Svyazi

8 Capítulo VIII - Éden


Após mais uma confortável noite de sono, o ritual das manhãs em ambos os dormitórios de Cobra Unit repetia-se. O sinal ensurdecedor ressoava pelas paredes, fazendo Adam apertar os olhos e encolher-se sobre o lençol acetinado.

Havia passado toda a noite inteiramente coberto, até mesmo por sobre a cabeça, resistindo ao calor e à baixa circulação de ar sob o cobertor espesso. A umidade causada pela chuva ao fim da tarde anterior havia presenteado as folhas das árvores do lado externo com delicadas gotas de orvalho. Era o início de uma sexta-feira, e o segundo dia letivo do jovem Adamska. No dia sucessor, seria enfim o sábado dedicado às aulas profissionalizantes para qual Adam antes nutria ansiedade em começar.

Deveria ser uma sexta-feira alegre, onde saltaria da cama e correria até os chuveiros aos tropeços causados pela larga calça de seu pijama. Entretanto, sequer havia vestido um pijama antes de dormir, e sequer possuía algum resquício de alegria para se levantar.

Sua plenitude e ansiedade haviam desaparecido, sendo substituídos puramente pelo sentimento de angústia. Sentia dores de cabeça intermitentes e um inquietante aperto em seu peito. Passava as nuas e marcadas mãos pelos cabelos curtos, puxando-os suavemente, na tentativa de que os incômodos cessassem.

Não sentia qualquer fome para o café da manhã. Não possuía a mesma sede por adquirir conhecimentos nas aulas ou por conversar e rir com seus amigos. Desejava, somente, permanecer soterrado pelo cobertor, até que o dia chegasse ao fim.

Enquanto corria junto a John na tarde anterior, Adam se manteve em completo silêncio. O americano esteve totalmente alheio ao que o mais novo sentia, concentrando-se somente em conduzi-los ao refeitório para abrigarem-se. O fã de western, naquele momento, lembrava-se de quem Tatyana era, e onde havia escutado seu nome anteriormente.

Em seu primeiro dia em Cobra Unit, enquanto banhava-se, Adam ouvia silenciosamente a descontraída conversa de um grupo, numa ocasião onde os rapazes contidos eram meros desconhecidos. Falavam sobre Tatyana, sobre John tê-la beijado, ou talvez o contrário; Adam definitivamente não se importava com a ordem dos fatores. De uma forma ou de outra, John não a rejeitou, e esta era a parte que o feria.

Sentia náuseas e pontadas de dor. Sentia-se socado no estômago, sem ninguém tê-lo atingido fisicamente, mais uma vez. Seu coração pulsava dolorosamente, com mais força que o natural. Não sentia firmeza em seus passos, e nem mesmo o prazeroso calor do abraço de John poderia acalmá-lo desta vez. Em vez disso, aumentaria a tensão que palpitava por todos os seus músculos.

No grande galpão do refeitório, enfim amparados da chuva, encontraram David e Kaz. Hal e Ahab os acompanhavam, e o grupo esteve completo. Certa quantidade de alunos também se abrigava no local, enquanto outros poderiam estar abrigando-se nos dormitórios, onde havia camas quentes para cochilar. Adam desejou estar entre esses outros.

Distraidamente, John pôs-se a conversar com os demais no grupo, e o jovem russo aproveitou a oportunidade para entregar para Ahab, com discrição, a parte do bolo de aniversário que lhe havia prometido. Agradeceu internamente por Ahab não possuir costume de pronunciar muitas palavras e, sem qualquer aviso e sem por ele ser dedurado, se foi.

Ainda que alguém o houvesse notado enquanto retirava-se, não ousou olhar para trás. Desejava ficar sozinho, mesmo que não fosse esta a cura para suas dores. Desejava estar distante de John, apenas por um momento. E, ao mesmo tempo, ansiava que John o seguisse, mas ele não o fez.

Sua finalidade era sair sem ser por ninguém notado, principalmente por John, e ter conseguido realizar tal objetivo com êxito fazia-o sentir-se ainda pior.

