Svyazi
4 Capítulo IV - Balaio de Cobras
Notas iniciais
— Assine aqui — disse The End, sonolento em sua poltrona, pondo uma folha de documentação sobre a mesa de gabinete. Adam perguntava-se seriamente se aquele senhor viveria por muito mais tempo.
Adam havia acabado de recolher com End o seu cronograma da semana, redigido num papel plastificado. De segunda a sexta, seria acordado pelo sinal no início da aurora; às 5 da manhã, aproximadamente. Do despertar até o princípio das aulas do dia, teria tempo mais que suficiente para arrumar a cama, tomar banho e comer o café da manhã. As aulas teriam início às 9:30, com pausa para almoço às 13:00h e retorno às 14:30. Depois, as aulas prosseguiriam até às 17:00h, e então seria apenas descanso, intercalado com lanche da tarde e jantar. Uma agenda de aulas extensa, pesada e integral, mas que não o assustava.
Aos sábados, teria aulas voltadas para especialização em categorias. Poderia escolher até três para realizar, e havia muitas opções. Treinamento tático, treinamento furtivo, tiro, esportes diversos, orquestra sinfônica, primeiros socorros... Por ser uma quarta feira, ainda teria dois dias para decidir em quais participaria. Algo era certo: tiro seria sua primeira opção.
The End administrava a biblioteca, cuidando de papeladas e fazendo outros serviços que não envolvessem esforço demasiado. Não havia perigo de livros desorganizados para ele, porque essa parte era responsabilidade dos alunos após devolvê-los. E que fantástica era a biblioteca: cheirava a uma mescla de livros novos e velhos, com janelas enormes de vitrais coloridos e piso alvo e fosco. As estantes eram muitas, tão altas que eram necessárias escadas para pegar os livros no topo. Tantas estantes que juntas criavam corredores.
Mesas de estudo e poltronas de leitura complementavam o local. Para pegar livros emprestados ou ler na própria biblioteca, precisaria criar uma ficha, e era o que estava assinando. Seu nome era a única coisa que havia praticado a escrita enquanto aprendia a ler na velha fábrica. Sua letra não era a das mais belas, mas lhe servia. Era um órfão sem sobrenome.
— Aqui, senhor — Adam empurrou na mesa a folha assinada.
The End estava silencioso e de olhos fechados. Seu peito não se movia.
— Senhor? — suou frio, sacudindo-o pelo braço coberto pela farda de folhas.
— Assine aqui — acordou abruptamente.
O papagaio no ombro do ancião deu um pulo de horror. Adam liberou aliviado o ar que havia se acumulado em seu peito pelo pânico. The End olhou para baixo e percebeu o papel.
— Oh... Você assinou.
— Sim... Uh... — olhou em volta rapidamente. — Onde posso pegar meus materiais?
— Naquelas caixas — apontou, falando monotonamente, para uma pilha de caixas de papelão perto de uma estante de enciclopédias. — Assine na prancheta acima das caixas o que pegou, para que fique registrado. Livros didáticos serão entregues a você somente durante as aulas.
Adam agradeceu e encaminhou-se às caixas. Como eram muitas as aulas que teria e sua letra era consideravelmente grande, decidiu pegar dois cadernos com dez matérias cada. Duas canetas, no caso da tinta de uma esgotar. Dois lápis, e apenas uma borracha serviria. Guardou todos os objetos na bolsa, com sensação de dever cumprido. No dia seguinte, teria início o seu primeiro dia letivo.
Antes de ir embora, Adam passeou por entre os corredores de imensas estantes. Livros de todos os tipos esperavam para ser lidos. Desejava conhecê-los e provar vários tipos de leitura diferentes. Entretanto, os livros de faroeste eram seu fascínio principal. Desejava ler todos que pudesse antes de procurar tipos diferentes de literatura.
Surpreendeu-se ao encontrar a seção que queria. Toda uma estante, em toda a sua altura e esplendor, repleta apenas de livros de faroeste. Inclusive, uma prateleira inteira possuía somente livros da série Red Western. Leria todos eles, custasse o tempo que fosse.
