Survivor
6 Capitulo 6
Algumas horas se passaram desde que a horda de zumbis apareceu. Os sons dos passos arrastados e grunhidos foram ficando mais baixos com o passar do tempo até virarem apenas sussurros trazidos pelo vento.
A garota que nos ajudou passou boa parte do tempo espreitando através das janelas reforçadas com madeira, os dedos apertados ao redor do arco enquanto o cara se mantinha ao lado da porta e nos encarava de um jeito quase curioso.
Trocamos poucas palavras quase inaudíveis apenas para nos certificarmos de que todos estavam bem.
–Acho que já podemos falar — digo por fim, sem aguentar mais aquelas trocas de olhares desconfiadas. — Quem são vocês, afinal?
A garota apoia o arco em um canto na parede e me encara.
–Nós é que deveríamos fazer as perguntas. O que estavam fazendo por aqui?
Não consigo evitar uma risada que dura mais do que eu pretendia.
–Não é uma pergunta muito sensata de se fazer nos dias de hoje. Quer dizer, as pessoas andam por ai procurando comida e abrigo em qualquer lugar. Isso é obvio, não é?
Ela contrai os lábios.
–Que tal começarmos com nossos nomes? — prossigo — Eu sou Lizzie e essa é Miah.
–Sou Tate — o garoto finalmente fala, sua voz soando grave através do comodo — ela é Tessa. Nos desculpe se parecemos meio ríspidos, é que quase ninguém aparece por aqui.
Faço um aceno com a cabeça.
–Deu pra perceber. Quer dizer, a maioria das casas ainda parece intocada a pesar de todo esse tempo...
–É uma comunidade que aparece em poucos mapas. Não sei se perceberam, mas fica bem longe dos desvios da estrada, então a pesar de tudo, ficou meio esquecida. — ele ergue o indicador e aponta para uma das janelas — às vezes hordas como aquela aparecem do nada. Vocês só deram azar de estar lá fora na hora errada.
–E como vocês encontraram esse lugar? — Miah se ajeita no sofá, virando o rosto de modo que conseguisse encarar todos quase ao mesmo tempo.
Tessa balança os ombros.
–Nos conhecemos na estrada há alguns anos. Tate contou que tinha parentes por aqui. Estava viajando de muito longe, na esperança de que um lugar tão pequeno assim não tivesse sido atingido.
–Ah, sinto muito por seus parentes.
Tate abre um sorriso torto.
–Quem é que não sente?
O silêncio se instala novamente no ambiente, como se nenhum de nós soubesse exatamente o que fazer agora.
–Bem, agradecemos muito, mas precisamos voltar para nossos amigos. — estico o braço até alcançar a alça de minha mochila jogada a meus pés.
Tate se levanta antes que eu possa fazer o mesmo.
–Vocês deveriam esperar amanhecer. Ainda tem alguns errantes circulando pela rua e ficar atirando não é uma boa ideia.
–Minha amiga está muito ferida. Ela perdeu a mão — O tom desesperado volta à voz de Miah quando fala — Não conseguimos encontrar antibióticos, mas precisamos voltar. Matt e Kenny devem estar preocupados.
Observo Tessa e Tate trocarem um rápido olhar, como se tivessem tido uma rápida discussão que só eles podiam ouvir. Tessa balança a cabeça em negativa levemente, mas tate comprime os lábios e estreita os olhos.
–Se esperarem até de manhã talvez possamos ajudar. Temos um carro que funciona e Tessa conhece um pouco sobre ervas, pode ser útil.
–Não, Tate — diz a garota — é perigoso! Estamos tão bem aqui... — seu olhar se intercala entre Miah e eu — pra que arriscar por desconhecidos?
Tessa não faz cerimônia em sua resposta. Ela parece com medo. O olhar decidido da garota que havia atirado flechas para nos salvar algumas horas atras desapareceu.
–Está tudo bem, não queremos incomodar. — Ergo as mãos — podemos nos virar bem sozinhas.
Olho para Miah, indicando que ela pode se levantar para irmos embora, entretanto, no momento em que ela apoia novamente o peso sobre os pés seu joelho cede e ela precisa se apoiar no braço do sofá para se manter de pé.
Claro. O tornozelo machucado.
Reviro os olhos, mas espero que ninguém tenha notado o gesto.
–Seja lá de onde tenham vindo não acho que consigam ir muito longe com ela assim — Tate se apressa em apoiar o braço de Miah para ajudá-la a a se sentar novamente.
