Svyazi
7 Capítulo VII - Sublimação
John desejava respirar o ar fresco e purificado do exterior, mas não havia especificado o local onde o obteria. Em vez de descerem escadas a caminho do amplo pátio, subiram mais lances ainda no interior do Utilitário. Passaram pela área de fabricação de uniformes no segundo andar, que se encontrava livre de funcionários devido a enorme quantidade de roupas já produzidas e estocadas. Mais degraus os aguardavam, e Adam questionou-se se haveria um andar adicional.
No lugar onde supostamente seria um terceiro pavimento, viram-se num minúsculo corredor com uma porta de ferro gasto ao final. Quando John a abriu, receberam no rosto o início da iluminação alaranjada do crepúsculo e a calorosa ventania externa. Estavam numa retilínea parte do telhado do prédio, feita em concreto, numa altura suficiente para ver os limites do instituto e boa parte da floresta ao redor.
Mais uma vez, os observatórios nos quatro cantos das cercas estavam vazios. Ninguém seria capaz de vê-los, mas eles eram capazes de ver a tudo e a todos. Enquanto dava os primeiros passos pelo telhado, os lisos cabelos de John sacudiam rebeldemente conforme a ventania. Adam, logo após fechar a porta por qual passaram, o acompanhou, olhando para todo um mundo ao seu redor. Naquela altura, os ventos eram muito mais violentos, e o aroma da natureza os acalentava.
Repentinamente, um dos ventos levou de Adam a boina que usava, fazendo-o erguer as mãos inutilmente para tentar recuperá-la. De forma ágil, John apanhou o objeto no ar, e o olhou por alguns segundos antes de devolver para o mais novo. Adam o encarou, aturdido.
— Obrigado. — disse simplesmente, repondo a boina sobre os cabelos curtos.
— Só “obrigado”? — sorriu exibido, enquanto sentava-se sobre o chão. — Sei que te impressionei mais do que isso. Que tal “belos reflexos, John”?
— Te falta humildade, John. — sentou-se ao lado do mais velho, em mesmo tom de brincadeira.
A brisa em seus rostos era intensa, mas não desconfortável. Parecia acariciar os traços mais delicados de suas faces. Olharam para direções distintas e não específicas, enquanto um silêncio tranquilo instaurava-se. Desejavam conversar um pouco mais, mas sentiam-se perfeitamente confortáveis com a quietude, com o natural e suave sopro próximo de seus ouvidos e com a presença cômoda um do outro.
John manteve os olhos fechados e o rosto parcialmente erguido, concedendo permissão para que a natureza fizesse com seus cabelos o que bem desejasse. Adam apenas o olhava, e via conforme os movimentos dos fios castanhos a mudança de ventos vigorosos para surpreendentes brisas de calmaria.
Durante sua contemplação, Adam lembrou-se de perguntas que queria fazer ao mais velho. Procurou uma forma amena de iniciar uma conversa, que não deixasse óbvio seus interesses.
— Aprendeu nas aulas de treinamento tático? — voltou-se mais uma vez para uma direção aleatória, fazendo de conta que jamais havia posto os olhos em John. — Você realmente foi rápido em ver a boina e em pegá-la.
— Sim. Aprendi com a vida, também. — deitou-se folgadamente sobre o solo, com um braço sob a cabeça, assim como na noite anterior. — Falando nisso... Já escolheu suas aulas para sábado?
— Tiro é uma que eu queria desde o início. E, agora, Treinamento Tático. Quero aprender CQC e a ser um bom soldado.
— Ótima ideia. — mesmo sem olhá-lo, Adam sentia más intenções na voz de John. — Estarei lá para sua iniciação. Espero que esteja preparado para dor e marcas roxas pelo corpo.
— Se for esta a condição para conseguir derrubar você... — cruzou os braços.
— Vejo que ter te derrubado hoje te deu uma motivação. Pode me agradecer quando quiser.
— Vou mostrar o agradecimento. — deixou um soco numa das pernas do mais velho, que reagiu somente com uma risada. — E como terceira aula? Alguma sugestão do que devo escolher?
— Se você quer ser um soldado... Pode ser Treinamento Furtivo. Tem algumas semelhanças em relação ao Tático, mas inúmeras diferenças. Se escolher esta, estará fazendo as mesmas aulas que David e eu.
— Então será isso. — sorriu, decidido. — Vai ser divertido.
