Superando o passado
26 Novo capítulo
Notas iniciais
Eu realmente acredito que uma das novas metas de vida do Rafa é testar a minha paciência, por que sinceramente essa á única explicação que eu encontro pra que ele me acorde ás 7 da manhã de um sábado.
— Eu juro que se você não sair daqui agora, eu nunca mais olho na sua cara – minha voz sai meio grossa e rouca por conta de todo sono que ainda estou e também da raiva que começa a querer me fazer acertar um soco na cara dele, mas como eu disse, ele realmente está empenhado a testar minha paciência e ao invés de virar as costas e sair do meu quarto, ele sobe na cama, me puxa pra ele e começa a beijar meu rosto, várias e várias irritantes vezes, eu respiro fundo e então me esquivo dele, saio da cama, vou direto até meu guarda roupa, pego a primeira roupa que vejo, entro no banheiro e tranco a porta, quando me olho no espelho até mesmo eu fico com medo de mim, meu rosto está vermelho e eu tenho certeza que se eu assoprar agora sairá fogo, então decido não arriscar, eu escovo os dentes, lavo o rosto, tiro meu pijama e coloco a roupa que eu peguei, uma calça jeans escura e uma camisa de meia manga cheia de flores, eu prendo o cabelo num coque meio desajeitado e saio do banheiro, ele está na cama todo aberto e sorrindo.
— Bom dia! – eu o ignoro, vou até o canto onde está minha bolsa, pego a menor, puxo meu celular da mesinha do computador e saio do quarto, ouço quando ele pula pra fora da cama e aperto meus passos, quando abro a porta, a mão dele a segura – Onde você vai? – ele pergunta e mesmo sem olhar pra ele sei que ele não está mais sorrindo e nem de longe parece animado, eu tento forçar a porta, mas ele é bem mais forte que eu.
— Me deixa passar – eu exijo e ele passa por mim e entra na minha frente, entre a porta e eu, me obrigando a olhar pra ele.
— Onde você vai?
— Pro mais longe que eu conseguir de você – o choque no rosto dele dura apenas uns 10 segundos e então um sorriso começa do canto da boca dele até o outro.
— Tá com tanta raiva assim? – eu não respondo apenas o encaro e cruzo os braços – Ai caralho – o sorriso dele é ainda maior e ele tenta passar os braços em volta de mim, mas me esquivo e acerto um tapa realmente forte nele e como ele está sem camisa dessa vez é ele quem se esquiva com a dor, eu aproveito e abro a porta de novo, consigo sair, mas dessa vez meus pés saem do chão quando ele me pega no colo.
— Rafael, me bota no chão – eu exijo com a raiva quase queimando cada palavra, ele não se intimida, entra no apartamento de novo e chuta a porta para fechá-la – Eu juro que quando você me botar no chão vai se arrepender disso...
— Então acho que não vou te soltar nunca mais – ele sorri daquele jeito divertido e eu agradeço mentalmente por não ter nada pontiagudo nas mãos por que com certeza eu enfiaria no olho dele, ele me carrega até meu quarto de novo, me bota em cima da cama, corre até a porta e a tranca segurando a chave, eu me sento na cama balançando a cabeça e tentando respirar fundo várias vezes pra não fazer uma besteira – Você fica linda com raiva – ele fala sem se aproximar muito.
— Quantos anos você tem? – encaro ele que tenta não sorrir – Não, é sério, quantos anos você tem? Por que eu não acredito que alguém com mais de 10 anos faça esse tipo de coisa... Você sabe que horas eu fui dormir ontem? Sabe como essa semana foi corrida e o quanto eu queria dormir só um pouco a mais? – agora ele não sorrir mais – Você sabe, Rafael, você sabe e sabe o que você faz? Me acorda as 7 da manhã, da porra de um sábado, o primeiro sábado que eu tenho livre a sei lá, uns 4 meses? Que merda!
— Ei! Desculpa, ok? – ele vem até a mim se ajoelhando na minha frente e segurando minha mão.
— Não! – ele vira a cabeça me olhando meio de lado – Você vai ter um pouco mais de trabalho dessa vez – ele dá um leve sorriso – Se você encostar em mim eu juro que eu arranco seu pinto – dessa vez ele acaba rindo, mas logo tampa a boca.
— E se eu tiver um motivo muito forte pra ter te acordado tão cedo? – eu o encaro duvidando.
— A menos que o mundo esteja prestes a acabar na próxima hora por causa de uma chuva de bombas nucleares e eu seja a única pessoa capaz de salvar a todos, então não tem um bom motivo...
— Você precisa parar de assistir Arrow – ele faz uma cara meio assustada e mesmo não querendo eu quase acabo rindo, mas logo fico séria de novo – Bom, o mundo está a salvo, mas... – ele levanta um dedo e depois enfia a mão no bolso da calça de moletom que ele está e pega o celular, ele mexe em algo e então me olha de novo – Mas eu acho que isso se encaixa em um bom motivo pra arriscar minha vida te acordando antes de meio dia – ele fala com certa ironia, mas me entrega o celular, eu pego duvidando muito que algo seja tão importante assim e quando vejo que ele está no app do banco, começo a preparar meu discurso, mas então olho novamente e meus olhos e minha boca se abrem de forma quase involuntária.
— O quê que é isso? – desvio os olhos pra ele que tem um sorriso do tipo “eu disse que valeria a pena” e isso nem me irrita mais – Ai-meu-Deus!
— Eu não ia conseguir esperar até meio dia pra te mostrar isso...
— Rafa, isso é... Uau...
— Rafa? Hum, não tô mais tão encrencado né?
— Como que isso aconteceu?
— Olha o nome do lado – eu volto a olhar o celular e reconheço o nome do avô dele, ainda assim é impressionante.
— Eu nem sabia que existiam tantos zeros – ele ri – Ele simplesmente te deu tudo isso?
— Parece que sim, né? Não acho que alguém faz uma transferência dessa por engano...
— Rafa, são 1 milhão de reais. UM MILHÃO! – eu não tento disfarçar meu espanto – Isso é muito dinheiro...
— Pra gente é, pra ele não fez nem cócegas no bolso...
— Um milhão – minha voz sai quase sussurrada enquanto eu olho os zeros que quase piscam na minha frente.
— Parece que você tá namorando um milionário agora – eu olho pra ele e ele está sorrindo de um jeito divertido.
— Isso é inacreditável – eu entrego o celular pra ele ainda tentando me convencer que é verdade.
— Acho que o acidente mudou a cabeça do velho – ele dá de ombros e joga o celular na cama.
— Você vai aceitar?
— Claro que eu vou aceitar – ele nem precisa pensar muito a respeito – Isso não é nada pra ele, mas pra mim, pra gente... Isso vai ser perfeito! Eu não pedi nada a ele, nem um real, mas... – ele levanta os ombros.
— Você tem que aceitar mesmo – eu concordo, comemorando internamente que ele seja mais esperto que o Vinny nesse sentido, já que eu precisei de um longo discurso pra que ele aceitasse aquele dinheiro do pai, que era muito menos que um milhão de reias – E você já sabe o que vai fazer com tudo isso? – ele abre um sorriso.
— Eu tava pensando em comprar uma lancha, sabe, dessas tipo um iate, eu sempre quis ter uma e claro, em dar uma festa, lá naquele Castelo da festa da revista, mas eu encheria aquela piscina de champanhe... Vai ser incrível...
— Eu to falando sério
— Tá, tá, não vai ser champanhe, vai ser cerveja, talvez Bud ou Stella ainda não decidi – mesmo irritada com ele a um segundo atrás eu acabo rindo – É sério!
— Aham, bom se fosse o Rafael que chegou aqui, com certeza, mas você... Meu namorado não faria isso – o sorriso dele se alarga de um jeito que faz os olhos dele se estreitarem e brilharem, ele se estica mais um pouco e se inclina pra mim, deixando nossos rostos próximos demais.
— Seu o quê? – reviro os olhos e um sorriso me escapa, mas eu coloco a mão no peito dele pra impedir que avance mais.
— Você pode só dizer qual é o plano? – ele concorda e recua.
— Na verdade, foi pra isso que eu te acordei tão cedo... Você quer ir comigo encontrar o futuro ex dona da loja do centro e fechar negócio comigo? Acho que posso precisar de uma advogada fodona – dessa vez não tem irritação nenhuma, mesmo que eu quisesse quebrar a cara dele a minutos atrás, agora tudo que eu faço é me jogar nos braços dele e o abraçar – Acho que isso é um sim...
