Síndrome de Gaea.
21 Fragmentada.
Tudo o que eu faria há 90 contras pra mim. Todas as opções viáveis me causam tédio. Consegui foder com tudo. É engraçado pensar que só escrevo sobre lamentações, mas o que muitos chamam de pessimismo eu chamo de plano de vida. O prognóstico da minha vida é tão ruim quanto o meu humor. Eu posso ter todas as condições ao meu favor e ainda assim conseguir destruir tudo o que eu toco. Me pergunto se vai ser assim sobre você. Sempre estou tão certa sobre as minhas decisões e elas são sempre tão questionáveis. Esse texto não era sobre mim quando pensei em redigi-lo, mas agora, é. Enfim, concluindo esse pensamento: Que grande merda.
Meu ego e meu orgulho se fundem no interior do meu estômago e eu sei que estou sendo um ser humano consciente a partir disso. É quase impossível não me sentir como uma grande fraude todo o tempo. Um enorme espetáculo de eventuais desgraça que as pessoas sentam pra assistir, uma peça de escárnio medieval. E, ainda assim, eu estou em todos os lugares. Eu estou gravada na mente e coração das pessoas com um tipo de beleza que eu nunca vou conseguir entender. Eles me veem com um potencial que nunca existiu. Sigo frustrando todos e a mim mesma com meu baixo desempenho em tudo o que importa enquanto gasto minha juventude me sentindo um lixo.
Eu queria ter mais autoconfiança de que vai dar tudo certo. Mas já fodi com as coisas mais vezes do que poderia pra dizer isso. Eu queria muito tantas coisas que sinto que nunca vou alcançar. Não sei o que eu deveria fazer além de me sentir mal por ser quem eu sou. A frustração sobe pra minha cabeça como um arrepio na minha nuca toda vez que algo não sai como eu queria. Eu estou sendo consumida pelo culto do ódio ao meu próprio corpo e nem sequer posso falar disso sem ouvir todos esses elogios que eu não pedi e não acredito.
Sinto falta do álcool toda vez que o relógio apita 12. É tão mais confortável dissociar. É tão mais confortável dormir do que acordar e me assistir tomar todas as decisões erradas porque meu corpo não responde os comandos básicos do meu cérebro. Era mais fácil ser uma alcoolotra patológica funcional do que ser simplesmente uma inútil. Tudo o que eu achei sobre mim aos 17 desmoronou na minha frente e o gosto amargo da decepção não sai da minha língua não importa quantas medicações prescritas eu tome.
Eles me dizem que não. Eu sou tão jovem, eu sou tão amorosa, tão empática. Eu sou a melhor pessoa que eles conhecem, mas droga, eles não me conhecem. Os meus pensamentos, os meus erros, todos eles me acompanham como uma sombra todos os dias da minha vida. Eles dizem que não importa, agora eu sou tão bonita, mas isso já não foi verdade uma vez e um dia vai deixar de ser. O que vai acontecer quando a minha juventude levar embora toda a minha beleza porque o tempo acabou? O que vai acontecer quando meus peitos não compensarem mais toda a minha loucura? O que vai acontecer quando eu não conseguir controlar meus acessos de raiva e passar dos limites? Eu continuo testando o limite de todos enquanto secretamente me odeio por estar fazendo isso com quem me ama. Eu sou a porra de um lobo vestido de cordeiro porque minha pata quebrou. Eu faço sons parecidos com as demais ovelhas, mas não é o mesmo som. Eu sei disso. Minha pata quebrou mas eu ainda vou tentar morder você porque é isso o que eu sou: A porra de um predador.
Eu sei que isso é loucura mas minha personalidade fragmentada está sempre colidindo dentro de mim e na maioria das vezes eu não consigo controlar quando eu vou sair de algo que é familiar pra você pra algo que você nunca imaginou que eu faria, mas fiz. Deus, isso me faz querer morrer todo o tempo. E depois, tem ela. Ela, minha doce criança que eu vejo seguir meus passos nesse caminho pavoroso. Eu gostaria de parar o tempo e deixa-la nesse momento enquanto ela não pode me dizer os erros que eu estou canonicamente cometendo com ela também. Às vezes em que eu disse que iria, mas não fui. E foram tantas.
A minha criança é doce como eu costumava a ser na infância. Ela só quer ser amada e preencher o vazio que o pai dela deixou quando partiu. E eu vejo toda essa inocência morrer e ser destruída todos os dias pouco a pouco na minha frente sem um poder real de reverter a situação. Ela deixa sua marca por todos os lugares como eu costumava fazer. Até o pano de prato da nossa avó tem um desenho dela. Sua raiva faz todos de casa se perguntarem se é normal uma criança com tão pouca idade agir de tal modo, como eu costumava fazer. Eu tenho dejavu.
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