Pegou um livro de Red Western aleatoriamente e girou nos calcanhares para levá-lo até a mesa de The End. Pegou-se admirando a capa pelo caminho, com o cowboy bem apessoado de pé no deserto cheio de cactos ao lado de seu cavalo malhado, empunhando dois revólveres e com um charuto aceso nos lábios. As botas de couro com esporas douradas reluzindo ao pôr do sol, o chapéu pendendo num lado da cabeça. Os americanos tiveram sorte... Aquilo, sim, era estilo de verdade.
Adam foi retirado de seus devaneios quando esteve perto de colidir com Eli. Estavam no mesmo corredor de estantes, sendo Eli com uma face fechada e braços cruzados. O mesmo olhar rancoroso.
— Onde estão seus amigos? — Eli perguntou, virando levemente a cabeça para o lado. Olhava profundamente nos olhos de Adam.
— Hã? — Adam semicerrou os olhos, confuso. Sentia temor no fundo de seu ser.
— Aqueles com que você se sentou hoje. Não se faça de idiota.
— Eli. Eu já me desculpei por quase me deitar na sua cama. Foi um mal...
— A questão não é essa agora. — o cortou. — Não ande mais com eles. É um aviso.
Adam franziu o cenho. Raiva o dominava lentamente, substituindo qualquer medo que sentia. Estava farto de receber ordens sem fundamento por uma vida.
— Saia da minha frente, Eli.
— Se chegar perto deles outra vez, eu farei você pagar. Você não será amigo deles enquanto eu estiver por perto. Faça o que eu digo e nada vai dar errado pra você.
— Não tenho medo de você, caso ainda não tenha percebido. O que você tem com eles? É o irmão do John e do David que se afastou? Porque você não se parece nem um pouco com os dois.
O rosto de Eli foi tomado por um vermelho intenso. Trincou os dentes em sua ira, a mão apertando-se num punho trêmulo.
— Adamska. Eli. Parem com isso agora mesmo — escutaram a aproximação de uma voz feminina exasperada. Olharam em volta, procurando de onde vinha.
The Boss surgiu, ligeira feito uma sombra, e puxou ambos pelas orelhas com força. Gemeram de dor em uníssono, e Adam viu decepção nos olhos da mulher. Seus sentimentos em pedaços. A última coisa que desejava era decepcionar a pessoa a quem mais tinha gratidão.
— Joy, eu não... — Adam iniciou, sentindo lágrimas se formarem em seus olhos.
— Não quero saber o que se passou aqui. Não quero defender ou culpar nenhum dos dois. Isso... Isso foi inadmissível. — tentava manter a calma, mas o nervosismo era evidente. — Apenas não quero que isso se repita. Fui bem clara?
— Sim, Joy — responderam juntos. Eli ainda possuía fúria em seu semblante.
— Sou responsável por vocês. Mentora de vocês. Não façam com que eu me arrependa dessa escolha.
Joy os soltou, e caminhou para longe em passos duros. O coração dela e de Adam foram dolorosamente apertados. Feridos. Ela não desejava, mas precisava ser rígida. Precisava esclarecer seus ensinamentos.
As pessoas aprendem melhor com a dor. Ela aprendeu com a dor.
Não de fato acreditava que Adam tinha alguma culpa; Joy já conhecia o histórico de Eli. Tornou-se um encrenqueiro sem estribeiras, que ele não era ou não aparentava ser quando foi por ela resgatado. Ela não entendia os motivos de Eli, mas respeitava toda e qualquer razão que levam um ser a esfriar seu coração. Mas, enquanto pudesse educá-lo, o faria.
Internamente, ela desejava mimar Adam. Ajoelhar-se para estar à altura dele e olhá-lo no fundo dos olhos, dizer a ele para não se envolver em problemas. Dizer que o amava, e que jamais deixou de amá-lo. Que o amava antes mesmo de vê-lo nascer e que o entregou para os soviéticos também por amor, ainda que ele não compreendesse. Mas não tinha provas para isso ainda, e não poderia mesmo que as tivesse.
Os resultados do teste de DNA estariam prontos em breve. Porém... Joy não tinha mais dúvidas. Poucas coisas a podiam enganar, e seu instinto maternal não era uma delas.
* * *
O restante do dia, Adam passou solitário. O jantar havia sido excelente, com iscas de carne, batatas e arroz, bem preparados e suculentos. Não havia conseguido encontrar os rapazes que conheceu durante a tarde em meio à imensidão de pessoas no refeitório. Sentou-se para comer numa mesa cheia de desconhecidos, por ser o lugar vago mais próximo que havia restado.
