Sweet Epiphany

10 Welcome to Madripoor


Notas iniciais
E aqui estou! Tá tornando um hábito vir antes da data kkkkk mas melhor não acostumar, porque nunca se sabe... Esse é um capitulo de "transição", então ele é um pouco mais parado. Porém tem revelações legais. Só pra vcs se localizarem esse capitulo cobre o pequeno salto entre o ep 01 e o 02 + todo o conteúdo do 02, porém de perspectivas diferentes, claro. Boa leitura!

A ilha tinha um cheiro ocre, ácido, metálico. Sangue seco e crime. As cores florescentes e a cacofonia de sons, se mesclavam de um jeito peculiar. Andando pelas ruas ninguém jamais diria que Madripoor era bonita, mas dali, do topo de um dos edifícios de Cidade Alta, o lugar tinha seu charme...

No entanto, anos antes, quando colocou seus pés ali pela primeira vez, — fugindo de um governo para quem tinha dedicado toda uma vida, — Sharon Carter jamais diria isso. À primeira vista Madripoor era um lugar assustador, um mundo fora do mundo, com leis próprias e ruas sujas de sangue.

Sharon era uma agente do governo há anos e mesmo assim, ao pisar naquele território, ela se descobriu apenas uma menina assustada e fraca, que nada sabia sobre a vida e que tinha esperanças ingênuas nas pessoas erradas...

Tinha sido criada com honradez e dignidade, seguindo os preceitos de Peggy Carter como um religioso seguiria uma bíblia, se orgulhava de fazer o certo, de ser vir o país para o bem maior, mas então conheceu Steve Rogers, o certo nem sempre estava mais do mesmo lado da lei.

Porém, ele era o Capitão América, um símbolo de heroísmo e integridade, se ele estava de um lado, era esse o lado que uma Carter devia estar. Quebrou a lei por ele, indo contra suas próprias ordens de uma forma que mancharia sua carreira para sempre, desistiu de tudo para que ele pudesse ajudar um amigo, desistiu porque realmente acreditava que Steve Rogers sempre fazia a coisa certa.

Ela o amava? Um dia Sharon achou que sim...

Todavia eles se separaram, ambos fugindo. Sharon teve que se esconder em Madripoor, depois que todos os seus diversos contatos, nas mais diferentes posições importantes, simplesmente se negaram a ajudá-la de qualquer forma. Mas em seu coração sempre achou que cedo ou tarde Steve iria ao resgate dela, ele era o Capitão América afinal; ele protegia os amigos, sua equipe, aqueles que ficavam a seu lado. Sharon achou que fosse importante para aquele homem.

Que pensamento tolo.

Em seus primeiros dias naquela ilha infernal, Sharon cometeu um erro, ela tentou ajudar pessoas. Era uma fugitiva, verdade, mas ainda queria fazer o certo. No entanto, a cidade tinha suas próprias leis, se envolver em negócios do Mercador do Poder era a pior coisa que alguém poderia fazer...

Curtiss Jackson¹ era um tipo de rei ali, praticamente o dono de toda a Cidade Alta, temido por cada pequeno criminoso de Cidade Baixa, ninguém se colocava contra ele. Poder, dinheiro e conexões com o mercado negro de todos os países. Um império montado com violência, sangue, mentiras e medo. Por um instante Sharon pensou que estava morta, mas por algum motivo o Mercador a achava útil. Uma ex-agente da SHIELD e da CIA tinha informações valiosas que podiam muito bem virar uma fortuna nas mãos das pessoas certas.

Mas Sharon era uma Carter, tinha princípios, não fazia acordos sujos com criminosos, mesmo em nome da própria liberdade. Foi jogada em uma cela então, se é que aquele lugar escuro e frio sem qualquer dignidade podia ser chamado assim.

Pelo curso dos meses que se seguiram, ela manteve a fé, Steve Rogers viria ao seu encontro, ela sabia que sim. O Capitão América não deixaria um amigo para trás. Ele viria. Sharon tinha deixado pistas de seu destino, especialmente para Rogers, antes de fugir para Madripoor. Ele saberia onde encontrá-la.

Mas Steve não veio...

Sharon teve que aprender a sobreviver dentro de seu cativeiro, ela precisava, teve que lutar pelo próprio corpo todos os dias, o dia todo, nunca podia abaixar a guarda. Havia sempre algum homem nojento pensando que podia colocar as mãos nela sem sofrer as consequências. Era exaustivo, apavorante. Sharon sentia falta da família, da luz do sol, da liberdade e de dignidade.

E Steve não vinha...

Ainda assim, o Capitão América havia invadido a Balsa para tirar Wanda, Sam, Scott e Clint de lá. A prisão mais protegida da Terra, e ele provavelmente não pensou duas vezes. E depois desapareceu no mundo, os rumores, que o Mercador do Poder fazia questão de trazer esporadicamente, diziam que Steve estava refugiado em Wakanda.

Mais de um ano havia se passado. Ele não viria. Sharon estava sozinha.

Ela se sentiu sozinha, abandonada, traída. E nem era por causa do beijo estúpido de despedida, Sharon ajudou Steve, infringiu a lei por ele, confiava nele. E tudo isso pra quê?

Pelos meses seguintes ela se convenceu que era tudo um mal entendido, que Steve tinha um bom motivo para esquecê-la daquela forma, porém, quando o Mercador do Poder fez questão de contar que o governo norte americano fizera um acordo com Clint Barton e Scott Lang para que ambos voltassem para suas famílias, Sharon se tornou apenas raiva, rancor e sede de vingança.

Ela dedicou a vida ao governo e quando pediu por um acordo eles negaram, agiram como se ela fosse a pior criminosa do século...

Heróis eram uma piada. O Governo era uma piada.

Então Sharon Carter finalmente cedeu, era hora de parar de esperar que alguém viesse ajudá-la em retribuição. Era hora de se tornar sua própria heroína.

Aceitou ser uma agente do Mercador, fazia tudo que ele precisava; contrabandista, espiã, ladra, não importava. Ela aprendeu o trabalho. Ainda odiava aquele homem, mas pelo menos não estava mais presa em uma cela...

Tempos depois, quando Thanos invadiu, Sharon tinha um cargo de confiança, poucas pessoas sabiam a identidade real do Mercador, o respeito que ele havia conquistado se baseava no medo e mistério. Por isso, quando o estalo dizimou metade da população mundial e Curtiss Jackson virou pó, Sharon viu uma oportunidade única. Ela assumiu o negócio.

Expandiu as transações, otimizou cada parte do processo, naqueles cinco anos ela duplicou a fama e a fortuna do Mercador. Ela era boa nisso. Tinha um império, tinha poder, tinha tudo. Aprendeu a gostar de sua nova realidade.

Quando os Vingadores desfizeram o estalo Curtiss voltou, mas Sharon nunca mais deixaria um homem controlar sua vida, lhe dar ordens, não era mais a mesma mulher que fugiu dos Estados Unidos, seu código moral era outro. Não estava mais à sombra de Peggy Carter. Sharon fazia o que tinha que fazer pra proteger e ampliar o que havia conquistado...

Ela era o Mercador do Poder.

E Curtiss Jackson se tornou apenas um cadáver no caminho. Simples assim.

Depois disso foi perceptível o quanto a volta de todas aquelas pessoas modificou o mundo, um tal de Conselho de Repatriação Global havia assumido a tarefa de ajudar o povo, porém eles destituíam pessoas de suas casas para favorecer os blipados, Madripoor começou a receber muitos refugiados, foi quando Sharon conheceu Karli Morgenthau, uma garota ainda, perdida e assustada.

Se compadeceu dela, acolheu a menina e seus amigos, tinha planos pra eles...

Com suas antigas informações da CIA e todo o poder do Mercador, Sharon tinha contactado o Doutor Wilfred Nagel, um cientista que havia trabalhado com a Hydra e posteriormente com a CIA para recriar o soro do super soldado. Sharon, ou melhor, o Mercador do Poder, alcançou o homem antes que alguém mais o fizesse.

O mundo estava mudando, as coisas eram diferentes, armas não eram mais garantia de proteção. Carter viu uma oportunidade de expandir ainda mais seus negócios e de quebra proteger seu império. Super Poderes. Era com isso que tinha que trabalhar. E, se havia alguém no mundo capaz de forjar super poderes em laboratório, esse alguém era o doutor Nagel.

Começariam pelo super soro, mas podiam expandir para outras coisas com pesquisas, estudo e a verba apropriada. Oferta e demanda, essa era a alma do negócio. Todos queriam superpoderes, mas apenas o Mercador teria algo assim para vender.

