Survivors!!
20 Protectors of the city
Notas iniciais
“Today is gonna be the day;
That they’re gonna throw it back to you;
By now you should’ve somehow;
Realize what you gotta to do;
I don’t believe that anybody;
Feels yhe way I do;
About you now;
Backbeat the word is on the street;
That the fire in your heart is out;
I’m sure you’ve heard it all before;
But you never really had a doubt;
I don’t believe that anybody;
Feels the way I do;
About you now...”
Wonderwall
Oasis
Estação central de Starling (domingo, 14/5 – 5:23 a.m)
Tommy
—Promete que vai me ligar assim que chegar lá? – peço, segurando a mão de Cait enquanto caminhamos para a plataforma de embarque, sua mala na outra mão – E à noite para me contar como foi seu dia e te conto sobre o meu – acresço – E na segunda para me dizer quando volta. E...
—Thomas, estou indo para Central City, não para o outro lado do mundo! – reclama, franzindo o nariz em uma careta graciosa – Mas claro que vou te ligar. Não a cada meia hora, mas sempre que possível, ok? – pergunta, parando de frente para mim tão logo alcançamos a composição na qual viajaria.
—E eu tenho escolha? -devolvo, torcendo o nariz.
Sendo honesto, o que me incomodava não era a distância nem o tempo em que permaneceríamos separados, mais ou menos duas semanas, se tudo desse certo, segundo ela. O que estava me irritando era o fato de que estaria todo este tempo e o mais que fosse necessário ao lado do ex namorado (ou noivo, sei lá). Confio no meu taco, evidente. Mas sabe como é, longe dos olhos....
—Tommy, eu participei de praticamente todo o processo de criação do acelerador, desde sua concepção até a montagem. Resolvi me afastar por não ter sabido como lidar com a traição de Ronnie, o que foi um erro. Jamais deveria ter permitido que minha vida pessoal interferisse na profissional, mas uma vez que o fiz, não vou ficar lamentando – argumenta, puxando o ar com força, soltando-o de uma vez num suspiro alto -Eu realmente agradeço por doutor Wells requisitar minha presença mesmo eu tendo largado tudo – diz, descansando os braços sobre meus ombros, me brindando com um de seus sorrisos doces que me fascinaram desde o primeiro momento em que a vi -E prometo que não ficarei mais do que o necessário – garante.
—E se esse tal de Wells te convidar a trabalhar no laboratório novamente? Vai ter coragem de recusar? – inquiro, a dúvida se formando em seu rosto.
—Se isto acontecer, verei como lidar. Por hora, vou me concentrar em ajudar nos últimos preparativos para que o acelerador possa entrar em funcionamento e me certificar que meu substituto esteja preparado para suas funções depois disto – enumera, roubando um beijo -Uma situação por vez, Thomas. Nada de apressar ou presumir coisas. Conheço Harrisson Wells a tempo suficiente para saber que o convite que sugeriu não seja feito. Ao menos não agora. Se ele me convidou para este momento em particular deve ter seus motivos. Patrocinadores talvez – pondera, suspirando mais uma vez -O que importa para mim é que estarei lá para ver o projeto pelo qual lutei e me doei durante anos sair, finalmente, do papel. Será um sonho tornando-se realidade. Lidarei com o que vier depois na medida em que for acontecendo e te aconselho fazer o mesmo – pede, tocando a ponta de meu nariz.
—Vendo por este ângulo e depois de tudo que disse, quem sou eu para me opor a seus sonhos! – exclamo, erguendo a mão quando tencionar falar – Eu entendo seus argumentos Cait. Todos. E aí entenda que esta situação, nós dois, é algo completamente novo para mim posto que somente me envolvi, até hoje, com mulheres sem qualquer outro interesse que não fosse meu dinheiro e tudo que ele conseguia proporcionar, salvo Laurel. E saiba que tenho muito orgulho de você e da forma apaixonada pela qual acabou de defender sua posição, seu trabalho — friso, envolvendo sua cintura, fazendo-a colar-se a meu corpo -Se disser que não fiquei com uma pontinha de ciúmes dessa coisa, esse acelerador, estaria mentindo – assumo, fazendo-a rir.
—Do acelerador mesmo ou seria da pessoa com a qual irei, necessariamente, me encontrar? – mata a xarada e é minha vez de fazer careta.
—Bingo! – exclamo – Esse tal Ronnie... Ele não precisa, necessariamente, ficar a seu lado o tempo inteiro, precisa? – inquiro, ganhando mais um sorriso, este de puro divertimento – Não ria Cait. Vocês têm uma história, estavam quase noivos, pelo que Felicity contou, viveram um romance longo o qual terminou por um momento de fraqueza que qualquer um pode cometer. Eu cometi quando transei com a Sara lá atrás, quando começamos a nos envolver – relembro, a contragosto -E se ele estiver arrependido? Se te pedir perdão, como vai se sentir? – questiono-a, tenso – Por mais forte e intenso que seja o que estamos vivendo, não se compara ao que passou com ele muito menos ao fato de que têm mais coisas, mais interesses em comum do nós dois temos – aponto de mim para ela – É mais do que natural eu me sentir inseguro. Oliver esteve morto por cinco anos e nem assim consegui fazer com Laurel o esquecesse. Ela sequer me deu uma chance de verdade. Hoje vejo que fui apenas um passatempo, alguém com quem podia compartilhar sua dor e tristeza por ter perdido Oliver e Sara, pela traição dos dois. Que tudo que ela me ofereceu foram migalhas as quais me agarrei, por desespero ou esperança, não sei, sem qualquer vergonha ou pudor – reconheço — Sempre que nos deitávamos nunca erámos apenas nós na cama. Erámos nós, mais Oliver, Sara, o capitão Lance e quem mais ela conseguisse colocar ali e honestamente, não quero isto de novo. Não quero ser metade ou abrigo para alguém curar suas feridas. Assim como não quero mais ser visto como passaporte para o mundo de luxo e glamour que muitas procuravam quando iam pra cama comigo, muito embora isto tenha ficado para trás – observo, suspirando – Quero uma relação inteira, de verdade, completa aonde eu seja o ator principal e não coadjuvante outra vez. Quero o que ainda não tive. Pode me chamar de egoísta, mas acho que mereço – desabafo, ganhando, ao invés de palavras, um beijo deliciosamente molhado, sedento, repleto de desejo e algo mais. Seria ... amor, talvez??
