Svyazi
3 Capítulo III - Serpentes
O mapa em nada era complicado. Prédios desenhados de forma minimalista, representados por quadrados ou retângulos, com cada bloco nomeado por sua respectiva letra nos desenhos. Uma legenda para cada letra que havia no papel o auxiliaria caso esquecesse algo. Adam não teve dificuldades em situar-se, avistando ao longe rapidamente os dormitórios.
Durante sua trajetória ao prédio M, Adam assustou-se com um barulho grave que ecoou por toda a instituição, como uma sirene de evacuação. Olhou em volta assustado, procurando entender o que ocorria, e viu o campus onde todos os alunos haviam desaparecido encher-se novamente. Os blocos de aulas tiveram suas portas abertas, e alunos saíam sem parar deles, feito formigas. Atacado por sua timidez, Adam guardou o papel em sua bolsa rapidamente e desatou a andar em passos largos até seu destino, quase tropeçando nos degraus de subida.
O prédio M também tinha em seu interior um vasto corredor com a escada para o andar superior ao final. Mas, ao contrário do utilitário, o M tinha paredes numa tonalidade verde musgo, poucas portas e, em vez de assentos de espera, havia armários de metal encostados nas paredes. Adam checou cada porta, e prontamente entrou no banheiro quando o encontrou. Não havia mais ninguém além dele por lá.
O primeiro detalhe a qual deu atenção foi a amplitude do local. Muitas cabines, pias e mictórios disponíveis para uso e alguns bancos fixos de madeira para quem necessitasse vestir-se sentado ou esperar por sua vez.
O segundo detalhe foi um tanto incômodo. Chuveiros lado a lado, sem qualquer proteção, somente uma meia parede medindo cerca de um metro e meio para delimitar a área de cada um.
Os banhos que tomava em território soviético se tratavam de entrar em uma sala fechada e vazia, com apenas um ralo e um sabonete gasto, enquanto um chuveiro sobre sua cabeça era ligado por alguém do lado de fora e enviava água extremamente gelada sobre seu corpo. Foi ensinado que o banho só estava completo quando estivesse trêmulo e de lábios azulados. Mediante as circunstâncias, Adam não precisou pensar demais para associar tal ato a mais um método de tortura.
“Bom, não importa. Serei um soldado, e os outros garotos são meus companheiros. Não preciso de privacidade.” Determinado, escolheu um dos chuveiros aleatoriamente. Pendurou a bolsa e a tolha num gancho da meia parede e deixou o sabonete sobre a mureta para utilização prática. Despiu-se calmamente e pendurou as roupas velhas naquele mesmo gancho, ainda que planejasse se livrar delas mais tarde. Inspirou profundamente em seu momento de paz.
A água estava morna. Desejava jamais deixar de senti-la. De todas as sensações provadas até o momento, esta não superava apenas a atenção que recebeu de Joy e Clark. Sentia os cabelos curtos entre os dedos calmamente, completamente sob a água, tirando deles a sujeira e o suor. Os olhos azuis claríssimos foram postos fechados, para aproveitar seu momento de serenidade absoluta.
Logo após pegar o sabonete, para iniciar verdadeiramente seu banho, sentiu calafrios em suas vértebras ao ouvir a porta se abrir com um estrondo e conversas animadas se aproximarem. Adam, congelado no lugar, não sabia como reagir naquela situação. Desejava esconder-se, mas onde? Procurou tentar agir o mais naturalmente possível, passeando nervosamente com o sabonete pelo corpo.
— Nada contra Tatyana, John — Adam escutou as palavras do jovem mais próximo, que começou a despir-se a cinco chuveiros de distância de onde ele estava. — Mas ela não é bem o que se pode chamar de recatada.
— Ela é um pouco... Bem... — Ouviu de outro rapaz. Soava apreensivo. — Desculpe, mas... Tenho certeza de que apostou com as amigas que beijaria você, e está comentando sobre no dormitório feminino para elas nesse exato momento.
