Sweet blasphemy
3 Capítulo 3- Harziel
É outono. O cheiro almiscarado das folhas secas das arvores inebriam meu olfato misturando-se com o perfume do verde gramado no solo úmido que me deito, com o anterior do meu corpo virado ao solo. – sinto como se estivesse abraçando o planeta inteiro nesse gesto – A luz difusa do sol do meio da tarde criando sobre meus olhos uma aura de tom dourado que inflama o meu ego. O calor esta agradável, mesmo sem nem uma proteção ao sol e com minhas roupas compridas, porem de tecidos leves, me sinto confortável, e suspiro de esplendor. Acaricio a grama e a terra como se estivesse acariciando o planeta, agradecendo a ele por esse instante. Nesse momento, uma leve sombra me cobre, mantenho meus olhos fechados, não estou em perigo, sei quem é. Sorrio de leve quando “ele” se ajoelha e coloca sua perna direita entre as minhas que postas entreabertas ao chão. Sua mão direita toca meu corpo, enquanto se apóia com a esquerda. Me faz suspirar. Ensaio fugir dali, só para o provocar, mas ele mina minha fuga me fazendo cócegas. Viro-me. Seu corpo esta bem próximo ao meu. Sorrio quando vejo o brilho de seus olhos – aquele olhar era meu porto seguro – e toco sua face com minhas mãos, acaricio sua pele macia e branca, que contrasta tão bem com seus negros cabelos. Sua boca chama pela minha, não resisto e um longe beijo se dá. Nossos corpos brilham ao toque um do outro, me sinto completo.
– Harziel, eu te amo. – Minha boca pronuncia automaticamente quando nossos lábios se separam.
– Espero que nunca pare de dizer isso, Rafael!
– Prometo que nunca vou parar de dizer, eternamente direi.
Nossos lábios se encontram novamente e nossos corpos se unem da forma mais pura e sincera. Mas infelizmente foi meio a esse momento de esplendor, que a “coisa” apareceu interrompendo nosso prazer e enchendo o ar a nossa volta de pesar. Vi sua sombra manchar a luz do sol com sua aura negra e densa flutuando sobre nossas cabeças. Ele nos fitava. Antes mesmo que fossemos capazes de nos armar contra sua presença, a “coisa” atacou, lançou sua força sobre nós como uma flecha certeira. E eu, em um único e desesperado movimento, joguei Harziel para longe de mim, recebendo em meu corpo todo o ódio da “coisa”, materializado em um facho de energia destrutiva e antes de desfalecer ouso Harziel clamar por meu nome, choroso, desejando arrancar a dor que a “coisa” me provocou. ... — Harziel – Rafael acorda gritando e esperneando no meio da biblioteca asustando a todos a sua volta. Diana toma-o pelo braço firmemente.
– Rafa, calma!
Rafael percebendo que está no chão da biblioteca, atordoado, olha ao seu redor: Seus olhos tentam encontrar um padrão familiar naquela cena, porém só consegue sentir que não pertence mais aquele lugar, a sua volta havia três alunos que passaram por ali curiosos e adentraram para ver o acontecido, e a Bibliotecária Carmem a sua frente de joelhos sacudindo um leque a ele, assim como, Diana, segura com toda sua força o seu braço olhando-o com olhos firmes e assustados. — Rafa, está tudo bem agora, acalme-se – a voz de Diana soa terna – foi só um sonho. Rafael começa recobrar suas sobriedade e, assim, a sensação de estranheza diminui. Olha novamente ao seu redor para maus uma vez se situar no espaço, desvencilha-se do agarrão de Diana. Carmem nesse segundo pede muito educadamente para que os alunos curiosos se retirem e dêem espaço para Rafael.
– Como eu vim parar aqui?
Carmem e Diana ajudam Rafael a se levantar e sentar-se na cadeira próxima a eles, Diana permanece de pé com seu braço sobre os ombros de Rafael, como o protegendo, e Carmem senta na cadeira ao lado tentando ser o mais empática possível.
– Bom Rafael – começa Carmem – você desmaiou e por pouco não bateu a cabeça no chão.
– Eu desmaiei?
– Sim – Carmem toma Rafael pela mão – no momento que você terminava de explicar sobre tudo que você passou: dos sonhos, visões e desenhos, você simplesmente perdeu seus sentidos e se não tivesse caído de encontro a Diana, que pode te segurar, você poderia ter se machucado.
