Swan Lake
1 Estou voltando para casa...
Notas iniciais
Capítulo 1: Estou voltando para casa...
No meu assento da janela, enquanto o avião começava a descer em direção ao aeroporto de Austin, observei a transição abrupta da paisagem. Deixar Jacksonville, na Flórida, não deveria ter sido um sacrifício. Teoricamente, eu estava trocando o sol litorâneo, a umidade opressiva e as palmeiras pelo calor seco, pelas planícies sem fim e pelas colinas cobertas de carvalhos do Texas. Na minha cabeça, porém, eu sentia que estava sendo exilada para outro planeta.
Em Jacksonville, minha vida era medida em números de engajamento, curtidas e contratos publicitários. Como uma influenciadora de moda em ascensão nos Estados Unidos, meu cotidiano era uma vitrine perfeitamente curada de fotos estéticas, provadores de marcas de luxo e uma rotina milimetricamente calculada. Mas, por trás das telas, a realidade era um cenário desmoronado.
Minha mãe, Renée, nunca soubera ser mãe. Desde que me entendia por gente, os papéis eram invertidos; eu era a adulta da casa desde os sete anos de idade. Eu controlava o talão de cheques, lembrava-me de pagar as contas de luz para que não ficássemos no escuro e garantia que houvesse comida na geladeira enquanto Renée se perdia em seus impulsos artísticos e paixões passageiras. Quando ela se casou com Phil, um jogador profissional de beisebol da liga menor, achei que finalmente ela teria estabilidade. Mas a carreira de Phil exigia que ele viajasse constantemente, passando meses na estrada. Renée sofria terrivelmente com a distância. Ela chorava pelos cantos, recusava-se a levantar da cama e definhava de solidão.
Ver minha mãe naquele estado, combinado com o peso sufocante de ter sido a sua cuidadora a vida inteira, cobrou o seu preço. Entrei em um processo depressivo silencioso e devastador no meu último ano do ensino médio. Minhas notas despencaram, a energia para manter as aparências na internet evaporou e eu acabei perdendo os prazos para me matricular na faculdade. Eu estava esgotada, vazia. Foi então que tomei a decisão. Para dar a Renée a liberdade de viajar com Phil e salvar o que restava da minha própria mente, arrumei minhas malas. Eu voltaria para o meu pai.
Eu não via Charlie desde os meus oito anos. Quando Renée nos arrancou da fazenda em Austin, quando eu tinha apenas seis anos, ela odiava a calmaria do interior; dizia que aquele lugar a sufocava, que o silêncio do campo a enlouquecia. Nos dois primeiros anos em que moramos na Flórida, eu ainda passava as férias de verão com meu pai, mas Renée, com sua negligência habitual e rancores mal resolvidos, começou a dificultar os contatos. Ela esquecia de me passar o telefone quando Charlie ligava, mudava de endereço sem avisar e, gradualmente, cortou todos os laços. Quinze anos de silêncio nos separavam. Quinze anos em que a única lembrança que eu guardava do Texas era o cheiro de terra molhada após as tempestades de verão e o calor dos braços do meu pai.
Quando desembarquei e peguei minhas três malas de grife, completamente inadequadas para o ambiente rural , avistei a silhueta alta e robusta de Charlie Swan perto do portão de desembarque. Ele usava uma camisa de brim azul, calça jeans desbotada e suas botas de couro de cano curto. O cabelo estava mais grisalho nas têmporas, e as linhas de expressão ao redor dos olhos batedores eram mais profundas. Ele segurava o chapéu de caubói marrom nas mãos, movendo os dedos na aba, visivelmente tenso.
Caminhei até ele, o coração batendo na garganta. Nossos passos hesitaram por um segundo, a distância de uma vida inteira pesando entre nós. Charlie limpou a garganta, abrindo a boca para dizer algo formal, mas eu não consegui me conter. Soltei as alças das malas e dei um passo à frente, jogando meus braços ao redor do pescoço dele.
