Swan Lake
6 O Efeito Swan
Notas iniciais
Capítulo 6: O Efeito Swan
Se alguém me dissesse, há um mês, que eu trocaria o painel de métricas do meu apartamento em Jacksonville por uma planilha de faturamento bruto no coração do Texas, eu provavelmente riria até engasgar no meu iced latte. Mas ali estava eu. E, para ser bem sincera, o cheiro de café forte misturado ao couro e à madeira do escritório do meu pai parecia, de alguma forma, mais real do que qualquer coisa que deixei para trás.
Eram pouco mais de oito da manhã quando entrei no escritório do casarão principal. Charlie estava sentado atrás da enorme escrivaninha de carvalho, com os óculos na ponta do nariz e uma expressão que flutuava entre o choque absoluto e o orgulho puro. Ao lado dele, Jasper Hale mantinha os olhos fixos na tela de um notebook, os dedos batucando no tampo de madeira num ritmo frenético.
— Bom dia, cavalheiros — anunciei, ajeitando a gola da minha camisa de linho claro, que eu havia combinado com uma calça jeans escura de alfaiataria. Um visual que eu gostava de chamar de girl boss da fazenda. — Por que essas caras? Alguém morreu ou o preço do gado despencou?
— Muito pelo contrário, Bells — Charlie ergueu os olhos, tirando os óculos com a mão trêmula. — Eu acho que você quebrou o sistema da fazenda. Ou a internet. Ou os dois.
Jasper soltou uma risada seca, virando a tela do notebook na minha direção.
— "Quebrou" é um eufemismo, Swan. Olhe isso aqui.
Aproximei-me, apoiando as mãos na mesa para encarar os gráficos na tela. Jasper havia mapeado o canal de vendas diretas da vinícola e a plataforma de reservas do turismo rural da Swan Lake. A linha do gráfico, que costumava ser uma curva estável e modesta, simplesmente havia disparado em uma linha vertical quase perfeita.
— Os vídeos estéticos que você postou nos bastidores da colheita com o Jasper e aquela foto rústica com o Charlie... bem, eles foram parar no algoritmo global — Jasper explicou, apontando para a coluna de porcentagens. — Nas últimas 48 horas, o nosso volume de vendas diretas de vinho e as solicitações de reservas para a temporada de outono aumentaram em exatamente 72%. O servidor de e-mails da fazenda quase caiu de madrugada com tantas notificações de pagamento.
Pisquei, olhando para os números. Setenta e dois por cento. Em dois dias.
— Eu sabia que o engajamento tinha sido bizarro, mas... — Murmurei, sentindo um calor repentino e absurdamente gratificante subir pelo meu peito. Não era apenas sobre curtidas ou comentários inflacionando meu ego; eram caixas de vinho sendo despachadas, famílias agendando visitas, o legado do meu pai ganhando tração diante dos olhos do mundo.
— Filha... — Charlie se levantou, contornando a mesa e colocando uma de suas mãos calejadas no meu ombro. — O marketing tradicional que contratamos no ano passado não trouxe metade disso em seis meses. Você fez isso com o celular na mão enquanto brincava. Se você quiser assumir a comunicação e a inovação da Swan Lake oficialmente... a cadeira é sua.
Olhei para o meu pai, vendo o respeito e a admiração brilhando naqueles olhos castanhos, e um sorriso largo e genuíno se desenhou nos meus lábios.
— Considere o cargo aceito, chefe. Mas agora, se me dão licença, uma chefe precisa inspecionar o estoque antes que os novos clientes comecem a reclamar de atrasos.
Passei o restante da manhã e o início da tarde imersa na lida burocrática e logística. Juntei-me a Alice Cullen no galpão de distribuição, e a energia dela era o combustível que o lugar precisava. Alice estava em seu elemento, separando as caixas de vinhos premium com uma velocidade que beirava o sobrenatural, enquanto cantarolava e organizava as etiquetas de envio que eu ia emitindo.
