Eu me jogo deitado na cama esperando ela, demora uns quinze minutos e ela sai do banheiro apressada, terminando de fechar os botões da camisa branca que faz conjunto com uma saia preta que vai até seus joelhos e tem um pequeno rasgo na parte de trás, ela se apoia na porta do banheiro colocando os sapatos e o cabelo cai na frente do rosto dela, sem nem me perceber ela joga o cabelo pra trás, puxa o elástico do pulso e volta pro banheiro, quando sai novamente o cabelo está perfeitamente penteado em um rabo de cavalo que a deixa com uma aparência mais séria e enquanto ela joga as coisas na bolsa grande e preta parecendo tão concentrada, eu tenho certeza que poderia passar o resto da vida olhando pra ela, mas então seus olhos encontram os meus.
— Você planeja dirigir aí deitado? – seu mau humor de manhã é algo que nunca foi uma novidade e isso não mudou nem uma gota só por que estamos juntos.
JUNTOS! Essa palavra nunca pareceu tão boa quanto agora.
— Rafael, eu tenho hora – ela mostra o relógio parecendo realmente brava, então pulo da cama parando praticamente junto dela.
— Relaxa, você não tá atrasada...
— Ainda – ela completa e desvia do beijo que eu ia dar, então se vira e sai andando na frente – E a culpa é sua – eu abro um sorriso orgulhoso lembrando do que acabou de acontecer há menos de 30 minutos.
— Você pareceu odiar mesmo – mesmo sem olhar o rosto dela tenho certeza que ela sorriu, mas sendo durona como ela é, apenas anda mais rápido até a porta e a abre, eu puxo a chave do carro e minha carteira e também saio, ela corre quando o elevador abre e segura a porta me esperando, eu entro e aperto o botão que vai até a garagem, ela está mexendo no celular com uma cara séria e mesmo sabendo que ela vai brigar, puxo o aparelho da sua mão.
— Que merda – assim como desconfiei ela tenta puxar ele de volta e me olha feio.
— Eu ainda tenho 10 minutos com você. Quero meus 10 minutos inteiro – ela revira os olhos.
— Parece até que eu nunca mais vou voltar, deixa de ser dramático! E devolve a droga do celular – ela mantem a mão aberta e eu nego – Rafael! – sua mão vai pra cintura e a porta do elevador abre, então sou mais rápido e aperto o botão que faz a porta fechar de novo e dessa vez permanecer fechado e parado, eu olho pra ela e assim que sorrio ela recua – Ah não, não, não... É sério, não! – ela aponta pra mim quando sente o espelho atrás dela e sabe que não tem como sair – É sério, eu vou me atrasar...
— 10 minutos!
— Eu vou te levar no médico, é sério, isso deve ser alguma doença – eu acabo rindo, então a puxo pela cintura juntando nossos corpos.
— Acho que eu tô bem mal então – mesmo querendo parecer brava ela sorri.
— Você vai amassar minha camisa toda...
— Nós podemos tirar ela então – com uma mão desabotoo um dos botões, ela ri e dá um tapa na minha mão.
— Eu não vou dar uma rapidinha no elevador – dessa vez acabo rindo.
— Tudo bem, podemos demorar bastante – ela ri, mas nega.
— Não!
— Por que não?
— Por que eu vou me atrasar e por que eu não quero...
— Não quer mesmo? – aproximo minha boca do seu pescoço e ela não reclama, inclina mais pro lado e eu arranho sua pele com os dentes, ela agarra meu cabelo e me empurra pra trás me encostando na parede, minha boca sobe até sua orelha então o elevador faz um barulho quando ela se estica e aperta o botão abrindo a porta, ela é mais rápida que eu e sai correndo do elevador, para do lado de fora com um sorriso vitorioso e segurando a chave do carro – Isso foi golpe baixo – ela dá de ombros.
— Cada um usa as armas que tem – ela me dá as costas e sai rebolando nos saltos, eu abro um sorriso idiota por que é assim que eu me sinto desde o dia que nos beijamos pela primeira vez, eu lembro perfeitamente de cada detalhe daquele beijo e eu não tenho duvidas nenhuma que aquele foi o melhor beijo da minha vida e tem sido o melhor todos os dias. A buzina me chama atenção, eu me apresso e entro no carro.
— Tá me devendo uma – aviso e ela dá de ombros pegando o celular dela que eu mal soltei no porta luvas.
— Você já fez a lista pra domingo? A Lia tá enchendo o saco – ela faz uma careta, mas eu sei que ela também está toda ansiosa pra que tudo saia perfeito, domingo será aniversário do Bruno e mesmo hoje ainda sendo segunda, ela e Lia estão desesperadas achando que não vou conseguir me organizar, nós vamos fazer uma festinha e como sempre eu sou o responsável pela comida, elas decidiram fazer lá na casa deles mesmo, Lia e ele vão pra casa dos pais dele e Dani e Bianca vão montar arrumação enquanto eu organizo os lanches e toda parte da cozinha, mas está tudo sob controle.
— Eu não vou arriscar levar uma surra de vocês, relaxa, eu dou conta – ela me olha, mas não parece desconfiada, pelo contrário, ela me olha como se soubesse que eu realmente vou fazer tudo certo e isso sempre me deixa ainda mais confiante.
— Você vai pra academia hoje?
— Vou, faltei uns 3 dias já – ela faz uma careta.
— Eu posso viver com isso – ela dá um sorriso – Eu acho que vou cancelar a minha, esse negócio de malhar de madrugada não é pra mim...
— A aula é as 9! – ela dá de ombros.
— Sábado e domingo – ela fala com horror na voz.
— Achei que você tivesse gostado do novo professor de aeróbica – eu tento apenas implicar com ela, mas o tom de voz que acaba saindo me entrega, mas é que só de lembrar dele todo cheio de sorrisos pra cima dela e ela elogiando ele, meu sangue começa a esquentar e sei que deixei isso transparecer quando ela se vira pra me olhar com um sorriso divertido.
— Jura?
— O quê? – tento parecer o mais confuso possível, mesmo sabendo exatamente do que ela está falando, por isso evito olhar pra ela e fico concentrado na rua a frente.
— Achei que você tivesse gostado do novo professor de aeróbica – ela repete fingindo uma voz que não se parece em nada com a minha, mesmo assim me faz rir – Bom, eu gostei dele quase tanto quanto você gostou da nova estagiária – agora é a minha vez de sorrir e olhar pra ela – Nossa, é tão difícil ver um homem fazendo excêntrico de pernas – ela imita uma voz fina e eu solto uma gargalhada, por que realmente ficou bem parecido – Ela tava olhando pra sua bunda! – ela fala meio irritada.
— Bom, ele TOCOU a sua bunda – ela se vira rápido demais pra me olhar.
— Ele não tocou a minha bunda! – ela fala firme e eu a encaro – Ele só encostou e foi pra me mostrar o jeito certo do exercício – minha risada agora é forçada e ouço ela bufar do meu lado – Você é um idiota – o sorriso no meu rosto reaparece me fazendo lembrar que não importa se ele teve ou não a intenção, quem é o filho da puta sortudo de estar com ela sou eu e isso ele não pode mudar, por isso quando estaciono o carro em frente ao prédio do escritório, apenas solto meu cinto, me inclino no banco e lhe dou um beijo longo e apaixonado, se ela tinha alguma irritação quando o beijo acaba desapareceu, por que ela abre um sorriso sem reservas.
— Bom trabalho – ela coloca a mão na lateral do meu rosto e me dá outro beijo, dessa vez um beijo mais rápido.
— Faz a lista! – ela avisa, então abre a porta e escorrega do banco, saindo do carro e deixando o lugar vazio e espaçoso demais, ela ainda vira pra trás antes de passar pelas grandes portas de vidro, sorri e me manda um beijo e eu sinto que essa sempre vai ser a pior e a melhor parte do meu dia, a pior por que me despedir dela pelo dia inteiro é horrível e a melhor por que ela tem estado absolutamente feliz e realizada, ela começou a faculdade mês passado, as aulas são a noite, o trabalho de manhã, ela tem ficado cansada, mas o brilho nos olhos dela sempre que conta sobre alguma aula ou sobre como Dr. Leones tem deixado ela com mais responsabilidades, só mostra o quanto ela está adorando tudo isso e mesmo querendo todo aquele tempo livre que tínhamos não consigo me sentir menos do que feliz e orgulhoso por ela e vendo-a crescer e batalhar pelo que ela quer só me deixa ainda mais incentivado, por isso estou trabalhando na ideia que a Bianca me deu de expandir os negócios, as coisas com o food truck estão indo muito bem, melhor do que eu imaginava, mesmo só abrindo aos fins de semana o lucro tem sido algo fantástico, eu tiro mais do que eu tirava trabalhando todo dia no escritório e continuo com a melhor parte, que é ter a Dani do meu lado, mesmo que as vezes eu diga pra ela não ir por causa do cansaço, ela nunca me ouve e mesmo sendo meio egoísta eu sempre agradeço aos céus por ela não me ouvir, por que tudo parece mais demorado e sem graça quando ela não está perto, por isso é importante me manter ocupado e por isso também ao invés de ir pro apartamento eu estou indo olhar uma das lojas no centro onde pode ser um bom lugar pra uma hamburgueria.