Prendi o choro e o abracei com toda a força que tinha no meu corpo franzino.
— Eu senti tanto a sua falta, pai... — sussurrei, a voz embargada, enterrando o rosto no peito dele, que cheirava a amaciante de roupas simples e fumo de corda.
O corpo de Charlie enrigidceu por uma fração de segundo, pego de surpresa, mas logo em seguida seus braços imensos e fortes me envolveram, apertando-me contra si em um abraço protetor que eu nunca, em toda a minha existência na Flórida, havia recebido de Renée. Ela nunca me abraçara daquele jeito; nunca demonstrara afeto físico. Mas Charlie era diferente. Senti a pressão suave dos lábios dele contra o topo da minha cabeça, um beijo carinhoso na minha franja, enquanto uma de suas mãos calejadas subia para fazer um carinho desajeitado, mas imensamente terno, nos meus cabelos.
— Eu também senti sua falta, Bells. Mais do que você imagina... — ele respondeu, a voz grave vibrando contra o meu peito.
Quando nos afastamos, ele limpou uma lágrima boba que insistia em escorrer pela minha bochecha com o polegar grosso. O contraste entre a frieza negligente da minha mãe e o calor genuíno do meu pai quase me fez desabar ali mesmo. Charlie pegou minhas malas pesadas sem reclamar e me guiou até sua caminhonete antiga, estacionada sob o sol escaldante do Texas.
O caminho até a fazenda Swan Lake foi preenchido por conversas um pouco desajeitadas, mas confortáveis. Charlie me explicou que muita coisa havia mudado nos últimos anos. Ele havia se casado novamente com Sue Clearwater, a viúva de um de seus melhores amigos de infância, Harry.
— A Sue traz vida para aquela casa, Bells. E ela tem dois filhos do primeiro casamento. A Leah, que tem a sua idade, e o Seth, que é um garoto de catorze anos muito elétrico. Acho que você vai gostar deles — Charlie disse, mantendo os olhos na estrada de terra que agora nos levava para o interior do condado.
À medida que a caminhonete avançava, a paisagem urbana de Austin cedia espaço para cercas de madeira branca, pastagens verdejantes e, finalmente, a entrada imponente da fazenda. Uma placa de madeira rústica trazia os dizeres esculpidos: Swan Lake — Vinhedos & Pecuária.
Além do gado de corte e dos cavalos de raça, a propriedade possuía um vinhedo premiado. Charlie me explicou com orgulho que eles produziam alguns dos melhores vinhos dos Estados Unidos, uma atividade que ele gerenciava pessoalmente com a ajuda de seu braço direito, Jasper Hale, um homem focado e especialista na cultivação das uvas sob o clima texano.
Quando paramos em frente à enorme casa de fazenda, de estilo colonial com uma varanda avarandada que contornava toda a estrutura, fui recebida pelo aroma de carne assada e temperos caseiros. Assim que pisamos na sala de estar, fomos inundados pelo calor de uma casa cheia. Sue Clearwater veio ao nosso encontro, uma mulher de traços nativos marcantes, sorriso acolhedor e um abraço caloroso que me fez sentir bem-vinda de imediato. Atrás dela, um garoto de cabelos compridos e sorriso largo acenou com entusiasmo.
— Você deve ser a Bells ! Eu sou o Seth! — o menino exclamou, sendo repreendido de leve por uma jovem de braços cruzados e expressão fechada que estava encostada no batente da porta. Era Leah. Ela me mediu de cima a baixo, fixando o olhar nas minhas roupas de marca, mas apenas deu um aceno seco de cabeça, demonstrando uma clara hostilidade defensiva.
— O jantar já vai ser servido na mesa comprida da copa — Sue anunciou com simpatia. — Temos visitas hoje, os Cullen's vieram nos ajudar com a vacinação do gado e acabaram ficando para a refeição. Esme me ajudou na cozinha o dia todo.