As questões morais e éticas desse projeto não incomodavam Sharon, ela tinha aprendido a se preocupar apenas com as próprias prioridades, porque afinal, se preocupar com o mundo por que, se o mundo não se preocupava com ela?

No final do segundo mês eles já tinham as doses, Sharon pretendia ficar com metade das primeiras amostras, para montar um exército particular de super soldados em Madripoor, e depois disso comercializar com o resto do mundo. Quanto mais pessoas quisessem o soro, mais pessoas viriam atrás dele. Pelo preço certo qualquer um poderia ser um super herói.

Foi quando Sharon cometeu o primeiro erro; ela deu a Karli e seus amigos algumas doses, pensou que poderia confiar na garota, pensou que as duas fossem parecidas. O problema é que talvez fossem parecidas demais.

Karli roubou todas as doses do soro e fugiu de Madripoor, agora estava por aí brincando de Robin Hood, tinha fundado um grupo extremista denominado “Apátridas”, uma garota tola que realmente achava que podia fazer a diferença usando apenas a força.

Se Sharon havia aprendido algo com o Mercador, era que poder de verdade ia muito além da força...

Sabia que tinha que encontrar o grupo, recuperar seu soro e resolver o problema antes que isso atraísse a atenção de algum herói e criasse problemas. Sharon era um fantasma, isso tornava seu trabalho muito mais fácil, a última coisa que queria era um Vingador andando por Madripoor.

Mas já estava cuidando de tudo, havia enviado uma equipe bem armada atrás de Karli, eles trariam o soro de volta e matariam os traidores. Limpo e rápido.

Sharon respirou fundo e encarou sua ilha pela janela do último andar. Estava orgulhosa de si mesma, quem diria que chegaria tão longe...

Pelo reflexo do vidro ela podia ver o brilho da televisão atrás de si, a imagem de um tal John Walker estava no noticiário, faziam dois dias que o Estados Unidos havia anunciado seu novo Capitão América, dali alguns dias ele faria uma aparição pública oficial em seu antigo colégio da Georgia. Parecia mais um circo.

Ninguém sabia de verdade o que tinha acontecido com Steve Rogers, depois da batalha com Thanos ele havia simplesmente desaparecido, uma parte da internet julgava que o Capitão estava morto, outra parte tinha teorias ridículas sobre ele estar em uma missão na lua. Sharon não se preocupou em entender aquela situação, Steve era passado afinal, Carter era uma mulher de negócios agora, ela só se importava com o futuro.

Podia ter cultivado raiva dele, mas honestamente estava ocupada demais cuidando da própria vida, foda-se Steve Rogers.

Ela sabia, no entanto, que o escudo tinha sido deixado sob os cuidados de Sam, que posteriormente entregou o objeto para um museu, e é claro que o governo havia mexido seus pauzinhos depois disso e enfiado um novo Capitão América goela abaixo do povo. Idiotas.

Sharon imaginava que talvez Sam também tinha percebido que toda aquela coisa de listras e estrelas era uma total piada. Wilson era um bom homem, com princípios, alguém normal tentando fazer o certo. Ela tinha sido assim um dia, mas não funcionou muito bem.

Todos os Vingadores haviam recebido perdão depois da batalha de Thanos, e disso sim Sharon se ressentia. Era como se todo mundo fosse digno de uma segunda chance, menos ela.

Quando recuperasse seu soro faria questão de vendê-lo para qualquer país inimigo dos Estados Unidos...

O celular tocou em seu bolso e Sharon pegou o aparelho encarando a tela. Era o Doutor Nagel. O único contato que tinha com ele acontecia através do telefone ou de intermediários, era mais seguro que não soubessem a identidade verdadeira do Mercador do Poder. O povo sequer desconfiava que o título havia mudado de portador e que Madripoor não tinha mais um rei, e sim uma rainha.

E era melhor que continuasse assim.

— O que você quer doutor? — Ela perguntou, sabendo que o sistema do celular distorceria sua voz durante a chamada.

— Eu conheci alguém na internet... — O homem do outro lado da linha começou, causando um revirar de olhos exagerado em Sharon.

— Sério? Todo o estoque de super soro foi roubado e você está pensando em encontros românticos? — É claro que ela estava irritada.

Wilfred Nagel tinha um laboratório secreto montado nas docas, um lugar discreto, com entrada oculta, ali ele ficaria protegido e teria toda privacidade para trabalhar em seus projetos, o Mercador dava a ele mais verba do que para qualquer outra pessoa, o mínimo que Sharon esperava era que o homem ficasse focado em sua tarefa.

— Não tem a ver com isso. — O doutor se apressou em esclarecer. — Na verdade, tem totalmente a ver com o nosso problema. Com seu produto mais valioso fora de alcance, você vai precisar de um substituto.

— Estou ouvindo. — Foi tudo que Sharon respondeu, se afastando da janela para sentar-se em um dos grandes sofás do ambiente.

— Lembra do que me pediu pra fazer meses atrás? Quando tudo aquilo aconteceu em Nova Jersey? — Nagel prosseguiu e por seu tom de voz ele parecia empolgado.

Claro que Sharon lembrava, meses antes uma cidade inteira havia virado refém de uma Vingadora, ficou bem claro para o Mercador que algo focado naquele evento seria uma mina de ouro.

— Um inibidor para os poderes de Wanda Maximoff. — Ela repetiu seu pedido. Qualquer país pagaria uma fortuna por algo que pudesse protegê-los da Vingadora mais forte de todas. — Mas você disse que não podia seguir a diante com as pesquisas, porque chegou em um ponto que os arquivos que recuperou da Hydra não eram mais úteis.

O doutor desenvolvera um protótipo baseado em antigas pesquisas da Hydra, da época que Wanda e Pietro eram experimentos, trabalhara naquilo em paralelo com o soro, mas sem uma cobaia era impossível saber se funcionava ou se precisava de alguns ajustes.

Os gêmeos eram tratados pela Hydra como milagres por terem sobrevivido quando foram expostos a joia do infinito, porém Nagel tinha uma teoria mais cientifica sobre o fato, eles tinham algo preexistente que os ajudou a resistir, um gene desconhecido, adormecido, e, embora Wanda tivesse alterações relativamente diferentes das do irmão, como se houvesse algo mais nela, algo místico — no qual o cientista não acreditava realmente, — o gene desconhecido era algo que ambos os Maximoff tinham em comum, um tipo de mutação genética talvez, porém inativa. A joia ativou isso.

— Exato, mas agora eu achei essa garota nos fóruns online. Darkweb e essas coisas, ela tem poderes. Então eu tenho uma cobaia. — Ele disse ainda mais empolgado, porém Sharon apenas se limitou a revirar os olhos de novo.

— Todo mundo diz ter poderes na internet... — Retrucou irritada.

Esse tipo de gente sempre existiu, mentirosos idiotas que amavam pagar de especiais online, mas que eram apenas babacas atrás de uma tela, ninguém acreditava neles, a própria CIA já havia investigado alguns e foi apenas desperdício de tempo e recursos. Depois do blip o fluxo desse tipo de informação se tornou ainda maior, pessoas de toda parte do globo dizendo que tinham adquirido habilidades quando retornaram. Sharon era ocupada demais para acreditar em trolls da internet.

— De fato... mas você já viu alguém na internet querendo abrir mão desses poderes? — Nagel não estava disposto a desistir. — É claro que não, uma pessoa não vai procurar formas de se livrar do que não tem. Você só se livra de algo quando é um problema, e só sabe que é um problema se tiver isso.

Ele tinha um bom argumento, Sharon estreitou os olhos, pensativa. Depois de tudo que já tinha visto, acreditar em alguém com habilidades especiais não era assim tão ridículo. E se?

— Acha que é verdade? — Ela perguntou, já analisando todas as implicações.

— Acho que vale a pena ter certeza. — O doutor respondeu do outro lado da linha. — Se as habilidades da garota forem reais eu posso terminar o inibidor, talvez até encontrar mais implicações para o DNA dela.

Ele havia replicado o soro, será que podia replicar outros tipos de poderes?

A oportunidade era boa demais pra deixar passar, só de criar o inibidor aquilo já seria um lucro sem medidas. Sharon tinha que arriscar. Deu as ordens para que o Doutor Nagel prosseguisse com o projeto então. E imediatamente começou seu trabalho de pesquisa sobre a pessoa do outro lado da tela...

A primeira coisa que Sharon entendeu sobre a tal garota, foi que ela era esperta o bastante para não colocar informações pessoais em parte alguma, todas as contas que havia criado para acessar os fóruns da deepweb eram recentes e baseadas em nicknames.

Ainda assim, o Mercador do Poder tinha seus recursos para rastrear um endereço de IP, foi assim que Sharon soube que as mensagens vinham de Nova York, de um apartamento no Brooklyn, no nome de Makayla Devinne, uma propriedade herdada de Cameron Devinne-Kennedy.