— É claro que eu vou com você – eu me afasto um pouco só pra olhar nos olhos dele – Eu tô muito feliz por você, eu sei o quanto você queria esse lugar...
— Eu nem acredito que vou conseguir
— Bom, não é nenhuma surpresa pra mim...
— Por que eu sou incrível? – ele faz uma cara de convencido e eu acabo rindo.
— Idiota – ele sorri e então me puxa pra mais perto dele de novo, dessa vez acabo ajoelhada junto com ele e antes que eu pense em mais alguma coisa ele me beija, forte e apaixonado, quando para nós dois estamos sorrindo como dois idiotas – Parece que o mundo conspira pra que você continue um mauricinho rico esnobe...
— Meu amor, eu sou um milionário esnobe, me respeita – eu acabo rindo e ele me puxa pra ele de novo e voltamos a nos beijar – Eu gostaria muito de continuar isso aqui – ele faz sinal pra nós dois – Mas eu marquei com ele pra daqui 40 minutos – ele fala depois de olhar o relógio.
— Então vamos! – eu me levanto animada e ele sorri – Eu vou me trocar – corro até o guarda roupa e passo os cabides.
— Você tá ótima assim...
— Ah por favor, eu sou namorada de um milionário, me respeita – ele ri, me abraça por trás e coloca o queixo no meu ombro.
— Acho que essa coisa de milionária esnobe combina com você – eu viro meu rosto de encontro ao dele e ele sorri.
— Eu tenho rápida adaptação – ele ri e me dá um beijo rápido.
— Eu também vou me trocar – ele avisa e sai do quarto.
Eu remexo mais alguns cabides e escolho a roupa, começo a me trocar logo, solto o cabelo, passo o pente, depois faço um coque mais decente, passo uma maquiagem leve e sorrio quando me olho no espelho já pensando na reação do Rafa, por isso me apresso em sair do quarto, escuto ele e Vinny rindo e falando animadamente, mas quando entro na sala Rafa para a frase que estava e me olha com aquele sorriso malicioso, ele bota a mão no coração e faz uma cara exagerada que me faz sorrir e dar uma voltinha, estou com uma calça social preta, salto alto, uma camiseta de seda azul escura e um blazer branco por cima dobrado até meu cotovelo.
— Isso por que ela ainda nem se formou – Vinny fala rindo da reação do Rafa, ele vem até a mim e coloco a mão na minha cintura.
— Eu já disse que você fica incrivelmente sexy assim...
— Acho que só todas as vezes que eu saio pra trabalhar – ele ri e dá de ombros.
— Bom, é a verdade – ele me dá um beijo rápido.
— E então, já contou a novidade? – pergunto e Vinny ri.
— O quê? Sobre vocês serem o mais novo casal milionário? – eu acabo rindo e faço uma pose ridícula ao lado do Rafa, Vinny ri – Bom, eu também tenho uma novidade... Adivinha quem é a banda que foi contratada pra tocar todo sábado na Fronteira Leste?
— AH MEU DEUS – eu corro até ele com os braços pra cima, ele ri e me recebe me tirando do chão, a Fronteira Leste é uma casa de shows que coloca bandas e músicos ao vivo e é um dos lugares mais frequentados pelos turistas – Isso é incrível!
— Talvez eu me torne um milionário também – ele dá de ombros e sorri, eu o aperto ainda mais.
— Nós temos que comemorar...
— Hoje a noite! Agora temos que ir... – Rafa avisa e eu me solto do Vinny.
— Hoje a noite ein, nada de motel antes da comemoração – ele ri e diz que será hoje a noite, eu e Rafa saímos do apartamento, vamos direto para a garagem enquanto ele manda uma mensagem para o cara, saímos do prédio e ele vai direto para o banco, eles marcaram de se encontrar lá, assim que chegamos ele já está a nossa espera, ele tem cerca de uns 50 anos, tem uma barriga meio redonda demais, cabelos brancos e barba grisalha, mas está todo sorridente e quase tão animado por fechar negócio quanto o Rafa.
— Essa é minha namorada... Daniela – ele fala todo orgulhoso e eu acabo sorrindo como uma boba, nós apertamos as mãos.
— E então, pronto pra iniciar um grande negócio?
— Mais do que pronto – Rafa sorri e então nós vamos falar com o gerente do banco, pra poder fazer a transferência, já que sair como uma quantidade de dinheiro dessa seria um risco desnecessário, leva cerca de uns 40 minutos pra conseguirmos fazer a transação e quando terminamos, vamos direto para o cartório que fica na mesma rua do banco, o cara já estava com os documentos e logo somos atendidos para fazer a transferência do nome da propriedade, dessa vez demora um pouco mais de uma hora, mas quando Rafa pega o papel carimbado e com o nome dele o sorriso no seu rosto é contagiante.
— Eu desejo todo sucesso pra vocês – ele fala com a mão no meu ombro e no do Rafa, nós agradecemos, nos despedimos e ele vai embora.
— E agora? – eu pergunto e ele sorri ainda mais.
— Agora você precisa ver o lugar – ele pega minha mão e entramos no carro, demoramos menos de 15 minutos e ele estaciona na frente do lugar, é realmente no centro, super bem localizado, algumas lanchonetes próximas mas nada como ele está pensando, o lugar era uma churrascaria então as mesas e cadeiras vem junto com o lugar, embora seja de um tipo diferente de decoração, o salão não é tão grande, mas é excelente e a cozinha é bem espaçosa e o ar condicionado já está instalado, por isso quando paro no meio do lugar não exagero meu sorriso, ele está alguns metros de distância mas quando eu abro os braços, ele corre até a mim, me abraça e me gira no ar.
— Você conseguiu! – ele ri e beija minha bochecha.
— Ainda falta algumas coisinhas...
— Mas o mais difícil já conseguimos, esse lugar é incrível – ele abre um sorrisão olhando em volta.
— É perfeito – ele volta a me olhar e nos beijamos.
Depois de olharmos o lugar com mais atenção e ele me explicar o que está pensando em fazer, nós saímos pra almoçar, com ele já planejando iniciar a reforma na próxima semana, nós acabamos no shopping, almoçamos em um restaurante na praça de alimentação e já estávamos indo embora e pensando no que fazer a noite, para as duas comemorações, dele e do Vinny, quando ele me faz parar no caminho, eu paro meio confusa e ele aponta a vitrine do lado, onde um macacão ma-ra-vi-lho-so está destacado.
— Ah nem pensar – eu o puxo pela mão pra andar, mas ele nega.
— Foi feito pra você – eu acabo rindo e o encaro, mas me solta e entra na loja.
— RAFA – vejo quando a atendente o recebe cheia de sorrisos e reviro os olhos antes de entrar na loja atrás dele que já está fazendo o pedido.
— Eu não vou usar – eu aviso e ele dá de ombros, segue a menina para um balcão e ela pega o vestido num cabide e ok, olhando de tão perto ele é absolutamente perfeito e não consigo ficar tão indiferente assim e isso faz ele sorrir orgulhoso.
— Quer experimentar? — a moça sorridente pergunta.
— Não! – ele responde tão rápido que até eu fico confusa – Não quero estragar a surpresa – ele explica e me dá um sorriso maldoso – Nós vamos levar – ele avisa e a menina sorri toda animada pela venda, enquanto ela finaliza a compra ele segura meu queixo – E eu já sei onde nós vamos – antes que eu possa perguntar a menina volta e ele vai passar o cartão, saímos da loja com ele carregando a sacola todo animado.
— Você precisa se controlar sabia? Não deveria sair comprando tudo que vê pela frente...
— Meu amor, eu tenho um milhão...
— Tecnicamente agora você tem uns 600 mil – ele ri e me dá um beijo rápido.
— Só sorria e acene – ele me dá uma piscada e eu sei que não tenho como colocar juízo na cabeça dele agora, então aceito o próximo beijo e saímos do shopping.
Ele e Vinny combinam o lugar que iremos hoje, mas nenhum dos dois me contam, eles avisam o Bruno da decisão e quando eu ligo pra Lia descubro que ela também não sabe onde iremos e isso a deixa nervosa por não saber o que usar, eu acabo rindo e pelo menos já tenho o que vestir, eu passo o resto do dia tentando arrancar alguma coisa do Rafa, mas ele se mantem firme no segredo e quando a noite cai ele praticamente me empurra pro banheiro pra que eu me arrume, mostro o dedo do meio pra ele, mas ele apenas ri, então como não tenho escolha e será o único jeito de saber, eu começo a me preparar, acabo demorando muito mais do que o normal, mas quando paro na frente do espelho me sinto orgulhosa de mim mesma.