—É claro que merece – diz quando finalmente nossos lábios se separam -Evidente que um pedido de perdão do Ronnie irá mexer comigo, caso haja – admite, deixando meu coração apertado -Mas isto não significa que irei voltar correndo para ele – afirma, tranquila -Sei que qualquer um pode errar. Eu posso errar. A questão é como lidamos com nossos erros. Claro que fiquei chateada por você ter transado com a Sara, mas ainda estávamos nos conhecendo. Juro que sequer pensei chegaríamos aonde estamos hoje –confessa.
—Somos dois! – faço o mesmo e ambos rimos.
—Então não sofra por antecipação – aconselha, correndo os dedos por meu cabelo em uma massagem delicada – Como disse a pouco, lidarei com as situações conforme elas forem surgindo. E sempre, sempre, estarei em contato com você, conversando, trocando idéias, pedindo sua opinião – garante, se aconchegando a meu corpo novamente – Também quero uma relação aonde possa ser a protagonista de alguém. O par romântico no melhor estilo piegas! – brinca — E ainda que, por qualquer motivo, precise demorar um pouco mais em Central, daremos um jeito de levar adiante o que estamos vivendo. Se você quiser, é lógico – condiciona, mordendo o lábio inferior.
—Ainda duvida? – pergunto, tomando sua boca em um novo beijo, ainda mais sedento que o trocáramos a pouco, interrompendo-o apenas quando escutamos o limpar de garganta do funcionário da ferroviária.
—Hã.... desculpem interromper, mas o trem partirá dentro de alguns minutos. Todos os passageiros devem embarcar imediatamente – avisa, sorrindo complacente, tocando a aba do quepe antes de retornar ao interior da composição.
—Melhor eu ir andando – Cait sopra, soltando-se devagar, hesitando, como eu, em se afastar.
Pode ser tolice e confesso que nunca fui de dar atenção a este tipo de coisa, mas a verdade era que desde que escutara falar sobre este tal acelerador havia tido um mal pressentimento.
—Cait, prometa que terá cuidado. Que não vai se expor a nenhum perigo desnecessário – imploro.
—Tommy, não irei fazer nada perigoso. Apenas revisar todos os procedimentos, checar se tudo está em ordem para o acionamento e caso algo não esteja, recomendar que adiem. Nada além disto – enumera – Mas, se isto te deixa tranquilo, prometo que não irei me expor a nenhum perigo, seja ele necessário ou não – assegura, me beijando novamente, o apito estridente fazendo com se separasse de mim ligeiro, correndo arrastando a mala para o interior do vagão.
Sigo-a, pelo lado de fora, pulando, vendo-a através das portas e janelas aberta nas cabines, até que ocupasse a sua, sentando-se a janela. Apoio as mãos a ferragem, ficando na ponta dos pés, ela se esticando para fora a fim de trocarmos um último beijo antes que o trem entrasse em movimento.
Sigo-o até o fim da plataforma, acenando feito um bobo (algo que jamais pensei que faria em minha vida. Juro!), deixando o lugar apenas quando o trem some de meu campo de visão.
Me volto para ir embora e de súbito sou tomado por uma sensação de estar sendo observado. De imediato paro, olhando em volta, tenso, procurando não sei bem o quê ou quem posto que não conhecia a face de nenhum dos tidos sócios de meu pai e dos Queen no Empreendimento (era está minha preocupação, admito, desde o alerta dado por Helena).
Demoro alguns minutos nesta busca infrutífera, desistindo após não ter notado nada de estranho ou diferente nos arredores. Nem mesmo alguém me encarando divisei.
Prossigo meu caminho mesmo a bendita sensação não havendo sumido por completo. Ao sair do prédio, ando apressadamente, chegando rapidamente a meu carro, destravando-o quando estava alguns passos do veículo, entrando igualmente rápido, a sensação ainda presente. Olho em volta mais vez, não vendo nada além de pessoas entrando e saindo do prédio da estação, acompanhadas ou não, carregando suas bagagens. Perco alguns minutos atento a tudo até o ronco e a dor em meu estômago (quase perdêramos a hora porque o despertador não tocou e como resultado não houve tempo nem para um café. Por sorte Cait poderia fazê-lo no trem) me fazem decidir ir embora.
Tinha acabado de dar a partida e já começava pôr o veículo em movimento quando, vindo sei lá de que buraco, um mendigo pula sobre o capô dianteiro, fazendo meu coração vir parar na garganta!
—Cristo!! – exclamo, pisando bruscamente no freio, encarando o homem maltrapilho que, ao que tudo indica, não se assustara com seu quase atropelamento.
—Uma ajudinha para meu café, pelo amor de Deus! -implora contra o vidro fechado do meu lado, estendendo uma mão.
—Ok. Se afasta um pouco – peço, sinalizando com a mão, ele hesitando obedecer.
Em outros tempos, o velho Tommy pisaria no acelerador, deixando-o no vácuo total e absoluto. Mais ainda: acharia aquilo divertido e contaria vantagem entre os amigos (Oliver inclusive) de como fizera o paspalho de trouxa!
Mas não é isto que faço. O Tommy de hoje busca por algum trocado no porta luvas, não resmungando ou soltando qualquer impropério ao encontrar uma nota de vinte.
—Aqui – abaixo minimamente o vidro, dando espaço somente para a passagem do dinheiro (o novo Tommy também tinha se tornado mais precavido e o cuidadoso como bônus depois de começar andar com o arqueiro).
—Deus te abençoe! – exclama o cara, que sai pulando quando percebe o valor recebido.
