Survivor
7 Capítulo 7
–Onde está Tessa? – Foi a primeira coisa que ouvi ao entrar novamente no acampamento improvisado.
Passo a mão ensanguentada sobre o rosto para secar algumas lágrimas, estou tremendo. Depois de deixar o corpo de Tessa para trás esperei um pouco na floresta, observei de longe até que ela, aos poucos, voltasse a se mexer e se arrastasse na direção contrária.
–Desculpe Tate... Desculpe, alguns errantes vieram e ela tentou me proteger.
–O que? – ele gritou, fazendo com que Kenny e Miah desviassem o olhar para nós por um segundo, mas logo em seguida seu tom diminuiu, como se ele não tivesse forças para falar mais alto que aquilo – Não pode ser, ela não seria tão descuidada...
–Ela não foi descuidada. Foi culpa minha, eu não estava prestando atenção. Me perdoe. – As lágrimas vinham facilmente enquanto eu falava, embora no fundo sentisse que não lamentava de fato o ocorrido. Apenas fiz o que precisava ser feito.
–Preciso ir até lá... preciso – ele fez menção de seguir por onde haviamos chegado mais cedo, mas segurei seu braço e balancei a cabeça.
–Ela é um deles Tate, você não pode ir até lá agora, precisamos ficar juntos.
Seus joelhos cederam e Tate caiu no chão com as mãos ao lado do corpo. Era como uma marionete que não estava mais sendo manipulada, então fechou os olhos e ficou ali.
...
A impressão era de que os cérebros dentro da cabeça de cada um havia derretido. O corpo sem vida de Laura estava recostado na base da árvore e Matt apertava sua mão com tanta força que os nós de seus dedos haviam perdido a cor algum tempo atrás.
Quando voltei ele já estava nessa exata posição. Miah chorou baixinho com o rosto escondido na camisa manchada de Kenny até que acabou adormecendo depois enquanto ele acariciava seus cabelos em um movimento repetitivo.
Tate também não havia aberto os olhos ainda.
Eu estava apenas esperando a coisa acontecer. Todos sabíamos bem que cada um tinha um tempo diferente, mas fazia tempo que eu não via alguém demorar tanto quanto Laura estava demorando.
Pareceu levar uma eternidade até seus dedos começaram a se mexer entre os de Matt e seus olhos se abriram com aquele tom pastoso um pouco pálido.
Kenny sacode Miah e posso ver o corpo de Matt estremecer. Gostaria de dizer a eles que não precisam fazer nada, podemos até levá-la conosco se quiserem, eu já vi pessoas que fizeram isso, mais de uma vez. Entretanto, Matt se levanta, agarra o cabo de uma faca que esta largada no chão, próxima a seus pés, e a segura com mais força do que é realmente necessário.
Por um instante é como se até mesmo o ar ficasse estático. Então Laura ergue os braços, o corpo se levantando lentamente e a mandíbula estalando. Posso ver os lábios de Matt se mexerem enquanto ele sussurra um pedido de desculpas antes de finalmente enterrar a lâmina na cabeça de Laura.
Ninguém faz nada nos minutos seguintes, até que Matt finalmente fala:
–Precisamos enterra-la. – Seus olhos estão vermelhos e a mão que segurava a faca treme.
Kenny solta Miah e ela se arrasta aos poucos para perto do corpo de Laura. Sem mais nenhuma palavra os dois se afastam e os perco de vista entre as árvores.
Olho para Tate. É impossível deixar que continue desse jeito. Agora ele esta com a gente. É o melhor para ele.
Me aproximo e toco seu ombro.
–Tate, por favor, você não pode ficar aí pra sempre. Todos perdemos pessoas ao longo dos anos, vamos, não pode ser sempre tão difícil.
Espero alguns segundos e ele finalmente abre os olhos e me encara por um longo tempo.
–Preciso encontrar a Tessa – ele passa a mão pelo rosto que fica marcado de terra – nós prometemos... – a voz falha, mas ele engole a saliva e continua — prometemos que nunca deixaríamos o outro se transformar numa dessas coisas nojentas.
Observo a expressão dura e decidida em seu rosto.
–Mas...
–Não vou deixar ela andando por ai no meio desses cadáveres, ela não merecia. Tessa nem queria vir até aqui, só fez isso porque não me deixaria vir sozinho. Eu pelo menos isso a ela.
Tate se levanta, ajeita arma que está presa ao cós da calça e começa a ir em direção à estrada.
Ele não deveria estar fazendo isso. Não deveria.
Vou até Miah, que observa o corpo de Laura como se de repente ele pudesse voltar a respirar e a ser a mesma de antes.
