Sweet Like Cake.
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Notas iniciais

O Glee Club estava definitivamente em crise. Não só por Finn e Vic terem saído — o que significava que tínhamos dois membros a menos e, portanto, não poderíamos competir —, mas também por todos se manterem desunidos devido aos duelos. Rachel e Charlie ou se ignoravam ou começavam seus discursos patéticos de como uma é melhor do que a outra ou que uma tem ao menos um nariz normal. E enquanto isso, eu e Rachel prosseguíamos com nossos treinos árduos de tango, e eu estava contente por pisar menos no pé dela como costumava fazer. Já fazia alguns dias que Vic havia ido embora, e desde então Zach continuou avoado e distraído como antes. Finn e Chelsey andavam de mãos dadas pelos corredores, e parece que a popularidade do garoto havia voltado ao ápice assim que ele saíra do Glee Club. Isso era facilmente percebível pelo sorriso maldoso de Chelsey, que acenou para Rachel assim que passou por nós.
— Que estúpida. — Rachel murmurou guardando um livro dentro de seu armário. — Bom, não importa! Quando eu conseguir o cargo de líder feminina, Chelsey será a primeira a levar um pé na bunda e nos deixar em paz.
— Sabe que se fizer isso vamos ter menos membros ainda. — Falei arqueando a sobrancelha. — Só mostre a ela que você não precisa ser loira e nem de um namorado de dois metros pra ser reconhecida. Quer dizer, você já é reconhecida.
— Eu sei, Kurt. Todos aqui sabem que eu sou a melhor cantora do McKinley. Tanto que levarei ainda hoje ao Diretor Figgins a sugestão de mudar o nome de “New Directions” para “Discípulos da Rachel”. — A menor disse com um sorriso animado conforme andava ao meu lado abraçando alguns livros e cadernos; todos encapados com estrelas.
— Não, você não é reconhecida pela sua voz. É reconhecida por essas roupas horríveis. Não entendo, você anda tanto comigo e ainda assim continua se vestindo como uma... Não sei, como uma secretária ninfomaníaca de meia idade que tem uma paixão explícita por suéteres de rena!
— Kurt, só porque você se veste como o Willy Wonka não quer dizer que sabe de moda. — Rachel falou colocando seus cabelos por cima do ombro, em um gesto de desdém. Este foi o momento mais próximo em todos os nossos dias de amizade em que quase dei um soco na cara dela. — Aliás, hoje nós vamos ensaiar mais cedo! Como você sabe, amanhã é o dia dos duelos e nós devemos estar prontos.
— Nós já estamos prontos, Rachel... Quer dizer, você precisa parar de pensar que pra ser sexy precisa ficar mostrando a língua o tempo todo. Se arrumar isso, estará perfeito. – Sorri ironicamente para ela já avistando a sala de espanhol a alguns metros dali.
— Falou a sensualidade em pessoa. – Rachel resmungou revirando os olhos e logo seguiu para sua sala. Eu, assim que cheguei à sala de espanhol, me sentei ao lado de Santana. A morena rabiscava uma folha em branco, totalmente distraída, aguardando o início da aula.
— Ah, que susto. Por um momento achei que fosse Johnny Depp pronto para enfiar algum doce encantado na minha boca que me fizesse ficar azul. – Ela disse com um sorriso antipático, o que me fez revirar os olhos. Qual é o problema em usar blazer e gravata-borboleta ao mesmo tempo? – Então, está treinando muito com a Hobbit?
— Sim. E também ensaiei muito a minha apresentação pro Duelo de Divos, que por acaso todos se esqueceram. – Lancei um sorriso irônico à latina e logo Zach entrou na sala. Estava bagunçado e bocejando. Sua camiseta estava abotoada incorretamente e em seu rosto estava estampado – literalmente – que ele não havia feito a barba pelos últimos três dias, fazendo parecer que ele estava bêbado. E eu sabia exatamente o que isso significava.