—Obrigado – agradeço para o vazio, sorrindo pequeno, balançando a cabeça negativamente ao entender o quão pouco para mim, pode ser muito para outros -Isto o velho Tommy não entendia – murmuro, tomando novo susto ao receber a buzinada aguda seguida pelo xingamento de outro motorista o qual quase acertei o carro ao sair sem prestar atenção – Olha só universo, quero lembra-lo que velho o Tommy ainda mora aqui e pode acordar a qualquer momento, portanto, pare de fazer barulho ou não me responsabilizo!! – resmungo, manobrando o carro a fim de deixar aquele lugar – E uma coisa comum aos dois é a falta de humor quando está com fome – acresço, rindo mais uma vez – Definitivamente preciso passar menos tempo perto daquela loirinha! – exclamo – Pobre Oliver! – nova exclamação, meu riso aumentando a ponto de gargalhar.
Na medida em que sigo rumo aos Glades (decidira tomar meu dejejum por lá e começar meu dia de trabalho em Verdant a fim de distrair a mente um pouco), a sensação de estar sendo observado diminui. Não desaparece por completo, mas diminui bastante, admito.
Quando entro no bairro, outrora o mais violento da cidade, por mais estranho que pareça, me sinto mais seguro. Hoje seus moradores estavam focados em recuperar o estrago causado pelas máquinas de terremoto idealizadas por meu pai e seus sócios. As havíamos desligado, mas não em tempo de evitar algum estrago. Bastante estragos, sendo honesto. E me sentia orgulhoso em estar, juntamente com Oliver, Felicity, Diggle, Thea e demais, lutando, visível ou invisivelmente, para concertar o que fora quebrado, por assim dizer. Havia muito a ser feito, muitos problemas se acumulavam, mas todos se movimentavam para um bem comum: reerguer o bairro. O maior empecilho, melhor dizendo, pedra, estava sendo um vereador de meia pataca metido a santo, Sebastian Blood. O cretino parecia querer começar uma vendeta pessoal contra os ricos da cidade. Oliver em especial. Ainda era algo discreto e restrito alguns comentários maldosos, mas a julgar pela repercussão que suas primeiras declarações tiveram, podia crescer. Ele se calara durante o processo de Moira, mas algo me dizia que em breve teríamos notícias do diletíssimo vereador.
—Mais um querendo se promover em cima da dor alheia – resmungo, buscando algum local, lanchonete ou padaria, que já estivesse aberto àquela hora (passava vinte minutos das seis da manhã).
Encontro uma bem perto da boate, aonde costumávamos nos reunir vez ou outra após o final do expediente na boate (isto quando a noite era tranquila, obviamente), estacionando na vaga do canto. Ao descer do veículo, novamente me sinto observado e outra vez perco alguns minutos perscrutando o entorno do local, meu estômago ordenando interromper a “investigação” a fim de saciar a fome.
—Se tiver de lutar, que não seja de barriga vazia! – bufo, acionando o alarme, seguindo para o interior do estabelecimento, ind direto para o balcão aonde faço meu pedido.
Escolho uma mesa no canto, perto da porta, de onde poderia ver facilmente qualquer um que adentrasse o local, dando atenção, enquanto esperava meu pedido ficar pronto, a televisão acima do balcão. O noticiário local acabara de começar, ao que tudo indicava. O destaque era, como esperado, o término do julgamento que pusera Moira Queen em liberdade vigiada, a livrando da perpétua ou pena de morte, como fora cogitado durante alguns momentos. Naquele exato momento era exibida uma reportagem falando sobre isto. Pessoas na rua haviam sido questionadas acerca do resultado. Gente apoiava, gente criticava dizendo já saber que isto aconteceria posto que a justiça não existia para os muito ricos (mal sabiam eles que tanto a QC quanto a Global estavam praticamente falidas), gente se dizendo indignada por ter gente querendo ela presa, afinal era uma mãe e fizera tudo para proteger os filhos. Graças que logo a matéria acabou e a repórter não estendeu o assunto.
Agora o tema era o tal acelerador que seria ligado na vizinha Central City na segunda pela manhã, provavelmente. O foco era ressaltar a importância do evento, nada sendo dito sobre a equipe além de que era liderada pelo renomado doutor Harrisson Wells.
—Seu pedido está pronto Thomas – o rapaz do balcão avisa, pondo a bandeja com sanduiche, café, suco, uma fatia de torta e croissant sobre ele.
Me levanto, caminhando até lá, pegando. Quando me voltava para retornar a mesa, o sinete na porta chama minha atenção e olho naquela direção, deparando-me com ninguém menos do que Adam Donner.
Estanco um segundo a fim de lhe dar passagem (a entrada era relativamente estreita). Como não o faz, sigo meu caminho de volta a mesa, sentando-me com a finalidade de tomar meu dejejum
E qual não é minha surpresa quando ele vem direto para onde estou, parando junto a cadeira vazia a minha frente.
—Posso? – pergunta, indicando-a com um gesto.
—Não sei por que, mas acho que irá se sentar independente de minha resposta ser negativa – respondo, honesto (e um pouco irritado, admito).
—Infelizmente seu pensamento está correto – confirma, puxando a cadeira, sentando-se, me permitindo visualizar dois homens do tamanho de um armário postados a entrada, do lado interno, e mais dois no lado externo – Minha última experiência deixou-me um pouco, digamos, zeloso em relação a segurança – ouço-o dizer e desvio o olhar para seu rosto, notando o suor e palidez nele.
—O que quer promotor? – pergunto, direto, despejando o conteúdo do sachê de açúcar dentro do copo com suco, mexendo sem pressa.
—Quero lhe fazer uma proposta – responde, entrelaçando os dedos ao apoiar as mãos sobre a mesa, me encarando, sério.
—Proposta? – repito, mordendo o sanduiche.
—Trabalhe comigo – solta e paro a mordida na metade, arqueando a sobrancelha, olhando-o por cima do sanduiche – Saia das sombras, da ilegalidade. Deixe de ser um fora da lei. Trabalhe comigo. Com a promotoria, quero dizer – se corrige, prosseguindo – Não posso garantir que a polícia deixe de persegui-lo de imediato. Ou a sua equipe. Mas posso fazer isto mudar gradativamente – garante, seus olhos brilhando em entusiasmo o qual não compartilho – Na medida em que forem trabalhando comigo, resolvendo os casos dentro da lei, todos passarão a vê-los com outros olhos. Você e seu time serão heróis. Os protetores oficiais da cidade! – finaliza, sorridente.