— Eu sempre soube que você seria a nossa salvação, Bella! — Alice exclamou, jogando uma fita adesiva para o alto e pegando-a no ar. — O Jasper está quase tendo um síncope de felicidade com aqueles gráficos. E o melhor de tudo: com esse movimento, vamos ter que organizar um evento de lançamento para a nova safra. Já estou pensando na decoração rústica-chique!
— Calma, Alice, um passo de cada vez — rari, colando uma etiqueta em uma caixa de Cabernet.
Mais tarde, fui até os galpões de maquinário e escoamento, onde Seth Clearwater e alguns dos funcionários mais antigos organizavam os paletes para os caminhões de carga. Quando entrei, houve um silêncio inicial, aquele vislumbre de desconfiança que sempre tinham com a "garota da cidade grande". Mas eu não levei o celular para filmá-los. Sentei-me em um caixote de madeira, puxei um bloco de notas e comecei a fazer perguntas reais sobre o tempo de transporte, os gargalos da estrada e o armazenamento.
Em menos de uma hora, Seth já estava rindo, me explicando os detalhes técnicos com entusiasmo, e os outros funcionários trocavam olhares de aprovação. Eles perceberam que eu não queria apenas usar a fazenda como cenário para o meu feed; eu estava jogando no time deles.
No fim da tarde, o cansaço começou a pesar nos meus ombros, mas a sensação de dever cumprido era inebriante. Saí do galpão de distribuição segurando uma prancheta de alumínio contra o peito, os cabelos presos em um coque alto e alinhado, caminhando pelo pátio principal bem no momento em que o sol começava a se deitar sobre os piquetes, banhando tudo em um tom dourado cinematográfico.
Foi quando o destino — ou a minha completa falta de sorte — decidiu colocar o veterinário da fazenda exatamente na minha rota.
Edward Cullen vinha caminhando na direção oposta, vindo do setor de manejo do gado. Ele parecia o próprio anúncio vivo de um Texas bruto e implacável. Usava uma camisa jeans surrada com as mangas dobradas até os antebraços musculosos, que ostentavam alguns arranhões recentes. Seu chapéu de feltro jogava uma sombra misteriosa sobre seus olhos verdes, e ele vinha retirando as luvas de couro grossas, batendo-as contra a coxa para livrá-las da poeira. Ele estava suado, com vestígios de terra na bota e uma postura exausta, mas irritantemente imponente.
No segundo em que ele me viu com a prancheta na mão, aquele sorriso torto e convencido que me dava urticária começou a nascer no canto dos seus lábios.
— Olha só... se não é a nova CEO da Swan Lake — Edward ironizou, parando a poucos passos de mim e cruzando os braços. — O Emmett passou o dia inteiro berrando no estábulo que a patricinha salvou a nossa economia com dois vídeos na internet. Devo me curvar à sua presença, Vossa Alteza?
Apertei a prancheta contra o corpo, erguendo o queixo e sustentando o olhar dele com toda a pose de patroa que consegui reunir.
— Você pode começar me tratando com o respeito que uma mente brilhante merece, Cullen — rebati, o tom afiado e divertido. — Enquanto você passava o dia se sujando na terra, eu fiz as vendas da fazenda subirem 72%. Acho que a minha mente trabalha um pouco mais rápido do que os seus músculos.
Edward soltou uma risada nasalada, dando um passo curto na minha direção. O cheiro de sol, poeira e o perfume amadeirado dele flutuaram até mim, testando as minhas defesas.
— Fazer videozinho com filtro e música bonita é fácil, Isabella — ele ronronou, a voz grave descendo um tom, os olhos verdes brilhando com o desafio puro. — Quero ver essa sua mente brilhante aguentar meia hora carregando saco de ração de cinquenta quilos no sol do meio-dia ou ajudando a medicar um novilho arisco. O mundo real aqui fora não tem botão de delete.
— Eu aguentaria muito mais do que você imagina, veterinário — dei um passo à frente também, diminuindo a distância entre nós a ponto de conseguir ver os pequenos reflexos dourados na íris dele. — A diferença é que eu uso a cabeça para otimizar o trabalho, em vez de só usar a força bruta como um homem das cavernas.
