Survivors!!
21 Lost children
Notas iniciais
“Out of the ruins;
Out from the wreckage;
Can’t make the same mistake this time;
We are the children;
The last generation;
We are the ones they left behind;
And I wonder when we are ever gonna change it;
Living under the fear till nothing else remains...”
We Don’t Need Another Hero
Tina Turner
Starling City – Docas (quarta-feira,30/8 -21:20 p.m)
Oliver
—Comida italiana ou japonesa? – pergunto, caminhando, levemente agachado sobre o telhado de um dos armazéns nas docas de Starling que, supostamente, deveria estar abandonado.
{Como é?} — Felicity devolve e sorrio
—Perguntei se gostaria de comida italiana ou japonesa para nosso jantar de comemoração logo mais, quando chegar a cidade – explico, parando junto a clarabóia – Está voltando a cidade, não está? Em definitivo, quero dizer. Assim, sem mais idas e vindas desnecessárias a Central City, porque por mais que goste do Barry, e gosto, não há mais nada que possa fazer além de aguardar que se recupere, correto? Quer dizer, foi isto que Caitlin....
— {Italiana} — responde, me cortando- {E sim, estou, neste exato momento, em um vagão de passageiros do trem a caminho de casa} -revela, me deixando entre feliz e ansioso, sensação a qual, admito, não haver me habituado ainda. Não completamente – {Quanto ao Barry, ele está bem melhor, estável, mesmo permanecendo em coma, e somente por isso perdoo sua falta de sensibilidade, Oliver} -emenda e rolo os olhos.
Haviam se passado três meses e meio (um pouco mais para ser exato) desde que o acelerador de partículas explodira, matando alguns funcionários do laboratório Star e ferindo outros, Caitlin e seu amigo e colega de trabalho Cisco entre eles, deixando seu diretor e presidente preso a uma cadeira de rodas, ferindo algumas pessoas que se encontravam nas proximidades, e até mesmo outros mais distantes, para surpresa de todos, como fora o caso de Barry Allen.
Durante este período, tanto Felicity quanto Tommy se dividiram entre Central e Starling, ela em solidariedade a ambos amigos, Cait e Barry, ele por conta da doutora. Nos primeiros dias, eu os acompanhara, nós três permanecendo na cidade (tempo que aproveitei para tentar descobrir, sem sucesso, onde Samantha Clayton vivia). Mas logo minha presença se mostrou necessária em Starling e retornei, deixando meu amigo e a mulher que ocupava cada vez mais meu pensamento e meu coração, por lá.
A partir da terceira semana após o incidente, Caitlin recebera alta do hospital, Felicity passando a alternar seu tempo entre as duas cidades enquanto Tommy permaneceu mais alguns dias com a, agora oficial, namorada. Mas ele também precisou regressar a Starling por força da situação financeira precária na qual a empresa de sua família estava mergulhada. Aliás, não apenas a Global, mas a QC também se encontrava em situação temerária.
A volta de minha mãe ao comando (temporário, já deixara isto bem claro para mim) havia repercutido positivamente, para minha surpresa, e as ações tiveram relativa alta. Já a prisão (aonde ele ainda permanecia, diga-se) de Malcolm e a falta de um CEO estavam fazendo as ações da Global despencarem vertiginosamente. Isto sem mencionar o rombo deixado por Helena.
Ao contrário de mim, Tommy não tinha ânimo a tentar resgatar a empresa. Jamais tivera qualquer ligação, além da financeira, com o lugar posto que Malcolm, ao contrário do que meus pais sempre frisaram e tentaram imbuir em mim e Thea, nunca fez meu amigo sentir como se aquilo fosse parte dele, como se fosse algo que pudesse deixar para seus filhos e netos. A única motivação que o fez lutar para evitar a falência total e imediata foram os funcionários.
Tommy se empenhou de corpo e alma em conseguir o mínimo de dignidade a eles, abrindo mão de todo e qualquer lucro que pudesse vir a ter em detrimento de pagar o que era devido a todos. Nisto consegui fazer minha mãe e Walter, que gerenciava atualmente o setor de leilões e empréstimos do banco no qual ambas empresas tinham conta, ajudarem meu amigo.
Meu ex padrasto conseguiu um empréstimo que deu fôlego a Global retomar os negócios. Já minha mãe, mesmo a contragosto, ajudou Tommy com a diretoria, organizando as coisas por lá. Com isto, a empresa conseguiu honrar seus poucos contratos e receber os pagamentos que lhe eram devidos, os quais meu amigo usou para pagar os funcionários antes de decretar falência.
Para quitar parte do empréstimo, Tommy precisou vender as propriedades que estavam em nome da Global, entre elas a cobertura de Malcolm e um loft que o pai lhe dera de presente quando ainda estavam se dando bem. Também carros e até mesmo jóias que não haviam sido levadas (para não dizer roubadas) por Helena foram vendidas para sanar o rombo financeiro. Por fim, Tommy decretara a falência, oferecendo a empresa em pagamento do que restava de dívidas. No próximo mês a Global seria posta a venda, em leilão aberto ao público, o total que fosse arrecadado seria convertido para quitar o que restasse e ainda destinado as vítimas do terremoto. Tudo que meu amigo possuía na vida agora eram o apartamento no qual vivia (alugado e pago com o salário que recebia por gerenciar Verdant), o carro (que pusera, orientado por Walter, em nome de Thea, evitando assim um possível confisco do mesmo) e o prédio onde funcionou, no passado, a clínica que sua falecida mãe abrira, nos Glades. A mesma onde fora assassinada na calçada defronte.
{Oliver, escutou o que eu disse?} -o questionamento me tira do devaneio e sacudo a cabeça a fim de organizar meus pensamentos – {Oliver???}
—Estou ouvindo – minto, escutando o suspiro impaciente em meu ouvido – Ok, talvez tenha me distraído um pouquinho – confesso, olhando o interior escuro do armazém através da clarabóia -Não quer me atualizar Sweet heart? – peço, usando o tom de voz mais doce que a situação me permitiu, o comentário mal-humorado pegando a nós dois de surpresa.
< Ok. Eu não sou obrigado escutar essa melação toda > Tommy bufa em nossos ouvidos < Daria para o casal doçura deixar as decisões para depois da ação? > reclama, Dig fazendo coro a ele.
