Síndrome da Ovelha Negra

2 Capítulo 1-There's no sweeter start


Notas iniciais
Aqui mais um personagem é introduzido, o violoncelista pedinte. Com este capítulo eu começei a introduzir datas em todos os c

14 de Julho de XXXX

“Essa mão machucada aí foi o que? Andou bebendo e se metendo em brigas? Parece uma criança, meus parabéns.”

“Me cortei com um livros. Sebo é foda.”

“Uma colina? Não, não, ta mais prum morro. Um morro meio caído, assim, enlameado, triste. É isso que aparece na minha cara quando sorrio para agradar os outros.”escreveu uma vez.

“Eu devo ter muita cara de babaca, é por isso que eu vivo de servir gente que nem você. Você? Na boa, você? É mais provável que você seja uma pessoa normal do que você entrar num sebo, muito menos mexer num livro lá; é muito filhinho de papai pra isso, você pode comprar mais um, certo? Quanto mais caro, melhor. Você com uma mentira dessas? Ah, você ta desesperado. Com certeza.”

“Tudo que você tem é pago por mim-”

“Posso ser sincero contigo, já que é a coisa que você mais preza: eu estou pouco me fodendo pra isso. Meu trabalho é servir qualquer idiota que queria dar uma fugidinha, e bancar o analista porque eles acham que eu to aqui pra ouvir historinha triste. Foda-se Túlio, foda-se que você pagou tudo aqui, comprou todas as fábricas de cerveja, comprou meu cu de volta de um cafetão, acha que ligo? Cê não tem a mínima noção, né? Aqui não existe nem um mísero cartão de fidelidade, porque é capaz dos fregueses tentarem usar como carteira de motorista em blitz policial. Quem paga mais, bebe mais, é mais problemático, e eu conheço melhor porque fica mais tempo por aqui, só isso. Você é rico, ótimo pra você, compra um cargo político, vai paraquedista, pouco me importa! Agora, não me vem pedir respeito porque você é um alcoólatra nato, porque o problema é teu, eu to ganhando meu sustento, você bebe porque é viciado!”

“Só eu que estou desesperado e alterado? É boa a tua auto crítica, aprendeu com quem? Foi com o Johnny Walker, não foi? Filha da puta, passa um copo.”

“Você devia ser preso.”

“Quem paga teu miojo, hein?”

“Deus, louvado seja.”

“Deus? Eu irrompo em risadas falsas, agressivas, turbulentas, verdadeiras, de toda sorte de natureza, quando ouço esta palavra.” Escreveu Túlio uma vez em seu ‘diário’.

“Há, sabe, deixa chegar o Natal, talvez te dêem miojo. Ou pede aos padres, das doações pra Jesus que eles fazem. Se bem que Jesus precisa de dinheiro, coitado, ele é só Deus, não tem como arranjar dinheiro pra comprar carros quando resolver voltar.”

“Você bêbado é mais simpático, com vômito na boca e tudo mais.”

“Eu to esperando o meu copo, dá pra ser?”

“Cara, ele ta na sua frente, você não consegue ver?”

“Não!” E lá estava aquele morrinho incontrolável novamente.

*

17 de Junho

“E se eu não acreditasse em Deus? E se eu achasse que é tudo mentira?’ perguntei a meu pai.

‘Então você não é meu filho.’ Ele me respondeu, sério e...hipócrita? Seria isso? Seria hipocrisia aquilo que eu sentia saltar dele como se fosse fogo? Aquele remorso profundo por ter me deixado chegar aquele ponto e não poder me dar um argumento para acreditar em Deus? É. Papai mentiu pra mim. Eu pude sentir que ele tinha orgulho demais para admitir o que todos sabíamos. Talvez nem ele acreditasse mais em nada. Ele pecou, ele quebrou todas as promessas que me fez cumprir, e esperou que eu não notasse. Ele já era vaidoso demais para admitir meu ponto de vista como seu também; já tinha se embrenhado naquele círculo vicioso de orgulho o bastante para não tentar tirar de si a missão de ser cristão empenhado e trazer toda a família pro lado de Jesus. Foi ali que tudo desandou, e acho que é por causa de seu exemplo que eu resolvi me curvar perante a sociedade e ser infeliz por tanto tempo. Foi aos doze anos, neste mesmo dia, que bebi pela primeira vez.”rascunhou na agenda, enquanto tomava um café apressadamente, queimando sua língua.