De repente todos os olhares foram atraídos para a moça da limpeza que adentra correndo a biblioteca anunciando que a ambulância estava chegando. Quando ela repara no menino sentado na cadeira espanta-se, porém depois que Carmem explicou-a que mesmo que ele tenha acordado seria melhor que ele fosse examinado, a moça da limpeza dá de ombros e saiu “porta-à-fora”. Rafael abraça sua amiga e se aconchega mais e mais no colo de Diana e ambos voltam suas atenções para Carmem. Os corredores começam a se esvaziar, pois os alunos retornam a suas salas de aula ao ouvir o sinal do fim do intervalo.
– Então Carmem – fala Diana acariciando a cabeça de Rafael que se aninha no colo da amiga – por favor!
– Certo! Sabem crianças, alguns médiuns acreditam que muitos que tem habilidades artísticas estão de certa forma traduzindo o que acontece no mundo dos espíritos.
– Ei, Carmem, isso quer dizer que eu estou sendo assombrado por algum fantasma.
– Não é isso Rafael. Quero dizer que sua sensibilidade abre a sua mente para e que se comunique com seres e energias que não podemos ver normalmente. Chamamos isso de mediunidade sensitiva. Você sente todo um mundo a sua volta que não é esse que conhecemos como mundo material, e não sabe o que realmente esse sentimento significa, mas os traduz para seus desenhos. E esse desenho que você desenhou quase de forma automática pode traduzir bem isso.
– Nossa. – Rafael vira seu olhar, pensativo.
– No entanto achei muito estranho você desmaiar assim, sabe. Isso pode ser prova que alguma coisa está o desequilibrando energeticamente.
– Como assim, Carmem? – Pergunta Diana sem esconder sua preocupação ao amigo.
– Assim oh! Vocês estão estudando que o corpo humano gera um campo eletromagnético, não é?
– Sim. – Ambos concordam. — Esse campo é gerado através de processos químicos do nosso corpo e é fato que nosso pensamento, por ser um pulso eletromagnético, é capaz de alterar esse campo fazendo com que nos cause mal estar e até doenças. Chamamos isso de psicosomátismo.
– Eu juro que to tentando entender – Fala Rafael enquanto esconde parte do rosto no colo de Diana, como uma criança no colo da mãe.
– Não se preocupe Rafa, eu te ajudo a entender... Seu bobinho. – diz Diana de forma carinhosa bagunçando o cabelo de Rafael e sorrindo debochadamente.
– Você é que é! – A voz de Rafael é abafada pelo corpo de Diana.
– Rafael, agora reparei seu cabelo está bem comprido, esta pelos ombros.
– To tentando deixar crescer, mas meu pai ta pegando no meu pé pra que eu corte.
– Carmem, olha as unhas, também parou de roer e ta crescidinha.
– Nossa, é mesmo.
– Eu já disse pra ele, Carmem, que mais um pouco eu vendo ele como uma boneca francesa. — Risadas.
– Até você Diana?
– Seu bobo, sabe que estou brincando.
– HAI!
– Vocês e suas expressões Otakus. — Risos.
Nesse momento dois homens com macacões laranja trazendo maletas de primeiros socorros adentram a biblioteca.
– Quem é o menino que desmaiou?
– É esse senhor, mas ele recobrou os sentidos à pouco.
– Deixe-me ver. — O rapaz pega uma pequena lanterna e começa examinar Rafael. — Aparentemente ele está normal, mas vamos levar ele até a emergência hospitalar só para garantir – o socorrista desliga a lanterna e olha para Rafael tocando singelamente seu nariz com a ponta do dedo em um gesto de conforto – pois com desmaios não se brinca, não é?
Rafael encabula e sorri timidamente para o rapaz do pronto atendimento.
– Quem vai de responsável dele? – o outro rapaz de macacão laranja pergunta.
– Eu vou. – Diz prontamente a bibliotecária Carmem.
– Eu posso ir também Carmem? — Não sei não Diana.
– Por favor – suplica ambas as crianças. — OK! Mas só se os paramédicos não se importarem.
– Se a senhora se responsabilizar não tem problema algum – diz um dos rapazes do pronto atendimento – e além do mais, eu também tive uma amizade assim na infância, sei bem como é difícil se separem.
– Aé? – curiosa Diana pergunta – e vocês se vêem até hoje?
– Todos os dias, eu casei com ela logo que terminamos a faculdade.
Rafael olhou Diana com olhar de espanto e Diana responde o olhar de forma comicamente maléfica.
– Di! Nem pense nisso! — Risadas.