E eu estava mesmo certo, o lugar é perfeito, é grande, já tem uma cozinha quase do jeito que eu pensei, a localização é ótima e eu consigo me imaginar perfeitamente aqui, o único problema é o valor, já que o proprietário não quer alugar e sim vender, por que ele está saindo do país e não pretende retornar, eu realmente não tenho todo esse dinheiro mesmo as coisas indo super bem, mas digo a ele que vou entrar em contato, mesmo uma parte minha sabendo que não tenho como juntar toda essa grana, mesmo que o Vinny queira entrar de parceria de novo, ainda não teríamos o suficiente e isso acaba me deixando meio frustrado.
Amor: ADIVINHA QUEM VAI ACOMPANHAR A AUDIÊNCIA DO MEPALLES NA SEXTA???????????????????????????
A frustação desaparece e no lugar um sorriso orgulhoso quase rasga meu rosto, ela realmente está indo bem e mesmo que eu tivesse certeza que isso aconteceria ainda assim fico feliz que ela esteja finalmente tão auto confiante, então aproveito pra reforçar isso e digito rápido.
Eu: Será a futura melhor advogada desse mundo todo e a atual melhor namorada do universo?
Amor: SIMMMM!
Eu: Eu sempre disse que você é foda!
Amor: Não me deixa nervosa, acho que já tô com dor de barriga e se eu fizer besteira??
Eu: A maior besteira já tá feita... Você namora comigo!
Amor: Esse foi um dos maiores acertos da minha vida!
Eu: Agora eu realmente queria tá naquele elevador...
Amor: kkkkkk mais tarde, mais tarde... Agora eu tenho que ir, reunião! ;)

Eu: Você fica tão sexy falando de reuniões...
Amor: Se controla kkkkk P.S: Te amo!
Eu: TE AMO!

Eu volto a dirigir sem nem me importar se não vou ter o dinheiro pra compra, por que a melhor coisa eu já tenho. Ela.
Chego no apartamento e vou até o quarto dela, que assim como Vinny adora implicar, já basicamente virou o meu quarto, mas é que eu realmente não consigo imaginar nenhuma outra maneira de dormir se não for ao lado dela, parece perfeitamente razoável pra mim e ela nunca reclamou, então não serei eu a reclamar, mas assim que entro no quarto a parte da reclamação começa a parecer razoável pelo menos em relação a bagunça que ela consegue fazer, eu realmente não consigo entender como uma pessoa que parece tão concentrada e arrumada consegue deixar o quarto parecendo pós-terremoto, as folhas que estão espalhadas na mesa já caíram algumas no chão, o caderno está aberto e as canetas e marca texto espalhadas por cima, a cadeira giratória está com a roupa que ela usou o fim de semana, um par de meias está sobre a impressora, dois copos estão no criado mudo, o lugar de pendurar as bolsas está vazio, mas as 3 bolsas estão jogadas no chão, no canto do quarto, o tênis que ela usou na academia um pé está perto do guarda roupa e o outro eu tenho até medo de imaginar, e mesmo que eu odiasse bagunça acabo rindo por que já me acostumei com tudo isso, ela é assim, não adianta reclamar, na verdade pra ser justo acho que ela nem percebe o que vai fazendo, até que já está impossível de ser ignorado e ela reclama e jura que nunca mais vai deixar chegar nesse nível, mas isso só dura algumas horas e ela logo está largando tudo em qualquer lado de novo e eu posso parecer um imbecil, mas arrumar toda essa bagunça dela sempre melhora meu humor, por que mesmo de um jeito idiota eu sinto como se ficasse mais perto dela quando ela não está aqui, então eu começo a colocar um pouco de ordem no espaço, demoro um pouco mais do que imaginei, mas quando termino parece até mais espaçoso, porém espaçoso demais sem ela aqui, então eu tenho uma ideia, saio correndo do quarto dela e entro no meu, vou até meu mural de fotos que antes era cheio de paisagens e agora está cheio do rosto dela, todas as 32 fotos tem o rosto dela, seja sozinha, comigo, com Vinny, com a Lia e o Bruno, seja irritada por que não queria tirar foto assim que acordou ou rindo histericamente enquanto Vinny imitava o Silvio Santos, tudo tem ela e eu acho o mural muito mais bonito agora, mesmo assim eu acabo mexendo nele, tiro algumas fotos, abro a gaveta da mesa e pego mais outras que eu estava guardando pra fazer outro mural, pego tesoura, cola e saio do meu quarto, vou até a gaveta dela e pego uma fita vermelha que eu vi outro dia, então começo a pôr minha ideia em prática, eu vi algo parecido outro dia na internet e já estava querendo fazer, mas eu sabia que Vinny ia me zoar até não conseguir mais, então estava criando coragem, mas agora pensando bem, ele já me zoa de qualquer jeito mesmo. Por isso quase 40 minutos depois estou olhando para a parede onde a cama fica encostada, um coração formado por nossas fotos agora decora a parede que antes tinha apenas um pequeno quadro da coca-cola, eu o coloco na parede das prateleiras e sorrio orgulhoso, guardo as coisas que peguei e saio do quarto, já está na hora do almoço, mas como eu odeio comer sozinho, pego minhas chaves, a carteira e saio do apartamento.
Chego no restaurante e assim que entro vejo Bianca no caixa, o estagio dela é de terça a quinta, então quando ela sai da faculdade as segundas e sextas, ela vem ajudar o pai na hora do almoço, ela abre um sorriso quando me aproximo e eu pego uma paçoca que fica exposta a venda.
— Você vai pagar por isso, você sabe né? – faço uma careta.
— Bota na conta do Vinny...
— Vou botar na da Dani.
— Eu pago – ela ri – Já almoçou?
— Ainda não, agora que acalmou um pouco, cheguei da aula direto pra cá – ela mostra a mochila que ainda está jogada na cadeira, um casal se aproxima pra pagar a conta e eu me afasto um pouco do balcão – E aí, foi lá ver a loja?
— Fui, depois que deixei a Dani no trabalho...
— E? – ela me olha curiosa – Acha que consegue fechar lá?
— Bom, eu tenho um pouco de dinheiro guardado, se o Vinny topar entrar com mais uma parte e a gente conseguir vender você e a Dani pra algum sheik milionário e talvez um dos nossos rins, acho que conseguimos sim – ela ri.
— É tão caro assim?
— O lugar é perfeito, né? No centro, bem movimentado, a noite aquilo lota... Eu já desconfiava que seria algo assim...
— Bom, então ainda não é pra ser... E será que você não consegue agora a licença pra abrir dia de semana?
— Eu já tentei, mas a prefeitura não tá liberando, mas... Enfim, não tenho muito do que reclamar, as coisas estão indo bem...
— As coisas estão indo bem ou as coisas com a Dani estão indo bem? – ela me zoa fazendo uma vozinha fina e piscando os olhos várias vezes.
— Cara, você já se olhou no espelho quando fala do Vinny? Você é a ultima pessoa que pode me zoar – ela acaba rindo, mas dá de ombros.
— Melhor você ir logo por que a carne assada vai acabar...
— Eu espero você!
— Ih garoto, larga do meu pé
— E anda logo que eu tô com fome
— Eu também – ela faz uma careta e esfrega a barriga – Então fica aqui no caixa que eu vou ver se alguém me cobre aqui... – eu dou a volta e vou para trás do balcão – Vê se para de comer as paçocas – ela avisa fazendo sinal que está de olho. Eu atendo mais 4 pessoas antes que ela volte, mas consegue a substituição e nós almoçamos juntos, mas como ela não pode demorar muito, assim que terminamos ela volta pro caixa, eu ainda como um pedaço de pudim e só depois me levanto, coloco a nota e cartão em cima do balcão na frente dela.
— Tem 10% pela minha companhia tá? – ela avisa e eu acabo rindo.
— Eu nem deveria pagar por causa disso – ela faz a operação com cartão, digito a senha e então pego mais uma paçoca antes de me afastar do balcão.
— Eu vou comer de graça esse fim de semana – eu não me viro mas levanto o dedo polegar, entro no carro jogando a paçoca na boca e vou direto pro mercado, puxo a lista da carteira, coisas que preciso pra testar umas receitas de molho e as coisas pra domingo, a fila está meio grande e isso consegue tirar umas doses do meu humor, mas depois que chego no apartamento me mantenho ocupado até a hora de ir pra academia, mando mensagem pra Dani mas ela não me responde e eu me sinto meio adolescente enquanto verifico meu celular a cada dois minutos, só paro quando chego na academia, encontro Vinny e depois de fazer uma série rápida de musculação, nós treinamos muai thay, ele como sempre acaba me ganhando e eu lembro mais uma vez por que não posso arranjar briga com ele.