—Desculpe, mas meu raciocínio nunca é muito bom a esta hora do dia, ainda mais quando não tive a chance de tomar meu dejejum tranquilamente – reclamo – Por que, exatamente, eu aceitaria sua proposta? – inquiro, mastigando o pedaço de sanduiche que pusera no canto da boca para pode falar.
—Para tirá-lo, e a seu time, gradativamente da lista negra do departamento de polícia e entrarem definitivamente no hall dos heróis – repete, continuando a me encarar calmamente.
—Hum... sei... -digo, engolindo a comida, bebendo um generoso gole do suco antes de voltar a falar – Promotor Donner, por que está Me oferecendo tal coisa? – questiono-o, tocando meu peito com ambas mãos — Quem o senhor pensa que eu sou mesmo? – quero saber, fazendo minha melhor cara de paisagem, estreitando os olhos ao vê-lo se inclinar, aproximando seu rosto de mim o máximo que conseguia, a voz saindo quase em um sussurro.
—O capuz, ou vigilante, como queira ser chamado! – responde e abro a boca, estupefato como poucas vezes fiquei em minha vida – Eu sei. Descobri seu segredo – prossegue em tom de confidência — Naquela noite, quando me resgatou e levou para o hospital, vi seu rosto quando beijou a médica, a qual, suponho, deva fazer parte de seu time ou, no mínimo conhece sua identidade — revela, me deixando ainda mais espantado com sua fala seguinte – Enquanto me recuperava, fiz algumas investigações por conta própria. Conheço.... pessoas que vivem em lugares que podem ter acesso a informações sem que precise passar pelos canais normais, por assim dizer. O vigilante surgiu quase que na mesma época em que seu amigo Oliver Queen regressou dos mortos, uma agradável coincidência posto que durante um bom tempo a polícia suspeitou dele. Muito esperto de sua parte fingir o sequestro para retirar as suspeitas que recaiam sobre os dois – acresce, recostando-se a cadeira, satisfeito com suas conclusões – O que me diz? – pergunta, não me dando oportunidade responder – E pode relaxar. Seu segredo está guardado comigo – assegura.
Demoro alguns minutos refletindo tudo que ouvira (correndo o risco de o maluco julgar estar completamente certo em relação a suas suspeitas), tentando entender como ele chegara a tal conclusão apenas tendo me visto uma única vez, à noite, em uma situação de extrema tensão emocional e psicológica.
—Não quero pressioná-lo, mas uma resposta viria a calhar – escuto-o dizer, me tirando do devaneio.
—Honestamente? Não sei o que lhe dizer. Ao menos não neste momento – respondo, sincero, ainda sob o impacto das conclusões apresentadas por ele.
—Entendo. Precisa levar a proposta a seu time, típico líder democrático – conclui sozinho e tudo que consigo pensar é como esse maluco conseguia concluir tantas coisas erradas ao mesmo tempo. E tão rapidamente!
—Algo do tipo – concordo, o encarando -Quanto tempo tenho para lhe dar uma resposta? – quero saber, desistindo de comer ali, começando embrulhar tudo, sinalizando ao rapaz do balcão trazer uma sacola ou similar.
—Não tinha pensado a este respeito. Sendo honesto, julguei que iria aceitar imediatamente, mas já que prefere levar a proposta para sua equipe...- revela, silenciando brevemente – Tome o tempo que achar necessário. Apenas tenha em mente que quanto mais tempo demorar me dar uma resposta, mais tempo irão passar sendo vistos como marginais e não os heróis que merecem ser – aconselha, levantando-se antes de mim – Quando tiver sua decisão, pode me procurar na promotoria, ou se preferir me mandar um recado através de Laurel. Sei que os dois são amigos. A proposito, ela sabe? – quer saber.
—Não e prefiro que continue assim – minto, agradecendo ao balconista com um sorriso.
—Por mim não saberá – garante tão logo o rapaz se afasta, estendendo a mão para mim, que aceito – Foi um imenso prazer falar com você pessoalmente. Não sabe o quanto lhe sou grato por ter-me salvo mesmo diante de tudo que a promotoria como um todo tem feito contra você. Independente de que aceite ou não minha proposta, saiba que não os verei mais da forma como via antes. Muito obrigado – agradece outra vez, apertando mais fortemente minha mão antes de se voltar e sair da mesma forma inesperada como entrara.
—Sei. Até que contrarie suas expectativas de alguma maneira – murmuro, pegando o copo de papel com o café ainda fumegante, levantando-me, deixando o local pensativo.
Manobro o carro, seguindo para Verdant, a poucos metros dali. Lá chegando, adentro a boate silenciosa. Subo para o escritório aonde termino meu café da manhã com calma, me deitando no sofá enquanto o pessoal não chega para dar início ao dia de trabalho, retomando meus pensamentos tanto em Cait quanto na respeito da proposta feita pelo promotor, imaginando como seria a reação de Felicity, Dig, Sara e os demais quando contasse a eles tudo que se passara. Especialmente a de Oliver.
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Mansão Queen (11:00 a.m)
Oliver
Estaciono em frente a entrada da mansão de meus pais, gastando um tempo impreciso apreciando a fachada antiga do casarão.
Quando estava na ilha, tudo que mais queria era estar ali, ver aquelas paredes e principalmente as pessoas que viviam lá dentro.
Ao voltar, nos primeiros dias, me senti estranho, deslocado, oprimido. Sequer conseguia dormir em minha confortável cama. Quase matei minha mãe quando ela invadiu meu quarto ao me escutar gritar em meio a um pesadelo. Com o passar do tempo, fui me readaptando, mas ainda assim não sentia mais como se ali fosse meu lar. Talvez isto se devesse a minha nova condição, minha vida dupla como Oliver e vigilante. Talvez se devesse ao fato de que mudei e não apenas pelo treinamento que recebi nos cinco anos em que estive longe, mas principalmente pela confissão feita por meu pai antes de morrer, ratificada a cada descoberta, a cada nome eliminado daquela maldita lista.
Hoje em dia, a mansão me parece ainda mais estranha. Não fosse Thea, já teria me retirado daqui algum tempo. E agora, com nossa mãe em liberdade, precisávamos nos sentar e conversar, definir como as coisas seguiriam de agora em diante e principalmente o que faríamos para salvar a empresa. Se é que ainda havia salvação.