Mediante tantas dúvidas, a dor em seu peito aumentava gradativamente. Precisava ocupar sua mente, ou desligá-la, até que o terrível sentimento passasse. Tomou rumo ao prédio D, protegendo-se da chuva com a própria jaqueta, sem sentir frio algum. Isolou-se na biblioteca, onde End dormia confortavelmente em sua poltrona. Sua ave de estimação segurava um lápis com uma das patas e fazia rabiscos aleatórios em papéis velhos, provocando em Adam um sorriso breve em meio ao turbilhão de más sensações que o envolvia.

Caminhou por entre os corredores de estantes, até encontrar um esconderijo que julgava ideal, adentro ao confuso labirinto literário. Sentou-se no solo frio, logo atrás da seção de livros de filosofia, e encolheu-se completamente. Abraçava fortemente suas pernas, escondendo seu rosto sobre os joelhos trêmulos. Inspirou e expirou lentamente, até tornar-se mais calmo, mesmo que sensações incômodas insistentemente viessem a prevalecer.

Desejou que Joy aparecesse na biblioteca novamente. Que visse o quão perturbado estava e que dissesse algo para confortá-lo ou fazê-lo compreender a situação. Ou Dra. Clark, que sabia como reerguer o astral das pessoas, sempre cuidadosa e ótima em contar histórias. Elas certamente saberiam o que dizer, ou ao menos tentariam.

Leu o exemplar de Red Western pego no dia de sua chegada, durante horas, até sentir seus olhos latejarem. Quando se sentiu fatigado, a escuridão da noite invadia a biblioteca pelas janelas de vitrais, e tocava o sinal de anúncio para o jantar. Para quem anteriormente não possuía qualquer direito a refeições adequadas, não seria nenhum empecilho abrir mão do jantar por um dia, e assim o fez. Não sentia fome, e não desejava ver ninguém.

Encaminhou-se ao seu respectivo dormitório. Não foi ao banheiro para absolutamente nada. Estava exausto, e a única coisa que desejava rever era seu travesseiro macio. Sentou-se em sua cama e tirou os coturnos e as meias quentes, permitindo que seus pés respirassem. Removeu suas luvas, libertando as mãos queimadas, e guardou o par bem dobrado sob o travesseiro. Cobriu-se até a cabeça, trêmulo, e rapidamente sentiu seu corpo desligar.

John esteve em seus sonhos. Não no deserto do antigo oeste, compartilhando seu charuto aceso outra vez. Seus sonhos foram compostos apenas por uma projeção de John, como se sua mente recapitulasse cada segundo onde esteve junto a ele nos últimos dias.

Joy e Clark deram-lhe atenção em sua chegada ao instituto, seu grupo o fazia ter amigos com quem conversar, professores poderiam ensinar-lhe coisas interessantes, mas John parecia ter feito mais que todos. Entregou a Adam um vínculo especial.

Talvez fosse como a pequena Paz e os mais jovens Snakes: sentiam-se protegidos na presença de John. Possuíam uma afeição especial e alguma espécie de gratidão por seus atos. Poderia ser uma gratidão semelhante a que Adam tinha por Joy, que lhe entregou estudos, um teto e cuidados graças a sua iniciativa de uma escola formadora de soldados.

Não. Adam não realmente acreditava que seus sentimentos para John se assemelhariam a qualquer um destes. Joy, para ele, era como uma mãe; dentro de inúmeras limitações mas, ainda assim, assemelhava-se a uma mãe. Paz, Eli e David viam John como um irmão, como um segundo pai e um protetor. E, por mais que Adam muito tentasse, não era capaz de vê-lo como o irmão que John desejava ser. Tratava-se de algo muito maior.

O jovem russo jamais teve uma família. Alguém para chamar de irmão ou de melhor amigo. Nunca teve alguém que ensinasse a ele, cuidadosa e calmamente, pequenos valores de suma importância. Jamais teve alguém que zelasse por ele, que o fizesse companhia ou que o fizesse rir. John entregou a ele todas essas coisas.

Sentia-se tão confortado quando John cobria seus ombros com um dos braços... Até mesmo os tapas nas costas e os empurrões que dele ganhava eram aprazíveis. Seu abraço parecia tão acolhedor e quente, e seu pequeno beijo em sua testa lhe havia causado tanto calor e abalado cada uma de suas células... A ponta úmida daquele charuto, vinda dos lábios do habilidoso soldado em desenvolvimento para os do menino russo recém-chegado... Jamais poderia esquecer.

