Sweet Epiphany
11 Chaos in Madripoor
Notas iniciais

A luz do Sol atingia Madripoor de um jeito estranho, era como se a ilha fosse projetada apenas para a vida noturna, pelas manhãs tudo ali era tão calmo que ao olhar pela janela o lugar parecia mais uma cidade fantasma.
Makayla abraçou o corpo, seus braços doíam e sua cabeça estava pesada, era a segunda noite que não dormia, não se lembrava sequer da última vez que havia se alimentado, mas nada disso importava realmente...
— Está pronta? — Wilfred Nagel questionou, colocando uma seringa sobre a mesa disposta ao lado de uma cadeira típica de centros médicos e dentistas.
A jovem assentiu, respirando fundo e se afastando da janela para se sentar no lugar indicado. Ali no canto da sala, jogado em um sofá, o mesmo homem de dias antes roncava, ainda mais chapado de drogas do que na primeira vez.
Nagel havia trabalhado initerruptamente desde a noite anterior, a vacina — ou “soro inibidor” como era chamado pelo cientista — estava pronta, era o momento de tomar a primeira dose.
Honestamente, Makayla não estava acreditando que daria certo assim de cara, mesmo que o homem insistisse em dizer que tudo tinha sido feito baseado em pesquisas antigas, aquilo ainda era um tanto surreal. Estava combinado que pagaria pelo serviço apenas depois da segunda dose. Provavelmente, se suas contas ainda estivessem sendo monitoradas pela mãe, a movimentação daquela quantia exorbitante geraria perguntas, porém se o tal soro funcionasse de verdade, a jovem estava pronta para inventar a mentira que fosse. Era o dinheiro que o pai havia deixado para ela afinal, podia usar como bem entendesse.
O importante era que funcionasse.
Encarou os próprios braços, haviam furos e hematomas por toda a parte, Makayla parecia uma viciada em drogas injetáveis, e a julgar pela perda de peso e olheiras qualquer um que a conhecesse antes realmente pensaria isso.
Mas não importava. Não era como se tivesse amigos próximos que fossem se preocupar...
Wilfred Nagel preparou o inibidor, e Makayla viu a agulha perfurar sua pele, a ardência se espalhou por toda a parte, corroendo suas veias por dentro como ácido, não parecia acabar nunca, como se o liquido naquela seringa fosse infinito.
Makayla se agarrou na cadeira para conter a dor, a vista ficando turva, tudo saindo do foco, espaço e tempo pararam de importar, por um instante o caos completo invadiu sua mente, milhares de vozes ao mesmo tempo, nenhuma decifrável, imagens diversas, nada compreensível, tudo em um segundo.
Ela ouviu o próprio grito cortar o ar, parecia que sua mente estava prestes a explodir, começou a tremer, sentiu o corpo convulsionar, tudo se misturando, rodando e rodando, imagens e vozes desconexas, vertigem, as veias queimando e então algo lhe puxou, quase como se fosse um imã, era como se sua mente estivesse fora do corpo, em um avião sobrevoando o mar. Havia algo de familiar ali...
Bucky?
Makayla teve uma certeza estranha de que Barnes estava no dito avião, essa sensação não fez sentido real, era apenas um fragmento solto de informação; um Bucky muito nervoso sobre algo, a mão de vibranium presa no pescoço de alguém, “se tocar nisso outra vez eu te mato”, e o nome dela em letras vermelhas em uma lista...
O que aquilo significava?
Antes que pudesse decifrar aquele enigma, tudo sumiu, havia apenas o vazio e o silêncio, como uma ligação que fica muda do nada.
As vozes e imagens desapareceram, havia certo desconforto em suas veias e em sua cabeça ainda, mas todo o resto simplesmente sumiu.
— Kayla? — Nagel lhe chamou e só então Makayla percebeu que havia fechados os olhos.
— Pensei que ela tinha morrido... — Uma voz um tanto débil foi ouvida, e a jovem moveu os olhos naquela direção. O homem que outrora estava dormindo no sofá, havia acordado e estava de pé observando tudo com olhos muito assustados. — Uma overdose e tanto isso aí...
Quanto tempo havia se passado?
Makayla piscou algumas vezes e focou no cientista.
— Como se sente? — Ele perguntou, e alguém desavisado pensaria ser preocupação, mas era apenas curiosidade profissional.
— Como se tivessem colocado meu cérebro no micro-ondas. — A jovem respondeu, se sentando um pouco melhor na cadeira. — O que aconteceu.
— Você sofreu uma convulsão e apagou por mais de meia hora. — Nagel respondeu de forma prática, como se fosse nada demais.
Makayla franziu as sobrancelhas, para ela tinha parecido apenas dois ou três segundos...
Tentou processar a coisa toda, mas provavelmente fora apenas um pesadelo maluco, nada mais.
— Funcionou? — Preferiu focar no que realmente importava.
Wilfred Nagel olhou para o homem de pé no meio da sala e fez um gesto para que se aproximasse, Makayla entendeu que precisavam testar. Tirou a luva e estendeu sua mão para tocar o cara rapidamente... Nada acontecendo.
Tentou de novo, agarrando o braço dele dessa vez.
— Nada. Eu não vejo nada. — Ela não sabia se comemorava ou se ficava surpresa.
O cientista por sua vez era a pura imagem do orgulho e da presunção.
— Vocês são totalmente pirados. — O homem chapado comentou, enquanto pegava o dinheiro com olhos assustados. — Quero saber dessas paradas aí não, 'tô fora!
Tão logo foi pago ele correu porta a fora, como se fugisse de algo perigoso.
Makayla teve um vislumbre da loucura totalmente absurda a qual tinha acabado de se submeter, mas mesmo naquele instante ela não conseguiu se arrepender disso.
— Vai me dar a outra dose agora? — Questionou, querendo que a coisa toda acabasse de uma vez. Nunca mais chegaria perto de uma agulha depois disso. — Disse que precisam ser duas pra acabar com o tal gene.
— Não ainda, são vinte e quatro horas entre uma dose e outra, antes disso não vai adiantar. — Nagel respondeu de forma prática. — Por que não aproveita que a primeira dose deu certo e vai se divertir um pouco? Aposto que sente falta de contato humano.
A primeira reação de Makayla foi pensar em dizer que aquilo era uma grande besteira, por outro lado o cientista estava certo, há meses ela evitava qualquer contato humano, se divertir um pouco não parecia uma ideia tão absurda assim.
Seria ótimo poder estar entre as pessoas sem sentir medo de esbarrar em alguém por acidente...
— Obrigada, Doutor. — Ela disse, quando já estava perto da porta, tirando a outra luva que ainda cobria sua mão e a deixando ali mesmo.
Não precisaria mais daquele acessório.
— Não me agradeça, menina. Você ainda vai se arrepender de ter desistido disso... — Nagel sentenciou.
Makayla se limitou a revirar os olhos para o drama dele e deixou o lugar. Seu primeiro instinto, assim que colocou os pés para fora do laboratório, foi pegar o celular, porém, logo que acendeu a tela ela desistiu, não podia ficar monitorando Bucky para sempre, tinha que parar de se preocupar com ele.
Livrar-se daqueles poderes era como um novo começo. Uma chance de acertar e fazer as coisas direito. Barnes tinha uma vida e ela outra, talvez nunca se vissem novamente, Makayla tinha que começar a aceitar isso.
Então nada de entrar no twitter procurando por ele, pelo menos naquele dia.
Guardou o celular de volta no bolso e ganhou as ruas de Madripoor, naquele horário, com a luz do dia, era um pouco mais seguro andar ali, além disso Cidade Alta era um lugar relativamente mais calmo que Cidade Baixa. O prédio em que Sharon conseguira um apartamento para Makayla era há uma única quadra de distância dali, um lugar muito luxuoso com uma galeria restrita na cobertura duplex, onde diziam acontecer as melhores festas da ilha.
Talvez devesse perguntar para sua guia quando era a próxima.
E falando na loira... Makayla franziu as sobrancelhas quando viu a mulher em frente ao prédio, andando de um lado para o outro com o celular em mão, como se esperasse algo ou alguém. Ela parecia bem ansiosa com isso.
— Sharon, tudo bem? — A jovem questionou, parando ali na calçada.
A loira fez uma expressão surpresa quando viu Makayla, porém por um instante não pareceu tão genuína assim.
— Nossa, eu estava ficando preocupava, você sumiu. — Ela exclamou em um misto de amistosidade e preocupação.
Algo naquele tom soou estranho aos ouvidos de Makayla, porém ela julgou que era apenas uma impressão. Bucky confiava na Sharon, isso era prova o bastante da índole da mulher.
— Eu estava resolvendo umas coisas. — Gesticulou casual, sem querer entrar em detalhes.
Ali em Madripoor todo mundo presava pela descrição, então talvez não fosse de bom tom dizer que havia um cientista megalomaníaco com um laboratório bem ali na outra quadra.