— Todas querem um pouco dele. O futuro soldado lendário. — Mais um garoto diferente brincou com a situação, arrancando risadas breves dos outros. — Deixem que Tatyana faça as amigas morrerem de inveja um pouco, que mal tem?
— Preciso concordar em partes com você. — A voz deste era ligeiramente mais madura que as demais, e mantinha-se séria, como se não estivesse confortável com o assunto. O John que foi mencionado. — Deixe que fale. Não é como se fizesse diferença pra mim.
— Você a conheceu hoje? — A última voz, Adam pôde reconhecer. Era Ahab, com suas poucas palavras e entonação austera.
O russo olhou de soslaio para os garotos que haviam chegado, apenas para checar se era realmente Ahab presente entre eles. Todos se despiam sob os chuveiros, conversando serenamente. Do mais próximo em diante, o primeiro possuía cabelos loiros e volumosos, bem penteados para trás. Removia seus óculos de sol aviador do rosto e o deixava dobrado sobre a divisória. O segundo tinha cabelos marrons bem arrumados, um tanto cinzentos, e usava óculos de grau redondos. O terceiro, possuía cabelos castanhos pouco arrumados, também volumosos e para trás, e o quarto era da mesma maneira. Os dois eram consideravelmente semelhantes, sendo o segundo aparentemente mais velho e mais alto que o primeiro. O que mais os diferenciava era que o mais novo, por mais calmo que estivesse, tinha feições carrancudas e usava uma bandana azul marinho amarrada na cabeça, cobrindo a testa completamente. Ahab era o último e o mais distante.
Adam respirou fundo, olhou para frente novamente e prosseguiu seu banho, fazendo o possível para parar de prestar atenção na conversa, por mais difícil que fosse. Nenhum dos rapazes que chegaram parecia atentar à sua presença, e sentia-se confortável dessa maneira.
— ...Foi ela quem teve a iniciativa de me beijar, e eu não a dispensei. Deixe que as amigas distorçam como quiser, eu não me importo.
— Nada recatada. Eu disse.
— Kaz... Eu não acho que este seja o termo correto...
— Sim. Mas não vamos baixar o nível de nossas palavras, Hal. Somos todos cavalheiros.
— Uma pergunta... — Propôs aquele que havia brincado com a situação. — Existe alguém entre nós a quem Tatyana não se ofereceu?
Após a pergunta, o banheiro caiu em silêncio mortal por segundos que mais pareciam horas. Um rosnado breve de frustração vindo de John cortou o vazio sonoro.
— De um jeito ou de outro, não faz diferença.
— O beijo foi tão ruim assim? — Kaz perguntou.
— Já chega. Vamos enterrar essa conversa. Ela não é uma má garota, não deviam estar dizendo essas coisas. Não é da nossa conta o que ela faz ou deixa de fazer.
O assunto precisou a contragosto chegar ao fim, graças à chegada de mais rapazes, de muitas idades diferentes, para banharem-se.
Em desespero com a lotação repentina, Adam completou seu banho mais rapidamente do que gostaria e enrolou-se na toalha. Caminhou nervosamente até uma das cabines com a bolsa em mãos e trancou-se lá, sentando-se sobre o vaso sanitário tampado em seguida. Suspirou aliviado, desejando internamente ter passado despercebido.
Secou-se com tranquilidade, ouvindo o burburinho confuso que vinha do lado de fora e o som da água dos chuveiros e pias em queda. Adam sentiu dificuldade ao abotoar a camisa e amarrar os longos cadarços dos coturnos, mas esforçou-se. As botas couberam confortavelmente, mas a calça e a camisa possuíam um número a mais do que ele vestia. Quando iniciasse uma alimentação correta e treinamentos físicos, ganharia mais massa corporal, e as roupas estariam perfeitas.
“Quatro refeições todos os dias...” lembrou-se, sorrindo maravilhado. Ouviu uma reclamação de seu estômago. Se havia chegado durante o almoço e há pouco terminaram as aulas do dia, mais tarde poderia comer a pequena refeição da tarde e o jantar.