— Vai completar uma semana, Zachary. – Falei arqueando a sobrancelha e tentando parecer o mais autoritário possível, assim que este tentou passar despercebido por mim e Santana.
— Eu sei, Kal El... Eu esqueci, desculpa. – E então ele fez um bico, de cabeça baixa. Suspirei baixo e assenti com a cabeça, fazendo com que o mais alto se dirigisse ao seu lugar no fim da sala.
— Tá legal, o que foi que acabou de acontecer aqui? – Santana perguntou batendo a borracha do seu lápis na mesa com impaciência.
— A Vic acordava o Zach todos os dias e eles iam juntos pra escola. E eu já ensinei não sei quantas vezes pro Zach como se configura o despertador de um celular, mas ele não entende. Ou talvez não queira entender. Não sei.
— E por que vocês não vão juntos pra escola? Eu e o Arthur começamos a ir juntos desde que eu soube que passar muito tempo com você aumenta as possibilidades de ele se tornar gay. – E então ela assentiu com a cabeça me lançando um sorriso maldoso. Revirei os olhos, ignorando totalmente a ofensa da garota.
— Não vamos juntos pra escola porque não quero ser o substituto da Vic.
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De tarde, Charlie havia “convocado” uma reunião da Unholy Fortinity no Breadstix. E isso queria dizer que íamos nos reunir pra comer porcarias enquanto falamos mal dos outros. Basicamente como velhas aposentadas, porém sem os tricôs.
— Hummel, viemos pra conversar. E não pra estudar ou sei lá o que diabo é isso que você está fazendo. – Charlie disse com os braços cruzados ao ver meu fichário e várias amostras de tecidos espalhados sobre a mesa, assim como alguns croquis.
— Não terminei o vestido da Rachel ainda. Mas pelo menos eu terminei todos os meus três figurinos pro Duelo de Divos, que é bem mais importante. – Falei com um sorriso empolgado segundos antes de Santana enfiar todas as amostras de tecidos dentro do meu fichário e em seguida colocá-lo debaixo da mesa.
— Ah, é verdade! Vai ter um Duelo de Divos. – Sophie falou com o cenho franzido enquanto comia um pouco de sua torta de limão. Ela era viciada nessas tortas e talvez este fosse o motivo de ela ter a bunda tão grande.
— Sim, vai ter um Duelo de Divos. O que eu acho completamente desnecessário, nenhum garoto do Glee Club se empenha tanto como eu.
— O que importa é que o Divo vencedor consiga cantar como um divo. E não diva. — Charlie lançou um de seus típicos sorrisos irônicos a mim enquanto debruçava-se sobre a mesa e levava um pedaço de bolo à boca de Santana. E aquela seria uma abertura quase perfeita de um pornô lésbico se elas estivessem menos vestidas. E então uma garota puxou uma cadeira e sentou-se com a gente, assim como o garoto que estava com ela. Pedro.
— Tá legal, quem chamou essa vadia? – Santana disparou, fuzilando a garota com o olhar.
— Olá, Pandora. É ótimo ver você também. – Charlie disse sem animação alguma, dando um gole em sua bebida.
— Não respire perto de mim. Por favor. – Sophie falou enquanto cobria o nariz com um guardanapo.
— Ei, qual é? Não podem nem fingir que estão se divertindo? – Pedro se manifestou, tentando defender Pandora que parecia ignorar todas as provocações enquanto sugava firme o canudo de seu milkshake, fazendo um barulho irritante.
— Não. E saia daqui, senhor Cevoni, não sou obrigada a ver esse seu sorrisinho sexy e provocador quando sua namorada psicopata está olhando pra todos nós com cara de quem comeu e não gostou.
— Tem razão, não vamos perder nosso tempo. Deixe essas idiotas pra lá. — Pandora falou, pendurando a alça de sua bolsa no ombro enquanto se levantava.
— Quem são vocês?
E então, por alguns segundos, consegui chamar a atenção deles.