— Longe de Cidade Baixa eu espero, lá é um lugar muito perigoso. — Sharon comentou e Makayla deu um quase sorriso por causa da preocupação.
Não existiam muitas pessoas que realmente se preocupavam com ela.
— Na verdade era aqui perto. — Respondeu amigável. — Mas logo eu não vou mais te preocupar, pretendo voltar pra casa amanhã.
— Isso é bom, Madripoor é legal pra se divertir às vezes, mas nada melhor que nosso lar. — Sharon deu um longo suspiro e encarou o nada. — Sinto falta de casa...
De novo Makayla teve uma sensação de que aquelas palavras não eram tão honestas, no entanto desconsiderou esse pressentimento totalmente.
— Voltaria se pudesse? — Perguntou, imaginando tudo que aquela mulher havia deixado para trás nos Estados Unidos.
— Com certeza. — Ela assentiu com outro longo suspiro.
Makayla teve vontade de ajudar, de falar com a mãe, mesmo que não estivessem em bons termos, talvez pudesse fazer isso quando voltasse pra casa, sem os poderes pra esconder seria mais fácil encontrar um ponto de equilíbrio com Emma Kennedy.
A jovem não sabia como olharia para a mãe depois de tudo que havia descoberto dela, mas tinha que tentar, era a única família que havia lhe restado.
Todavia, por enquanto, era melhor não fazer nenhuma promessa a Sharon, era tudo um tanto incerto naquele momento...
— Mas pelo menos você vai ficar por mais uma noite, organizei uma festa na cobertura hoje, é coisa com alguns compradores de arte, nada demais, mas é o tipo de evento que o pessoal da sua idade adora, aparece por lá. — A loira comentou casualmente.
Makayla se deu conta que não fazia ideia que era Sharon quem dava as festas na cobertura. Ela devia ser mais importante do que imaginou. Ou o lugar simplesmente podia ser locado por quem pudesse pagar...
— Claro, eu preciso mesmo comemorar e me distrair um pouco. — Assentiu, tentando recuperar um pouco da animação que toda menina de vinte anos devia possuir.
— Bom, vamos torcer pra eu ter o que servir... — Sharon indicou o telefone em sua mão e não pareceu muito satisfeita.
Será que era por isso que estava ali fora tão impaciente?
— Aconteceu alguma coisa? — Makayla perguntou. Talvez pudesse ajudar de alguma forma.
— Eu estou esperando virem me entregar as bebidas enquanto termino os últimos preparativos da festa, mas ficou tudo preso no porto, uma das garotas pegaria pra mim, mas ela não vai conseguir chegar a tempo... — Sharon encarou a mais jovem por alguns instantes e pareceu ter uma ideia. — Você não...? — Moveu a mão de forma displicente, como se descartasse o pensamento. — Não, deixa, não quero abusar de você.
Makayla conseguiu entender que era sobre as bebidas.
— Imagina, você me ajudou tanto, é claro que posso ir buscar pra você. — Se prontificou, era o mínimo afinal.
— Sério? — Sharon sorriu, porém novamente Makayla teve aquela sensação estranha que precisou ser desconsiderada. — Nossa, salvaria minha vida! Aqui a chave do carro, e o endereço já está no GPS, é na parte segura do porto, então não tem perigo. Obrigada de verdade.
Depois de receber as instruções básicas e algumas recomendações, Makayla entrou no veículo. Cruzou a Cidade Alta em alguns instantes e logo estava no local indicado. Era bom fazer algo útil pra varear um pouco.
A jovem sentiu, pela primeira vez em meses, que talvez as coisas realmente pudessem dar certo. Parecia besteira pensar assim por causa de um simples favor, porém o soro inibidor havia funcionado e ela estava fazendo algo útil pra alguém, talvez pudesse até conquistar uma amiga.
Era bom estabelecer uma relação nova que não estava baseada em mentiras ou em coincidências estranhas.
Bucky lhe veio à mente no mesmo instante, Makayla tentou abster, mas a verdade é que sentia falta dele. Talvez bem mais do que seria aceitável para o pouco tempo que se conheciam...
Ainda com esse pensamento em mente, ela desceu do carro no local indicado. Se desse uma conferida rápida no twitter não seria tão ruim assim, certo? Só queria saber se Bucky estava bem.
Tinha acabado de tirar o celular do bolso, quando notou dois homens se aproximarem dela, seus instintos ficaram alertas, as convicções de um Soldado Centenário, ainda presas na cabeça de Makayla, acusaram que talvez ela tenha sido otimista cedo demais.
Tentou mudar a rota, mas outros dois homens entraram no caminho. Makayla se preparou pra correr quando notou que estavam armados, porém, mais rápido do que ela podia prever, algo lhe atingiu na cabeça e tudo rodou.
Suas pernas cederam, sua visão ficou totalmente turva, tudo começou a escurecer.
— Vamos levar para Cidade Baixa. — Um dos homens falou.
— Mas a mensagem do Mercador dizia que... — Outro começou, mas foi interrompido pelo segundo
— Eu sei o que dizia a mensagem, porém a disse recebi instruções de outro contato, um que vai nos pagar mais pela garota...
Makayla não foi capaz de ouvir nenhuma outra palavra, a inconsciência lhe engoliu.
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Seu próprio reflexo o fazia se sentir estranho, o couro preto em seu corpo e os pequenos detalhes naquela vestimenta lhe traziam memórias ruins. Bucky respirou fundo e puxou o zíper da jaqueta, ainda achava tudo aquilo uma péssima ideia, mas Zemo havia garantido que era a única forma de conseguir o que precisavam.
Soltar o criminoso tinha sido fácil, convencer Sam que era a coisa certa, nem tanto, Barnes precisava admitir que estava surpreso, não imaginou que Wilson aceitaria, quando pediu que quebrasse a lei por ele uma vez mais...
Sam havia confiado.
E agora, Bucky temia mais do que tudo não ser digno daquela confiança, e se estragasse tudo? E se alguém se ferisse por causa daquele plano idiota?
Zemo dissera que o único lugar em que conseguiram a informação que precisavam era Madripoor, uma ilha fundada por piratas que posteriormente se tornou o refugio de muitos criminosos. Um lugar onde as leis comuns não valiam de nada.
Estava prestes a entrar em um dos lugares mais perigosos do mundo, e o único plano que tinham era o de um criminoso internacional pouco confiável, mas Barnes não temia por si próprio, e sim por Sam, que estaria usando como disfarce a identidade de um gangster.
A cada segundo Bucky ficava mais preocupado.
— Vamos lá, cara! — Wilson bateu na porta do banheiro. — Você não precisa se embelezar tanto não, vamos encontrar criminosos e não sua alma gêmea.
Bucky revirou os olhos, resmungando qualquer coisa inteligível. Por que estava preocupado com aquele insuportável mesmo?
Fechou os coturnos e se olhou no espelho novamente... Era um fantasma de seu próprio passado. O Soldado Invernal. Era sob essa identidade que entraria em Madripoor. Barnes odiava isso...
Controlou a respiração, puxando e soltando o ar. Pegou seu caderninho, que repousava ali ao lado, junto com as roupas que havia tirado, e o colocou dentro da jaqueta. Desde que Zemo havia conseguido colocar as mãos curiosas naquele objeto, Bucky estava mantendo o caderno bem perto do corpo.
Ele praticamente podia sentir seu punho de vibranium ao redor do pescoço de Zemo. Não pensou, apenas reagiu, quando o nome de Makayla saiu da boca daquele homem algo dentro de Barnes simplesmente explodiu em fúria. Mas durou apenas um segundo, ele recuperou o caderno e voltou a se sentar, perdendo o fluxo da conversa por um segundo porque uma pontada estranha cortou sua mente... Não durou mais que isso no entanto, logo depois a dor peculiar havia desaparecido e Bucky deixou de lado, talvez fosse apenas a pressão do ar por causa da altitude...
Com o caderno bem guardado dentro de suas roupas, ele finalmente deixou o banheiro. Zemo estava vestido como sempre, um sobretudo pomposo por cima de suas roupas costumeiras, Sam no entanto parecia pronto para algum desfile de moda, usando um terno com tantos detalhes que Bucky sequer conseguia processar.
Os contatos de Zemo, — que coincidentemente era um Barão cheio da grana com um jato particular bastante oportuno, — encontrariam os rapazes na ponte de entrada para Madripoor. Os três repassaram o plano antes de saírem do hotel de beira de estrada, em que estavam hospedados para os preparativos finais.
Não importava o que acontecesse, eles não poderiam sair de seus papéis.
Zemo seria apenas ele mesmo, um Barão com muitos recursos que tinha reativado o Soldado Invernal e estava na cidade na companhia de seu colega, Tigre Sorridente. Se tudo desse certo eles conseguiriam informações sobre o soro. Se tudo desse errado...
