Síndrome.
4 Capítulo 4.
Nuvens negras insistiam em cobrir a propriedade e uma forte chuva começou a cair. Connie ainda ficou parada, não se importando com a chuva, olhando fixamente nos olhos do seu marido. “Deus seja com você” – seriam as últimas palavras que o doutor ouviria de sua esposa naquela manhã. Ele e muitos escravos seguiram a cavalo procurando indícios da menina. Outros guardavam a senzala e a casa dos senhores. Bogard dessa vez distribuíra armas aos que estavam de sentinela. Percebeu que esse mal assolara a todos e que agora não eram mais senhores e escravos, cultos e incultos, negros e brancos... Ou eram caçadores, ou eram caça.
No interior da casa, Connie fez como combinara. Trancou portas e janelas e sentou-se na sala de estar, fazendo suas preces. Estava com seu terço há cerca de uma hora quando ouviu um barulho seco. Uma batida oca; e vinha do porão. Levantou-se e andou lentamente pela casa, atenta, tentando identificar o ruído. Ouviu também um chiado de som grave, abafado. Parecia terra sendo revolvida, ou algo do tipo. Certificou-se de que o som vinha do porão e seguiu em direção a porta que levava ao subsolo da casa. Ao abrir constatou a mais pura escuridão, auxiliada pela falta de iluminação no interior da casa, que estava totalmente trancada. Mesmo que as janelas estivessem abertas não faria muita diferença, levando-se em conta o mau tempo.
Desceu pelas escadas lentamente, um pé após o outro. Mesmo que quisesse ocultar sua presença, seria impossível, pois a madeira dos degraus rangia, como um gemido de lamento, a cada passo. Connie já estava no meio da escada quando se deu por conta de que deveria conseguir algo para iluminar o interior do porão. Naquele aposento havia uma pequena janela de vidraças horizontal que ficava um pouco acima do nível da rua, e servia como única fonte de iluminação natural do porão, contudo ela lembrou-se da intolerância à luz da jovem Lia, e que a própria havia lacrado as vidraças. Voltou alguns poucos passos e serviu-se de uma lamparina a óleo, iniciando novamente sua descida. Passo a passo, com sua lanterna queimando. O cheiro do óleo incendiado enchia o nariz da mulher, que seguia com o intuito de descobrir algo que pudesse ajudar. Connie tocava as paredes de madeira enquanto descia. Parecia que ao sentir a realidade da casa tocando nos dedos, não deixava que o medo a dominasse, e assim seguia. Chegou ao solo do porão. Iluminou ao redor e não viu nada anormal. Haviam poucos móveis no subsolo. Uma grande cama, uma grande mesa, onde repousavam lençóis e cobertores e uma pequena escrivaninha. A porta no topo da escada bateu com tanta força que o deslocamento de ar, ou algo do tipo, fez com que a maldita lamparina apagasse de imediato, deixando Connie na mais completa escuridão. Já sabia que estava sozinha ali, porém isso não a tranqüilizou. Ao invés de tentar subir novamente, Connie seguiu na direção em que olhava no momento em que a porta bateu. Estava de frente para a pequena janela retangular de vidros que Lia havia tapado usando velhos cobertores e alguns livros. Seguiu passo a passo, lentamente, para não tropeçar em nada. Forçava a mente para lembrar-se da disposição dos móveis. Andava com os braços esticados para frente, como um cego a tatear o lugar, de modo a não bater em nada.
De súbito, Connie foi tomada de terror. Aquele som grave recomeçara lentamente. O que seria isso? – pensou. Vencia os metros lentamente, diminuindo a distância que restava. Em contrapartida o estranho som aumentava, agora seguido de um cheiro inconfundível. Qualquer pessoa criada no interior do país saberia identificar o odor. Era terra molhada. O cheiro era muito forte.
Connie, enfim, sentiu nos dedos os cobertores e os livros que cobriam a janela e os puxou, deixando-os caírem ao chão. A luz que entrou era mínima; e acinzentada. Foi o suficiente para causar-lhe um arrepio de pavor, que impediu até mesmo que gritasse por ajuda. Estava tão confusa e atordoada com a cena que se revelara, que instintivamente cobriu a boca com ambas as mãos. Naquela fração de segundos, viu-se entre a realidade e a insanidade. Como seria possível que seus olhos não estivessem lhe pregando uma peça?