— A ex-namorada vadia do Arthur que expulsou ele de casa e ainda tentou me afogar. – Santana resmungou enquanto comia seu bolo de chocolate. Logo voltou seu foco à garota, que estava pronta para ir embora. — Como é viver na mansão enorme que pertencia ao Arthur? Quer dizer, você deve se sentir solitária. Ninguém gosta de você.
— Eu gosto dela, Santana. E é melhor você parar, tá sendo infantil. — Pedro falou, visivelmente irritado.
— Ela está te chantageando? Ela não é rica, não tem família e nem amigos. Você não pode estar com ela por interesse, tudo o que ela pode te oferecer são drogas e... Opa, não sei se já podemos falar de drogas. O amiguinho da senhorita Bob Marley se importa?
— Isso não teve graça. Qual é o seu problema?!
— Meu problema é que já faz mais de um minuto que estou respirando o mesmo ar da Pandora e estou com medo de ter sido contaminada por algum vírus. Vou precisar desenhar ou vocês já entenderam que não quero vocês aqui? — Santana manteve seu sorriso arrogante e a sobrancelha arqueada enquanto os encaravam. Se passasse mais dez segundos e ela continuasse com aquele sorriso, a coisa estava feia.
— Santana, chega. Quietinha. — Charlie falou praticamente enfiando uma colherada de bolo na boca da latina, que quase se engasgou. — Pandora, o que você quer?
— Comer alguma coisa e ir embora. Mas já percebi que isso não é possível, então até mais. Vamos, Pedro. — E então a garota segurou a mão do rapaz e saiu em passos rápidos para fora do Breadstix.
— Eu estava só esperando começar a tocar Crazy In Love pra que você e aquela garota começassem a dançar e competir igual fizeram em As Branquelas. — Falei dando uma garfada em meu bolo de chocolate. E logo senti como se estivesse correndo sobre nuvens cor de rosa com anjos gordinhos querubins me seguindo com suas asinhas que mal sustentavam seus corpos.
— Sabe que a única branquela aqui é você. — A latina disse, totalmente ríspida. — Por que ela tinha que aparecer?! Eu não suporto essa garota! É por causa dela que meu namorado vai acabar virando gay!
Preferi ignorar ou ela quebraria um prato na minha cabeça. Melhor não arriscar.
— Isso não seria tão ruim. — Charlie falou com um sorriso malicioso, arqueando a sobrancelha enquanto batucava suas unhas na mesa e devorava Santana com os olhos.
— Seja mais discreta, por favor. Estamos em público. – Santana disse, jogando uma bolinha de guardanapo na loira que riu em seguida. Sophie encarava a tela do seu celular algumas vezes e suspirava, voltando à sua torta de limão que já não parecia mais tão apetitosa.
— Problemas com o namorado, Sophie? – Charlie perguntou dando um tapinha na coxa da garota.
— Não vejo ele faz uns dois dias e ele não me responde.
— Espera, você já viu ele antes? – Santana perguntou, fingindo absoluta surpresa. Sophie deu um sorriso irônico que fez a latina rir.
— Isso não tem graça. O Peter é um idiota! Primeiro parece um príncipe encantado lindo e gostoso, me pede em namoro e aí desaparece. – A loira resmungou mexendo com o garfo em sua torta.
— A Emily tá mais pra bruxa má. Muito má. – Charlie deu uma risada baixa enquanto mexia nos seus cabelos, e peço desculpa ao meu cérebro pelas coisas que o fiz imaginar com esse comentário.
— Não me façam falar do inútil do Arthur. – Santana revirou os olhos e roubou um pedaço do meu bolo – típico. Peguei o milkshake da latina e comecei a tomá-lo.
— E você, boca de pepeca, quando vai desencalhar? – Charlie perguntou apoiando o rosto em suas duas mãos.
— Será que vocês não conseguem me dar apelidos mais ridículos?
— Isso foi um desafio? – Santana perguntou subitamente interessada.