O macacão é de um tecido fino e suave que desliza sobre minha pele sem dificuldade alguma, ele é branco, tem um decote profundo e meio exagerado entre meus seios, ele é estilo pantalona então pode ser confundido com um vestido dependendo da minha posição, ele tem uma pequena fita que parece um cinto que deixa minha cintura perfeitamente marcada e parecendo inacreditavelmente menor, minhas costas ficam parcialmente descoberta, um brinco longo com uma pedrinha branca na ponta combina perfeitamente com o visual, assim como a sandália de salto alto, na maquiagem eu deixei meus olhos mais destacados e o batom um pouco mais neutro.
Eu escuto a voz do Rafa que vem da sala e saio do quarto me sentindo meio ridícula por estar ansiosa, mas quando ele me vê e seus olhos descem pelo meu corpo eu sorrio com um toque de orgulho próprio, ele estava no celular e o tira da orelha e desliga sem nem se preocupar com quem estava do outro lado, então ele dá apenas um passo na minha direção.
— Ok, eu achei que o vestido ia ficar perfeito, mas isso – ele desce os olhos lentamente e depois os sobe até os meus – É além de perfeito...
— Bom, você também não tá nada mal – eu sorrio fazendo o mesmo olhar nele, ele está com uma calça tipo jeans preta, uma camisa gola V vinho, um blazer preto com as lapelas da mesma cor que a camisa, a barba está perfeitamente desenhada e baixa, os olhos escuros brilham e o cabelo está maravilhosamente bagunçado e ele usa um cordão de couro que tem uma âncora – Aliás, nada mal mesmo – deixo um sorriso malicioso escapar e ele quebra nosso espaço, sua mão encaixa na minha cintura ao mesmo tempo em que ele junta nossas bocas.
— Será que vocês não podem esperar algumas horas? – Bianca fala enquanto sai do corredor e nos flagra, Rafa faz uma careta e mostra o dedo do meio pra ela.
— Uau! Tá linda – eu falo sem exagerar, ela está mesmo lindo, com um vestido preto de renda, até acima dos joelhos, ele tem uma transparência nos seus braços e ombros, o cabelo está mais repicado e a maquiagem perfeita.
— Ela É linda – Vinny garante vindo logo atrás dela e encaixando a mão na sua cintura, ela sorri toda boba.
— Melhor a gente ir por que acabei de falar com o Bruno e ele disse que a Lia tá deixando ele louco...
— Novidade... – Vinny ri, mas nós pegamos o que faltava e saímos do apartamento.
Vamos cada casal em um carro, sendo que nosso carro vai na frente.
— E então? Será que agora eu posso saber pra onde estamos indo?
— Agora? Aos 45 do segundo tempo? Sem chance – ele sorri todo orgulhoso.
— Eu odeio surpresas – ele ri.
— Ah é, eu sei – eu faço uma careta e ligo o rádio, estou distraída com a música quando ele começa a subir a serra, eu olho em volta e quando olho pra ele está sorrindo – Nem adianta – eu reviro os olhos e volto a olhar pro caminho, ele segue mais um pouco e tudo que tem são arvores, o começo para as ruas que darão nas trilhas, algumas pousadas, mas nada que indique um lugar pra se comemorar.
— Tem certeza que tá no caminho certo? – ele ri, eu olho pelo retrovisor e vejo o carro do Vinny logo atrás do nosso e do Bruno e da Lia atrás do dele, mesmo assim ainda não estou convencida – Não tem nada pra cá, só algumas pousadas e o... – quando eu penso arregalo os olhos e olho pra ele, mesmo querendo disfarçar o sorriso dele o entrega – AH MEU DEUS! Você tá brincando né?
— Eu não disse nada – ele levanta os ombros.
— Ai meu Deus, é pra lá, eu sei que é – como resposta meu celular toca, é a Lia, eu atendo.
— Nós estamos indo pro JanCloud, não estamos? Me diz que estamos – eu acabo rindo.
— O Rafa tá bancando o mudo, mas é a única coisa pra cá...
— AHHHHHHHHHHH NÓS VAMOS PRO JANCLOUD – ela grita tanto que até o Rafa ouve e ri, então quando ele entra na subida da serra, eu sei que estamos certas, eu desligo o celular e olho pra ele.
— Você é louco? Esse é o restaurante mais caro e famoso e sei lá mais o quê da cidade inteira – ele dá de ombros.
— Vamos ver se merece todos esses títulos — mesmo achando um exagero completo eu acabo sorrindo quando ele para o carro na frente do espaço todo espelhado, o restaurante fica praticamente no topo da serra, a noite está brilhando, a lua cheia perfeita, o vento levemente gelado espalha o aroma das folhas, do lado de fora não conseguimos ver nada da parte de dentro, mas assim que saímos do carro a porta se abre e três homens de terno vem até cada um dos carros, são manobristas, Rafa dá a chave pra ele e caminhamos até a porta, onde uma mulher morena, com um preto discreto e sem detalhes, porém super elegante nos recebe, Rafa fala sobre a reserva e ela sorri toda simpática, os outros se juntam a nós e posso ver Lia tentando não dar aqueles seus saltinhos animados enquanto alcançamos nossa mesa, ela fica na lateral, bem ao lado da parede de vidro, quando olho pra ela fico ainda mais impressionada, por que temos a visão de um lago absolutamente maravilhoso, eu ainda estou distraída quando Rafa puxa minha cadeira, eu sorrio e me sento, ele se senta ao meu lado, Lia na minha frente, nos olhamos rápido e logo estamos admirando o lago.
— Ser um mauricinho esnobe tem lá suas vantagens – a voz divertida me distrai de novo e eu acabo rindo.
— Com certeza tem – ele sorri orgulhoso e me dá um beijo rápido.
— Eu posso me acostumar com isso – Lia fala e Bruno arregala os olhos fingindo medo, nós rimos e então o garçom entrega o menu pra cada um de nós e Rafa pede a cartela de vinhos.
— Só pras meninas – ele se defende assim que eu olho pra ele.
— Tão adestrado – Vinny implica e Rafa faz uma careta.
— Experimenta pedir vinho pra você... – Bianca o encara e ele logo perde a diversão, mas Bruno e Rafa o zoam e riem.
Leva alguns longos minutos e conseguimos nos decidir, eu peço lagosta, Rafa também ia pedir, mas isso significaria que eu não teria um preto diferente pra experimentar então depois de uma carinha triste e um “tudo bem, escolhe o que você quiser”, ele acabou mudando para o cordeiro que seria minha segunda opção, eu sorrio animada e lhe dou um beijo na bochecha que faz ele sorrir.
O pedido demora um pouco, mas enquanto isso a conversa rola sem preocupação, a garrafa de vinho chega e logo está pela metade, mesmo com apenas eu, Lia e Bianca bebendo, mas acontece que o Rafa realmente sabe escolher um bom vinho e mal percebemos quando a comida chega, até que um prato maravilhoso aparece na minha frente, então os minutos a seguir são cheios de elogios e exageros sobre a comida, eu experimento o prato do Rafa e quase me arrependo, mas quando volto a comer minha lagosta, não fico tão decepcionada, nós terminamos de comer e pedimos sobremesa, novamente eu e Rafa pedimos diferente e eu óbvio que experimento a dele, e como a dele está melhor eu troco nossos pratos, mesmo com a Lia brigando dizendo que isso é falta de etiqueta e estamos num restaurante chique, em resposta Rafa troca os nossos pratos bem lentamente e mesmo querendo brigar com ele, ela ri, nós conversamos mais um pouco e estávamos empolgada quando os meninos se levantam os três ao mesmo tempo, então paramos de falar.
— Nós só vamos no banheiro – Bruno avisa e estranhamos.
— Os três?
— Vocês fazem isso toda vez – Vinny dá de ombros.
— Nós somos mulheres, os banheiros nem devem aceitar que apenas uma entre – Lia explica com uma cara séria e nós rimos.
— Relaxem, eu sei que vocês nos amam, mas são dois minutos – Rafa fala e então eles saem.
— Eles tão aprontando – Bianca conclui o que nós também percebemos.
— A ultima coisa nos trouxe aqui, então por mim, eles podem aprontar bastante – Lia fala e nós acabamos rindo.
Demora menos de cinco minutos e eles voltam.
— Vamos? – Rafa pergunta parecendo animado demais, quando olho pros outros eles também estão com sorrisinhos animados.