O porão seguia o contorno de metade da casa. A outra metade, separada por uma grossa parede de alvenaria era usada por escravos, que entravam pela parte dos fundos da casa, para guardarem os materiais de trabalho. Contudo, deste lado, o porão não formava um quadrado perfeito. Uma parte seguia fazendo um pequeno canto reservado, impedindo a visão de quem descia as escadas, mas não de quem estivesse junto à janela. Nesse caso ficava-se exatamente de frente com esse espaço.
O destino de Lia fora revelado da maneira mais sinistra possível. Connie viu a terra revolvendo-se sozinha, sem intervenção humana aparente , fazendo o corpo de Lia brotar para fora da terra. Era como se o solo estivesse negando-se a recebe-la .No momento em que o corpo da jovem, deitado e de olhos fechados estava totalmente para fora da terra, Connie notou que até mesmo as pequenas partículas de terra saíam de cima da garota. Ela estava totalmente limpa. Inclusive as roupas. Os olhos de Lia abriram-se e as pernas de Connie não corresponderam ao instinto de fugir. A menina levantou-se e ficou de frente, encarando aquela que a acolhera.
– No dia em que nos reencontramos, naquele breve instante na varanda, você sabia que algo estava errado, não é? Ambas sabíamos, confesse – disse Lia.
– Jesus Cristo, o que está acontecendo.
– Ainda não se deu conta. Devo reconhecer que minha mãe também relutou em aceitar essa minha mudança.
– Do que você está falando? – disse Connie, paralisada pelo pavor.
– Ninguém pode me curar, entende? Não há cura para mim. E mesmo que houvesse, quem lhe disse que eu desejo ser curada?
– Mas você veio até aqui atrás de cura.
– Cura? Cura?! – Lia riu como se alguém houvesse contado alguma anedota – Eu vim até sua casa porque precisava viver. Não posso viver sozinha. Preciso de hospedeiros, assim como uma... Sanguessuga.
– E seus pais? Onde eles estão? O que você...?
– Meus pais... Ora, eles me ajudaram a viver. Alguns dias antes de eu vir parar na sua casa, papai tentou convencer minha mãe a acabar comigo. Então eu tive que me alimentar deles; e de minha irmã mais nova.
– O que você é?
– O que eu sou? Boa pergunta – disse enquanto aproximava-se de Connie – quem sabe o que eu sou realmente? Nem eu sei. Fui atacada por um louco enquanto dormia em casa. Fui molestada, violentada, mordida... E em seguida minha vida mudou. Meu corpo criou uma dependência animal por sangue humano e eu preciso disso para viver desde então. Sinto necessidade de sangue assim como de ar para respirar. Ele me faz especial, forte... Sinto que posso viver para sempre, mas não sei como me definir, nem as razões de ser assim. Somente sei que preciso viver e sei que você pode me ajudar.
Neste instante, Lia abraçou Connie, que já chorava desesperadamente, pois algo a paralisara totalmente. Assim como a cobra prende a vítima com seu olhar, hipnotizando-as antes do bote, estava sendo feito com a pobre mulher. Enquanto Lia dava passos para trás, arrastando suavemente Connie consigo, o solo começou a revolver-se novamente, abrindo-se para acolher aquele ser demoníaco e sua vítima indefesa, tal qual uma mosca presa na teia de uma aranha.
– Não se preocupe, eu garanto que não vai doer nada – falou, com um tom maternal desta vez.
Enquanto as duas deitaram-se no chão úmido, Connie, apesar do desespero, viu que algo mais repousava na fenda ao seu lado. Era o corpo de um escravo já sem vida, começando a ficar putrefato. Nesse instante as duas mulheres abraçadas foram sugadas para para o interior do solo, calando o fôlego de Connie. O corpo do jovem escravo foi absorvido em seguida.