Respiro profundamente, descendo do veículo, estancando ao ver o grupo que deixava a casa.
—Colegas de legenda de sua mãe – escuto e me volto, deparando-me com Dig, que se aproximava daquele seu jeito e rio sem vontade -Parece que a senhora Queen vai mesmo continuar com o plano de concorrer a prefeitura da cidade -comenta, parando a meu lado, ambos cumprimentando os quatro homens que saiam com acenos de cabeça.
—Só espero que isto não gere ainda mais confusão em nossas vidas – desejo, aguardando-os irem embora para somente então me encaminhar para a entrada de casa tendo meu amigo ao lado – Thea, como está? – quero saber, subindo os poucos degraus que levam a porta.
—Bem, no geral – diz, retendo-me um segundo – Sua irmã é mais forte do que aparenta, no entanto mesmo ela tem sentido os golpes contínuos. Seria bom tentar poupá-la um pouco, mesmo ela não querendo – aconselha.
—Tentarei – digo, apertando a mão que segurava meu braço.
A primeira coisa que ouço ao entrar é a voz de Thea.
—Tá falando sério mãe? Vai mesmo concorrer a prefeitura da cidade? Vai se expor, nos expor a mais uma carga de estresse novamente? – inquere.
—E por que não? – é outra voz que responde e enrugo o cenho, adiantando-me a sala -Moira tem tanta chance quanto qualquer outro candidato. Se sua preocupação é usarem o julgamento contra sua mãe durante a campanha, saiba que ela irá ser muito bem assessorada. Toda a equipe está em preparação para rebater as possíveis acusações que porventura sejam feitas durante a campanha – uma entusiasmada doutora Loring declara, tranquila, me dirigindo um sorriso gentil – Olá Oliver. Bom que tenha vindo se juntar a nós – saúda.
—Pensei que viria dormir em casa – mamãe comenta quando passo por ela, indo me sentar ao lado de Thea.
—Não foi possível. Surgiram problemas inesperados em Verdant e precisei ajudar Tommy – minto, dividindo um olhar cúmplice com Thea – Se entendi direito, estavam discutindo sobre permanecer com sua candidatura, é isto? – inquiro, encarando minha mãe.
—Sim – confirma calmamente – Pensei em me retirar, mas os membros do partido me transmitiram bastante segurança. Passado sujo por passado sujo, a maior parte dos políticos têm. O meu será apenas mais um. E realmente acho que posso ajudar a reconstruir os Glades estando na prefeitura – argumenta.
—Mãe, já pensou que esse seu apenas mais um passado sujo, como acaba de dizer, não é tão passado ainda e que as pessoas podem não querer entregar a cidade nas mãos da pessoa que ajudou matar quinhentos e três cidadãos inocentes? Que estarão sempre desconfiando de suas palavras, suas intenções? E já parou para pensar em como isto irá afetar a empresa? A thea? – questiono-a, sério.
—E não a você? – devolve, me olhando daquele jeito que parece lê minha alma.
—Estou acostumado a este tipo de situação – rebato, não a deixando contestar – Não desvie do assunto. O que pretender fazer se o povo se voltar contra você, se não aceitarem sua candidatura? Já vimos, Thea e eu, o quanto a população pode ser perigosa quando se revolta. Seria mais prudente retirar-se – reitero, ganhando o apoio de Thea.
—Estou de pleno acordo – corrobora, segurando minha mão.
—Vejo que precisam de um pouco de privacidade a fim de conversarem sobre o assunto, logo irei me retirar – a doutora Loring diz, pondo-se de pé – Moira, já sabe minha opinião. Conte comigo no que for preciso – prontifica-se, abraçando nossa mãe, e ergo a sobrancelha, dirigindo meu olhar a Thea, que leva um dedo a boca fingindo vomitar – Me ligue se precisar – pede, voltando-se para nós – Oliver, Thereza, sei que parece estranho agora, mas se tivessem escutado os argumentos....
—Acho que já entendemos que apoia minha mãe doutora – a corto, impaciente – Agora, se nos der licença, quero, de fato, conversar com ela e minha irmã a este respeito – digo, levantando-se, oferecendo-lhe a mão, que aceita — Grato por seus esforços em defendê-la – agradeço, sorrindo polidamente, ela reclinando levemente a cabeça, sorrindo gentil, saindo sem nada dizer.
—Antes que prossigamos aqui, por que não vamos almoçar? – nossa mãe sugere quando me volto para ela – A conversa com os representantes do partido demorou bem mais do que esperava. Estou realmente precisando comer algo diferente de arroz, feijão e frango! – exclama, sua expressão de nojo me trazendo memórias nada agradáveis a mente – Vamos? – convida, já se dirigindo a sala de jantar.
—Nada que ela diga vai me convencer a subir em um maldito palanque para apoiar essa loucura! – Thea rosna baixinho, forçando um sorriso quando mamãe nos olha rapidamente, certificando-se de que a seguíamos.
Merda!, é tudo que consigo pensar, sorrindo tão forçado quanto minha irmã.
No começo da refeição, o silêncio impera entre nós, o mesmo não durando mais do que trinta minutos. Devagar, com seu habitual jeito de impor sua vontade, nossa mãe começa explanar as razões pelas quais havia decidido se candidatar quando ainda estava no presidio e o porquê de estar decidida a mantê-la agora que foi posta em liberdade.
Escutamos, Thea e eu, cada argumento defendido por ela, nos limitando a murmurar monossílabos quando questionados por ela em algo. Até reconheço serem, em sua maioria, serem válidos. No entanto, ela parecia estar deixando, propositadamente ou não, de levar em conta a oposição ferrenha que certamente iria enfrentar por parte de algumas pessoas, especialmente o digníssimo vereador Sebastian Blood, cuja fama de criticar os ricos e poderosos da cidade o precedia desde antes de Malcolm e ela provocarem toda a tragédia nos Glades e agora ganhara mais força.