— O que vocês tão tramando? – ele finge uma cara de confuso.
— Nada, anda, vamos, a conta já está paga – ele puxa minha cadeira e me dá a mão pra me ajudar, eu aceito e elas também se levantam, então saímos, o carro já está a nossa espera e o homem de terno abre a porta pra mim, Rafa logo dá a volta e assume o volante.
— Você também não vai me contar nada né? – ele ri, se inclina e me dá um beijo rápido.
— Você é tão esperta – eu o encaro tentando ficar séria, ele ri novamente e então saímos do restaurante, ele não pega o caminho para o centro e demora quase 15 minutos quando ele para em frente ao melhor e mais caro, tipo, muito caro mesmo, motel da cidade.
— Sério? – ele ri.
— Eu sempre quis vir nesse, mas nunca achei ninguém a altura...
— Isso é tipo caro pra caralho você sabe né? – ele ri e entra com o carro pela garagem, olho pra trás e o carro do Vinny também está entrando – Me diz que vocês não racharam uma suíte nem nada – a risada dele é tão divertida que me faz rir.
— Não rachamos, são quartos diferentes, relaxa – eu coloco a mão no coração fingindo alivio, ele para o carro na cabine, um homem nos cumprimenta e ele pede o quarto que também já estava reservado, entrega um cartão pro Rafa e ele me dá.
— Suíte máster plus?! – faço uma cara de impressionada.
— Só trabalho com o melhor...
— Você é realmente um esnobe né?
— E você tá adorando – finjo uma cara de indiferente, mas quando entramos no quarto eu não consigo mais disfarçar, é incrível, tem uma piscina com uma cascata que faz descer agua da parede, a cama é três vezes o tamanho da minha, o banheiro é todo transparente e tem uma banheira que é quase tão grande quanto a piscina, a decoração está em vermelho, o espelho no teto acima da cama me faz rir e quando olho pra ele também está sorrindo – Então?
— É, essa coisa de ser esnobe é beeeeem legal – ele ri e vem até a mim, sua mão deslizando pela minha cintura, até minha bunda, ele aperta e me empurra pra junto dele me fazendo rir, a outra mão ele usa pra deslizar o zíper na lateral do meu macacão, sua mão logo entra por baixo do tecido e seu toque quente me desperta de várias maneiras diferentes, a mão sobe e desce suavemente enquanto ele fixa o olhar na minha boca, eu passo os braços atrás da sua cabeça e nossas bocas ficam a centímetros de distância e eu não consigo resistir e o beijo com paixão e tesão, ele não perde tempo e me pega no colo, passo minhas pernas em volta do quadril dele e nós dois rimos antes de cairmos na cama e continuarmos essa super comemoração.
Eu acordo e me espreguiço na cama por vários minutos, só então tenho coragem de abrir os olhos, apenas pra verificar que estou sozinha na cama, nós voltamos pra casa depois da nossa ultima comemoração e chegamos quase as 5 da manhã em casa e eu mal encostei na cama e apaguei. Eu me arrasto pra ver as horas e levo um susto quando vejo que são duas horas da tarde, eu me levanto, vou no banheiro e saio do quarto, o apartamento tá silencioso, vou até o quarto do Rafa e está vazio, Vinny também não está então vou até a cozinha, abro a geladeira e acabo sorrindo quando vejo o post-it colado num pote azul escrito com a letra do Rafa.
Bom almoço, não demoro, te amo!!!
Eu pego o pote, abro e sorrio quando vejo a salada de macarrão que eu adoro, pego uma cerveja e me jogo no sofá, ligo a tv e almoço assistindo a um programa de auditório, já tinha terminado de lavar a louça e estava me jogando no sofá de novo quando a porta abre.
— Finalmente – eu tento parecer reprovar, mas só de ver ele já estou sorrindo, ele vem até a mim todo animado e se joga em cima de mim quase me esmagando no sofá, eu acabo rindo e ele me beija várias e várias vezes, quase me sufocando – Não me diz que você ganhou mais um milhão – ele ri.
— Melhor que isso – ele sorri animado e eu fico curiosa, ele se senta e eu também.
— Eu ganhei um milhão?
— Você já tem um, o que é meu é seu – ele revira os olhos e eu também.
— Fala logo – ele parece ansioso, segura minhas mãos e não para de sorrir.
— Eu fui ver as coisas pra começar a reforma e no meio disso acabei encontrando um cara do ramo e ele disse de um curso que eu sempre quis fazer, sobre texturização de molhos, técnicas, essas coisas... Só que eu nunca pude fazer por que provavelmente meu avô me mataria – ele faz uma careta.
— Agora você pode!
— Exatamente, agora eu posso – ele sorri – Tem uma turma que começa já nessa semana, na verdade na quarta, serão 10 dias, as vagas estão praticamente fechadas, mas eu tenho um contato e posso conseguir uma...
— Uau, isso é incrível – por mais que eu esteja feliz por ele, alguma coisa parece errada, então quando ele continua eu entendo o que é.
— Só que não é aqui na cidade, é em Santa Catarina...
— Por 10 dias? – ele balança a cabeça confirmando.
— UAU! – eu não sei mais o que dizer, por que só de pensar em passar dez dias longe dele eu sinto meu coração apertar, ele só saiu por algumas horas hoje e eu já estava a ponto de surtar de tédio e saudade, não consigo me imaginar dez dias longe dele.
— Eu sei que parece muito, mas esse curso é só uma vez por ano aqui no Brasil e esse cara é incrível, ele é foda, isso vai mudar completamente o que eu posso fazer na cozinha – a animação dele é quase contagiante e eu me obrigo a sorrir.
— Então é melhor fazer logo a matrícula – ele me observa por alguns segundos.
— Não faz essa cara, ok? Eu também vou odiar ficar longe de você, mas é que é uma chance única...
— Você tem que ir – eu afirmo me obrigando a deixar de ser tão infantil, ele ainda parece preocupado – Eu vou ficar bem, não é como se você fosse tuuuuudo isso também – eu resolvo mudar o clima e implicar com ele, funciona por que ele ri e vem pra cima de mim fazendo cócegas e me fazendo rir.
— Ainda temos dois dias – ele sorri de um jeito divertido com a boca colada a minha e acabamos nos beijando.
Ele dorme primeiro e eu não consigo pegar no sono, por que toda vez que tento pensar que terei que passar dez dias longe dele e isso parece um grande sacrifício pra mim, eu sei que ele tem que ir, que é uma boa oportunidade, de conhecimento e de realização pessoal também, mas o que eu posso dizer? Eu o amo e pensar em passar tantos dias longe dele parece quase uma tortura, por isso eu desisto de tentar de dormir e fico apenas observando-o, ele está relaxado e seus lábios estão quase formando um sorriso, meus dedos deslizam pelos fios grossos e macios no alto da sua cabeça e eu sempre vou sorrir quando fizer isso, meus dedos escorregam para seu rosto, acompanhando a fina camada de barba que ele tem deixado por mais tempo depois que eu pedi, então meus dedos param na sua tatuagem, eu a vejo todos os dias e ainda acho uma loucura tão grande quanto antes, embora eu adore olhar pra ele e ouvir ele dizendo o quanto isso faz sentido pra ele, ainda assim olhar o D do meu nome gravado dentro da Kriptonita faz minha mente quase explodir de tantas emoções diferentes, mesmo que uma parte minha não entenda por que ele fez isso, outra sabe que faz sentido, por que mesmo que eu não tenha nenhuma tatuagem na minha pele, ele está marcado em cada célula do meu corpo, mais forte do que o sangue que corre nas minhas veias, quase tão essencial quanto o ar que eu respiro, quer dizer, eu sei que poderia viver sem ele, sei que existe uma vida que continuaria sem ele, mas eu não vejo graça nenhuma nas coisas que eu faço sem ele, e quando ele não está a coisa só se torna realmente memorável quando eu conto pra ele e o vejo torcendo por mim ou comemorando comigo ou apenas odiando alguém junto comigo, tudo fica melhor com ele, eu posso até saber viver sem ele, só não seria tão bom quanto é ao seu lado e é por isso que eu sei que passar dez dias longe dele vai ser uma tarefa bem difícil, mas que eu terei que enfrentar e superar, por que tudo que eu tenho recebido dele é apoio, com o trabalho, a faculdade e qualquer outra coisa, o mínimo que eu posso fazer é retribuir toda segurança que ele me dá e é isso que eu vou fazer.
