Síndrome de Gaea.
17 Em memória daquilo que eu não quero mais lembrar
Eu achei um drive perdido no notebook da minha mãe e você estava nele. Algo dentro de mim avisou, pude me ouvir falar sobre como nunca é uma boa ideia olhar nos seus olhos, eles não são os mesmos, mas por algum motivo após muitos anos escutando a pequena e proeminente voz que mora dentro do meu cérebro cansado, decidi que iria me ignorar. Lá estávamos nós, uns treze anos antes de tudo ruir sob nossas mãos jovens e desajeitadas. Eu juro que não há mais rancor nos meus dedos enquanto eles freneticamente escrevem sobre como eu senti vontade de gritar e chorar. Todos sabem que eu te amei como eu amo meus próprios olhos e cada fio de cabelo que cresceu e cresce em minha cabeça, mas infelizmente não é somente isso o que todos sabem.
Me perco em minhas próprias memórias. Não sei o que de você era real e o que eu inventei. Você era insegura, você era infeliz e eu sei no fundo da minha alma que pessoas machucadas machucam as pessoas como modo de autopreservação, mas você não teria feito isso com quem estava ao seu lado quando tudo ruiu, naquela tarde tomada pelo medo, iria? Não consigo arranjar mais justificativas pro que você fez comigo ainda que eu esgotado cada gota da minha criatividade, ainda que eu tenha me vestido de advogada do diabo, defendendo você de todos, inclusive, de mim. Eu tentei, e tentei, e falhei. Ainda estou aqui parada de frente ao espelho me perguntando se eu mereci o que eu recebi.
Tem uns cinquenta textos sobre você. Nunca mais consegui confiar em ninguém. Eu nunca mais me permiti ser vista de verdade. Há uma versão minha que sempre vai estar com você e apenas você vai conhecer, e isso me incomoda. É como se vinte anos da minha vida tivessem sido mentiras empilhadas. Minhas melhores memórias da infância, a morte do meu pai, minhas cantoras favoritas, todos estão atrelados a você como meus músculos se agarram nos meus ossos. Eu não consigo te tirar de mim. Dentro do meu coração eu sei que não existe sacrifício de sangue que poderia te apagar da minha memória.
Você convive com isso também? Quando você cravou uma adaga nas minhas costas isso doeu mais em você do que em mim, como teria sido comigo? Você escolheu cada passo que você deu, ou foi só um acaso inevitável. Eu fui uma conveniência no meio do caminho ou alguma maldita memória é verdade? Você não olhou nos meus olhos por ser covarde demais pra encarar tudo o que me fez passar ou apenas não se arrependia de ter se aproveitado de cada fragmento de fragilidade que você teve acesso em mim?
E eu nunca vou entender isso tudo da mesma forma como eu sempre pensei que sabia quem você era.
Eu achei um drive perdido no notebook da minha mãe e você estava nele. Algo dentro de mim me avisou, eu pude me ouvir dizendo sobre como nunca é uma boa ideia olhar pros seus olhos novamente, mas por algum motivo após muitos anos só escutando a pequena e proeminente voz que mora dentro do meu cérebro cansado, eu decidi que iria me ignorar. Lá estávamos nós, uns treze anos antes de tudo ruir sob nossas mãos jovens e desajeitadas. Eu juro que não há mais rancor nos meus dedos enquanto eles freneticamente escrevem sobre como eu senti vontade de gritar e chorar. Todos sabem que eu te amei como eu amo meus próprios olhos e cada fio de cabelo que cresceu e cresce em minha cabeça, mas infelizmente não é somente isso o que todos sabem.
Me perco em minhas próprias memórias. Não sei o que de você era real e o que eu inventei. Você era insegura, você era infeliz e eu sei no fundo da minha alma que pessoas machucadas machucam as pessoas como modo de autopreservação, mas você não teria feito isso com quem estava ao seu lado quando tudo ruiu, naquela tarde tomada pelo medo, iria? Não consigo arranjar mais justificativas pro que você fez comigo ainda que eu esgotado cada gota da minha criatividade, ainda que eu tenha me vestido de advogada do diabo, defendendo você de todos, inclusive, de mim. Eu tentei, e tentei, e falhei. Ainda estou aqui parada de frente ao espelho me perguntando se eu mereci o que eu recebi.
Tem uns cinquenta textos sobre você. Nunca mais consegui confiar em ninguém. Eu nunca mais me permiti ser vista de verdade. Há uma versão minha que sempre vai estar com você e apenas você vai conhecer, e isso me incomoda. É como se vinte anos da minha vida tivessem sido mentiras empilhadas. Minhas melhores memórias da infância, a morte do meu pai, minhas cantoras favoritas, todos estão atrelados a você como meus músculos se agarram nos meus ossos. Eu não consigo te tirar de mim. Dentro do meu coração eu sei que não existe sacrifício de sangue que poderia te apagar da minha memória.
Você convive com isso também? Quando você cravou uma adaga nas minhas costas isso doeu mais em você do que em mim, como teria sido comigo? Você escolheu cada passo que você deu, ou foi só um acaso inevitável. Eu fui uma conveniência no meio do caminho ou alguma maldita memória é verdade? Você não olhou nos meus olhos por ser covarde demais pra encarar tudo o que me fez passar ou apenas não se arrependia de ter se aproveitado de cada fragmento de fragilidade que você teve acesso em mim?
E eu nunca vou entender isso da mesma forma como eu sempre pensei que sabia quem você era. Eu não reconheço a pessoa que você se tornou.
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