— Não mude de assunto, Kurt. – Charlie voltou a insistir, o mesmo sorriso persistente em seus lábios. De repente Sophie tornou-se interessada pelo assunto, decidindo por fim ignorar o seu celular que não recebia nenhuma atualização.
— Eu não estou encalhado. Só estou... Focando mais nos... Meus estudos! Isso, estou focando mais nos meus estudos. Não tenho tempo pra “desencalhar” ou o que quer que seja. – Falei dando uma sugada profunda no milkshake enquanto sentia minhas bochechas queimarem. E o pior é que elas estavam certas. Se alguém com 16 anos nunca beijou e nem namorou só podia significar que ele estava encalhado. Na minha idade, no mínimo, já era para eu ter um filho.
— Isso é estranho. Você tem uma bunda grande e pode gemer imitando a voz da Nicole Kidman se quiser. É um grande bônus. – Charlie continuou enquanto assentia com a cabeça. Realmente, é um grande bônus.
— Vamos mudar de assunto, que tal?
— Vamos falar sobre como você consegue sobreviver em uma casa com três héteros e continuar assistindo Fashion Police. – Sophie disse com empolgação, dando um dos seus sorrisos que significavam “vou te irritar até você ficar vermelho”.
— Três? Mas o Arthur não parte pros dois lados? – Charlie perguntou mantendo seus olhos fixos em Santana com seu sorriso maldoso. Sabia que a latina detestava que desconfiassem de seu namorado, e a cheerleader iria se aproveitar disso para provocá-la.
— Isso tudo é inveja por ele ter um pênis e você não?
— Não preciso de um pênis pra fazer tudo o que ele faz.
— Wow. Seus dedos realmente devem ser impressionantes.
— Quer tirar a prova, Lopez? – Charlie arqueou a sobrancelha, ignorando todo o sarcasmo de Santana para continuar a irritando.
— Uh, que tal vocês pararem? Eu estou comendo e vocês estão fazendo coisas nojentas aparecerem na minha mente. – Resmunguei enquanto voltava a comer meu bolo de chocolate.
— Você é um pervertido, Kurt. – Charlie concluiu dando uma risada e voltando a comer. Aquela era mais uma habitual tarde da Unholy Fortinity. Era como uma festa do pijama vulgar, só que em público e sem o pijama.
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A casa estava silenciosa quando cheguei, não fosse o som da TV ligada em um canal de esportes. Meu pai chegou cedo do trabalho de novo, pensei. Me aproximei da sala e me deparei com um Zachary Cooper dormindo espaçosamente no sofá. Não achei que a cena fosse se repetir novamente. Pensei que ao menos Zach conseguiria chegar a tempo em seu quarto para desabar na cama. Peguei o controle sobre o abdômen do garoto e desliguei a TV, fazendo todo aquele barulho de torcida de baseball cessar de uma vez. Fui até o quarto de Zach e de Arthur e peguei a manta do rapaz, que estava bagunçada sobre sua cama em meio a outros cobertores. A cama de Arthur estava igual, porém esta já não era mais uma surpresa. Ele nunca a arrumava.
Voltei à sala e cobri Zach com a manta, de um modo que ele ficasse confortável. Os cabelos do maior estavam bagunçados, e sua barba por fazer dava a ele uma aparência mais desleixada. Não queria acreditar que Vic havia feito isso com ele. Malditas drogas! Havia virado rotina Zach chegar atrasado ao colégio. Nem sua cama ele arrumava mais, assim como não tinha tempo de se barbear. Ou de conferir no espelho se havia abotoado corretamente sua camiseta. Era como uma criança, totalmente dependente. Peguei meu fichário que havia deixado sobre a mesa do jantar e rumei até a escada, a fim de subir até meu quarto.
— Kal El.
— Sim? – Perguntei ao ouvir a voz rouca e sonolenta de Zach no pé da escada.
— Obrigado.