Inconscientemente, nutria expectativas frágeis em John. Não sabia exatamente quais eram, mas os sentimentos estavam lá. Crescendo lentamente, consumindo-o. Ver Tatyana e John daquela maneira, num momento mais que afetuoso, tendo consciência de que anteriormente o americano a havia beijado, fazia todas as expectativas se quebrarem.

E o olhar de John para ela, enquanto se afastava...

Ainda em sua cama, afogado em seus cobertores, Adam escondeu-se ainda mais. Seu coração tornava a batidas descompassadas e dolorosas, e seu corpo parecia enfraquecer. Sem importar-se com consequências, fechou os olhos fortemente, e tornou a ser absorvido por seus sonhos. Precisava que a angústia o deixasse.

* * *

Adam.

O cobertor sobre seu rosto foi abruptamente puxado. Seus olhos sensíveis queimaram com a claridade, obrigando-o a cobrir toda a face com ambas as mãos. O rosto brilhava devido ao suor.

Adam — a voz familiar o chamava novamente. Parecia suave e distante. — Hora de levantar, cowboy.

Adam grunhiu em lamentação, ouvindo uma breve risada em resposta. A mão de John agarrou seu ombro com firmeza, na tentativa de despertá-lo. Virou-se levemente para baixo e afundou o rosto no travesseiro, desejando desaparecer.

Se estava zangado, triste ou tendo qualquer outro mau sentimento direcionado a John, por que sua presença o fazia sentir-se bem? Seu coração não mais possuía batimentos irregulares, dolorosos e desconfortáveis. Possuía um ritmo tranquilo e caloroso, por mais tenso que seu corpo estivesse.

— Na verdade, a hora de levantar já passou há muito tempo. — John sentou-se à beira da cama, sua voz imensamente calma e mais nítida. O colchão afundou ligeiramente com o peso adicional. — Onde você esteve? O procurei por todos os lugares.

O peito de Adam aqueceu com ímpeto. Um frágil sorriso no canto de seus lábios, os olhos impossíveis de se abrir.

— Você procurou por mim? — ergueu o rosto, lenta e fracamente, permitindo-se respirar. A fraqueza que o dominava tornou suas palavras quase incompreensíveis.

— É claro. — um tom irritado surgia em sua voz, fazendo o russo reter-se em apreensão. — Você simplesmente sumiu sem avisar. Não apareceu no jantar, não apareceu nos chuveiros, não apareceu no café da manhã...

Os olhos de Adam abriram-se em pequenas linhas. Podia enxergar os beliches vazios ao seu lado. Seus globos oculares ardiam como brasas devido a intensa presença de luz. Sentia-se débil e ignorante por ter sido evasivo daquela maneira; John era seu amigo, afinal de contas. Assim como os outros.

— Pode responder minha pergunta? — John retornava à postura calma e paciente. — Você realmente me preocupou.

— Me desculpe — o peso do arrependimento caía sobre seu corpo cansado. — Eu só... Não estava me sentindo bem.

— Comeu mais bolo do que seu corpo pode aguentar? — riu brevemente. Apertava o ombro do fã de western com carinho notável. — Não é algo para se envergonhar, cowboy.

Adam suspirou, abatido e envolvido em pesar. A vontade de continuar a dormir retornava. De um lado, sentia-se grato por John não compreender a razão de seu afastamento e tristezas; de outro, sua negligência que beirava a estupidez o aborrecia profundamente. Reflexivo, mordiscava o interior da bochecha.

Enquanto absorto em pensamentos, sentiu dedos quentes percorrendo sua nuca, explorando alguns centímetros por seus cabelos claros. Choques gélidos atravessaram-no, causando-lhe arrepios, enquanto John acariciava lentamente por entre os fios curtos. Adam reuniu suas pálpebras involuntariamente e entreabriu os lábios em deleitação, seu corpo tornando-se leve, seu coração fervendo em batidas calmas.

— Nada disso. — sorrindo, John afastou a mão que o tocava. Adam reclamou internamente. — Está quase dormindo outra vez.

— Perdi alguma aula? — perguntou, buscando esquecer a boa sensação que havia experienciado.

— Não. Ainda falta algum tempo para a primeira aula do dia.

— Então posso dormir um pouco mais. — aninhou-se confortavelmente na cama, desleixado, selando os olhos.

— Você precisa escovar os dentes e tomar um banho. — pôs-se a puxá-lo fortemente pelo braço. — Levanta, Adam.

