Síndrome.

5 capítulo 5 - FINAL


Bogard subiu as escadas com a lamparina que restara e o rifle em punho. Ao chegar ao topo, o silêncio era aterrorizador. Sabia que aquela coisa não havia saído. Agora eram somente os dois. Os escravos do lado de fora aguardavam calados. Ouviram os gritos e os tiros, e preparavam tochas para incendiar a casa se fosse necessário. Não permitiriam que aquele mal saísse, porém aguardavam até que o impensável acontecesse.

Ao chegar ao topo das escadas, Bogard dirigiu-se para a esquerda, adentrando a cozinha, onde não constatou nada anormal. Voltou-se na direção contrária e seguiu em direção ao único lugar onde Lia poderia estar. A sala. Todas as outras passagens estavam seladas com cinzas, de modo que nem ao segundo andar ela poderia subir. Assim agora cria.

Um senso de auto proteção, que poderia ser facilmente confundido com medo, tomava a mente do doutor. Nunca antes ouvira falar sobre algo dessa magnitude. Que mal era este que acometera Lia...? “síndrome” pensou. Não importava o que era isso. Ele sabia que era maligno e que precisava por fim aos ataques. Bogard lembrara-se de Connie e dos seus dois meninos. Isso lhe encheu de um senso de proteção paterna, o que acabou dando-lhe coragem de decidir enfrentar de frente o problema. Nesse instante lembrou-se que havia desferido dois disparos contra aquela coisa, então imediatamente recarregou o rifle, que só comportava duas munições ao mesmo tempo. Verificou que ainda restavam alguns cartuchos sobressalentes no bolso do paletó. Ao chegar próximo a sala, dando passos curtos, percebeu que do interior ainda provinha alguma iluminação das lamparinas que Jonah acendera ao entrarem. O que viu em seguida lhe causou arrepio nas costas. Num canto da sala, Lia estava agachada, de cócoras. Estava com o corpo severamente queimado, ainda fumegante. Restos do que fora suas vestimentas agora estavam grudados em seu corpo, marcando-lhe a silhueta. Ela estava com o rosto entre os joelhos e sua cabeça, agora praticamente sem os grandes cabelos negros, soltava fumaça; um filete fino e contínuo. Seu corpo tremia. Quando, porém percebeu a presença do doutor na sala, ela levantou a cabeça e bradou selvagemente. Não era mais Lia que estava ali. Seu rosto estava irreconhecível. Não somente por causa das queimaduras, mas principalmente porque ela desenvolvera uma aparência animalesca. Seus olhos fundos estavam quase que totalmente negros. Sua boca escancarada era medonha. Bogard teve a impressão de que a gengiva da menina retraíra-se, pois os dentes pareciam estar projetados. A criatura arqueou-se e começou a subir pela parede de costas, como um lagarto. Seu corpo branco e esquálido estava agora visível. A menina havia realmente se transformado em algo maligno, não havia dúvida. Bogard não se deixou intimidar e apontou o rifle em sua direção. Agora já havia visto a criatura e o primeiro impacto já havia passado. Bogard fazia mira, para atirar e abater, quando Lia, em uma fração de segundo, saltou sobre ele, que disparou a arma uma vez, acertando-a no abdome, porém não causando impacto suficiente para fazê-la desistir da investida. Lia chocou-se com força contra o corpo do doutor, fazendo os dois caírem. Quando conseguiu entender o que acontecia, Bogard estava deitado de costas no chão e Lia por cima, tentando morder seu rosto a qualquer custo. O doutor usava o rifle como um bastão cruzado na altura do peito. O ser também o segurava e forçava para baixo, tentando alcançar a face do homem. A luta pela sobrevivência despertara no homem uma força anormal, mas ele não resistiria por muito tempo. Sua posição era desfavorável e seus braços já tremiam tentando conter o violento ataque. Bogard pode ver realmente de perto no que Lia havia se transformado. Não havia mais humanidade naquele olhar sombrio. Parecia que a única missão da criatura era tirar-lhe a vida, tamanha a gana com que a coisa forçava para mordê-lo. Sentia o hálito quente e podre, junto com a saliva respingando-lhe no rosto. Tentava com as pernas fazer um movimento para jogar a criatura de lado e poder inverter as posições, mas todo esforço era em vão. Apesar da criatura ser esquálida, parecia pesar mais de duzentos quilos, de modo que os braços do doutor começaram a ceder lentamente. A criatura percebeu isso e forçava como uma besta faminta, fazendo sua face medonha encurtar a distância em relação a cabeça do doutor, milímetro a milímetro. Bogard percebeu que não haveria escapatória, então se lembrou dos escravos lá fora. Reuniu todo o fôlego que lhe restara e gritou: “Ateiem fogo! Ateiem fogo na casa!”.