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Eu estava exausto. Usar a máquina de costura quando se está com sono nunca é uma boa ideia, mas não me importei. Afinal de contas, se tratava do vestido da Rachel. Estariam mais ocupados dando atenção ao seu nariz do que reparando em uma falha qualquer na costura de seu vestido. O importante é que tudo estava pronto. Eu e Rachel nos sentíamos confiantes, como se Charlie e toda a sua extensão vocal de soprano lírica não nos intimidasse. Mas minha preocupação maior não era essa. Era Jesse e sua voz, sim, de divo. Para mim isso não importava tanto. Por mais que eu vá cantar uma música da Barbra Streisand, meus figurinos e a coreografia eram os destaques da apresentação. Além, é claro, da minha voz.
— Zach. Acorde. – Falei enquanto sacudia o ombro do rapaz. Zach gemeu preguiçosamente enquanto se sentava na cama e coçava os olhos com um bocejo.
— Hum... Mas já, Kal El? – Ele perguntou fazendo um bico enquanto tentava abrir seus olhos por completo para que pudesse me ver. Torci para que ele não conseguisse, afinal, eu ainda estava de pijama e nem me olhei no espelho desde que meu despertador começou a tocar enfurecidamente no criado-mudo.
— Sim. E se arrume logo, já fiz seu café-da-manhã. Vou voltar aqui em cinco minutos e se você ainda estiver deitado vou te puxar pela orelha. – Falei tentando parecer o mais sério possível, porém uma risada baixa escapou da minha boca. Zach resmungou e tentou me acertar com um travesseiro, mas fui mais rápido e consegui desviar.
— Você é mal, Kal El.
— Consigo ser pior que o Arthur...
— Seu cabelo tá engraçado. – Ele comentou dando uma risada baixinha, sentado na cama e coçando os olhos em seguida. Fiz um bico e cruzei os braços, ignorando o comentário do maior. E então ele se levantou e tirou sua regata branca, os cabelos bagunçados e os olhos sonolentos me encarando com uma leve irritação. E antes que meu rosto corasse como o de uma menininha em filmes de romance, tratei de sair de seu quarto e subir para o meu. Mas não sem antes dar uma última conferida.
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— Você não sabe quem voltou. Estamos ferradas!
— Quem voltou? Fala logo!
— Eu voltei. E estarão ferradas se não mexerem esses traseiros lotados de carboidratos até a quadra, já que pelo visto vocês estão 30 segundos atrasadas para o treino das Cheerios e as últimas cheerios que se atrasaram tiveram que treinar em uma cadeira de rodas. — Uma mulher loira de cabelos curtos as interrompeu, batendo seus ombros nas duas enquanto passava entre elas. Eu observava tudo de longe, passando a última camada de laquê pra manter meus cabelos fixados – já que precisavam parecer impecáveis até quando eu estivesse perto de morrer; era uma regra.
Se as duas cheerios aleatórias estavam 30 segundos atrasadas, eu estava muito perto de estar também. Acelerei o passo junto delas até chegar à quadra, onde avistei Charlie, Sophie, Santana, Emily e Chelsey se alongando. As mesmas gelaram quando viram a mulher loira atravessar a quadra segurando um megafone.
— Droga. – Santana murmurou boquiaberta. — Essa mulher não morre nunca?
— A Sue é uma inspiração, Santana. Se você não quer ser uma vencedora, acho melhor sair das Cheerios. – Charlie falou com o semblante sério enquanto recomeçava sua sessão de polichinelos.
— Ah, mil perdões. Esqueci que você provavelmente encontrou o sarcófago da senhorita Suópatra e se tornou sua seguidora fiel desde então. Por acaso vocês compartilham absorventes e segredos de conseguir um paquera? — Santana falou sarcástica, e por um lado fiquei feliz em ver que ela estava prestando atenção nas aulas de história. Emily ficava parada por alguns segundos quando Charlie se abaixava com as pernas bem abertas, tentando alcançar seus pés, até Santana bater no braço da morena a tirando do transe. Quando a tal Sue começou a caminhar em nossa direção, fui atingido por uma onda de dedicação que me fez acelerar em 10x a velocidade dos polichinelos que eu fazia. Pude até ouvir a trilha sonora de Rocky Balboa, Eye of The Tiger, no interior da minha mente.