— Me acorde outra vez quando faltar meia hora. — resistia à força do americano. — Terei tempo o bastante.

— Adam, você precisa comer.

— Posso aguentar até o almoço.

— Bela iniciativa para quem disse que quer crescer. — o fitava. — Quanto mais ficar na cama, mais indisposto você vai estar.

O russo optou por ignorá-lo. Fingiu um bocejo, apenas para perturbá-lo por um momento. Gostaria de poder ter enxergado a face aborrecida que John fazia.

— Então, aqui está ele. — Adam identificou palavras advindas da voz de Kaz. Sons de passos além dos dele aproximavam-se, adentrando pelo amplo quarto.

Prontamente, mesmo de olhos fechados, o jovem russo inseriu uma das mãos sob o travesseiro. Recolheu as luvas ali guardadas e pôs-se a vesti-las rapidamente. O conforto da companhia de John o havia feito esquecer-se de usá-las.

— Não o vimos sumir ontem à tarde. — dizia Hal. Sua voz divergindo-se entre serenidade e inquietude. Suas seguintes palavras soando como um sussurro. — Parece que John anda sendo uma má influência para ele também.

— Adam se escondeu de nós porque estava com dor de barriga. — John expôs sem escrúpulos, em tom brincalhão. As bochechas do rapaz sobre a cama aqueciam. — E, agora, ele não quer sair da cama.

— Não pode estar falando sério. — ouviu de David. — Adam, todo mundo passa por isso às vezes.

— Sono pesado demais para ouvir o sinal tocar? — Kaz zombou. — Não querendo bancar o Snake com sua irritante animação matinal, mas o dia está bom demais para ficar na cama.

— Já tentei de tudo para fazê-lo levantar. — um sorriso maldoso surgia na face do mais velho Snake. — Isso pede por medidas drásticas.

— Eu concordo. — a mesma entonação perversa na voz de David. — Se não quis se levantar por bem, será por mal.

O colchão tornava-se plano outra vez assim que John se pôs de pé. Um mau pressentimento crescia em forma de cócegas pelo ventre de Adam enquanto os demais rapazes aproximavam-se. Pôde sentir a presença de cada um deles, posicionados próximos a cada canto da cama, segurando cada ponta do lençol sobre o qual deitava.

“Não fariam isso.” Tentou convencer a si mesmo em pensamento.

— No três. — John comandou.

— Um — o quarteto iniciou a contagem em uníssono. Seguravam o lençol com ainda mais firmeza.

Adam levantou-se num salto, enraivecido, proclamando um sujo palavrão em russo que sequer lembrava ter conhecimento. Suas bochechas queimavam enquanto os demais rapazes explodiam em risadas. Recolheu as botas e bolsa sob a cama e caminhou para fora do quarto em passos duros. No fundo, precisava admitir que havia sido uma situação cômica, mas estava furioso e envergonhado demais para confessar.

No corredor, Adam manipulou o cadeado de seu armário para inserir a senha de quatro dígitos. Ouvia as risadas no quarto chegarem ao fim, e seu embaraço em conjunto esvaía-se. Sorriu ligeiramente ao rever a antiga bota de espora brilhante no interior do armário, semiescondida sob velhos os trapos que vestia na fábrica.

— As coisas são sempre mais fáceis quando decidimos cooperar. — Kaz passou por ele, indo em direção às escadas. David e Hal seguiam-no, sempre lado a lado. — Nos vemos no pátio, Adam.

— Nos vemos lá. — Adam acenou para ele, surpreendentemente sereno. Um sorriso diminuto nos lábios. O método para erguê-lo da cama havia sido eficaz, afinal.

— Ei — John segurou o jovem russo pelo ombro novamente, olhando em volta antes de prosseguir. Sussurrava ao falar, para que somente Adam o ouvisse. — Trouxe algo para você.

— Um pouco da dignidade que você não tem? — caçoou, sorrindo descaradamente.

O americano o encarou, sério e circunspecto. As rasas sobrancelhas em linha reta. Adam conteve uma euforia que crescia dentro de si.

— Você colhe o que você planta. Se lembra? — o sorriso permanecia intacto.

— E você vai colher em dobro. — John sorriu, socando o braço de Adam levemente. O mais novo ria com satisfação.

