Sussurro das Borboletas
2 Campo Florido
Ivan foi o primeiro a abrir os olhos e contemplar aquele céu sem estrelas, somente um quadro ostentando o tom mais escuro de azul. Permaneceu imóvel ao continuar observando aquela imagem estranha, como se sombras dançassem no céu, e percebeu ser como acordar no meio da noite e assistir a escuridão se movendo e o incentivando a não deixar nenhuma parte do corpo sem a proteção do cobertor.
Apesar de não ter nenhuma manta o cobrindo, o deixando vulnerável aos perigos noturnos, ele tinha outra preocupação que havia roubado sua total atenção. Tivera um sonho que o deixara incomumente desnorteado, estava correndo com a amiga e borboletas voavam acima de suas cabeças até pontinhos luminosos dançarem com elas no ar e todos desaparecerem. Porém, ao sequer refletir melhor sobre as imagens em sua mente, que parecia uma mistura de realidade com fantasia, ele escutou Amarílis resmungar algo incompreensível. Abaixou o olhar para a amiga, a qual se encontrava com a cabeça sobre seu peito.
— Não sou um travesseiro, Lily — disse ao tocar a bochecha dela com o indicador para despertá-la.
Ele inspirou profundamente ao apoiar os cotovelos na terra e sentiu o perfume das flores lilases escondidas pela grama alta.
— Dormimos por quanto tempo? — indagou Amarílis ao esfregar os olhos.
— Mais do que deveríamos, mas como ainda estamos aqui? — respondeu ao se levantar e procurar pela moça que ofereceram ajuda ou a que tentaram alcançar. — Nos largaram no campo...
— Ivan!
O garoto a encarou, ainda sentada na grama e com os braços cruzados ela ostentava a preocupação em seu semblante. Era um detalhe bastante incomum e vê-la com o olhar alarmado o fazia sentir-se estranho. Sua amiga nunca demonstrava o mínimo de temor, principalmente ao seu lado, como uma forma de desafiá-lo.
— O que foi? — indagou o garoto.
— Francamente! Como pode perguntar com tanta calma? O sol já se foi e estamos fora de casa!
Ambos escutaram as histórias quando mais novos, motivo pelo qual dormiram bem cedo durante toda a infância. Sabiam dos sumiços misteriosos de anos atrás, das incontáveis pessoas que acabaram deixando gritos estridentes como última lembrança para os que correram para longe. Algo se escondia pelos arredores da cidade e aguardava o momento oportuno, preferindo a noite para se aventurar. Contudo se tornara uma realidade distante, uma que Ivan jamais acreditou completamente. O único perigo no qual acreditava sem questionar era o de um predador nas florestas que ia para caçar.
— Só precisamos voltar — replicou Ivan com perceptível obviedade.
Tornou a erguer a cabeça e novamente a visão do céu lhe trouxe uma sensação estranha, mas agora o sentimento era ainda mais sombrio. Dessa vez soube que não deveriam estar ali. Apesar de não haver nem mesmo a luz da lua, conseguia enxergar no que deveria ser o completo breu. Ter consciente desse detalhe o incomodava, o fazendo duvidar das próprias percepções.
— Já que nada aconteceu até agora é melhor nos escondermos e esperar amanhecer — sugeriu Amarílis ao se levantar e bater as mãos na saia do vestido para limpá-lo. — Vai ser mais seguro que chamar atenção perambulando por aí.
— É impressão minha ou não estamos no mesmo lugar de antes?
— Impossível, menino.
Se a amiga estivesse em seu melhor momento, sabia que seria capaz de assistir aqueles olhos escuros brilhando em convencimento.
Ivan refletiu sobre o sonho que tivera, parecia tão vívido que o assustava ao ponto de não negar nem a si mesmo. Avaliou novamente o local e decidiu que parecia o mesmo de antes apesar da constatação estranha do que via se olhasse para cima. Um céu escuro demais, uma visão nítida das sombras valsando acima de suas cabeças e o campo florido tão rico em detalhes... Julgou que aquele perfume no ar o deixava atordoado desde o momento que despertou.