— Charlotte.
— Sim, Treinadora Sylvester? – Charlie falou ao se levantar e finalizar seus alongamentos, levemente ofegante.
— Pensei ter deixado claro que, quando voltasse, não queria ter cheerios gordas e preguiçosas na minha equipe. A começar pela Visão Biônica, que achei que estivesse grávida de três meses assim que a vi aqui nas Cheerios. – Sue falou direcionando seu olhar à Sophie, que por um momento achei que estivesse prendendo sua respiração tamanha fosse o pânico que sentira.
— Não entendo, em todas as semanas eu fiz inspeções corpóreas e todas estão seguindo a dieta. Talvez o uniforme de Sophie seja um pouco folgado demais... – Charlie tentava se justificar, e eu podia captar um pouco de hesitação em sua voz. Não é pra menos, Sue deixava qualquer pessoa tensa e à beira de um suicídio. Ou Suecídio, no caso.
— Está me chamando de burra? Por acaso você acha que eu, em meus plenos 26 anos, fiquei louca?
— 26 anos? Ela tá louca sim! – Santana sussurrou para mim, com os braços cruzados.
— Não senhora. – Charlie disse em voz baixa, balançando a cabeça em sinal negativo. E então os olhos de Sue pararam em mim, o que me fez gelar até os ossos.
— E quem é isso?
E logo os olhos de Charlie a acompanharam, pairando sobre mim. E eu não sabia como reagir, então acabei ficando com a típica cara de babaca que Sophie havia feito alguns segundos antes.
— Este é Kurt Hummel. Entrou junto com Sophie para as Cheerios.
— O quadril dele parece uma pêra.
Tentei imaginar se este era um elogio na língua das Treinadoras de Cheerios, mas pela cara que Sue fez eu pude imaginar que não. E até então eu nunca havia tido reclamações do meu quadril, muito pelo contrário.
— Ele está seguindo a dieta junto com as outras Cheerios. Só podemos culpar a genética dele. – Charlie disse fazendo uma cara de pena, e foi aí que eu percebi a importância do Clube do Teatro na vida dela. Sue colocou uma das mãos na cintura, erguendo ligeiramente o queixo enquanto me avaliava mentalmente.
— Está aqui porque não te deixaram dançar no time de futebol?
E então meu rosto ruborizou, enquanto tentava pensar em uma resposta aceitável àquela pergunta.
— Não, eu... Eu estou aqui porque...
Porque Cheerios são populares e respeitadas.
— Porque eu aprecio muito os esforços das Cheerios em manterem a boa forma e sempre conseguirem dar os seus melhores nas coreografias e apresentações, além de conseguirem animar o time em dias de jogo. E eu quis experimentar essa sensação. – Falei em disparada, um pouco nervoso devido o fato de Sue estar me massacrando com os olhos.
— Escute aqui, Porcelana. Não tem essa de experimentar a sensação, ou você é um ótimo Cheerio ou você não é nada. – Ela falou com um sorriso maldoso ao colocar a mão em meu ombro.
— Ele é um ótimo Cheerio! Por favor, tem a bunda grande e ainda é um soprano sem ter uma vagina. – Charlie a interrompeu, parando ao lado dela.
— Fabray, Cheerios precisam saber dançar, e não cantar. Parem de tentar misturar meu templo sagrado com aquela favela encolhida em uma sala que vocês chamam de Glee Club.
— Eu e o Kurt temos um número. – A loira falou, pondo as mãos na cintura. Olhei-a com cara de “o-que-diabos-pensa-que-está-fazendo?”.
— Ótimo. – Sue então estalou os dedos e duas Cheerios, apressadas, trouxeram-na uma cadeira. A mais velha sentou-se e arqueou uma sobrancelha, com uma expressão absolutamente desafiadora. Charlie retribuiu a expressão e então me puxou pelo pulso até uma distância considerável de Sue. As Cheerios a seguiram.