Bucky e Sam trocaram um olhar significativo, sabiam que estavam prestes de mergulhar às cegas no plano de alguém nada confiável. Se tudo desse errado, e Zemo os enganasse, eles estariam muito encrencados.
Mas Barnes não queria pensar nisso.
Antes de saírem do hotel, ele olhou seu celular uma vez mais; nenhuma notícia de Makayla. Talvez tivesse que aceitar que nunca mais veria a garota outra vez, ela seria apenas mais um nome em sua lista de reparações e mais uma lembrança em sua mente...
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Sharon Carter estava irritada. Seu dia tinha começado muito bem, até que de repente tudo que podia dar errado simplesmente aconteceu...
Wilfred Nagel havia terminado o inibidor de poderes e fora um grande sucesso, apesar dos protestos do cientista — que queria mais tempo com sua cobaia e principalmente com as habilidades dela, e julgava cedo demais para aplicar o inibidor, por não saber as consequências a longo prazo, — o Mercador havia ordenado que a primeira dose fosse ministrada imediatamente.
Talvez até fosse producente estudar Kayla Braddock — ou Makayla Devinne — por mais algum tempo, e fazer todos os testes com o inibidor antes de usá-lo de fato, porém a garota era esperta demais, podia desconfiar, e o pior, podia ler a mente das pessoas e descobrir coisas que não devia. Sharon achou mais seguro acabar com aquela possibilidade eliminando as habilidades da jovem e seguindo para a próxima parte de seu plano. Conseguir um perdão.
Planejou um sequestro simples, ordenou que Nagel sugerisse uma comemoração e um dia de folga, então esperou a garota na frente do prédio, pediu um favor ligado ao objetivo de diversão dela e a mandou direto para uma armadilha. Devia ser fácil e rápido, alguns idiotas pagos para colocar Kayla em um galpão por uma ou duas horas, sem machucá-la, Sharon chegaria, salvaria a menina e assim acabaria ganhando seu perdão. Ser uma heroína costumava comover as pessoas, e Makayla Devinne era uma boa garota, ela só precisava de um empurrãozinho.
Estava tudo calculado para que a jovem não se ferisse, Carter só queria um evento que as conectasse e deixasse Kayla em dívida, em outros tempos teria simplesmente pedido ajuda, porém havia mudado, não acreditava mais em caridade...
Enquanto isso Sharon ordenou ao doutor Nagel que segurasse a segunda dose, aquela que acabaria com os poderes de Kayla de uma vez por todas, era um tipo de seguro, se tudo corresse bem, Carter ganhasse o perdão e as experiencias futuras do cientista fossem bem sucedidas, então a segunda dose seria dada para a jovem. Caso algo desse errado de qualquer forma o Mercador ainda teria uma moeda de troca. Era quase um seguro...
No entanto algum tipo de vazamento interno havia acontecido e alguém de Cidade Baixa sabia da identidade de Makayla, as pessoas que o Mercador havia contratado para um serviço simples tinham conseguido uma oferta melhor pela menina e agora Sharon precisava fazer um resgate de verdade antes que Kayla se machucasse, ou pior, antes que o CRG ficasse sabendo de tudo aquilo.
Além disso teria que lidar com todos os malditos traidores, rápida e letalmente, para que isso não se tornasse um hábito das pessoas daquela ilha.
E, pra piorar, Madripoor receberia convidados indesejados. O Mercador soubera, graças a seus muitos contatos em ambas as zonas da ilha, que Zemo estava de chegada marcada, acompanhado de ninguém menos que Soldado Invernal e Tigre Sorridente. Sharon não via absolutamente nada de bom vindo dali.
Ou, o criminoso internacional estava fugindo e de alguma forma tinha conseguido reativar a programação do Soldado, ou aquilo era algum tipo de encenação. Carter apostava na segunda opção...
Ela estava acompanhando as notícias e sabia que Barnes e Wilson tinham se metido em uma luta com Karli, com certeza haviam descoberto sobre o soro e o lugar óbvio para conseguir informações era Madripoor.
Provavelmente estavam usando Zemo e sua rede de contatos e recursos. Sharon não ficaria nada espantada de Sam estar sob o disfarce de Tigre Sorridente...
Esperto, mas inoportuno para o Mercador do Poder, não só porque era exatamente aquele maldito Barão Sokoviano quem tinha começado toda a desgraça na vida de Sharon, mas também porque havia alguém de Cidade Baixa sabendo demais, ela teria que agir para controlar os danos antes que sua identidade fosse exposta...
Não era o momento de se prender a desejos tolos de vingança, embora fosse tentador.
Ordenou que Nigel fosse transferido, não era seguro que permanecesse em um laboratório de tão fácil acesso, infelizmente, com tudo acontecendo ao mesmo tempo, com certeza parte da pesquisa do inibidor ficaria para trás, mas isso era apenas um detalhe. Mesmo que Wilson e Barnes encontrassem aquele lugar, eles não eram vândalos, não destruiriam o laboratório. Ainda mais um que estava localizado no meio de uma cidade.
Lidaria com cada problema conforme fosse surgindo, melhor assim.
Sharon checou a munição em sua arma e puxou o capuz sobre seus cabelos loiros, seu plano era simples: ficar de olho no triozinho curioso, recuperar Makayla e lidar com a pessoa que se achava inteligente o bastante para passar o Mercador pra trás. Sempre havia uma bala pronta especialmente para esse tipo de espertinho. E, se Carter estava certa sobre suas suspeitas, todos os seus objetivos estariam no mesmo lugar em breve...
A noite seria longa.
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— ...mas ele disse que está aqui para te ver. — Uma voz masculina foi a primeira coisa que Makayla Devinne ouviu quando recobrou sua consciência.
A mente ainda estava nublada e havia uma dor horrível na cabeça. Tentou mover sua mão para tocar o lugar que latejava, mas notou que estava amarrada. Quando finalmente abriu os olhos tudo ainda parecia um tanto borrado.
— Agora estou ocupada com coisas mais importantes. — A voz feminina declarou, para alguém a sua esquerda, e Makayla teve que piscar algumas vezes para que tudo voltasse ao foco.
Logo as memórias clarearam e a jovem recordou que alguns homens haviam lhe golpeado na cabeça.
Ah, mas que maravilha, não é mesmo?
Makayla quase riu da ironia ridícula de sua própria vida, quando algo finalmente dava certo era bem evidente que tudo daria errado em seguida. Era amaldiçoada afinal.
Fez algum esforço e conseguiu se sentar, mesmo com as duas mãos presas em suas costas e os tornozelos amarrados juntos. Estava em uma sala que parecia o centro de operações de algum lugar escuso, a julgar pelo cheiro de nicotina e álcool, a decoração era estranha e de pouco bom gosto, a começar pelos sofás com estampa de couro de cobra.
Haviam alguns homens trabalhando ali, lidando com armas dinheiro e fichas de cassino, e bem na sua frente, sentada confortavelmente no sofá oposto, uma mulher de meia idade, magra com o rosto seco e os cabelos muito curtos de um tom loiro pálido.
Tentou decifrar a roupa que a mulher vestia, mas a cacofonia de tecidos e estampas era confusa demais.
Sua cabeça latejava ainda, como se estivesse de ressaca.
— Olá, querida... — A estranha disse em um tom um tanto pomposo. — Makayla, não é?
A jovem não respondeu, se haviam descoberto o nome verdadeiro dela, com certeza também sabiam do resto, e nada de bom viria dali.
— Eu sou a Shelby, rainha de Madripoor. —A mulher continuou, abrindo um sorriso. — Você está em meus domínios.
Makayla examinou o lugar uma vez mais e estreitou os olhos em desconfiança.
— Uma rainha não precisa afirmar que é uma. — Retrucou de forma quase irônica. — Eu não acho que você seja quem diz, mas você provavelmente quer muito.
Talvez fosse mais prudente pensar melhor nas próprias palavras e temer a situação como um todo, mas Makayla não era conhecida por sua cautela. Autopreservação não era um instinto latente nela.
— Uh... ousada. Eu gosto de você. — Shelby se curvou um pouco no sofá. — Você tem razão, no momento Madripoor tem um rei, um que eu quero destronar faz tempo, e pra isso venho colhendo informações. E qual não foi minha surpresa ao saber que uma pessoa da sua importância estava aqui há semanas e o Mercador ainda não tinha feito nada a respeito. Você é valiosa, mocinha.
Makayla soltou o ar dos pulmões de forma cansada e então revirou os olhos exageradamente.
— Você com certeza está me confundindo. — Disse apenas por dizer, não havia qualquer emoção em sua voz. Sequer estava se esforçando para que sua captora acreditasse nisso.
— Não, não, não. — Shelby moveu o dedo indicador. — Você é a filha da chefona do CRG. Isso quer dizer que você é a chave pra que eu consiga tudo que eu mais quero.
— Ah, entendi, isso é um sequestro então? — A voz da jovem saiu em um tom entediado.
O que mais faltava afinal?