— Essas florzinhas que causam sono não deveriam estar somente perto daquela pedra? — ele quis saber, ligeiramente irritado.
— Sim, e nada impede que algumas cresçam em outros lugares também.
— Vamos nos afastar dessa parte antes de cairmos no sono de novo.
Amarílis assentiu e, a contragosto do jovem, tomou a frente em guia-los pelo caminho.
Continuava intrigado com o céu, sem conseguir localizar qualquer ponto luminoso, porém, não questionou a amiga sobre o detalhe desconcertante. Provavelmente era sua imaginação ou o efeito sonífero das flores ao seu redor.
Amarílis caminhava de maneira decidida alguns passos a frente, tal como não se importava com os prováveis cortes que a vegetação a sua frente causava nas suas mãos. Ivan então recordou-se dos próprios pequenos ferimentos que havia recebido antes. Cerrou ambos os punhos na tentativa de sentir os cortes superficiais causarem o mínimo de dor, mas nada sentiu. Esticou os dedos e avaliou as palmas, percebendo não haver nenhum machucado.
Seu coração bateu mais depressa e a respiração pesou. O silêncio no qual estavam imergidos se tornava a cada instante mais um motivo para reforçar a súbita conclusão de que se encontrava em um sonho realístico que o aliviou de imediato. Era um sonho demasiadamente realístico para que deixasse de se importar com as pequenas descobertas.
— Estávamos perdidos na ida, vai ser complicado achar o caminho de volta. — Amarílis virou-se para trás. — Me levanta de novo.
O garoto ergueu a sobrancelha, curioso com o pedido.
— Isso chamaria atenção do que quer que possa estar com medo, esqueceu?
— Pelo menos é melhor andar com um trajeto já que nada aconteceu com a gente até agora. E de repente você acredita em mim?
— É tudo história pra sermos obedientes — contrariou Ivan e se aproximou da amiga para erguê-la do chão. — Eu já disse que passei noites fora de casa.
— Na floresta do outro lado da cidade. Olhou para cima? — questionou Amarílis ao ser erguida, mas logo olhou ao redor para se localizar. — O céu está estranho.
— Devemos estar atordoados por causa das flores — ele argumentou. A garota suspirou e fez sinal para que a colocasse de volta no chão. — Ou isso é um sonho.
— Eu chamaria de pesadelo.
Definitivamente estava dormindo. Amarílis costumava falar de forma doce, quando estava sonhando acordada, ou subitamente soava agressiva e ácida. Nunca parecia séria e concentrada como naquele momento. Ela estava tão estranha quanto o que poderiam ver se olhassem para o alto em busca de qualquer indício de luz. Avaliando de perto ela não parecia ser quem era também e estava longe de estar fazendo algum sentido. Ivan não entendia o fato dela afirmar que estavam no mesmo lugar de antes, mas identificar o céu incomum e em nada aquilo a fazia pensar que tinha algo estranho sobre a terra que pisavam. Simplesmente julgava ser real como as histórias que escutavam antes de dormirem. Ou ela estava atordoada por causa das flores ou aos poucos perceberia, assim como ele, que era um sonho.
Procurou afastar os pensamentos sobre a situação, começava a ficar bastante confuso consigo mesmo.
— Para qual lado vamos?
— É só me seguir — ela disse. Aparentemente a essência continuava a mesma. Mandona. — Podemos dormir perto das roseiras.
Tornaram a caminhar e, desacreditado de que a vivência seria real, evitou contrariar a decisão de não retornar imediatamente para casa. Afinal a própria menção da palavra casa o revelava o quanto aquilo estaria longe de estar acontecendo verdadeiramente. Suas famílias os teriam procurado se tivessem sumido por tantas horas. Era mais do que certo que adormeceram por causa das papoulas e levaria tempo para despertarem. Obviamente suas famílias sairiam a procura deles e os levado para casa. O sermão chegaria quando despertassem.