— Escutem. Vamos fazer o número de improviso número 23. Se alguém arruinar o número, além de termos o Kurt fora da equipe, também me teremos fora da equipe. O que significa que irei queimar a casa de cada uma de vocês. – Charlie falou em um sussurro, no centro da roda de Cheerios. Eu não estava entendendo nada, tamanho era meu nervosismo. Meu único foco foi para as palavras “improviso” e “23”, o que já me deixou a postos.
— Estou esperando. – Sue anunciou, impaciente.
[CHARLIE]
Uh huh, this is my shit
All the girls stomp your feet like this
Charlie e todas as Cheerios – e eu, aliás – nos viramos batendo palmas e pisadas marcadas. A loira estava na frente, mantendo seu olhar fixo em Sue.
[CHARLIE & CHEERIOS]
A few times I've been around that track
So it's not just gonna happen like that
'Cause I ain't no hollaback girl
I ain't no hollaback girl
A few times I've been around that track
So it's not just gonna happen like that
'Cause I ain't no hollaback girl
I ain't no hollaback girl
As Cheerios se dispersaram, todos fazendo uma coreografia sincronizada com passos bem marcados. Charlie liderava na frente, seu rabo-de-cavalo balançando a cada movimento que a mesma fazia.
[CHARLIE & CHEERIOS]
Ooooh ooh, this is my shit, this is my shit
Ooooh ooh, this is my shit, this is my shit
Ooooh ooh, this is my shit, this is my shit
Ooooh ooh, this is my shit, this is my shit
[CHARLIE]
I heard that you were talking shit
And you didn't think that I would hear it
People hear you talking like that,
Getting everybody fired up
So I'm ready to attack, gonna lead the pack
Gonna get a touchdown, gonna take you out
That's right, put your pom-poms downs
Getting everybody fired up
A loira cantava balançando habilidosamente o corpo, seus olhos analisando todas as expressões que Sue fazia. As cheerios seguiam seus movimentos, todos em perfeita sincronia. Eu, é claro, tentando me destacar. Afinal, o motivo daquela apresentação era eu. Eu e meu quadril em formato de pêra.
[CHARLIE & CHEERIOS]
A few times I've been around that track
So it's not just gonna happen like that
'Cause I ain't no hollaback girl
I ain't no hollaback girl
A few times I've been around that track
So it's not just gonna happen like that
'Cause I ain't no hollaback girl
I ain't no hollaback girl
Ooooh ooh, this is my shit, this is my shit
Ooooh ooh, this is my shit, this is my shit
Ooooh ooh, this is my shit, this is my shit
Ooooh ooh, this is my shit, this is my shit
Eu e Charlie trocamos de lugar, de modo em que eu ficasse na frente e ela no centro. A coreografia se seguia como estava inicialmente, e eu me empenhava para ser tão impecável quanto Charlie fora. Não deixaria que o olhar de Sue me intimidasse, por mais que eu tivesse a sensação de algo cortando meu pescoço sempre que a olhava.
[KURT]
So that's right dude, meet me at the bleachers
No principals, no student-teachers
Both of us want to be the winner, but there can only be one
So I'm gonna fight, gonna give it my all
Gonna make you fall, gonna sock it to you
That's right I'm the last one standing, another one bites the dust
[KURT & CHEERIOS]
A few times I've been around that track
So it's not just gonna happen like that
'Cause I ain't no hollaback girl
I ain't no hollaback girl
A few times I've been around that track
So it's not just gonna happen like that
'Cause I ain't no hollaback girl
I ain't no hollaback girl
Oooh ooh, this is my shit, this is my shit
Oooh ooh, this is my shit, this is my shit
Oooh ooh, this is my shit, this is my shit
Oooh ooh, this is my shit, this is my shit
Eu e Charlie fomos para frente enquanto o restante das Cheerios dividiu-se em dois grupos, que faziam coreografias impecáveis e bem ensaiadas. Logo montaram uma pirâmide, no qual a Cheerio do topo agitava seus pompons com um sorriso no rosto. E eu tive a ligeira sensação de que Sue queria que ela caísse lá de cima.