Solto um longo suspiro. Definitivamente não gosto quando as coisas fogem do controle. A essa altura Matt e Kenny já devem estar apostando no pior e, na melhor das hipóteses, Laura está em um estágio muito mais avançado da infecção.
–Tudo bem, vamos ficar.
–Mas Lizzie...
–Não temos opções muito melhores, Miah. Laura vai ter que aguentar mais pouco. De qualquer forma, não poderemos fazer nada por ela. — desvio meu olhar para Tate — Você vai nos ajudar amanhã, certo?
Ele abre um breve sorriso e acena a cabeça afirmativamente. Ouço Tessa bufar antes de se retirar do cômodo.
–Espero que ela não seja um problema — digo.
–Não vai ser, não.
Tate nos pede licença e vai atrás de Tessa.
Me acomodo em um canto. Se vou passar a noite ali o melhor a fazer é descansar. Aperto meus dedos ao redor do gatilho da arma, como sempre, e deixo minha mente se distanciar ao mesmo tempo em que meus ouvidos continuam alertas.
(...)
Antes mesmo do sol atravessar as frestas na madeira pregada nas janelas já estou acordada. As coisas estão silenciosas. Não ouço os passos dos errantes do lado de fora e nem mesmo passarinhos. Os olhos de Miah ainda estão fechados e a respiração leve enquanto ela continua dormindo no sofá que escora a porta.
Me levanto e dou uma olhada em minha mochila apenas para garantir que tudo ainda está ali.
Alguns minutos depois Tessa aparece na sala. Ela carrega um prato de plastico nas mãos e sua expressão não é nada acolhedora.
–Não pense que estou feliz com essa história de ajudar vocês — sua voz soa quase como um sussurro ríspido enquanto ela põe o prato com ovos em minha frente — Tate acha que pode confiar em vocês, mas não se pode confiar em ninguém!
–Não pedi sua ajuda — retruco, encarando os ovos — mas te garanto que ele ficaria melhor sem você. Aliás, você por acaso cuspiu nesses ovos?
Tessa estreita os olhos e abre um pequeno sorriso sarcástico.
–Eu colocaria veneno neles se pudesse.
–Bem, foi uma escolha de vocês nos ajudar ontem. — pego um punhado de ovos e os coloco na boca, mastigando com calma.
–Só porque não ia deixar o Tate se arriscar sozinho por desconhecidas! Vou com vocês apenas para garantir que ele não confie demais.
–Então, por favor, peça para que ele se apresse, vamos acabar logo com isso.
(...)
Deve ser pelo menos dez da manhã. Saímos há aproximadamente uma hora. Colocamos tudo que foi possível no porta malas do carro que Tate havia estacionado em frente à casa e agora Tessa ia no banco da frente, os dedos sempre firmemente apertados ao redor do arco apoiado entre suas pernas.
Demoramos um pouco para passar pela unica entrada de carros da cidade, que estava coberta de mato alto e possuía o terreno muito irregular. Depois disso, foi preciso mais um tempo para chegar até a estrada principal e cortar caminho por entre os carros para dar a volta por uma via secundária. Mas, finalmente, chegamos a um espaço onde reconheci um conjunto de arbustos entrelaçados na beira da estrada.
–Aqui, temos que seguir a pé agora.
Descemos do veiculo e pegamos mochilas apenas com o essencial. Sigo na frente, guiando-os pelo caminho, enquanto Tate apoia Miah para que caminhe e Tessa segue atrás, resmungando e parando a cada sussurro do vento.
Tenho certeza de que estamos quase lá quando um grito grave atravessa as árvores e se repete pelo menos mais duas vezes.
Sem pensar muito aumento o ritmo da caminhada até estar correndo em direção a nosso pequeno acampamento improvisado. Vejo galhos quebrados e um rastro de sangue conforme me aproximo. Largo a mochila e puxo a arma da cintura e, então finalmente avisto duas silhuetas.
Kenny está parado de pé apoiando-se no tronco da árvore, seu rosto está pálido e ele parece prestes a vomitar. Matt está ajoelhado no chão, o corpo curvado para a frente. Ao me aproximar mais posso ver que agarra o corpo de Laura.
Agora estou perto o suficiente para tocar seu ombro, mas não faço isso.
Sinto os olhos de kenny sobre mim, mas ele não diz nada. O corpo de Laura treme e se contorce entre as mãos de Matt. Gotículas de suor preenchem sua testa e sua pele apresenta um tom doentio. Desvio a atenção para o ferimento de seu braço, é terrível. Os pontos improvisados estão inflamados e toda a área ao redor está vermelha e com pus. Seus olhos se reviram e não sei se ela tenta falar, ou gritar. Só sei de uma coisa: Está morrendo.
