Sussurro das Borboletas

1 Rosas Frescas


Aqueles que acreditam nos mistérios da pequena cidade situada ao norte, distante de lugares verdadeiramente iluminados pelos raios solares, costumam dizer que os moradores estão presos em um conto de fadas sombrio. Quem sabe realmente não tenha começado com um pouco de magia e tragédia, entretanto, justiça alguma ou acontecimento inesperado trouxe um final minimamente feliz para as histórias que correm pelas ruas escuras.

Em tempos antigos o mudar das estações era um período indesejado, temível como se o final de um inverno rigoroso fosse deixar grandes saudades. Provavelmente deixava, pois durante meses eles permaneciam recolhidos e bem protegidos dentro de suas casas. Os habitantes daquela região sabiam muito bem que o inverno era momento que o perigo descansava e, com o seu fim, despertava com o primeiro amanhecer da primavera.

As especulações eram muitas e nenhuma chegava perto da verdade escondida. Monstros que se escondiam nas sombras ou homens terríveis em busca de vingança poderiam estar sendo os responsáveis por aqueles gritos agonizantes ao final das tardes. Ninguém nunca viu, todos sabiam. Quando o sol começava a sumir no horizonte se deveria fechar as portas e janelas. Essa se tornou a única verdade que precisavam saber, embora ainda não houvessem aprendido lição alguma com tal situação. Volery jamais teve um governante além do medo e seus segredos e no início demoraram a compreender sua liderança e ensinamentos.

Poucos se perderam depois que os boatos vagos se espalharam. Não era mais incomum avistar mães apoiando-se nas janelas e chamando pelos filhos ao entardecer, acabando com a diversão nas ruas. Os comerciantes já não mais ficavam na feira até o último minuto e nem mesmo prolongavam suas negociações. Tampouco se via amigos jogando conversa fora ao se esbarrarem por aí. Antes do céu escurecer e as primeiras estrelas cintilarem na imensidão, Volery parecia um lugar abandonado. Com o tempo os moradores se sentiram seguros, uma vez que aquele mal não ousava se aventurar muito por ali e agia somente quando a única companhia de alguém seria a própria consciência em seu trajeto noturno. Erroneamente sorriram e dormiram tranquilos por várias noites enquanto o inimigo se irritava pouco a pouco sem a sua diversão e necessidade saciada. As crianças cresceram sabendo da regra, porém, a mesma não permaneceu enfatizada com tanto afinco. Sem os sumiços ou mortes a dúvida encontrou seu espaço em algumas mentes, principalmente dos mais jovens.

Naquele tempo ainda sem reis ou rainhas, Volery era um lugar que chamava a atenção com sua singular graciosidade. Dias em que ainda se podia ver vida em cada canto, principalmente com a serena observação do perigo que aguardava um momento oportuno. Toda aquela sensação de tranquilidade não era verdadeira de uma terra que abrigava tanto a se descobrir e decepcionar, por isso alguns olhos brilhavam com o retorno da primavera.

— Estou cansado — reclamou Ivan, soltando o ar pela boca para dar mais ênfase em sua afirmação. — Colhemos o suficiente, não acha?

— Não.

O garoto olhou para a amiga e depois para os diversos cestos pela terra, todos os quinze estavam cheios com as rosas de cores diferentes. Apesar disso Amarílis permanecia ferindo os dedos para colher ainda mais rosas, sendo que nem mesmo teriam onde colocá-las para carregar de volta para casa.

— Fez alguma promessa ou está devendo alguém?

— Me deu sua palavra — lembrou ela. — Deixe de resmungar.

— Não foi o que perguntei.

— Estamos colhendo flores para o namorado da minha tia, ele quer fazer uma surpresa para o pedido de casamento — explicou a jovem, abrindo um grande sorriso ao pegar uma rosa vermelha. — Infelizmente o papai não gosta dele e não aprova, até se recusou a dar as rosas pra ajudar.

Ivan piscou algumas vezes ao contemplar a expressão desanimada que a amiga esboçou ao contar a última parte. Como se a recusa em entregar a enorme quantidade de flores, que deveriam ser vendidas para o sustento daquela família, fosse uma desfeita.

— Ele pediu para que eu pegasse as flores, o máximo que conseguisse, e que me pagaria depois — Amarílis deu de ombros e deixou a rosa sobre as outras, fazendo aquelas no topo da pilha rolarem para o chão.

