Survive

3 Capítulo 3 - Now - Amy


Notas iniciais
Demorou mas saiu :D/Blue

"Se há um futuro, nós o queremos agora."

Eu estava sentada de pernas cruzadas no colchão e meus olhos acompanhavam os movimentos de Tina. Ela andava de um lado para o outro no pequeno espaço, deveria estar pensando em alguma solução. Já estava me deixando tonta.

– Acho que deveríamos continuar aqui. – falei. – Para mim está ótimo.

– Mas para mim não. – retrucou ela.

– O que te incomoda? – perguntei.

– Talvez aquilo que te acomoda. – deus lábios se crisparam.

Baixei o olhar para meu colo, era uma situação difícil. Para ambas.

– Ele se parece com Matt, não é? O Kyle? – era para ser uma pergunta, mas soou como uma afirmação.

– Muito. Principalmente a cor dos olhos. – disse ela. Levantei o olhar e vi que ela estava de costas para mim.

– É por isso que preciso ficar perto de Kyle. É como ter meu irmão de volta. – balbuciei.

– Matthew nunca irá voltar, Amy. – disse Tina com a voz fria.

– E se ele tiver resistido como Melanie?

– Pouco provável. E se tiver resistido, espero que enlouqueça o maldito parasita que está em seu corpo.

Guardei para mim que também possuía o mesmo desejo.

– Jamie disse que com a chuva vamos todos ficar na sala de jogos.

– Você virou intercambista?

– Você deveria ser mais sociável, Storm.

– Toc, toc. – alguém disse. Nós direcionamos nosso olhar para a pessoa.

– Olá, Jeb. – cumprimentei. Ele acenou com a cabeça.

– Preciso andar com Christina, Amy. – disse Jeb. Tina arqueou uma sobrancelha. – Kyle vai vir buscá-la para fazer algo.

Tina suspirou e veio me dar um beijo na testa. E então se foi.

Passou-se alguns minutos e Kyle apareceu na porta, sua roupa estava suja e havia poeira em seu cabelo, ele acenou com a cabeça para que eu o seguisse.

Levantei-me e o segui.

Suas passadas eram largas, ao contrário das minhas que era minúsculas e eu tinha de correr para acompanhá-lo. Então, por impulso, segurei a parte de trás de sua camisa. Assim como eu fazia com meu irmão. Kyle se virou e olhou para mim com olhos confusos.

– Desculpe. Eu fazia isso quando meu irmão andava rápido demais e me deixava para trás. – expliquei.

– Ah, tudo bem. – disse ele. – Esqueci que você é pequena. Sunny também anda devagar.


Matt e eu estamos andando pelo corredor da escola, ele está na frente e me pede para segui-lo, então caminho atrás dele. Mas seus passos estão rápidos demais. Alcanço a parte de trás de sua blusa e a seguro. Ele se vira para mim.

Porque está me segurando, Drizzle?perguntou ele.

Você está indo rápido demais, Thunder.sorri.

Como se você não corresse.revirou os olhos.

Não gosto de correr sem motivos.retruquei.


Voltei a mim e pensei em um assunto para disfarçar minha breve divagação.

– Não a vi ainda. – falei. – E estou aqui há uma semana.

– Ela fica muito no hospital, está com medo de sua amiga e estranhamente passou a se sentir à vontade com os criotanques. – explicou. Estremeci a palavra.

– O que são criotanques? – perguntei hesitante.

– Onde colocam os parasi... as almas. – disse ele.

– Você também não gostava delas. – concluí.

– Foi um longo processo de aceitação. Enfim, para onde você quer ir?

– Não sei, quero fazer algo que eu consiga terminar.

– Plantar não foi o seu forte, não é? – riu ele.

– Meus braços ainda doem. – resmunguei.

– Acho que vou te deixar com Peg.

– O que ela está fazendo?

– Lavando louça, eu acho.