— Ah, é? — Edward inclinou a cabeça levemente, o olhar descendo por uma fração de segundo para os meus lábios antes de voltar a focar nos meus olhos, criando uma eletricidade estática que fez os pelos dos meus braços se arrepiarem. — Pois eu acho que você não aguenta um dia de lida pesada de verdade comigo sem pedir para voltar para o seu ar-condicionado de Jacksonville.
— Está me desafiando, Cullen? — perguntei, sentindo meu coração martelar em um ritmo que não tinha nada a ver com a discussão sobre negócios. A lembrança da aliança dourada que puxei no bolo flutuou entre nós como um fantasma silencioso e incrivelmente quente.
Edward deu mais um sorriso torto, aquele terno e abusado que ele usava como arma, e deu um passo para o lado, passando por mim a passos lentos. Mas, antes de se afastar completamente, ele parou de costas, virando apenas o rosto por cima do ombro.
— Amanhã eu vou até o Rancho Leste checar algumas éguas ao amanhecer, Swan. Cinco da manhã na porteira principal. Vamos ver se a patroa tem coragem de tirar as botas de grife do armário ou se vai ficar dormindo até as dez.
Sem esperar pela minha resposta, ele voltou a caminhar em direção aos estábulos, girando o chapéu nos dedos com uma arrogância legítima do interior.
Olhei para as costas dele, respirando fundo, sentindo uma mistura ardente de irritação e uma expectativa boba que eu me recusava a admitir. Edward Cullen achava que me conhecia. Mas ele estava prestes a descobrir que uma Swan nunca recua diante de um desafio.
O despertador do meu celular tocou às 4h15 da manhã, emitindo um bipe estridente que pareceu ecoar pelo quarto escuro do casarão. Por um segundo inteiro, encarando o teto de madeira, me perguntei que tipo de loucura havia me acometido para aceitar um desafio de Edward Cullen àquela hora. Eu poderia estar dormindo até as nove, acordando com o cheiro do café da Sue e checando minhas métricas milionárias na cama.
Mas o sorriso petulante dele na tarde anterior piscou na minha mente, e o orgulho falou mais alto. Nem morta eu daria esse gostinho a ele.
Esqueça as roupas milimetricamente pensadas. Puxei uma calça jeans robusta, uma camisa de sarja verde-militar grossa e calcei minhas botas de couro — as mesmas que já estavam devidamente amaciadas pela lida dos últimos dias. Prendi o cabelo em uma trança firme embutida e, sem passar um pingo de maquiagem, desci as escadas na ponta dos pés.
Quando cheguei à porteira principal, o relógio marcava exatamente 4h55. O céu ainda era um manto azul-escuro salpicado de estrelas, e a névoa matinal rastejava fria pelos piquetes.
Edward já estava lá. Ele estava encostado na lateral de uma picape Ford antiga e imensa, de cabine dupla, com os braços cruzados e um copo térmico na mão. Quando me viu aproximar a passos firmes, ele descruzou os braços lentamente, e seus olhos verdes desceram pelas minhas botas sujas até o topo da minha trança. Houve uma fração de segundo em que o vislumbre de choque cruzou seu rosto, antes que ele o mascarasse com o habitual cinismo.
— Ora, ora... — ele murmurou, a voz ainda meio rouca pelo sono, o que causou um arrepio involuntário na minha espinha. — Eu estava pronto para apostar cem dólares com o Emmett que você mandaria uma mensagem dizendo que quebrou a unha.
— Guarde seus cem dólares para comprar um perfume melhor, Cullen — rebati, subindo direto no estribo da picape e abrindo a porta do carona sem esperar que ele fizesse as honras. — Nós temos éguas para checar ou você vai ficar aí admirando a paisagem?
Edward soltou uma risada baixa, balançando a cabeça enquanto contornava o veículo e assumia o volante.