< Concordo. Um pouco de foco aqui viria a calhar > meu amigo e segurança aconselha.
{Desculpa pessoal. Pensei que tinha fechado os comunicadores e apenas Oliver e eu estávamos escutando} admite minha loira, seu tom aliviado me fazendo entender que havia descoberto algo sobre Samantha.
< Não desligo não. Estávamos ouvindo > Sara declara.
< Todos estávamos > um coro corrobora e arqueio a sobrancelha ao reconhecer a voz de Laurel entre eles.
—Ok. Vamos ao que interessa então – defino, olhando através da clarabóia novamente – O que temos aqui? – pergunto, estreitando o olhar.
{Há pelo menos quinze pessoas dentro do prédio, concentrados a direita e perto da única entrada e saída do lugar } Felicity alerta { Um veículo pesado, caminhão provavelmente, e dois veículos menores } completa.
—John e Tommy, esperem meu sinal para entrar. Roy, confirme se não há uma janela ou qualquer outra forma de escaparem. Sara...
—Sim?? – sobressalto-me ao escutar sua voz as minhas costas.
—Você entra comigo – digo, disfarçando o susto – Alguma idéia do que há no caminhão? – questiono.
‘Nops!’ – Thea e Felicity respondem ao mesmo tempo.
—Ok. Atenção todos. Entrando em três....- abro cuidadosamente parte do vidro grosso – Dois... – empunho meu arco com a flecha já posicionada, Sara, a meu lado, fazendo o mesmo com sua besta -Um – disparo, atingindo a junção no centro e no alto da estrutura metálica no ponto exato em que havia um bloco de madeira, a flecha disparada por Sara atingindo o mesmo ponto, ao lado da minha – Agora! – comando, me lançando, juntamente com Sara no interior do prédio, aterrissando precisamente sobre o baú metálico atrelado ao carro, o som abafado fazendo com que alguns homens ali erguessem o olhar em nossa direção, agitando-se ao me verem, a distração possibilitando John, Tommy e Roy entrarem sem serem notados.
Contando com o elemento surpresa, logo controlamos a situação. E qual não foi minha surpresa ao descobrir que o carregamento dentro dos baús era de medicamentos destinados ao hospital dos Glades.
—Então os boatos eram verdadeiros. Tem alguém desviando medicamentos do Glades Memorial – Tommy comenta.
< Mas por que fariam isto? > Thea inquire < Além de queimar a imagem do prefeito, evidente > acresce.
—Maldade simples e pura? – Sara chuta.
—Talvez para revender a própria prefeitura pelo dobro ou triplo do valor pago anteriormente – Roy diz, me fazendo o encarar – Nas ruas é assim que costumam agir. Quando uma mercadoria é muito procurada, os rivais contratam alguém para roubar carregamentos de quem tem o domínio no mercado. Escondem e depois de um tempo oferecem a quem der o melhor preço ou mesmo já era o dono da mercadoria. A maioria das guerras entre gangues começa desta forma – revela.
—Quem foi roubado descobre quem roubou e porque e ai o bicho pega! – Tommy supõe.
—E como cada gangue geralmente imprime sua marca única nas mercadorias, as quais nem sempre é possível apagar da mercadoria, fica fácil saber ser o seu material que está sendo negociado a peso de ouro – Dig completa.
< Continuo na mesma > Thea diz < Não acredito que o prefeito possa ser tão burro a ponto de comprar das mãos de gangues, a peso de ouro, os mesmos suplementos hospitalares que compra a preço de banana através de licitações públicas > minha irmã me surpreende.
—Não sabia que tinha tanto conhecimento neste assunto – deixo escapar, me recriminando mentalmente quando ela responde.
< Faz tempo que não sou mais uma dondoquinha Ollie. Não sei se notou > diz em tom de mágoa.
—Me desculpe Thea. Não quis dizer que era uma alienada ou algo do gênero. Apenas estranhei que tivesse interesse em um assunto tão tedioso – tento me concertar.
< Ou seja, assunto para pessoas comprometidas com causas sociais e defesa dos desfavorecidos. Gente como o promotor Donner, a Laurel, você... > enumera, mais chateada e me sinto péssimo.
—Speedy....
{Bae, fala mais nada não } Felicity me corta { Tem momentos que é melhor calar e este é um deles, vai por mim. Tenho vasta experiência no assunto!} diz, fazendo a todos, incluindo Thea, rirem { O fato é que sem o fluxo de suprimentos que precisa, o Glades Memorial vai fechar e toda população que depende dos serviços dele ficarão desassistidas e terão de buscar auxilio médico em algum outro lugar} relata {Se as coisas já estão bem ruins com o pouco que recebem, imagine sem nada!}
—Muito mais gente, que foi atingida de alguma forma pelo terremoto, ficara sem assistência e podem até morrer -Roy acrescenta, as sirenes da polícia nos fazendo encerrar o assunto por hora.
Saímos do prédio, nos reunindo alguns metros de distância, mantendo a vigilância enquanto os policiais efetuam as prisões e recolhem as provas a fim de garantir nada sairia errado, como havia acontecido algumas vezes recentemente.
—Seria interessante ver com a polícia para que liberasse ao menos parte do carregamento Laurel. Assim o Memorial não precisaria esperar o julgamento para receber os suprimentos de volta – sugiro.
< Vou conversar com Adam e ver o que podemos fazer quanto a isto > avisa ela.
{Pessoal, se não precisam mais de mim vou desconectar aqui. Estamos quase em Starling } Felicity avisa {Beijos e até já } despede-se.
—Sweet me aguarde. Vou te buscar na estação – peço antes que cortasse a comunicação, ela dizendo que aguardaria.
—Estamos? – Dig repete, me encarando de cenho enrugado.
—Deveria estar se referindo ao trem como um todo – Sara opina, dando de ombros, subindo em sua motocicleta – Se vai pegá-la, eu vou indo. Quero ver se consigo falar com a Sin. Quem sabe ela me ajuda entender o que está acontecendo através do que ouve pelas ruas – pondera, Laurel mandando um “tenha cuidado” que a faz rolar os olhos.