Viramos a esquerda e seguimos para a sala de banho. Havia várias pessoas passando por nós, algumas me lançavam olhares estranhos. Voltei a segurar a blusa de Kyle, que dessa vez não objetou, mas apenas para me sentir um pouco mais confortável. Assim que entramos no lugar, consegui distinguir duas silhuetas na luz baça que era produzida pela lanterna de Kyle e pelos buracos que haviam na caverna.

– Trouxe uma ajudante, Peg. – disse Kyle.

Peg levantou a cabeça de sua tarefa e olhou para mim, notei que quem estava ao seu lado era Jamie. Peg deveria ser apenas alguns centímetros menor que eu – algo inédito para mim, quando não se tratava de crianças. Kyle acenou para que eu fosse andando até ela. Recebi um sorriso dela e de Jamie. Sentei-me ao lado de Peg – ignorando meu instinto de agredi-la – e observei Kyle ir embora.

– É a primeira vez que faz isso? – perguntou ela.

Virei-me para olhá-la.

– Sim. Bem, aqui sim. – respondi.

Ela pegou um naco verde e me estendeu.

– Os sabonetes normais acabaram. – disse ela em tom de quem pedia desculpas. – Íamos pegar mais, mas achamos vocês antes. Este arde um pouco.

– Está sendo boazinha. – resmungou Jamie. Peg lhe repreendeu com um tapa no braço.

Peguei-o e ela colocou a caixa de louça entre nós.

Teria sido um trabalho silencioso e desconfortável se não fosse pela tagarelice de Jamie. Peg dizia resposta monossilábicas e eu permanecia em meu silêncio, ainda não sentia a necessidade de dizer algo. Em determinado momento sequei minhas mãos no short e prendi meu cabelo em um coque desajeitado, estava me atrapalhando. Voltei ao trabalho, a pilha de pratos finalmente estava diminuindo e aparentava isso. Minhas mãos estavam assumindo um tom escarlate, Storm morreria se visse isso. Senti um toque na lateral de meu pescoço e me retesei.

– Por que você tem essa cicatriz? – perguntou-me Jamie.

Tirei sua mão de meu pescoço e soltei o cabelo.

– Não é nada. – respondi com a voz um pouco trêmula.

– Parecia com a sua, Peg. Na verdade, era quase no mesmo lugar.

Pude sentir o olhar da alma sobre mim.


(...)


– Está tudo bem, Tina. – repeti pelo o que seria a vigésima vez. Ela ainda examinava minhas mãos.

– Não deviam tê-la deixado fazer algo assim. – reclamou ela. – Daqui a pouco vão querer que você se queime.

– Então... – cocei as bordas da queimadura superficial que eu havia conseguido três dias atrás. Os olhos de Tina arregalaram.

– Mas o que? – sua voz se elevou.

– Foi sem querer, eu encostei na parte de cima do forno.

– E por que diabos não passaram aquelas coisas em você?

– Eu não quis, e não dói mais. – dei de ombros.

Ela suspirou e passou as mãos no cabelo.

– Para que Jeb te chamou? – perguntei em uma tentativa de mudar de assunto.

– Quer que eu vá em uma incursão amanhã.

– Você vai? – perguntei ansiosa.

– Não.

Minha boca se abriu.

– Como assim? Por que não? – disparei.

– Te deixei sozinha por uma hora e você me aparece assim! – ela jogou as mãos para o alto.

– Você não pode cuidar de mim a vida inteira, Storm. – murmurei.

– Não posso ir. Somos uma, lembra?

– Então vou com você.

Ela fez uma careta de objeção.

– Passei os últimos 6 anos da minha vida fazendo isso. Não acho que deva ser diferente. – argumentei colocando as mãos na cintura.

– Chuviscos não deveriam ser tão teimosos. – reclamou ela.

Dei um sorriso de lado.

– E Tempestades não deveriam ser tão conformadas. – provoquei. – Quem mais vai com a gente?

– Os Stryder, Jared, Ian e Kyle.

– E a Peg? – perguntei. Tina franziu o cenho.

– Também vai. – resmungou.