Mal podia esperar por isso.
Ao guardar, devidamente vestido, as roupas remendadas e gastas, Adam encontrou no fundo da bolsa um pequeno embrulho de papel pardo com um bilhete preso ao barbante. As letras eram finas e graciosas.
“Adamska,
Antes de tudo, peço desculpas pela cor. Vermelho talvez seja a última coisa que deseja ver nesta vida depois de tudo, mas este era o único par que cobria as mãos por completo e que ao mesmo tempo não o atrapalharia ao segurar uma caneta.
Suas queimaduras jamais serão uma vergonha para que seja necessário escondê-las. As pessoas, apenas, fazem perguntas demais, e podem ser maldosas. Você sabe disso muito bem.
Espero que goste. Use-as apenas se desejar.
Joy”
No embrulho, um par de luvas de couro sintético, finas. Eram boas de usar e muito macias. Faziam um barulho gostoso quando abria e fechava as mãos, e certamente as usaria com orgulho. As rugas horrendas, esculpidas pelo ferro fervente, ficaram completamente isoladas, como se não estivessem ali. “Vermelho também faz parte da bandeira americana, não é?”
Saiu da cabine, não sem antes espiar por uma fresta o que ocorria no exterior. Garotos trajando toalhas presas ao redor dos quadris em todos os lugares e conversas desconexas se misturando. Os mais novos, na faixa de 7 a 10 anos, brincavam de bater uns nos outros com toalhas enroladas.
Adam precisava sair de lá. Desesperadamente.
Desvencilhou-se das pessoas enquanto caminhava até a saída. Acidentalmente esbarrou em algumas e tentava desculpar-se, mas não era capaz de olhar ninguém nos olhos ou falar audivelmente. Sentia o rosto inteiro quente e as bochechas fervilhando, como se agulhas as perfurassem. Viu-se correndo até as escadas ao fim do corredor quando enfim estava livre.
Checou novamente as informações anotadas no verso do mapa a ele dado. Precisaria subir dois lances de escada para chegar ao quarto em que dormiria. O armário onde poderia futuramente guardar seu material didático ficava no mesmo corredor do andar do quarto, para facilitar e muito sua vida.
Quando estava prestes a subir o primeiro degrau, Adam lembrou-se que precisaria de um lugar onde pôr para secar sua toalha. Deu meia volta para encaminhar-se à lavanderia.
Lá, era tão vasto quanto o banheiro. Havia alunos sentados em banquinhos de madeira próximos às máquinas de lavar ativas, aguardando por suas roupas limpas. Cerca de três deles tinham livros em mãos para passar o tempo. Algumas fiscais fardadas manipulavam grandes mecanismos de ferro que prensavam roupas recém saídas da lavagem e as secavam com muita rapidez, ao mesmo tempo que as deixavam livres de amarrotados. Muito vapor saía dessas máquinas, que pareciam chapas gigantes. Uma dessas mulheres estendeu a mão para Adam quando viu a toalha úmida em sua mão.
Adam a entregou. Vapor ascendeu ao teto do lugar e, em questão de dois segundos prensada pelo mecanismo, a toalha estava seca. A mulher entregou a ele após dobrá-la, como cortesia.
— Você é novo? — a mulher o olhava de cima a baixo. — Nunca te vi por aqui.
— Sim... Eu cheguei não tem muito tempo.
— Ah. Quando trouxer roupas para a secagem, você mesmo terá que dobrá-las, tudo bem? Faz parte do código de disciplina. Com o tempo você descobrirá mais.
— Sem problemas. Obrigado. — Adam abriu a bolsa para guardar a toalha, e a boina verde que estava guardada caiu e rolou pelo chão antes de parar um tanto distante.
O jovem caminhou até a boina e a pegou. Dela, limpou a poeira acumulada na queda, e a olhou com mais atenção.