Do lado de fora os escravos que esperavam em silêncio, alguns com o rosto colado à porta, esperando algum sinal, acenderam as tochas, jogaram combustível nas paredes de madeira, portas e janelas e começaram o incêndio.

Bogard já sem forças e ouvindo que os escravos atenderam a ordem, não aguentava mais resistir. Virou o rosto para o lado, cerrou os olhos e fraquejou.

Estranhamente não foi mordido. Ouviu apenas a criatura dando um grunhido agudo, como um cachorro ao receber um chute, mas não o mordera. Quando a pressão da criatura sobre ele cedeu, resolveu abrir os olhos. Viu que Jonah havia subido as escadas e dado um golpe mortal na criatura. Acertara a lâmina da foice pelas costas, fazendo com que saísse pelo peito, atravessando-lhe o coração. Aquela, que outrora fora Lia, envergou-se para trás, tentando retirar a lâmina, sem conseguir alcançá-la. Jonah caiu novamente ao solo. Fizera um esforço sobre humano para subir as escadas e ajudar o doutor. A criatura cambaleava para trás, mortalmente ferida, gemendo e se retorcendo, ainda com a lâmina cravada pelas costas. Desfalecia rapidamente, perdendo as forças. Bogard ajoelhou-se, tocou a canela de Jonah e o olhou nos olhos em agradecimento, sem dizer palavra alguma. Pôs-se de pés, e conferiu a arma. Ainda restava um tiro, e a recarregou, mesmo assim, com mais uma munição. O fogo já crepitava no interior da casa, mas ele não deixou que nada ao redor o desconcentrasse. Apontou a arma para uma das pernas da criatura e atirou a pouco mais de dois metros de distância arrancando a perna esquerda na altura do joelho. A coisa urrou sinistramente, caindo sobre as costas.

Então você sangra? – disse o doutor ironicamente – vamos começar o tratamento da sua, digamos... Síndrome – falou enquanto colocava o cano da arma dentro da boca do ente que já estava fraco demais para resistir. Olhou-o nos olhos por alguns segundos e disparou destruindo a parte posterior da cabeça da criatura, que tombou inerte — síndrome uma ova.

Em seguida abriu a porta, em meio ao fogo que tomava a casa, retornou e colocou Jonah de pés, ajudando a mover-se. Os escravos quando viram a movimentação entraram rapidamente e os ajudaram a saírem de dentro daquele forno. O que outrora fora o corpo de Lia estava agora em chamas e ardia em silêncio, junto com o resto da construção.

Os escravos dançavam do lado de fora, porém alguns outros, mulheres e crianças, saudavam o doutor e Jonah, conduzindo-os a senzala para cuidarem de seus ferimentos. Bogard sentiu que ali, havia vingado a morte da sua mulher e garantido a vida de seus filhos e escravos.

Do interior da senzala era possível ver o clarão da casa em chamas.

– Doutor? Está me ouvindo? – disse Jonah, deitado numa cama de palha seca ao lado de onde o doutor estava sendo cuidado.

– Sim, meu amigo. Você salvou minha vida e de centenas de outros. Serei grato enquanto viver, acredite.

– Os escravos disseram que irão recomeçar a construção da sua casa tão logo o fogo seja extinto. Não se preocupe.

– Tudo bem, meu amigo. Iremos reconstruí-la todos juntos. Agora é hora de descansar – Olharam-se com admiração enquanto apertavam as mãos.

Do lado de fora da senzala, a pequena menina que vira o primeiro escravo ser arrastado, estava de pé no meio do caminho entre a casa em chamas e a senzala, observando os escravos ao longe, que dançavam ao redor da grande fogueira, celebrando. Quando se virou para entrar novamente na senzala, viu ao longe, perto do curral, uma figura conhecida. Lá, parada, observando a movimentação, estava a senhora Connie, pálida como a lua. Em seguida viu a mulher ser tomada por uma névoa negra, e seguindo em direção a plantação de milho, sumindo em seguida. A menina não entendendo direito o que vira, entrou novamente na senzala, cantarolando e pulando como se nada tivesse acontecido.

FIM.

Notas finais
Me envie um e-mail com suas impressões a respeito do meu conto. Gostaria muito de saber o que achou. Obrigado pelo tempo gasto com minha obra. rodrigosioli@yahoo.com
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!