Sweet Nothing
17 Snowflakes
Notas iniciais
Talvez meu corpo seja apenas um depósito de dores, e que minha alma não passe de uma floresta de mentiras.
Meus ossos já não suportam manter-me de pé. Meus olhos já não aguentam encarar a minha realidade. E minhas emoções já não têm sentido. E o que o amor fez comigo? Pregou-me armadilhas para levar-me para a escuridão.
Eu poderia estar cega. Cega de tudo de e de todos, e no final, retirassem a venda que me impedia de ver toda a decepção exposta nos rostos de cada um.
– Quem sabe seria melhor se eu fosse cega desde o começo... – Murmurei para mim mesma. Seria mais fácil se eu não enxergasse toda a dor que me rodeava desde o princípio...
– Seria apenas uma maneira de você tentar ignorar a realidade. – Acrescentou uma voz que até então eu não tivera ouvido. – Faria com que você se tornasse uma tola, e não a grande mulher que se esconde atrás de seu escudo.
Eu pensava que tudo que havia acontecido desde o início fora um sonho. Que Scott nunca tivera existido, que eu não houvesse colocado um pé para fora daquela casa. Que eu não havia visto a visão de James.
Mas agora tudo fazia sentido... A escuridão que me levara era real. E que eu não estivesse deitada em um colchão apenas encarando o pesadelo que eu “supostamente” havia presenciado.
Eu estava na toca da sombra. No lugar em que meu sequestrador depositava suas vítimas... Se é que posso me considerar assim.
– Seria mais fácil se eu pudesse vê-lo. – As palavras saíram de mim em um tom grave eu que eu nunca tive, em um tom determinado e seguro que eu nunca experimentei.
E então as luzes foram acesas, revelando o dono da voz que conversava comigo.
Um homem de aparência britânica estava parado à minha frente. Os cabelos negros e pele pálida como a neve. Os olhos de um tom de cinza que somente meu pai possuía.
Só então percebi, ele se parecia mais com meu pai do que eu mesma. Mas ele não poderia ser meu pai, ele está morto, e se estivesse vivo, seria bem mais velho.
– Você... – Tentei pronunciar alguma coisa, mas minha voz estava congelada assim como todo o meu corpo. Lembrei-me de uma imagem que eu havia encontrado de meu pai mais novo, e olhei para a pessoa à minha frente, que era totalmente semelhante a ele naquela época.
Meu corpo inteiro ficou em estado de choque e o ouvi soltar um suspiro.
– Você deve estar com frio. – Comentou e se ajoelhou perto de uma lareira preparando-a para ser acesa. – Vou preparar alguma coisa e trazer-lhe uma coberta. – Terminou e retirou-se da sala apagando a luz e deixando que apenas o fogo iluminasse o local.
Abracei minhas pernas e tombei para o lado. Percebi que estava deitada em um sofá. Observei a neve cair pela janela. Tentei não pensar no que aquele homem seria e no que ele queria comigo.
Talvez eu realmente não saiba nada sobre a minha vida.
Logo ele volta com uma manta xadrez preta e branca em mãos. Ele encarou-me por alguns segundos e então a ajeitou sobre meu corpo. Suas mãos começaram a traçar todas as linhas de meu rosto. Sua mão era gelada, áspera, e obviamente maior que a minha. Ele lentamente fechou meus olhos com seus longos dedos e senti sua outra mão tocar a minha.
Eu iria gritar. Iria pedir por socorro pela próxima ação que ele faria. Mas então meus olhos se abriram e o encarei. Suas intenções comigo estavam claramente ditas em seu olhar. Ele não queria usar-me, ele queria me proteger.
Seus olhos idênticos ao de meu pai trouxeram-me o mesmo sentimento que eu tinha por ele antes de partir. Ele era um estranho para mim, mas algo dentro de mim dizia-me que poderia confiar nele mais do que qualquer um.
Então o barulho da porta se fechando me assustou. Sentei-me rapidamente no sofá enquanto via a expressão de seu rosto mudar drasticamente.
Passos fortes iam à direção da sala. Escondi-me atrás do corpo da pessoa que estava à minha frente e esperei por qualquer pessoa ruim aparecer ali.
Meu coração congelou ao ver quem era por de baixo de uma pilha de casacos.
Ele estava diferente, ou talvez eu houvesse realmente me esquecido de como ele era. Ele estava mais pálido do que o normal, deveria ter passado dois dias sem se preocupar com a barba e sua expressão estava mais fria do que antes.
Seu olhar fixou em mim por um longo tempo e o único barulho que havia era o da lenha queimando.
Eu não sabia como agir, não sabia o que deveria pensar. Ele havia me enganado pouco tempo atrás, e agora estava ali, totalmente morto por dentro diante de mim.
Seus olhos desconectaram dos meus parando no rapaz à minha frente.
O que os dois estavam planejando? O que eles iriam me dizer?
– Henry. – Cumprimentou James. Finalmente algo foi dito. Logo presumi que esse seria o nome do homem que ficara comigo.
– James. – Respondeu sentando-se no braço do sofá, a uma distância adequada de mim.
Ele assentiu e retirou o gorro que estava em sua cabeça, em seguida, virou-se saindo da sala.
Meu coração que estava congelado quebrou. Todo o meu choque e angústia cessaram dando o posto para a raiva.
Ele havia me ignorado como se eu fosse um nada, um doce nada.
Tentei levantar, mas minhas pernas estavam fracas. Henry segurou-me a tempo de não deixar-me cair. Tentei lutar bravamente contra o homem de ferro que me segurava.
– Deixe-me dar apenas um soco nele! – Gritei contra o seu peito. Ele negava e tentava me segurar de alguma forma. Tentei com todas as forças que eu podia para livrar-me dele, mas eu ainda não estava forte o suficiente para manter-me de pé corretamente.
Ele agarrou meus pulsos com apenas uma mão e prendeu-os contra meu peito. O meus olhos se encheram de lágrimas e fui caindo lentamente de joelhos no tapete da sala.
– Escuta. – Ele ergueu meu queixo deixando nossos olhares conectados – Eu não vou deixar que você faça qualquer coisa na qual irá se arrepender depois! – Disse serenamente, como se fosse natural ele ter algum poder sobre mim. Como se eu fosse dele.
– E você acha que é quem para poder me impedir de alguma coisa?! – Respondi entre os dentes. Eu ainda conseguia vê-lo por trás de meus cabelos totalmente desarrumados.
Tentei esquivar-me de seus dedos e tentar virar o rosto, mas ele pressionou-os e aproximou mais nossos rostos.
– Eu sou seu irmão, – e logo senti todos os meus ossos se derreterem – e daqui pra frente tudo vai ser diferente. – Terminou firme.
Meus olhos se arregalaram e as lágrimas já não tinham força o suficiente para cair. Minha mente tentava entender o que ele havia dito, mas se recusava a processar tal informação.
E nesse momento, desejei com todas as minhas forças aquilo fosse apenas um pesadelo.
Mas não. Tudo era real.
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