Essa tornou-se sua conclusão durante a caminhada.
Algo chamou sua atenção em meio ao deslocamento silencioso. Um som próximo demais o fizera virar para o lado e franzir o cenho, atento a nova presença revelada por uma simples tosse. Parou no mesmo instante, alerta a qualquer ameaça, e Amarílis retrocedeu alguns passos de maneira cautelosa para que ficassem mais próximos. Escutaram os passos lentos e assistiram o movimentar das folhagens até uma nova figura surgir.
Combalido, o homem encarava a terra e parecia não ter se dado conta da presença dos dois jovens a sua frente. Sua roupa de linho estava folgada demais em razão do corpo esguio. A camisa de mangas longas cobria os braços, no entanto, podia-se perceber seu estado ao observar os dedos esqueléticos. Continuou em seus passos arrastados, fazendo os outros dois retrocederem.
— Senhor, está tudo be...
— Não! — disse Amarílis, em tom baixo e repreensivo, e Ivan calou-se.
Antes que pudesse questionar aquela reação exasperada quando apenas se mostrou educado, o desconhecido endireitou a postura em um sobressalto. Os olhos se arregalaram ao finalmente perceber que estava diante de novos visitantes. Olheiras profundas revelavam diversas noites em claro e Ivan podia identificar as maçãs do rosto saltadas, os ossos em sua face destacados pela magreza.
— Tão jovens. — O homem inspirou profundamente e sorriu com tristeza ao esticar os lábios secos. A fala revelou os dentes amarelados e escurecidos. — Tão descuidados.
— Está se sentindo bem? — tornou a indagar Ivan. — Parece... abatido.
Contudo o desconhecido desviou o olhar para Amarílis ao dizer:
— É um erro querer ter mais conhecimento sobre os outros do que realmente se deve, disso já tem consciência. Então como vieram parar aqui?
O garoto olhou para a amiga de soslaio, surpreendentemente ela reprimia os lábios como quando era repreendida pela mãe e sabia estar errada. Diante ao silêncio dela, colocou-se a responder em seu lugar.
— Viemos colher rosas.
O desconhecido voltou o olhar para o garoto e piscou algumas vezes, como se estivesse sinceramente desacreditado daquela resposta e procurando compreender um absurdo. Ivan permanecia o observando com certo receio por conta da aparência. Um dos olhos do homem era maior que o outro, talvez mais afastados que o esperado, detalhe que se tornava ainda mais destacado pelo rosto fino. O corte de cabelo desalinhado, o pescoço longo demais, as orelhas caídas, o nariz muito pontudo...
O silêncio permaneceu por alguns segundos, o mais velho demonstrava algum esforço em compreender a situação, apesar de parecer compreensível que pessoas estivessem em um campo com flores exatamente para as colher com a chegada da mais bela estação.
— Não sabem onde estão, crianças?
Definitivamente deveria ser um sonho, no entanto, o garoto julgou que o desconhecido deveria estar um tanto fora de si. Prestes a responder o que parecia óbvio, Ivan ficou sem reação diante algo curioso. A imagem do homem pareceu se distorcer e resquícios de seu verdadeiro aspecto surgiram por segundos suficientes para confundir quem o olhava atentamente. Por um instante o garoto viu um rosto de maxilar marcado e barba feita, o cabelo loiro curto e irises de tom castanho claro reluzindo vitalidade. O reflexo de um homem belo logo se perdeu e tornou a realidade a qual Ivan o definiria com o antônimo mais forte de bonito.
Pensou que não seria a mesma pessoa. Quem sabe ainda estivesse sob efeito do perfume das flores...
— Onde estamos? — perguntou então Amarílis.
— No jardim dela — esclareceu o homem.
Ivan tinha a mais absoluta certeza de que Volery não pertencia unicamente a alguém. Muito menos os espaços abertos, utilizados por vezes por pessoas especificas, como o campo de flores, eram designados a qualquer morador para que chamasse de “seu”.