Por melhor que a comida estivesse, Adam a comia maquinalmente, sem qualquer humor. Não sabia exatamente qual erro havia cometido mas, seja lá qual fosse, entristeceu Joy. Sentia-se uma pessoa terrível.
A noite ascendeu aos céus. Postes ficaram encarregados de manter o instituto iluminado. O jovem russo sentou-se sob uma das grandes árvores próximas dos dormitórios, sentindo a grama entre os dedos enluvados. Admirava o céu estrelado, com tantos pontos reluzentes que não poderia contá-los jamais. Nuvens podiam ser vistas, vez ou outra, passeando sobre a belíssima lua em seu quarto minguante. Uma noite fria, em que podia ver a própria respiração.
Adam via naquele espetáculo da natureza algo que poucos compreenderiam. Num mesmo dia, viu os céus diurno e noturno, o pôr do sol, e tocou em gramados macios. Descansou as costas num tronco áspero de uma árvore e conheceu pessoas atenciosas. Comeu boa comida. O sofrimento realmente faz valorizar as coisas mais simples da vida.
— Oi. — Adam ouviu de alguém que se aproximou sem qualquer ruído. — Não o vimos no jantar.
Adam assustou-se e olhou para o lado abruptamente. Era John. Ele usava sua jaqueta camuflada desta vez e esfregava as mãos, buscando calor. As luvas que usava eram pretas e deixavam a mostra os dedos médios, indicadores e polegares, para facilitar o manuseio de objetos.
— Oi. — Adam cumprimentou de volta, com um meio sorriso. — Nem vi você chegando.
— Significa que os treinos furtivos vêm dando resultados. — John brincou, sentando-se na grama, próximo ao mais novo. Começou a procurar por algo nos bolsos.
— Onde estão os outros? Já foram dormir?
— Não todos. Kaz foi, mas David, Ahab e Hal estão passando algum tempo com amigas deles, se é que me entende. — olhou para os lados sutilmente. — Sabe se há vigilantes por perto?
— Estou aqui tem algum tempo e ninguém apareceu. Por quê?
John, em resposta, tirou um charuto e um isqueiro prateado, reluzente, do bolso da jaqueta. Pôs o charuto entre os lábios e o acendeu, tirando dele um longo trago, e expeliu uma fumaça suave lentamente, usufruindo da sensação. O cheiro era agradável, Adam precisou reconhecer.
— Isso é bom. — tragou mais uma vez. — Ainda mais em noites como essa.
John olhou para Adam com mais atenção. O mais novo não usava jaqueta e sequer tremia, enquanto John buscava todos os meios possíveis para se aquecer.
— Você não sente frio? — perguntou impressionado.
— Eu sou russo. — respondeu simplesmente, dando de ombros.
John riu.
— Bela resposta. — tragou outra vez, lentamente.
Adam inspirou profundamente o ar frio da noite, mesclado com o aprazível aroma do tabaco. Tornou a olhar para a lua, tristonho.
— Você parece aborrecido. — disse John entre um fumo e outro. Deitou-se na grama, com um braço sob a cabeça, observando Adam suspirar inquieto.
— Decepcionei Joy hoje. Ela viu Eli e eu discutindo e entendeu mal, acho.
— Boss se tornou sua mentora?
— Sim. E a decepcionei no primeiro dia. — suspirou novamente. — Queria poder me desculpar de alguma maneira.
— Então boas notícias, cowboy — John sentou-se outra vez na grama e pôs um braço ao redor dos ombros de Adam. — Ou péssimas, dependendo do ponto de vista. Você também é meu irmão caçula agora.
— Você também foi resgatado pela Joy? — Adam sentiu-se repentinamente mais confortável com a presença do outro. “Irmão” foi uma palavra que o agradou bastante. John tragou o charuto antes de responder.
— Sim, eu fui. — tirou o braço dos ombros do russo. — Há três anos, aproximadamente. David, Eli e eu tínhamos uma família, se é que podemos chamar dessa maneira. Eli é o mais novo, com 14 anos de idade. David é o do meio, com 15. E eu, o mais velho, tenho 16.