Outra pedra seriam os tais associados dele cuja chegada Helena fora nos alertar (não sei bem com qual intenção até agora) e, claro, o próprio Malcolm, que ela igualmente nos advertirá, não permaneceria preso por muito tempo. Some a tudo isto a raiva daqueles que tiveram suas vidas destruídas de diversas maneiras no terremoto e certamente teremos uma base sólida de combate anti Moira Queen.
—Sei bem que irei enfrentar grande oposição- mamãe declara enquanto retornamos para a sala após havermos terminado a refeição – Mas também sei reconhecer quando uma batalha pode e vale a pena ser lutada! – exclama, tranquila, sentando-se no sofá – E se há uma coisa que aprendi nestes anos ao lado de Robert foi a enfrentar e vencer batalhas que julgavam perdidas – comenta, uma sombra fugaz de tristeza passando por seu rosto. Tão rápida que por um momento penso ter me enganado – Sei que a atual situação da empresa não é nada confortável, que precisamos recuperar não apenas a credibilidade, mas o financeiro também. Que as pessoas olharão com desconfiança e até medo, porém estou sendo bem assessorada e realmente fiquei confiante com o que ouvi – revela, me encarando, séria – Não pretendo voltar a QC. Irei passar minhas ações, todas elas, para você e Thea de maneira igual. Assim, juntos, terão quarenta e cinco por cento das ações – conta, não me deixando falar – Hoje cedo fiz um primeiro contato com Walter – diz, me causando espanto – Ele prontificou-se a ajudá-los no que for possível. Também entrei em contato com o departamento jurídico da empresa. Pedi que providenciassem, além da transferência das ações, uma varredura ampla e total na empresa. Irão lhe entregar um relatório meticuloso da situação atual e as prováveis saídas e opções que terá para reverter o quadro. Estou certa de que juntos, vocês dois, conseguirão salvar a companhia. Especialmente depois que nosso nome for desligado da Global, o que me leva a um outro assunto delicado – começa, tomando respiração, as mãos apertando-se ligeiramente, tique seu quando estava prestes a desejar uma bomba sobre nossas cabeças – Seria crucial para a recuperação da QC não termos mais nosso nome ligado ao dos Merlyn. De nenhuma maneira – diz, olhando de mim para Thea alternadamente – Também não é recomendável, neste momento, que o CEO esteja romanticamente envolvido com alguma funcionária da empresa – solta, fazendo meu sangue ferver.
—O que exatamente está sugerindo mãe? – inquiro, controlando, a muito custo, a raiva que ameaça me dominar.
—Exatamente o que entendeu Oliver – rebate, fria – Um romance neste momento além de o distrair do principal objetivo, irá passar a impressão errônea de que qualquer uma pode subir na empresa deitando-se com o CEO e manter relação de amizade com o filho do homem que me chantageou, ameaçou, obrigou a ser conivente com todo este plano infeliz e que ainda por cima matou seu pai, quase te matou, sequestrou e ameaçou o Walter, é igualmente pouco ou nada recomendável! – conclui.
—Em primeiro lugar, Felicity não é qualquer uma! – digo, entredentes, cerrando o punho – Ela não é mais um caso que estou tendo. É especial. E ainda que não fosse, foi de longe a pessoa que mais me deu apoio desde que toda essa loucura começou. Esteve e está a meu lado todo o tempo. Me apoiando, aconselhando, ajudando. É uma mulher brilhante, magnifica e se pensa por um segundo que irei me afastar dela, está redondamente equivocada – asseguro – Tommy está pagando tanto ou mais do que nós estamos – aponto de mim para Thea – É meu melhor amigo. Sempre foi e sempre será. Custei muito para conseguir reconquistar sua confiança novamente e não vou atirá-la e a nossa amizade pela janela outra vez. Ele não é e nunca será responsável pelas atitudes de Malcolm da mesma forma que Thea e eu não somos pela sua – prossigo – Se se candidatura, de alguma maneira, estiver atrelada a me afastar de ambos, esqueça. Não vai acontecer. E quanto a QC, deveria ter pensado no estrago que ter se envolvido com Malcolm causaria bem antes de toda essa loucura premeditada por ele acontecesse – pontuo – Se há uma coisa que os cinco anos em que passei naquela maldita ilha me ensinaram é que sempre temos escolha, mãe. Você e meu pai poderiam ter procurado ajuda, proteção ou mesmo exposto os planos de Malcolm antes que a coisa toda saísse do controle. Se o vigilante e seus amigos não tivessem descoberto a tempo, o desastre teria sido maior. Mais pessoas teriam sido mortas e aí advogada nenhuma, por melhor que seja, te livraria da pena máxima – asseguro, me controlando finalmente.
—O mesmo se aplica a mim – Thea corrobora, erguendo a mão -Nem a pau me afasto do Tommy! – exclama decidida.
—Pelo visto de nada vai adiantar argumenta com vocês – reconhece, tranquila demais para meu gosto – Muito bem. Não quero atritos com meus filhos em meu primeiro dia de liberdade. Só peço que não demonstrem serem contrários à minha candidatura em público e que repensem me apoiar quando precisar. Minhas intenções são corretas – garante.
—As suas podem ser mãe, mas não tem como assegurar que as de seus correligionários também o sejam. Em seu lugar, teria bastante cuidado com quem me associaria nessa coisa de política – uma surpreendente madura Thea aconselha – Se me dão licença, vou me deitar um pouco. Admito que algum tempo não durmo direito e como pretendo estar linda e maravilhosa logo mais, vou descansar – avisa, subindo para seu quarto.
—Thea está diferente. Mais madura. Mais mulher – comenta, seguindo-a com o olhar, um misto de orgulho e preocupação transparecendo sem seu semblante – E tudo por minha culpa! – exclama, deixando escapar um soluço -Não queria que tivesse sido assim – diz, sentando-se.
—Mas foi – me limito dizer, caminhando em direção as escadas.
—Me perdoara algum dia Oliver? – pergunta de repente, me fazendo estancar no sopé da escadaria, tudo que descobrira no último ano voltando a minha mente em uma fração de segundos: o Empreendimento, Walter, papai, Samantha... a possibilidade de ser pai...