— Um dia você alcança o papai aqui – ele dá um tapinha no meu ombro enquanto eu ainda estou me levantando do tatame, faço uma careta e ele ri satisfeito – Deixa de moleza – ele estica a mão, eu aceito e me levanto.
— Acho que eu torci meu tornozelo – dou uma mancada e ele ri.
— Deixa de ser um molenga – eu mostro o dedo do meio pra ele que empurra minha mão.
— Quer uma bolsa de gelo? Tem lá atrás... – a voz fina nos distrai, me viro pro lado e a Camila está toda cheia de sorrisos, ela é a tal estágiaria, Vinny não fala nada e continua o caminho até a lanchonete que fica a alguns metros.
— Ah não precisa não, é bobeira, acho que foi só uma câimbra – eu agradeço e volto a andar, mas ela meio que entra na minha frente.
— As vezes uma massagem resolve, eu posso ajudar, meu irmão vivia tendo isso...
— Quando eu chegar em casa eu peço minha namorada, ela também é muito boa nas massagens – dou um sorriso meio forçado e vou até o Vinny que sorri satisfeito.
— Acabou de preservar esse rostinho – ele fala dando um tapinha no meu rosto, empurro a mão dele e mando ele se ferrar. Nós pedimos dois açaí, e assim que devolvo a minha tigela vazia pro balcão, Camila reaparece do meu lado.
— Vai ter um happy hour na sexta, o pessoal tá marcando de ir naquele barzinho da esquina, mas como eu não conheço muita gente, pensei que talvez você quisesse ir...
— Olha só, eu não quero ser grosso com você, mas eu já tentei do jeito discreto, do jeito mais direto e não deu, então... eu tenho namorada! Eu realmente amo ela e não tô afim de arriscar isso, então, foi mal, mas não tem happy hour...
— Não precisa ficar com medo – ela não se intimida e sorri de um jeito realmente irritante, eu conheço esse sorriso, a meses atrás no que parece uma outra vida eu iria adorar isso, significava carta branca, mas agora isso meio que me deixa enjoado e irritado – É só umas cervejas...
— Então você pode beber elas sozinha – não espero resposta, apenas passo por ela e saio, espero Vinny aparecer do meu lado, mas quando olho ele está indo até ela.
— A namorada dele é minha irmã, chega perto dele de novo e eu tenho uma conversa com Tiago sobre as estagiarias estarem flertando os alunos – ele avisa e vem até a mim – Não sei o que essas garotas veem em você – ele reclama e eu sorrio enquanto saímos da academia.
— Olha esse rostinho né? – ele faz cara de nojo e vai pro carro dele, eu vou pro meu e ele buzina quando sai primeiro que eu, ele desvia do caminho do apartamento para encontrar a Bianca e eu vou pra faculdade da Dani, paro o carro na frente e pego meu celular, ela respondeu minha mensagem anterior e eu envio outra avisando que estou esperando ela, mas quando aperto enviar vejo ela saindo do prédio, Dani mal consegue andar de tanto que ri e um cara loiro e um pouco mais alto que ela, está com o braço atrás da sua cabeça, meio que a abraçando, ele também ri bem animado, eu preciso respirar fundo e dizer pra mim mesmo que tudo bem um cara abraçar minha namorada, mas quando olho de novo a vontade de quebrar o braço dele aumenta, eu abro a porta do carro e saio, atravesso a rua e só quando me aproximo mesmo deles que ela me vê, quando ela me olha, abre o maior sorriso que consegue, e apenas anda na minha direção sem nem se importar em pedir licença, passa os braços atrás da minha cabeça e me beija animadamente.
— Tá de bom humor – sorrio melhorando um pouco meu humor.
— Eu acabei de fazer a melhor apresentação da minha vida...
— E matar metade da turma de inveja com os elogios, e de quebra me livrar de uma prova oral semana que vem – o cara comemora e levanta a mão pra Dani bater, ela bate e sorri orgulhosa.
— Me ame! – ela faz uma cara de superioridade e eu acabo rindo.
— Não tenho certeza se seu namorado vai gostar dessa ideia – ele fala e eu até que gosto do jeito dele pensar, parece esperto.
— Ele sabe que não corre perigo, né? – ela fala com a boca próxima a minha, eu sorrio e lhe dou um beijo rápido.
— Vamos? – ela sorri balançando a cabeça animada, isso me faz sorrir – Quer carona? A gente tá indo pelo centro mesmo... – o cara parece meio indeciso – Bora, vamos lá – faço sinal pra ele me seguir e então atravesso a rua ainda agarrado a Dani, ela entra no banco do carona e ele entra na parte de trás.
— Eu nem apresentei vocês, Rafa esse é o Matheus e Matheus...
— Ah eu já conheço bem ele – eu olho pra trás sem me lembrar dele, então ele ri – Não pessoalmente, mas os únicos minutos que ela não fala de você é quando tá apresentando um trabalho – ele finge uma careta e eu abro um sorriso e olho pra Dani.
— É mentira! Eu nem falo pra ninguém que tenho namorado, eu saio azarando todo mundo do campus – ela fala numa tentativa horrível de mentir.
— Até o porteiro sabe da tatuagem – acabo rindo.
— Ok, acho que você pode ir andando – ela fala se virando pra ele.
— Ah mas ele acabou de virar um grande amigo – eu falo e ela revira os olhos.
— Esse é o problema...
— Então, Matheus, gostando do curso?
— Porra, muito, era pra eu ser o cdf da turma, mas alguém aí tá querendo ferrar meus planos...
— Ahhh acho melhor se conformar – eu aviso sorrindo orgulhoso e ela faz aquela cara de quem acha que estou exagerando, mas não é exagero, é só que eu sei que ela vai ser a melhor no que ela escolher e nos cinco minutos de carona acabo perdendo a vontade de quebrar qualquer parte do corpo do Matheus e não minto quando digo pra Dani que ele parece ser um cara legal. Assim que estaciono o carro dentro da garagem do prédio Dani solta o cinto dela e se inclina pra cima de mim, sua mão é mais rápida que a minha e ela solta meu cinto já se sentando no meu colo, a saia acaba subindo bastante mostrando toda sua coxa.
— Eu com certeza gosto disso – ela ri e passa os dedos pelo meu cabelo e aproxima a boca da minha.
— Você ainda não me deu os parabéns – ela sorri de um jeito malicioso, então minha mão aperta sua bunda contra mim e a outra eu alcanço seu cabelo trazendo sua boca pra junto da minha, o beijo é forte e cheio de paixão, é a boca dela quem desliza para meu pescoço, sua língua e seus dentes se revezando pelo espaço e sua mão alcança minha calça de moletom, ela enfia a mão por dentro da calça e sorri satisfeita quando para a boca na frente da minha, então eu alcanço os botões da sua camisa e agradeço mentalmente aos vidros escuros e a garagem vazia.
Quando saímos do carro ela está sorrindo como uma criança que comeu doce escondido e isso me faz rir, eu a puxo pra perto de mim e entramos no elevador.
— Eu gosto de você assim...
— Eu acabei de transar com você no carro, é claro que você gosta – ela ri e eu também.
— Mas não é só por isso...
— Eu sei que não – ela me dá um sorriso feliz e me dá um beijo rápido.
— Eu gosto de ver você feliz...
— Que bom, por que uma boa parte disso é culpa sua – eu a aperto em mim e beijo sua bochecha demoradamente, até que o elevador abre – Eu tô com fome...
— Isso foi um pedido – ela olha pra trás antes de abrir a porta.
— Com certeza – ela ri, Vinny ainda não chegou então o apartamento estava vazio, eu vou até a cozinha e ela corre pro quarto.
— EU AMEI! – ela volta correndo e eu já tinha até esquecido da parede do quarto, ela pula nos meus braços espalhando vários beijos na minha bochecha.
— Que bom por que eu colei direto da parede, ia dar um trabalhão pra tirar – ela ri e me dá mais um beijo na bochecha.
— Nem pense em tirar – eu sorrio satisfeito e lhe dou um beijo rápido.
— Agora para de me distrair que eu tenho um jantar pra preparar – ela sorri fazendo uma cara de impressionada.
— Você arrumou o quarto também né?
— Foi o único jeito de achar a porta – ela finge uma risada e se senta no banco perto do balcão, nós conversamos enquanto eu cozinho, conto pra ela sobre a loja e o preço realmente alto, ela me conta sobre a preparação pra audiência que ela vai participar e sobre como está ansiosa, depois começa a falar sobre a faculdade e sobre como ela está adorando tudo, eu escuto ela falando tão animada e sinto uma sensação de que tudo está no seu lugar certo.
Assim que termino de preparar o estrogonofe, ela aparece com o prato ao meu lado e nós jantamos juntos e na hora de lavar a louça embora ela insista eu acabo ficando com a arrumação pra ela poder tomar um banho e descansar logo, já que ela passou o dia inteiro na rua, Vinny chega sozinho e com uma cara meio feia.
