Síndrome de Gaea.

14 A versão da Lacy.


Notas iniciais
me odeio mto fodasse.

Me parece ridícula a tentativa de sentar em uma cadeira de frente a um computador para reclamar da beleza. Como mulher, a maior parte do tempo escuto o quão deveríamos ser gratas a cada elogio, não importa qual, venhamos a receber, e ainda assim, cá estou: Um teclado, um sentimento, e pouca direção artística. Eu tenho tanto mais a me preocupar do que com a minha aparência mas ela parece sempre ser uma questão, para os outros. Bonita demais pra ser amiga. Para os homens, um órgão genital falante. Para as mulheres, uma inimiga. Me pego pensando em que roupa, que frase, que caminho, que olhar e quando percebo, não consigo não sentir a tensão nas minhas costas.

Me vejo como uma pessoa nada-demais. Opiniões básicas e gostos medianos, todos muito fruto da minha geração. E tem aquilo de ser completamente instável e uma eterna procrastinadora. Tem aquela coisa da depressão também. E de sentir as coisas de forma desnivelada. Se eu fosse uma cor, eu seria o blasé. E ainda assim, aqui estamos: Tentando se esconder embaixo de livros muito pesados pra que não ofusque nem mesmo por um segundo alguma amiga e ela te faça desejar não ter nascido por isso depois.

Ridícula. Me sinto completamente ridícula escrevendo isso. Reclamando de algo que as pessoas rezam pra ter, como se eu fosse algo tão acima, quando, não sou. Ou não me vejo assim, tão bonita como dizem por aí. Pra ser sincera, me sinto tão comum que gostaria um dia de me ver sumindo entre as multidões que enchem as avenidas do mundo todo. Como um anônimo, um indigente, eu gostaria de morrer jovem e sozinha. Rezo por essa prece todos os dias da minha vida pacata e comum, em algum lugar de uma cidade pequena, com meu mais pequeno e jovem ainda, coração. Meio arranhado pós tanta maldade vista por aí.

O preço da beleza é amargo. Ou melhor, o preço de quando os outros te acham bonita é amargo. Você deixa de ser uma pessoa, se torna uma coisa. Não consigo enquadrar essa existência a mercê dos olhos ávidos deles de outro modo, senão como "coisa", visto que não posso ser um objeto. Objetos não transam. Não posso ser um animal, animais não usam maquiagens, adornos e não tem pensamentos ou sentimentos que sejam tão claramente compreendidos por nós, humanos. Você se torna a coisa, uma espécie de figura distorcida da realidade. Seu corpo é admirado, mas não há alguém que escute de verdade, conheça de verdade, queira, de verdade. Você é uma ideia, como uma reencarnação de uma rainha admirável, você não existe nessa realidade. Está ali mas não está. Consigo sentir o oco dentro de mim todas às vezes em que eu me vejo me esforçar para me provar como qualquer outro adjetivo que não seja "bonita" e ainda assim, esse adjetivo ser o predominante na minha vida. Olho em volta, frustrada, e penso se não há alguém no mundo que deseje mais essa posição no mundo do que eu, e como eu iria ceder rapidamente se necessário a troca. Mas, aparentemente, é a minha. Estou fadada a nunca compreender do que tanto falam sobre essa aparência nada demais ou essa personalidade blasé que tenho.

E isso vai me arranhando como um gato selvagem todas às vezes em que alguma amiga na balada me pediu para sair de perto do garoto que ela tem interesse. Cresce como erva-daninha todas às vezes em que eu inocentemente tento uma nova amizade e noto que sou uma moeda de troca, uma competição inútil, não, amada. E todas às vezes em que garotos se aproximam e eu não consigo confiar nas suas intenções. Em todas as conversas desconfortáveis que eu tenho onde preciso dizer que não o vejo daquela forma e sou descartada como um papel sujo. Quando peço ajuda de algum professor com relação à matéria que ele está lecionando e ele tenta passar a mão nas minhas coxas. Todas às vezes em que por causa da minha aparência eu tive que me defender, mesmo muito nova pra compreender que era isso o que eu estava fazendo. E todas às vezes em que chorei por isso, escutar o quanto eu sou ingrata.

Eu deveria agradecer. Eu sou bonita. Ninguém vai me dizer ao contrário. Só é humilhante todo o processo da beleza para com os outros. A solidão que você se encontra quando nota que não vai ter tantos amigos verdadeiros assim, às vezes em que vai passar tanto sabão no corpo que vai sentir sua pele arder, e a mania que você ganha de afastar todos de perto de você já que nunca se sabe quem realmente está interessado em saber quem você é e quem quer conhecer o meio das suas pernas. A reputação que você não quer construir, mas acabam construindo por você. Eu devia agradecer e utilizar melhor minha aparência, afinal, eu vou envelhecer e o que irá sobrar?

Notas finais
não quero lição de moral.