O símbolo de Cobra Unit estava bordado na boina. Era composto por dois rifles cruzados, envoltos por uma serpente, sobre um escudo de aço. Abaixo do brasão, seis pequenas estrelas. A primeira estrela era discretamente maior que as demais e, a última, era a única estrela cinza entre todas as outras, que eram douradas.
Ficou encarando a estrela cinza no bordado por algum tempo. Que significado se atribuía àquelas estrelas? A maior dourada poderia ser Joy, por ser a fundadora principal do instituto. As menores poderiam ser Fear, Pain, End, Fury...
E a cinza? Quem ou o quê significava?
Subitamente, Adam sentiu algo gelado em seu ombro. Uma presença atrás de si, que até então não havia constatado. Virou-se de imediato, para verificar quem ali estava. A sensação gélida cessou antes que detectasse sua causa, e nada ali havia.
Deu de ombros. Abriu a bolsa novamente, para guardar a boina. Então, percebeu um grande espelho ao seu lado, onde podia ver-se de corpo inteiro.
Ele estava ótimo. Estava limpo, bem vestido e cheirava bem. Sua pele por inteiro parecia ter mais cor, e o cabelo aparado, loiro claro novamente, contribuía para sua elegância. As luvas não contrastavam muito bem com as roupas verdes, mas ele gostava de como estava. Seu passado havia ficado para trás, e tudo que enxergava naquele reflexo era um soldado radiante em desenvolvimento.
Olhou a boina novamente, e a pôs na cabeça da maneira como alguns poucos alunos que viu anteriormente usavam. Lateralmente, com o brasão de Cobra Unit para frente. Era como se tivesse nascido para usá-la. Se fosse vermelha como as luvas, estaria perfeito.
* * *
A bolsa tornou-se surpreendentemente leve após Adam guardar em seu armário tudo aquilo que não precisaria carregar por aí. Com ele, manteve apenas a escova de dentes e a jaqueta, no caso de precisar se aquecer. Roupas extras e toalha manteve guardados e bem trancados. Seu objetivo seguinte seria encontrar a cama reservada para ele.
O quarto era imenso, e estava sozinho. Na parede paralela a porta, janelas enviavam a luz da tarde para o quarto por entre persianas abertas.
O aroma do lugar era amadeirado. Confortante. De mobília, o quarto era composto apenas por beliches, todas alinhadas e de lençol bem feito. Os cobertores verdes ficavam muito bem dobrados e a beira dos colchões.
Adamska adentrou o recinto. Sua cama seria a nona à direita, como o papel o instruía. Eram todas exatamente iguais umas as outras e igualmente arrumadas, também. Poderia levar algum tempo até se acostumar com a localização exata da que a ele pertence.
Quando a encontrou, cogitou se poderia escolher qualquer um dos andares para dormir. Não que isso tivesse importância, mediante seus anos dormindo num chão gelado sobre um lençol, mas seria muito legal dormir no alto. A decisão foi fácil.
Adam segurou-se na escada do beliche com as mãos enluvadas e iniciou uma subida lenta, apoiando os pés com cuidado em cada degrau.
Quando havia chegado ao topo, uma mão o segurou brutamente pelo tornozelo, quase o derrubando.
— A de cima é minha. — Adam ouviu de alguém atrás de si.
Adam voltou-se para o menino que o estava segurando. Era loiro, de cabelos para trás um tanto grandes, secos, e mal encarado. Os olhos azuis soavam cruéis.
— Desculpe... Eu não sabia. — pediu, constrangido.
— Agora sabe. Sai.
O russo desceu mais rápido do que havia subido. O outro loiro subiu em seu lugar e se deitou com os braços sob a cabeça.
— Começamos com o pé esquerdo... — Adam tentou sorrir. Como estava tão bem vestido e limpo quanto o outro, se sentia bem para iniciar uma conversa. — Mas somos companheiros de quarto agora. Qual o seu nome?
— Eli. E não quero saber o seu. — virou para o lado oposto, para que Adam não estivesse mais em seu campo de visão.
Adamska permaneceu de pé, atônito. Doeria menos se tivesse levado um soco no estômago.