— Aconteceu alguma coisa? – pergunto curioso quando ele abre a geladeira com raiva e quase derruba a garrafa que estava na porta, assim que pergunto ele bate a porta com força e me encara.
— Que porra você ia fazer se o ex da sua namorada aparecesse com um buquê de flores chamando ela pra ir jantar? – ele com certeza está furioso.
— Não que isso seja possível no meu caso né – ele me encara.
— Você tão burro assim que não consegue supor nada?
— OK – levanto as mãos em sinal de paz – Eu ia ficar bem puto – ele balança a cabeça concordando – Mas... Eu seria o namorado atual, então, eu ia acabar rindo por que ele gastou dinheiro a toa – minha resposta faz ele fechar a cara de novo – Obviamente não foi isso que você fez né? – ele dá de ombros, abre a geladeira de novo, pega uma cerveja, arranca a tampa e joga quase em cima de mim, mas desvio e ela cai na pia – Você partiu pra cima do cara?
— Ela é minha namorada, porra! – sua voz exalta um pouco e eu entendo o problema.
— Ela não aprovou né?
— Ela veio dar lição de moral em mim... EM MIM! Eu sou a porra do namorado dela e ela fica puta comigo?
— Você só chegou e socou a cara dele ou teve algum dialogo antes – ele me olha feio – Só tentando entender pra ajudar – ele volta o caminho até a cozinha, e encosta no balcão.
— Eu cheguei lá pra buscar ela e eles dois estavam conversando. O cara deu um pé na bunda dela e agora vem com flores e ela ainda fala com ele? Não fode!
— O que ela disse? Sobre o que eles estavam conversando?
— Ele foi pedir perdão, levou umas flor meio murcha e chamou ela pra jantar pra uma conversa que eles não tiveram...
— E ela ia? – ele fecha a cara e bebe metade da cerveja de uma vez – Vou entender como um não...
— Ela não tinha nem que conversar com ele, porra!
— Olha, eu entendo seu lado, sério, é foda isso, a Dani mesmo tava toda cheia de risos com um colega da faculdade e bom, por mim eu tinha ido lá e quebrado o braço dele em pelo menos umas 3 partes diferentes, mas...
— Você é um bosta lutando? – mesmo com raiva ele implica comigo.
— Vai se ferrar, eu tô sendo legal... Como eu estava dizendo... Eu queria quebrar a cara dele, mas eu sou o namorado dela, entende? O cara pode fazer ela rir, pode tentar o quanto quiser, mas EU sou o cara que ela ama, eu tenho certeza absoluta disso, por que eu vejo isso todo dia, então pode ser o colega da faculdade, o professor da academia, o cara que for, a porra do sortudo sou eu, não eles... A porra do sortudo é você e não um ex com consciência pesada ou arrependido, sacou? VOCÊ é o namorado dela, o cara que ela ama...
— Então por que ela aceitou falar com ele – eu abro a geladeira, pego mais uma cerveja e entrego pra ele, pego outra pra mim e me apoio no balcão também.
— Você perguntou isso pra ela? – ele me ignora e bebe – O que ela disse?
— Que estava explicando pra ele que está com outra pessoa, mas que ele começou a falar e nisso eu apareci...
— E?
— E que quando eu vi que era ele, eu mandei ele cair fora e ele disse que só ia depois que falasse com ela, aí eu joguei ele pra fora da calçada e dei um soco nele – eu o olho reprovando – Foi só um soco, pegou de raspão...
— E ela?
— Ela me segurou, disse que eu tava maluco e mandou ele cair fora...
— O que ela disse quando ele foi embora?
— Que eu era um bruto
— Ela não tá tão errada né?
— Qual foi, vai me ajudar ou não?
— Eu tô te ajudando, isso não significa dizer que você tá certo...
— Então se o cara da faculdade da Dani aparecer com flores chamando ela pra jantar, tudo bem? – ele me encara em desafio.
— Claro que não! Eu ia ficar puto, ia ameaçar ele e me certificar que ele não tivesse a chance de fazer isso de novo...
— Então não somos tão diferentes assim...
— A diferença é que você foi na pessoa errada – ele me olha confuso – Pelo amor de Deus não tô dizendo pra você ir pra cima dela né? Só que... Quem toma a decisão é ela, se você não quer que ela saia com outro cara pra jantar, seja você o cara em que ela quer ir jantar, entende? Seja o cara que compra as flores, que leva pra jantar, que escuta ela falar das coisas que são importantes pra ela, faça você ela rir, faz umas surpresas idiotas, sei lá... Você não precisa fazer nada com o cara, só com ela... Só precisa mostrar pra ela que você é o cara certo, então não tem flores, nem jantar, nem declaração, não tem porra nenhuma que ganhe de você...
— Ela já foi apaixonada por ele, eles namoraram por uns 5 anos...
— E acabou! Agora é você quem namora ela... Vinny, na moral, todo mundo vê que ela te ama, hoje mesmo eu tive lá no restaurante e falei isso com ela, os olhos dela brilham quando fala de você, ela te ama, porra, você sabe disso, você é foda pô, vai se preocupar com um cara de merda que foi burro suficiente pra largar ela? Esse não é o meu irmão – pela primeira vez ele abre um sorriso – E tem mais, todo show teu ela tem que aturar aquelas garotas loucas te gritando, chamando de gostoso, pedindo foto... Se ela fosse dar uma de Vinny e surtar sempre acho que não ia dar certo né? Então, toma um banho, dorme e amanhã mostra pra ela que você é melhor do que isso, por que eu sei que é, e ela também, você só precisa relembrar... – coloco a mão no ombro dele o incentivando e ele me olha de um jeito divertido.
— É, cada dia eu me esqueço mais daquele cara todo pegador que chegou aqui – ele ri – A Dani soube mesmo esperar o cara certo – ele fala também colocando a mão no meu ombro, eu sorrio só de escutar o nome dela.
— Você não quer que eu te abrace ou algo assim né? – ele ri e se levanta.
— Vê se lava essas porra direito – ele avisa apontando pra pia, então vai pro corredor dos quartos e eu termino de arrumar a cozinha, quando termino apago tudo e vou pro quarto da Dani, a luz está apagada e eu entro devagar pra não acordar ela, mas quando me aproximo da cama ela se empurra o lençol pra que eu me deite.
— Ainda não tomei banho, só queria saber se você tava dormindo... – ela abre um sorriso, segura minha mão e me puxa pra cama, acabo perdendo um pouco do equilíbrio e caio no espaço ao seu lado.
— Eu escutei!
— Escutou o quê?
— Sobre quebrar o braço do Matheus em 3 partes...
— Em minha defesa o braço dele continua inteiro – ela ri e então se senta.
— Eu só queria dizer: Obrigada, por confiar em mim – eu sorrio aliviado.
— Na verdade eu confio muito no meu jeito sexy e ousado – ela solta uma gargalhada quando eu faço uma cara ridícula mordendo o lábio.
— Eu não sei como você faz isso, mas você supera todas as minhas expectativas, eu não imaginei que eu pudesse ter tanto orgulho de alguém e ser tão apaixonada e completa como eu me sinto hoje, exatamente agora, aqui, olhando pra você todo suado, descabelado e com cheiro de cerveja – eu acabo sorrindo – Mas eu tô e se eu tivesse que ter esperado mais 4 anos por você, eu esperaria, só pra sentir tudo que você me faz sentir...
— Bom, agora eu tô aqui, pode se esbaldar – eu falo e ela ri e me puxa para um beijo.