—Vou retorna a boate para ajudar Thea, embora o movimento ande meio fraco ultimamente – Tommy diz, desanimado.
—Sobre isto, estive pensando e acho que sei de um jeito para trazermos mais gente a Verdant novamente. Ao menos tentar – Roy ergue o dedo, chamando nossa atenção.
—To disposto a tentar qualquer coisa! – meu amigo declara, abrindo os braços.
—Neste caso vou com a Sara porque Sin faz parte de meu plano – acresce o candidato a namorado de minha irmã e ambos, Tommy e eu, arqueamos a sobrancelha – Explico tudo em detalhes mais tarde – promete, subindo em sua moto.
—Vamos nessa – Sara convida, os dois partindo em alta velocidade.
< Vou subir para a boate. Estou levando um comunicador para o caso de precisarem de ajuda > Thea avisa.
< Vou ficar com você até que cheguem > escuto Laurel dizer.
—Também vou indo. Manda lembranças pra loirinha falante – Tommy diz, abrindo a boca como se fosse dizer mais alguma coisa, desistindo de última hora – Até amanhã – despede-se, colocando o capacete, saindo logo em seguida.
—Acho que não era bem lembranças que pretendia pedir dizer a Felicity – John comenta, me olhando com um sorriso de canto de boca.
—É, eu sei – digo, seguindo-o até que sumisse de vista – Vou tentar descobrir com Felicity como a Caitlin está – digo.
—Com todo respeito Oliver, mas já sabemos como ela está. O que precisamos saber é se e quando pretende voltar – Dig me corrige, cruzando os braços ao me encarar – E principalmente se vai fazer as pazes com Thomas – acrescenta.
Meu amigo e Caitlin haviam discutido feio quando da última visita que fizera a Central City, quase um mês atrás. Tommy não nos contou o teor da discursão com ela, mas supúnhamos ter a ver com sua permanência por lá por conta do estado de Barry. Ou talvez estivesse, como o próprio Dig sugerira, com ciúmes de alguém que sequer estava vivo.
—Farei isto – digo, subindo na moto, o alerta de mensagem me fazendo adiar a partida. Pego o celular, sorrindo ao lê o texto enviado por Felicity – John – chamo, fazendo-o parar com a porta aberta -Me segue até a estação. As coisas irão se acertar mais rápido do que imaginamos – afirmo, sorridente – Apenas me segue – peço, colocando o capacete.
—Sim senhor – John declara, rindo divertido, entrando no furgão, me seguindo para a estação central de Starling.
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Tommy (22:47 p.m)
Acelero o máximo que posso na tentativa de limpar minha mente, mas é em vão.
Imagens e sons de meu último encontro com Cait veem à tona com uma força assustadora e preciso me concentrar para não sofrer ou provocar um acidente.
Não recordava por qual motivo idiota havíamos discutido. Menos ainda porque não havíamos nos desculpado. O fato é que, por teimosia, reconheço, estava deixando escapar por entre os dedos a mulher que amava. Pior: não tinha a menor ideia do que fazer para isto não acontecer.
Tentara ligar algumas vezes, mas algo sempre acaba me fazendo desistir ou atrapalhando meus planos e acaba os adiando.
E com isto se passara quase um mês desde nossa briga. Queria não ter sido tão infantil, tão tolo a ponto de sentir ciúmes de uma memória, de um cara que sequer estava entre nós. Talvez fosse justamente este meu maior incomodo. Não era contra uma pessoa real, de carne e osso, passível de falhas que estava competindo, por assim dizer. Competia com o sujeito que errou, reconheceu, pediu perdão pelo que havia feito.... e morreu como um herói!
—Como raios posso competir com algo assim? – me questiono, a lembrança de quando Ollie regressara dos mortos e do surgimento do vigilante me vindo a mente.
Na época não sabia, mas disputava Laurel não apenas com meu amigo recém ressuscitado, mas com seu alter ego perfeito. O justiceiro que a estava ajudando combater o crime na cidade. Que salvara sua vida uma dezena de vezes.
Descobrir que eram um só foi um dos piores momentos de minha vida. O ciúme, a sensação de estar sendo feito de trouxa duplamente deixara um gosto amargo em minha boca um longo tempo, mesmo após termos nos entendido, ele e eu, e começado a trabalhar juntos.
Essa sensação só passou quando comecei a me entender com a Cait. E agora tudo estava indo por água baixo mais uma vez!
—Merda! – xingo, adentrando a avenida que me levaria a Verdant, sendo obrigado, alguns metros após o ter feito, brecar com tanta força que a traseira de minha moto derrapou e por muito pouco não fui ao chão – Mas o que...??? – me pergunto, acompanhando com o olhar os três garotinhos, já recuperados do susto por quase os haver atropelado, correrem pela rua quase deserta, indo direto para a casa aonde funcionara a clínica aberta por minha mãe.
Quase nunca tomava aquele caminho salvo quando estava com os demais. Hoje o tomei sem perceber, por estar perdido em pensamentos.
—Sai da frente otário! – o xingamento, acompanhado do chute no pneu dianteiro da moto, me pegam de surpresa, deixando-me estático a princípio.
Quando me recupero, sinto o sangue ferver e acelero, alcançando os dois sujeitos que perseguiam, ao que parece, os pirralhos na calçada da antiga clínica, interceptando-os.
—O que disse? -questiono o mais alto, que proferira o xingamento – Acho que não entendi direito. Me chamou de que mesmo? – refaço a pergunta, avançando minimamente contra eles, ambos recuando.
—Olha só cara, o nosso problema é com as pestes que se esconderam aí dentro – aponta a porta as minhas costas – Se não quiser que sobre pra você, melhor cair fora – ameaça, recuperado da surpresa.
—Acontece – digo, desligando o motor e descendo da moto, pondo-a apoiada ao descanso – Que passou a ser da minha conta quando, por causa de vocês, suponho, eles quase me derrubaram e mais ainda agora que me xingou – falo, encarando a ambos.
—Escuta aqui mané... – o mesmo sujeito começa, o mais baixo o segurando pelo braço, puxando-o.
—Tá maluco! Não reconheceu o cara, não? – inquire e somente então me dou conta de que ainda estava com o traje de luta. E de capacete – É o tal vigilante! – exclama, assustado, recuando alguns passos.