Eu consegui manter minha animação e confiança, ele ficou mais calmo por eu não estar reclamando, e eu mesmo o ajudei a fazer as malas, dessa vez eu o obriguei a levar uma mala de verdade e não aquela mochila de viajante dele, ele riu e aceitou, mas não o deixei levar o perfume que eu adoro, por que sinceramente ele não precisa ficar tão cheiroso longe de mim e em troca ele disse que eu não posso usar creme corporal de frutas vermelhas que ele adora, eu disse que isso era ridículo, mas ele foi bem taxativo, se eu usar, ele leva o perfume, então acabei aceitando, ainda assim ele levou o creme com ele e estava tudo bem, eu estava conseguindo ser a namorada que passa confiança, mas quando o Uber dele chegou na frente do prédio e nós entramos no elevador pra descer eu começo a sentir como se meu coração pudesse ser esmagado de tanto que ele se aperta.
— São dez dias, você mal vai perceber – ele fala me puxando pra perto dele, eu não digo nada, apenas passo meus braços em volta dele e afundo meu rosto no seu peito, quando o elevador abre ele me solta, pega a mala e saímos do elevador, eu vou com ele até o carro, o motorista ajuda com a mala e nos cumprimenta sorrindo.
— Tem certeza que não quer que eu vá? – ele segura meu rosto com as duas mãos e me olha diretamente nos olhos.
— Você acha que eu conseguiria entrar naquele avião com você me olhando? – não respondo, apenas o beijo, ele não reclama, mas quando para eu uso meu melhor sorriso.
— Não vá se encantar por nenhuma cheff fodona ein – ele ri e me dá um selinho.
— Nem você por nenhum advogado fodão – eu faço uma cara de dúvida, ele beija minha testa e se afasta, já entrando no carro, eu aceno enquanto o carro se afasta e quando ele desaparece de vista eu solto um som meio engasgado.
— Não acredito que esse cuzão foi sem se despedir – a voz do Vinny me alcança, quando olho pro lado ele vem na calçada do prédio com a sacola do mercado.
— Tava na hora dele e você sumiu – ele faz uma careta.
— Já pode parar de defender ele... Pelo menos nos próximos dez dias – ao invés de achar graça eu sinto vontade de chorar, mas como eu sei que isso seria infantil e egoísta, apenas mostro o dedo do meio pra ele e entramos no prédio.
— E as coisas pro primeiro show na Fronteira? – ele abre aquele sorriso ansioso e então o assunto muda e eu consigo me distrair, ele conta que o primeiro show será sábado agora e quando me lembro que Rafa não vai estar sinto um pouco daquele incomodo voltando, mas logo faço mais perguntas e mudo meu foco, Vinny está todo empolgado e fico feliz por ele.
— Não é estranho você pensar na nossa vida agora e como ela era a sei lá, uns 10 meses atrás? – ele pergunta enquanto se joga no sofá ao meu lado.
— É meio louco! – ele balança a cabeça confirmando.
— Eu tinha certeza que ia demorar mais uns 10 anos até me apaixonar por alguém...
— Bom, eu tinha certeza que nunca mais ia me apaixonar por alguém...
— E olha só pra nós dois – ele me olha, mas sorri satisfeitos.
— Quando nós viramos dois molengas? – ele ri e dá de ombros.
— Posso parecer um molenga, mas eu não troco isso por nada nesse mundo
— Nem eu – ele coloca a mão sobre a minha e sorri.
— Eu fico muito feliz por vocês... O Rafa, ele é perfeito, quer dizer, um imbecil as vezes, mas ele te ama de verdade...
— A Bianca também, os olhos dela brilham quando falam de você, eu adoro ver isso...
— Acho que nós tiramos a sorte grande
— Acho que sim – ele se inclina e beija minha testa.
— São só dez dias – ele pisca um dos olhos e a campainha toca, eu já estava me levantando quando a porta abre e Lia entra.
— CHEGUEEEEEEEI – ela abre os braços e vem correndo até nós.
— Agora qualquer um pode entrar aqui? – Vinny implica com ela e leva um tapa na cabeça, depois ela se joga sobre nós dois.
— O que você tá fazendo aqui?
— Seu namorado tá com medo de você se afogar no vaso ou algo assim – eu acabo rindo.
— Ele tá se achando muito, ela tem a mim – Vinny fala e me puxa pra ele.
— Mas foi a mim que ele procurou – ele bagunça o cabelo dela e ela faz um pequeno escândalo.
— Vocês vão ser expulsos – Bruno avisa também já entrando pelo apartamento com algumas sacolas, eu consigo escorregar do sofá e sair do meio da briga deles dois – Brigadeiro? – eu arregalo os olhos e faço um sim com a cabeça exagerado.
— Não era pra eles estarem me mimando pra que eu não saia correndo até o aeroporto? – eu pergunto apontando os dois que ainda estão discutindo no sofá, mesmo que entre cócegas, risos e caretas, Bruno ri.
— Quando o brigadeiro começar a cheirar ela para – ele fala e alguns minutos depois enquanto estamos conversando e ele mexendo a panela com o brigadeiro Lia aparece se inclinando sobre o balcão.
— O que vocês estão falando?
— Ué, cansaram? – olho pra ela e pro Vinny, ele se aproxima de mim e me abraça por trás colocando um beijo na minha bochecha.
— A Bianca tá vindo pra cá, tá?
— Como se isso fosse uma novidade né? – ele morde minha bochecha e eu acerto uma cotovelada nele, Bruno tira a panela do fogo e então eu e Lia pegamos colheres e corremos pra sala, Vinny e Bruno vem atrás de nós com um engradado de cerveja e se sentam no chão a nossa frente, não demora muito e a Bianca chega, mas ela dispensa o chocolate e bebe com eles, então como sempre acontece eles escolhem um filme de terror e eu juro que nunca mais falo com eles, mas acabo agradecendo pela distração, quando vejo meu celular, já tem uma mensagem do Rafa dizendo que chegou bem e que está se instalando, então seguro a vontade de ligar pra ele e volto a prestar atenção na conversa, só depois que eles vão embora e que entro no meu quarto que eu ligo pra ele, a animação na voz dele consegue me fazer sorrir, ele conta sobre como o hotel é bacana, fala que já conheceu onde será o curso, que está ansioso por amanhã e que já está morrendo de saudade, eu conto sobre o pessoal ter passado o dia aqui e ele fica mais aliviado, conversamos por mais um tempinho e então os dois precisam dormir.
As coisas no escritório se agitam, alguns casos importantes estão em fases finais e isso requer muito relatório, mal consigo parar pra almoçar e como um sanduiche enquanto adianto uma pauta importante pra uma reunião que vai começar em 40 minutos, então abro meu email pra pegar umas informações e na hora que eu abro a pagina a foto do Rafael me faz parar e esquecer o que eu estava fazendo, eu clico em cima e então uma foto dele puxando a mala enquanto entra no hotel está destacada, outra dele falando com alguém no balcão está na lateral da pagina, enquanto a matéria conta.
Rafael Viana, neto do grande empresário Pedro Viana, foi visto hoje dando entrada em um hotel no centro da cidade de Santa Catarina, o solteiro mais cobiçado do país estava sozinho e com apenas uma mala, sua hospedagem deve durar a semana inteira e ainda permanece um mistério o motivo de sua viagem. Há alguns meses o futuro herdeiro permaneceu afastado das mídias, o que causou um grande alvoroço sobre o que ele estaria fazendo, mas quem sabe, esse não seja o grande retorno desse que era o queridinho das câmeras, de qualquer maneira, mulheres de Santa Catarina, desejamos boa sorte pra quem tentar conquistar esse coração.
Eu releio pelo menos mais uma vez e a parte onde diz “solteiro mais cobiçado” ainda é a que mais me incomoda, ele não é solteiro, ele tem namorada. EU SOU a namorada dele. Isso é ridículo. Quem eles são pra escreverem essas palhaçadas e ainda incentivar alguém a conquistar o coração dele, bom, adivinhem só, EU já fiz isso.
— Preciso da ultima ata do caso dos Borcheles – Dr. Leones pede me distraindo.
— Claro, eu levo em um minuto – ele concorda e vai pra sala dele, enquanto eu olho uma ultima vez a matéria e fecho a pagina – Babacas – xingo baixo, junto os papéis e vou pra sala do Dr. Leones, entrego o que ele pediu junto com a ata que já está pronta, repassamos algumas anotações e pontos importantes e a reunião logo começa, acaba sendo um pouco mais longa que o previsto, porém muito mais proveitosa, mas assim que eu chego na minha mesa e verifico meu celular, vejo as ligações perdidas, 5, todas do Rafa, eu retorno, mas dessa vez é ele quem não atende então eu começo a ficar irritada de novo e isso dura até o fim do expediente, já estava entrando no campus da faculdade quando meu celular toca.