Mais uma vez, silêncio. Adam, nervosamente, abriu e fechou as mãos algumas vezes para ouvir o som agradável do atrito do couro das luvas e para pensar em algo mais a se dizer. Algo que pudesse fazer John responder suas dúvidas com a mesma tranquilidade com qual falou sobre seus falecidos pais.
Uma lâmpada imaginária se acendeu sobre sua cabeça ao lembrar-se de seu achado no depósito. Vasculhou pela bolsa transversal, estufada devido à caixa com as três últimas fatias de seu bolo de aniversário e à antiga bota country, até encontrar a caixa com uma única barrinha de Calorie Mate que havia encontrado. Não sabia do que a Calorie Mate se tratava, mas o aroma de chocolate já era o suficiente para dizer que foi um excelente achado.
— Ei, John — exibiu a embalagem para o rapaz desleixado e distendido sobre o chão.
O americano abriu um dos olhos, apenas para verificar ligeiramente o que Adam tinha em mãos. Em meio segundo, tornou a sentar-se, com perplexidade no olhar. Tirou das mãos de Adam a embalagem, sem dar a ele qualquer tempo de reação, e leu os escritos gravados na pequena caixa.
— Onde encontrou isto? — semicerrou os olhos para o russo.
— Por aí. — olhou para os céus, com falsa inocência.
— Só nos dão uma dessa quando fazemos provas de campo, junto com a ração militar. — retirou da caixa a única Calorie Mate, ainda embalada, e a aproximou do nariz para sentir o aroma. Feito um de seus amados charutos. — Vigilantes do instituto, professores... Podem pegar no refeitório quando quiserem, ao contrário de nós. Esta era de algum deles.
Não podendo suportar a vontade de consumir o doce de alto teor nutritivo, John pôs-se a rasgar com os dentes o papel laminado que o encobria. Adam riu internamente. O americano realmente não possuía qualquer controle ao se tratar de boa comida. Isso poderia comprometê-lo futuramente; tentá-lo com alimentos parecia algo fácil demais.
John olhou com evidente desejo para o doce desembrulhado. Tratava-se de dois lados retangulares de biscoito de chocolate, com recheio de igual sabor entre eles. O cheiro era irresistivelmente tentador. Adam jurava que John consumiria a Calorie Mate sozinho e sentiu-se injustiçado, tomado por uma mescla de tristeza e aborrecimento.
O surpreendendo, John mostrou-lhe a Calorie Mate. A segurava entre os dedos por uma das pontas, próxima dos lábios do mais novo. O americano deixou-se contagiar pelo pequeno e franco sorriso que recebeu em resposta, enquanto as impressões ruins em Adam desapareciam. O jovem russo segurou a barra calórica pela outra ponta e a quebrou ao meio, ou o mais próximo possível do que o meio poderia ser, e pôs-se a degustá-la com satisfação.
Não havia sido essa a intenção de John ao mostrar-lhe a Calorie Mate, tão próxima dos lábios róseos de Adamska. Tinha a intenção de dividi-la, é claro, mas não dessa forma. Todavia, optou por comer sua parte, sem nada comentar.
John também notou que Adam, sem que o mesmo percebesse, acabou por ficar com o lado maior da guloseima. Não se incomodou com o detalhe, nem mesmo por meio segundo. Um mais novo deve sempre ter a parte maior de qualquer coisa comestível, de acordo com suas próprias convicções de carinho para com irmãos.
A última mordida da Calorie Mate de John foi tomada por um amargor inexplicável. Lembrou-se de Eli e de David, e de como eram todos unidos no início. De como tudo compartilhavam, juntos e em harmonia. Ocultou seus sentimentos melancólicos com uma respiração profunda.
— Você está bem? — Adam cortou seus pensamentos, o assustando internamente.
— Estou. — forçou um meio sorriso. — Apenas tive uma lembrança ruim, eu acho. Não esperava que fosse perceber, geralmente escondo bem as emoções negativas.
— Vivi num lugar onde colecionar emoções negativas com companheiros de trabalho era quase um hobby. — demonstrou outro de seus sorrisos amáveis, capazes de contagiá-lo. — Vai ser difícil esconder de mim.
— Já que tocou no assunto... — semicerrou os olhos. — Você não falou muita coisa do que passou antes de chegar aqui. Fez um resumo breve, enquanto tagarelei sem parar.