—E dai? – o mais alto indaga, erguendo o queixo, porém recuando quando avanço – Não quero briga contigo, meu irmão. E pensei que era o cara que estava tentando fazer justiça nas ruas – argumenta, erguendo as mãos com as palmas abertas em minha direção.
—Desde quando perseguir crianças é justiça... meu irmão? – o parafraseio, dando mais um passo, eles recuando novamente...Esse negócio de vigilante até que é divertido de vez em quando!!... penso, rindo por sob o capacete.
—Desde que essas crianças passaram a nos roubar – justifica, furioso, fazendo aspas no ar.
—O que, exatamente, eles roubaram de vocês? – quero saber, desconfiado.
—Eles....hã...- titubeia – Quer saber, esquece. Não era nada valioso mesmo – diz, dando de ombros – Não vale a pena brigar nem entrar na casa assombrada ai – emenda – Foi mal ter te xingado – desculpa-se, se afastando sem me dar as costas até estarem, ambos, a uma distância segura, seus resmungos me dando a certeza de que mentiram ao mesmo tempo em que despertam minha curiosidade.
—Que será que os moleques roubaram? – pergunto-me baixinho, voltando-me para a fachada da casa.
Era impressionante como permanecia praticamente intacta mesmo tendo estado em um dos epicentros dos tremores que as máquinas encomendadas por meu pai haviam causado. Até antes disto. Na verdade, era uma das poucas construções que não havia sido depredada ou invadida nos Glades. Parte disto devia-se ao fato de as pessoas dizerem que o local era assombrado, coisa que nunca procurei verificar. Até agora.
—Vejamos quais fantasmas habitam aí dentro – murmuro, tirando a moto do descanso, empurrando-a para o beco, onde a coloco protegida e pouco visível, travando-a.
Movido pela curiosidade, circulo o local, encontrando uma fenda discreta na porta lateral.
Me esgueiro através dela, adentrando o ambiente escuro e frio. Retiro o capacete, pondo-o sobre o balcão com cuidado para não fazer barulho, aguardando meus olhos se acostumarem a pouca claridade antes de me aventurar pelo lugar.
Com cuidado, tateando e me apoiando nos móveis a minha volta, avanço, atento a qualquer som ou movimento. Havia dado pouco mais de uma dúzia de passos quando sinto o chão sob meus pés ceder, o estalido seco anunciando o romper do assoalho de madeira. Sequer tenho tempo tentar me agarrar a algo. Em segundos sou tragado, caindo de costas sobre uma superfície irregular e dura, o impacto me tirando o ar um segundo.
Quando a dor ameniza, faço menção me levantar, mas antes que isto aconteça, algo me atinge a cabeça e apago.
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Apartamento Thomas Merlyn (quinta, 31/8 – 9:33 a.m)
Narrador
Caitlin desperta, sobressaltada, sentando-se tão rápido que precisa buscar por apoio no assento do sofá sobre o qual adormecera, olhando em volta, tentando entender o que a havia despertado, o som de água corrente as suas costas fazendo com que se voltasse em direção a cozinha.
—Tommy? – chama, murchando ao descobrir não se tratar do namorado.
—Sorry dear, mas somos apenas nós – Thea diz, rindo sem vontade, Roy, a seu lado, fazendo o mesmo – Está com fome? Estamos preparando o café. Acordamos pouco antes de você. Aliás, por que não foi para o quarto? Por mais confortável que seja este sofá, mais tarde vai sentir os efeitos de ter dormido aí – bombardeia, Cait devolvendo o riso amarelo do casal, levantando-se e indo ao encontro deles – Não trocou nem mesmo a roupa? Sério Cait? – inquire a jovem, encarando a outra com evidente desaprovação – Por mais que eu ame Tommy e reconheça o quanto mudou, especialmente depois que se envolveu com você, ele não merece que fique neste estado. Homem nenhum merece – diz, recebendo outro sorriso desanimado.
—Obrigado pela parte que me toca! – Roy protesta.
—Disse alguma mentira por acaso? – rebate a garota, o namorado erguendo as mãos em rendição.
—Sei disto Thea, mas não posso evitar me sentir mal. Seu irmão e eu discutimos feio da última vez em que estivemos juntos, por bobagem – admite ela – E só em imaginar que ele pode ter preferido passar a noite fora a me encontrar doí – confessa a médica, sentando-se em um dos bancos junto ao balcão.
—Olha, se ele realmente fez isso merece apanhar! – Thea exclama, batendo a mão sobre o balcão – Você largou tudo, se abalou de Central até aqui para fazer as pazes com ele e o ingrato some!! – bufa, sacudindo a mão – Ele que ouse Não aparecer antes do final da manhã. Vai levar uns bons tabefes – ameaça.
—Se não aparecer é sinal que desistiu de nós e não vou impor minha presença a ele – afirma a médica, suspirando – E também não quero que brigue com ele por minha causa – pede – A partir do momento que retornei a Central, sabia que seria difícil manter nossa relação e nem me refiro a ciúmes de ambas partes – assume – É complicado um relacionamento a distância, todo mundo sabe – argumenta.
—Eu sei, mas poderiam ao menos tentar? -inquire a jovem aprendiz de empresária, pondo sua mão sobre a da médica – Tommy é uma pessoa muito melhor ao seu lado. Da mesma forma que a Felicity está fazendo bem ao Oliver, você está fazendo a ele. Sendo honesta, sem vocês por perto meus irmãos ficam insuportáveis!! – afirma, Cait rindo com vontade desta vez – Sério Cait. Perdi a conta de quantas vezes Roy precisou me segurar pra não esganar o Tommy estes dias! Ele esta noventa e nove por cento do tempo um verdadeiro porre! Um pé no saco, que eu não tenho!! – brinca, fazendo Roy rir alto.
—Ainda restam um por cento onde ele deve ser mais agradável – rebate a médica, sorrindo complacente.