Fui até o banheiro para lavar o rosto e tentar tirar a poeira da viagem antes de encarar o banquete. Quando entrei na copa, a visão daquela mesa comprida me paralisou por um instante. Havia pelo menos doze pessoas se acomodando, conversando alto, rindo e passando travessas de comida de um lado para o outro.
Mentalmente, fechei os olhos e lembrei dos meus jantares em Jacksonville. Em nossa cozinha moderna de conceito aberto, eu costumava me sentar sozinha na bancada de granito, comendo uma salada pronta ou um prato congelado enquanto o silêncio da casa era quebrado apenas pelas oscilações do ar-condicionado ou pelos soluços de Renée no quarto ao lado. Ali, no Texas, a atmosfera exalava vida, barulho e calor humano.
Charlie me puxou para o assento ao seu lado e começou a apresentar os convidados centrais. Do outro lado da mesa estava o Dr. Carlisle Cullen, o veterinário principal da região e responsável pela saúde de todos os animais da Swan Lake. Ao lado dele, sua esposa Esme, uma mulher de doçura angelical que conversava animadamente com Sue. Mais adiante, vi Jasper Hale, o braço direito do meu pai no vinhedo, um homem de postura impecável e olhar analítico, e uma garota de cabelos curtinhos e espetados que parecia não parar quieta na cadeira.
— Aquela ali é a Alice — Charlie sussurrou para mim com um sorriso de canto. — Ela é filha do Carlisle, mas não faz absolutamente nada na fazenda além de abelhudar a vida dos outros e fofocar sobre a cidade inteira.
Soltei uma risada baixa, observando Alice gesticular enquanto falava sobre o figurino de alguém na quermesse local. Mas minha atenção foi capturada pelos outros dois rapazes sentados na extremidade da mesa. Ambos ajudavam Carlisle na lida com os animais da fazenda e eram os pilares da veterinária local.
O primeiro era um gigante. Emmett Cullen tinha ombros tão largos que quase ocupavam o espaço de duas cadeiras. Ele exibia um sorriso bonachão, dentes perfeitamente brancos e uma energia caótica que parecia preencher o cômodo.
O segundo rapaz, no entanto, fez o meu coração falhar uma batida.
Edward Cullen. Ele não tinha as tatuagens ou os adereços rústicos que eu costumava associar aos rapazes do interior nas redes sociais. Ele vestia uma camisa de linho azul-escuro com os botões superiores abertos, revelando uma postura impecável e elegante. Seu rosto parecia ter sido esculpido em mármore: o maxilar era perfeitamente definido, o nariz reto e os cabelos acobreados estavam desalinhados de um jeito rebelde, mas sofisticado. Mas o que mais me chamou a atenção foram os seus olhos. Verdes como duas esmeraldas polidas. Ele exalava uma inteligência óbvia pela forma como observava o ambiente, mas sua expressão era fechada, séria e visivelmente braba. Ele parecia não ter muita paciência para o burburinho da mesa.
— Então você é a famosa Isabella de Jacksonville? — a voz estrondosa de Emmett ecoou, cortando meus pensamentos. Ele se inclinou sobre a mesa, apoiando os cotovelos massivos na madeira. — A garota que dita o que as madames usam nas capitais? Sabia que a Leah aqui estava tentando copiar um dos seus visuais de chapéu na semana passada?
Leah, que estava sentada ao lado de Emmett, virou o rosto na direção dele com os olhos faiscando de puro ódio.
— Cala a boca, Emmett! Eu nunca tentei copiar ninguém, muito menos uma patricinha que não aguenta dez minutos sob o sol do Texas! — Leah disparou, a voz cortante.
Emmett soltou uma de suas gargalhadas ruidosas, sem se abalar nem um pouco com o "coice" da garota. Ele piscou para ela de forma atrevida.
— Relaxa, Leahzinha. Você fica linda brava. Mas cuidado para não morder a língua e morrer envenenada — ele zombou, fazendo com que Jasper soltasse um risinho discreto e Carlisle balançasse a cabeça, acostumado com as provocações do filho.