— Precisamente. — A loira abriu um sorriso ameaçador, que não teve qualquer efeito em Makayla.
Ela sabia que devia estar com medo, que precisava planejar uma forma de fugir dali e que, provavelmente, devia ouvir os instintos militares intrusos que estavam gritando em sua mente. Bucky com certeza resolveria toda aquela situação em dois segundos.
Mas ele não estava ali e Makayla, honestamente, estava cansada de fugir da morte...
A conversa foi interrompida por um dos homens com um telefone na mão, ele se aproximou de Shelby e sussurrou algo inteligível no ouvido da mulher.
— Manda subir então. — Ela declarou irritada, voltando seu olhar para Makayla e despachando o homem, que repassava as ordens ao telefone.
A jovem por sua vez se ajeitou um pouco melhor no sofá, seus pulsos ardiam e estar amarrada tornava tudo um tanto desconfortável, mas ela realmente não se importava com nada disso.
Acabaria logo. Tudo aquilo. Incluindo sua vida...
— Então eu vou te dizer exatamente como vai ser... — Shelby abriu um sorriso que era um misto de amistosidade e ameaça. Makayla conteve outro revirar de olhos, a mulher era quase uma caricatura.... — Você vai me dar o número da sua mamãezinha, eu vou ligar e fazer várias exigências e, se você cooperar, vai chegar em casa sã e salva. — Ela deixou seu tom de voz mais tenso e cruel. — Mas se não cooperar eu vou matar você aqui mesmo.
Estendeu a mão e o homem mais próximo lhe entregou uma arma, que logo estava apontada para a cabeça da jovem, ilustrando a ameaça clara. Shelby era tão absolutamente previsível que Makayla bocejou.
Ela não sabia se estava tão entediada com a vida que simplesmente nada lhe impressionava ou afetava, ou se de fato a mulher era uma caricatura de qualquer vilão de produções com baixo orçamento. Não tinha medo dela, por que teria afinal?
— Bom, já que você está sendo tão legal comigo, eu vou te dizer exatamente porque seu plano não vai funcionar. — Makayla começou com o tom absolutamente calmo, quase como se não estivesse ali amarrada e cercada por gente estranha e assassina. — Número um, Emma não é exatamente minha mãe, o que diminuí e muito minha importância na sua jogada. Número dois, não estamos em bons termos agora, ela meio que me culpa pela desgraça na vida dela e me acha louca, então... menos valor ainda. Número três, esse é importante, Emma Kennedy é uma politica norte-americana, e acredite em mim, aquilo que dizem sobre o Estados Unidos não negociar com terroristas é absolutamente verdade. Ela não vai te dar nada.
Fez questão de enfatizar a última frase, vendo os olhos de Shelby se tornarem puro ódio, enquanto atrás de si alguns sons indicavam que alguém se aproximava, Makayla não se importou com isso também, apenas continuou.
— E, o principal de todos, o número quatro, todo seu plano se baseia no meu medo de morrer... E esse é um sentimento inexistente. Então vá em frente, atira em mim, você vai estar me fazendo um favor.
A mulher loira comprimiu os lábios em uma linha fina que expressava sua raiva, sua arma continuou erguida, mas ao invés de puxar a trava e o gatilho, os olhos dela seguiram para um ponto atrás da jovem.
— Estou interrompendo, Shelby? — A voz masculina, com um sotaque puxado, fez com que a mente de Makayla entrasse em curto por um milésimo de segundo.
A primeira coisa que cortou seu pensamento foi a certeza de que conhecia aquele sotaque. Depois que Kaleb e seus amigos haviam morrido, e assim que ela teve alta, a jovem passou muito tempo em Sokovia, sendo voluntária para lidar com toda a destruição do lugar, depois que ele caiu do céu.
Porém, um reconhecimento ainda mais forte coutou a mente dela, um que vinha das certezas intrusas de outra pessoa, Makayla conhecia o sotaque, mas algo em sua cabeça conhecia a própria voz.
Zemo?
Ela virou o rosto naquela direção imediatamente, todas as memórias intrusas disparando de uma vez só; as palavras gatilhos, o desespero e a raiva. O que aquele homem estava fazendo ali?
Makayla não teve tempo de formular uma teoria, porque assim que a figura elegante de Zemo entrou no recinto, acompanhado por homens armados, duas outras pessoas também entraram.
Bucky Barnes e Sam Wilson.
O coração de Makayla deu um salto dento do peito, a adrenalina começou a correr por suas veias de forma desordenada e um milhão de pequenas possibilidades invadiu sua mente ao mesmo tempo.
— Há quanto tempo, não é mesmo, Barão? — Shelby disse, mas Makayla desconsiderou totalmente aquela conversa.
Seus olhos estavam em Bucky, entrando na sala com a expressão fechada e fria, vestindo roupas de couro pretas, não fosse por Sam Wilson logo atrás, e pela convicção epifânica que as palavras gatilhos tinham sido totalmente retiradas da mente de Barnes, Makayla teria pensado que Zemo conseguira ativar o Soldado Invernal novamente.
Algo tolo dentro da jovem quis fantasiar com a possibilidade de Bucky estar ali por ela, porém era uma hipótese completamente absurda, o mais lógico e provável era que os três homens estivessem trabalhando juntos por algum motivo muito mais sério.
Ou seja, Barnes estava fingindo ser o Soldado Invernal outra vez...
Foi nesse exato instante que os olhos gélidos encontraram Makayla, o coração dela saiu totalmente do prumo, as sobrancelhas de Barnes se franziram, a confusão e o choque ficaram presos nas íris azuis. A jovem temeu que sua presença ali estragasse tudo.
Se Bucky se ferisse por sua causa ela jamais se perdoaria.
Ela desviou o olhar rapidamente, torcendo para que isso o fizesse voltar para seu foco.
— Vejo que trouxe companhia... — Shelby analisou o Soldado de cima a baixo, e Makayla ergueu o olhar, por sorte Bucky havia voltado para sua postura.
A mulher loira se ajeitou melhor no sofá, ainda encarando o Soldado Invernal como se ele fosse um simples pedaço de carne. Makayla decidiu que não gostava dela.
— Leve a garota lá para os fundos. — Shelby acenou para um de seus homens e seus olhos mudaram de foco, pousando na jovem. — Vamos terminar nossa conversa depois. Tenho certeza que vai mudar de ideia até lá.
Um dos capangas soltou os tornozelos de Makayla, a puxando pelo braço bruscamente para que se levantasse do sofá. Ela viu que Bucky se moveu no mesmo instante e seu coração bateu apavorado. Lhe deu um olhar duro, porém discreto, para que ele não se movesse. Esperando que Shelby não reparasse em nada.
No entanto a mulher loira já havia começado uma conversa com Zemo, algo sobre ser muita ousadia entrar no bar dela fazendo exigências, mas Makayla não se importou em prestar atenção, porque seu único foco era Bucky e o olhar gélido que a acompanhou, até que o capanga a empurrasse por uma porta lateral.
Qualquer som que vinha da outra sala deixou de ser compreensível, principalmente porque haviam muitos outros homens naquele ambiente e eles não paravam de falar. Makayla foi empurrada para que se sentasse em um dos bancos do lugar, e o capanga que a arrastara até ali se afastou para se servir de uma bebida, disponível em um pequeno balcão do lado esquerdo.
Aquele ambiente não era tão diferente dos outros, mas ao invés de armas e dinheiro, as pessoas ali trabalhavam embalando drogas nas mesas espalhadas por toda a parte. Makayla tentou escutar qualquer coisa que acontecia na outra sala, porém era impossível.
— Ouvi que ele deu uma surra em todo mundo lá embaixo. — A conversa de uma dupla de homens atraiu sua atenção.
— Esse Soldado Invernal é forte, mas é um cara só e não é imortal, eu daria um tiro na testa. Tiro na testa sempre resolve. — Outro homem comentou, rindo como se aquilo fosse uma piada.
— Se nada der certo é só arrancar a cabeça. — Um terceiro emendou e todos eles riram.
Makayla se sentiu enjoada, sua pulsação descontrolada e a respiração falha, as mãos tremiam e ela suava frio. Há menos de cinco minutos estava flertando com a morte na sala ao lado, entediada e vazia por dentro, mas naquele momento o medo havia se espalhado por suas veias como sangue na água.
E, ainda assim, tudo aquilo não era por si mesma, era por Bucky. Ele tinha um poder estranho sobre ela, e era quase ridículo, porque, dentre todas as pessoas envolvidas naquela situação, Barnes era, com certeza, o que mais tinha capacidade de se defender sozinho...
Ela respirou fundo então, tentando convencer a si mesma que ele seguiria o plano que o trouxera até ali e depois iria embora, sem maiores problemas.
Observou os homens na sala, todos visivelmente armados, começou a torcer para que os ambientes continuassem separados, Bucky não precisava se envolver em uma luta com aqueles idiotas.