—Não sei por que geralmente é quando está aqui, dormindo -Thea retruca, provocando mais risos – Falando sério agora Caitlin, não desiste dele. Por favor! – pede, unindo as mãos – Sei que Thomas pode ser bem teimoso quando quer. Tanto quanto Oliver. Mas ambos têm um coração enorme, maior do que eles. E nunca, eu repito, Nunca, os vi tão apaixonados antes – diz – Bem, tecnicamente vi, em momentos diferentes, quando disputavam a Laurel, mas era diferente porque ali ela nunca amou nenhum dos dois, em minha opinião, óbvio – afirma, Roy e Cait a olhando de sobrancelha arqueada – Com Oliver Laurel projetava uma vida perfeita. Ela amava um ideal, um sonho que se desfez quando o Gambit afundou – afirma, tranquila – Já com Tommy ela encontrou apoio, alguém com quem compartilhar a dor que sentia por ter descoberto a traição de Ollie e Sara da forma mais dura possível. Ela nunca amou a ele de verdade. Nem por um segundo sequer! – assegura, arrumando o cabelo.
—De onde veio tanta sabedoria em relacionamentos? – Caitlin pergunta, sorridente.
—Ophra -Roy adianta-se – Ela tem assistido muito recentemente! – acresce o rapaz, erguendo o braço para se defender da tapa desferida pela garota.
—De qualquer maneira, espero que dê uma chance ao Tommy. Ele merece e você também. Sei que está sofrendo pelo que aconteceu em Central, mas não acho que terminar com ele será a solução – argumenta – E acho que seu ex iria gostar de te ver feliz — completa a jovem.
—Iria – Cait diz, sem muita convicção – E posso tentar levar essa relação com Thomas adiante. Mas para isto precisamos conversar francamente, ele e eu – condiciona – Foi para isso que pedi licença de dois ao doutor Wells e vim a Starling. O problema é que seu irmão parece pensar diferente, já que não foi a boate ontem, como disse a Oliver que faria, não veio para casa nem deu notícias até agora – lamenta-se.
—Engraçado porque quando Felicity falou conosco, nenhum de nós supôs que estava vindo com mais alguém – Roy lembra, franzindo o cenho – Até estranhamos ela dizer “estamos quase chegando”, mas pensamos que se referia ao trem estar próximo a estação – acresce, a batida leve na porta antes que esta fosse aberta fazendo o trio se voltar naquela direção.
—Ah, são vocês – Thea sopra, desanimada.
—UOU! Guarde um pouco dos fogos de artificio para as festas de final de ano! -Felicity ironiza, entrando seguida de perto por Oliver e Diggle.
—Desculpa cunhadinha, mas é que esperávamos outra pessoa – confessa a morena, indicando Caitlin com um gesto de cabeça.
—Tommy?? – Oliver chuta, procurando o amigo com o olhar.
—Ele não está aqui? – Felicity pergunta, rolando os olhos ao escutar a voz da mãe ecoando no corredor – Eu realmente gostaria que ela falasse só um pouquinho mais baixo! – bufa a nerd, usando os dedos para exemplificar seu desejo.
—Donna está na cidade? – Caitlin pergunta, surpresa.
—Pois é. Acordamos com a novidade hoje cedo! – responde, fazendo aspas no ar – Falou que estava com saudades e resolveu vir sem avisar – completa a loira, sacudindo a cabeça – Mas não responderam minha pergunta: Thomas não está aqui? – repete.
—Não e também não apareceu na Verdant ontem a noite, como disse que faria – Thea repete, sorrindo e acenando ao ver Donna entrando no apartamento tendo Sara a seu lado – Olá senhora Smoak. Prazer em revê-la – saúda.
—Ao menos Alguém ficou feliz em me ver! – resmunga a loirona, indo ao encontro da garota com um sorriso radiante emoldurando seu rosto – Como está menina? Parece mais linda do que da última vez que a vi. A pele viçosa. Tá namorando não está? – inquire, não dando tempo a jovem responder – Caitlin, que bom ver você! – surpreende a médica com um abraço apertado – Fiquei tão preocupada com o que aconteceu. Desculpa não ter ido te visitar, mas Felicity sabe o quanto detesto hospitais – justifica-se.
—Ela falou – Cait limita-se dizer, retribuindo o abraço – Obrigada pelas flores – agradece.
—De nada. Era o mínimo que podia fazer – Donna diz, acarinhando o braço dela, olhando de soslaio para a filha – Quem cochicha o rabo espicha!! – cantarola, fazendo Thea, Roy e Cait darem atenção ao trio, que conversava baixinho – Mal cheguei e já está confabulando com o gostosão uma maneira de se livrar da mamãe bebê? Que feio! – provoca, Felicity apertando a ponte nasal com força.
—Senhor, dá-me paciência!! – sopra, encarando a mãe – Não é nada disso. Falávamos sobre Thomas – revela – Têm certeza de que ele não apareceu na boate ontem? – questiona, olhando de Cait para Roy e depois Thea.
—Absoluta – assegura a garota – Depois que Cait chegou, ficamos atentas e quando Roy chegou ele deu uma busca para ver se meu maninho cabeça dura número dois não estava se escondendo por alguma razão boba. Até no bunker ele procurou – conta.
—Estranho – Diggle diz, encarando Oliver – Por que Thomas mentiria para nós? – indaga.
—É o que pretendo saber – Oliver responde, sacando seu celular, ligando para o moreno – Desligado ou fora de área – diz, correndo a mão pelo queixo – Mesmo que soubesse da presença de Cait, Tommy não a evitaria. Queria revê-la, estou certo – assegura, dirigindo seu olhar a Felicity – Veja onde a moto dele está – pede, a garota fazendo que sim, sacando o próprio celular – Sara, foi a última a regressar ontem, não foi? – inquire, a loira negando.
—Uhum, uhum. Dormi em meu antigo esconderijo, na torre do relógio, com a Sin – conta.
—Eu fui o último a retornar e não vi nada de estranho. Nem sempre Thomas deixa a moto no bunker. As vezes vem para casa nela, por isso não estranhei não estar lá dentro – explica – Fiquei surpreso quando vi a doutora na boate – acresce, dando espaço a Donna passar.
—Eu não consigo me acostumar com essa coisa de seguranças de vocês – comenta a loira, abrindo a geladeira.
—É vigilante mãe e agradeço se evitar falar nisso por aí – ralha Felicity, enrugando o cenho.
—O que foi Sweet? – Oliver pergunta, aproximando-se mais dela.