Não demorou muito para Emmett focar suas baterias em mim. Ele deu um sorriso de canto, limpando a boca com o guardanapo e adotando uma postura de galã de rodeio.
— Sabe, Bells... Se você precisar de um guia para conhecer os arredores, ver os cavalos selvagens ou aprender a laçar um bezerro, eu estou inteiramente à disposição. Tenho braços fortes para garantir que você não caia na poeira.
Senti minhas bochechas queimarem instantaneamente, ficando completamente sem graça diante de toda a mesa com aquele flerte escancarado. Antes que eu pudesse gaguejar uma resposta, a mão de Charlie bateu levemente na mesa e sua voz grossa resou de forma protetora:
— Emmett... minha filha não. Trate de tirar os olhos do meu território.
— Só estava sendo cortês, chefe! — Emmett ergueu as mãos em sinal de trégua, rindo alto enquanto os outros começavam a zombar dele pela bronca do patrão.
No meio daquela confusão divertida, meus olhos buscaram o fundo da mesa e se cruzaram com os de Edward. Ele não havia dito uma única palavra desde que o jantar começara. Ele mantinha os braços cruzados sobre o peito largo, observando a cena com uma expressão carrancuda e impaciente.
Quando nossos olhares se travaram, senti um arrepio elétrico subir pela minha espinha. Não havia calor ou boas-vindas no olhar dele. Edward me encarou com uma intensidade analítica e fria, seus olhos verdes descendo pelo meu rosto e pelas minhas roupas finas com um desdém silencioso, como se estivesse me rotulando como apenas mais uma distração fútil vinda da cidade grande. Eu sustentei o olhar, erguendo discretamente o queixo, recusando-me a ser intimidada pela marra daquele caipira grosso.
Nós não trocamos uma única palavra durante todo o jantar, mas a guerra silenciosa de olhares entre a influenciadora de Jacksonville e o veterinário rabugento de Austin havia acabado de começar sob o teto da fazenda Swan Lake.
O jantar terminou em meio ao tilintar de pratos e ao som das risadas que ainda ecoavam pela copa. Enquanto Sue e Esme se organizavam para recolher as travessas e Charlie se afastava em direção ao escritório com Jasper para discutir a colheita das uvas Cabernet daquela semana, eu me peguei alisando a barra da minha blusa de seda, um pouco incerta sobre o meu espaço naquela nova realidade. Foi quando uma energia elétrica e ruidosa se aproximou de mim.
— Nem pense em ir para o quarto se trancar, Bella! A noite está só começando e o domingo na Swan Lake não acaba assim tão cedo! — Alice exclamou, surgindo ao meu lado como um passarinho saltitante. Ela segurou o meu braço com uma intimidade espontânea que me pegou de surpresa. — Nós vamos para a fogueira dos funcionários. É uma tradição nossa. Todo fim de semana o pessoal se reúne perto do galpão velho, perto dos vinhedos, para jogar conversa fora e cantar. Você vem com a gente!
— Vai por mim,maninha, você não vai querer perder — Seth brotou logo atrás dela, com os olhos brilhando de entusiasmo juvenil. — O pessoal assa marshmallow e o Emmett sempre tenta contar histórias de terror que não assustam nem os bezerros.
— Ei! Minhas histórias são clássicos do folclore texano, respeita o seu instrutor, moleque! — Emmett trovejou da porta da copa, rindo alto e ajeitando o boné na cabeça. Ele olhou para mim com uma gentileza genuína e acolhedora que desarmou qualquer resquício da minha timidez de Jacksonville. — Vamos lá, Bells. É a sua festa de boas-vindas oficial. Deixa a poeira da estrada pegar um pouco no seu sapato.
A receptividade daquele trio foi o empurrão que eu precisava. Peguei o meu celular no bolso, a minha extensão natural, o meu instrumento de trabalho, e os acompanhei para fora da casa grande.