— Minha história pareceu desinteressante depois de ouvir a sua. — respondeu honestamente, levando a uma risada breve de ambos. — Bem, já que quer mais detalhes... Eu nem sabia do que se tratava um pai ou uma mãe antes de chegar, por exemplo.
— E, depois da minha história, parte de você agradeceu por não saber. — brincou com a situação, sem qualquer pesar. — Estou certo?
— Estaria mentindo se dissesse que não. — exibiu um sorriso sem graça, temendo ofendê-lo.
Adam o observou rir por breve instante. Tranquilizado, decidiu efetuar o questionamento que desejava.
— Por que Eli se afastou de você e David? — perguntou, em meio a um lapso de coragem.
A risada de John dissipou-se feito vapor. Adam sentiu imediato arrependimento.
— Desculpe. Não precisa dizer. — procurou reparar a situação. — Digo... Vi a maneira como Eli e você se cumprimentaram hoje pela manhã, e como Eli ignorou a todos exceto você e o jeito triste que David olhava pra ele...
— Está tudo bem. — John fez o possível para aparentar outro meio sorriso. — Acho que te devo isso. Falei de como eu e meus irmãos éramos inseparáveis, mas não falei como Eli se isolou de nós. Esconder detalhes importantes não é bom, estamos estabelecendo uma relação de irmãos aqui.
— Não precisa falar sobre se não se sentir bem... De verdade.
— Não me incomodo. Eu prometo. — tocou amigavelmente o ombro de Adam com o cotovelo. — Mas só digo com uma condição.
— Qual? — franziu as sobrancelhas, sem qualquer ideia do que poderia ser.
John mirou os olhos, tão azuis, sobre as enluvadas mãos do loiro. Adam vacilou ao compreender a situação. Havia esquecido completamente do fatídico momento, durante o banho da manhã, onde John notou as rugas desformes e repulsivas em suas mãos ressequidas. O ferro quente havia feito um estrago hediondo, e John ter visto tais marcas parecia mais terrível que se fossem vistas por qualquer outro alguém.
— Se sente bem para dizer como aconteceu? — John perguntou calmamente, no intuito confortá-lo. — Estou curioso.
Adam manteve os olhos fixos na vermelhidão do couro das luvas. Voltava a sentir as náuseas da ocasião. A dor e o temor. A fumaça advinda de sua própria pele enquanto queimava, e o odor que exalou. O olhar desumano de seu antigo superior.
— Peguei no sono enquanto montava revólveres. Há seis anos. — fechou os olhos, buscando concentrar-se em não sentir toda a agonia mais uma vez. — Me levaram até o superior da fábrica... Ele queimou minhas mãos com ferro. Me fez olhar...
John o abraçou intensamente. Tão intensamente quanto o primeiro abraço, ou talvez mais.
Adam sentia-se confortado e protegido em seus braços, e foi tomado por seu calor novamente. Desejou correspondê-lo, envolvendo-o também com seus braços mais frágeis. John possuía um corpo forte para a idade, que perfeitamente o acolhia. Desejou senti-lo melhor, por mais tempo... Mas não conseguia.
O viu afastar-se mais uma vez. Adam sendo capaz, somente, de lamentar pelo bloqueio de timidez que o havia impedido. O fervilhar nas acentuadas maçãs de seu rosto lúrido se repetia.
— Sinto muito que tenha passado por isso. — o americano bateu em seu ombro. — E desculpe por chantagear você. Se você esconde as queimaduras, existe uma razão.
— Não. — Adam mostrou-lhe um sorriso enfraquecido, de bochechas coradas. — Uma marca nunca deve ser motivo de vergonha.
O americano conteve um desconhecido sentimento. Não encontrava uma razão para o corar no rosto de Adam, e sequer desejava compreender. Apenas aceitou de bom grado a reação involuntária, forçado a admitir para si mesmo que, por uma fração de segundos, desejou mordê-lo.
— Boss te disse isso? — John perguntou, controlando-se para não morder os próprios lábios.
— Ela mesma. Mas não mude de assunto. — cruzou os braços. A face retornava à coloração habitual. — Sua vez.
John afundou uma das mãos pelos cabelos castanhos, desordenando-os. Como e por onde poderia começar? Boas lembranças, anteriores ao caos qual se tornou a relação entre os três irmãos, lhe traziam sentimentos dolorosos.