Depois disso não foi difícil descobrir exatamente quem era a garota, enteada de Emma Kennedy, uma ex-senadora com imensa influência que tinha sido a criadora do CRG. Makayla era muito importante.

Primeiro Sharon ficou desconfiada, aquilo podia ser uma armadilha, apenas o governo tentando infiltrar alguém dentro de Madripoor, uma operação para capturar o Mercador do Poder talvez... No entanto, já havia se encontrado com Emma Kennedy algumas vezes, antes de se tornar uma fugitiva. Aquela mulher era um ativista de peso contra os heróis, principal criadora do Tratado de Sokovia, passou anos tentando implementar o projeto que visava registrar todas as pessoas com qualquer tipo de habilidade ou equipamento especial.

Sharon não ficaria nada espantada se Makayla fosse apenas uma garota assustada, tentando se livrar de poderes que fariam dela a exata pessoa que sua “mãe” odiava. Resolveu arriscar então...

No entanto, sequer precisou mover um músculo para trazer a garota para Madripoor, assim que descobriu o doutor, Makayla deu um jeito de ter acesso a ilha, e isso queria dizer, comprando sua entrada para uma das diversas festas de Cidade Alta. Não era incomum que jovens acabassem encontrando uma forma de se divertir em Madripoor, era caro e perigoso, mas sempre seria impressionante o quanto de gente com dinheiro pagava por uma experiencia daquelas.

Sharon tinha que admitir que a garota era de fato esperta, esperar um convite oficial do doutor podia colocá-la direto em uma armadilha, dessa forma, vir antes, analisar o terreno e ver se tudo aquilo era mesmo verdade, era a escolha mais inteligente. A garota até mesmo havia conseguido documentos falsos. Se o Mercador do Poder não estivesse monitorando Makayla desde o começo, provavelmente ela passaria despercebida.

Os planos iniciais envolviam apenas as possíveis habilidades da garota, ela seria somente um ratinho de laboratório e nada mais, porém, ao saber quem Makayla era de verdade Sharon teve outra ideia.

Usaria a garota para conseguir um perdão presidencial, seria fácil, seria sua “guia” no começo, todos os convidados de Cidade Alta tinham um, agiria como se fosse apenas uma agente inocente que teve que fugir de seu país por uma escolha errada e agora tentava ganhar a vida em Madripoor, deixaria que Makayla encontrasse o doutor sozinha e que ele a ajudasse a se livrar das habilidades — ficando com amostras do DNA é claro, para que, além de um inibidor contra Wanda Maximoff, um estudo de réplica de poderes também fosse iniciado. — Então, quando a garota estivesse prestes a voltar pra casa, Sharon contrataria alguém de Cidade Baixa para um trabalho de sequestro.

Makayla estaria em perigo e seria salva por sua amiga “a simples ex-agente que virou guia”, resgatar a filha de alguém como Emma Kennedy seria sua passagem de volta para os Estados Unidos, porque é claro que Makayla, uma simples garota, não seria ingrata com Sharon.

Era o plano perfeito.

Claro que Carter não queria ser perdoada pra voltar para sua antiga e ridícula vida de serviçal de um governo escroto, era tudo uma forma de estar dentro do jogo outra vez. Podia conseguir informações valiosíssimas se recuperasse seu cargo, e então venderia tudo para o país inimigo que pagasse mais.

Teria o inibidor de poderes e uma amostra de DNA, se aquela habilidade da jovem fosse real, porém, mesmo que não fosse, Sharon sairia ganhando o perdão...

O último ajuste que teve que fazer foi transferir o Doutor Nagel para um novo laboratório, um mais apresentável e menos suspeito, e um que podia ser facilmente descartado caso a garota acabasse contando para qualquer pessoa sobre a localização.

Sharon tinha pensado em tudo.

Makayla chegou na cidade como Kayla Braddock, e até nisso se provou inteligente, usar um nome parecido com o verdadeiro era uma forma de não ser pega na mentira. Se a jovem usasse um nome diferente com certeza não responderia de imediato, caso alguém lhe chamasse casualmente no meio de uma multidão. O sobrenome era um tanto aleatório, mas Sharon achou que tivesse algo a ver com a mãe verdadeira, uma mulher da qual não encontrou informação nenhuma.

Enfim, Sharon vestiu sua pose de boa moça e recebeu a menina, a primeira coisa que notou foram as luvas, por isso imaginou que os poderes tivessem algo a ver com toque e começou a se precaver quanto a isso. A segunda coisa, foi a estranha impressão que teve de que Makayla a havia reconhecido, o que não era tão ruim assim, afinal sua reputação anterior a Madripoor era impecável, ser reconhecida apenas ajudaria em seu plano...

A última coisa que notou sobre Makayla, foi que ela estava quebrada, estava lá, em seu olhar azul-acinzentado, em sua postura, nas olheiras profundas. Sharon se compadeceu dela, mas depois de ser traída por Karli Morgenthau não podia confiar em outra menina perdida de novo.

Makayla Devinne era apenas um meio para um fim. E o Mercador do Poder sempre conseguia o que queria.

★☆ • ★☆ • ★☆

Alguns dias depois...

Agulhas, bisturis, estetoscópios e a luminescência irritante daquele laboratório extremamente claro, era apenas isso que Makayla Devinne conhecia nos últimos dias, fora cortada, furada, espetada, analisada e examinada, de novo e de novo, outra vez e novamente. Era um ratinho de laboratório, apenas isso.

Por diversas vezes ela perguntou a si mesma por que ainda estava tentando? Por que suportar tudo aquilo? Morrer parecia mais fácil...

Havia encontrado Wilfred Nagel em um fórum de origem muito duvidosa, trocaram algumas mensagens e ele foi o único que realmente se interessou em ajudá-la, todas as outras pessoas da internet lhe diziam que era loucura abrir mão de qualquer tipo de poder. No entanto, para Makayla, aquela habilidade não era um poder, era uma maldição.

Não acreditou no doutor logo de cara, por isso foi para Madripoor por conta própria, claro que primeiro mandou uma mensagem para a mãe e para o doutor Brooks, dizendo aos dois que estava partindo para uma missão humanitária. Mentiu para Emma por motivos óbvios, para Jackson ela mentiu apenas porque não queria deixar o terapeuta preocupado...

Ainda não estava em bons termos com a diretora do CRG, porém era mais producente fingir que tudo estava bem, enquanto resolvia suas questões. Sabia que seria monitorada pelo celular, por isso tratou de despachar o aparelho para o mesmo lugar que informou para a mãe que iria. Depois de algum tempo, ela ligou de outro número e disse que perdeu o aparelho. O Soldado centenário e fugitivo preso em sua cabeça era útil o tempo todo, inclusive para saber exatamente quanto tempo ela devia passar em chamada para não ser rastreada.

Mas Makayla não queria pensar em Bucky. Não mais.

Porém “querer” não tinha qualquer impacto em seu dia a dia, os pesadelos prosseguiam, cada vez piores, de modo que às vezes era mais fácil não dormir. Bucky Barnes estava impregnado nela.

Não haviam se visto ou se falado desde o fatídico dia da posse de John Walker, Makayla sabia que estava acabado e, mesmo preocupada com ele em todos os segundos do dia, ela não o procurou. Pensou em mandar mensagens diversas vezes, mas também não fez isso, mesmo sabendo que por ter destruído o celular reserva ele não tinha mais o contato dela. Talvez fosse melhor assim...

Não podia evitar as coisas que sentia por aquele homem, mas podia escolher como agir. Então escolheu deixá-lo em paz. Sabia que toda a coisa com Walker já devia ser problema o bastante na cabeça de Barnes.

Desconfiava que cedo ou tarde ele entenderia o lado dela, porém entender e perdoar eram conceitos diferentes.

Sendo assim, para seu próprio bem, tinha que se esquecer dele.

Enquanto isso, estava ali em Madripoor, trancada em um laboratório em um luxuoso prédio de Cidade Alta com um cientista megalomaníaco com complexo de Deus. Mas quem era Makayla para julgar?

Quando colocou os pés naquela ilha a jovem estava completamente desconfiada de tudo, mas deu de cara com Sharon Carter, — que era uma conhecida da mente de Barnes, alguém que havia ajudado Steve Rogers antes e em quem o Soldado confiava, — por isso resolveu abaixar a guarda.

Se Bucky confiava nela, então Makayla confiaria também...

Claro que não disse a Sharon que a tinha reconhecido, também não fez perguntas sobre os motivos de uma agente tão importante quanto ela estar em um lugar como aquele, porém, Makayla desconfiava que tinha a ver com os Tratados de Sokovia.

