Síndrome de Gaea.
18 F60.3
Eu estou tão cansada de viver na corda-bamba todo o tempo como se eu não tivesse escolha. Eu tenho, racionalmente. Eu poderia ser ou fazer o que eu quisesse, mas meu corpo não obedece meus comandos. Ele me leva gentilmente para todos os piores lugares possíveis e todas as coisas horríveis que eu imaginei sobre mim e para mim se concretizam como uma profecia todas às vezes como se eu estivesse predestinada a correr em círculos como um hamster. Hamsters vivem dois anos, três, no máximo. Meu medo é viver mais um ano sequer com um corpo e uma mente que não se fundem em um só. Fragmentos que não se pertencem e ainda assim fazem parte de um sistema de órgãos e ossos que me dão o impulso de abrir os olhos todos os dias e contemplar a minha cruz particular que é estar viva. A convivência desconfortável entre meu eu que consigo alcançar no mais superficial da minha mente e o eu que nunca acesso, mas sei que me odeia. É como câncer, só que não existem massas crescendo sob meus tecidos. Minha metástase é emocional. Estou farta de ver meus pensamentos me cortando como facas e multiplicando-se como células a parte de mim, sem parar, dia após dia, enquanto sou ingrata com tudo e todos que me cercam. Não é uma decisão racional de que a vida não vale a pena, que nossos esforços vãos são apenas para alimentar uma cadeia alimentar da qual nunca sairei da base, não. É um zumbido constante no ouvido, é queimar-se no fogão por estar distraído demais para notar perigo, é ter uma cicatriz de uma fratura exposta que nunca se cura totalmente. A dor de envelhecer e saber que nunca desejou nada disso. É o que ninguém nunca vai compreender em mim, o que todos vão tentar me dissuadir, o que com o tempo, eu paro de falar, mas nunca deixa de estar aqui no fundo da minha mente me sussurrando o que eu já sei desde o momento em que nasci várias vezes ao dia: Não vale a pena.
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