Swords
2 2 - Memórias
Muitos anos antes, no Japão
– Aki! Vem ver estas flores que eu apanhei! — uma garotinha de aparentemente 5 anos gritava, sorrindo. Uma outra garota, de cabelo loiro e olhos azuis surgiu correndo, atrás dela.
– Espera um pouco, Cho... eu... estou... can-cansada! Não corra tanto para a próxima, tá bom? — a pequena falou em tom maternal, quase como se estivesse dando bronca à menina de cabelo azulado à sua frente.
– Você que é lenta! Olha ali no horizonte, não é lindo? — o sorriso da azulada aumentou conforme foi falando. Apontou para o sol, que se deitava num oceano cor-de-nada. Os olhos azuis das duas brilharam, enquanto viam o estranho e lindo espetáculo à sua frente, enquanto o sol se derretia no meio do mar.
– É, é lindo. Quem me dera poder voar sob este céu cheio de cores! Devia ser tão bom! — os cabelos loiros da pequena garota esvoaçaram, como se o vento estivesse tentando fazê-la voar, mas não conseguindo. Frustrado, o vento parou e se silênciou, decidindo agora brincar com os cabelos azuis esverdeados da outra garota.
Mal a garota sabía que esse desejo iría mudar a sua vida para sempre.
Ano de 2012 no Japão, Tókio — ??? pov's
O som do despertador me acordou, me fazendo despertar do estranho sonho que tive. O primeiro sonho de Janeiro, penso eu. Pensava que ago iría mudar, mas afinal os sonhos com a minha pequena garota de cabelos azuis esverdeados mantêm-se.
É engraçado como eu ainda digo a 'minha garota', sendo que esta já não é minha. Acho que no final ela nunca chegou a ser.
Se bem que eu estou sendo um pouco mazinha. Ela não tem culpa de me ter abandonado. Foi ELE que a fez abandonar-me e ela, inocente como era, teve de aceitar os factos. Ela não era humana, era uma espada. Uma vil e horrenda espada.
Ri-me enquanto despia o meu pijama. Nunca consegui imaginar uma frase em que conseguisse adjetivar a Cho como vil e horrenda. Mas essa é apenas a minha realidade, sei que a breve mensão da palavra 'espada' pode desencadear reações drásticas com os humanos. Seres estranhos, devo admitir. Quase me envergonho de também fazer parte desta espécie.
Entrei no banho ainda pensando no sonho. Naquele momento, enquanto ambas olhávamos o pôr do sol sobre o mar, eu fiz um desejo. Desejei poder voar sobre a enorme tela de cores quentes que se estendia até ao mar, de cor-de-nada. É irónico como o destino consegue nos dar aquilo que mais desejamos da pior maneira, não é?
A água gelada escorria pelo meu corpo, molhando meus cabelos loiros e escondendo as lágrimas que escorriam dos meus olhos azuis. Pelo menos uma vantagem que tenho sobre as espadas: eu consigo chorar. E corar. E rir-me também. Tal como a Cho um dia conseguiu.
Ah, doce e engraçada Cho. A garota que eu um dia amei, indo contra os princípios de toda a gente. "Uma garotinha como você não pode amar outra garota", diziam eles. Mas eles não entendiam o amor que eu sentia por ela. Não era paixão, era apenas amor: branco, inteiro. Eu amava-a como se ela fosse o meu sol, o meu lar. Mas não a amava como uma garota deve amar outra garota. Era diferente.
Sequei as lágrimas enquanto secava meu corpo com a toalha. Os pensamentos que agora enchiam minha cabeça podiam não fazer sentido para todos os outros humanos, mas para mim era claro como aquele mar cor-de-nada que ambas olhámos na nossa infância. O modo que eu amava a garota de cabelos azulados não era o modo com que uma garota amava um garoto. Não era paixão, apenas um vínculo que a ligava a mim, de um modo tão forte que nenhuma de nós conseguia explicar.
Mas isso não faz diferença agora. Tal como ninguém entendeu nosso laço de união, ELE também não. E a 'minha' Cho foi fechada quando completou 5 anos, exatamente um dia depois daquele pôr do sol sobre o mar cor-de-nada.
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