Suas mãos se retorciam de nervoso, o material que prendia seus pulsos cortando-lhe a pele segundo a segundo, mas Makayla não estava preocupada com isso, ela só continuava a repetir mentalmente que Bucky não tinha qualquer motivo para entrar naquele ambiente.
Talvez fosse contraditório pensar assim, já que ela estava ali e isso por si só era motivo o bastante, porém a jovem preferiu se convencer que Barnes estava bravo e que, por isso, não moveria um músculo para ajudá-la em nada.
Todavia, viver em negação não mudava os fatos, afinal Makayla conhecia aquele homem bem demais, e a verdade era simples: Bucky sempre foi um herói, um pensamento mesquinha e egoísta como “estar bravo”, nunca o impediria de fazer o certo.
Por favor seja egoísta, por favor, seja egoísta, só hoje, seja egoísta. Era tudo que ela conseguia repetir mentalmente como um mantra.
De repente, exatamente como uma epifania, Makayla soube o exato motivo de Bucky, Sam e Zemo estarem ali, era sobre os Apátridas e o soro...
Sentiu a boca amargar, a verdade clara bem diante de seus olhos, fazendo com que ela se sentisse burra, ingênua e suja. Se o soro vinha de Madripoor, Makayla conhecia alguém na cidade totalmente capaz de projetar aquilo.
Wilfred Nagel.
Sabia que o homem era megalomaníaco e tinha complexo de Deus, mas nunca o viu como uma ameaça. Pelo visto estava muito enganada...
— Quer uma bebida, docinho? — Um dos homens entrou em seu campo de visão, com um copo do que parecia whisky na mão, seu olhar dizia muito mais que suas palavras.
— Prefiro me afogar no meu próprio vomito. — Makayla retrucou seca.
— Olha só, ela é respondona... — O idiota riu. — Devia pensar nessas suas palavras ácidas, docinho. Você está amarrada, lembra? Eu posso decidir te ensinar bons modos.
— Deixa a garota, cara. Shelby disse que ainda não terminou com ela. — O mesmo capanga que arrastara Makayla até ali interrompeu, mas o primeiro homem não pareceu nada satisfeito, ainda assim se afastou alguns passos.
A jovem começou a ponderar que a morte era mesmo a melhor coisa que poderia acontecer com ela naquele lugar. Todo o resto era mil vezes pior que isso.
Foi nesse instante que o som de um tiro cortou o ar. Todos os homens pararam o que faziam, um deles acenou e dois foram na direção da sala principal. Makayla parou de respirar, os sons deixavam bem claro que uma briga estava acontecendo.
Bucky podia vencer todos aqueles idiotas em uma briga, com certeza podia. Mesmo essa afirmação de Makayla não fez com que ela se acalmasse. Outros dois homens saíram em direção a sala principal, mas voltaram no mesmo instante, a expressão no rosto deles fez com que todo o ar sumisse repentinamente.
— Ela está morta... — Declararam em uníssono, fechando a porta. — Shelby está morta.
Essa afirmação tensa fez com que todas as pessoas do ambiente ficassem imóveis. Todos eles trocaram um olhar que, em Makayla, causou um mal estar imediato.
— Temos que acionar o seguro-vingança. — O mesmo capanga de antes declarou. — Quem foi?
— Ela estava em uma sala com aqueles três, com certeza foi um deles. Provavelmente o Soldado Invernal. Ele é sempre o assassino. — A resposta fez com que Makayla começasse a tremer de nervoso.
Aquilo tudo estava virando um pesadelo rápido demais. Lá fora alguns tiros provavam que Bucky, Sam e Zemo ainda lutavam com alguns homens de Shelby, enquanto isso, ali dentro o capanga digitava algo no celular.
O barulho da briga, o medo, o nervosismo e a adrenalina disparavam mensagens confusas para o cérebro de Makayla, não eram apenas os próprios pensamentos caóticos e o peso da preocupação, havia também o treinamento do Soldado Invernal em suas memórias, que a fazia saber exatamente como matar todos os homens da sala, porém, tal treinamento era designado para um super soldado e não para uma garota que mal sabia dar um chute, então de nada lhe seria útil. Ao mesmo tempo os instintos de sobrevivência de Bucky já haviam feito com que ela calculasse todas as rotas seguras de fuga. Mas ela queria fugir?
Makayla fechou os olhos por um instante, respirando fundo, tentando calar o caos em sua mente e ouvir a voz da razão, no entanto essa pequena tentativa de autocontrole se esvaiu dela quando foi bruscamente puxada pelo braço.
— Shelby está morta, docinho, isso significa que você é minha agora. — O mesmo cara de antes abriu um sorriso perverso e soltou as mãos dela.
Alguns dos homens da sala se moveram.
— Vamos dividir, o resgate vai render uma fortuna. — Um deles disse e os outros concordaram.
— Não tenho intenção de pedir resgate. — O primeiro puxou Makayla para mais perto de seu corpo.
Ela tentou se esquivar dele, flertar com a morte era uma coisa, ser o brinquedinho de um idiota nojento nem pensar...
No entanto o homem tinha ao menos o dobro de seu tamanho e não gostou nadinha quando Makayla tentou escapar, a puxou mais firme e ainda mais brusco. Ela tentou atingir um chute entre as pernas dele, o que não deu certo de nenhuma forma.
— Você é muito mal educada, sabia? — Outro puxão, Makayla sentiu que o cara poderia deslocar seu braço facilmente com outro daqueles movimentos bruscos. — Mas tudo bem, gosto das minhas fêmeas ariscas para serem domadas.
Ele a arrastou mais alguns passos e Makayla tentou reagir, puxou seu punho de volta para se libertar, mordendo o braço do homem o mais forte que podia, o que talvez tenha sido um erro, porque ele reagiu violentamente, agarrando o cabelo dela e empurrando sua cabeça contra o balcão de bebidas ali ao lado em um movimento abrupto.
Tudo rodou, os sons saíram de foco e a visão de Makayla ficou turva, ela sentiu algo quente escorrendo de sua testa, enquanto seu cabelo era puxado uma vez mais. Talvez um grito tenha escapado de sua garganta, ela não tinha certeza dada a situação. O desespero começou a correr em suas veias, mil pensamentos em um segundo, de novo sua cabeça foi empurrada contra o balcão, mas o impacto nunca chegou a acontecer, porque em um segundo o corpo do homem estava ali e no outro ele era arremessado para o extremo oposto da sala por um braço de vibranium...
O corpo de Makayla cedeu em direção ao chão, como se suas pernas não conseguissem mais segurar seu peso, os tiros começaram a vir de toda a parte, porém tudo que ela viu realmente foi Bucky Barnes bem ali, derrubando cada inimigo como se eles fossem de papel.
Ela piscou devagar, paralisada, hipnotizada, maravilhada... talvez fosse a reação errada, principalmente ali, quando cada segundo parecia questão de vida ou morte e balas voavam por toda a parte, porém, naquele instante, tudo que a jovem conseguia pensar era no quão mística aquela cena parecia; quase como uma pintura sagrada estampada no teto de uma catedral...
Bucky Barnes era apenas um mortal, ela sabia disso, mas naquele momento ele estava ali, de pé como um deus grego, perfeito em meio a violência e a guerra. E para Makayla isso foi absolutamente simbólico, porque no decorrer da vida, todas as crenças lhe decepcionaram e ela se sentiu abandonada por toda e qualquer divindade, mas ali estava James Buchanan Barnes, — um simples homem que já tinha passado pelo inferno, — lutando por ela. A Salvando uma vez mais.
E foi naquele momento tão inapropriado, naquele lugar caótico e marcado pelo crime, que Makayla percebeu que faria qualquer coisa por aquele homem. Ela o veneraria como as beatas veneram os santos, o amaria como as crianças amam os anjos. Porque ele, e ninguém mais, era digno de sua fé...
No meio de todo aquele caos, alguém lhe puxou pelo braço, fazendo com que seu corpo deslizasse pelo chão para trás do balcão, Makayla se deparou com um rosto desconhecido e ao mesmo tempo absolutamente familiar.
Sam Wilson.
Ele lhe ofereceu um sorriso amigável que não durou mais de um segundo e então se posicionou melhor, analisando a luta com uma arma em punho. Os tiros continuavam voando por toda a parte, pedaços de vidro das garrafas de bebida e das prateleiras cobriam o chão.
Makayla olhou para a esquerda e viu Zemo também com uma arma, mas ele não chegou a dar nenhum tiro, porque o silêncio engoliu todo o ambiente e logo o corpo de Bucky entrou no campo de visão de todos eles.
Wilson e Barnes trocaram um olhar significativo, enquanto o primeiro se colocava de pé.
— Você está bem? — Perguntaram um ao outro ao mesmo tempo, e então assentiram.
— Eu também estou ótimo, agradeço por questionarem. — Zemo declarou, ajeitando sua postura e seu sobretudo, mas nenhum dos dois homens deu a ele mais que um olhar de desprezo.