— Achei que tivesse mais. — Adam admitiu.
— Imagino que sim. — sorriu, acariciando os pelos faciais. — É culpa da barba.
— O que aconteceu com sua família? — Adam perguntou, preocupado e curioso.
— Bem. — inspirou. — Nosso pai bebia demais. Ele e minha mãe reproduziam feito coelhos, como deve ter percebido pela diferença de idade que eu e meus irmãos temos. Nossa mãe apanhava dele às vezes, mas eu realmente não me importava. Ela não era uma boa pessoa... Passou a botar a mim e meus irmãos para trabalhar nas ruas quando ganhamos idade suficiente para isso. Engraxando sapatos, pedindo esmolas, qualquer coisa que aparecesse. Nos deixava passando fome, enquanto gastava o dinheiro que conseguíamos com drogas. Um dia, nosso pai foi assassinado por dever quantias grandes de dinheiro a donos de bares. Eu e meus irmãos não derramamos uma lágrima sequer.
John deitou-se na grama novamente. Fez uma pausa para fumar, imperturbável e sem emoções. O coração de Adam apertava-se.
— Minha mãe drogada pegou a mim e meus irmãos e nos levou por cidades afora quando não podia mais pagar o aluguel da casa. Dormimos nas ruas por muito tempo, em becos. Continuava a nos pôr para trabalhar e suprir seus vícios. Quando não conseguíamos nada, apanhávamos. Até que, um dia, ela morreu de overdose, e eu e meus irmãos ficamos à deriva. Já estávamos há muito tempo, é claro, mas à deriva e órfãos. Achei que morreríamos de fome. Estivemos bem próximos disso.
— O que fizeram? — Adam perguntou, aflito.
— As ruas são cruéis, cowboy... As fontes de trabalho que tínhamos lentamente esgotaram-se. Quando pedíamos até mesmo um pão velho para comer, éramos expulsos e ameaçados. Nenhum de nós queria, mas precisamos... Começamos a roubar. Apenas comida, nunca objetos. Não roubávamos por que tínhamos vontade, ou para ter uma vida fácil... Roubávamos para sobreviver. E éramos bons em roubar... — sorriu com a lembrança. Segurava o charuto próximo aos lábios. — Éramos discretos, trabalhávamos em equipe. Era divertido, eu confesso. Mas não era digno.
Mais uma pausa para dedicar ao charuto importado. Adam quase podia invadir os pensamentos do mais velho, sentir a nostalgia que ele sentia. Abraçou os próprios joelhos e deitou a cabeça sobre eles, sentindo-se sonolento. Mas não suficiente para não ouvir a história.
— Éramos como uma matilha. Sentia-me encarregado de proteger meus irmãos. Tornei-me responsável por eles, por livre e espontânea vontade. Daria minha vida pela deles naquela época, e até hoje daria. Mas jamais permitiria que fizessem o mesmo por mim. Me tornei para eles o pai que não tivemos.
John suspirou pesadamente. Passou a sorrir outra vez em seguida.
— Mas o melhor está reservado para o final. Sempre está. — pausa para o charuto. — Um dia, David ouviu uma conversa importante em um grande mercado, escondido atrás de um latão de lixo. O mercado havia reservado uma grande carga de alimentos para o estoque de uma escola. Tudo estava guardado num grande caminhão, que seria entregue por volta do meio dia. Eu e meus irmãos arquitetamos um plano perfeito, num curto período de tempo, para roubarmos uma caixa de pães e uma de frutas do caminhão. Seria nosso maior e melhor plano, o mais elaborado, e que nos garantiria o que comer por muito tempo. Pusemos o plano em prática, com adrenalina pulsando em nossas veias. Estava dando certo. Então, quando estávamos levando as caixas conosco... Boss nos pegou no flagra. Eu e meus irmãos quase cagamos nas calças de tanto medo, achávamos que ela era policial.
Riu por um bom momento. Adam apreciava o rumo que estava levando tudo aquilo, e já imaginava o que viria em seguida.