Decidiu guardar a bolsa sob a cama e deitar um pouco na que restou, procurando não se afetar com a presença de Eli acima. Tirou a boina para apoiar a cabeça no travesseiro e se esparramou no colchão como há muito desejava fazer. Era mais confortável do que poderia imaginar.
Seus olhos se fechavam involuntariamente enquanto a tensão em seu corpo se esvaía. Quase instantaneamente, foi levado a um sono sem sonhos.
* * *
Adam acordou com o sinal da escola ecoando por todas as paredes do prédio. Ainda sentia sono, e seu estômago roncava. Mais garotos, que chegaram enquanto Adam dormia, acordavam nos beliches pelo quarto, e as janelas enviavam o alaranjado do crepúsculo para o interior. Era o sinal para o pequeno lanche antes do jantar.
O russo levantou-se de súbito e pôs a boina na cabeça novamente. Eli não estava mais no quarto, para seu alívio. Apoiou a bolsa no ombro, lembrando-se que deveria pegar seus materiais e lista de aulas na biblioteca ainda naquele dia.
Fora do prédio, meninos e meninas caminhavam no mesmo ritmo até o galpão do refeitório, e Adam procurou imitá-los e não correr, temendo ser advertido pelos monitores por toda a parte. O pôr do sol estava belíssimo, com um céu tomado por cores quentes e poucas nuvens, tingidas de amarelo. O ar era purificado e leve, e o tempo trazia uma brisa morna em seu rosto.
Lâmpadas fluorescentes tubulares tomavam o teto côncavo do galpão. O refeitório tinha enormes dimensões e uma imensidão de mesas de ferro para se sentar em grupos. De um lado, ficavam as cozinhas, onde os alimentos eram servidos em bandejas por senhoras de toucas transparentes, e a fila para pegar uma porção já estava extensa. Nela, Adam tomou seu lugar, ansioso para descobrir o que comeria.
Espremeu os olhos observando o garoto conhecido que estava a sua frente.
— Oi, Ahab — Adam cumprimentou.
Ahab voltou-se para ele. Teve que olhar para o russo por um tempo antes de se dar conta de quem era.
— Adamska? — semicerrou os olhos.
— Sou eu.
— Você está irreconhecível.
— Eu sei, e me sinto ótimo — Adam esboçou um sorriso.
Quatro rapazes, que estavam à frente de Ahab conversando juntos, viraram-se para olhar para Adam ao mesmo tempo. Os mesmos que estavam junto a Ahab nos chuveiros. O russo suou frio, paralisado por receber tantos olhares ao mesmo tempo.
— Quem é esse? — perguntou o rapaz de bandana azul.
— Chegou hoje. — Ahab respondeu. — Adamska.
— Você foi resgatado da Rússia? — questionou o jovem de óculos redondos, com seu tom apreensivo habitual. — Digo... Você parece ser russo.
— Sim... Eu fui. — as mãos marcadas do mais novo suavam dentro das luvas.
— Boas vindas à Cobra Unit, Adamska. — disse o loiro de óculos escuros estilosos, com um sorriso afável, estendendo a mão. — Kazuhira Miller.
Adam apertou sua mão, sentindo-se mais a vontade.
— David. — O moreno de bandana cumprimentou também com um aperto de mão.
— Hal. — foi a vez do que usava óculos de grau cumprimentar. — Hal Emmerich.
O rapaz restante, que Adam lembrava-se por “John”, mantinha os olhos intensamente azuis fixos nele, sem nada dizer. O jovem russo não era capaz de identificar o que se passava na mente do outro. Estava o analisando. A tranquilidade que Adam havia recém adquirido desapareceu. Deus, ele sentia como se estivesse sendo despido em público.
Adam considerou um detalhe curioso em Kazuhira, David e John: Kaz e David possuíam uma barba em desenvolvimento, bastante curta, e John já tinha uma barba quase completa, preferindo deixá-la um tanto mais densa e bem arrumada. Perguntou mentalmente que idade todos aqueles garotos teriam. Perto deles, Adam sentia-se como um bebê.