Caminhamos por uma trilha iluminada por pequenos lampiões solares até uma clareira ampla, bem na transição entre o início dos vinhedos alinhados e as pastagens. No centro, uma imensa fogueira de toras de carvalho já queimava, lançando faíscas douradas em direção ao céu estrelado e límpido do Texas. Cerca de quinze funcionários da fazenda estavam espalhados em bancos de madeira rústica e troncos caídos. Havia um cheiro reconfortante de lenha queimada, terra molhada pelo sereno da noite e guisado de carne.
Assim que pisamos na clareira, Emmett fez questão de gritar para que todos ouvissem, apresentando-me como a "filha pródiga do chefe". Diferente do ambiente competitivo e artificial das festas de influenciadores que eu frequentava na Flórida, onde cada olhar vinha acompanhado de um julgamento sobre o seu número de seguidores, aquelas pessoas me receberam com sorrisos largos, acenos com os chapéus e uma simplicidade calorosa que fez meu peito aquecer.
Imediatamente, o meu instinto de criadora de conteúdo despertou. Abri o aplicativo do Instagram, selecionei a câmera dos stories e comecei a registrar o ambiente. Mostrei a fogueira crepitando contra o céu escuro, fiz um vídeo curto de Seth tentando equilibrar três marshmallows em um espeto de madeira antes de todos caírem no fogo o que rendeu uma gargalhada ruidosa de Emmett ao fundo , e filmei Alice fazendo uma pose dramática com uma caneca de alumínio cheia de chá de cidreira. “Diretamente do coração do Texas, onde o domingo à noite tem outro ritmo”, escrevi na legenda, usando uma fonte minimalista e elegante. Meus seguidores de Jacksonville provavelmente achariam que eu estava gravando o cenário de um filme, de tão perfeito e intocado que tudo parecia.
O burburinho na clareira diminuiu um pouco quando passos firmes pisaram nas folhas secas na entrada da clareira. Olhei por cima da tela do celular e vi Edward se aproximar. Ele havia trocado a camisa de linho por uma jaqueta de sarja escura por cima de uma camiseta preta básica, mas sua expressão continuava a mesma: séria, compenetrada, quase irritada com o mundo. Em uma das mãos, ele carregava um violão de madeira escura, cujo verniz refletia as chamas da fogueira.
Ele não olhou para ninguém. Sentou-se em um tronco mais afastado, no limite onde a luz do fogo cedia espaço para a escuridão da mata. Edward apoiou o instrumento na coxa e começou a dedilhar as cordas, ajustando a afinação com movimentos rápidos e precisos de seus dedos longos. O som cru do violão acústico ecoou pelo silêncio da noite, fazendo os funcionários se acomodarem nos bancos em uma expectativa reverente.
Quando ele começou a tocar os acordes de introdução de Home, do Blake Shelton, o tempo pareceu desacelerar.
E então, ele cantou.
"Another summer day...Has come and gone away...In Paris and Rome...But I wanna go home..."
Um arrepio violento e elétrico subiu pela minha espinha no mesmo instante em que a primeira nota saiu da garganta de Edward.
"And I've been keeping all the letters that I wrote to you...Each one a line or two...I'm fine baby, how are you?...Well I would send them, but I know that it's just not enough...My words were cold and flat...And you deserve more than that"
A voz dele não tinha o sotaque arrastado exagerado ou caricato que eu imaginava; era um barítono profundo, aveludado e com uma rouquidão natural, tão crua e visceral que parecia vir direto das profundezas da terra vermelha daquele estado. Era, sem exagero algum, a voz de um anjo que havia sido forjado na lida do campo. Uma voz que carregava uma melancolia misteriosa e uma força que contrastavam absurdamente com a sua postura braba e defensiva.
"Let me go home...I'm just too far...From where you are...I wanna come home...And I feel just like I'm living someone else's life...It's like I just stepped outside...When everything was going right...And I know just why you could not...Come along with me...This was not your dream...But you always believed in me"
Fiquei completamente estática, esquecendo de respirar por alguns segundos. O meu coração, que vinha mantendo um ritmo acelerado desde a viagem, pareceu dar uma batida pesada e desacelerar, entrando em sintonia com o dedilhar do violão.
