Susana e Rudolf: A conexão
3 Capítulo 3
Rudolf observava a fachada do prédio de Susana. Dissera a ela que ia sair para dar um pulinho no mercado. De fato fora ao mercado, mas, ao voltar, ao invés de subir logo até o apartamento dela, reconhecível pela sacada de vidro, ficou de pé do outro lado da rua, contemplando o edifício e, em especial, com o olhar fixo no andar aonde ficava o apartamento da moça.
Naquele momento de reflexão, tinha a moça em seus pensamentos e pensava sobre tudo o que já havia acontecido entre eles desde que começaram a conversar.
Ao olhar de lado podia ver ao longe o Pão de Açúcar e a praia, além de um parque no caminho até a orla.
Após seu momento de reflexão, atravessou a rua com a sacola de compras na mão, e se encaminho para o prédio de Susana.
Lembrou-se de como estava antes de terem começado a conversar — antes dele ter vindo ao Rio de Janeiro para passar um tempo com ela. Havia sido no dia posterior ao aniversário dele de 29 anos, a primeira conversa entre eles.
De súbito, Rudolf foi levado também de volta para uma lembrança que povoava seus pensamentos constantemente naquela época. Devido a diversas perdas, pessoais e profissionais, inclusive quanto ao falecimento de familiares e de pessoas próximas a ele, algumas pessoas haviam pontuado que Rudolf andava cabisbaixo, carrancudo, como se houvesse algum peso enorme sobre os seus ombros que o impedia de se animar, de demonstrar ânimo, disposição ou coragem para fazer as coisas. Como se houvessem roubado-lhe a vontade de viver.
Rudolf naquela época andava sempre tão no automático que mal reparava. Ao se olhar no espelho numa determinada tarde, porém, notou que os amigos estavam certos. Ele se sentia mesmo cabisbaixo, tinha olheiras e andava com os ombros para baixo, como se alguém lhe tivesse sugado o ar de seus pulmões.
Aquilo o fazia se lembrar de seu antigo professor de basquete na escola. Alisson era um dos melhores professores e treinadores da instituição. Sempre conduzia a equipe de basquete nos jogos escolares com primazia. Porém, tudo mudou quando sua filha mais velha, Anandra, faleceu subitamente acometida por uma doença grave. Alisson passou a vir para o trabalho sempre cabisbaixo, sem conseguir olhar as pessoas nos olhos, e com os ombros caídos; como se não tivesse mais a mesma alegria e disposição de antes.
Para Rudolf, a principal perda que afetara-lhe emocionalmente, de tal modo que passara a andar cabisbaixo, sem convicção e sem vontade, haviam sido suas duas avós. Haviam falecido fazia 8 anos. Uma em novembro e outra em dezembro do mesmo ano. Ambas em datas próximas ao Natal. Desse modo, sempre que se aproximava da chegada do clima natalino, Rudolf acabava relembrando das avós e em particular da passagem de ambas. Um contraste curioso com o fator de que Rudolf fazia aniversário 1 mês depois do Natal.
Para quem conhecia o livro "A Cabana", diziam que Alisson e Rudolf exibiam elementos da chamada "Grande Tristeza", um dos elementos abordados pelo livro.
Conhecer Susana, que o dava dicas em sua escrita, seu trabalho, sua alimentação, seus planos e seus projetos, mudara a vida de Rudolf para imensamente melhor.
Rudolf passou pela portaria e subiu as escadas até chegar ao andar de Susana.
Bateu à porta.
Susana abriu e o recebeu com um abraço de urso bem apertado, quase derrubando a sacola de compras. O professor e escritor retribuiu o abraço, acariciando e massageando a parte de trás da cabeça e cabelo da moça, bem como das suas costas.
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