Já tem dez minutos que ela pegou no sono e eu não consigo parar de olhar pra ela, sua cabeça está apoiada no meu ombro, seu rosto é suave e sereno, bem diferente daquela mistura de humores que ela tem e mesmo assim só consigo me apaixonar ainda mais e eu nunca senti essas coisas por ninguém, nem quando eu achei que estava apaixonado, quando eu ainda era um garoto idiota, nem naquela vez eu sentia algo sequer parecido com o que ela me faz sentir, nenhuma outra mulher nunca me fez sentir como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo e ao mesmo tempo como se fosse apenas o cara mais comum que existe. Ninguém nunca me olhou do jeito que ela me olha, eu sempre fui o herdeiro, o solteiro cobiçado, o cara do carrão, o que não economizava, aquele que as solteiras desesperadas corriam atrás, e mesmo aquelas que não sabiam exatamente quem eu era, aquelas da universidade ou de qualquer outra parte do mundo que eu tenha passado e que não tinham nenhuma noção do dinheiro que “eu” tinha, ainda assim elas não me viam, elas só olhavam pra mim e enxergavam o cara bonitão e descolado, aquele que nem ao menos tinha um bom papo, por que honestamente eu nunca nem precisei disso, a garota mais difícil que eu já tinha ficado foram só preciso duas ou três frases, todas elas eram elogios ou uma cantada razoavelmente boa, era simples, era vazio, exatamente como eu era. Claro que por uma época eu não tinha dimensão exata disso, eu sempre estava de festa em festa, de boca em boca, e quando eu me sentia sozinho, eu apenas recomeçava todo o ciclo, até que eu cheguei aqui. Eu só vim pra cá pra poder fugir do meu avô e da empresa, embora eu não tenha mentido quando disse que queria conhecer o Vinny, esse não era o real significado da viagem, eu só queria um tempo antes de mergulhar na vida planejada que me esperava, mas ao invés disso quando cheguei aqui e vi a Dani ainda no aeroporto, eu soube que teria que ficar com ela, nada romântico, não vou ser hipócrita, não foi como aqueles filmes que tudo fica lento, eu só via ela e então sabia que era amor. Naaaaaah. Não foi nada assim, na verdade o primeiro pensamento que eu tive era no quanto ela era gostosa e em todas as coisas que poderíamos fazer em apenas algumas horas num quarto qualquer e eu mantive esse pensamento por um bom tempo, até que começamos a nos aproximar, de algum jeito a imagem dela ser só uma gostosa desapareceu, pela primeira vez eu me vi conversando com uma mulher sem esperar nada além, ela foi a primeira pessoa com quem eu me abri de verdade, pra quem eu mostrei um Rafael que só eu conhecia e mesmo assim agora que estamos juntos ela ainda faz aparecer várias coisas sobre esse novo Rafael que eu não conhecia, eu por exemplo não sabia que poderia ser feliz, não sabia que só precisaria de uma mulher pra me sentir o cara com mais sorte do mundo, não sabia que todo aquele dinheiro e vida fácil seriam um detalhe ridículo perto de todas as coisas que eu poderia conquistar, eu não sabia nada disso, ela me ensinou e tem me ensinado todo dia e eu nunca vou cansar de amar ela por cada segundo da minha vida.

Acordo mais cedo que ela e quando chego na cozinha encontro Vinny, ele está todo arrumado e o perfume já se espalhou pelo apartamento inteiro.
— A aula deve ser bem importante hoje – implico com ele já desconfiando de pra onde ele vai.
— Rosas vermelhas ou brancas?
— Vermelhas E brancas! – ele assente com um sorriso esperançoso.
— Me deseja sorte...
— Você não precisa disso... Ela te ama – o sorriso dele se alarga – Só põe a focinheira pra não sair atacando ninguém...
— Vai se ferrar – ele sai rindo e eu ligo o fogo pra fazer o café antes que a Dani acorde, o humor dela geralmente não suporta a falta de cafeína, já estava passando o café quando ela aparece do corredor, olho o relógio e faço uma cara de impressionado.
— Agora eu acredito em milagres – espero ela me xingar, mostrar o dedo do meio ou algo desse tipo, mas ela apenas continua parada me olhando e só então presto atenção, ela parece meio assustada e nervosa – O que aconteceu? – ela levanta o celular.
— A Lia ligou... Ela...
— O que houve? Aconteceu alguma coisa com ela, com o Bruno? – ela nega, mas ainda mantem a mesma reação, abandono o café e vou até ela – Meu amor, você tá me assustando – ela junta os lábios como se não quisesse falar, então desvia de mim e vai até o sofá, ela pega o controle, aperta e a tv liga, eu fico ainda mais confuso e já ia perguntar, quando ela para em um canal onde a foto do meu avô ocupa metade da tela.
“O acidente aconteceu na madrugada desta segunda feira, o motivo ainda está sendo investigado, mas os bombeiros acreditam que tenha sido alguma pane no motor do jato particular que levava um dos maiores empresários do país, Pedro Viana, seu assessor, uma secretária pessoal, o piloto e co-piloto, todos eles já trabalhavam com o empresário a anos, infelizmente o piloto, Senhor Jairo Menezes Araújo não resistiu e morreu a caminho do hospital, o empresário Pedro Viana, foi levado para o Hospital Bershaint e tem sido mantido sigilo a respeito do seu estado, já os outros passageiros estão fora de risco...”
A mulher ainda continua dando mais detalhes enquanto mostram os destroços do jato que eu já usei por mais vezes do que consigo contar, no meio de arvores e pedras, penso no Jairo, que eu conhecia desde os meus 15 anos, ele sempre foi muito simpático, me explicava tudo sobre pilotar e sempre íamos conversando pelas viagens, eu não consigo acreditar que ele tenha morrido e pior ainda é não saber o que aconteceu com meu avô, não importa o quanto ele seja horrível, é meu avô não posso ignorar isso.
— Eu preciso ir lá – eu falo desviando os olhos da tv pra Dani, ela concorda sem nem parecer surpresa.
— Eu vou pegar algumas coisas que podemos precisar e a gente pode ir pro aeroporto, é fácil conseguir um voo pra lá...
— Você não precisa ir – ela se aproxima de mim e segura meu rosto.
— Não existe uma maneira em que eu te deixe entrar naquele avião sozinho, ouviu? – balanço a cabeça concordando, então ela me solta e corre pro quarto, ainda encaro a tv vendo a noticia mudar, então vou pro meu quarto, junto uma peça de roupa, documentos, carteira e chaves, jogo tudo na mochila, troco de roupa e saio do quarto, Dani está no telefone, mas quando me vê me estica sua mochila, eu pego e então ela corre até a mesa pegando algumas coisas, vou pra sala e verifico se temos tudo que precisamos.
— Pronto, temos duas passagens! Só chegar no balcão e retirar... A Lia vai avisar o Vinny, eu ligo do carro pros meus pais só pra eles não acabarem surtando e já pedi pra Suzy me cobrir no escritório hoje e avisei pro Dr. Leones... E eu pedi um Uber que acabou de chegar... Tá pronto? – eu ainda me sinto meio tonto, mas confirmo. Saímos e ela segura minha mão me passando confiança, só me solta pra entrarmos no carro, eu vou na frente e ela vai atrás ligando para os pais.
Mal percebo quando chegamos no aeroporto e logo corremos para o balcão retiramos a passagem e o voo está marcado para daqui 30 minutos, então nossa entrada é liberada, Dani segura minha mão e me olha preocupada.
— Você não falou nada esse tempo todo...
— Se ele morrer... Eu... Eu não queria que estivéssemos desse jeito, eu sei que você odeia ele e tem todos os motivos do mundo, eu também tenho muitos, é só que...
— Ele é seu avô! – ela completa com um olhar compreensivo.
— Eu nunca quis que ele morresse ou que algo ruim acontecesse, eu só não aguentava mais a pressão...
— EI! É claro que eu sei disso e ele também sabe... Problemas todo mundo tem, vocês só tem opiniões diferentes da vida, só isso... – ela toca meu rosto e beija minha mão – Agora vamos pensar positivo, eu tenho certeza que ele ainda vai me ameaçar bastante – ela dá um sorriso divertido e confiante e eu acabo sorrindo também e me inclino pra ela.
— Eu realmente não sei o que seria da minha vida sem você – ela sorri e eu lhe dou um beijo, que infelizmente teve que ser interrompido quando a aeromoça começou as instruções.
O voo foi tranquilo, levando um pouco mais de uma hora, pegamos um táxi direto pro Hospital, eu e Dani entramos de mãos dadas e só quando as câmeras se viraram pra mim e começou a correria dos jornalistas que eu me lembrei que estava de volta, aqui eu não sou o Rafa, namorado da Dani ou o Rafa do food truck, aqui eu sou Rafael Viana, o herdeiro da CW, neto do grande Pedro Viana e isso inclui nunca passar despercebido, ainda mais nessa situação.
Como seu avô está?
O estado dele é grave?
É verdade que ele sabia que o jato tinha problemas técnicos e insistiu no voo?
Você irá assumir a empresa enquanto tudo isso é resolvido?
As perguntas vem de toda direção e eu faço o que sempre fazia nessas ocasiões, ignoro e forço a passagem, dessa vez mantendo Dani junto a mim, até que Sergio, um dos seguranças mais chegados do meu avô corre pra nos escoltar e conseguimos entrar no elevador.
— Eles tão aí desde cedo? – ele é alto, a barba grossa e a voz ainda mais grossa, talvez seja isso que faça Dani olhar pra ele parecendo ainda mais assustada.
— Quando eu cheguei já estavam, senhor...
— E quem tá aqui?
— Sua mãe, o senhor Diego, a senhorita Clara...
— A Clara tá aqui?
— Sim, senhor – fecho os olhos me preparando para o circo montado, Clara é uma quase ex namorada, por que na verdade nunca namoramos, mas na cabeça dela sim, ela trabalha na empresa, responsável pela parte de relações publicas, ela morou na Alemanha e se formou lá e como a empresa tem uma parceria forte lá meu avô a acha indispensável pra empresa, mesmo que ela tenha passado a me perseguir quando eu disse que não queria mais nada.
A porta do elevador abre e nós saímos, Sérgio nos guia até o espaço reservado, minha mãe está em pé falando no celular, Diego que é advogado e melhor amigo do meu avô vem logo até a mim e me abraça antes que eu consiga soltar a mão da Dani.