—Ainda é cedo para dizer algo, mãe – admito, sem me voltar para ela – Apenas dê tempo ao tempo e não tente, nem por um segundo, desfazer de Felicity ou Tommy muito menos destratar qualquer deles – peço, olhando-a de soslaio – Se fizer isto, ficaremos bem – digo, subindo os degraus de dois em dois, parando brevemente a porta do quarto de Thea – Speedy? Posso entra? – pergunto, dando uma leve batida na madeira, ela abrindo prontamente – E aí, como está? – quero saber, entrando sem esperar convite.
—Queria dizer que bem, mas estaria mentindo – admite, estendendo as mãos – Olha o estado em que estou!! – exclama, o tremor me fazendo abraçá-la protetoramente.
—Gostaria de ter podido te proteger disto tudo Speedy – declaro, apertando-a forte, beijando o topo de sua cabeça.
—No esquenta maninho. Posso não estar cem por cento bem, mas com o apoio de meus dois lindos irmãozinhos, de minha futura cunhadinha linda, loira e inteligente, do grandão e de todos os amigos que tenho feito, vou me recuperar – enumera, se aconchegando melhor em meus braços – Ah, e claro, do meu boy magia... assim que ele perder o medo de enfrentar meus dois queridos irmãos terroristas! – brinca, rindo nasalado.
—Harper? – inquiro, franzindo o cenho quando confirma – Pensei que estava interessada no tira loiro de Central City – comento, ela rindo novamente.
—Interesse até que tive e tenho um pouco ainda, reconheço – assume – Mas ele não me deu o menor cartaz. Sabe, nunca fui de ficar correndo atrás de carinha nenhum, mesmo estando muito a fim – diz, se afastando o suficiente para ver meu rosto – Eu sempre pensava no que você me diria – revela, e rio – Depois o Tommy meio que assumiu esse papel. Engraçado não é. Quando pensamos que estava morto, ele passou me tratar como se fosse meu irmão mais velho mesmo sem ter a menor idéia que de fato era. Gozado, não? – indaga.
—Diria que o sangue começou falar mais alto e agradeço a ele por ter te protegido das más influências enquanto não estava por perto – digo, beijando sua bochecha – Vou te deixar descansar. Mais tarde nos vemos em Verdant – comunico – Vai mesmo ficar bem? – insisto.
—Vou – reitera.
Nos despedimos e sigo para meu quarto aonde separo algumas roupas, pondo-as em uma bolsa de viagem. Pretendia dormir no apartamento de Felicty (caso tivesse a chance) e não tinha absolutamente nada para vestir lá. Feito isto, desço as escadas preparado para um novo confronto com minha mãe, o que não acontece, para meu alívio.
Peço a Dig que permaneça na mansão a disposição de Thea, e sigo para o apartamento de Felicity, a idéia de comprar um apartamento para mim tomando cada vez mais força e forma em minha mente.
À noite, antes de a boate abrir, nos reunimos no bunker atendendo ao pedido de Tommy, que por sinal estava de muito bom humor após passar, segundo Harper, mais de duas horas tagarelando com Cait ao celular, obrigando-o limpar o chão lá em cima que ficara, também segundo ele, completamente molhado pela baba que escorrera da boca de meu amigo.
—Harper, tem certeza de que pretende continuar trabalhando aqui? – Tommy ameaça, o garoto erguendo as mãos, sentando-se o mais distante dele possível (o que considero uma atitude bastante inteligente de sua parte).
—Então Merlyn, qual o motivo desta convocação? – Sara quer saber, encarando-o de braços cruzados.
—Antes, a Laurel vai participar? – meu amigo pergunta, não dando tempo nenhum de nós responder – Se bem que, neste caso, ela pode ajudar esclarecer a situação – diz, misterioso, aguçando a curiosidade geral.
—Eu? – Laurel espanta-se.
—O que aconteceu? – quero saber, ele tomando forte respiração antes de começar a falar.
—Hoje cedo, como sabem, acompanhei Cait a estação – senta-se na ponta de uma mesa, brincando com uma bolinha de tênis – Nós quase perdemos a hora porque o despertador não tocou e por conta disso não tomamos o café da manhã – relata, Sara bufando.
—E o que isso tem de importante a ponto de convocar uma reunião? – tasca, recebendo um olhar zangado del.
—Se me deixar falar vai saber – rebate, prosseguindo sem a deixar responder – Depois que ela partiu, resolvi vir para cá ao invés de para casa. Parei na padaria na esquina para tomar meu dejejum – conta, acomodando-se melhor -Enquanto estava lá, ganhei a inusitada companhia de ninguém menos que Adam Donner – revela, me deixando surpreso.
—O promotor que resgataram das mãos do Conde? – Thea pergunta, apoiando-se em Roy.
—Ele mesmo – Tommy confirma.
—O que ele queria? – Felicity adianta-se a mim.
—Fazer uma proposta – responde meu amigo, coçando a barba por fazer – Me propôs trabalhar junto com a promotoria – revela, completando antes que pudesse dizer algo – Na verdade, não propôs exatamente a minha pessoa, Thomas Merlyn, mas ao que julga ser meu alter-ego, o vigilante – solta, deixando a todos paralisados momentaneamente.
—Espera.... – Sara é a primeira a sair do torpor – Donner pensa que Você é o vigilante? – inquere.
—Ele não acha. Tem certeza absoluta de que eu sou! – confirma, fazendo cara feia ante a crise de riso de nossa amiga.
—Sério? – Felicity inquere, olhando-o confusa.
—Tão sério quanto a proposta feita por ele – reafirma meu amigo.
—E como ele chegou a essa brilhante conclusão? – Sara questiona, ainda rindo.
—Na noite em que o resgatamos ele viu meu rosto quando o deixamos no hospital – Tommy conta, atirando a bolinha contra Sara, que se desvia – E não apenas isso: como falei, ele sabe que o vigilante não age sozinho. Viu Cait e por diversas vezes citou o meu time – revela, fazendo uma careta de dor ao receber a bolada desferida por Sara.
—E ele quer que o vigilante e sua equipe trabalhe junto com a promotoria? – Dig repete, Tommy confirmando com um aceno de cabeça, atirando a bendita bolinha contra Sara outra vez, ela segurando-a, estirando língua para ele – E por que exatamente quer isto agora? – meu amigo questiona, olhando diretamente para Laurel.