— Oi! – falo séria e meio irritada.
— Você viu! – ele afirma já me conhecendo tão bem.
— O quê? Sobre o solteiro mais cobiçado do país?
— Dani...
— E aí, alguém já teve o prazer de conquistar esse coração?
— Eu amo você – mesmo querendo continuar irritada acabo sorrindo – Eu amo você e odeio estar tão longe...
— Eu odeio que pensem que você ainda é o solteiro mais cobiçado do país...
— Mas eu não sou!
— Mas eles pensam que sim...
— E isso importa?
— Importa para as solteiras de Santa Catarina – ouço a risada dele.
— Elas não tem chance nenhuma, a única mulher que me importa deve estar agora com aquela cara linda, sexy e maravilhosa de quando ela tá cheia de ciúmes...
— Vai se ferrar – ouço ele rindo de novo.
— Eu amo você – ele fala com a voz mais baixa – Você vai me fazer te pedir? – eu sorrio sem conseguir negar nada a ele.
— Eu amo você – eu praticamente consigo enxergar o sorriso que ele sempre me dá quando digo isso – Minha aula tá começando...
— A gente se fala depois – nós desligamos e eu ainda sorrio de um jeito meio bobo.
— AHHHHH o amor – Matheus passa por mim puxando meu cabelo, eu acerto um tapa na mão dele, mas acabo rindo e o sigo, me sentando na cadeira ao lado da dele.
A aula foi longa e quase torturante, temos um trabalho pra apresentar e assim que somos dispensado já fazemos as divisões das tarefas. No caminho pra casa compro um lanche e quando chego no apartamento como pela sala mesmo, Vinny ainda não chegou e eu vou pro quarto, Rafa me liga e conversamos até tarde, assim que desligamos eu pego no sono.
No dia seguinte eu acordo cedo, saio de casa na hora certa e chego com dez minutos de antecedência no trabalho, aproveito pra verificar algumas coisas, ligo meu computador e quando vejo outra foto do Rafa eu já começo a ficar mau humorada, porém clico na noticia novamente e dessa vez meu sorriso se abre.
Após nossa nota no site ontem, tivemos uma inesperada ligação dele, o próprio Rafael Viana, que fez questão de nos responder e esclarecer alguns pontos, o principal deles talvez seja a péssima noticia para as solteiras que tinham interesse nele, que já não é mais o solteiro mais cobiçado do país, nas palavras do próprio Rafael, ele garante:
“Eu nunca vivi uma fase tão boa na minha vida, pela primeira vez na vida me sinto completo e feliz, e tudo isso tem um único nome: Daniela! Ou como eu gosto de dizer, a mulher da minha vida(...) Então eu já não sou mais um solteiro, há oito meses eu sou só o cara mais sortudo do mundo!”
Ficamos felizes por essa fase tão linda desse jovem que já arrancou tantos suspiros, esperamos de coração que seja ainda mais feliz.
Eu puxo meu celular da bolsa e disco o numero.
— Você é louco? – minha voz sai entre a diversão e a aprovação.
— Por você? Completamente – eu acabo rindo.
— Você não precisava ter feito isso...
— Tem certeza? – eu acabo rindo.
— Eu adorei! – ele também ri.
— Então eu tinha que ter feito...
— Louco!
— Se eu fosse você pensaria em uma maneira de recompensar o ex solteiro mais cobiçado do país...
— AHHHH mas eu já pensei em várias formas...
— Já?
— Ah já!
— Aí caralho...
— Eu tenho que ir e você também – falo rindo.
— Eu ligo hoje a noite e nós voltamos nesse assunto...
— Tchaaaaau – desligo ainda rindo.
O dia foi agitado, aliás, a semana inteira foi agitada, reuniões e idas ao fórum, na faculdade as coisas parecem brotar do nada e eu nem sei como estou com 3 trabalhos acumulados, quando chego no apartamento fico dividida entra adiantar as coisas do escritório ou os trabalhos, acabo dormindo bem tarde, mas quando o celular toca e Rafa começa contar sobre como foi o curso dele eu fico mais relaxada e contente por ele estar gostando tanto de tudo, ainda sinto saudade dele, demais, mas nós dois estamos realizando nossos projetos então isso ameniza as coisas, e durante toda a semana foi fácil passar por isso, até que no dia da apresentação da banda eu realmente senti a falta dele mais do que todos os dias que se passaram, mesmo sendo só 4, parece uma eternidade, ver a Lia e Bruno juntinhos, assim como todos os casais que parecem brotar na minha frente pra cada canto que eu olho torna tudo isso ainda mais chato e irritante, mas é um show da banda do Vinny, eu não perderia por nada nesse mundo, eu sempre estarei na primeira fileira aplaudindo ele e é isso que eu faço, ao lado da Bianca que grita e canta junto com eles, eu me permito esquecer o meu drama romântico e comemorar o sucesso do melhor amigo e é cada vez mais fascinante ver que ele tem se tornado um verdadeiro artista, não só o carisma, como o talento e a facilidade de se adaptar a qualquer situação, posso ser suspeita pra falar, mas pra mim ele é o melhor do mundo todo.
O dia seguinte eu vou pra casa dos meus pais, já que mamãe reclamou que não fui no domingo passado, eu almoço com eles e como está com sol, eu e papai entramos na piscina, mamãe como sempre inventou uma desculpa e apenas ficou nos olhando, depois nós assistimos a um programa de música que ela gosta e eu só volto pra casa a noite, por que tenho trabalho no dia seguinte e a loucura recomeça, mas pelo menos na faculdade os trabalhos são apresentados e discutidos, então um peso sai dos meus ombros e consigo respirar um pouquinho melhor durante a semana, sempre falo com Rafa antes de dormir, ele me conta sobre as coisas dele e eu conto sobre meu dia, falar com ele deixa bem evidente a falta que ele faz aqui e por mais que ele tente disfarçar sei que ele também sente isso, mas nenhum de nós dois fala sobre a falta exageradamente louca que o outro faz, apenas fazemos de conta que estamos lado a lado, embora quando eu desligue o celular, o quarto parece grande demais sem ele, minha cama parece infinita sem o corpo dele ao lado do meu e eu sempre durmo agarrada ao travesseiro que já tem o cheiro dele, por isso quando acordo na sexta de manhã estou mais ansiosa que qualquer outro dia, vou pro escritório quase saltando de alegria por que ele volta hoje, HOJE.
Meu celular toca na hora do almoço, eu sorrio assim que vejo o nome.
— Eu tava pensando em você agora mesmo – eu falo sem tentar parecer menos idiota – O que você acha da gente ir naquele restaurante italiano hoje?
— Tá ocupada? – eu estranho a falta de animação e o tom de voz dele.
— Pode falar...
— É que sobre hoje, eu... Eu meio que vou ter que ficar mais uns 2 dias aqui, volto na segunda...
— Por que? – também não disfarço meu desgosto.
— Eu tô tentando fechar uma parceria muito boa, não dá pra deixar passar... Eu sei que é um merda isso, mas você entende, não entende, amor? – eu queria dizer que não, gritar e mandar ele entrar na droga do avião agora mesmo, mas não posso fazer isso.
— Claro, a gente se vê segunda então, eu tenho que desligar – não espero resposta dele, apenas desligo o celular e sinto cada gota de ansiedade e animação desaparecer dentro de mim, eu estava esperando ansiosa pelo fim da tarde, exatamente as 17:20 que era o horário do voo dele, mas agora parece que não tem mais graça o tempo passar rápido, eu não vou ver ele hoje e por mais que eu queira o sucesso dele, não consigo evitar ficar chateada e magoada por essa ter sido uma decisão tão fácil pra ele.
— Daniela! – a voz me distrai, Dr. Leones está na frente da minha mesa, eu balanço a cabeça afastando qualquer outro pensamento e me concentro no trabalho.