Alguém como Sharon, que havia dedicado a vida ao país, devia receber o benefício da dúvida, ela merecia um perdão, e o fato de ter sido negligenciada totalmente, provava o quão falho era o Tratado que Emma Kennedy havia desenvolvido...

Se fosse em outro momento poderia interceder por Sharon, talvez Emma lhe desse ouvidos, mas no pé que as coisas estavam isso era completamente impossível. Além disso, Makayla desconfiava que qualquer um estava melhor bem longe do circo dos Estados Unidos naquele momento.

E, para todos os efeitos, sequer estava ali como a filha de Emma Kennedy, estava usando documentos falsos com o sobrenome da mãe verdadeira.

Não tinha como ajudar Sharon.

E de toda forma, a agente sequer pediu isso...

Makayla estava hospedada em um dos prédios de Cidade Alta, geralmente as pessoas de fora não ficavam por tanto tempo, mas Sharon havia lhe ajudado com isso. Todavia, desde que encontrara o doutor, a jovem sequer tinha aparecido no apartamento, todas as suas horas eram gastas naquele laboratório.

Ela tinha suas dúvidas de que aquela pseudo-cura de Nagel funcionaria, porém, pelo que parecia, o homem já estava trabalhando em algo assim antes de conhecer Makayla e, apesar das desconfianças a jovem resolveu pagar pra ver.

Não tinha mais nada a perder mesmo.

Dizem que o desespero exige medidas desesperadas, essa era Makayla naquele momento, desesperadamente tentando se livrar daquelas habilidades, como se isso milagrosamente fosse resolver todas as questões de sua vida. Bem lá no fundo ela sabia que era estúpido, mas talvez fosse a única coisa lhe dando um pinguinho de esperança naquele momento...

E, por mais que algo em sua mente continuasse dizendo que talvez fosse mais fácil simplesmente morrer, Makayla continuava tentando, como se seu instinto de sobrevivência fosse a última coisa lutando dentro dela quando todo o resto já havia desistido.

Algo dentro de Makayla estava morto, já estava há tempos, tudo de bom que ela tinha foi morrendo aos poucos até não sobrar mais nada, apenas apatia... E então ela conheceu Bucky Barnes...

E se importou com ele.

Esse era o ponto, Makayla não se importava com o mundo todo e deixou de fazer isso por que Bucky se tornou sua prioridade, ela apenas não se importava com nada muito antes dele.

Na maioria do tempo ela simplesmente não sentia nada, a não ser esse vazio profundo que lhe consumia e roubava qualquer vestígio de luz de dentro dela. E por isso não se importava. Nem com o país sendo enganado, nem com Lemar e Walker sendo usados, nem com Sharon sendo injustiçada, nem com as implicações morais ou com as consequências de deixar que um cientista fizesse experimentos com ela.

Mas por algum motivo se importava com Bucky.

Não porque Barnes havia invadido sua mente como uma doença terminal, de tal forma que Makayla tinha deixado de se preocupar consigo mesma para se preocupar apenas com ele, mas sim, porque ele havia se infiltrado ali, — exatamente como a luz se infiltra na escuridão, mesmo através de janelas fechadas, — e tinha feito com que ela, milagrosamente, se preocupasse de verdade com alguma coisa.

Com ele. Apenas com ele.

Talvez fosse quase poético que, Bucky Barnes, com sua mente sombria e com uma história coberta de mortes, fosse, para Makayla Devinne, a definição de luz e vida...

— Parece menos abatida hoje. — Wilfred Nagel disse de repente, puxando Makayla de volta para a realidade.

Ele tirava sangue dela naquele momento, era talvez a quinta vez que o fazia naquele único dia. Usava luvas e equipamento de proteção, como se a jovem tivesse alguma doença altamente contagiosa. Ela entendia que era para que não houvesse qualquer contato entre os dois, afinal o doutor sabia exatamente como funcionava seus poderes. Ninguém queria todas as suas memórias e pensamentos mais secretos na mente de outra pessoa.

E tudo bem, porque Makayla com certeza também não queria o caos de um cientista louco dentro de sua cabeça...

— Ontem você estava bem pior, presumo que tenha dormido melhor... — Ele se virou para colocar o sangue no local apropriado.

Makayla se limitou a murmurar um som de concordância, enquanto encarava os braços roxos pelas dezenas de picadas. Era mentira, ela não havia dormido nada.

Porém, “não dormir” significava também “nada de pesadelos”, então essa devia ser a razão de não estar tão assustadoramente abatida., no entanto se encontrava sem vontade alguma de debater isso com o cientista.

Eles quase não falavam na verdade, Nagel era do tipo estranho, mas Makayla supunha que todo homem como ele fosse. Falava sozinho com frequência, sempre anotando coisas e murmurando freneticamente para si mesmo. Era um gênio, sem dúvida, mas a loucura também estava em seus olhos.

Se a jovem se importasse um pouco mais com qualquer coisa, talvez tivesse cogitado o quão perigoso o complexo de Deus daquele homem podia se tornar, mesmo que ele, por si só, fosse inofensivo.

— Acha que isso vai funcionar? — Ela perguntou apenas por perguntar, porque afinal aquela mesma frase já havia saído de seus lábios várias vezes naqueles últimos dias.

Doutor Nagel geralmente respondia um “veremos”, mas daquela vez ele continuou calado olhando várias coisas em sua mesa de pesquisa, possuía ressonâncias do cérebro de Makayla, sangue, amostrar de pele, tudo. Coisas bem mais complexas e invasivas do que os exames que a jovem tinha feito a pedido da mãe....

Na manhã anterior, trouxera um cara para o laboratório, um drogado que arrumou pelas ruas de Cidade Baixa e ao qual deu algum dinheiro apenas para que Makayla tocasse nele enquanto tudo era monitorado.

É claro que ela teve medo, outra mente inteira dentro de sua cabeça seria desastroso, porém, sabia que se quisesse uma cura teria que fazer sacrifícios. Ela o tocou então, sua mão sobre a dele por um segundo, não doeu tanto, foi apenas um flash rápido, lembranças desconexas de cores fluorescentes e mais nada. Nenhum pouco parecido com Bucky.

Aquilo deixou Nagel extremamente animado, ele queria que fizessem de novo, mas Makayla se recusou, por isso tiveram que seguir em frente apenas com o material que já possuíam.

Naquela noite porém, o cientista tinha outra resposta para a pergunta costumeira da jovem:

— Na verdade, eu não acho, eu tenho certeza que vai funcionar.

Makayla o encarou um tanto incrédula, pensou que passariam meses, talvez anos naquilo. Como podia ter acontecido tão rápido?

— Imaginei que demoraria bem mais... — Ela declarou, e sua incerteza era explícita.

— Eu já tinha muita base de pesquisa e essa por sua vez era a engenharia reversa de uma outra que veio de anos, meu trabalho já estava bem avançado. Monitorar seu DNA, seu sangue e, principalmente, seus poderes em ação, só me ajudou a descobrir uma forma de isolar um gene especifico, que eu pressuponho ser a fonte de seus poderes. Desde então venho trabalhando em uma aplicação prática disso. Um tipo de soro ou vacina, chame como quiser, que vou ministrar em duas etapas. Uma delas agirá como uma prisão de anticorpos, que vai impedir esses genes de atuarem no seu organismo, e assim vai suprimir seus poderes, a segunda dose vai matar os genes isolados e erradicar esses poderes. — Nagel explicou de forma prática, falando tão depressa que Makayla quase não conseguiu processar tudo.

Apenas uma coisa ficou clara em sua mente. Podia acabar com aquelas habilidades em duas doses de uma vacina, ou seja lá o que fosse... Em breve seria livre de tudo aquilo. Deu seu primeiro sorriso honesto em todos aqueles dias.

— Tem certeza que vai querer fazer isso? — Wilfred Nagel se virou para ela, a encarando de modo sério por alguns segundos.

— Mas é claro. Sem dúvida. — Makayla afirmou de imediato.

O cientista não pareceu muito satisfeito com aquela decisão.

— O potencial do seu poder é incalculável... — Ele declarou, como se aquilo fosse mesmo um argumento válido.

— Eu posso ler mentes quando toco nas pessoas, eu já calculei o estrago disso. — A jovem rebateu sem emoção.

“Não me toque”, ainda eram três palavras simples que lhe assombravam, desde que tinham sido ditas por Bucky Barnes...

— Não. Você pode ler mentes com um toque agora, sem treinamento, sem tentar desenvolver ou controlar, você tem um gene desconhecido, ele pode evoluir e, se evoluir, isso vai modificar suas habilidades, te tornar mais poderosa. — Doutor Nagel retrucou, ganhando um revirar de olhos como resposta.

