longo e exasperado suspiro — Tenho que ir, deseje-me sorte, essa história gerará burburinhos que eu não quero ter que aguentar.
A heroína apenas o observa enquanto ele sai resmungando. Ela não imaginava que o homem de jeito frio e ranzinza se tornaria um professor tão dedicado e que se esforça para não negligenciar os sentimentos de seus alunos.
Tomara que os alunos tenham o mesmo cuidado com seus próprios sentimentos.
Notas finais
Por favor, torçam por mim!
Obrigada por ler! Espero que curta essa ficzinha!
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