Sweet blasphemy
2 Capítulo 2- Earrings
Ao fundo o pequeno publico emitia sons de deboche ao ato de Rafael ao seu agressor, provocando a briga. O rapaz percebe que Rafael esta irredutível, suspira em desaprovação e sai esbarrando no ombro de Rafael, seguido por dois amigos em direção ao pátio.
– Isso ai é louco... – Fala o rapaz para os seus companheiros – Nem vale a pena.
– Da próxima ele não escapa, Tuca!
Diana pega Rafael pela mão. — Rafa, vem... — Rafael sai inconformado dali. Os dois amigos caminham silenciosos em direção a sala de aula, em silencio. Por sorte o professor não chegou ainda à sala. Os dois sentam em suas carteiras. Rafael na ultima classe e Diana a sua frente na fila rente a parede oposta à porta da sala.
– Rafael, você esta chorando? As lagrimas escorriam no rosto de Rafael. Ele virava o rosto para que os demais colegas não percebessem seu pranto.
– Não é nada. – Rafael engasga.
– Não fica assim por causa de um idiota como aquele. – Diana toma a mão de Rafael.
– Eu tenho muito ódio disso... Ai, eu não agüento... Di, eu tenho medo de mim mesmo, quando fico irritado!
– Por causa do que você me contou? Que perdia a consciência quando ficava irritado?
– Também... – Rafael encosta o rosto na classe. -
Não fica assim... Tome! – Diana tira de sua mochila rosa e azul celeste uma pequena caixinha preta com coraçãozinhos rosas e entrega a Rafael.
– Pra mim?
– Claro, seu bobo, é seu presente de aniversário. Gostou da embalagem? Achei a sua cara.
– Adorei. – Rafael seca suas lagrimas e se põem a abrir o pacote. Dentro, um par de brincos com pingentes em formato de espada, cada brinco tinha um pequeno vidrinho na parte superior do cabo da espada e outro na base da tarraxa, em formato de brilhante. Um par em azul e outro em verde.
– Que lindos... Lembram os brincos que o chefe do bando de vampiros usava no filme “Garotos Perdidos”. Mas eu não posso usar, minhas orelhas não são furadas e meu pai ia ficar uma arara comigo.
– Não tem importância, eu furo para você e quanto ao seu pai, eu dou um jeito. Ele me adora.
– Sério, mesmo?
– Mesmo, mesmo. E ainda por cima pode se desengatar as espadas, ficando só com as bases, assim, ficando mais discretos.
– Legal Di!
– Mas amanhã de noite quando nos encontrarmos com o pessoal do encontro otaku, quero você usando viu.
– Medo! Di o que você esta aprontando? O sinal toca e prontamente o professor adentra a sala dando bom dia a todos.
– Depois da aula conversamos sobre isso.
Dá inicio à aula de matemática. Rafael abre seu caderno, não antes de guardar com todo carinho o presente de Diana em sua mochila, anota algumas coisas e tenta se ater às explicações, mas como sempre se dispersou em seus pensamentos, vira a pagina e começa a desenhar. Deixou sua mente livre, com a caneta na mão, desenhando uma figura alta e esguia, cabelos negros e longos, um rosto com feições fortes e bm masculinas, uma espada em sua mão direita, colocada como uma bengala à sua mão, e asas de anjo. Rafael olhou com calma para seu desenho e murmurou “é ele” – repetiu para si três vezes. Diana escutou o murmúrio de seu amigo e já sabia que ele tinha criando algo muito interessante, ela mesma tinha uma pequena coleção de desenhos que ele havia feito para ela. Chega ao fim dos dois períodos da matéria. Diana Volta-se para o amigo para ver o que ele tinha desenhado, ele estende o desenho a ela, que olha com uma certa estranheza.
– Quem é, Rafa?
– Não sei bem que é, mas acho que ando sonhando com ele.
– Nossa! Assustador isso. Mas o desenho esta lindo, só acho ele um tanto triste.
– Você acha? Eu to abobado com esse desenho, minha mão o fez quase sozinha.
– Será que ele é como você está se sentindo?
– Pode ser, mas eu tenho a sensação de já ter visto ele.
– O mais assustador, Rafa, é que eu também estou com essa sensação.