Makayla respirou fundo, não estava disposta a dar o braço a torcer, sequer conhecia aquele homem, com certeza não aceitaria um conselho dele.

— Ou pode ficar ainda pior. Eu não quero isso. — Deixou claro, se remexendo desconfortavelmente na cadeira.

— Você pode ser uma deusa andando entre a humanidade, Kayla, pode ser uma heroína para o mundo, pode ser até mesmo o pior algoz de seus inimigos. Com esses poderes você pode ser o que quiser. — Era possível ver o brilho megalomaníaco nos olhos do cientista.

Mas aqueles sonhos de grandeza nada tinham de atraente para Makayla, porque ela nunca teve intensão de ser uma deusa, nunca pretendeu ser uma heroína e nunca quis ser algoz de ninguém, embora o fosse às vezes.

Ela tinha apenas um desejo bem simples... queria pelo menos um pouquinho de felicidade na vida, não era pedir muito, era?

— O que eu quero é ser uma garota normal. — Declarou simples e direta, não queria continuar com aquela conversa inútil. Não estava ali pra fazer amigos.

— Compreendo. — Wilfred Nagel assentiu, voltando a se concentrar em suas amostras. — Aplicaremos a primeira dose amanhã então.

— Obrigada, doutor. — Foi tudo que Makayla disse.

Esperar uma noite toda para finalmente se livrar daquelas habilidades seria uma tortura, mas era apenas mais um dia.

Um dia e estaria livre daquela parte de sua vida.

Pegou o celular e abriu o twitter, desde que havia chegado em Madripoor estava monitorando qualquer notícia sobre os Vingadores por ali, não era exatamente uma rede social muito confiável, mas era a mais rápida e a mais fácil de encontrar o que queria.

É claro que não estava particularmente preocupada com os Vingadores em si, apenas com Bucky.

Tinha de tudo ali, desde comentários absurdos condenando Wanda Maximoff por seus atos de meses antes, até teorias malucas sobre Steve Rogers estar em missão na Lua. No entanto, os Vingadores não eram o assunto do momento, e sim um grupo anarquista conhecido como “Apátridas”, odiados por alguns, amados por muitos, eram tipo Robin Hoods modernos, ajudando os centros de refugiados e desafiando o governo. Muitos diziam que tinham poderes, Makayla não sabia se realmente acreditava nisso.

Mas não importava, porque seu foco era Bucky Barnes...

Porém, naquela noite em particular esses dois assuntos haviam se fundido. Os Apátridas tinham sido vistos em uma luta contra o Falcão e o Soldado Invernal, e o mais impressionante, Capitão América e seu parceiro Estrela Negra também estava lá.

Para Makayla era muito difícil imaginar Sam e Bucky cooperando com John Walker...

Não eram muitas informações, não fosse por uma imagem tirada através do vidro de um carro Makayla sequer teria acreditado. Seu coração começou a bater descontrolado assim que ela viu que a luta havia ocorrido sobre caminhões em movimento.

Deus, aqueles homens eram loucos?

Imediatamente ela passou a buscar por quaisquer indícios de que Bucky estava bem, apenas para descobrir que ele tinha sido preso no fim daquela mesma tarde. O que caralhos estava acontecendo?

Os tweets diziam que policiais haviam parado o Soldado Invernal e o Falcão em uma região residencial de Baltimore, e acusavam atos racistas contra Sam, já que os policiais haviam abordado os dois sem qualquer motivo e só pararam com o abuso de poder quando reconheceram Wilson, mas ninguém sabia nada sobre os motivos da prisão de Barnes

Makayla, no entanto, podia imaginar. O perdão de Bucky era vinculado com as sessões de terapia, considerando que ele havia faltado em uma delas, quando a jovem ainda estava na cidade, e depois disso Walker apareceu na televisão, desfilando por toda a parte com aquele escudo, ela podia apostar que Barnes não tinha comparecido na sessão daquela semana também.

Faltar em uma consulta era perdoável, em duas seguidas não. Por isso ele estava preso...

Algo martelava de um jeito muito ruim no coração de Makayla, pensar em Bucky em uma cela úmida de uma prisão qualquer, tratado como um criminoso, lhe doía no peito, lhe revirava o estômago.

E o pior, ela sabia que provavelmente ele estava pensando que merecia isso...

De repente algo nas memórias de Barnes casou com o bairro em que a prisão fora feita; o nome Isaiah Bradley lhe veio à mente, um super soldado.

Makayla entendeu a história, talvez até mais do que o próprio Bucky conseguia entender, porque ele não tinha um vislumbre do que realmente significava o governo ter acobertado a existência de Isaiah, mas ela sim, ela via o abuso e o racismo sistêmico por trás da história de um super soldado negro.

Porém, por que Bucky tinha decidido ir com Sam até lá justo naquele dia, sendo que manteve a existência de Isaiah em segredo até mesmo de Steve?

A jovem teve que analisar aquela situação como quem monta um quebra-cabeças, e fosse sobre os Apátridas? Talvez os rumores estivessem certos e eles tivessem mesmo poderes. Super soldados com uma agenda anarquista.

Mesmo que estivessem ajudando as pessoas, Makayla sabia, com sua certeza epifânica de sempre, que Bucky não deixaria de lado o fato de terem super soldados andando por aí, ele com certeza iria atrás de informações. Porque se alguém estava fabricando o soro, esse alguém precisava ser detido...

Porém Bucky não poderia deter ninguém enquanto estivesse preso. E Sam estaria sozinho contra um possível grupo de super soldados... Deus, isso devia estar matando Barnes por dentro.

Makayla começou imediatamente a pensar no que poderia fazer, mesmo dali, do outro lado do mundo, talvez pudesse contratar um advogado, quer dizer, Bucky nem precisava saber, alguém bom o caro que o tirasse de lá bem rápido.

Porém, a jovem entendia o bastante de direito e de leis governamentais para saber que seguir a linha burocrática não tiraria ninguém da cadeia tão cedo... Mas ela conhecia alguém que podia fazer isso.

E felizmente esse alguém era o melhor amigo de uma pessoa que nunca negaria um favor para Makayla. Mesmo que ela não falasse com essa pessoa há anos.

Achou o contato em sua agenda, recuperado na nuvem com alguns outros contatos antigos, não sabia se ainda era o número, mas talvez valesse a pena tentar. Mesmo que não fizesse ideia do que diria a seguir...

Depois de encontrar um lugar silencioso e privativo onde pudesse falar sem ser interrompida ou escutada, ela apertou o ícone de chamada e a pessoa atendeu no terceiro toque.

— Hoskins falando, pronto. — A voz conhecida veio em um tom formal.

O coração de Makayla se encheu de nostalgia, memórias de uma infância feliz, imagens de um Cam sempre sorridente e de um Lemar piadista. Bons tempos.

— Eu achava mais divertido quando você atendia o telefone dizendo “Casa Funéria Sua Morte Minha Alegria, em que posso ser útil?” — Tentou se casual, porque não havia um jeito melhor de começar uma conversa com alguém que não falava há muito tempo. — Mas suponho que pessoas importantes não possam atender o telefone assim...

— Kayzinha? — É claro que Lemar reconheceu, foi possível ouvir o homem caminhando, talvez para ter mais privacidade em sua ligação.

Os olhos de Makayla se encheram de lágrimas com o apelido antigo, aquele mesmo pelo qual Cameron lhe chamava.

— Oi, Lemmy. — Usou o apelido de Hoskins também.

Ela não sabia como seria recebida, e honestamente se sentia mal de estar ligando para pedir um favor. Mas se havia algo que Makayla sabia sobre Lemar Hoskins era que sempre poderia contar com ele.

— Ah meu deus, nem acredito que é você! — Sua voz animada era perceptível, como se não tivessem perdido o contato e ao mesmo tempo, como se não se vissem há décadas, porém, conforme falava a próxima frase, seu tom foi ficando um pouco mais triste. — Quanto tempo, Kay. Me desculpe não ter ligado, quer dizer eu soube o que aconteceu com seu pai, e eu sinto muito, sinto demais, eu só...

A frase ficou sem fim. Um milhão de coisas não ditas dentro de uma história que havia acabado cedo demais, afinal o laço que unia Lemar e Makayla estava morto, e por mais que ambos quisessem mudar isso, eles não podiam.

Cameron havia partido, e tudo que restara era um buraco em seus corações.

— Eu sou uma lembrança ruim... — A jovem completou, sabia que era difícil para Hoskins olhar pra ela.

Era a lembrança viva dos que se foram, talvez essa fosse a pior parte; Lemar, Emma, os pais de seus amigos, a família de Kaleb, todos olhavam para Makayla e lembravam do que haviam perdido, e eles acabavam se afastando, porque era muita dor e ela entendia isso...