Ajoelho-me ao lado de Matt e tento puxar suas mãos para que ele solte a garota, mas seus dedos estão tão firmemente fincados que é impossível soltá-los sem sua colaboração.
Me arrasto até mais perto de sua cabeça a seguro firmemente. Um gosto ruim invade minha boca.
Tessa aparece correndo com Tate logo atrás carregando Miah nos braços. Ambos permanecem calados diante da cena.
Miah praticamente pula para o chão, perdendo o equilíbrio quando o pé machucado toca a terra, entretanto, mesmo assim se arrasta até a amiga.
–Faça alguma coisa! — grita — Peguem o álcool e a gaze! Precisamos ajudá-la.
–Vocês tem alguma coisa pra dizer a ela? — pergunto, um nó se formando em minha garganta.
Ninguém parece me ouvir. As convulsões se tornam mais violentas, então, só há uma coisa a fazer. Com um único movimento torço seus pescoço para o lado. O som dele sendo quebrado é seguido pela imobilização de seu corpo, que começa imediatamente a perder calor. Solto-a e a cabeça bate no chão com um ruido leve, o corpo todo amolecendo e cedendo para o chão a medida que as mãos de Matt liberam seu aperto.
Ele cai para trás e permanece encarando o corpo ao mesmo tempo em que Miah começa a gritar e a soluçar.
Sinto algo em meus ombros. Quase havia me esquecido que Kenny estava ali. Ele me puxa para cima com mais força que o necessário e faz com que eu me vire para encará-lo. Decifrar sua expressão é quase impossível, mas não há lágrimas nos olhos.
Suspiro e faço um movimento de cabeça indicando que ele se junte aos amigos, para tentar confortá-los.
–Bem, parece que termos ajudado não adiantou muita coisa — Diz Tessa quando me aproximo dela e de Tate.
–Sinto muito. — É tudo que Tate diz.
–Acho que eles ainda tem algum tempo antes de, bem... vocês sabem. Será que você podia me ajudar, Tessa? A buscar as coisas restantes no carro?
–Eu posso ajudar — Tate se oferece.
–Não, Tate — me esforço para parecer mais abalada do que realmente me sinto — fique aqui caso eles precisem, por favor. Acho que não vou conseguir aguentar essa cena toda e eles tem alguns problemas pra se defenderem sozinhos.
Ele assente e posso ver em seu rosto que quer realmente ajudar.
–Não vamos demorar, prometo.
(...)
Já cobrimos metade da distância até o local onde o carro estava parado e um turbilhão de coisas preenche minha mente enquanto me esforço para caminhar em silêncio diante da insensibilidade da garota ao meu lado.
Sei que o mundo está uma grande merda e que as pessoas precisaram criar cascas para sobreviver, quer dizer, tudo bem não confiar em todo mundo e tudo bem ter que fazer coisas para se defender, mas Tessa não demonstrou nem um segundo sequer um pouco de pena do que viu. E ainda falava consigo mesma sobre não poderem confiar e em como isso estava bagunçando as coisas.
–Você pega aquela caixa com sementes? — pergunto assim que nos aproximamos do veiculo.
Observo enquanto ela levanta o porta malas, vasculhando pela pequena caixa de sementes que havíamos colocado ali mais cedo. O arco apoiado ao lado.
–Não consigo encontrar — ouço sua voz soando abafada — você por acaso já não colocou na mochila que lev...
A frase é cortada pela metade. Estou tremendo e há sangue em minhas mãos, que seguram o cabo da faca de caça cuja lâmina está enterrada logo abaixo do coração de Tessa.
Ela ainda se vira, com sangue escorrendo pela lateral da boca e olhar aterrorizado de um animal encurralado. Um coelho, talvez.
–Vo... Você...
Ela não consegue articular bem as palavras.
–Está tudo bem, logo logo você vai voltar — estico a mão e acaricio seus cabelos, apoiando sua cabeça enquanto ela desaba lentamente para o chão -
–Tate... — parece que ela tenta gritar, mas tudo que sai de sua boca é um sussurro.
–Ele vai ficar bem. Você também vai de certa forma. Mas ele confia nas pessoas, tenta ajudar. Vai estar melhor comigo.
Puxo a faca e o sangramento aumenta. Lentamente seus olhos se fecham e espero seu peito parar de subir e descer.
Atravesso o arco sobre meu peito e pego algumas coisas que consigo carregar. Depois saio, deixando o corpo de Tessa para trás. Logo ela estaria de volta, mas não nos encontraria mais.
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