— John — ele finalmente havia parado de olhá-lo daquela forma, mas permanecia olhando nos olhos do russo. Tinha um meio sorriso no rosto enquanto apertava a mão do mais novo. Falava quase zombeteiramente. — Ou Snake. Mas você pode se confundir, há mais Snakes entre nós.
— Como assim? — Adam perguntou, procurando quebrar o nervosismo que sentia.
— Quem tem habilidades notáveis, preferências peculiares ou algo do tipo, ganha espécies de apelidos por aqui. — Hal respondeu, ajeitando os óculos com o dedo médio. — Eu, por exemplo, gosto muito de mangás e animes. Me chamam de Otacon. Particularmente, eu gosto. É bem melhor que ser chamado de nerd.
— Eu e John somos um tanto bons em treinamentos furtivos e em CQC. — disse David. — Por isso “Snakes”. Ele é Naked Snake, e eu sou Solid Snake. Também temos mais um irmão, Liquid Snake, mas ele não anda mais conosco. Ele tem sua idade, mais ou menos. Provavelmente o conhecerá nas aulas.
“Então, é isso. Eles são irmãos.” Adam relembrou a si mesmo sobre a semelhança que tinham.
— O que é CQC? — Adam perguntou, temendo ser considerado estúpido por não saber. Sentia-se bem por enfim ser permitido fazer perguntas, e desejava tirar o máximo de proveito.
— Técnicas de combate a curta distância. — Kaz respondeu. — Pode ter armas ou não envolvidas. John teve o prazer de desenvolver essas técnicas com The Boss, e é melhor nisso que qualquer um. Você também terá aulas de CQC em breve.
— Legal — disse Adam, admirado.
— Diz isso porque não sabe os hematomas que vai ganhar de presente. — John brincou. — Mas é bem divertido depois que se pega o jeito, eu garanto. E, Kaz... Pare de puxar meu saco.
— Apenas trabalho com fatos, Snake.
— Pessoal... — Ahab saiu de seu silêncio e apontou para frente. A fila já havia andado, e eles bloqueavam o caminho sem perceber.
A emoção do russo era tanta que estava trêmulo, e não conseguia tirar o sorriso do rosto um segundo sequer. Um lugar onde podia rir, fazer perguntas, fazer amigos e onde era benquisto. Temia acordar deste sonho em algum momento.
O verdadeiro trunfo da ocasião chegou para Adam quando a bandeja com os lanches foi entregue a ele: Guloseimas tipicamente americanas deliciosas de que Adam jamais tinha ouvido falar. Um muffin coberto com açúcar, três cookies com gotas de chocolate e um copo de leite gelado.
O cookie com gotas de chocolate para Adam era, oficialmente, a melhor invenção americana. Senão, a melhor invenção da humanidade. A cada mordida, uma explosão de sabores sem fim. Ele definitivamente poderia comer isto todos os dias.
Havia sido gentilmente convidado a se sentar com os rapazes recém-conhecidos. Ainda que tivesse algo interessante a dizer, sentia-se tímido para comunicar-se, procurando apenas ouvir as conversas ao mesmo tempo em que se alimentava. O modo como John o havia olhado continuava o incomodando, mas procurava não pensar demais no assunto. Não era igual a como Joy e Clark o haviam olhado na primeira vez que o viram, embora houvesse semelhanças. John não mais o olhava, apenas conversava com os amigos, o que era bom.
Com seu estômago forrado por boa comida, Adam passou a cogitar participar do assunto que acontecia dando risadas das piadas feitas pelo grupo. Isso até sentir calafrios.
De uma mesa distante, Adam estava sendo observado. Todos naquela mesa longínqua, cheia de garotos com aparência rebelde e desleixada, distraíam-se comendo feito selvagens, exceto aquele que o fitava com ódio estampado nos olhos. O companheiro de quarto, conhecido horas mais cedo.
“Talvez o paraíso ainda seja uma utopia.”
* * *
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