Horas passaram-se e os homens retornaram sem sucesso nas buscas. Era fim de tarde. Os escravos seguiram para as cocheiras onde deixariam os cavalos, deixando Bogard e Jonah sozinhos.
– Estou preocupado, doutor. O Shaman Sanuzi disse que um mal ronda a propriedade.
– Jonah. Sabe que não sou dado a crendices, mas também estou começando a ficar preocupado. O que ele lhe disse?
– Que a menina branca trouxe um mal consigo – disse desviando o olhar, esperando receber uma bronca do seu senhor. Mas ao invés disso, o doutor acenou que seguisse – Ele disse que os espíritos estão agitados. Disse que a menina trouxe morte na bagagem.
– Meu ceticismo me afasta das superstições, contudo uma coisa faz sentido: Desde que Lia chegou por essas bandas, as mortes começaram a acontecer. Bem – desconversou o doutor – vou entrar e ver como Connie está. Vá descansar. Talvez conversemos mais tarde.
Os mesmos dois escravos guardavam a entrada da casa, que permanecia trancada. Todas as portas e janelas ainda estavam fechadas por dentro. Bateu várias vezes na porta, cada vez com mais força e não recebeu nenhuma resposta do interior da residência. Foi tomado de um aumento dos batimentos cardíacos e sudorese. Pressentiu que algo estava errado e arrombou a tranca da porta com um forte chute. Adentrou pela casa chamando o nome da esposa em alta voz, andando apressadamente, de um cômodo a outro. Os dois escravos que guardavam a porta de entrada ajudavam a vasculhar a casa. Por último desceram ao porão e nada encontraram. Já no andar de cima, o doutor encarou os dois guardas e perguntou se Connie havia saído. Disseram-lhe que a viram entrar, antes da saída do doutor, e que haviam ficado de guarda desde então. Não se ausentaram do local nem por um minuto sequer. O doutor entrou em desespero e saiu da casa com passos firmes e gritando:
– Jonah! Jonah! Meu Deus, o que está havendo?! As pessoas estão sumindo debaixo do meu nariz! Jonah!! – viu o escravo correndo ao seu encontro – Traga-me Sanuzi, imediatamente!
Ao invés de aguardar que Jonah trouxesse o shaman, ambos foram em direção à senzala. Ouvia-se ao longe um som de tambores rufando, num ritmo frenético e contínuo. Fazia muito tempo, talvez meses, que Bogard não se chegava até a senzala. A cena causou-lhe um desconforto, devido a falta de costume com os rituais espirituais que os escravos praticavam. Mulheres dançavam ao redor de uma fogueira, porém não mantinham expressões de alegria. Estavam sérias. Os homens que batucavam os tambores cobertos de peles de animais estavam em uma espécie de transe. Sentado numa grande cadeira de madeira, com caveiras entalhadas na ponta dos braços, no lugar onde repousam as mãos, estava o mestre Sanuzi, totalmente pintado de branco. Somente as órbitas dos olhos escaparam da pintura, dando a ele uma aparência sinistra. Lembrava um esqueleto vivo.
Os dois, senhor e escravo, ficaram parados na porta da senzala, apenas observando. Bogard, num ato inconsciente, abaixou a fronte, como um ato de reverência ao que acontecia naquele lugar. Mesmo que não soubesse explicar exatamente o que era.
De repente, os tambores pararam de soar. Todos os escravos, sem dizer palavra alguma, apenas pararam de dançar e pular. Ficaram na posição em que estavam e fitavam os dois homens que estavam de pé na entrada. Sanuzi levantou-se e caminhou lentamente em direção aos dois. Os escravos abriam caminho para que seu líder passasse livremente por entre eles, iluminado pelas tochas que estavam fincadas nas paredes. O velho shaman se deteve em frente aos dois e falou:
– Morte chegou a esta casa. É hora de morte sair desta casa. Se não a detivermos, todos morreremos.
– Do que você está falando, Sanuzi? – perguntou Bogard.
– A visitante. Ela trouxe morte consigo.
– Não diga besteira. A menina não faria mal a uma mosca.
– A morte está com ela. Assim como a rosa carrega espinhos e como uma bela planta pode carregar o mais mortal veneno, ela carrega uma maldição terrível dentro de seu corpo. E você sabe que é verdade.