— Eu não tinha mais seu contato! Não sabia se você viria...
— Ele ainda é meu avô – eu falo e ele assente então seus olhos vão até minha mão e da Dani – Essa é a Daniela, minha namorada! – não importo qual o clima esteja sempre que eu digo minha namorada o sorriso escapa da minha boca.
— Achei que você não fosse o tipo de cara que namora – antes mesmo de me virar sei de quem é a voz, fecho os olhos reunindo toda minha paciência e então ela aparece na nossa frente.
Eu realmente não me lembrava dela ser tão magra e tão alta.

— É, agora ele é um novo homem — minha mãe fala com ironia e eu começo a pensar que pode ter sido um grande erro vir aqui.
— Como ele tá? – pergunto pro Diego, ignorando as duas.
— Em cirurgia, ele precisou operar por causa de um rompimento do fígado...
— Será que vai demorar muito?
— Por que? O que tem de tão importante acontecendo naquela cidade ma-ra-vi-lho-sa ? – minha mãe usa toda sua ironia e eu preciso de muito auto controle pra ignorar mais uma vez.
— Acho melhor a gente tomar um café – olho pra Dani e ela concorda — Se derem noticia, nós estamos na lanchonete – aviso olhando diretamente pro Diego.
— Eu peço pra te chamar – agradeço e saio de mãos dadas a Dani, tem uma lanchonete no mesmo andar e eu agradeço por não ter que descer tudo aquilo, ando até uma mesa de canto vazia e Dani se senta.
— Eu vou pedir – aviso e vou até o balcão, faço os pedidos e já deixo pago, então volto pra junto dela que está olhando fixamente pra TV, quando me viro vejo nossos rostos quase engolidos pelas câmeras, volto a olhar pra ela e ela ainda parece meio assustada.
— Televisão engorda – ela faz uma careta tentando soar engraçada e embora eu acabe sorrindo não tem nada a ver com isso e sim por ela estar aqui comigo – Era sempre assim? – ela indica a tv.
— Sempre! Bom, tá um pouco pior hoje, por causa do acidente, mas sim, isso não é uma novidade – ela parece pensativa – Eu devia ter te preparado pra isso... Aliás, eu não devia ter te trago pra esse circo todo, foi burrice – ela nega e bota a mão por cima da minha.
— Se você tinha que estar aqui, eu também tinha – ela conclui e eu me inclino e a beijo.
Nosso pedido chega e eu aponto o café, ela dá um gole e faz uma careta.
— É expresso de maquina – eu acabo sorrindo e também bebo o café – Posso fazer uma pergunta? – indico que ela fale – Vocês eram tipo, namorados ou foi...
— Nós saímos algumas vezes. Não era um namoro! – ela assente e bebe outro gole de café – Ela só queria ficar com o futuro presidente, só isso...
— Eu acho que você devia levar algo pra ela – eu mal consigo acreditar no que ouço – Pelo jeito que ela tá magra ela não tem comido desde que vocês terminaram – minha risada sai tão natural que um casal que estava passando nos olha meio feio.
— Senhor! – Sérgio chama e eu interrompo o riso – O médico – eu e Dani levantamos ao mesmo tempo e corremos até a sala a tempo de escutar ele dizendo que a cirurgia foi bem, mas que como ele está sedado só poderemos ter certeza de como ele está quando ele acordar, o que deve acontecer até o final do dia, nós agradecemos e ele avisa que volta assim que ele se despertar, ele sai e eu respiro um pouco mais aliviado, Diego avisa que vai lidar com os jornalistas por que se não dermos nenhuma noticia com certeza eles vão passar dos limites, então ficamos apenas eu, Dani, minha mãe e Clara na sala.
— A culpa deve tá pesando né? – minha mãe fala me olhando com desprezo.
— Eu não fiz isso...
— Mas se estivesse onde deveria estar talvez ele não precisasse fazer tantas viagens... — – minha paciência vai pro espaço e nem o aperto da mão da Dani me impede de falar.
— E talvez fosse eu no lugar dele. Você ia adorar, não ia? Seus problemas resolvidos
— Você virou as costas pra família! – eu solto uma risada nervosa e irônica.
— Me espanta que você saiba o que seja uma família...
— O que você veio fazer aqui? O que você quer aqui se foi você que mandou que eu esquecesse que você é meu filho?
— Saber do meu avô!
— Não seja hipócrita, você está é doido pra que ele não saia dessa pra poder pegar sua parte e voltar pra aquele fim de mundo com aquele bando de desocupados...
— OK! Cansei! – Dani fala e mal tenho tempo pra pensar em algo por que ela me solta e anda até minha mãe, ela agarra o braço dela e sai arrastando ela até uma porta no corredor escrito banheiro, as duas entram e eu fico parado sem saber o que fazer.
— É por ela que você largou tudo? – Clara pergunta se aproximando.
— Eu a amo! – os olhos dela registram cada gota de surpresa.
— Achei que você tivesse dito que não era capaz disso...
— Eu achei que não fosse
— E por que ela mereceu uma chance e não eu?
— Por que não é assim que funciona, eu não precisei dar uma chance, ela apenas entrou na minha vida...
— Você não me deu tempo pra isso
— Clara, já faz dois anos... Isso é um assunto mais do que morto pra mim – a porta do banheiro abre e Dani sai na frente, minha mãe sai logo atrás sem nem olhar na nossa direção, eu me viro pra receber a Dani, mas ela olha direto pra Clara.
— Oi! Eu sou a namorada dele e talvez você não saiba ainda, mas eu sou meio maluca, pode perguntar pra mãe dele ou pro avô quando ele acordar, enfim, eu tenho um péssimo humor em dias normais e hoje tá pior ainda, por que eu acordei as 6 da manhã e a única coisa que eu comi até agora foi um café expresso, então meu nível de paciência está assim... – ela junta os dedos muito próximos um do outro – Ele também tá com a cabeça cheia e é aí que temos um problema, por que geralmente é ele quem consegue me controlar, então se você quer uma dica, aquele canto lá – ela aponta para o canto da sala – Parece ótimo pra você! Ah não ser que você queira testar o tratamento de cirurgia plástica daqui – os olhos da Clara estão arregalados e ela nem me olha, apenas se afasta saindo da sala.
— Gente, será que foi algo que eu falei?– Dani finge confusão e eu acabo rindo, passo os braços ao redor dela e a beijo.
— Obrigada – eu sussurro com a boca na orelha dela.
— Eu realmente preciso de um café de verdade – ela fala fazendo uma careta – Será que se eu descer sozinha tem problema?
— Você não vai sair de perto de mim...
— Eu sei me defender, Rafa...
— Eu sei disso, mas e quem vai me proteger? – ela ri e eu dou um selinho rápido – Sérgio – faço sinal chamando e ele logo vem – Você pode tentar conseguir um café com gosto de café, por favor? – eu pego a carteira e tiro algumas notas.
— Eu vi uma padaria lá na esquina do outro lado.
— É um botequim – ele fala meio confuso.
— São os melhores! Pode ser um pingado e um pão na chapa, por favor? – Dani junta as mãos quase como uma criança desesperada e essa é uma das primeiras vezes em que eu o vejo realmente sorrindo, não como um daqueles sorrisos ensaiados que nos dá, mas um sorriso sincero e esse é o tipo de coisa que só ela consegue fazer, por isso quando ele sai eu não me importo com o lugar e apenas a beijo várias vezes.
Quando Sérgio volta trazendo um saco de papel marrom e dois suportes improvisados pra café Dani pula do sofá que estávamos e corre até ele, ela pega o café primeiro e tira a tampa sentindo o cheiro.
— Eu acho que vou desmaiar – ela exagera e dá um gole – Eu poderia te dar um beijo, mas não tenho certeza se isso te traria problemas...
— Melhor evitar – ele fala rindo de um jeito descontraído que eu nunca vi antes – Senhor – ele me entrega o saco de papel e o outro café.
— Obrigado – ele também me entrega o troco e Dani pega o saco da minha mão, se senta e começa a devorar os pães, por sorte ele trouxe um extra e ela come também, mas quando termina parece um pouco melhor.
Diego volta pra sala e espera conosco, minha mãe também reaparece depois de algum tempo, mas fica distante e nem ao menos nos olha, as horas parecem intermináveis, Vinny liga preocupado, depois os pais da Dani, nós dizemos que estamos apenas aguardando e quando o médico retorna e avisa que meu avô acordou e está fora de perigo, eu respiro aliviado.
— Ele pediu para buscarem o neto dele — minha mãe e Diego me olham ao mesmo tempo.
— Sou eu!
— Pode entrar – ele avisa e olho pra Dani que sorri e me dá um selinho antes que eu siga o médico.
O quarto é branco e tem toda essa energia pesada de Hospital, embora ele seja um homem alto, na cama ele parece pequeno e frágil, os fios saem dos seus dedos, braços, peito e cabeça, as maquinas fazem barulho e piscam várias vezes, um curativo na testa dele quase tampa um dos olhos e ele tem uns machucados no braço, o rosto está um pouco inchado, mesmo assim ele sorri quando me vê e estica a mão me chamando.