— Em nosso primeiro ano por aqui — Snake principiou. — Eu e meus irmãos fomos o centro das atenções. Dos alunos, dos professores... De todos... Graças a nossas habilidades. E, bom... David e Eli eram muito unidos. Feito melhores amigos. Uma parte que não te contei era que, por eu ter me tornado praticamente um pai para eles, se uniam até mesmo contra mim de vez em quando. Principalmente quando eu dava minhas ordens de irmão mais velho. Ordens que visavam o melhor para eles, é claro, mas eles realmente faziam uma dupla e tanto para me contrariar.
— Os entendo perfeitamente. — Adam brincou, para quebrar a tensão no ar, e provocou em John um riso ligeiro.
— Eu sei. — deu em Adam outra cotovelada gentil. — Os dois eram engraçados às vezes, quando faziam essas coisas. Eu não conseguia ficar zangado com eles por isso, ou por qualquer outra razão. Eu gostava de ver os dois se dando bem, por mais que acabasse sobrando pra mim. — acariciou os pelos faciais, tentando lembrar-se de onde parou. — Aqui em Cobra Unit, nesse tempo onde todos queriam saber mais sobre nós, Eli e David faziam uma dupla tão incrível que os chamavam de Les Enfants Terribles... Nome de um livro francês antigo que realmente falava sobre dois irmãos. “As Crianças Terríveis”.
— Liquid e Solid. — o russo concluiu, esclarecido. — Eles eram mais unidos. Isso explica o motivo de você ser o único Snake a não receber o nome de um estado físico.
— Você sabe demais pra quem viveu trancado numa fábrica, cowboy. — com o ombro, John o empurrou fracamente. Um contente sorriso brotava nos lábios de Adam.
— Tive aula de Ciências hoje, esqueceu? — exibiu-se orgulhosamente pelo conhecimento adquirido. Refletiu por uma pequena quantia de tempo. — Se bem que... Naked também é um “estado físico”, se pararmos para pensar...
O rosto de Adam queimava novamente. Lembrava-se do momento onde foi quase flagrado, durante o banho da manhã. John apenas ria, compreendendo erroneamente o constrangimento pelo russo sentido.
— Boa suposição, mas não é bem assim. Fui o primeiro a receber o nome Snake, graças às técnicas de CQC que eu e Boss criamos. Como se eu fosse um honorário dos Cobras... Os parceiros de The Joy. Naked por eu ser capaz de agir numa infiltração sem uso de armas letais, se um dia for preciso. Solid e Liquid vieram depois. Por causa da união deles, por serem meus irmãos, por terem habilidades notáveis... E todo esse papo de “futuros soldados célebres”. — fez aspas no ar. — Acho tudo isso uma bajulação desnecessária, vinda de um bando de puxa-sacos.
— Deve ser tão ruim ser admirado. — falava sarcasticamente, rolando com os olhos. — Que pena de você, John.
— Estou falando sério. Para tudo existe um limite. Não gosto de puxa-sacos, já puxaram tanto o meu que deveria estar arrastando pelo chão.
— Meu Deus, John — segurou a ponte do nariz, de olhos cerrados. John gargalhava. — Por favor, continue o que estava falando antes.
— Certo. Certo... — recuperava fôlego e a compostura. — Vou manter o foco. Provavelmente, se perguntou o que poderia ter desfeito uma amizade como à de Liquid e Solid. E a resposta, talvez, seja ciúmes. Ou inveja. — suspirou. Balançava a cabeça negativamente, olhando para baixo. — Com o passar de algum tempo, Eli passou a achar que David era melhor que ele. Mais admirado pelas pessoas, por Boss... E por mim. Ele realmente passou a achar que David era meu irmão favorito, e o protegido favorito de Boss. Achava que David era mais próximo de mim e de Boss do que ele.
John passava as mãos nervosamente pelo rosto e pelos cabelos. Adam não se atrevia a pronunciar qualquer ruído.
— Eli não se importava se eu era mais próximo de Boss que ambos. Ele, apenas, queria ser melhor que David. Em todas as coisas. Talvez ele fosse grato demais a mim para me odiar também. — franziu as sobrancelhas, enraivecido. — E tudo isso começou por um boato de que Eli não era realmente meu irmão e de David. Por não se parecer tanto assim conosco. Por ter os genes recessivos de nossa mãe.
O jovem russo engoliu em seco. Falhava em sua respiração, antes contínua. A conversa que tiveram na biblioteca, antes de Joy chegar e interrompê-los. Eli esteve prestes a agredi-lo após um infame comentário sobre a ausência de semelhanças entre ele e os irmãos mais velhos. Adam o havia ferido, ausente de percepção. Arrependia-se amargamente.