Foi nesse instante que as íris gélidas pousaram em Makayla, ele a analisou de cima a baixo primeiro, quase como se checasse o estado dela, e então soltou todo o ar dos pulmões em alivio, mas logo sua expressão se fechou completamente.
— O que você está fazendo aqui? — Ele questionou, com a irritação escapando por entre as sílabas.
Makayla respirou fundo e se colocou de pé, movimentando os ombros de forma displicente.
— O que você está fazendo aqui? — Ela devolveu, não porque queria desafiá-lo ou nada assim, mas porque foram as únicas palavras coerentes que ela conseguiu pronunciar.
— Eu perguntei primeiro. — Barnes rebateu, sem paciência.
— E eu perguntei depois. — Makayla retrucou de forma simples.
— Mas sou eu quem tem a melhor pergunta. — Sam interrompeu os dois. — Quem é você?
A jovem abriu a boca para responder, porém eles foram interrompidos por um sotaque carregado.
— Poderíamos deixar o interrogatório para depois? — Zemo parecia impaciente. — Temos que sair daqui, logo Madripoor inteira vai estar nos caçando. Shelby tinha seguro-vingança.
Makayla não conhecia o bastante do submundo do crime para entender o que aquele termo significava, porém as lembranças intrusas do Soldado Invernal eram uma boa fonte de informações nesse caso, por isso ela sabia que um “seguro-vingança” era soma absurda de dinheiro que um criminoso deixava disponível para que, em caso de assassinato, sua morte fosse vingada e aquele que matasse seu assassino ficasse rico. Geralmente os grandes chefes do trafico faziam esses seguros para desencorajar tentativas de golpe que visassem tomar seu lugar.
— Mas não fomos nós que matamos ela. — Sam declarou, erguendo as mãos em rendição. — O tiro veio lá de fora.
— Bom, acho que isso não importa muito agora. — Bucky retrucou em seguida.
— James está certo, temos que ir. — Zemo foi o primeiro a se mover por entre os diversos corpos no chão. — Vou checar a entrada, tem uma saída nos fundos...
Makayla poderia ter imaginado que os homens estavam mortos, mas sabia que se encontravam apenas desacordados. Bucky não mataria ninguém, nunca mais.
Ele deu um passo para acompanhar Sam até a porta dos fundos, provavelmente teriam que averiguar o perímetro e descobrir a melhor saída, mas antes que Barnes realmente se afastasse de Makayla, Wilson ergueu uma das mãos para impedi-lo.
— Eu dou conta. — Avisou e então apontou de Bucky para a jovem. — Se apressa.
Logo ele não estava mais no ambiente e Makayla se sentiu estranhamente constrangida, era a primeira vez que ela e Barnes se encontravam desde aquela fatídica noite e ela não sabia o que esperar dele...
Porque naquele momento Bucky parecia um tanto bravo, e era impossível decifrar se o motivo eram as mentiras que Makayla havia contado ou se era apenas o fato de ela estar no lugar errado e na hora errada outra vez.
No entanto, apesar de conseguir sentir a tensão no ar, apesar de estar cercada de caos, destroços de briga e de homens desmaiados, a única coisa que Makayla sentia naquele momento era uma imensa vontade de cortar o espaço até Bucky e beijar a boca dele como se o mundo inteiro tivesse deixado de existir.
Era um desejo estranho e bastante inapropriado para o momento, ela sabia disso, principalmente porque o espaço entre eles era claramente imposto por Barnes, Makayla teve a prova disso quando deu um passo na direção dele e o viu se afastar o mesmo passo de imediato.
Ele ainda não queria ser tocado por ela. E a jovem não achou que contar o que tinha acontecido com suas habilidades mudaria isso.
Talvez devesse parar de romantizar os dois, estava claro que aquela conexão inexplicável não era mútua. Era apenas um efeito colateral.
Makayla sentiu a saudade dele doer em seus ossos de um jeito inexplicável, como podia sentir falta de alguém que estava bem ali? E, acima disso, como aquele sentimento havia crescido tanto em tão pouco tempo, a ponto de sufocar e oprimir seu peito? Mas ela apenas cruzou os braços, engolindo tudo aquilo para deixar que Bucky falasse primeiro...
— Você está me seguindo de novo? — Ele questionou enfim, franzindo as sobrancelhas daquela forma característica.
— “De novo” implica em eu já ter seguido você antes, e nunca fiz isso. — Makayla respondeu neutra, não podia culpar Bucky por não confiar em uma mentirosa. — Além disso, cheguei em Madripoor bem primeiro, então... Talvez seja você me seguindo.
Ele desviou os olhos dela, como se manter o contato visual fosse insuportável e soltou um riso seco.
— Eu só estava cuidando da minha vida, mas agora entendi porque você andava com aquele guarda-costas pra cima e pra baixo... — A voz de Barnes tinha indícios claros de reprovação. — Você precisa de proteção, porque obviamente adora se meter em problemas.
— Eu tinha tudo sob controle. — Makayla rebateu, como se fosse nada demais.
— Tinha? — Bucky estava visivelmente irritado quando parou os olhos nela outra vez. — Não era você quem tinha uma arma apontada pra cabeça quando cheguei aqui?
Por algum motivo Makayla começou a se irritar também, não com Barnes, mas com o desejo feroz que ainda queimava em suas veias e a fazia visualizar muitas formas melhores de acabar com aquela discussão besta. Ela sequer conseguia entender de onde estava vindo aquela tensão sexual.
— Como eu disse, eu tinha tudo sob controle, o que de pior ela podia fazer? Me matar? — Moveu os ombros em desdém
Foi a escolha errada de atitude e de palavras, ela soube disso pela forma como os olhos gélidos se tornaram preocupados e melancólicos. A linha da mandíbula de Bucky ficou mais evidente, o descontentamento estava lá em cada pequena microexpressão.
— Existem coisas bem piores que a morte para garotas como você em lugares como esse. E você não é estúpida, eu sei que sabe disso. — A raiva não estava mais na voz masculina, havia uma crítica implícita ali, porém o tom de Barnes era calmo e vinha carregado de algo não dito que fazia com que o ar ao redor se tornasse pesado.
Makayla abriu a boca para dizer alguma coisa, talvez devesse agradecer, parar de discutir por nada, apenas porque precisava colocar toda aquela tensão pra fora de algum jeito e suas palavras pareciam a única coisa que ainda mantinham uma conexão com Bucky. Ela não sabia o que estava fazendo, talvez também devesse dizer isso, e quem sabe pedir desculpas outra vez...
No entanto não teve qualquer oportunidade de colocar nada daquilo em palavras, porque Zemo entrou na sala todo intempestivo.
— Impossível usar a saída da frente. — Declarou, e então lançou um olhar desconfiado para os dois que ainda estavam parados ali no meio.
— Vamos de uma vez. — Bucky decidiu, fazendo um gesto para ser seguido e indo na frente.
— Senhorita... — Zemo indicou com a mão direita, cedendo passagem para que Makayla fosse na frente, enquanto ela se limitava a revirar os olhos e começava a andar também.
Sua cabeça latejava a cada passo e a jovem tinha certeza que havia um corte acima de sua sobrancelha. No entanto não reclamou uma só vez, ou discutiu sobre seguir Bucky, não era como se quisesse estar em qualquer outro lugar mesmo...
Logo encontraram Sam no fim de um corredor, ele estava em frente a uma porta de ferro trancada por ao menos seis cadeados internos. Alguém ali realmente presava por segurança.
— Acho que podemos acessar a garagem por aqui, mas está trancada. — Wilson declarou apontando o lugar.
— Por que não deixa o James lidar com isso, Sam? — Zemo declarou, apontando para Bucky como quem aponta para um serviçal.
Makayla estreitou os olhos nada satisfeita.
— Quem colocou o regicida no comando? — Alfinetou em um tom irônico, ganhando um olhar ofendido de Zemo e fazendo com que Sam soltasse uma risada honesta enquanto abria passagem para Bucky lidar com a porta.
— Desde quando estamos em uma fantasia medieval de George Martin para usarmos esses termos? — Zemo retrucou de forma educada, mas era visível que estava afetado.
— Na verdade acho que esse o termo encaixa perfeitamente com você. — Wilson opinou, voltando seus olhos para a garota que estava há alguns metros deles. — Eu sou o Sam, a propósito.
— Sou a Makayla. — Ela se apresentou, retribuindo aceno já que estavam um tanto longe. — Sou sua fã, falando nisso.
Wilson riu de primeira, talvez tenha achado que era brincadeira, levou alguns segundos para que ele se desse conta que era sério mesmo, então ficou absolutamente constrangido de repente, gesticulando sem um propósito como se fosse dizer algo, mas não encontrando as palavras.
Makayla acabou rindo daquela reação, a tensão de todo aquele caos dissipando de seu corpo como mágica.
— Ela é minha fã... — Sam se gabou por fim, batendo em Bucky com as costas da mão direita casualmente.