John tirou da bolsa transversal um embrulho feito numa limpa folha de papel pautado. O abriu cuidadosamente, tirando dentre os papéis um sanduíche onde manteiga de amendoim e geleia escorriam leve e tentadoramente pelas bordas douradas. O entregou para Adam, que por sua vez o segurou com entusiasmo. A fome despertava instantaneamente com rugidos por seu estômago.

— Como você...? — Adam incitou a perguntar. O sorriso cínico no rosto de John o fez ponderar. — Pensando bem, prefiro não saber.

— Coma. — deixou dois tapas nas costas do mais baixo, afastando-se também para as escadas. — E tome um banho, não pense que esqueci. Nos vemos lá fora.

As bochechas de Adam coraram enquanto olhava para o alimento em mãos.

John havia se preocupado com ele. O procurou, o ofereceu carinho para despertá-lo. Empenhou-se em encontrar um meio de mantê-lo alimentado.

Adam precisava esclarecer uma cruel dúvida que retumbava em seu âmago.

— John. — chamou-o em meio a um relapso, enquanto o mais velho encontrava-se ainda no corredor. Mordeu o lábio inferior, arrependendo-se no mesmo instante.

Hm? — John parou onde estava, a certa distância. Voltou-se para Adam, desorientado.

— Tatyana parecia querer te dizer algo importante. — sentia vontade de abraçar as fatias de pão em suas mãos, apenas para amenizar o quanto estava encabulado. — Por que você apenas não pediu que eu saísse?

— E abandonar um amigo por uma garota? — desdenhou com um meio sorriso, retornando ao seu caminho. — Só idiotas fazem isso.

* * *

As aulas pareceram terminar rapidamente. O dia, num todo, parecia passar rapidamente.

Ao fim da tarde, o grupo obrigava-se a conviver com uma temperatura particularmente tórrida. Adam, numa atitude desesperada, via-se limpando o suor em sua testa com as longas mangas da camisa que vestia, enquanto os demais sequer pareciam afetados com o calor. Sua descendência russa muito o auxiliava a resistir a climas frios, mas quanto a tempos quentes... Devia ter estado emocionalmente abalado a níveis alarmantes para suportar dormir totalmente coberto por toda uma noite.

Durante a fila do almoço e após alimentar-se, Adam devorou Red Western como se sua vida dependesse disso. Restavam poucas páginas para que chegasse ao fim, e mal via a hora de usufruir de outro exemplar. Com o fim das aulas teóricas da semana, desejava banhar-se e repousar junto aos amigos sob uma sombra fresca até que a refeição da tarde chegasse. Entretanto, Hal havia sugerido que todos fossem à biblioteca para ajudá-lo a buscar por mangás novos, fazendo Adam instantaneamente desejar uma modificação no curso de seus planos.

Com apenas breves observações e convivência com seu círculo de amigos, Adam pôde notar o grau de proximidade entre cada um: Embora David e John fossem irmãos e a enorme amizade entre os dois fosse inegável, Hal era o verdadeiro melhor amigo do Snake do meio. Adam também era capaz de sentir que, antes de sua chegada ao instituto, Ahab, Kaz e John eram altamente próximos, ainda que Ahab e Kaz soassem mais unidos entre si.

John era próximo a todos; no entanto, não possuía uma maior amizade fixa assim como os demais. Não por se considerar satisfeito como um lobo solitário, por descaso, ou por falta de vontade. O grupo, apenas, encontrava-se numa quantidade ímpar antes do russo chegar. Entre as duplas mais fortes, John remanescia.

Poderia ser esta a explicação para o americano estar sempre junto ao jovem russo. Ao caminhar, ao se alimentar, durante os banhos e em outras ocasiões, John preferia estar junto a ele.

Gostava de conversar com Adam sobre qualquer assunto. De quando riam sobre coisas aleatórias e de quando discutiam sobre temas sem nexo dos quais não deviam impor tanta seriedade. Possuíam algumas divergências de opiniões e de personalidade, e isso parecia os unir e tornar cada interação mais empolgante. E encontravam-se satisfeitos, apenas, por ter consciência de que o outro estava ali. Ao lado, fiel em seu posto, mesmo que se encontrassem em silêncio.

Adam poderia se acostumar com isso.

— Parecem duas crianças... — Kaz repousava uma mão no rosto em indignação, observando a acirrada disputa entre Hal e David num dos corredores formados por estantes.