A professora do período vigente entra pedindo que todos formassem duplas para o trabalho de história. Quase instantaneamente, Rafael e Diana juntam suas classes. Rodrigo, o colega da frente de Diana olha pra traz e ironiza:
– O casalzinho já se juntou! – Sua cara era de puro deboche.
– Está com ciúmes é Rodrigo? – Já retruca Diana que o deixa sem palavras – Só é difícil de saber quem de nós dois você tem mais ciúmes, de mim ou do Rafael. — Diana, vai se ferrar! – E vira para sua classe, o contrariado Rodrigo.
– É um chato mesmo... – Murmura Rafael a sua amiga. A professora passa no quadro os requisitos do trabalho que eles deveriam fazer naqueles dois períodos, entrega os livros de consulta enquanto explicava os demais detalhes e responde as duvidas dos alunos. Ao chegar na classe dos dois amigos ela brinca:
– Vocês dois, pra se separar só se um tiver em casa doente, né? – Diz ela com um sorriso brincalhão nos lábios.
– Bons amigos são assim, professora. – Adianta Rafael.
– Isso vai longe. – comenta a professora.
Rafael ri de si mesmo e volta ao seu caderno, no intuito de trocar a folha para iniciar o trabalho. Porém, assombrado ele vê sua mão de forma autônoma escrevendo uma frase ao roda-pé do desenho. A mão para e se lê: Eu estarei com você, eternamente!
– Di. Você viu isso?
– Sim Rafa, eu vi. — Os dois inibem a vontade de gritar. Exclama alto, a professora interrompendo o transe dos amigos:
– OK, gente! Não quero mais conversa, enfiem-se na matéria, que já deveria estar na ponta da língua de vocês...
– Como assim professora. – Um dos alunos. — É professora agente não tem como já saber tudo. – Outro aluno.
– De tudo é obvio que não, mas dessa matéria deveriam sim, pois eu passei semana passada para vocês e ainda avisei desse trabalho.
Rafael aproveita a distração de todos com o discurso da professora e fecha seu caderno bruscamente, como quem fecha a tampa de um pesado baú de tesouros malditos. Logo, abre o livro de pesquisa tentando se desvencilhar da cena, porém seu olho retorna para o caderno, era um pesar que ele não compreendia, lhe trazendo medo e curiosidade.
– Rafa, você está bem?
– Sim... Não... Di... Vamos fazer esse trabalho, que é melhor. — A amiga se silencia. Diana sabia o quanto o silêncio era importante para Rafael e falar com ele naquele momento só o deixaria mais confuso. As primeiras palavras de Rafael após seu “silencio-de-conforto” foram “a segunda guerra mundial foi marcada...”. Rapidamente, Diana percebe que se trata da primeira pergunta do trabalho e anota o que amigo falou, acrescentando suas próprias anotações da aula anterior. Depois desse retorno de Rafael ao mundo consciente os dois amigos deram continuidade ao trabalho apressando o termino quando a professora falou que quem terminasse poderia sair para o recreio antes do sinal tocar. Os dois terminam o trabalho rapidamente, socam suas coisas nas mochilas e saem apressados, esbarrado nas mesas dos demais colegas.
– Ei vocês dois! Onde é o incêndio? Assim vão acabar se machucando.
– Ta bom, Profe! – Exclamam os dois ao sair pela porta da sala de aula após depositar o trabalho na mesa da professora. Como dois fugitivos agoniados, Rafael e Diana seguem pelo corredor, se entre olhando, olhos esbugalhados. Rafael segura sua mochila contra o peito fortemente, dando a impressão que ele vai atravessar o próprio corpo meio à tamanha força empregada nos braços. Naquele momento o conteúdo de seu caderno era como a formula de uma poderosa bomba preste a explodir. Os passos dos dois eram pesados e largos e em segundos chegam ao pátio, se dirigem ao bar, se escorando no balcão, e pedem refrigerantes para aliviar a tensão. O liquido supergelado acalma-os.
– Como você fez aquilo, Rafa?
– Eu não sei – Rafael diminui a voz – a minha mão se mexia sozinha, eu não mandei ela escrever aquilo.