— Achei que a gente tinha que sair daqui e não ficar de papinho. — Barnes retrucou sério, puxando a porta com a mão de vibranium e a arrancando de uma vez só do batente com cadeado e tudo.
Makayla achou aquilo tão extremamente sexy que parou de respirar por um segundo, todo seu corpo reagindo de forma inapropriada. O que estava acontecendo com ela?
— Mas você 'tá bravo, cara? — Sam debochou, passando na frente e sendo seguido de perto por Zemo.
Os olhos gélidos de Bucky pararam em Makayla, esperando que ela passasse também, ele tinha o maxilar tão tensionado que foi possível ver a linha da mandíbula tremer. A jovem começou a caminhar naquela direção, as íris azuis lhe queimavam, fixas nela de um jeito magnético. Por um instante, enquanto passava pela porta recém arrombada, ela teve a nítida impressão que seria agarrada pelo pescoço e encurralada contra qualquer uma das paredes apenas para que Barnes enfiasse a língua dentro de sua boca violentamente, ou então a matasse.
O que em ambos os casos soava bastante tentador.
Mas com certeza estava apenas imaginando coisas... Por isso tentou não demostrar nenhuma das reações catastróficas que aqueles pensamentos estavam tendo em seu corpo. No entanto, sua mente não estava tão empenhada em colaborar, porque fez questão de mostrar todas as vezes que Bucky colocara as mãos em uma mulher de forma nada puritana. Makayla passou a desejar aquilo tão desesperadamente quanto alguém deseja água no meio do deserto.
Ainda estava com os olhos em Barnes quando passou, incapaz de desviar a atenção para qualquer outro lugar. Tentou dizer a si mesma que era o momento errado para pensar tanta merda, porém foi incapaz de controlar o fluxo dos próprios pensamentos. E a expressão no rosto dele não ajudava em nada, porque Bucky a olhava como um predador olha sua presa e Makayla já não tinha mais sanidade alguma para decifrar se aquilo era raiva ou tesão reprimido.
Esse homem vai me matar. De um jeito ou de outro ele vai me matar... foi a única coisa coerente que conseguiu pensar, enquanto continuava a caminhar e sentia que Barnes estava bem atrás.
Um grande galpão de carga se abriu diante deles, cheio de caixas de madeira prontas para transporte, logo ali na frente grandes portas de ferro fechavam o lugar. Devia ser ali que os produtos eram carregados para o tráfico.
— Então... você é a garota do celular que não responde as mensagens? — Sam perguntou, parando um segundo para esperar que Makayla e Bucky se juntassem a ele, enquanto Zemo analisava a saída.
— Que? — A jovem não viu sentido na pergunta.
— Cala a boca, Sam! — Barnes quase rosnou, passando pelos dois e indo em direção as portas.
Wilson riu de canto, erguendo as duas mãos em rendição como se fosse totalmente inocente e também se virando para a saída.
Que garota do celular? Makayla estreitou os olhos pouco a vontade com aquela informação. Procurou nas lembranças de Bucky por alguém que ela não tinha percebido antes, alguém atual, mas realmente não havia ninguém. Só então percebeu o que estava fazendo e se condenou mentalmente. Não tinha o direito de cuidar da vida dele daquela forma. Além disso Barnes precisava de amigos ou de seja lá o que a tal garota misteriosa fosse...
Tentou não se importar com isso, e logo notou que uma pequena discussão estava acontecendo em frente a saída; aparentemente o galpão tinha alarme e se arrombassem o lugar, como tinham feito com a porta anterior, o barulho traria todas as pessoas que queriam aquela recompensa direto para eles.
Enquanto os três homens tentavam entrar em um consenso para desativar o sistema de segurança, Makayla começou a andar no meio das caixas, abrindo algumas só por curiosidade; a maioria era apenas porcarias aleatórias, como ursos de pelúcia ou imagens de santo, e a jovem presumiu, graças a algumas séries policiais, que eram apenas fachada para transportar drogas.
Deu uma olhada nos três homens, ficando na ponta dos pés para vê-los por cima das caixas; Enquanto Zemo realmente trabalhava no sistema de segurança, Sam e Bucky discutiam como um casal de velhos rabugentos. Segundo Wilson, Barnes era muito velho pra entender aquele tipo de tecnologia, Makayla pensou em dizer que ele não tivera qualquer problema para burlar o sistema de segurança do apartamento dela, — nem para arrombar o cofre ou mexer nas gavetas, — mas achou que essa informação geraria muitas perguntas desnecessária e traria lembranças desagradáveis à tona, então apenas focou em abrir outra das caixas, pensando que encontraria mais do mesmo.
No entanto, o que achou ali foi uma grande diversidade de facas de combate. Ela ficou entretida naquilo, ao notar que sua mente agora tinha uma vasta gama de informação sobre aquele assunto. Visualizou alguns movimentos do Soldado Invernal e tentou reproduzir, falhando miseravelmente e quase cortando a própria mão. Colocou aquele modelo de volta na caixa e pegou um outro; era bem menor, com o formado perfeito da pegada e uma argola na extremidade, que era para servir de apoio quando fosse rodado entre os dedos. Makayla soube que aquele modelo se chamava karambit, tirou a bainha de proteção e encarou a lâmina, era curva como a garra de um felino. A jovem não soube dizer se seu interesse pelas armas brancas era de fato seu, ou apenas um reflexo de ter uma vasta gama de lembranças daquelas peças nas mãos de Barnes.
Mas ele próprio não apreciava as facas tanto assim, depois de tudo que tinha acontecido, não gostava de nada letal em suas mãos. Bucky não queria ser um assassino.
Makayla ainda estava com a lâmina em mãos, quando algo passou na luz e ela ergueu a cabeça automaticamente, apenas para que seu coração parasse por um instante. Havia um homem ali. Ela o reconheceu como o idiota de momentos antes, que dissera que uma bala na testa do Soldado Invernal resolveria tudo...
Estava fora do campo de visão dele, por causa das caixas, embora estivessem muito perto um do outro, pensou em gritar para alertar os rapazes, que continuavam distraídos em sua discussão, porém ao acompanhar a direção da arma ela notou, graças aos conhecimentos de Barnes em sua mente, que o homem estava mirando exatamente na cabeça de Bucky.
Se ela gritasse ele atiraria por impulso. Se ficasse quieta ele atiraria por ter a mira perfeita.
A preocupação de Makayla desencadeou um único pensamento em sua mente, ela simplesmente soube o que tinha que fazer, claro como água. Nunca deixaria que nada acontecesse com Bucky...
Ela não ponderou as consequências de suas ações antes de agir, apenas se moveu três passos com os olhos focados em um único ponto e a lâmina erguida, não precisava de destreza ou grande habilidade para aquilo, apenas de oportunidade e isso Makayla tinha de sobra, já que não estava sendo vista.
A coisa toda levou menos de três segundo. A lâmina atingiu o ponto exato que a jovem tinha visualizado em sua mente, a faca penetrando a carne, de um jeito que fez com que Makayla sentisse cada camada. O homem se assustou e puxou o gatilho, mas já estava desestabilizado demais para acertar qualquer alvo.
E então a lâmina foi puxada de volta, enquanto aquele som ainda ecoava dentro dos tímpanos de Makayla, ela não esperava pelo que aconteceria a seguir, não imaginava que o sangue fosse jorrar daquela forma em uma quantidade tão absurda, atingindo seu rosto e suas roupas antes que o homem caísse no chão em um baque seco.
— Ele quase acertou sua cabeça, Buck... — Alguém disse, mas a voz parecia tão distante que Makayla praticamente não ouviu.
O homem engasgava no próprio sangue, a poça rubra se espalhando pelo chão lentamente até que tocasse os tênis da jovem.
— Temos que ir agora! — Outra voz masculina veio urgente.
O homem no chão encarou Makayla nos olhos, apavorado, rendido e então vazio, ela viu o exato momento em que a vida se esvaiu dele. E todo o resto simplesmente deixou de existir por um momento, havia apenas os olhos estatelados e sem vida, a poça em seus tênis e aquela coisa gosmenta cobrindo seu rosto.
Ela tinha acabado de matar uma pessoa.
— Makayla? — A voz de Bucky veio de muito longe, ela quis virar o rosto na direção dele, mas seu cérebro não correspondeu a seus desejos, seus olhos continuavam presos no cadáver ali no chão. — Makayla?
— Ela está em choque, Buck. — Um timbre calmo disse e logo Sam Wilson estava em seu campo de visão. — Hey... Makayla. Você quer me dar isso?
Ela piscou algumas vezes quando o cadáver saiu de foco. Sam, muito lentamente, se moveu até a jovem e tocou sua mão, só então Makayla notou que ainda segurava a faca ensanguentada. Sentiu o objeto ser tirado de si e não mostrou nenhuma insistência em permanecer com a lâmina.