—O localizador diz que a moto de Thomas está nos Glades – responde, abrindo o aplicativo de localização – Mais precisamente em um beco duas quadras antes da boate -específica, erguendo seu olhar para Oliver – Será que teve algum problema? – inquire, completando ao ver a expressão tensa de Cait e Thea – Tipo uma quebra ou queda? Nada grave. Coisa à toa, sabe. Um pneu furado ou falta de combustível. Coisa do gênero – tenta minimizar.
—E ficou com preguiça de ir andando até Verdant ou com vergonha de ligar pedindo ajuda? Duvido! – Thea diz, empertigando-se – Ollie...
—Envie a localização exata para meu celular – o loiro adianta-se, sinalizando a John e Sara, que se adiantam até a porta – Vamos descobrir o que houve – afirma, olhando diretamente para a irmã e a seguir para Cait.
—Também vou – Roy avisa, saindo de trás do balcão – Conheço aquela área como a palma de minha mão – diz, deixando um beijo terno na testa de Thea.
—Enviei a localização. Vou acompanhar vocês online o todo o tempo. Estaremos alertas aqui – Felicity avisa, retendo Oliver –Tenham cuidado – pede.
—Sempre – garante o arqueiro, deixando um selinho em seus lábios, saindo com os demais.
—Vai dar tudo certo meu anjo. Tenho certeza – Felicity escuta a mãe dizer e se volta, vendo-a segurar uma mão de Thea e outra de Cait, confortando-as – Ele deve ter tido um probleminha qualquer com a moto, o celular perdeu
—Assim espero Donna – Thea diz, sorrindo fraco – Assim espero – repete, trocando um olhar tenso com Felicity e Cait.
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Glades (10:47 a.m)
Lentamente, Tommy abre os olhos, perscrutando o ambiente a sua volta, confuso, tentando, instintivamente, se erguer, percebendo não ser capaz posto suas mãos estarem amarradas acima da cabeça.
—Mas o que...? – sussurra, ainda mais confuso, fazendo nova tentativa de libertar-se e desta vez é a dor em seu peito que o faz desistir.
Virando a cabeça de lado, visualiza um sofá dois lugares em um canto, no chão, o tecido sujo e rasgado exalando um odor desagradável que o faz sentir enjoo. Descendo um pouco a vista, enxerga uma mesa plástica com alguns copos e garrafas sobre ela, três cadeiras do mesmo material compondo o conjunto.
Esforçando-se mais um pouco, consegue ver uma porta larga que parecia não levar a lugar nenhum. Ao lado, montes e mais montes de sacos, latas, tijolos e outras quinquilharias indicando que quem vivia ali sobrevivia recolhendo restos e objetos jogados no lixo.
Abaixando o olhar, enxerga as próprias pernas, amarradas como os braços, notando estar preso a um tipo de prancha de madeira, o ruído discreto o fazendo virar a cabeça para a direita, surpreendendo-se ao divisar os três garotos que quase atropelara sentados sobre um tapete tão gasto quanto o sofá, uma garotinha com cor de cabelo indefinida mastigando o que parecia ser o resto de algum tipo de carne.
Involuntariamente, sente o estômago embrulhar.
—Hei, meninos, me ajudem aqui – pede o moreno, o quarteto sobressaltando-se ao escutar a voz grave.
—Cordô! – a garotinha aponta-o, a comida pendendo para o canto da boca.
—Não podemos – o ruivo fala após um tempo que lhe parece uma eternidade.
—O Draco ficaria bravo. Muito bravo – o outro acresce, olhando para os lados.
—Qual é garotos! Ajudei vocês a pouco, não viram? – Thomas inquire, olhando-os – Impedi aqueles sujeitos virem pegá-los – lembra-os, não conseguindo evitar a expressão de nojo ao identificar o que a menina mastigava.
—Tá com nojinho, playboy? – uma voz mais forte acusa, fazendo o empresário virar a cabeça de um lado para o outro, buscando enxergar quem falava, o aperto forte em seu braço provocando uma dor lancinante – E não impediu coisa nenhuma ontem – frisa um garoto mais velho, de aparência hispânica, surge por detrás dele — Eles estavam seguros assim que entraram, aqui – garante, estreitando os olhos enquanto examinava o moreno de alto a baixo – Que roupa esquisita é essa? – pergunta, mexendo no colete, apertando o tecido.
—É ele quem anda pelas ruas atrás dos bandidos, Draco – um outro garoto aparece com mais dois e uma menina.
—Não é não! – um novo garoto contesta, permanecendo escondido – Quem faz isso é o vigilante. Este tentou matar ele. Vi os dois brigando uma vez, quando vivia no armazém central – conta.
—Não, não tentei não – Tommy se defende, estreitando os olhos na direção de onde a voz viera – Eu ajudo o vigilante. O homem que viu lutando contra ele era... outro – afirma, preferindo ocultar tratar-se de seu pai.
—Mentiroso! – a mesma voz acusa – Eu vi! Reconheci pela roupa – insiste o menino, aparecendo na porta que divisara anteriormente.
—Não estou mentindo – Tommy reitera, fazendo uma careta de dor ao tentar se mover, tornando difícil a ele respirar – Aquele.... era outro homem... dou minha palavra – reafirma, respirando com dificuldade.
—E por que devemos acreditar em você? Não te conhecemos – uma garota morena aparece, olhando-o com desconfiança – Pode estar mentindo para ganhar nossa confiança e depois nos entregar ao prefeito – alega, o surpreendendo pela boa dicção e eloquência.
—Eu. Não. Estou. Mentindo – Thomas repete, devagar – Escutem ... – inquieta-se, a dor o fazendo parar novamente, fechando os olhos por um segundo -Escutem – recomeça, abrindo-os – Estou falando a verdade. Não sou inimigo do vigilante ou de vocês. Agora, por favor, me soltem. Se entendi certo, já amanheceu. Meus amigos devem estar a minha procura – argumenta, puxando ar entre uma frase e outra, a dor em seu peito aumentando fazendo-o questionar-se se havia fraturado uma costela.
—Será que ele tá certo? – um dos pequenos indaga – E se o vigilante vier aqui?
—Ia ser demais! – vibram dois meninos gêmeos, que surgem por detrás da garota.