Eli o detestava, mas Adam não correspondia a esse sentimento. Desconfiava, desde o início, que o temperamento explosivo do loiro americano era resultante de algo traumático. O jovem russo desejava desculpar-se, ainda temendo que Eli não fosse aceitar. Poderiam não ser amigos, mas poderiam conviver sem ódio.
— Eli e David passaram a brigar. Dia após dia. — John prosseguiu. — Eli preferiu mascarar suas inseguranças com ira, e se isolou de nós. E, mesmo não estando mais na idade, Eli fez um amigo imaginário para não se sentir sozinho. — riu, tristemente. — E esse “amigo” parecia alimentar a raiva dele. Eli o desenhou uma vez, numa aula de artes, e era assustador. Cabelos vermelhos, roupas pretas caídas e usava uma máscara de gás. Eli ficou transtornado... E tornou-se amigo de um grupo de alunos de má conduta.
— E aqui estamos nós. — Adamska encontrava-se incapacitado de encobrir sua angústia.
— Ele odiou tanto quando fiz amizade com Kaz, com Ahab... Dizia que eu o estava substituindo. Não tentou afrontá-los, mas os detestou. Pela forma como ignorou você, ele o detesta também agora.
Silêncio. Ambos olharam-se, sem uma palavra. Adam estava trêmulo por apreensão, mas procurava ocultar o estado corpóreo. Tudo fazia completo sentido. Não se sentia capaz de contar para John sobre as ameaças e provocações de Eli. Era um irmão de John, possuía seu sangue, e por John era amado. Jamais seria capaz de interferir.
— Não se preocupe. Ele não vai fazer nada. — John assegurou. — Ele não é mau. Um dia, ainda vou conseguir resolver tudo entre nós, e ele voltará a ser um Snake. Será seu amigo, também. Preciso somente de uma oportunidade para que ele me escute. Ele vai amadurecer, eu sei que vai.
— Eu acredito. — empenhou-se para sorrir e tranquilizá-lo, obtendo algum sucesso. — Vocês são irmãos. Não podem ficar assim para sempre. — refletiu brevemente. — Acho que também sou irmão dele agora.
John sorria para ele, de lábios unidos, como na grande maioria de seus sorrisos. Estava pleno. Exultante, como se um enorme peso tivesse saído de sobre seus ombros. Adam foi capaz de fazê-lo crer realmente na bondade de Eli e que a amizade entre os irmãos possuía esperança de retorno. Pela primeira vez, as palavras de John sobre acreditar no amadurecimento de Eli passaram a não estar mais vazias.
— Ei. — tocou rapidamente, com o dedo indicador, a ponta brilhante do nariz de Adam. — Vamos falar de algo mais animado.
— Tem razão. — o russo acariciou uma barba inexistente em seu rosto imaculado, inconscientemente imitando um hábito do mais velho. — Acho que não existe nada mais alegre de se pensar do que aquela menininha que te abraçou.
— Paz? Ela é mesmo um anjo. Os pais dela são militares e a matricularam aqui no início desse ano. Estava tão tímida quando chegou...
— Ela parece gostar muito de você. — sorriu, lembrando-se da risada que a menina tinha.
— Eu que a ajudei quando chegou. A encontrar a sala dela, os dormitórios... E ela se apegou a mim. Por um tempo, me seguia para todos os lados, mas sempre ia embora quando os outros chegavam. Não tive muito tempo para ela, então recomendei que fizesse algum amigo. Demorou bastante, mas conseguiu. E, acredite ou não, ela tem oito anos.
Adam arregalou bem os olhos.
— Parece ter uns três anos a menos que isso.
— Eu também não entendo. — vasculhou em sua mente por algo que pudesse explicar a aparência da pequena Paz. — Ela não gosta muito de comer. Come apenas porque fiz com que prometesse que faria, sempre muito pouco. Devem faltar nutrientes nela para crescer como deveria.
Olhou para Adam, escarnecendo-o saudavelmente com mais um de seus sorrisos cínicos.
— O que foi? — as sobrancelhas loiras em linha reta, frustrado.
— Ela não te lembra alguém?
— Não sou pequeno. — cruzou os braços, ainda irritado. — Cresci normalmente.
— Você comeu pouco na vida, cowboy... Não se preocupe, você ainda vai crescer.