Aquele gosto amargo descia pela sua garganta abaixo, queimando tudo em seu caminho, num furor tal que nem mesmo ele conseguiu se manter impassível; bateu com a mão injuriada na mesa e mais uma vez machucou-a.

Eles se encararam, naquele silêncio mórbido que dominava quase todas as conversas de Túlio, de tanta que era sua habilidade em puxar assunto; havia ignorado o violoncelista por todo aquele tempo, compenetrando-se em escrever o episódio com seu pai sob os olhos atentos de seu ‘amigo’, desempenhando aquele espetáculo de mediocridade da melhor forma que podia. Viram-se ambos refletidos nas pupilas do outro e, por um momento, quem se virasse para observar o interior do café pensaria que os dois eram amantes que haviam terminado sua relação, tal era o clima angustiante que aos dois rodeava.

O homem de cabelos e barbas mal cortados e desgrenhados, seu rosto franzido, apertava o braço esquerdo, coberto por sua japona, com a mão que havia mantido intacta. O jovem, que apesar de artista de rua mantinha-se bem arrumado, balançava a perna repetidamente, nervoso, apesar de sua face exalar um ar de calma absoluta. Túlio havia deixado-se degradar em claro sinal de revolta contra os padrões estéticos da sociedade, e o fizera de tal forma que agora parecia dez anos mais velho que Isaac, e não o contrário, como era para ser.

Isaac alisou a seus próprios cabelos, como que por carência e pousou sua mão sobre a de Túlio.

“Com certeza, você está de sacanagem. Você espera que eu fique aqui, te olhando, vendo você inventar histórias comoventes de como seu pai te machucou? Você não ta gritando de dor. Você não está sentindo a dor que deveria. E você acha que eu não percebo, porque eu moro na rua então não sei que tem gente que toma analgésico. Isso aí Túlio, eu ainda não entendi direito nem esse negócio de luz, e lâmpada. Como vocês homens brancos fazem essa bebida amarga ficar quente no inverno se os deuses não permitem? Eu não entendo, sinceramente. Vocês são magos?” e após estas palavras grunhir por entre os dentes, apertou a mão de Túlio com força.

“Argh! Você é realmente muito cordial, me impressiono.”

“Me dá.”

“Eu já te dei esmola.”

“Me dá uma pílula do que você tomou.”

“Era coisa leve.”

“Você fingiu dor na mão e não na garganta. Paracetamol?”

“Ibuprofeno.”

“Pronto, você me chamou pra te ver ter um choque anafilático, é isso? Você tem alergia a ibuprofeno, caralho! Mas que merda Túlio! Me dá seu celular, que eu vou ligar pra ambulância!”

“Anti histamínico.”

“Você ainda ta em perigo, me dá o celular!”

“Não dou a mínima, e nem tenho celular.”

“Segundo a seleção natural, você tem de morrer, sabia?”

“Agora o grande rabino acredita na seleção natural? Hipocrisia é o que há.”

“Se eu fosse rabino, você acha que eu ia comer puta?”

“Depende da linha que você segue, senhor reformista.”

“O que você quer? Por que você me chamou?”

“Eu? Motivo nenhum.”

As palavras mal saíram de sua boca e num instante tudo parou; o alívio do ibuprofeno, a ironia em seu rosto, tudo foi trocado por aquela angústia e nervosismo esmagadores; suas veias aéreas se comprimiam e ele sentia a morte exalar em seus ouvidos. Tentou gritar e não conseguiu, tombando da mesa enquanto ouvia os gritos das pessoas ao seu redor. A escuridão emergia das sombras dos objetos e o engolia. Seu pai encarou-o:

“Tá satisfeito? Se você não alucina com Deus, você realmente é ateu, não? Só pra isso? Você ainda é feliz, Túlio?”

“Foi pra isso que você me chamou? Era isso que você queria? Você não sabe o nome de um anti-histamínico, seu filha da puta; sorte sua que as ambulâncias chegaram.” Resmungou Isaac, sorridente com o sofrimento de Túlio, que portanto mostrava que ele era feliz apesar de tudo; não era um suicida, ao menos.

Aos olhos de Túlio, o mundo se esvaiu na escuridão desesperadora.

Notas finais
Não tenho nada contra judeus, minha família toda é judia e eu era judeu antes de ser ateu Deixem reviews por menores que sejam, tudo é bem vindo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.