—Quantos vocês são? – Tommy questiona, espantando-se ao ver mais três garotos e uma garota com cerca de onze anos aparecerem.
—Que te importa? – o maior e líder, Draco, inquere, espetando as costelas do moreno com uma lança de madeira, fazendo-o gemer – E parem de sonhar! Esse tal vigilante não tá nem aí para nós. Ele é igual a todos os outros. Só se importa com os ricos, só protege a eles!! – acusa, irritado.
—Não é verdade – Tommy protesta – Ele...
—Cala a boca!! – Draco ordena, elevando a voz, apertando o laço envolta dos pulsos de Tommy até ficarem dormentes – Você também não liga pra gente. Só quer aparecer, bancar o bom samaritano, o herói! – acusa – Pois bem, não precisamos de heróis. Temos uns ao outros. Cuidamos uns dos outros...
—Mas mama partiu!! – a garotinha choraminga, esfregando a mão contra o nariz, a secreção ajudando a lambuzar o rostinho vermelho – Quero a mama!
—Mas ela se foi e não vai voltar! – Draco quase grita, avançando sobre ela – É uma mentirosa como todos os adultos são! – acusa, a menina indo esconder-se atrás da garota morena.
—Pare, está assustando-a – ralha a garota, pegando a garotinha nos braços.
—Ela precisa aceitar...
—Não precisa não! – retruca a jovem – E você não é nosso dono para dizer o que podemos ou não fazer, do que devemos ou não gostar e menos ainda em quem acreditar – enfrenta-o.
—Está me desafiando Fiona!? – estreita os olhos, olhando-a ameaçadoramente, dando um passo em direção a ela.
—Hei, nem pense em tocar nelas!! – Thomas adverte, esquecendo-se da dor, impelindo o corpo para frente, o movimento brusco fazendo a prancha adernar de cima da estrutura na qual estava apoiada, indo ao chão ruidosamente, o som propagando-se através dos túneis vazios, alcançando o grupo do lado de fora.
—Que foi isso? – Sara inquere, estancando, atenta.
—Parece que algo caiu com força – John responde, igualmente atento.
—Mas onde? – Roy questiona, olhando-os.
—Isto agora não importa – Oliver afirma, erguendo-se de junto da motocicleta que examinava – É a moto do Tommy. Ele tem de estar por aqui em algum lugar, portanto, vamos nos espalhar – ordena, cobrindo a cabeça com o capuz, atirando uma flecha em direção ao telhado – Vou por cima e desço. Procurem por entradas embaixo. E fiquem atentos. Seja lá o que causou o barulho, pode ser perigoso – adverte, não esperando resposta, deslocando-se rapidamente parede acima, atingindo o telhado em poucos minutos.
—Mandão! – Sara bufa, sinalizando com a cabeça a direção que tomaria -Vou por aqui – avisa, caminhando para a direita.
—Vou tentar a frente – Roy avisa.
—Fico com o outro lado. Nos encontramos nos fundos, caso nenhum consiga entrar – orienta, o trio separando-se a seguir.
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Oliver (11:58 a.m)
Caminho sobre o telhado do prédio que um dia significou tanto para a mãe de meu amigo, local aonde foi morta, fator catalisador que mudou a personalidade de seu marido, levando-o a decisões que culminaram nos eventos de meses atrás.
Há anos o lugar estava abandonado. A única menção feita a ele fora quando Malcolm tentara fazer Tommy assinar um documento lhe transferindo a posse do lugar, o que ele, óbvio, não fez, agravando o já complicado relacionamento pai/filho deles.
Me aproximo da porta da escada de incêndio (suponho), forçando-a um pouco para conseguir entrar.
Desço as escadas atento, arco em punho, vistoriando cada cômodo que encontro cuidadosamente. O prédio não era muito antigo, mas estava abandonado desde o assassinato de Rebecca Merlyn, portanto as estruturas se encontravam em mal estado de conservação. Muito mal.
Deixo o único andar após ter-me certificado não haver ninguém ali, caminhando com cuidado redobrado ao notar que o piso, de madeira em sua predominância, poderia ceder sob meus pés a qualquer minuto.
Quando começo adentrar o que julgo ser a antiga sala de exames do lugar, no térreo, escuto o grito de Sara seguido do estalido característico de madeira partindo, ecoando pelo ambiente ao mesmo tempo em que as vozes de Roy e John se fazem ouvir.
Me esquecendo do cuidado necessário, corro na direção de onde supunha ter vindo o som.
—OLIVER, PARE! – o alerta de Dig chega a tempo de evitar que caísse no buraco formado pela queda de minha amiga.
—Sara! SARA! – Roy grita, debruçado na borda do buraco – SARA!
‘Harper cala a boca!’ -ouvimos – ‘Eu caí, não fiquei surda” -resmunga e é quase impossível não rir.
—Está ferida? – pergunto, me agachando junto a borda.
‘Não. Só com raiva de minha burrice!’ -resmunga novamente.
—Vou descer para...
—Oliver – Dig chama minha atenção e ergo o olhar vendo o capacete em suas mãos – É do Tommy.
‘Hei, precisam ver isto’ -Sara diz, atirando o arco quebrado para cima – ‘A aljava está aqui, mas as flechas sumiram’ – reporta, sua fala seguinte me deixando tenso –‘Tem sangue aqui’ – alerta.
—Se afaste – ordeno, recolhendo meu arco antes de pular para dentro, caindo sobre um bloco irregular, por pouco não me machucando.
—Ia avisar para ter cuidado -Sara fala de forma irônica, não esperando resposta – Dig, Roy, tenham cuidado ao descer – alerta, a corda pendendo quase ao mesmo tempo que seu aviso – Eles são mais prudentes do que você – me provoca, mas ignoro. Estava mais preocupado com os rastros que encontrara.
—Ele foi arrastado para lá – constato, me erguendo no exato momento que John e Harper descem – Vamos – chamo, tomando a dianteira.
Seguimos por uma espécie de túnel que nos leva direto a um dos ramais da antiga linha de metrô desativada que passava por ali. Prosseguimos, parando aqui e ali ao encontramos alguma pista.