A verdade era que não havia uma só pessoa no mundo que seria capaz de olhar para ela e pensar: “ainda bem que você ainda está viva”. A própria Makayla não tinha esse pensamento quando se olhava no espelho...

— Kay... — A voz suavemente repreensiva de Lemar veio do outro lado da linha. — Isso não é verdade.

— Tudo bem, Lemmy. Eu entendo. De verdade. — Ela tentou não se deixar levar pela tristeza do momento.

Sabia o que estava prestes a fazer e, honestamente, não se sentia bem consigo mesma, porém devia isso a Bucky. Como uma compensação por tê-lo ferido.

— Eu fiquei sabendo do seu novo cargo... — Começou, tentando colocar um pouco de alegria na voz.

— É, sua mãe foi muito legal em lembrar da gente. — Era perceptível que Lemar estava orgulhoso.

— Acho que “legal” não é muito o lance dela, nem do governo, mas... — Makayla não quis ser hipócrita a ponto de parabenizar o amigo por aquele circo.

— Você não concorda com isso, não é? — Lemar entendeu no mesmo instante.

Você concorda? — A jovem jogou a pergunta de volta e ouviu o homem do outro lado da linha respirar fundo.

— Se não fosse o John, seria outro. Você sabe como o governo é, eles sempre conseguem o que querem. E a sua mãe também. — É claro que Lemar entendia muito mais daquela situação do que parecia. — Alguém seguraria esse escudo, o governo já tinha decidido, e existem piores que o John. Você sabe, eu sei que você sabe.

Makayla encheu os pulmões de ar, as convicções intrusas em sua mente a impediam totalmente de enxergar John Walker como um candidato viável, mas de fato, existiam piores... Só que também haviam melhores, além de, é claro, existir o homem ideal para o trabalho.

Aquele escudo devia estar com Sam Wilson.

Porém Makayla sabia que não era o momento para terem aquela discussão.

— Pelo menos você está por aí colocando juízo na cabeça de uns e outros. — Ela se limitou a dizer, e o desgosto estava explícito em cada uma de suas sílabas.

— “Uns e outros”? — Lemar riu daquele jeito honesto que tinha. Pelo visto algumas coisas não haviam mudado em nada. — É assim que você chama o John agora?

— Tanto faz... — Makayla não tinha nenhuma intenção de falar daquele homem. Haviam coisas mais importantes. — Escuta, Lemmy, eu preciso de um favor seu.

Odiava ser a pessoa que só ligava quando queria alguma coisa, mas não era o momento para pensar em sua moral ou na própria imagem, aquilo não era sobre ela, era sobre Bucky. E ele era mais importante do que qualquer coisa.

— Desconfiei. — Ao invés de parecer ofendido Lemar riu, quase como se Makayla fosse apenas uma criança pequena que precisa de ajuda pra esconder uma travessura. — Eu estou bem longe, mas posso pedir pra alguém resolver.

Sempre podia contar com ele, de fato. Lemar Hoskins era família.

— Não é pra mim... — Ela esclareceu, escolhendo suas palavras com cautela. — Olha, o que eu vou falar vai parecer muito estranho, mas eu preciso que confie em mim, tudo bem?

— Meu deus, Kay, o que você fez? — A voz do outro lado da linha ainda vinha em uma entonação divertida, mas era possível perceber o fundo de preocupação nela.

— Nada, eu não fiz nada. — Respondeu apaziguadora. — Mas um amigo meu está com problemas e eu preciso que você diga pra “uns e outros” que é uma boa ideia soltar essa pessoa da cadeia.

Silêncio por dois segundos, Makayla praticamente podia ver Lemar franzir as sobrancelhas em confusão.

— Como é que é? Minha nossa, com quem você tem andado, Kay? O que seu amigo fez?

A jovem respirou fundo e ponderou se era mesmo uma boa ideia pedir um favor que envolveria Walker... Mas foda-se John e seu ego enorme, Bucky era muito mais importante que isso.

— Ele não foi na terapia obrigatória. — Revelou enfim. — Meu amigo se chama James Bucky Barnes.

— Pelo amor de Deus... — A incredulidade de Lemar estava bem clara. — Você tá falando sério?!

— Ele foi preso em Baltimore, depois que vocês lutaram contra os Apátridas. — Makayla continuou a explicar, afinal não sabia se Hoskins e Walker estavam a par do que acontecera com Barnes. — Eu preciso que você convença o John a dar uma dessas carteiradas de homem branco pra tirar o Bucky de lá o mais rápido possível.

Era um tiro no escuro e provavelmente inflaria o ego de John Walker mais do que nunca, porém, o ego daquele homem vivia a ponto de estourar de tão cheio, então o mínimo era que aquele traço de personalidade tão ridículo valesse de alguma coisa.

— Espera. Espera. Espera. Como você sabe de tudo isso? Ele contou pra você? Como é que você conhece esse homem? Ele tá pedindo pra você fazer isso? — Lemar Hoskins despejou todas as perguntas de uma vez e Makayla achou que seria melhor esclarecer melhor as coisas, para evitar um mal-entendido.

— Lemar, me escuta. — Respirou fundo, tentando ser o mais honesta que podia. — Eu e o Bucky não somos exatamente amigos, tá bom? Exagerei um pouco nisso. O conheci na terapia, e dei umas mancadas, burrice típica minha, agora ele meio que está com raiva de mim, mas eu fiquei sabendo o que aconteceu e tenho certeza que ele precisa sair da cadeia logo. Bucky nem desconfia que eu estou fazendo isso, e eu quero que continue exatamente assim, por favor. Nem ele, nem o John, nem ninguém podem saber do meu envolvimento.

— O que está acontecendo, Makayla? No que você está metida? — A preocupação de Lemar era evidente.

A jovem soube que teria que ser ainda mais honesta se realmente quisesse conseguir ajuda rápida para Bucky. Se dependesse de um advogado do estado ele ficaria dias preso e, dependendo do promotor, esse tempo podia virar semanas, só por birra. O pessoal do legislativo não era exatamente fã dos Vingadores....

— Por favor, Lemmy. Ele é importante pra mim, talvez a pessoa mais importante que eu tenho na vida nesse instante, eu realmente gosto dele. E eu juro que vou te explicar tudo, mas não agora, não hoje, tem muita coisa acontecendo. E ele precisa sair de lá bem rápido. — Foi estranhamente reconfortante dizer aquelas verdades em voz alta pela primeira vez.

— Caramba, Kay, eu sabia que você gostava dos mais velhos, mas sério? Tinha que ser tão velho. — Lemar riu, simples assim, como se tudo aquilo fosse apenas uma situação rotineira, porém, depois ele respirou fundo e baixou um pouco o tom de voz. — Olha, mesmo que eu quisesse te ajudar, John não vai me ouvir, Bucky foi rude com a gente, nenhuma boa vontade em cooperar, ele até odiou meu nome. Estrela Negra é muito legal!

— Nossa alguém não gostou do seu nome supercriativo-só-que-não, que crime. — Makayla devolveu com um deboche divertido, mas se tornou um pouco mais crítica a seguir. — Qual é, Lemmy? Você queria que o cara caísse de amor por vocês, sendo que o seu melhor amigo está posando por aí de cosplay do melhor amigo dele?

Lemar fez um som indistinto do outro lado da linha, ele era sensato, Makayla sabia que apesar de sua pequena birra por causa do “nome de herói”, ele entenderia os dois lados da situação melhor do que qualquer outra pessoa.

— Olha, convença o John que é a coisa certa, talvez se vocês mostrarem um pouco de boa vontade Barnes retribua com boa vontade também, além disso vocês podem se ajudar, trabalhar juntos pra resolver o problema. — A jovem sugeriu, mesmo que soubesse com toda a certeza do mundo que Bucky jamais cooperaria com John Walker.

Ele com certeza odiaria mais ainda o cara por tirá-lo da prisão “facilmente”.

Porém Makayla não tinha qualquer pretensão que Bucky virasse amigo ou mesmo aliado de Walker, ela entendia muito bem que aquela situação provavelmente aumentaria a inimizade entre os dois, porque é evidente que John se gabaria disso e agiria como o idiota pomposo e presunçoso que era o tempo todo.

Mas ele era apenas um meio para um fim, só isso.

Desde que Bucky ficasse livre, valeria a pena.

A única coisa que a jovem esperava de verdade é que John Walker não acabasse estragando aquilo também. O título recém adquirido com certeza tornaria bem fácil tudo aquilo, homens brancos eram acostumados a usar seu privilegio por toda parte, aquela era a configuração padrão de John. Não tinha como ele errar e fazer merda.