— Achei que tivesse lá...
— Eu vi o acidente no jornal e vim pra cá na hora
— Você vai voltar pra cá? – eu nego e me preparo para encerrar uma discussão – Não volta – ele fala e isso me pega de surpresa – Eu... Eu fiz tudo errado com você... Com tudo... Eu vi a morte na minha frente e eu só pensei que eu ia morrer brigado com você, meu único neto – lágrimas escorrem dos olhos dele e eu nunca o vi chorar antes, isso me deixa sem ação, ele procura pela minha mão e a segura apertado – Me perdoa...
— Tá tudo bem – coloco a outra mão por cima e tento acalmar ele.
— Eu entendo. Entendo por que você foi embora... Tudo isso... Nada vai junto, eu ia morrer, no meio do mato, tudo por que não podia perder uma reunião, eu não quero isso pra você, eu não quero...
— Isso não vai acontecer!
— Eu quero que você seja muito feliz do jeito que você quiser
— Eu estou feliz, vô! Eu amo a vida que eu tenho agora, eu sou feliz de verdade – ele leva a mão até meu rosto.
— Espero que um dia você perdoe esse velho...
— Já passou – ele me dá um sorriso.
— Aquela garota estava certa... Eu não conheço você de verdade, mas agora eu tenho certeza que você é muito melhor do que eu já fui um dia... Eu nunca tive a coragem que você teve pra largar tudo e ficar com ela, talvez tudo fosse diferente... – ele parece meio perdido em pensamentos.
— Você precisa descansar, quando acordar a gente conversa – ele nega.
— Eu tô bem, volta pra casa, volta pra sua garota...
— Na verdade, ela veio comigo – ele abre o que parece ser um sorriso.
— É claro que veio... Ela não é mulher de ser mandada...
— Nem um pouco – sorrio de um jeito bobo e ele volta a segurar minha mão.
— Então leva ela daqui e fique com ela, não deixa ela escapar, não cometa o mesmo erro que eu cometi – ele parece realmente sincero e mesmo com tudo que aconteceu entre a gente, eu sorrio e concordo.
— Fica bem – ele solta minha mão e saio do quarto.
Quando chego no corredor que da para a sala onde estávamos tem um cara com um gravador cercando a Dani, ela parece meio assustada e tenta passar por ele, mas a passagem dela é interrompida e eu sinto meu sangue fervendo quando a vejo encurralada no canto, ando apressado e puxo o cara pelo ombro, afastando-o dela sem nenhuma tentativa de ser gentil, ela me olha aliviada e segura minha mão apertada, o cara parece não se importar e começa a fazer as perguntas uma atrás da outra.
Ela é sua namorada?
Vão se casar?
Foi por causa dela que você sumiu?
E a empresa? É verdade que você abriu mão de tudo?

Não respondo a nenhuma pergunta e puxo Dani junto comigo.
— Como esse cara subiu? – pergunto pro Diego que estava conversando com mais dois caras que são colegas e sócios do meu avô, Diego parece confuso e pede pro Sérgio resolver, olho pra Dani que ainda está meio perdida com tudo isso e se eu tinha alguma duvida sobre ir embora ela desaparece, por que tudo que eu quero é manter ela longe disso, então pego meu celular do bolso, abro o aplicativo e já peço um Uber, pego nossas mochilas, coloco a minha nas costas e seguro a dela na mão que estava livre.
— Eu sinto muito, já está resolvido... – Diego volta e avisa.
— Tudo bem... Nós estamos indo embora – Diego me olha surpreso e Dani aliviada.
— Já? Achei que fosse passar mais algum tempo... Passar pelo menos a noite aqui, com tudo isso que aconteceu...
— Ele tá bem, tá fora de perigo, eu já o vi, não tenho mais nada pra fazer aqui – olho pra Dani e ela me dá um sorriso concordando, então estico a mão pra ele que parece meio contrariado, mas aperta, minha mãe está na sala, mas evita me olhar e sinceramente eu agradeço por isso, não estou nem um pouco afim de aturar qualquer uma das suas ironias, ando até a porta do elevador ainda de mãos dadas a Dani, mais um casal entra conosco e no andar debaixo o espaço termina de lotar, agradeço por isso por que quando descemos nos misturamos e passamos pelos jornalistas sem sermos notados.
O carro já esta parado nos esperando, eu vou direto até ele, abro a porta de trás pra Dani me sento ao seu lado, demoramos quase vinte minutos e entramos no aeroporto, corremos até os guichês e por sorte conseguimos um voo que já está saindo, então corremos novamente até o portão indicado e conseguimos embarcar, quando me sento na poltrona e Dani se senta ao meu lado eu finalmente consigo respirar aliviado, ela coloca a mão em cima de minha e me olha preocupada.
— Como você tá? – eu sorrio pela preocupação dela, toco seu queixo e lhe dou um beijo suave.
— Eu tô bem, e você? – ela me dá um sorriso.
— Eu só quero chegar em casa – nos beijamos mais uma vez e ela encosta a cabeça no meu ombro enquanto olha o avião levantar voo pela janela, alguns minutos depois e ela acaba pegando no sono, não consigo dormir e enquanto olho pra ela sinto como se agora não existisse mais nada contra nós, e que seja lá o que for, se ela estiver do meu lado eu supero.
Acordo-a assim que anunciam que iremos pousar, ela esfrega o rosto algumas vezes e faz uma careta.
— Chegamos! – a careta se transforma em um sorriso e ela se inclina e beija minha boca.
Já está escuro quando saímos do aeroporto e entramos no táxi, assim que descemos em frente ao prédio encontramos Bianca chegando também, ela para com o portão aberto pra nós.
— Como vocês estão? – ela me abraça primeiro.
— Estamos bem! Em casa finalmente – ela me dá um sorriso e abraça Dani.
— Você apareceu na tv – Bianca sorri sacudindo os ombros dela.
— Eu tava gata pelo menos?
— Assustada – Dani faz uma careta e afunda o rosto no meu peito quando entramos no elevador.
— Eles parecem um bando de abutres – ela fala ainda meio assustada e isso me deixa uma ponta de culpa, por isso aperto meus braços nela e beijo sua cabeça – E você e o Vinny? – ela pergunta curiosa e Bianca mesmo tentando parecer irritada dá um sorrisinho.
— Ele é um imbecil – Dani também sorri.
— Um imbecil que te ama, fazer o quê né? – ela ri.
— É, parece que não temos como fugir – ela fala implicando comigo, então a porta do elevador abre e nós saímos, eu abro a porta e entro primeiro, Vinny se estica todo na cozinha pra ver quem é e então logo vem até nós.
— Graças a Deus, tô morrendo de fome e já ia ter que apelar – ele fala e levanta o pacote da lasanha – eu acabo rindo.
— Pois hoje você paga o jantar, pode pedir... O Rafa não vai pra cozinha – Dani avisa e antes que ele reclame, ela agarra minha mão e me leva pro quarto, eu viro pra trás dando de ombros e ele mostra o dedo do meio, mas logo está abraçando a Bianca.
— Eu posso fazer alguma coisa rápida – aviso quando entramos no quarto.
— Você precisa descansar, relaxar um pouco... Não vai pra cozinha e ponto final – eu abro um sorriso e a abraço por trás.
— Sim, senhora – ela se vira de frente pra mim e coloca as mãos no meu ombro.
— Banho!
— Vem comigo? – o sorriso dela aumenta.
— E eu sou trouxa de dizer não? – eu sorrio e lhe dou um beijo exagerado, então ela começa a tirar a roupa pelo caminho e deixa a calça jogada no chão e a blusa em cima da pia do banheiro, eu acabo rindo e pego a calça e a camisa dela e coloco no cesto de roupa, ela revira os olhos e termina de tirar a calcinha e o sutiã e por pura implicância, ela os joga no chão no meio do banheiro, abre um sorriso divertido, mas dessa vez eu ignoro a bagunça e vou pra dentro do box junto com ela mesmo ainda estando de calça jeans, ela ri quando eu encosto na parede mas aceita meu beijo com vontade e diversão.
Na sexta ela acorda junto comigo e está toda nervosa com a audiência, ela fica lendo e relendo anotações em sua agenda e nos documentos que carrega e eu preciso quase empurrar ela pra fora do carro quando chegamos ao escritório, eu dou um beijo demorado de boa sorte e embora ela sorria satisfeita, ainda sai mordendo o lábio ansiosa, eu vou pro apartamento e passo o dia resolvendo coisas pro fim de semana, Lia me liga pra saber como eu estou com as coisas e eu a tranquilizo, então a noite quando busco Dani na faculdade ela vem correndo até o carro com um sorriso animado e contando sobre como foi a primeira audiência, eu ouço tudo com atenção, mas confesso que não tão impressionado quanto ela, por que eu sempre vi essa parte de advogada durona nela e todo o sucesso do mundo ainda parece pouco, mas ela está toda animada, quando entramos no apê ela faz questão de contar tudo pro Vinny que abraça e roda ela nos braços dele e eu realmente fico feliz por ela, mas confesso que fico ainda mais quando ele sai e nós dois ficamos sozinhos.