Era estranho porque parecia que meu amigo havia sido tragado por algum tipo de portal. Não havia portas, tuneis ou canais visíveis que nos desse uma pista de para onde tinha sido levado.
—É isto! Não há nada visível! – Sara exclama de repente, estalando os dedos e enrugo o cenho -Estamos buscando portas ou similares, coisas que podem muito ser....
—Camufladas – mato a charada – Vamos voltar e checar cada ponto de intercessão que vimos de ambos os lados. Espalhem-se — ordeno, ficando do lado esquerdo junto com Dig enquanto Sara e Harper ficam com o direito.
Refazemos todo o trajeto e já estava quase desistindo quando esbarro em algo. Empurro o painel revelando uma entrada escondida. Rapidamente, reúno o time, adentrando o lugar, me surpreendendo com o tamanho do que encontramos.
Vários ambientes formavam o que parecia ser uma estação inacabada. Ali, no piso sujo e gasto, encontramos mais marcas similares a do local aonde Sara caíra. E mais sangue.
Seguimos adiante, espalhando-nos de forma a ficarmos a cerca de um metro uns dos outros, alertas.
Passassem alguns minutos até divisarmos uma nova porta, sons de vozes abafadas me deixando cada vez mais tenso. Parecia estar havendo uma discursão, e isto não era nada bom já que uma das vozes era claramente a de Tommy.
Ao menos está vivo...penso enquanto aumentamos o passo simultaneamente, chegando quase a correr, diminuindo novamente quando estamos a poucos metros da porta, nos organizando para invadir, mas antes que o possamos fazer, uma granada de efeito moral rola para fora do cômodo, a fumaça nos obrigando proteger olhos e boca.
Por entre a nuvem espessa, diviso vultos que passam correndo como raios. Vários vultos, de tamanho variados. Escuto o praguejar de Sara acompanhado pelo som metálico de seu bastão caindo. Certamente teria tentado acertar um alvo e falhara. Estava realmente difícil enxergar em meio a fumaça. Meus olhos e garganta ardiam, me sentia sufocar, um único pensamento me fazendo permanecer firme: Tommy estava ali dentro e precisava buscá-lo a qualquer custo!
Firme neste propósito, sinalizo a Dig, que estava mais próximo a mim, abrindo contagem com os dedos. Ao erguer o terceiro, entramos juntos.
A primeira coisa que vejo é Tommy, deitado sobre um tipo de prancha de madeira, desacordado. A segunda uma perna sumindo através de uma fresta ínfima na parede oposta a entrada e abro a boca, espantando, o gemido de meu amigo fazendo-me deixar a fuga dos inimigos em segundo plano.
—Tommy, tudo bem? – inquiro, ele me olhando desnorteado um segundo antes de apagar.
—Está ferido – Dig avisa, e baixo a vista, visualizando a umidade no flanco direito de Tommy – Temos de tirá-lo daqui rápido.
—Me ajude aqui – peço, segurando na parte de cima da prancha, Dig a de baixo -Espera – peço, pondo os braços de meu amigo sobre seu peito – Vamos – convido, nós dois o erguendo juntos.
Aquela altura a fumaça dissipara e pude ver melhor o ambiente enquanto saiamos. Parecia que alguém vivia ali. Mas quem? E por que pegou meu amigo como prisioneiro? As perguntas circulavam em minha mente e tomo uma decisão.
—Dig, pare – peço, ele estancando de pronto.
Apoiando a prancha da melhor maneira que consigo, retiro uma de minhas flechas localizadoras, atirando-a com firmeza no teto.
—Ollie, John, tudo bem aí? – Sara pergunta, reaparecendo com Roy a seu lado – Tommy tá ferido! – exclama, preocupada.
—Sim e precisamos levá-lo embora agora – friso, retomando a caminhada – Fiquem na retaguarda. Não sabemos se quem capturou Tommy realmente foi embora – alerto-os.
—Ok – Roy anui, tomando a dianteira, Sara na retaguarda.
Em questão de minutos retornamos ao ponto de entrada. Com o auxílio de cordas, saímos e retiramos Tommy de lá.
Do lado de fora, ligo para Felicity, pedindo que levasse Cait ao bunker, explicando, por alto, o que acontecera e como o encontráramos. Depois de desligar, colocamos meu amigo no furgão de John, Sara levando a moto dele enquanto Roy a dela.
No bunker, Dig e eu despimos Tommy, descobrindo, aliviados, que o ferimento era bem menos grave do que pensávamos.
Limpo o ferimento com cuidado, encontrando dois menores no flanco direito e outro na cabeça, onde fora golpeado, por certo. Quando Caitlin chega, os ferimentos estão limpos e sarjados.
—Fique com ele enquanto vejo umas coisas com Felicity – peço, ela concordando, sentando-se ao lado da cama onde meu amigo se encontrava.
—Tem certeza de que ele não corre risco de morte? – Felicity pergunta tão logo me sento na ponta de sua mesa.
—Passei aquele scanner manual que me obrigou ter aqui. Não há fraturas significativas – tranquilizo-a.
—Certo. Sobre o que queria falar? – pergunta, me olhando séria.
—Durante todo o caminho Tommy delirou. Falava alguma coisa sobre crianças, para termos cuidado com elas – digo, causando-lhe espanto – Deixei uma flecha com gravador e localizador lá, mas não tive como ativar. Pode fazer isso agora? – peço, ela sorrindo daquele jeito que tanto amo.
—Considere feito – diz, teclando ligeiro, me olhando de cenho enrugado – O que acha que ele dizer com ter cuidado com as crianças? – inquire.
—Não sei, mas pretendo descobri – asseguro, dirigindo meu olhar a garota que se debruçava sobre meu amigo, afagando seu rosto carinhosamente, um sorriso discreto se formando em meu rosto.
—Eu vi isso – Felicity cantarola e a olho – Eles vão ficar bem. Tenho certeza de que vão – afirma, pondo sua mão sobre a minha – E nós também – garante.
—Eu sei – digo, me inclinando até tocar seus lábios suavemente.
Continua....
“.... Looking for someting we can rely on;
There’s got to be something better out there;
Love and compassion, their day is coming;
All else are castles built in the air;
And I wonder when we are ever gonna change it;
Living under the fear till nothing else remains...”

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