E embora Makayla soubesse que não era uma jogada ética, ela honestamente não se importava, não precisava ser a heroína daquela história.

— Talvez eu saiba uma ou outra coisa que possam convencer o John a ajudar... — Lemar disse por fim, depois de pensar por alguns segundos. — Mas só porque você está pedindo.

Makayla sorriu, o coração se enchendo de alivio imediato.

— Obrigada, Lemmy, eu sempre posso contar com você.

— Não, nada disso, dessa vez o favor beneficia outra pessoa, então você vai ficar me devendo. — Lemar advertiu, mas seu tom bem humorado dizia que era apenas uma brincadeira.

— Combinado. — Makayla concordou. — Melhor você ir, o tempo está correndo. Obrigada de verdade, Lemmy.

— De nada, Kayzinha. — Ele disse, mas então vez um som de negativa e crítica, para emendar logo em seguida, em um tom mais baixo, como se fosse apenas um pensamento solto. — Meu deus, eu vou ter pesadelos com seu gosto pra homens.

A risada dos dois se misturou na linha

— Mas pelo menos ele é muito bonito. — Makayla meio se defendeu, meio se gabou.

— Pode parar. Não vou discutir isso com você.... Agora não. Tchau, Kay. — Ela teve tempo apenas de murmurar uma despedida enquanto ria, antes que o telefone fosse desligado.

Depois disso as horas se arrastaram em agonia e ansiedade, Makayla pensou em ligar de volta para Lemar pelo menos umas dez vezes, — mas decidiu que isso podia não ser a melhor ideia no momento, — olhou em todo canto do twitter, ativou alertas online para notícias, mas nada aconteceu.

Ela já estava desistindo de esperar e procurando o telefone da delegacia, pra ligar lá pedindo informações, quando uma mensagem chegou em seu celular:

“Seu namorado rabugento não estava na vibe da cooperação. Mas eu já desconfiava. Ele está livre, dispensou a gente e agora o John tá puto. Vou ter que ouvir reclamação disso por horas e horas. Você definitivamente me deve uma.”

Makayla respirou aliviada, seu coração batendo na frequência certa outra vez. Ela digitou um novo agradecimento, fazendo questão de dizer que com certeza pagaria seu débito com Lemar.

Bucky estava bem e livre, isso era tudo que importava, qualquer preço valia a pena ser pago por ele...

★☆ • ★☆ • ★☆

Havia um silêncio estranho pairando naquele avião de carga da aeronáutica, talvez os dois homens estivessem perdidos demais em suas próprias conjecturas para se importarem em manter uma conversa civilizada, ou talvez só estivessem cansados demais dos momentos caóticos que estavam vivendo naquelas últimas horas.

Sam Wilson mastigava uma barra de cereal e Bucky Barnes limpava o vibranium de sua mão, mesmo que não estivesse sujo realmente, isso lhe ajudava a pensar melhor, só isso.

Nenhum dos dois se encarava. Já tinham feito isso o suficiente naquela sessão de terapia constrangedora na delegacia.

Estavam a caminho da Alemanha naquele instante, indo ver Zemo na prisão de segurança máxima de Berlim. E, nem os pensamentos mais paranoicos e loucos de Barnes teriam imaginado isso, quando ele saiu de seu apartamento no Brooklyn mais de vinte e quatro horas antes.

Tinha tentado ignorar o idiota posando de Capitão América nas notícias durante toda aquela semana, tentou, de verdade, não ficar furioso com Sam por não responder sequer suas mensagens, mas quando John Walker apareceu na televisão — em um tipo de showzinho do qual Steve nunca participaria, — pousando de bom moço e agindo como se soubesse mais de Rogers do que qualquer outra pessoa no universo, isso tirou Bucky do sério de formas inimagináveis.

Ele teve que ir atrás de Sam, precisava que Wilson pegasse aquele escudo de volta, que aquela situação se resolvesse, tinha uma necessidade empírica que as coisas voltassem a ser como deviam. Sentia que estava em um trem desgovernado, que tinha perdido o controle de tudo a sua volta e no meio de sua impotência perante a vida, Barnes achou que recuperar o escudo era a única coisa que poderia fazer naquele momento.

Talvez fosse tudo sobre sua necessidade de controle e seu pânico em sentir que estava perdendo isso, mas ele não saberia, porque afinal havia faltado na terapia outra vez.

O que Bucky realmente não esperava era perder ainda mais o controle com aquela simples decisão. Não tinham pegado o escudo de volta, estava bem claro que Sam sequer tentaria fazer isso, no entanto Barnes teve que adicionar super soldados, uma luta perdida, um encontro com o usurpador ridículo que se achava o Capitão América, uma visita ao passado, uma prisão relâmpago e uma sessão de terapia forçada na lista de caos completo de sua vida.

Era um trem descarrilhado com certeza.

Se sentia horrível, muito mais do que já estava se sentindo quando decidiu colocar os pés para fora de casa...

Porém não tinha volta, com super soldados na equação Bucky se sentia um tanto responsável, ele precisava fazer alguma coisa antes que tudo piorasse. Então estava a caminho da Alemanha para ver Helmut Zemo, o homem que havia matado um rei e despedaçado os Vingadores, usando o Soldado Invernal como pivô.

Era uma péssima ideia, Bucky sabia bem disso, Zemo nunca cooperaria da prisão e, embora Sam ainda não desconfiasse disso, Barnes já sabia que teria que soltar o criminoso. Restava apenas confiar que a determinação de Zemo em eliminar super soldados seria mais forte do que o desejo dele por liberdade.

Extremamente arriscado, porém a única alternativa rápida disponível. Precisavam saber de onde estava vindo aquele soro.

No entanto, mesmo naquele instante, Bucky já entendia que haveriam implicações, uma fuga de Zemo nunca passaria despercebida, Wakanda estava constantemente monitorando o homem.

Porém ele não queria pensar em nada daquilo no momento, Doutora Raynor dissera uma vez que Barnes tinha que parar de tentar resolver tudo de uma vez, que ele precisava ir de pouco em pouco, um ponto por vez.

Então ele simplesmente aceitou que a prioridade do momento era saber mais sobre o soro e que para isso precisava de Zemo. Depois se preocuparia com o resto, incluindo o fato de que aquele homem era um dos nomes de sua lista.

Obviamente não devia reparações a Zemo, era o oposto na verdade, o mesmo que fizera com a Senadora Atwood, ela tinha conseguido vantagens por causa dos serviços do Soldado Invernal e, de uma forma ou outra, Zemo também. Não era reparação, era vingança.

Mas Bucky decidiu que isso teria que esperar.

Prioridades... Prioridades...

— Coma alguma coisa. — A voz de Sam cortou o silêncio e logo havia uma barra de cereal sendo jogada na direção de Bucky.

Ele agarrou o pacotinho no ar sem qualquer dificuldade, pensou em dizer que não tinha fome, porém, estavam há tempo demais naquela missão e pelo visto aquilo estava longe de acabar, portanto precisava mesmo colocar algo dentro do estômago.

Sam voltou a ficar calado, era evidente que aquela ideia de visitar Zemo não lhe agradava, talvez até mesmo trabalhar diretamente com Barnes não lhe agradasse tanto assim, mas naquele momento, com super soldados a solta por aí, estava bem claro que precisariam um do outro.

Não que fossem uma equipe, parceiros ou nada assim... Eram apenas dois caras muito diferentes trabalhando juntos com um objetivo em comum.

Bucky mastigou a barrinha sem se preocupar com o sabor, já tinha comido coisas bem piores na vida. Havia um silêncio estranho pairando no ar, não o desafio implícito que estava lá durante todo o dia, algo diferente... Barnes sabia que tinha passado dos limites durante aquela sessão estranha de terapia, suas emoções caóticas se tornaram palavras duras. Entendia que suas acusações tinham machucado e talvez até ofendido Sam, estava lá, no olhar dele.

Pelo visto Bucky possuía o desagradável o hábito de magoar as pessoas, mesmo quando não queria...

Porém, pelo menos Wilson ainda estava ali, provavelmente conseguiriam se entender de alguma forma, aquele olhar não se tornaria algo permanente o bastante para povoar os pesadelos de Bucky.

Esse posto já estava ocupado por olhos tempestuosos e por um rosto jovem coberto de lágrimas.

Barnes tinha revisado aquela cena em sua mente tantas vezes no curso dos últimos dias e mesmo assim o impacto não havia diminuído em nada, ele só se sentia cada vez pior sobre todas as coisas ditas naquela fatídica noite.

Quando deixou o apartamento de Makayla, Bucky era incapaz de escutar a razão ou a sensatez, talvez, em algum ponto da noite, enquanto as lágrimas dela rolavam, ele tenha ponderado a situação, porém assim que aquele idiota apareceu na televisão — exibindo o Escudo como quem exibe um brinquedo comprado em uma loja, — qualquer outra coisa se esvaiu da mente de Barnes, ele era apenas revolta e raiva.