— Dela? — quis saber o garoto.
— Faz muito tempo desde que alguém foi atraído... — divagou o desconhecido. — Deveriam dormir um pouco e descansar enquanto é possível.
— E falta muito para amanhecer? — indagou Amarílis.
O homem arqueou as sobrancelhas, como se a pergunta tivesse uma resposta muito simples e estivesse bem na frente deles. O ar cansado que demonstrava somente na forma lânguida de mover-se e reagir a cada fala fizera a compreensão chegar.
— Aqui as noites são intermináveis — concluiu Ivan.
O outro deixou escapar um riso baixo ao assentir e tornou a andar, desviando dos dois.
— Tão jovens...
Novamente sua imagem se distorceu e Ivan o viu com um traje diferente e postura impecável, como um nobre em um evento social. Sua figura era mais corpulenta, saudável, com músculos e altura invejáveis. Tão rápido quanto essa impressão surgiu, perdeu-se conforme o desconhecido se afastava e desaparecia por entre a grama alta.
— O senhor não disse de quem é o jardim! — destacou Amarílis.
O desconhecido parou, mas não virou-se de volta para eles. Sua voz arrastada viajou pelo ar uma última vez antes de retomar sua caminhada.
— Seu nome será o último detalhe que conhecerão, então se apresentem em sua melhor forma. Um livro atrai por sua capa e pode enganar. Até mesmo uma rosa, tão bela e delicada, pode ferir.
A garota se apressou em segui-lo e Ivan a segurou pelo pulso, impedindo sua ação. Afinal não gostara nada do sorriso que receberam poucos instantes atrás quanto as noites serem contínuas. Assemelhava-se a um mau agouro silencioso, como se o desconhecido desejasse vê-los na mesma situação, apesar de julgar uma pena.
— Me solte — a amiga pediu.
— É perigoso ir atrás dele.
— Por que?
— Eu não sei — admitiu Ivan. — Alguma coisa me diz isso.
— Instinto?
— Ele não me causou uma boa impressão.
Amarílis estranhamente continuou parada e assistindo o desconhecido se afastar. O garoto jamais reclamaria do momento em que ela desistisse de usar a força para o contrariar em qualquer decisão. Novamente ficaram em silêncio, somente escutando os passos demorados do desconhecido ficando cada vez mais distante até o momento que o som se perdeu.
— Se quisermos voltar precisamos entender onde estamos — divagou a garota. — Jardim dela... o que isso quer dizer?
— E importa?
Ela virou-se bruscamente, evidentemente irritada.
— Acorde! Estamos presos.
— Isso é um sonho — argumentou Ivan, internamente irritado com a situação. — Realmente quero acordar.
Amarílis desvencilhou-se daquele leve aperto no pulso para segurar a mão do amigo. Ele imediatamente sentiu-se congelar onde estava, pela primeira vez sentindo o vento frio da noite. Ela mordeu o lábio, hesitante, o deixando aguardar por qualquer que fosse sua próxima fala. O comportamento insólito o incomodava mesmo sabendo estar longe da realidade. Aquele pequeno momento lhe pareceu uma eternidade enquanto observava o cabelo desgrenhado da amiga, os fios ondulados dançando com a brisa gelada. Com aquele cenário sombrio sobre eles não conseguia ver perfeitamente as sardas que salpicavam sua face.
Temeu que ela notasse que sua mão começava a suar.
Ela mantinha o olhar fixo, independentemente de parecer não gostar do que estava prestes a fazer. Mais uma vez aquele desespero no olhar apareceu, a conferindo a atípica instabilidade que jamais demonstrava para as pessoas a sua volta. Entretanto não se recompôs como seria de se esperar, as lágrimas surgiram e sua voz soou comedida quando finalmente deixou as palavras escaparem:
— Me desculpe.
Com absoluta certeza da irrealidade que se apresentava, Ivan somente desejou que terminasse logo. Detestava vê-la chorando mesmo em um sonho.
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