O caminho até o Rancho Leste foi feito sob um silêncio carregado. O espaço confinado da cabine parecia pequeno demais para nós dois. Cada vez que ele trocava a marcha da picape, seus dedos roçavam de leve na minha coxa por conta do espaço reduzido, e a tensão elétrica era tão palpável que eu quase conseguia ouvir o estalo no ar. Eu olhava pela janela fingindo indiferença, mas pelo canto do olho, acompanhava o movimento firme das mãos dele no volante.
Assim que o sol começou a despontar no horizonte, transformando o céu num espetáculo de ouro e rosa, estacionamos perto dos currais do Rancho Leste.
— O trabalho é simples, patroa — Edward disse, descendo e pegando uma maleta de alumínio com medicamentos e um laço de corda na caçamba. — Três éguas precisam de vermífugo e checagem de casco. Duas delas são mansas. A terceira, uma tordilha chamada Tempestade, faz jus ao nome. Se quiser esperar no carro...
— Me dá os frascos — cortei, estendendo a mão.
O que se seguiu nas duas horas seguintes foi uma dança de pura eficiência e surpresas. Edward achou que eu ia hesitar, mas a verdade é que as memórias da minha infância na fazenda, bloqueadas por anos de asfalto, pareciam ter despertado com força total. Quando entramos no piquete, não fiz movimentos bruscos. Deixei que a primeira égua cheirasse a palma da minha mão, usei o tom de voz baixo e firme que via meu pai usar e, enquanto Edward a segurava pelo cabresto, apliquei o medicamento oral sem que o animal sequer sacudisse a cabeça.
— Sorte de principiante — ele provocou, embora seus olhos estivessem semicerrados, avaliando a minha postura.
Mas o verdadeiro teste veio com a Tempestade. A égua tordilha bufava, batendo os cascos no chão, claramente arisca com a presença da maleta. Edward avançou com o laço, mas o animal recuou, tenso.
— Espera — pedi, segurando o braço dele. O toque da minha mão na pele quente do antebraço dele fez nós dois congelarmos por um segundo. Desviei o olhar rapidamente, limpando a garganta. — Você está exalando testosterona e desafio, Cullen. Ela está sentindo isso. Deixa comigo.
Peguei um punhado de alfafa fresca do coxo, aproximei-me de lado, mantendo os olhos baixos para não parecer uma ameaça, e comecei a sussurrar palavras calmas. Edward assistia a tudo estático, com a corda na mão e o corpo tenso, pronto para intervir se a égua avançasse. Mas a Tempestade cedeu. Ela esticou o pescoço, pegou a alfafa da minha mão e permitiu que eu acariciasse sua crina. Com um aceno sutil de cabeça, chamei Edward. Ele se aproximou devagar, os olhos fixos em mim com uma intensidade avassaladora, e conseguiu fazer o exame do casco enquanto eu mantinha o animal completamente relaxado.
Nossos rostos ficaram a centímetros de distância quando ele se levantou. Eu conseguia ver as gotículas de suor na testa dele, o peito subindo e descendo, e o calor que emanava do seu corpo era quase magnético. Meus olhos caíram por um segundo para a boca dele, e o desejo de encurtar aquela distância quase me fez perder o equilíbrio. Edward prendeu a respiração, seus olhos escurecendo, e por um instante achei que ele fosse me puxar para si ali mesmo, no meio do curral.
Em vez disso, ele deu um passo para trás, quebrando o feitiço, e soltou um suspiro longo.
Fechamos a maleta e caminhamos de volta para a picape. O sol já estava alto e o calor começava a castigar. Peguei uma garrafa de água da caçamba e virei metade, deixando algumas gotas escorrerem pelo meu pescoço. Edward me observava, encostado na lateral do carro, com uma expressão completamente diferente. A arrogância havia sumido.
— O que foi? — perguntei, erguendo uma sobrancelha. — Vai dizer que eu usei o filtro errado na égua?
Edward deu um meio sorriso, mas dessa vez não era torto ou debochado. Era um sorriso rendido, o mesmo que ele me dera quando me flagrou no balanço de pneu. Ele tirou o chapéu, passando a mão pelos cabelos bronzeados e desalinhados, e soltou uma risada sincera.