Os dois saem em direção ao primeiro prédio deixando as garrafas vazias de refrigerantes abandonadas no balcão do bar. Suas passadas não são tão pesadas como anteriormente, mas mesmo assim são rápidas. Eles caminham com os rostos próximos falando baixo para que ninguém os ouvissem. Em poucas passadas chegam à porta da biblioteca, um espaço adaptado: duas salas de aulas que foram unidas para dar espaço as mesas e livros que compõem a defasada coleção da mesma. Os dois se sentam a uma mesa redonda, ao fundo da sala, entraram sem prestar a atenção a ninguém, há apenas dois alunos pesquisando na bibliotecária e a bibliotecária que se perde meio a fichas de registro. Rafael coloca o caderno sobre uma mesa, eles se olham, e abre a pagina com o desenho.
– Meu desejo era de abrir o caderno e não encontra isso escrito, ai! Preferia que fosse uma alucinação.
– Rafa, essa letra não é sua. Quer dizer eu vi você escrevendo e vi sua cara de assombro, mas essa letra não é sua, Rafa!
– Isso só pode ser algo muito sinistro.
– Deve ser algum tipo de escrita automática, como as dos médiuns espíritas!
– Como assim?
– Oi crianças, entraram e nem me deram oi! – Diz a bibliotecária por trás deles olhando por cima de seus ombros.
– Oi Carmem – diz Diana com um sorriso amarelo – estávamos muito distraídos, sabe!
– Mas que coisa linda que é essa – Carmem pega nas mãos o caderno de Rafael para olhar mais de perto, ele tenta instintivamente encobrir-o, porém o desejo de Carmem é mais forte que seus reflexos – Rafael, esse desenho está perfeito, nossa é um belo trabalho de ilustração, lembra as ilustrações do Frazetta no Conan, só que claro, com o seu adorado estilo manga aqui junto. Parabéns. Nossa que dramática essa frase “eu estarei com você, eternamente!”, típica de amantes, daqueles que só se vê em romances cheios de tragédias “gregas”. – Carmem devolve o caderno a Rafael, que o coloca gentilmente sobre a mesa – Bom amores se precisarem eu estarei lá na minha mesa arrumando algumas fichas de retirada, depois se quiserem, sentem-se lá comigo pra conversarmos mais e tomar um cafezinho.
– Ufa, estou mais aliviado agora.
– Por que, Rafa?
– Porque se for mesmo como você falou sobre ser uma escrita automática, e for algum tipo de fantasma que escreveu isso, é alguém apaixonado.
– Nossa, Rafa, você tem um amante fantasma! Risos. — Boba... É, mas, parece um anjo, tem asas.
– É mesmo – os dois respiram um pouco mais aliviado, já quase esquecendo do tormento que foi assistir tudo aquilo
– sabe, lembrei que a Carmem pode nos ajudar.
– Como?
– Ela faz parte de um grupo espírita, e me explicou algumas coisas sobre mediunidade quando eu acordei com coisas voando pelo meu quarto.
– É, quem sabe. Eu gosto dela, vamos tentar. — Os dois amigos se levantam e vão até mesa da bibliotecária Carmem que os recebe com um largo sorriso e duas xícaras de café fresquinho. Rafael puxa duas cadeiras para que ambos sentem frente à mesa de Carmem.
– Carmem, o café está ótimo – começa a falar a jovem Diana – mas, sabe... Carmem olha atentamente para Diana exibindo um semblante que inspira segurança. — O Rafa... Bem... Aconteceu com ele uma coisa meio estranha...
– Estranha? – Carmem agora vira para Rafael com um olhar neutro e atento – o que ouve, Rafa?
Rafael entrega para a bibliotecária o seu desenho e narra tudo o que aconteceu com ele, do sonho que teve incluindo a sensação que sentiu ao acordar naquela manha, e outras manhãs que acordara sentido a mesma sensação e do desenho sobre a mesa. Revelou também que não era primeira vez que desenhava com tal gana, que outras vezes quando muito triste, sua mão criava a face de um homem, muito parecido com essa imagem ou de anjos de asas enegrecidas... De repente a voz de Rafael cessa, seus olhos se fecham e ele cai desacordado. ...
Fale com o autor