Aos saírem da biblioteca uma pequena multidão de alunos cercava os cinco personagens do ocorrido, pois o som da sirene da ambulância fez com que boa parte dos alunos saísse de suas salas de aula, e como se fossem o publico de uma parada, os fitavam enquanto caminhavam pelo corredor. Carmem trancava a biblioteca e Rafael se escondia na sua timidez enquanto Diana segurava-o pelo braço com medo que ele desmaiasse novamente ou simplesmente ficasse com as pernas bambas diante de tanta gente fitando-os. A bibliotecária Carmem ao passar pela portaria da escola dá instruções à encarregada para que ligasse para os pais das crianças explicando o ocorrido, dizendo-lhes que podiam ligar para o celular dela para maiores detalhes e que adiantassem que ambas crianças estavam bem e que era apenas uma manobra de rotina em casos como esse. A pequena multidão seguiu-os até avistarem os quatro adentrarem a ambulância que logo saiu com as sirenes ligadas em direção ao hospital. Dentro da ambulância Rafael alcançou um pequeno cartão magnético para a Carmem, que estava dentro de sua carteira de documentos.
– Toma Carmem! Esse é meu cartão do plano médico.
– Bem lembrado Rafael – ela se aproxima pra cochichar ao seu ouvido – assim não vamos ter que esperar muito. — Risadas abafadas.
Carmem olha para seu relógio e se espanta ao reparar que já era onze horas da manhã. Repassou em sua mente, minuciosamente, o ato de trancar a porta da biblioteca para ter certeza que não teria deixado nada aberto. Não demorou muito tempo e o telefone tocou, era a mãe de Rafael do outro lado da linha. Carmem teve que repetir dezenas de vezes para mãe preocupada que Rafael estava plenamente consciente e que estavam indo apenas fazer exames de rotina. Carmem confirmou com os paramédicos o hospital em que estariam e passou a mãe zelosa que prontamente disse que chegaria o mais rápido possível. Nem bem desligou o celular e Carmem já o vê tocar novamente. Dessa vez era a mãe de Diana, que ao contrário da mãe de Rafael levou menos tempo para aceitar as explicações de Carmem. A mãe de Diana ainda enfatizou dizendo “nem assim esses dois se separam”, Carmem concordou sorridente. Diana pediu para falar com a mãe; explicou que a mãe de Rafael ia busca-o no hospital, pois haviam combinado que iriam almoçar com ela antes de ir a casa de Rafael e por causa do ocorrido teriam que desmarcar. A mãe de Diana lamentou não ter a companhia dos dois na hora do almoço e consistiu, mas pediu que Diana ligasse para ela quando chegasse à casa de Rafael. A filha concordou e se despediu da mãe. Carmem ao ter seu telefone devolvido, aproveitou para ligar para seu marido dizendo o que acontecera, explicando que se atrasaria um pouco e que ele não ficasse preocupado. Em poucos minutos a ambulância chega no setor de emergência do hospital mais próximo. Os paramédicos retiram Rafael da ambulância e o levam para dentro em uma cadeira de rodas, que fazia um barulho engraçado, parecido com o apito de caça usado para atrair gansos. Rafael ria consigo toda a vez que se dava conta disso. Em frente à recepção, Carmem mostra a carteira de identidade e o cartão do plano de saúde de Rafael. A atendente lhe dá o formulário impresso e preenchido de pacientes de convenio encaminhando-os para sala de espera. Diana vai com Rafael e Carmem decide esperar pela mãe do rapaz na recepção. Nem bem se dividem e a mãe de Rafael entra pela porta já reconhecendo a bibliotecária da escola. Mãe e bibliotecária se cumprimentam, após algumas explicações adentram para verem Rafael que está sentado em sua cadeira de rodas, que imitia o som de apito de ganso, escutando as explicações do doutor que o examina. A mãe chocada, por ver o filho em uma cadeira de rodas, apressa o passo em direção a ele ignorando a presença do doutor ou de Diana que estava ao seu lado.
– Meu filho você esta bem? Porque te colocaram numa cadeira de rodas, consegue andar?
– Mãe, estou bem...
– Sim, “mãe” – diz o medico calmamente – seu filho esta bem, a cadeira é só uma precaução, já que se recobrou de um mal súbito. Agora apenas nós vamos subir com ele pra fazer alguns exames de rotina, mas em geral, apesar dele estar com uma pressão de 10 por 7, que é um pouco baixa, apresenta um bom quadro.