Adam mordiscou a parte interna da bochecha, esquecendo-se da raiva. Não gostava de admitir, mas sabia que era realmente menor em comparação aos outros. Deveria estar mais bem formado fisicamente para um rapaz de 14 anos.
— Vou crescer tanto quanto você. Vai ver. — defendeu-se, seguro de si.
— Eu acredito.
Bateu nas costas do fã de western, conforme seu costume exigia, e levantou-se sem aviso prévio. Sem muito pensar, Adam o imitou, trilhando seus passos até a porta de ferro.
Assim como eram Eli e David e assim como Paz um dia fez, de alguma forma o russo sentia-se seguro junto a John, e o seguia sem ser necessário um pedido. John não poderia negar jamais o quanto gostava de sua posição de liderança, e muito menos o quão agradável era ter Adam em seu encalço.
* * *
Faltava pouco mais de vinte minutos para a pequena refeição que antecederia o jantar. A dupla andava pelo instituto novamente, desta vez procurando pelos demais rapazes, mesmo que caminhassem sem específica direção. Em todos os lugares, muitos alunos reuniam-se com amigos em conversas grupais, e vigilantes armados permaneciam em alerta aos quatro cantos. O belo pôr do sol retornava, tingindo a todos com cores quentes, ocasionando um ar ainda mais leve de se respirar.
— Em uma luta, quem ganharia: eu ou Johnny Mason? — John perguntou, quase aleatoriamente, quebrando o silêncio.
— Johnny Mason. — Adam respondeu sem pestanejar. A pergunta frívola, porém divertida, o fez sorrir.
— Eu disse luta, cowboy. Não duelo.
— E tem alguma diferença?
— É claro que tem. — afirmou, irrefutável. — Aposto que Mason só sabe usar revólveres. Revólveres têm capacidades para seis balas e recarga lenta. Estaria perdido numa briga corpo a corpo.
— Pra quê ele precisaria usar as mãos para lutar se ele tem armas, John?
— Porque, Adam — o encarou. — Se alguém o desarmasse, não restaria nada. Sei desarmar alguém, é aí que Mason perderia.
— Se não tiver levado um tiro na testa antes de conseguir tirar a arma dele... Quem sabe?
John soou aborrecido com sua teimosia e argumentos. Adam ria internamente.
— Ele não me veria chegando. E, se visse, poderia tentar atirar por instinto, mas não me acertaria.
— As balas de Mason ricocheteiam. Quando menos esperasse, ela estaria voltando diretamente para você.
— Isso é impossível.
— Não é.
— Balas se alojam nos lugares que acertam, Adam. — pensou por um instante. — Certo. Poderia ricochetear dependendo do que acertasse, mas jamais poderia voltar para mim com exatidão.
— Poderia. Mason fez isso muitas vezes. Já matou três bandidos com uma só bala num bar. — gesticulava ao falar, apontando com os indicadores como se munido por revólveres fantasiosos. — Agora imagine o que fez nos livros que ainda não li.
— Johnny Mason é apelativo demais. — fechou a cara. — Que graça tem um personagem assim?
— Por que apenas não aceita que perderia? — zombou da situação com um sorriso no rosto.
— Eu não perderia para um cowboyzinho de quinta.
— Só diz isso porque não leu. — Adam alterou-se, parando onde estava. — Red Western é incrível.
John sorria descaradamente, deixando o mais baixo tanto irritado quanto confuso. O americano desejava apenas provocá-lo, e conseguiu. Pouco a pouco, o estresse em Adam desaparecia, dando lugar a um pequeno sorriso e bochechas rosadas. Motivos para tal, o mesmo não compreendia, e desta vez não se importou em tentar descobrir.
— Você é irritante. — empurrou John fracamente, com uma só mão. Bom humor e leveza em seu semblante.
— Você colhe o que você planta, cowboy. — deu de ombros. Os braços cruzados, demonstrando um sorriso mais sutil.
John voltou o olhar para uma direção incerta, com sua face encoberta por parcial seriedade. Adam permanecia encarando-o, contemplando cada mínimo detalhe de seus lineamentos faciais.
Fitava, com atenção especial, cada fio bem ajeitado de sua curta barba. As linhas de expressão rasas que marcavam seu rosto feito recurvos desenhos, traçados desde o canto interno dos olhos até a terminação de seu maxilar. A pequena mecha, rebelde e insistente, que caía sobre sua testa. As sobrancelhas quebrantadas, por pouco invisíveis. Enquanto sério, John poderia ser confundido com um rapaz mau para quem não o conhecesse suficientemente. Qualquer um com inteligência funcional pensaria por mais de cinco vezes antes de tentar se meter em seu caminho.