— Jurávamos que era nosso fim, mas não. Ela nos elogiou. Disse que tínhamos um dom. Nos convidou a entrar no caminhão e disse para nos servirmos com o que nossa fome pedia. E depois... Bem — tornou a se sentar, soprando vapor para a noite. — Cá estou eu. Boss se tornou nossa mentora. Nos ensinou muitas coisas... Muitos valores. A nos defender e a usarmos nossos talentos para coisas boas. Nos acolheu. E, já que Boss também acolheu você — deu uma cotovelada afetuosa no braço do loiro. — Bem vindo à família, Adamska.
— Obrigado. — devolveu com uma cotovelada ainda mais suave, sorrindo. — E fico feliz que se lembre do meu nome. Achei que estava me chamando de cowboy porque tinha esquecido.
— Não mesmo. Estava chamando assim porque achei que seria legal. — apontou para o livro sobre a grama.
“Red Western, é claro.” Adam pegou o exemplar e o guardou na bolsa. Tinha esquecido completamente.
— Gosta de livros do velho oeste?
— Muito. Foi meio que... A única coisa em que pude me perder enquanto estava servindo de escravo. — fechou a cara.
— Você também teve uma vida sofrida, não é?
— Sim... Nasci e cresci numa indústria bélica com outras crianças, comia pouco, fabricava revólveres o dia inteiro e um dia fui libertado por anjos americanos. Essa é minha história empolgante. — sorriu. — Também com um final feliz.
— Isso merece uma comemoração. — pôs o charuto próximo ao rosto do mais jovem. — Quer fazer as honras, cowboy?
Adam olhou para o charuto, pela metade, e hesitou. No livro que leu, o famoso e habilidoso cowboy Johnny Mason também tinha hábito de fumar charutos, e era descrita a forma como o fazia. Decidido, Adam encostou os lábios na ponta úmida e tragou, cinzas do lado aceso caindo sobre a grama. Abriu e fechou a boca algumas vezes para acostumar ao sabor que deixava ao terminar.
— É estranho. — Adam continuava mexendo a boca.
John riu, e fumou pela última vez. Apagou a ponta na grama completamente e guardou as sobras no bolso.
— Estranho num sentido ruim?
— Não. É bom, sim. — sorriu. — Mas acho que não é pra mim.
— Escolha certa, cowboy. Escolha certa.
— Aliás... — estreitou os olhos para ele. — Onde você conseguiu esse charuto?
— Uh... Está tarde, Adam. Vou dormir. — levantou-se, de cara lavada, espalmando as roupas para tirar a poeira. — Boa noite.
— John — cruzou os braços, como se estivesse realmente decepcionado. — Você não disse que roubar não era digno?
— Eu? Eu nunca disse isso. — respondeu completamente cínico, sem qualquer sinal de culpa. Caminhou tranquilamente em direção à escadaria do dormitório masculino, deixando Adam incrédulo.
O russo esperou um pouco mais, observando o céu, antes de se encaminhar também ao quarto. Quando estava pronto, no limite de sono que poderia suportar, levantou-se e recolheu suas coisas. Escovou bem os dentes no banheiro, fazendo uso do dispensador de creme dental que foi disponibilizado para uso geral, e subiu escadas e mais escadas até enfim chegar ao andar de seu quarto.
Os corredores do andar estavam por inteiro mergulhados em breu. Adam aproveitou a escuridão e o fato de estar livre de companhias para vestir o pijama rapidamente ali mesmo, após pegá-lo em seu armário. A preguiça de descer escadas e subi-las novamente apenas para vestir pijamas no banheiro falava mais alto.
Os beliches de seu quarto, em peso, estavam ocupados por rapazes adormecidos. Eli dormia tranquilamente na cama superior, e Adam tomou seu lugar abaixo. Acomodou-se no colchão e cobriu-se até o pescoço. Seu corpo desligava-se pouco a pouco.
Desta vez, Adamska teve sonhos. Um sonho que se passava numa cidadela desértica do antigo oeste, com saloons e nuvens de poeira saltitando sobre as areias. Montava um cavalo, vestido a caráter da época, e John também montava um cavalo ao seu lado. Ele fumava um de seus charutos enquanto cavalgavam despreocupados, apreciando a vista do deserto ao pôr do sol.
— Quer fazer as honras, cowboy? — John ofereceu o charuto mais uma vez. O chapéu de couro projetando uma sombra sobre seus olhos.
Adam, em seus sonhos, podia sentir outra vez a umidade dos lábios de John no charuto cubano.
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