– Mas essa pressão assim não é problema?
– A principio pode ter sido provocado pelo desmaio, ou ela o provocou, mas ele é jovem e já-já estará recuperado.
– Viu mãe, não tem problema, eu devo ter me estressado um pouco, só isso.
– Estressado, capaz! Você é muito novo pra essas coisas. Quando você voltar dos exames, né doutor, Vamos ver o que você tem.
– Exato, “mãe”! Agora esperem aqui que eu e esse garotão vamos “dirigindo” essas rodas para o inicio dos exames.
Rafael saiu empurrado pelo doutor em sua cadeira de rodas para dentro de um largo elevador. As três, Sua mãe, sua amiga e sua bibliotecária fitaram o elevador se fechar com Rafael e o doutor. O menino sorri para elas antes do fechamento das portas. Meia hora se passou e um enfermeiro voltou carregando Rafael em sua cadeira de rodas com som de apito de ganso de volta para seus entes queridos. Rafael sorri ao vê-las e diz “ola” de forma geral e animada. O medico chega logo em seguida trazendo alguns papeis na mão. Ele pega seu aparelho de pressão e seu estetoscópio para medir mais uma vez a pressão de Rafael. Mãe e filho se olham e fazem careta um pára outro duranto o exame.
– Sua pressão esta boa, 11 por 8. Os exames não apresentaram nem uma lesão cerebral. Não se queixa de mais nada. Está ótimo pra sair e aprontar mais uma vez.
– A não, aprontar de novo. Uma já ta bom.
– Certo! Mas pra agora, ele esta liberado, só tomar cuidado nas próximas 24 horas. Não comer de mais, não madrugar, e tudo vai dar certo. E se por um acaso apresentar qualquer outro sintoma, é só voltar.
– obrigada doutor – agradece a aliviada mãe
– pode deixar que qualquer coisa eu retornarei com ele. Diana empurra a cadeira de rodas com Rafael em direção à porta de saída do hospital.
– Viu o trabalho que você me dá seu Rafa?
– Á, Di! Não briga comigo, to dodói.
– Ta bom, mas só porque amanhã é seu aniversario. — Ambos sorriam, um para o outro.
– É amanhã então Rafa?
– Sim, Carmem. – Rafael sorri, fechando os olhos, de uma forma contente e sincera.
– É, o pai dele vai fazer um churrasco com os padrinhos e avós dele. – Completa a atenciosa mãe.
– Que bom! Parabéns! Quantos anos, mesmo?
– 15. – Rafael apressa-se para falar. Carmem sorri para ele.
O grupo chega à porta do hospital, Rafael ainda permanece sentado na cadeira.
– Bom já que o moço ta entregue eu vou pra casa que ainda tenho que almoçar com meu marido. Oh, Alex sempre fazendo tudo por mim em casa. Acreditam que ele me acordou ontem com cafezinho na cama? — Comoção geral.
– Então, ta Dona Carmem, obrigada por cuidar do meu filho. Eu sei que ele é uma criança difícil. Obrigada por tudo mesmo! – Diz a aliviada mãe.
– Que isso não precisa agradecer e nem me chamar de dona.
Ela se despede de cada um com um beijo em cada bochecha direita, e sai em direção ao ponto de táxi. Os demais olham enquanto ela abana de dentro do táxi e parte de encontro ao seu marido para almoçarem juntinhos. -
Então, cara. Não vai mais sair dessa cadeira, não.
–Mas ta tão bom assim, mãe. Com a Di me levando.
– Ta Rafa! Pode descendo que seu passeo só pode ser ate aqui à porta do hospital.
– Pena.
Os três descem a pequena escada em frente ao hospital e entram no primeiro táxi do ponto. A mãe faz Rafael sentar no banco da frente no táxi, pois ela não gosta de ir sentada no banco da frente, Diana a segue no banco de atrás ao passageiro.
– Agora que eu lembrei, gente, a minha mochila, eu acho que ficou na escola.
– Brincadeira, mesmo, Rafa. A sua mochila, filho. Como pode esquecer?
– Mãe, eu desmaiei.
– A dona Carmem disse que você já tinha acordado quando a ambulância foi te buscar.
– Mas mãe, eu não ia lembrar disso naquele momento.
– Ta tudo bem, vamos lá buscar.