"Another winter day has come and gone away...
In even Paris and Rome...And I wanna go home...Let me go home"
Senti um calor estranho e desconhecido se espalhar pelo meu peito, uma sensação de acolhimento misturada a um magnetismo que eu não conseguia controlar.
"And I'm surrounded by...A million people... I Still feel alone...Let me go home...I miss you, you know..."
Olhei para Edward com outros olhos, despindo-me da primeira impressão de "caipira grosso" que tive no jantar. Ali, sob a luz tremeluzente das chamas que desenhavam sombras douradas em seu maxilar perfeito e destacavam a imensidão misteriosa dos seus olhos verdes, ele parecia uma força da natureza.
Quase de forma mecânica, movida por um encantamento puro que eu nunca havia sentido antes por artista nenhum, ergui o celular novamente. Enquadrei o rosto de Edward na tela, capturando o perfil dele focado nas cordas, a fumaça sutil da fogueira subindo ao fundo, e comecei a gravar. Eu precisava registrar aquilo. Não era mais apenas sobre os meus seguidores; era sobre mim. Eu precisava guardar aquela voz.
Analisei a letra da música conforme ele avançava pelos versos, e cada palavra parecia se encaixar perfeitamente à voz de anjo dele e à minha própria situação.
“Let me go home...I've had my run...Baby, I'm done...I've got to go home"
A forma como Edward suavizava a voz ao pronunciar "home" parecia um eco do que eu mesma estava sentindo por dentro, mas não tinha coragem de admitir. Eu passara os últimos quinze anos em Jacksonville achando que pertencia ao asfalto, à internet e ao luxo, mas aquela música, cantada por aquele homem rústico sob o céu do Texas, parecia arrancar todas as minhas máscaras. Era como se a voz dele estivesse cavando o meu peito, buscando as minhas próprias raízes que eu tentara enterrar aos seis anos de idade.
"Let me go home...It all will be alright...I'll be home tonight...I'm coming back home"
Quando a música terminou, um silêncio carregado durou um segundo antes de a clareira explodir em aplausos e assovios dos funcionários. Edward apenas deu um aceno curto com a cabeça, o semblante ainda fechado, e se levantou. Ele caminhou para longe do círculo de luz, indo em direção a uma cerca de madeira perto do início das videiras, provavelmente em busca de um momento de isolamento.
Aproveitando que as pessoas voltaram a conversar alto e Emmett estava ocupado tentando roubar o doce de Seth, guardei o celular e segui os passos de Edward pela trilha escura. A adrenalina do encantamento ainda corria nas minhas veias, e eu senti uma necessidade genuína de ser gentil.
— Você canta incrivelmente bem — falei, aproximando-me devagar para não assustá-lo. Parei a cerca de dois passos de distância, observando-o apoiar o violão contra a cerca. — Sério. Eu moro perto de grandes centros da Flórida, já fui a shows de pessoas famosas, mas a sua voz... tem algo diferente. É como uma voz de anjo, se você me permite o clichê. Parabéns.
Edward virou o corpo lentamente na minha direção. O olhar verde dele, que antes estava focado nas estrelas, travou no meu rosto. Sob a penumbra, a expressão dele era de puro aborrecimento. Ele desceu os olhos para a minha mão, que ainda segurava o celular, e o maxilar dele se contraiu com força.
— Você estava me filmando enquanto eu cantava? — ele disparou, a voz saindo cortante, grossa e fria, sem um pingo do calor que usara na música.
Pisquei, pega de surpresa pela rispidez.
— Ahn... sim? Eu fiz um story rápido. O seu talento é maravilhoso, e eu trabalho com isso, meus seguidores iam amar...