David havia encontrado, antes de Hal, a edição de mangá por qual o mesmo aguardava há meses pela chegada. Era um exemplar seminovo, o que indicava ter sido uma gentil doação ao Instituto. Afinal, ainda que Cobra Unit detivesse da qualidade soberba de um colégio militar, tratava-se de uma instituição de ensino público. Necessitava, regularmente, de doações de livros para manter o cervo enriquecido e atualizado. E, para Hal, a implicância de David após tanta espera era algo atormentador.

David erguia a mão que segurava o mangá, tão distante de Hal quanto conseguia, impedindo-o de se aproximar para pegá-lo de volta. Os óculos redondos de Emmerich ameaçavam cair a cada uma de suas investidas falhas, enquanto David divertia-se com a situação.

— Snake... Por favor — Hal implorava desesperadamente.

Assim que suas mãos pareciam próximas de seu objetivo, David o impedia com o braço livre. Era afastado desta vez com uma mão pressionada no centro de seu rosto, entortando seus óculos.

— Você esperou por dois meses, não vai morrer por esperar mais alguns minutos. — afastava o mangá mais e mais. O sorriso entretido não abandonava seu rosto.

— Snake — choramingou, sem desistir da luta. — Sei que você não vai ficar com ele por apenas alguns minutos...

— Ele é realmente seu irmão. — Adam comentou para um John ao seu lado.

— É divertido perturbar um amigo. Talvez esteja no sangue. — sorrindo, acertou-o com o cotovelo. — E você não é muito diferente.

— Eu não era desse jeito antes de conhecer você. — piscou para John, num único olho, com seus braços cruzados. Um sorriso divertido no canto dos lábios rosados.

John conteve seu corpo num espasmo discreto. Um simples gesto, e Adam inconscientemente havia nele despertado uma vigorosa necessidade de aproximação.

Roubou de Adam a boina que usava e se dirigiu a uma enorme mesa circular, sendo pelo russo seguido. Enquanto sentavam-se nas muitas cadeiras ao redor, Kazuhira e Ahab ficavam para trás, com Kaz tagarelando descontraidamente ao encarar livros numa estante e Ahab mantendo-se em seu silêncio costumeiro. David e Hal ainda disputavam pelos quadrinhos japoneses, mas risadas de ambos podiam ser ouvidas mediante a exaustão em que se encontravam. End dormia em sua cadeira, emitindo roncos baixos, e seu papagaio bicava uma fruta fresca.

— Poderia me devolver? — impaciente, Adam pediu pela boina ao se sentar. Passava as mãos enluvadas pelos cabelos, sentindo-se nu com a ausência de algo para cobri-los.

— O calor está te consumindo, fique sem ela por um tempo. — pôs o adereço sobre os próprios cabelos castanhos, de forma um tanto torta.

Adam corou ligeiramente. Seu rosto fervilhava enquanto as mesmas cócegas geladas importunavam seu ventre. A boina parecia cair bem em John, embora gostasse ainda mais de ver seus cabelos livres e selvagens.

— Se quiser terminar este livro ainda hoje, é bom que comece logo. — tirou o Red Western da bolsa de Adam e o repousou aberto à sua frente.

— Por que não lê algo também? — pôs-se a folhear para encontrar a página onde havia parado. — Vai ficar aí sem fazer nada?

— Vou imitar nosso querido amigo End e tirar um cochilo. — fez um travesseiro com os braços sobre a mesa e deitou a cabeça sobre os mesmos, relaxadamente, sem tirar os olhos do outro. — Estou com fome, e sentir fome me dá sono.

— Está bem, mas não me atrapalhe. — iniciou a leitura, procurando ocultar em si o desconforto que sentia enquanto sob o olhar de John.

— Não vou, eu prometo. Nem irá perceber que estou aqui.

Para seu alívio, John voltou o rosto para a mesa, escondendo-o entre os braços e entortando a boina ainda mais em sua cabeça. Tranquilizado, Adam rapidamente viu-se imerso na leitura. Estava no ápice da história, no momento em que Mason salvaria uma clemente viúva e seus três jovens filhos de serem soterrados sob uma cavernosa mineração de diamantes. Toda a cidade o receberia com glória, sua nobre atitude o traria honra. A empolgação intensiva que Adam sentia o fazia desejar levantar-se e girar um par de revólveres em seus dedos, atirar em criminosos e se retirar triunfalmente montado num cavalo veloz.