Quando o expediente acaba, não tenho animação nenhuma pra ir pra aula, então vou direto pro apartamento, está vazio e eu vou direto pro meu quarto, me jogo na cama e fico encarando o teto, hoje, exatamente agora ele parece ainda maior, mais vazio e mais solitário do que foi durante esses dez últimos dias, eu só o queria aqui comigo, só isso, mas não, ele simplesmente decidiu acrescentar mais dois dias longe, ok, não quero ser injusta, sei que é difícil pra ele também, mas fala sério, desde que ele chegou aqui no apartamento, mesmo quando eu o odiava, ainda assim nunca ficamos tanto tempo longe um do outro, quando não éramos amigos eu precisava implicar com ele, reclamar ou apenas xingar ele, quando nos tornamos amigos eu precisava dele pra me fazer rir, pra conversar sobre as coisas bobas e me fazer companhia nas noites solitárias e agora como meu namorado, eu preciso dele pra me fazer me sentir completa, me acalmar, me dar segurança e a certeza que tudo está no lugar certo, mas ele não está aqui e tudo que eu sinto é que ele DEVERIA estar.
— Ué, cadê ele? – Vinny pergunta já entrando no meu quarto, quando levanto meu rosto ele faz uma cara triste e vem até a mim, ele se deita comigo na cama e me puxa pra ele enxugando minhas lagrimas – Ele encontrou a Paolla Carossela e se apaixonou por ela né? – eu acabo rindo e tento dar um tapa nele, mas ele me aperta mais nos seus braços.
— Ele vai ficar mais dois dias... Dois dias!!! Isso dá doze dias, Vinny...
— Ainda bem que você fez as contas, sou péssimo em matemática – ele implica comigo e mesmo querendo chorar, acabo rindo de novo.
— Idiota – ele beija minha cabeça e me balança.
— Você já passou por dez, dois é moleza!
— Queria ver se fosse a Bianca...
— Eu já tava louco – ele dá de ombros.
— Super conselho – faço um sinal de positivo.
— Faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço – acabamos rindo – Mas você vai no show né? – eu olho pra cima fazendo uma careta e ele me encara reprovando – Qual é Dani?!
— A ultima vez parece que todos os casais da cidade resolveram demonstrar seu lado apaixonado na minha frente, eu não sei se to afim de ficar de vela de novo...
— É o meu show!
— Tecnicamente é show da banda – ele me encara.
— Você vai!
— Vinny...
— Se você não for eu vou ficar chateado, de verdade, ele pode ser seu namorado, o amor da sua vida, seu mozão e o caralho que for, mas eu sou seu melhor amigo, não esqueça disso – ele me encara, beija minha testa e se levanta, eu solto o ar e continuo deitada enquanto ele sai do quarto e eu sei que ele está certo, não posso faltar com ele só por que estou chateada com alguma coisa boba assim, então eu vou, só preciso preparar meu estômago.
Quando eu termino de me arrumar Lia manda mensagem avisando que já estão lá embaixo, desço correndo e logo vamos para o lugar do show, mal entramos com nossas pulseiras VIP e Lia me arrasta pro bar, pedindo duas doses de tequila.
— Vamos com calma, querida – eu falo, mas ela dá de ombros.
— Eu quero encher a cara – eu a encaro e então levo um segundo pra concluir.
— Você e o Bruno brigaram – ela fica ainda mais séria e quando olho pro Bruno que está falando com a Bianca tenho certeza que sim – Vai me falar ou vou ter que implorar?
— Ele é um babaca!
— Tá, mas vamos pra parte da novidade logo – ela sorri quando eu falo, por que ela adora que eu xingue ele ou aceite ela xingando ele quando eles brigam.
— Ele disse que sou mimada...
— Eu disse pra pular pra parte da novidade
— EI! Eu não sou mimada – ela reclama irritada.
— Lia, claro que é...
— Não sou – ela cruza os braços e me encara.
— Lembra quando nós queríamos pintar a parede da sala do apartamento de vermelho e você bateu o pé que o salmão era melhor e então fez drama e disse que não aceitava outra cor?
— Aquilo era questão de bom gosto e não de ser mimada...
— Lembra quando eu disse que não ia pro acampamento de férias, mas você apareceu lá em casa com sua mala pronta e disse que não queria nem saber, mas eu iria...
— Você é minha melhor amiga – ela dá de ombros.
— E você é minha, então como sua melhor amiga, me permita dizer: Você é mimada! – ela desfaz a cara de irritada – Mas eu te amo exatamente assim, tenho certeza que ele também...
— Eu ainda quero encher a cara – ela fala e eu acabo rindo e abraço ela apertando-a, então viramos nossas doses de tequila.
Depois de mais duas doses, anunciam o show da banda e nós vamos pra frente do palco, Bianca já está lá com Bruno e ele me olha daquele jeito que ele sempre faz quando quer saber se eu já acalmei a Lia e quando eu sorrio e pisco o olho, vejo o alivio quando ele sorri e se aproxima de nós, Lia tenta parecer indiferente, mas quando ele passa os braços em volta dela, ela não o afasta e eu vou pra mais perto da Bianca, deixando os dois se acertando. O show é bem animado como sempre e quando olho pra Lia e pro Bruno estão se beijando, acabo rindo satisfeita, mas logo desvio os olhos da cena, e volto a olhar pro palco, até que Vinny começa um aviso.
— A música que a gente vai tocar agora é um pedido de um fã da banda que chegou ontem pra mim, não faz muito nosso estilo, mas o motivo foi bem convincente, então... – ele sorri fazendo um mistério e quando começam a tocar eu reconheço imediatamente a música, é a mesmo música que o Rafa vive dizendo que é a nossa.
— Sério? Jura que ele tinha que cantar justamente essa musica justamente hoje? – eu não tento disfarçar minha irritação e Bianca me olha meio confusa.
— O quê que tem?
— É... Não importa, eu preciso encher a cara – eu aviso e já ia saindo mas ela segura meu braço.
— Ah nem pensar, você vai ficar, não vai me largar aqui sozinha – eu olho pra ela fazendo uma cara de tédio, mas ela dá de ombros e volta olhar pro palco e cantar junto com o Vinny.
...seria pior não ter nunca mais
o seu mau humor me tirando a paz
mas cinco minutos depois
te provoco risos, te beijo à força
e mais uma vez você me perdoa
diz eu te amo com voz rouca...
Eu praticamente consigo ouvir a voz do Rafa e seu sorriso implicante enquanto cantava essa música pra mim, num dia que estávamos jogados na cama rindo e falando besteiras, ele praticamente fez uma defesa memorável do por que essa música tinha que ser a “nossa música”, segundo ele, ela é perfeita por que nos descreve perfeitamente, principalmente a parte onde eu sou mau humorada, por mais que eu tivesse negado na hora, realmente essa música faz todo sentido pra nós dois, mas agora, sendo cantada aqui num meio do show onde eu estou sozinha, ela parece completamente errada e continuar ouvindo ela é ainda pior por que é como cutucar uma ferida aberta, então eu aproveito que a Bianca se distraiu e me afasto com cuidado dela, mas assim que me viro dou de cara com ele, o sorriso divertido brincando nos lábios dele enquanto ele fica parado me olhando fixamente e segurando uma única rosa vermelha na mão, então não importa o que eu deveria fazer, a única coisa que consigo é me jogar nos braços dele, ouço sua risada e sinto o aperto forte dos seus braços em volta de mim e é impressionante como automaticamente eu me sinto no lugar certo, ele afunda o rosto no encaixe entre meu ombro e meu pescoço.
— Meu Deus, como eu senti falta do seu cheiro – ele fala parando o rosto de frente do meu e eu faço a única coisa pensável, eu o beijo, nunca o beijo pareceu tão certo e tão desesperado ao mesmo tempo, é como se eu tivesse querendo compensar todos os dez dias e mesmo assim quando para ainda falta muito pra isso acontecer.
— Vamos? – ele indica a saída.
— Eu tenho que avisar eles – ele ri.
— Você acha mesmo que o Vinny ia cantar Jorge e Mateus por qualquer pedido? – eu abro um sorriso ainda maior.
— Eles já sabiam! – ele ri e me puxa junto com ele.
— Anda que eu não aguento mais um minuto longe de você – eu não preciso pensar em mais nada, apenas sigo junto com ele, passamos pelas várias pessoas no meio do nosso caminho e alcançamos o estacionamento, assim que me aproximo do carro, ele me encosta na porta e me beija sem aviso nenhum e eu nem penso em reclamar, apenas o puxo ainda mais pra junto de mim, mas quando começa e ficar mais forte, ele quem para, o sorriso malicioso no rosto, ele abre a porta e eu entro, depois corre pro lado dele e entra.
— Eu não acredito que você mentiu pra mim – eu tento parecer reprovar, mas não existe nenhuma sombra de irritação na minha voz, tudo que eu consigo fazer é olhar pra ele, tocar seu rosto, seu cabelo e sorrir como uma idiota.