— Como pode ser tão boba?

Ivan virou-se para recolher as rosas caídas na terra e dividir entre os cestos até que recebeu um chute na perna que quase o fez cair completamente. Apoiou as mãos em um amontoado de rosas azuis, as amassando no processo antes de se levantar.

— Não sou boba, Ivan!

— Estamos aqui sem a permissão do seu pai? — perguntou ele.

— Damian disse que iria me pagar...

Ivan abriu a boca, mas nada falou, e a jovem reprimiu os lábios ao assistir os olhos dele se estreitando como se fizesse algum esforço ao pensar.

— Você e não o dono da floricultura — pontuou o garoto. — Duvido que ele tenha sugerido que desse o dinheiro ao seu pai. É por isso que estava toda feliz dizendo que compraria doces para uma semana inteira?

Amarílis cruzou os braços, manchando as mangas do vestido amarelo com algumas gotas de sangue que ainda escorriam das pontas de seus dedos, e virou o rosto. Ivan espiou as orelhas dela ficando vermelhas de vergonha, ou de raiva, ao ser pega em sua travessura.

— Quero metade do pagamento já que me enganou. Isso se ele te pagar mesmo.

— Contanto que prometa não contar a ninguém...

A fala da jovem foi interrompida por uma voz mais alta e aguda, embargada em desespero, pedindo por ajuda. Ivan e Amarílis se voltaram para a direção que vinha a voz da mulher que logo surgiu entre as roseiras. O vestido lilás que usava estava parcialmente coberto por uma capa marrom, porém, não escondia os detalhes que carregava. Tecido fino, com bordados delicados, e usava um colar prateado com um pingente de quartzo em formato de coração. A julgar pela roupa e sua joia simples, ainda carregando elegância e o brilho que poucos daquela cidade possuíam, a desconhecida aparentava ser alguém que vivia entre os nobres. A impressão fortificava-se pela maneira que avaliava os jovens que encontrara. Apesar de sua urgência em obter ajuda, deu um passo para trás depois de encontrar alguém naquele campo florido.

— Quem são vocês?

— Somos floricultores — respondeu Amarílis. — Se perdeu no campo?

— Minha senhora e eu estávamos passando e ela deixou a carruagem por querer ver as flores. Talvez o calor a tenha feito mal e ela desmaiou. Não consigo carregá-la de volta e também não quero deixá-la sozinha desacordada por muito tempo.

— Podemos ajudar — disse Ivan. — Em qual direção vocês foram?

A moça apontou para além das roseiras, embora pouco eles pudessem ver além dos galhos espinhosos e pétalas de diferentes cores.

— Ela caiu perto de uma enorme pedra.

— Sua senhora desmaiou por causa das papoulas que estão lá também — percebeu Amarílis.

—Oh, céus! — exclamou a moça, assustada. — Isso é ruim!

— Um pouco... — respondeu Amarílis. — Poderemos ajudar se prometer nos levar pra casa com todas essas rosas.

Ivan olhou de soslaio para a amiga, no entanto, conteve-se em qualquer comentário depois que a proposta fora feita tão firmemente. A moça hesitou por poucos segundos, afinal era incomum que camponeses mostrassem destemor com troca de favores em tom de superioridade.

— Saberão cuidar bem dela enquanto trago ajuda?

— É claro! — sorriu Amarílis.

— Então tem a minha palavra, os levarei para onde quiserem quando retornar.

A desconhecida agarrou a saia de seu vestido, para que pudesse correr melhor, e sem demora seus passos urgentes a levaram para além da vista dos jovens que também iniciaram sua caminhada para o lado contrário.

O sol não estava tão alto no céu, mas seus raios eram fortes, e o vento agitando as folhas trazia frescor para suportarem o calor. Ivan seguia a amiga por entre as rosas coloridas, embora estivesse ao lado dela e tomando cuidado para que não a ultrapassasse tanto naquele cenário pouco conhecido por ele. Seu andar demonstrava hesitação e Amarílis riu quando se deu conta da posição desconfortável em que ele se colocara.

— Não estamos na sua floresta, bravo caçador.

Ela então deu passos maiores, ficando à frente de Ivan, sem esconder a felicidade em seu rosto por estar o guiando pelo caminho. O garoto revirou os olhos e soltou o ar pela boca, ignorando mais uma vez a risadinha que recebia.