– Ela sumiu Sanuzi! A menina sumiu, assim como Connie!
– Ela não sumiu doutor. Ela está apenas se fortalecendo. Em breve não será mais possível detê-la. Já está anoitecendo, temos que agir rápido. Os espíritos me disseram o que fazer, mas temos de ir logo.
– Jonah, você está ouvindo isso? – perguntou o doutor – Não vou me envolver em nenhuma loucura de espíritos!
– Dr. Bogard.... O senhor sabe que o respeito como mestre, como homem e como amigo. Porém não posso mentir. Se tentar impedi-los, eles irão sozinhos e nada vai conseguir frear seu ímpeto. Mestre Sanuzi sabe o que faz. Os espíritos de paz falam com ele... Por favor, dê-lhe uma chance. Não tente impedi-los.
Todos os escravos e o shaman ficaram em silêncio, esperando uma definição do doutor. Apenas o som do fogo crepitando rompia a quietude. Bogard acenou positivamente com a cabeça e a batida nos tambores voltou com mais veemência.
Após alguns preparativos, aproximadamente metade dos homens seguiu em direção a casa principal. Os outros guardavam a senzala. As mulheres e crianças ficaram em seu interior.
Do lado de fora da casa, Sanuzi falou e todos ouviram:
– A noite cai. Os espíritos maus saem de seus abismos. Todos aqui correm um sério risco de morte, mas se não fizermos nada, hoje, nosso destino estará selado, é o que dizem os espíritos. O mal está dentro da casa, mas nem todos poderão entrar. Iremos eu, Jonah e o doutor. O restante ficará aqui fora, cercando a casa. Se algo der errado e ficarmos presos lá, vocês deverão incendiar a casa.
– Ei! – interrompeu Bogard – Ninguém vai colocar fogo na minha casa, entenderam?! – gritou, sendo acalmado por Jonah.
– Doutor, ninguém fará nada sem sua autorização, fique calmo.
O doutor respirava ofegante. Estava finalmente entendendo a gravidade da situação. Sanuzi explicou ainda que selaria as portas e janelas com as cinzas de ossos de um grande shaman e que o mal não conseguiria sair da casa. Ainda retratou-se, dizendo que nada deveria ser feito sem o aval do senhor da casa.
Os três entraram, fechando a porta em seguida. Bogard carregava um rifle. Jonah, além da arma, levava uma foice. Sanuzi levava apenas um saco com as cinzas e um velho bastão, feito de galho de árvore, com algumas penas presas por um fino barbante vermelho. Entraram em silêncio. O shaman vinha atrás deles, derramando um pouco de cinza pelos umbrais da casa. De tempo em tempo ele levantava o velho graveto fazendo círculos no ar. Algo parecia indicar-lhe a direção que deveria seguir. E Bogard sabia que estavam indo para o maldito porão. Agora o homem, apesar de corajoso, sentia certa aflição. Sua incredulidade ficava cada vez mais enfraquecida.
Ao abrirem a porta que dava acesso a escada de descida ao porão, sentiram na pele o ar gelado que subia. Bogard e Sanuzi aguardaram por alguns instantes, até que Jonah se juntasse a eles, pois ele ficara acendendo algumas lanternas à óleo pela casa, a fim de que não ficassem no mais absoluto escuro, pois a casa permanecia com as janelas fechadas.