[KURT]
Let me hear you say this shit is bananas
B-a-n-a-n-a-s (This shit is bananas)
B-a-n-a-n-a-s
[CHARLIE]
Again
This shit is bananas
B-a-n-a-n-a-s (This shit is bananas)
B-a-n-a-n-a-s
Logo após a pirâmide se desfazer, Charlie e eu lideramos o grupo de Cheerios e retomamos à coreografia inicial. Agora todos estavam com pompons, o que tornou a coreografia bem mais divertida. Ok, pelo menos pra mim que raramente segurava algum.
[KURT, CHARLIE & CHEERIOS]
A few times I've been around that track
So it's not just gonna happen like that
'Cause I ain't no hollaback girl
I ain't no hollaback girl
A few times I've been around that track
So it's not just gonna happen like that
'Cause I ain't no hollaback girl
I ain't no hollaback girl
Ooooh ooh, this is my shit, this is my shit
Ooooh ooh, this is my shit, this is my shit
Ooooh ooh, this is my shit, this is my shit
Ooooh ooh, this is my shit, this is my shit
— Irei ignorar o fato de que vocês apresentaram uma música na qual “Garota de Programa” aparece 16 vezes e elogiar o esforço por conseguirem dançar como velhas bêbadas ao invés de velhas com labirintite como faziam antes. – Sue disse ao se levantar da cadeira com um sorriso irônico nos lábios. – E você, Hummel, dança como uma menininha que não sabe dançar.
— Mas isso não faz sentido.
— Assim como você na minha equipe de Cheerios.
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— Oi pai, tchau pai. – Falei após descer as escadas segurando as cinco capas pretas que continuam os figurinos para os duelos. Um de Rachel e quatro meus.
— Ei, ei, pra onde vai com tanta pressa? – Ele falou assim que deu um gole em sua cerveja. Estava com seu boné de beisebol e um moletom azul com um enorme 10 cravado na frente.
— Vou ganhar um Duelo. Torça por mim! – E então saí pela porta. Entrei em meu carro com toda a pressa do mundo. Faltavam 15 minutos para eu e Rachel começarmos a nos apresentar, e eu já tinha 30 chamadas não atendidas da judia. Zach e Arthur foram na frente, afinal, não poderiam perder a oportunidade de me ver passando pela humilhação de dançar tango com a Rachel. Acelerei o carro e não demorou muito para que eu chegasse ao McKinley. Passei pelos portões com pressa, segurando as cinco capas nos braços. Meu celular começara a vibrar novamente no meu bolso de trás, o que já estava começando a esgotar minha paciência. Cheguei ao auditório, onde todos estavam dispersos nas poltronas.
— Pelo amor de Barbra, o que aconteceu com você?! Eu cantei todos os solos de Funny Girl e ainda improvisei um mash-up de On My Own com I Dreamed A Dream de Les Miserables para passar o tempo! – Rachel bufou, me puxando pelo braço até a coxia do auditório. E antes que ela pudesse continuar com o sermão, pousei o indicador em sua boca.
— Calada. Não temos tempo pra isso, caso não tenha percebido. – Falei, ríspido, com a sobrancelha arqueada. Entreguei a capa que continha o vestido de Rachel enquanto separava a minha roupa de tango das demais. – Vá se vestir, estaremos no palco daqui a cinco minutos.
— Espero que não tenha esquecido os passos como esqueceu o seu juízo! – Rachel resmungou abraçando a capa contra seu corpo. E logo nos dois estávamos no palco, totalmente escuro. Olhei para a judia, um pouco hesitante. Rachel assentiu com a cabeça e então sorriu.
Era a hora do show.
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