— É... eu mordo a minha língua com gosto agora, Isabella — ele confessou, dando um passo na minha direção, os olhos verdes brilhando com uma admiração genuína que fez meu estômago dar voltas. — Você não é nem de longe a bonequinha de plástico de Jacksonville que eu achei que era. Você tem a terra dos Swan no sangue, garota. Tem mesmo. Você foi perfeita lá dentro.
Senti minhas bochechas corarem, mas um sorriso cúmplice e caloroso subiu aos meus lábios. Dei um passo na direção dele também, parando perto o suficiente para sentir o calor do seu corpo, mantendo o tom de voz em uma provocação suave.
— E você... bem, quando se esforça um pouquinho e fecha a boca para não falar asneira, descobre que não é um bruto totalmente insuportável, Cullen. Você até que é um veterinário bem decente.
Edward soltou uma gargalhada alta, os olhos fixos nos meus, e aquela tensão elétrica voltou a nos cercar, mas agora com uma camada de parceria que antes não existia. Nós ainda éramos duas forças prontas para colidir, mas, pela primeira vez, estávamos cavalgando na mesma direção.
Edward colocou o chapéu de volta, mas o sorriso continuava ali, brincando nos lábios dele enquanto limpava as mãos em um pano que pegou na cabine. Ele ergueu o pulso esquerdo, checando o relógio de couro, e arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— Olha só... terminamos quase duas horas mais cedo do que o esperado — ele comentou, guardando o pano e se escorando na porta da picape, me medindo com aquele olhar verde que agora parecia bem mais leve. — O Efeito Swan na lida bruta realmente funciona. O que significa que temos um tempo sobrando antes de eu ter que devolver a patroa para o casarão.
— E o que o grande caubói sugere que a gente faça com duas horas livres no meio do nada? — perguntei, cruzando os braços e apoiando o peso do corpo em uma das pernas, entrando no clima.
— Bem, o sol já está começando a castigar e você trabalhou duro — Edward disse, abrindo a porta do motorista com um brilho divertido nos olhos. — Tem uma sorveteria de beira de estrada a uns dez minutos daqui. Uma daquelas bem antigas, com o melhor sorvete de massa de fita azul do condado. O que me diz? Está a fim de tomar um sorvete, Isabella?
Pisquei, genuinamente surpresa com o convite, mas o calor do meio-dia no Texas ajudou a tomar a decisão por mim.
— Se você estiver pagando para compensar o fato de ter duvidado de mim, eu aceito, Cullen.
A sorveteria era exatamente o que ele tinha descrito: um charme parado no tempo. Tinha paredes de madeira pintadas de azul-claro, um balcão de fórmica antiga e um ventilador de teto barulhento que tentava, heroicamente, aplacar o calor textano. O lugar estava vazio àquela hora da manhã, o que só tornava tudo mais intimista.
Pedimos nossos potes e nos sentamos em uma mesa de canto, perto da janela. Eu escolhi um sorvete de doce de leite com pedaços de brownie, enquanto Edward foi no clássico creme com calda de chocolate.
— Deixe-me ver se o seu é tão bom quanto o cheiro — Edward disse do nada, antes mesmo que eu pudesse protestar.
Com a maior cara de pau do mundo, ele esticou a colher dele, roubou um pedaço generoso do meu brownie e levou à boca, fechando os olhos com uma expressão de pura satisfação.
— Ei! Isso é roubo qualificado! — reclamei, rindo da audácia dele e batendo de leve com a minha colher na dele.
— Imposto de lida, Swan. Eu que dirigi até aqui — ele rebateu, piscando para mim com aquele maldito charme de interior.
— Ah, é? Então o imposto é retroativo — retruquei.
Aproveitando que ele estava rindo, avancei com a minha colher no pote dele, pegando uma montanha de creme com calda. Só que, na pressa de puxar a colher antes que ele me impedisse, a calda de chocolate acabou pingando e sujando o canto do meu lábio inferior e um pedaço da minha bochecha.
Edward congelou o riso na mesma hora. Seus olhos verdes focaram na mancha escura na minha pele e o ambiente pareceu perder o som do ventilador. A atmosfera, que antes era pura leveza, mudou de formato, tornando-se densa, carregada daquela eletricidade que vínhamos cozinhando desde a quermesse.