Só notou o quão descontrolado estava quando quase agrediu alguém na rua por um simples esbarrão...

No geral os instintos violentos e assassinos estavam sempre lá, sempre dentro de sua mente como uma doença autoimune, porém na maior parte do tempo Bucky conseguia controlar, era um trabalho diário e constante, no qual ele pensou estar sendo bem sucedido. No entanto, assim que John Walker foi anunciado como o novo Capitão América, tudo que restou foi a vontade insana de cruzar o país e quebrar o pescoço daquele idiota.

Foi uma noite difícil, ele sabia que se cedesse aos seus impulsos, todo seu progresso seria jogado no lixo e só sobraria sangue em seu caminho, tanto no passado quanto no presente.

Mas, apesar do idiota usurpador, não levou tanto tempo assim para que Bucky pensasse em Makayla outra vez, depois da primeira noite, quando os olhos dela povoaram seus pesadelos, ele foi obrigado a parar por um instante e de fato analisar a situação...

E quanto mais fazia isso, quanto mais revivia aquela briga e todas as verdades ditas nela, mais Barnes ficava ciente que havia reagido de forma um tanto exagerada. Makayla tinha mentido, verdade, mas ela não era Hydra ou governo, era apenas uma garota que acabou envolvida em uma situação sobre a qual não tinha controle.

Ela não fez nada daquilo de caso pensado, não fazia sentido julgá-la da mesma forma que julgava a Hydra.

Se fosse honesto consigo mesmo, notaria a hipocrisia de suas atitudes, afinal ele próprio não saía por aí dizendo para todos quem era de verdade. Sequer havia conseguido ser honesto com Yori, não era exatamente a mesma coisa?

Duas pessoas que haviam feito algo, porque não tiveram escolha e sabiam muito bem que isso machucaria outra pessoa, mas mesmo assim eram incapazes de dizer a verdade...

Além disso, Makayla claramente pretendia contar tudo no parque. Talvez também estivesse sendo honesta sobre a nomeação do novo Capitão América.

Isso Bucky não teria como saber, porém resolveu dar a jovem o benefício da dúvida, afinal o arrependimento no olhar dela era real. Foi visível o quão abalada e perdida a menina estava.

Talvez ele tivesse pegado pesado demais com ela...

Barnes podia imaginar muito bem o peso que era carregar um segredo daqueles.

Tentou ligar, mas desde então o número de celular estava sempre desligado ou fora da área de cobertura. Mandou mensagens também, mas sequer foram entregues ao destinatário. Bucky sabia que tinham que sentar com calma e esclarecer melhor as coisas. Haviam muitas perguntas sem resposta ainda, por exemplo: quando Makayla disse que viu toda a vida dele, era tudo mesmo?

Bucky achava que era apenas uma força de expressão, porque afinal, ela não ficaria passeando e flertando com ele se realmente soubesse de tudo. Ficaria?

Além disso, aquela conexão intensa e inexplicável que havia nascido entre eles era apenas o fruto das habilidades sobre humanas de Makayla?

Esperou mais dois dias e foi até o apartamento, — do jeito convencional dessa vez, nada de invadir novamente, — porém o porteiro dissera que a menina havia viajado. Bucky tentou todos os dias depois disso e mesmo assim não encontrou ninguém.

Estava preocupado com ela.

Não tinha ideia do peso que suas palavras tiveram para Makayla, mas sabia que havia magoado a garota. Apenas mais uma coisa em sua longa lista de pecados...

Uma parte de Bucky queria acreditar que ela estava bem, que havia voltado para Washington para perto da mãe e que estava apenas vivendo sua vida, deixando um idiota problemático e descontrolado como ele para trás. Porém, algo dentro dele não conseguia acreditar nisso, e se contorcia em agonia para saber se Makayla estava bem e segura, coisas terríveis podiam acontecer com quem possuía habilidades especiais, Barnes passara tempo demais nas mãos de cientistas para não pensar nisso.

Por todos esses motivos e, principalmente, pelo olhar tempestuoso, cheio de lágrimas, o nome de Makayla agora estava na lista de reparações de Bucky, anotado do caderninho que um dia fora de Steve, junto com tantos outros nomes.

Ele desejava um dia poder reparar aquilo, encontrar Makayla Devinne pelo menos uma última vez, nem que fosse apenas para pedir desculpas e dizer adeus...

Bucky puxou o celular do bolso e encarou as mensagens não entregues uma vez mais, nada havia mudado, talvez ela tivesse se desfeito do número. Pode ser que tenha feito isso e saído da cidade exatamente para nunca mais vê-lo outra vez. Devia estar chateada e brava com ele.

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E ela tinha o direito de estar.

Por mais que tivesse mentido para Bucky, ele foi insensível com ela e sabia disso.

A possibilidade de nunca mais ver Makayla causou uma sensação peculiar no peito de Barnes, era muito estranho sentir saudades de alguém que mal conhecia, mas ele não podia controlar isso.

Sentia falta dela.

Respirou fundo e procurou deixar tudo aquilo de lado, talvez fosse apenas o efeito colateral daquelas habilidades misteriosas que Makayla possuía, só isso...

— Então, quem é ela? — A voz de Sam puxou Barnes de volta para a realidade.

— “Ela” quem? — Ele franziu as sobrancelhas em resposta, guardando o celular de volta no bolso.

Será que Wilson também lia mentes?

— A pessoa que você está esperando ansiosamente te responder. — Sam apontou como se fosse a coisa mais óbvia de todo o universo. — Já perdi as contas de quantas vezes você olhou pra esse celular aí, com certeza tem alguém...

— Não sei do que você está falando... — Barnes desconversou com um dar de ombros. — Não tem ninguém.

Ele notou que acabara de contar uma mentira, não era tão diferente assim de Makayla... Isso só provava que realmente havia agido de forma exagerada com ela.

— Tudo bem, você não quer falar sobre isso. — Sam também deu de ombros. — Vamos falar de outra coisa então. Por que acha que John Walker te tirou da cadeia?

O maxilar de Bucky ficou tenso automaticamente ao ouvir o nome do idiota que se achava o Capitão América. O impulso de quebrar o nariz daquele maldito fez com que fechasse os punhos no mesmo instante.

— Não é óbvio? — Sua voz era um misto de deboche e sarcasmo.

— É óbvio pra você? — As sobrancelhas de Wilson se franziram sutilmente.

— Ele é um idiota. — Bucky respondeu da forma mais óbvia possível.

A primeira reação de Sam foi rir, embora ele tenha voltado a postura séria logo em seguida.

— Não faria sentido ele te soltar pra trabalharmos todos juntos, sendo que horas antes tínhamos deixado claro que não iriamos trabalhar com ele. — Expôs, desconfiado. — Por que tentar outra vez?

No entanto Barnes sequer estava preocupado com isso, no fim os interesses de John Walker pouco lhe importavam. Foda-se o usurpador de merda.

Era oportuno que o babaca tivesse aparecido na hora certa, porque afinal Bucky sabia que se fosse depender exclusivamente das leis ficaria naquela prisão por um bom tempo, e os super soldados teriam dias de vantagem, no entanto, jamais agradeceria por coisa alguma que aquele homem fazia...

— Já falei, ele é idiota. — Deu de ombros outra vez.

Sam não ficou muito satisfeito com aquela resposta, porém aquilo teria que ficar de lado; John Walker, Makayla Devinne e qualquer outra preocupação seriam colocados em segundo plano, porque o avião tinha acabado de pousar na Alemanha.

Era hora de ver Zemo...

Notas finais
¹ Curtiss Jackson é realmente o nome do primeiro Mercador do Poder nas HQs. Achei que a Sharon merecia uma "vilan origin story" embora eu não ache ela tão vilã assim, todo mundo resolveu "abandonar" ela, tem mais é que ficar rica e poderosa mesmo kkkkkkk (a gente desconsidera as experiências com os poderes alheios kkkk) as motivações dela não peça chave pra gente entender os eventos que envolvem a Makayla dentro de Madripoor, por isso resolvi deixar isso bem claro. Makayla fazendo merda com um cientista louco... Bucky planejando soltar um criminoso internacional... enfim apenas o normal da vida kkkkkkk Será que vai mesmo rolar esse lance de "tchauzinho poderes?" e o mais importante, será que o reencontro do casal que não é casal vem aí? (eu amo o arco de Madripoor aqui na fic, só digo isso...) Volto no sábado que vem (não depois de amanhã kkkkk) ou antes dependendo de como o capitulo fluir. Beijos e até!