— Acho que isso merece uma comemoração – eu falo já puxando ela pra mim e caindo no sofá, ela ri e eu coloco vários beijos pelo rosto dela.
— Eu acho que é uma boa hora pra te mostrar uma coisa que eu comprei – ela fala e eu paro olhando pra ela curioso, ela sorri e se esquiva pra fora do sofá – Tem uma garrafa de vinho no fundo da geladeira – ela avisa e antes que eu tenha tempo de ficar curioso, ela corre pro corredor dos quartos, eu acabo rindo mesmo sem saber o que é, então vou até a geladeira, pego a garrafa de vinho que estava escondida atrás dos iogurtes dela, pego duas taças e vou pro quarto, coloco a garrafa e as taças no criado mudo ao lado da cama, pelo barulho ela está no banheiro e pela camisa e saia largadas no chão, ela foi pro banho, eu tiro a roupa que estava espalhada e coloco dobrada em cima de um baú que ela tem no quarto, eu já estava com o controle pra ligar a tv quando a porta do banheiro abre e eu paro o controle ainda esticado pra frente, ela abre um sorriso divertido quando vê minha reação, não existe nenhum exagero enquanto eu olho pra ela que está parada com uma lingerie preta com rosa, um espartilho de renda delicada contrasta com as meias que sobem até seus joelhos, os cabelos caem pelos seus ombros e eu não consigo desviar meus olhos dela, mas ela sorri e vem até a mim, para na minha frente, apenas um passo nos separando e coloca as mãos na cintura.
— Espero que essa não seja a cara que você faz antes de ter um ataque cardíaco por que eu realmente não vesti tudo isso a toa..
— Eu só... Quero apreciar a vista mais alguns segundos – não disfarço o jeito que olho pra ela, não é apenas amor, carinho ou respeito, isso eu tenho por ela, mas agora não, agora é muito além disso, é desejo e tesão, muito tesão.
— Tô começando a cansar – ela abre ligeiramente os braços e então eu avanço nela, puxo a pra junto de mim e lhe dou um beijo que está completamente longe de ser apenas romântico, quando paro ela abre um sorriso satisfeito.
— É disso que eu tô falando – ela ri e se afasta de mim subindo na cama e me olha com um sorriso safado, eu arranco a minha camisa o mais rápido que posso e logo em seguida a calça, mas quando subo na cama pra puxar ela, ela recua rindo e me barrando com a mão no meu peito – Eu também quero uns segundos pra apreciar a vista...
— Ah sinto muito, sem chance – eu agarro sua cintura e ela ri alto demais enquanto tenta se esquivar, mas sem sucesso, nós ainda estamos em pé na cama e eu encosto ela na parede, quando nossos rostos param frente a frente o riso divertido desaparece e ela me olha com paixão, então quando nos beijamos de novo não tem pausa.
Ela está com a cabeça deitada no meu peito, as costas nuas descoberta e meus dedos sobem e descem pela sua pele, despertando os arrepios pelo caminho, mas ela não reclama, seus dedos também sobem pela lateral do meu rosto, ela os escorrega pela minha orelha e depois para o espaço logo abaixo dela, onde fica a tatuagem.
— Eu ainda não acredito que você fez isso – sinto o sorriso no seu rosto.
— Eu ainda não acredito que você não entende o por que eu fiz isso – ela apoia o queixo na mão que está apoiada no meu peito e me olha.
— Por que você é maluco – eu sorrio mas nego, afasto os fios que caem sobre seu rosto.
— Essa tatuagem não é nada...
— É uma tatuagem, isso vai tá no seu corpo, tipo, pra sempre e se um dia você perceber que eu sou um pé no saco e que enjoou de mim? – eu não consigo evitar rir, seguro seu queixo.
— Você É um pé no saco, eu já te disse isso e só piora conforme o tempo passa...
— Viu! Posso ficar insuportável – eu nego.
— Você também é meio insuportável as vezes... Mas é exatamente isso que eu amo tanto em você – seu rosto é confuso e eu sorrio e aperto a ponta do seu nariz, ela odeia e isso sempre deixa ela com aquela cara de brava – Você tem uns cem defeitos e umas dez manias irritantes, você não é perfeita. Eu não sou perfeito, mas de alguma maneira quando estamos juntos tudo parece estranhamente perfeito e encaixado, você é o que eu tenho de mais real na minha vida... Essa tatuagem não é nada comparado a marca que você fez na minha vida, eu sou dividido em duas fases... Antes de você e Depois de você e acredita em mim eu não troco isso por nada nesse mundo, você pode ser o máximo de pé no saco que você conseguir, mas eu não vou me cansar, eu tô aqui e vou continuar aqui...
— Resumindo, você é maluco – ela dá um sorriso divertido, eu dou de ombros.
— Você ainda não me expulsou, então acho que isso faz de você maluca também – ela sorri e se arrasta até parar a boca na frente da minha.
— Completamente – sua voz é baixa e seus olhos fixos no meu, então ela me beija.

No domingo amanhecemos com Lia nos ligando as sete da manhã, mas Dani não reclama tanto assim, ela também está ansiosa, então corre pra falar com o Vinny e o lembrar de tudo que tem que fazer hoje, nós juntamos as coisas para levar, tomamos um café reforçado e esperamos Lia nos avisar que saíram da casa, isso acontece um pouco antes do almoço e então vamos pra lá, eu sou jogado direto na cozinha e Bianca fica comigo me ajudando, Vinny e Dani arrastam móveis, organizam o lugar que a banda ficará, os meninos chegam e começam a montar os equipamentos, depois Bianca vai ajudar Dani na decoração, dois amigos do trabalho do Bruno aparecem e ajudam no que precisamos e depois de quase a tarde inteira tudo está pronto e Dani sorri satisfeita olhando a decoração do Real Madri que está espalhada pela casa toda e também pelo quintal, nós dividimos os banheiros, e todo mundo começa a se arrumar, quando dá cinco horas da tarde os convidados começam a chegar, não são muitos mas enchem o lugar, nós avisamos a Lia que tudo está pronto e ela diz que vai nos mandar mensagem quando estiverem chegando, então quando já são quase sete horas, ela manda a mensagem pro meu celular, o da Dani, do Vinny e da Bianca, nós rimos do desespero dela, mas nos preparamos, quando eles entram nós gritamos e a banda começa a tocar o Parabéns, ele ri realmente surpreso e recebe todos os abraços e felicitações, quando ele acha que já está surpreso o suficiente Lia corre até onde a banda está, ela pega o microfone e entrega outro pra Dani, ela faz uma careta, mas Lia já tinha ameaçado ela a semana inteira e ela não tem como correr, então quando a banda começa a tocar, Lia canta Som do coração da Anitta e Dani a acompanha como segunda voz, tentando não rir e mesmo que seja pra Lia aparecer eu não consigo olhar pra outro lugar que não seja ela e ela canta a estrofe inteira olhando diretamente pra mim.
.. eu sei que gosta tanto quanto eu de você,
me olha eu diz que sim, também se sente assim,
eu sei que não pode ficar longe de mim...
— Limpa a baba – Vinny me cutuca e eu o empurro sem parar de olhar pra ela, quando elas terminam a apresentação, todo mundo aplaude e grita e Bruno corre até lá abraçando e tirando Lia do chão, Dani se afasta e vem na minha direção, ela não diz nada e nem eu, apenas nos beijamos demoradamente.
A noite segue animada e com direito a karaokê com a banda ao vivo, as bebidas também estão liberadas e perco a conta de quantos brindes fazemos, as pessoas começam a ir embora um pouco depois das nove, mas a animação permanece igual e quando colocamos as musicas do pen drive da Bianca, eu fico junto com Bruno e Vinny bebendo cerveja e olhando as meninas dançando e se divertindo, até que começa a tocar um funk e Dani começa a dançar olhando pra mim, as mãos subindo e descendo pela lateral do corpo dela enquanto ela rebola e desce até o chão sem desviar os olhos do meu, ela joga o cabelo pro lado e ri depois que morde o lábio e percebe que eu não estou mais prestando a atenção em seja lá o que Bruno e Vinny estão rindo, quando ela vira de costas pra mim rebolando e segurando o cabelo pro lado não sei mais o que significa auto controle, eu vou até ela, passo meu braço pelo seu corpo e ela ri quando eu começo a levar ela junto comigo pra dentro da casa, assim que entramos ela se vira pra mim e me beija sem tentar manter nenhuma calma, quando para agarra minha camisa e me arrasta pela escada, ela abre a porta do quarto de hospedes e tranca, então eu volto a agarrar sua cintura e ela sorri satisfeita e então pra nós dois a festa começa agora.