Adam reteve um profundo desejo de passar um dos polegares sobre os lábios finos e secos que John possuía. Seu ritmo cardíaco acelerava-se lentamente, e seu peito aquecia.
— Snake — a voz melodiosa de Tatyana tirou Adam de seus devaneios.
O russo enfim compreendeu o motivo pelo qual John olhava para aquela direção: a garota aproximava-se. Um grupo de onde Tatyana viera, composto por três garotas a mais, encontrava-se um tanto distante. Entre elas, Adam reconheceu a que esteve junto a Ahab ao fim das primeiras aulas, comunicando-se por sinais. Todas os olhavam atentamente.
— Tatyana. — John mostrou-lhe um sorriso diminuto, breve e educadamente.
— Preciso falar com você... Outra vez.
Tatyana mantinha os olhos fixos em John. Entretanto, vez ou outra, voltava-os para o jovem russo. A presença de Adam era por ela indesejada, e tal detalhe não passou por ele despercebido. Sentiu-se reduzido.
— É claro. — o mais velho permanecia impassível. — Diga.
— Bem... — a jovem fitou Adam, definitivamente. Suas palavras passavam a se dirigir a ele. — É preciso que seja a sós. Desculpe... Ahab?
— Adam. — John esclareceu. Suas feições firmes e imutáveis.
— Adam. — Tatyana corrigiu-se, sorrindo amavelmente para o russo. — Que coincidência... Minhas amigas me chamam de Eva.
Talvez fosse apenas uma de suas más impressões ou desconfianças ilógicas, mas Adam poderia jurar que era uma amabilidade falsa. Sentia incômodo, e toda a ternura que Tatyana implicava deixava-o nauseado. Desejava retirar-se dali imediatamente, apenas para haver mais espaço entre ele e a garota de gloss nos lábios, mas não conseguia. Não enquanto John ficasse para trás.
— Estou com ele agora, procurando por Kaz e David. — disse John. — Pode me dizer depois, se quiser.
— Oh... — Eva fez beicinho, desapontada. — Que pena... Procuro você depois, então.
Aproximou-se de John. Aproximou-se perigosamente. Aproximou-se demais.
Adam suava frio. Seus olhos involuntariamente mais abertos, seu coração palpitante e de batidas desconformes. Tatyana envolvia John por cima dos ombros com seus braços, os lábios de ambos altamente próximos. Trocavam olhares compassíveis, enquanto Adam sentia-se desmoronar.
Tatyana beijou-o docemente no canto dos lábios e se foi, a caminho de suas amigas sorridentes e incapazes de sequer esconder que haviam assistido ao show. Um sorriso brotou no canto dos lábios de John enquanto observava o caminhar encantador e o movimentar delicado que faziam os cabelos presos da loira.
A dor desagradável retornava a Adam. A angústia, as feridas sentimentais, os fortes nós em seu estômago, o peso sobre seu corpo.
Ele queria chorar. Por raiva, por tristeza... Por ambos... Ele não sabia.
— Adam — John pareceu despertá-lo de um sono profundo. Após segundos cegado pela agonia, Adam havia sido desligado completamente do mundo ao seu redor. — Acorde. Vamos.
Pesadas gotas d’água caíam dos céus, molhando suas fardas. Mascaravam perfeitamente as lágrimas salgadas que rolaram dos olhos de Adam, sem qualquer permissão. John removeu a jaqueta que usava e com ela cobriu a ambos, rapidamente isolando-os da chuva. Envolveu o mais novo com um de seus braços, tornando-os próximos o bastante para que apenas aquela jaqueta devidamente os protegesse, e puseram-se a correr.
Momentaneamente, enquanto corria junto a John na busca por um abrigo, Adam enxergou em meio à chuva uma figura encapuzada. Seu corpo era translúcido, e seus pés não tocavam o chão. O rosto pálido da presença fantasmagórica parecia brilhar, e mostrava-lhe um sorriso afável. Tão rapidamente quanto o viu, a figura desaparecia, e Adam não o temeu por um segundo sequer.
O fantasma o havia ajudado. Adam, de alguma maneira, sentia isso em seu coração.
* * *
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