John agitou-se ao seu lado, mudando a posição em que se sentava na cadeira. Passava a apoiar o cotovelo sobre a mesa e a bochecha sobre a mão, com uma face de completo tédio. Pôs-se a bater um dos pés de forma rítmica sobre o piso, nervosamente, gerando barulho. Adam pigarreou para captar sua atenção, olhando-o de soslaio.

— Desculpe. Agora é sério. — cruzou os braços, paralisando os pés. — Sem mais barulhos.

— Obrigado. — tornou ao que fazia, com o rosto ainda mais próximo do livro.

Quando enfim retornava à imersão na leitura, sentiu John aproximar-se sorrateiramente. De início, seu coração passou a bater forte e irregularmente. Sentiu suor formando-se no interior das luvas rubras, sua boca tornando-se seca, e seu corpo em estado trêmulo. Isso, até notar que John havia se aproximado dessa maneira somente para bisbilhotar o que estava lendo.

— John... — Adam inspirou profundamente, em impaciência. Apertava a ponte do nariz entre dedos.

Uma pequena figura de cabelos loiros e ondulados apareceu subitamente entre os dois, assustando-os e empurrando-os levemente para obter um espaço onde se encaixar. Sorria com doçura, os grandes olhos azuis pairando de um para outro.

— Paz, o que está fazendo aqui? — John questionou, com amabilidade.

— O que todos fazem numa biblioteca, seu bobinho — apertou a bochecha de John carinhosamente. Voltava-se para Adam, com a bondade perdurando em sua voz. — Oi, amigo do Snake.

— Oi, Paz — sorriu afetuosamente para ela.

— O que está lendo? — debruçou-se sobre a mesa com curiosidade, analisando o livro melhor.

— Um dos melhores livros do mundo. — fechou o exemplar, mantendo um dedo na página onde estava, e exibiu a capa para a pequena Paz.

— Parece o Snake — apontou para o Johnny Mason ilustrado na capa.

— Nem pensar, Johnny Mason é mais legal. — Adam enviou um olhar provocativo para John, fazendo-o torcer os lábios em desgosto.

— Posso ler com você?

— É claro que sim. — afastou-se para o lado na cadeira, abrindo uma brecha para tanto ele quanto Paz poderem se sentar.

— Oh, então ela pode e eu não. — John comentou, enciumado.

— Acontece que ela pediu e está realmente interessada. Você, não. — mostrou a língua infantilmente. Paz repetiu seu gesto por uma fração de segundos.

— Já gostei de você. — a pequena o abraçou.

— Ei... Pensei que gostasse de mim — o americano reclamava, ferido. Adam desejava rir.

— Não fique assim, Snake... Gosto de vocês dois. — mesmo sentada, o abraçou também, para que não houvesse injustiças.

Ainda que não compreendesse exatamente o enredo da história, Paz leu junto a Adam silenciosamente. John torcia os lábios, incerto de para qual dos seres loiros seus ciúmes se direcionavam. Orientou Paz em sua chegada, orientou Adam em sua chegada e o adotou como irmão, para agora os dois o isolarem desta forma. Estava plenamente consciente do quão egoísta e imaturo era este modo de pensar, e não se importava.

O livro foi arrastado pela mesa para estar mais próximo de John. Olhou para os dois mais novos, que sorriam para ele. Paz com seu sorriso puro, Adam com seu sorriso afável e com quês de sua divertida arrogância. John cedeu, deixando de lado sua inquietude, e moveu a própria cadeira para mais perto de onde os dois se sentavam.

Terminaram Red Western juntos. Neste período de tempo, os demais rapazes pela biblioteca também se encontravam ao redor da mesa, lendo ou conversando em baixo tom. E, ainda que enfim completar a leitura fosse demasiadamente agradável, Adam não poderia dizer que desejava que o momento acabasse.

* * *

Notas finais
- Os mangás e animes surgiram apenas nos anos 60. Mas, para se adequar aos gostos do Hal, aqui será um pouquinho antes :3 (assim como nos anos 80 em Metal Gear já existiam drones, tanques bípedes nucleares gigantes e tecnologias avançadas como o iDroid :v nada de espetacular por aqui).