— Isso, boa garota... — A voz de Sam era tão pacifica que por um instante pareceu uma cantiga de ninar. — Vai ficar tudo bem, certo?
Ele balançava a cabeça de forma positiva tão lenta e repetidamente que Makayla espelhou esse movimento.
— O que acha de tirar esse casaco sujo? — Ele estava muito mais perto agora, tão calmo e acolhedor que a jovem continuou a assentir apenas porque parecia certo.
Pensou que estava totalmente imóvel, mas ao puxar o zíper de seu casaco reparou no quanto suas mãos tremiam.
— Nós temos que...
— Agora não, Zemo! — Bucky cortou e seu tom de voz tão imperativo fez com que Makayla virasse o rosto naquela direção.
Logo seus olhos encontraram as íris gélidas, mas a jovem não foi capaz de decifrar a expressão no rosto dele. Dor, preocupação, culpa, medo, tudo ao mesmo tempo.
— Isso, muito bem... — A voz calma de Sam fez com que ela mudasse o foco de novo, seu casaco foi retirado de sua mão. — Vai ficar tudo bem.
Ela assentiu outra vez, apenas porque ele continuava a fazer isso, quase como se a impelisse a fazer também. Muito devagar, Sam usou a parte de dentro do casaco para limpar o rosto e as mãos de Makayla com o mesmo cuidado de um familiar zeloso.
— Agora a gente precisa sair daqui e vamos ter que correr, acha que consegue? — Ele perguntou, com as mãos apoiadas nos braços dela.
— Eu... eu.. matei ele... — Makayla balbuciou meio aérea, porque seu casaco ensanguentado estava bem ali ao alcance de sua vista.
— Você salvou a minha vida. — Bucky declarou e os olhares se cruzaram, a mente da jovem clareou finalmente, ela tivera a certeza que a bala atingiria a cabeça de Barnes, por isso havia agido.
Por ele.
— Estou pronta. — Disse finalmente, depois de respirar fundo.
— Eu vou na frente. — Bucky indicou a mão de vibranium, porque afinal era o melhor escudo que tinham no momento.
Enquanto isso Zemo abria as portas e todos eles encaravam as ruas de Madripoor.
— Obrigada, Sam. — Makayla fez questão de agradecer, antes que eles saíssem do galpão.
Não demorou muito para que tivessem que correr, porque todas as pessoas da cidade pareciam empenhadas em receber a maldita recompensa. As coisas ficaram caóticas quando os tiros começaram a cortar o ar, vindos de toda a parte, Zemo correu por um beco antes de ser atingido, enquanto Sam começava a gritar algo sobre estar de saltos, mas Makayla não tinha tempo de ouvir ninguém, ou de reparar que Bucky obviamente não estava usando nem metade de sua velocidade para acompanhá-los, porque, se ela parasse para pensar em qualquer coisa, a não ser na tarefa de respirar enquanto suas pernas se moviam, desconfiava que seus pulmões colapsariam.
Condenou todas as oportunidades que teve de melhorar o condicionamento físico e preferiu fazer qualquer outra coisa, como ficar na cama, por exemplo...
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Dobraram uma esquina, enquanto eram perseguidos por duas motos, Zemo despontou no final da rua com uma arma em punho, já apontada para um cara perto do grande contêiner de lixo, no entanto o disparo que derrubou o homem não veio dele e sim de um ponto acima, em uma janela de um dos prédios, logo em seguida os homens nas motos também foram certeiramente eliminados.
Makayla pôde parar finalmente, — embora ela tivesse certeza que precisava fazer isso, podendo ou não, — apoiou as mãos nos joelhos e tentou recobrar o controle sobre a própria respiração. Enquanto isso Zemo falava algo sobre anjos da guarda ou qualquer coisa assim.
Logo uma voz feminina cortou o ar, Makayla chegou a olhar por cima do ombro, mas no instante em que reconheceu Sharon ela relaxou, deixando que uma conversa paralela acontecesse, enquanto prometia a si mesma que nunca mais se envolveria naquele tipo de situação; não era uma heroína, uma criminosa internacional, uma agente treinada ou qualquer coisa assim.
Não tinha condicionamento físico pra isso não, pelo amor de deus...
Observou Sharon conversando com os rapazes, ela parecia um tanto irritada com o fato de ainda ser uma fugitiva. Sam tentou explicar o que aconteceu, Bucky pediu ajuda, mas a loira não parecia muito satisfeita de vê-los ali. Makayla preferiu não se meter, mas ficou feliz quando Carter acabou cedendo e dizendo que tinha um lugar em Cidade Alta onde eles ficariam seguros.
A jovem finalmente arrumou a postura, respirando fundo uma vez mais, antes de se aproximar dos outros que estavam prontos para seguir Sharon.
— Você sumiu, fiquei preocupada. — A loira comentou, avaliando Makayla dos pés a cabeça quando eles começaram a andar. — O que aconteceu com você?
— Eu fui sequestrada... e depois disso é uma longa história. Mas estou bem, obrigada por se preocupar. — Makayla ofereceu a ela um sorriso amigável, julgou que Sharon estar justo naquele lugar era um indicativo de que ela estava a sua procura. — Sinto muito pelas bebidas, mas não rolou.
— Tudo bem, eu já dei um jeito. — Carter moveu as mãos no ar de forma displicente.
— Vocês se conhecem? — Bucky questionou, olhando de uma para a outra com as sobrancelhas franzidas.
Sharon o analisou por alguns segundos e também alternou seu olhar entre Makayla e Barnes
— Vocês se conhecem? — Ela devolveu e por um instante pareceu preocupada.
— Todo mundo se conhece, aparentemente. Superem isso. — Sam interrompeu em um tom divertido.
Sharon ainda encarou Makayla por alguns momentos e então voltou a olhar para frente enquanto caminhava, logo alcançaram uma rua escura onde alguns carros estavam estacionados.
— Aqui. — Sharon abriu a porta de um veículo e apontou outro. — Peguem aquele.
— Vamos roubar carros agora? — Sam questionou, claramente incomodado.
— Melhor do que irmos a pé, ou os cinco amassados ali dentro. — Zemo declarou daquele jeito pomposo, Makayla se perguntou se o homem era algum tipo de nobre pela forma como agia. Shelby o havia chamado de Barão... Mas essa informação não estava nas lembranças de Bucky. — Você e James não são exatamente pequenos, se quer saber.
Makayla teve que reprimir uma risadinha maliciosa, porque o pensamento que cortou sua mente era nada puritano. Como Zemo sabia quão grandes Sam e Bucky eram? Felizmente ela não abriu a boca para colocar aquela piadinha em palavras e apenas se esforçou para se manter séria.
O caos acontecendo e ela pensando besteira. Tinha acabado de matar um homem, não devia estar rindo... Talvez isso provasse que a cabeça de Makayla estava bem mais ferrada do que ela havia imaginado.
Ou talvez, a verdade fosse bem menos complicada de entender. Quando colocadas na balança, a vida de um criminoso não tinha peso real perto da vida de Bucky. E, perto de todas as outras mortes das quais tinha lembranças, aquela era apenas mais uma... Fora impactante na hora, mas depois se perdeu em meio a tantas outras coisas bem mais violentas.
Ponderou por um instante se devia se preocupar com isso... Ela sabia muito bem que heróis não matavam pessoas, Bucky ou Sam não teriam matado aquele homem. Zemo, Sharon e o Soldado Invernal sim... Nesse caso, entre um criminoso internacional assassino de reis, uma ex-agente fugitiva, e a arma perfeita e controlada da Hydra, onde exatamente Makayla Devinne se encaixava?
Ela decidiu que não valia a pena pensar nisso. Fez o que tinha que fazer. Por Bucky. Não podia se arrepender disso...
— Vamos pegar emprestado e devolver depois, se isso te faz se sentir melhor. — Sharon falou diretamente com Sam, mas logo seus olhos focaram na jovem. — Vem, Kayla. — Ela apontou para o carro e depois focou nos rapazes outra vez. — Sigam a gente.
Makayla deu o primeiro passo naquela direção.
— Ela vem comigo. — Bucky retrucou, abrindo a porta do passageiro daquele outro carro e isso atraiu todos os olhares diretamente pra ele.
Não era um pedido, ele simplesmente informou aquilo, quase como uma ordem que Makayla sequer pensou em desobedecer.
Passou bem ao lado ele, os olhos gélidos presos no dela de um jeito quase possessivo que fez cada terminação nervosa do corpo feminino entrar em choque. A jovem sentou no banco do passageiro e Bucky fechou a porta, ela achou que fosse uma completa bobagem seu coração estar tão disparado daquele jeito, mas não conseguia evitar.
Do lado de fora, Zemo seguiu naquela direção também, mas Sam segurou-lhe pelo braço, fazendo um movimento negativo com a cabeça e o puxando para o carro de Sharon.
Makayla estaria sozinha com Bucky por todo o caminho até Cidade Alta...
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