— Você é um desastre comendo, sabia? — ele sussurrou, a voz descendo para aquele tom grave que fazia meu estômago dar nós.
Edward esticou o braço por cima da mesa pequena. Seus dedos calejados do trabalho no rancho tocaram a minha pele com uma delicadeza que contrastava totalmente com o tamanho dele. O polegar dele deslizou devagar pelo canto da minha boca, limpando o chocolate. O toque foi quente, lento, e arrancou um suspiro silencioso dos meus lábios.
Eu não conseguia me mexer. Meus olhos estavam grudados nos dele, acompanhando a forma como as pupilas dele dilataram. Edward não recolheu a mão. Ele continuou ali, o polegar acariciando de leve a minha bochecha, enquanto o seu corpo se inclinava milímetros na minha direção por cima da mesa. Eu conseguia sentir a respiração dele. Estávamos tão perto que o beijo parecia a única conclusão lógica para aquele segundo suspenso no tempo. Meus olhos desceram para a boca dele, o coração batendo na garganta...
Plim-plim.
O som estridente do sino da porta da sorveteria ecoou pelo recinto, quebrando o feitiço como uma pedrada em um espelho.
Edward afastou a mão num sobressalto, recuperando a postura na cadeira, enquanto eu desviei o olhar para a janela, tentando normalizar a minha respiração que havia simplesmente sumido.
— Edward? Meu Deus, Edward! É você mesmo?!
Uma voz estridente, aguda e perfeitamente modulada preencheu o silêncio da sorveteria. Olhei em direção à porta e vi uma mulher loira, de cabelos impecavelmente escovados, vestindo um vestido de linho branco que parecia caro demais para uma beira de estrada e botas de grife reluzentes. Ela tinha um sorriso radiante no rosto perfeito e caminhava na nossa direção como se estivesse desfilando.
Edward tensionou os ombros imediatamente ao meu lado, e o canto da boca dele caiu.
— Tanya... — ele pronunciou o nome com uma nota de desconforto que não passou despercebida pelos meus ouvidos de narrativa analítica.
Tanya parou bem ao lado da nossa mesa, ignorando a minha existência por completo nos primeiros três segundos, focando seus olhos azuis diretamente no peito de Edward.
— Que coincidência maravilhosa encontrar você aqui! — ela exclamou, tocando o braço dele com uma intimidade que fez meu estômago revirar de uma forma esquisita. — Faz tanto tempo que a gente não se esbarra desde que... bem, você sabe. Você sumiu dos arredores do Rancho Denali. Continua lindo com essa carinha de quem passou o dia trabalhando.
Edward pigarreou, afastando o braço sutilmente com o pretexto de pegar o guardanapo.
— É... tenho estado ocupado na Swan Lake, Tanya — ele respondeu, a voz formal, quase fria. Ele então esticou a mão na minha direção, finalmente forçando a loira a me olhar. — Tanya, essa é a Isabella Swan. Filha do Charlie. Bella, essa é a Tanya.
Tanya finalmente baixou os olhos azuis para mim. Ela me mediu de cima a baixo — registrando minha camisa de sarja, meu cabelo preso na trança e a mancha de chocolate que Edward não tinha terminado de limpar. Um sorriso falsamente simpático, mas carregado de condescendência, surgiu nos lábios dela.
— Ah, a famosa filha que morava na Flórida! — Tanya disse, juntando as mãos. — O Edward me falava de você... quer dizer, falava que o Charlie tinha uma filha na cidade grande. Que bom que veio visitar o interior, querida. Mas o calor daqui é terrível para quem não está acostumada, não é? Dá para ver que você já está sofrendo um pouquinho com a lida.
Olhei para a mão de Tanya ainda pairando perto do ombro de Edward, depois para a pose perfeita dela, e senti aquela faísca de competitividade Swan acordar com força total no meu peito. O clima fofo havia sido completamente destruído, mas a diversão estava apenas começando.
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