Jonah entregou uma lamparina ao doutor e seguiu com outra em punho. Puseram-se a descer as escadas em silêncio. A luz das lamparinas clareava as escadas o suficiente. No fim dos degraus iluminaram o lugar e nada anormal viram. Contudo Sanuzi fez sinal que esperassem. Girou o bastão no ar e começou a dizer algumas palavras que Bogard novamente não conseguiu entender. Ele e Jonah entreolharam-se, mas permaneceram em silêncio. Sanuzi seguiu andando pelo cômodo e foi em direção ao canto onde a terra absorvera Lia e suas vítimas. Pôs o saco com as cinzas de lado e riscou no chão com a vara. Desenhava uns símbolos e continuava dizendo as palavras místicas. “Preparem-se”– gritou Sanuzi – “É hora de a terra entregar seus mortos! Terra, em nome dos três deuses, eu ordeno, entregue o mal que habita nas tuas entranhas... Agora! – gritou Sanuzi. De imediato o chão tremeu e terra começou novamente a revolver-se. Os corpos de Connie e do escravo brotaram primeiro. O doutor ficou estarrecido com o que assistia. Jonah não ficou menos surpreso, de modo que empunharam suas armas e se colocaram em posição de fogo. Sanuzi permanecia de frente para a terra que brotava corpos, de braços abertos, ainda falando em uma língua desconhecida. Parecia que a terra estava a responder aos seus comandos. Logo ele começou a falar aos dois companheiros de batalha:
– Lembrem-se disso: ela só poderá ser morta se o seu coração for destruído. Apesar de seu espírito ser maligno, seu corpo ainda pode ser destruído. Ela não é indestrutível – Sanuzi ainda falava quando o solo negra explodiu lançando Lia de encontro ao seu corpo. Ela o jogou ao chão com a violência do golpe, cravando os dentes em seu fino pescoço. O choque foi tamanho que os outros dois levaram alguns segundos para entender o que se passava. Lia estava totalmente diferente, com sua face transformada. Desta vez não houve meio de a terra sair de seu corpo. Estava imunda de terra preta, atacando Sanuzi como um animal selvagem. Ela parou de repente o ataque e olhou fixamente para os outros dois. A cena era medonha. Ela estava com um olhar que expressava ódio; sujo, numa mistura de sangue e terra. O Shaman jazia, imóvel. Os homens já haviam deixado suas lanternas no chão e separaram-se lentamente em direções opostas de modo a terem melhor ângulo para poder atirar. Estavam a três ou quatro metros um do outro. A cabeça de Lia virou-se na direção do doutor, fitando-o. O homem estava em silêncio, apavorado com a cena. Ela deu um sorriso singelo, sem mostrar os dentes. Por uma breve fração de segundo ela voltou a parecer a inocente Lia. Aquela menina que Bogard conhecera tantos anos antes. Mas isso não durou muito. Logo a feição tornou a deformar-se e com um rugido que fez com que os dois se arrepiassem, a garota correu de quatro pés, como um animal e saltou em direção ao doutor, que atirou duas vezes, porém errou o alvo. Jonah largou sua arma e correu de encontro ao doutor, calculando a distância e a velocidade instintivamente, de modo que acertou a mulher com o seu tronco, fazendo com que o Bogard ficasse de pé, sem ser atingido. Contudo, Jonah e Lia rolaram para o lado, agarrados, caindo em cima de uma lamparina, quebrando-a e espalhando seu combustível. O fogo os envolveu como um cobertor, fazendo com que se separassem. Enquanto Jonah rolava no chão tentando fazer o fogo se extinguir, Lia levantou-se e jogou-se contra a parede em desespero, gritando e grunhindo como uma besta do inferno. O doutor afastou-se, dando a ela passagem e lhe permitindo subir as escadas com o corpo em chamas. Bogard não a seguiu e apressou-se em socorrer o amigo. Com um velho cobertor que estava no chão apagou o restante das chamas do corpo de Jonah. O forte homem negro estava bastante debilitado.
– Calma, meu amigo, tudo vai ficar bem – disse Bogard.
– Você vai ter que acabar com ela, doutor. Ela não vai sair da casa. As cinzas que Sanuzi jogou nos umbrais vão bloquear sua passagem.
– Vou chamar os outros escravos para me ajudar a pegá-la.
– Não! Não faça isso. Se alguém entrar na casa, vai quebrar o feitiço de Sanuzi e ela poderá sair! Não podemos deixar que ela saia, você entende? Se ela continuar a ficar forte, logo será imbatível, foi o que o Shaman falou. Temos que resolver por aqui. O coração, lembra-se? Temos que destruir o coração.
– Fique aqui, Jonah – disse recolocando o rifle em suas mãos – eu vou pegar aquela vadia e volto para te buscar.
(CONTINUA...)
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