O táxi arrancou do ponto após a mãe de Rafael explicar onde ficava o colégio do filho. O taxista habilidosamente traçou uma rápida rota até o colégio que lhe indicaram, e em minutos parou à porta. Rafael saiu rapidamente, escutando as inúmeras recomendações da mãe, que só cessaram quando ele entrou no prédio do colégio. A atendente da portaria informou que ele podia passar na biblioteca que a estagiaria da tarde já havia aberto-a. Ele apressadamente caminhou ate onde deixou suas coisas. Ao entrar na biblioteca Rafael estagnou ao ver um rapaz elegante de boa postura, ereto, à frente da mesa da bibliotecária, onde Rafael deixará suas coisas espalhadas. O fino rapaz fitava a folha onde Rafael desenhou o misterioso ser, segurando o caderno com sua mão direita e a outra dentro do bolso da calça, levantando levemente a ponta do casaco de paletó. Rafael não conseguia agir, estava hipnotizado por aquele homem. — Vejo grande influencia em manga nesse desenho. Realmente isso prova que seja qual for a inspiração que os altos enviem, ainda assim, tem que passar por um aparelho humano e todas suas influencias terrenas. O estranho vira a cabeça e fita Rafael nos olhos. Rafael engasga. Não consegue distinguir o rosto do homem a sua frente de forma nítida, só os olhos, que lhe prendem toda a atenção. O ambiente da biblioteca lhe parece enegrecido, sombrio.
– É seu não, é?
– S... Sim... É meu sim. — Rafael sente que seu coração vai sair pela boca.
– É um ótimo trabalho. E essa frase, realmente ficou bem dramática assim. Lembra-me um romance de banca de jornal, bem inflamado.
O homem se aproxima de Rafael e lhe alcança o caderno. Com mãos tremulas Rafael pega seu caderno e o coloca contra o peito, abraçando-o.
– Você deve o amar muito, para lhe desenhar assim, de forma tão expressiva.
Rafael sente todo seu corpo tremer, e sente o olhar do estranho homem lhe atrair como um forte imã ao qual ele é incapaz de escapar. Porém seu transe é interrompido pela buzina do táxi que o aguardava. — Preciso ir. Rafael recolhe velozmente suas coisas enfiando-as na mochila e sai correndo, passando pela porta da biblioteca como um vulto. Passa pela portaria sem nada dizer, abre a porta da saída e a deixa bater violentamente ao sair. Na rua, atravessa-a sem olhar para os lados, por sorte não passava carro algum naquele momento, entra no táxi e afivela o cinto.
– Poxa, que demora, filho? Pegou todas as suas coisas?
– Sim, mãe.
Rafael tenta disfarçar a voz tremula. Porém, tanto sua mãe quanto sua amiga Diana percebem seu nervosismo. O táxi anda, e a mãe de Rafael indica o destino.
– Filho, você está bem?
– Só um pouco tonto. — Diz Rafael ao fechar a escancarada mochila, mas não antes de fitar mais uma vez o desenho. Todos seguem a viagem em silencio. Rafael tenta imaginar que aquilo tudo que aconteceu há poucos instantes na biblioteca foram apenas partes de um sonho. Um sonho ruim de um dia ruim.
– Haziel... – O nome lhe toma a mente enquanto fala baixinho – o que é você? A voz de Rafael sai tão baixa que sua mãe e sua amiga do banco de trás não percebem. E o motorista ao seu lado, se é que percebeu, não deu bola. Em sua profissão, o motorista, aprendeu a não estimular a conversa quando o passageiro assim não quer. Rafael fixa o olhar na paisagem urbana passageira, na franca tentativa de afastar seus pensamentos. Ele odeia aquela sensação que diz que seu mundo desmoronou e sua frágil redoma se partiu. Não o culpem por ser inseguro e nem por todo o mimo que recebera de sua mãe, pois esse veio para suprir a ausência do pai em sua vida: A grande verdade entre eles, Rafael e seu pai, é que não pertenciam ao mesmo tempo e espaço. De seu pai, só tem a teimosia herdada. Pai e filho travam com seus egos uma guerra inglória. O pai mostrando sua autoridade patriarcal e Rafael tentando ser o filho esperado. Porém, Rafael desistiu de tomar o cargo de “o filho querido” aos gostos do seu pai, posto este, ocupado pelo seu irmão. Assim, dolorosamente tenta nos últimos meses achar seu lugar no mundo e no meio daquele turbilhão que lhe atingiu naquela manhã é impossível que todo esse questionamento não o atormente no caminho para casa.
– Filho, vem! Já chegamos. Rafael percebe que Diana e sua mãe saíram do carro e que o táxi está parado frente a sua casa.
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