— Como sabe que também não vamos desmaiar por causa das papoulas? — questionou Ivan como se desejasse mudar de assunto o quanto antes.

— Porque você já ficou perto delas várias vezes.

— E quando foi isso?

— Tem algumas na janela do meu quarto, poucas pessoas adormecem somente com o perfume. Não me admira que alguém tão delicada tenha desfalecido.

— Fala como se detestasse esses nobres delicados, e foi bem rápida pra conseguir um passeio de carruagem.

— Não seja tolo, Ivan. Em algumas horas o sol vai desaparecer, como faríamos mais de uma viagem pra levar os cestos?

Dessa vez fora a vez do garoto de rir, fazendo com que a amiga virasse para trás e o encarasse arqueando a sobrancelha. Mesmo andando de costas ela não demonstrava receio, como se soubesse de cada passo e reinasse sobre aquele espaço primaveril. Sua expressão séria não se desfez enquanto aguardava o cessar daquele riso nada desdenhoso do amigo, ele apenas estava se divertindo com a nova informação adquirida inesperadamente.

— Medo do escuro? — provocou o garoto. — Essa é nova!

— Que tipo de caçador é você que mal sabe das histórias?

— Conheço histórias para dormir e amedrontar crianças desobedientes. Passei noites fora de casa com meu pai e irmãos e nunca aconteceu nada.

— Deveria saber que os fantasmas escolhem onde e quando assombrar.

Ivan balançou a cabeça positivamente, com o tipo de sorriso que não despertava a crença naquelas palavras ditas com certo tom de alerta. Ela decidiu que aceitaria aquele sorriso de compreensão que era exibido somente para evitar uma discussão.

Amarílis virou-se de novo para frente no exato momento em que as roseiras davam lugar as plantas diferentes, a maioria ficava escondida pela grama alta. A garota colocou-se na ponta dos pés, tentando esticar o pescoço, porém nada via além do verde claro da grama e o azul do céu se erguesse um pouco mais o olhar. Ivan se aproximou, agarrou-a pela cintura com cuidado e a tirou do chão. A garota quase praguejou, porém, reclamação alguma deixou seus lábios porquanto correu o olhar pelo campo. A rocha estava a poucos metros de distância, cercada pelas mesmas flores arroxeadas que enfeitavam o peitoril da janela da jovem.

— Só precisamos seguir em frente — ela anunciou e pulou para o chão. — Obrigada.

— Eu que agradeço!

Deixando-a para trás o garoto tomou a dianteira ao correr abrindo caminho. Iniciaram então uma corrida, a qual a jovem se esforçava para ter alguma chance depois daquela pequena trapaça. Ela parecia até mesmo não ver o verde que os rodeava, focando toda sua atenção no amigo, e seu olhar parecia brilhar de raiva por somente conseguir ver as costas dele. Ivan também estava igualmente focado em manter-se na dianteira e em ir pelo caminho correto, afastando a grama com força.

Nenhum dos dois notou a presença das borboletas acima de suas cabeças, com asas azuis e cintilantes como se fossem estrelas. Rodopiavam graciosamente pelo ar, sem perder os jovens de vista, e a cada bater de asas os jovens se distanciavam cada vez mais de seu mundo real. As reclamações de Amarílis e as provocações de Ivan, enquanto corriam, não passavam de vozes que já não mais seriam escutadas por outra pessoa por perto.

Alguns minutos se passaram, até que Amarílis finalmente franziu o cenho ao perceber que continuavam correndo sem alcançar a rocha que tinha localizado e constatado estarem próximos. O suor escorria pelas laterais de seu rosto em razão do esforço prolongado.

— Seu idiota! Estamos perdidos!

— O que? — perguntou Ivan ao parar de correr.

— Já deveríamos ter alcançado aquela pedra. Se não tivesse saído na frente daquele jeito...

— Teria machucado ainda mais suas mãos — resmungou Ivan.

Amarílis espiou uma das mãos de Ivan, podendo ver como estava avermelhada pelos arranhões causados pela grama alta de extremidades ásperas. Ela nada disse, surpresa com a resposta, e desviou o olhar. Ivan, de repente, também pareceu sem palavras e somente se aproximou para a levantar uma segunda vez e se localizarem novamente. Entretanto as borboletas azuis acima de suas cabeças se ouriçaram ainda mais e ambos adormeceram.