—Não olhe para mim. Não estou sabendo de nada! — garante ela, assustando-se quando a bolinha passa a centímetros de seu rosto indo acertar o ombro de Tommy – Adam não comentou nada a respeito disto quando conversamos ontem. Sequer tocamos no assunto vigilante – lembra, tomando outro susto quando Thomas revida o ataque de Sara.
—E dá para confiar nele? Pode ser uma armadilha? – quero saber, retendo o ar nos pulmões ao ver a bendita bola cruzar o ar novamente, acertando seu alvo uma terceira vez.
—Adam é confiável e nunca gostou de armadilhas – Laurel diz, esquivando-se por antecipação ao ver Tommy erguer a mão na clara intenção de revidar o “ataque” de Sara – Mas devo reconhecer que anda bastante estranho desde o sequestro – relata, encolhendo-se instintivamente ao sentir a bolinha passar por sobre sua cabeça.
—Então.... – Dig começa, Felicity o cortando impaciente ante novo arremesso de Sara, Tommy conseguindo segurar a bola desta feita.
—Ok, se ninguém vai fazer ou dizer nada, eu vou – protesta, levantando-se rápido, ficando, sem perceber, no “caminho” pelo qual a bola de tênis era atirada – Daria para as crianças pararem de ... -cala-se, encolhendo-se e fechando os olhos instintivamente no momento em que Tommy atirava a bolinha contra Sara mais uma vez, gemendo em antecipação a bolada que fatalmente teria recebido se eu não tivesse impedido.
—Ops! Deu ruim! – Roy exclama, dando um passo para trás ante minha expressão quando interrompo a trajetória da bendita bolinha antes que atingisse o rosto de Felicity, o alerta vindo de uma das telas de computador salvando, por hora, as duas crianças da bronca que daria em ambos, Felicity recuperando-se ligeiro, voltando-se e se inclinando sobre o teclado, atenta a tela.
—Temos movimentação suspeita nas docas – avisa, teclando freneticamente.
—Onde? – pergunto.
—O antigo armazém da companhia de cimento – responde, abrindo as imagens da câmera de segurança da rua perto do local – Parece que algo está sendo descarregado lá – relata, me olhando, tensa – Armas?
—É o que vamos descobrir – digo, entregando-lhe a bolinha antes de me voltar para os demais – Vistam-se – ordeno, dando atenção a Laurel – Tente saber o que Donner pretende. Seja discreta – peço, ela concordando.
—Serei – tranquiliza-me.
—Avise se algo mudar – falo para Felicity, lhe dando um selinho antes de ir fazer o mesmo que os outros.
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Verdant (segunda-feira, 15/5 – 12:17 p.m)
Narrador
“As atenções de todo o mundo se voltam para nossa pequena cidade neste momento. O acionamento do acelerador de partículas, que deve ocorrer dentro de instantes, será um marco na evolução das pesquisas cientificas para todos...”
—Por que toda essa demora apenas para apertar um bendito botão que fará energia correr em círculos dentro de um túnel de cimento? – Tommy reclama, torcendo o nariz – Ele precisa realmente ficar grudado nela desta maneira? – aponta a tela da televisão por detrás do balcão da boate, aonde o grupo se reunira para assistir a transmissão ao vivo.
—Tá com ciúmes Merlyn? Que bonitinho!! – Sara o provoca, apertando as bochechas do moreno, que a afasta, bravo.
—Não enche Lance! – resmunga, servindo-se de outra dose de bebida.
—Tommy relaxa. Não tem ninguém grudado em ninguém ali. Estão todos juntos e só – Thea o corrige, apoiando os braços as costas de Roy, que estava sentado a frente da garota, divertindo-se com o mal humor do patrão.
—E saiba que não se trata de um simples botão que será apertado. Trata-se de uma revolução na área de pesquisas cientificas – Felicity diz, bufando – Se gosta tanto da Cait quanto diz, deveria estar orgulhoso por ela fazer parte do time que vai realizar este feito – desabafa.
—E estou – garante o moreno – Só não gosto de ver o ex noivo todo assanhadinho ao lado dela – repete.
—Relaxe Thomas – Dig reforça o conselho de Thea, trocando um olhar divertido com Oliver, que limitava-se assistir a tudo calado.
—E não se trata de fazer energia “correr” em círculos dentro de um túnel de cimento – a loira nerd resmunga, tendo sua atenção chamada para a tela outra vez ao escutar a voz de Harrisson Wells anunciando o acionamento do acelerador – É agora!! -vibra, segurando a mão do loiro a seu lado, entusiasmada.
“Este é um grande momento para todos que amam a ciência” declara Wells, apertando o botão que acionaria o acelerador.
“E com um simples gesto milhares de anos evoluem em um segundo”, a reporte comemora.
—Viu!? Foi só apertar um botão, como eu falei – Tommy repete, enrugando o cenho – Mas o que....
—Por que tá todo mundo correndo? – Thea pergunta, o grupo pondo-se em alerta de imediato.
—E por que o céu tá escurecendo por lá se ainda não é noite? — Roy observa, Sara parando em frente o aparelho, espantada.
—Algo saiu errado – Dig declara junto com a repórter, um imenso clarão sendo visto segundos antes de a transmissão ser interrompida repentinamente.
—O que aconteceu? – Oliver inquere, tenso.
—Voltou – Sara avisa retendo o ar ao ler a legenda.
—Oliver... – Felicity chama, as lágrimas escorrendo mansamente por seus olhos ao mesmo tempo que busca por Tommy, vendo-a paralisado, o rosto branco como cera.
—John, ligue para o piloto da QC. Peça que apronte o jatinho da empresa– pede, pondo-se de pé em um salto – Thea, Roy, ajudem Sara e Dig a tomar conta de tudo aqui. Estamos indo a Central City – avisa, segurando a mão de Felicity, conduzindo-a para a saída, Tommy logo atrás deles.
“...I said maybe;
You’re gonna be the one that saves me;
And after all;
You’re my wonderwall;
I said maybe;
You’re gonna be the one that saves me (that saves me”
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