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Enquanto andava pela rua, a culpa roia-lhe as entranhas. Sim, roia-lhe as entranhas. Roia-lhe as entranhas pois, por descuido e infeliz coincidência, havia adquirido uma tênia após comer porco num pé-sujo daqueles que acostumara-se a freqüentar. E agora, por culpa, deixava-se apodrecer mais um pouco. Ah, que menino malcriado que era agora. Vomitara em seu apartamento todo, como que por pirraça, e nada limpara. Estava um lixo, não só esteticamente falando, pois esta faceta pouquíssimo lhe importava, mas fisicamente. Pálido, as unhas compridas e roídas, o cabelo bagunçado, o hálito fétido, era agora livre como queria ser. Escravo da sociedade não seria nunca mais. Seria feliz, faria o que quisesse.

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14 de Junho de XXXX

‘Feliz’. Rabiscou essa palavra repetidas vezes na folha de rosto de sua agenda, que tivera tudo relacionado a sua vida passada rasgado e queimado com raiva brutal. Encarou essa palavra, olhou-se no espelho e decidiu-se por fim:

“Eu sou feliz”, murmurou em sua voz seca e sem graça, que trazia nela um pouco de todo o seu ser, alguém comum, revoltado, cheio da presunção de que sabia de tudo sem nada ter realmente vivido.

“Feliz sou, estou muito feliz em finalmente estar livre desta sociedade horrenda e exclusivista, podendo fazer o que eu quiser. Isso sim é a vida que todos deveriam viver, não estas mentiras em escritórios.”, escreveu em sua agenda, tomando inconscientemente a decisão de que agora ela seria seu diário de bordo, um recipiente para que expressasse seus sentimentos confusos, débeis e indecifráveis.

Seu celular tocou e naquele visor digital enxergou o número de seu colega de trabalho; tremendo levemente e num desequilíbrio total, tal qual um hipoglicêmico, atendeu-lhe.

“Vão te demitir se você não voltar pra cá em 5 minutos, sem sacanagem.” Avisou-lhe aquele homem, quase um desconhecido para Túlio.

“Não me interessa voltar a ser um otário que nem vocês todos. Eu sou feliz. Passa logo o celular pra quem falou que vai me demitir.” Falou, raivoso.

“Túlio, você tem cinco minutos, o Tanaka já te avisou. Venha logo e deixa de palhaçada. Nem Sancho Pança você tem pra ir contigo; não me diga que de tanto ler esses livros antigos e você enloqueceu que nem D.Quixote e agora resolveu sair por aí salvando o mundo.” Murmurou seu chefe, insatisfeito com a insolência de seu subordinado, que afinal de contas, poder nenhum possuía e mesmo assim dava-se a liberdade de fugir, de fazer o que quisesse; aquela afronta tão descarada, tão súbita, nada havia de muito significativa, posto que Túlio não tinha nada de especial; mesmo assim, aquilo o ferira profundamente, como um corte de cutelo, deixando o irado, revoltado.

“Vai se foder. Eu sou feliz.” Murmurou secamente,e desligou o telefone.

“Eu sou feliz!”

E, dizendo isto,bateu com o celular contra a mesa repetidas vezes, os fragmentos de vidro voando pelo ar, atingindo-o; o fez até que do celular só restassem pilhas de estilhaços e partes irreconhecíveis de um todo que não mais lhe dizia respeito; sua mão sangrava.