— Eu não sou um dos seus produtos de internet para você usar de vitrine, garota — Edward cortou-me com rispidez, dando um passo à frente, usando a sua estatura imponente para me encurralar sutilmente contra a escuridão da trilha. — Eu não te dei autorização para apontar essa câmera para a minha cara. Na verdade, eu não tenho a menor paciência para essa palhaçada de ficar expondo a vida para conseguir validação de gente que você nem conhece. Se você precisa disso para se sentir viva em Jacksonville, o problema é seu. Mas me deixa fora do seu circo.
O elogio morreu na minha boca, sendo substituído instantaneamente pelo meu orgulho inflamado. A audácia daquele caipira grosso era inacreditável.
— Como é que é? — dei um passo à frente, diminuindo a distância entre nós, o queixo erguido e os olhos faiscando de irritação. — Eu vim até aqui para ser educada e elogiar o seu trabalho, Edward, mas pelo visto a sua falta de educação é proporcional ao seu tamanho. Eu não estou te usando como produto. Isso se chama reconhecimento. Mas pelo que percebi, além de ser um bruto batedor de estaca, você também é um arrogante que não sabe aceitar um elogio.
Edward soltou uma risada anasalada, puramente cínica e irritada, cruzando os braços fortes sobre o peito largo.
— Eu aceito elogios de quem é de verdade, Isabella. Não de uma patricinha de salto alto que chega aqui achando que o mundo é o palco do Instagram dela. Vá caçar os seus cliques em outro lugar e apague o que gravou. Não estou à venda.
— Eu não vou apagar absolutamente nada! O vídeo ficou ótimo e o celular é meu! — retruquei entre dentes, a implicância e a provocação vibrando entre nós como uma corda prestes a arrebentar. — E o meu nome é Bella, caso o seu cérebro rústico consiga processar duas sílabas.
— Para mim, você é Isabella. A estrangeira e intrusa que veio passar férias com objetivo de atrapalhar a rotina da fazenda — ele rebateu com a voz mansa, mas carregada de uma provocação que me deu vontade de esmurrar o peito dele.
Antes que a nossa discussão escalasse para algo pior, um vulto pequeno surgiu entre as videiras. Alice apareceu com as mãos nos quadris, olhando de Edward para mim e soltando um suspiro dramático.
— Ah, não! Eu não posso deixar vocês sozinhos por dois minutos e você já está destilando o seu veneno, Edward? — Alice brigou, colocando-se entre nós dois e me puxando pelo braço com delicadeza, afastando-me daquele poço de arrogância. Ela olhou para mim com um sorriso reconfortante e cochichou, de um jeito que ele claramente pudesse ouvir: — Bells, não liga para o meu irmão. O Edward é um mala, um verdadeiro mal-humorado crônico. Ele não gosta nem da própria sombra quando acorda. A única coisa com que ele consegue ser minimamente dócil e simpático são os bichos da fazenda. Se um cavalo puder falar, com certeza vai ter conversas melhores com ele do que qualquer ser humano. Vamos voltar para perto do Emmett.
— É bom mesmo, Alice. Leva a sua amiga plástico de volta para a casa de bonecas antes que ela quebre uma unha na cerca... — Edward provocou uma última vez, a voz rouca ecoando na escuridão enquanto ele pegava o violão e virava as costas, caminhando na direção oposta.
Girei a cabeça para trás, fuzilando a silhueta dele com os olhos.
— Ele é insuportável! — resmunguei para Alice, enquanto voltávamos para a clareira.
— Ele é — Alice concordou, rindo alto. — Mas você precisa admitir uma coisa, Bella... ele pode ser o bicho mais bravo do Texas, mas quando pega aquele violão, não tem uma mulher nesse condado que não balance as pernas.
Olhei para a tela do meu celular, onde o vídeo de Edward ainda estava pausado na tela de edição. Eu estava furiosa com a grosseria dele, o meu sangue ainda fervia de implicância, mas ao olhar para o registro daquela voz de anjo, soube que a minha estadia na Swan Lake seria tudo, menos tediosa.
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