Involuntariamente passei a mão em meu pescoço, onde ficava a cicatriz. Não queria ver Peg tão cedo, ou Jamie. Olhei para Tina e ela estava escorada na parede, com a visão focada no chão.

Tina... ainda seríamos uma se você soubesse?


(...)


Entrei no carro assim que Kyle fechou o porta-malas, ele iria dirigir. Tina se sentou no banco do carona e eu fui atrás com Jamie. Disseram que nós iríamos a Phoenix, passamos em uma caverna e trocamos de roupa. O céu estava ficando nublado e já se podia ouvir o som dos trovões.

– Droga, isso não é bom. – disse Kyle.

– Discordo. – disse Tina.

O outro carro estava com o restante dos incursionistas. Iríamos nos separar em duplas assim que chegássemos na cidade. Kyle virou em uma esquina e os outros continuaram reto. Ele parou em uma rua deserta e se virou para trás.

– Vocês dois podem descer aqui. Nos encontramos a duas quadras daqui a duas horas. – disse ele.

– Vai largar os dois aqui? – indagou Tina. – São os mais novos, não podem ficar sem ninguém por perto!

– Relaxe garota do raio ou sei lá que diabos é. Jamie sabe se cuidar e sua amiga também deve saber. – disse Kyle com indiferença.

– É Storm. – corrigiu ela. – E não quero largar Amy aqui.

– Você TEM que largar ela aqui. A garota não é de vidro.

Tina abriu a boca para protestar mas Kyle foi mais rápido.

– Duas quadras acima em duas horas. – disse ele apontando um dedo para Jamie, o garoto assentiu. Então Kyle deu a partida no carro.

Nos entreolhamos e um silêncio constrangedor pairou entrou nós. Parecíamos dois idiotas ali parados no meio da rua em plena tarde. Como ele não fez nada, me virei e saí andando pela rua, como esperado ele me seguiu,

– Para onde vamos primeiro? – perguntou ele.

– Para um mercado, não deve ter um muito longe. – falei.

– Não vamos a mercados sem Peg. – disse ele.

– Apenas me siga, garoto.

Andei pelas ruas olhando as casas. Algumas pessoas movimentam em suas casas, risadas e conversas deixavam claro que era um ambiente confortável. De repente tive um sentimento familiar. Eu conhecia aquela rua. Olhei para as casas mais atentamente e então arregalei os olhos.

Era a minha rua.

Corri para o fim da rua e Jamie corria atrás de mim. Parei na frente de uma casa azul com detalhes em branco. Uma cerca feita de aros de metal a rodeava. Meu coração se apertou e um bolo se formou em minha garganta.

– Quer entrar aí? – perguntou Jamie.

Apenas assenti e fui para a parte de trás da casa em passos silenciosos. Não parecia haver alguém em casa. Jamie deu um passo a minha frente e segurou a maçaneta no mesmo momento em que ouvi uma voz conhecida dizer: "Querido, já está pronto?".

A maçaneta girou, mas não foi Jamie que a fez girar. Num reflexo o empurrei na parede lateral e tampei sua boca. Pude ouvir passos no lugar onde estávamos. Lentos e arrastados, eu conhecia o ritmo desses passos.

– Henry, o que está fazendo? – ouvi uma voz feminina chamar.

– Pensei ter ouvido algo, Eve. – respondeu ele.

– Vamos, estamos quase atrasados. – disse ela.

Então a porta se fechou. Meu corpo relaxou e baixei a mão para o peito de Jamie. Pude sentir a batida descompassada de seu coração. Apenas notei que estava completamente colada ele quando olhei para cima, então me afastei constrangida.

– Ainda vamos entrar? – perguntou ele enquanto coçava a nuca.

– Sim, ele saíram. – respondi olhando para o chão.

– Hã... você conhecia eles?

– Eram meus pais. – respondi com pesar.

– Você tinha irmãos?

– Um irmão.

– Acha que ele pode estar na casa?

– Talvez.

Girei a maçaneta e então entrei na casa que me era tão conhecida.

Notas finais
Reviews :*