–Miah – chamo – Miah, preste atenção.
Ela me encara, não há emoção alguma em seus olhos.
–Vou fazer uma coisa e pode demorar um pouco. Depois que enterrarem Laura fiquem aqui, pelo amor de deus, não saiam andando pela floresta. Diga a eles que eu vou voltar.
Ela apenas faz um movimento com a cabeça, não tenho certeza que é uma afirmação, mas preciso acreditar que sim.
...
Corro um pouco para alcançar que Tate, que já está alguns metros a frente. Tiro o arco das costas e toco em seu ombro com ele, chamando sua atenção.
–É melhor você ficar com isso.
Tate segura o arco com firmeza e corre os dedos pela madeira antes de atravessá-lo sobre o peito.
–Você precisa voltar e ficar com seus amigos.
Agora estamos lado a lado e posso ver seu rosto ficando marcado pelas lágrimas que começaram a escorrer.
–Vocês vieram por nós e Tessa morreu tentando me ajudar, é o mínimo que posso fazer. Eles vão ficar bem.
Ele apenas deu de ombros e seguimos em silêncio até alcançar o engarrafamento.
...
Avançamos através do matagal que se erguia na margem oposta da rodovia, tentando nos manter escondidos. O mato se ergue acima de nossas cabeças, tornando difícil enxergar tanto o que vem a frente quanto as margens da própria estrada, mas Tate insistiu que essa seria a melhor forma.
Cada vez que uma brisa chacoalha as folhas paramos para ouvir e prestar atenção. Começo a imaginar que, talvez, se realmente encontrarmos Tessa vagando por ai Tate pode notar a ausência de mordidas e o ferimento em seu abdome. Se isso acontecer como vou explicar a ele o que aconteceu? Tate vai tentar me matar se descobrir como Tessa realmente se transformou.
A brisa sopra novamente e, dessa vez, vem acompanhada de um chiado conhecido. O som vem da direção da estrada. Talvez uns dez metros a nossa esquerda.
Tate para de andar, estou apenas a um passo de distância dele. Faço um sinal para que Tate espere e fique quieto.
Com passos cautelosos tento me aproximar. Ainda consigo vislumbrar Tate a minha direita, parado, esperando. Agradeço mentalmente por ele ainda não ter tomado nenhuma decisão por impulso.
Me aproximo o suficiente da borda da estrada para ver de onde vinha o som. Dois errantes, um homem e uma mulher, estão debruçados sobre a carcaça de um animal. Os rostos e os dedos arrancando o que um dia foram as tripas de um cervo.
Ainda não consigo ter certeza se a mulher é Tessa, preciso de apenas mais um passo...
Algo prende minha perna. Perco o equilíbrio e levo instintivamente as mãos a frente do corpo.
Eu deveria ter percebido outro chiado, mas não percebi.
A mão de um errante puxa minha perna em direção a sua boca escancarada. Faço força para soltá-la, mas não adianta. Grito de frustração antes mesmo de poder me conter. Em alguns segundos Tate aparece, ele chuta o braço do errante e consigo ouvir os ossos frágeis se quebrando. O aperto diminui e puxo minha perna, me levantando o mais rápido que consigo. Ele puxa a arma da cintura e dispara duas vezes contra a cabeça do errante.
Olho para a esquerda. Os dois errantes que antes dividiam o cervo agora se levantam. O homem bloqueia a visão da mulher por um segundo, mas é possível ver os cabelos e os traços do rosto. Não tenho dúvidas de que é Tessa.
Tate aponta a arma para a cabeça do homem, porém, no momento em que dispara nada acontece. Ele tenta novamente e o resultado é o mesmo. Não há mais balas.
Ele puxa uma faca que também estava presa ao cinto, mas assim que faz menção de ir em direção ao errante o vento sopra mais uma vez.
O som de rastejar e de gemidos é alto e vem tanto da nossa direita quanto da esquerda. Talvez o mato balançando dê a impressão de que o número de errantes que ouviu meus gritos e os tiros seja muito maior, mas essa é a melhor chance de Tate não encontrar Tessa e de sairmos dali sem maiores problemas.
–Tate – digo, tentando não soar tão nervosa – Precisamos correr.
–Mas...
Ele começa a argumentar, mas se cala assim que aponto para a movimentação que vem do ponto logo atrás de nós. Definitivamente não é o vento.
–Por favor.
Corremos para a estrada, para o meio dos carros. Tive tempo apenas de ver um grupo de errantes se juntar aos dois que já estavam na estrada. A tempo de ver Tessa desaparecer no meio dos outros.
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