— Era uma surpresa – ele levanta os ombros e me olha rapidamente com um sorriso que deve ser tão grande quanto o meu.
— Você pode por favor ir mais rápido? – ele ri.
— Tô fazendo o melhor... – e realmente está, por que o caminho que deveria durar uns 15 minutos, dura quase 10, ele estaciona o carro na garagem do prédio e logo sai do carro, eu também não perco muito tempo e quando me aproximo dele ele segura minha mão e leva até a boca beijando-a enquanto andamos até o elevador – Eu senti tanto sua falta – e ele admite assim que as portas se fecham e ele me puxa pra junto dele.
— Eu nem sabia que meu quarto é tão grande – ele ri e afunda o rosto no meu pescoço, sua barba arranhando minha pele – Eu realmente achei que fosse verdade – ele levanta o rosto pra me olhar.
— Eu não sei como aguentei algumas horas a mais, mais dois dias tá completamente fora do que eu suporto – seus olhos brilham de sinceridade e eu o beijo, mas mal o beijo começa e a porta se abre no nosso andar, nós saímos de mãos dadas e eu que abro a porta, assim que entro e acendo a luz tenho que suprimir um som surpreso quando vejo o caminho de pétalas vermelhas que tem da porta para o corredor dos quartos, eu olho pra trás e ele está sorrindo, ele fecha a porta e aponta pra que eu siga, então eu sigo, o caminho leva até a porta do meu quarto, eu abro e mais pétalas estão espalhadas pelo chão e pela cama que está perfeitamente arrumada e coberta de pétalas vermelhas, ele passa por mim e levanta o dedo pedindo um segundo, então ele apaga a luz, se afasta alguns segundos faz alguma coisa e então o quarto se ilumina com luzes amareladas, deixando o visual ainda mais perfeito e romântico.
— Eu não acredito que você fez tudo isso – ele se aproxima de mim e mesmo com a iluminação mais fraca vejo o sorriso satisfeito no rosto dele, seus dedos tocam meu rosto e afastam uma mecha de cabelo para atrás da minha orelha.
— Eu faço qualquer coisa só pra ver esse sorriso...
— Você é louco!
— Achei que já tivéssemos passado desse tópico – ele ri e então novamente tudo que eu faço é me jogar nos braços dele e dessa vez sem pausas, apenas saudade, amor, paixão e desejo.
Quando eu abro os olhos de manhã e o encontro dormindo ao meu lado eu sorrio e não consigo resistir ao desejo de me agarrar nele, então eu o aperto e encosto meu rosto nas suas costas nua, ele se mexe um pouco e eu começo beijando do meio das suas costas até seu ombro, paro meu rosto perto dele e antes de abrir os olhos ele sorri.
— Eu posso me acostumar a acordar assim – ele fala e abre os olhos, então eu o beijo.
— É que você precisa limpar a bagunça do quarto – ele solta uma risada divertida.
— Achei que você tivesse achado incrível...
— Ah eu não estava pensando muito bem ontem – ele ri e se vira de barriga pra cima e me puxa pra junto dele, depois num movimento rápido eu estou por baixo dele e ele me olha com aquele sorriso divertido.
— Eu ainda tenho dez dias de saudade pra matar – ele avisa antes de me beijar e estendermos nossa manhã o máximo que conseguimos.
Quando estamos com fome saímos do quarto e descobrimos que estamos sozinhos no apartamento, então eu o ajudo a preparar alguma coisa pra gente comer, já que estamos na hora do almoço, enquanto isso ele me atualiza das ultimas novidades, ele conta que achou a arquiteta/decoradora perfeita, ela também estava no tal curso e trabalha com tipo de designer que ele quer colocar na hamburgueria.
— Ela chega amanhã, a gente já deu uma conversada então meio que já sei o que quero fazer, mas ela precisa ver o espaço e tal...
— E tem previsão de quanto tempo deve levar, por que o espaço tá bem preservado né? Não teve demorar tanto...
— É, eu acho que coisa de um mês, mas pela parte burocrática e alguns detalhes, por que realmente não tem muito o que se consertar...
— Eu tô tão feliz por você, sério... Eu sabia que você ia conseguir, mas... Cara, você vai abrir uma hamburgueria, tem noção disso? – ele para o que estava fazendo e me olha meio sonhador, meio impressionado.
— As vezes eu acho que sei lá, é alguma espécie de sonho bem louco e eu vou acordar e nada disso é real – agora é minha vez de abandonar o que estou fazendo, eu vou até ele com as mãos no seu quadril.
— Mas é real, tudo isso é real... E você merece cada pedacinho...
— Será? – ele realmente parece em dúvida – Quer dizer, eu nunca fui um anjo certinho, nem nada... Eu só... Sei lá, parece que tô recebendo muito mais do que mereço...
— Então agradeça – ele libera um sorriso e passa os braços em volta da minha cintura.
— Eu faço isso todo dia – eu sorrio e lhe dou um beijo rápido.
— Então faça isso enquanto termina o almoço por que tô morrendo de fome – faço uma careta e então voltamos a cozinhar.
Passamos o dia inteiro sozinhos no apartamento e a cada hora que passa parece mais distante os dez dias que passamos separados e eu me sinto mais completa e mais feliz do que me lembrava e tudo parece mais simples.
Assim como ele disse, leva um mês quando a hamburgueria é declarada pronta, tudo está perfeito, os sofás de couro que se misturam a cadeiras de madeira, os dois espelhos gigantes de parede inteira que ficam nas paredes laterais, as luminárias amarelas espalhadas acima de cada mesa, as outras duas paredes com papel de parede de pedras rústicas, o grafite que tem logo atrás do caixa, a cozinha totalmente equipada e limpa, o desenho da letra R desenhado em meio a galhos secos que fica logo na faixada com o nome ficou ainda melhor do que parecia no papel, tudo do jeito que ele planejou e eu mal posso acreditar que hoje é a inauguração, mesmo que nós já estejamos aqui, mesmo vendo ele correndo de um lado pro outro terminando de dar instruções para o pessoal que ele contratou, mesmo assim parece surreal, Vinny, Bianca, Lia e Bruno já estão aqui e também nos ajudaram nos últimos detalhes e então quando finalmente abrimos o lugar e as pessoas começam a entrar eu corro até ele e apenas o abraço, não preciso dizer nada, ele não precisa dizer nada, nós sabemos e isso é suficiente, mas como a casa logo enche, eu o deixo trabalhar e fico pelo salão vendo se falta algo, mas todos estão rindo, tirando fotos, fazendo pedidos e eu só sinto orgulho, mais a cada minuto.
— Posso falar com você? – Bianca aparece quase me dando um susto enquanto eu arrumo os menus extras que estavam espalhados no canto do balcão.
— Se o Vinny foi um idiota é só avisar onde você quer que eu soque ele – eu falo brincando, mas só quando ela não ri que eu percebo que ela parece meio nervosa – Tá tudo bem?
— Eu preciso falar com você – eu balanço a cabeça concordando e então levo ela junto comigo para a pequena sala/escritório.
— Aconteceu alguma coisa? – ela concorda – O quê? – ela respira fundo – Fala, pelo amor de Deus...
— Aconteceu uma coisa, uma coisa que não era pra acontecer e eu... Eu não sei como falar isso...
— O quê que aconteceu?
— Não era pra acontecer, eu só... Eu nem sei como isso pôde acontecer...
— Bianca pelo amor de Deus, fala logo o que houve...
— Eu tô grávida! – a notícia me faz parar, é como se a voz dela repetisse isso várias e várias vezes.
— Grávida? Tem certeza – ela confirma.
— Eu fiz o exame ontem, e eu sei, é loucura, é errado, eu juro que não sei como deixei isso acontecer, eu só... – eu a interrompo e a abraço, ela para de falar na hora e parece meio sem jeito.
— Oh meu Deus, grávida! Você tá gravida – eu a afasto alguns centímetro mas não consigo parar de sorrir – Eu vou ser titia! Ai meu Deus...
— Isso não era para acontecer, Dani...
— Foda-se, você tá gravida, eu vou ser titia... – eu a abraço de novo – O Vinny vai pirar...
— Eu sei, eu nem sei como contar pra ele...
— Sei lá, tenta algo tipo: “Tô gravida, parabéns papai” – ela me encara como se fosse uma péssima ideia.
— Ele vai pirar...
— Bianca, confia em mim ele adora crianças, mesmo quando ele era um imbecil que não se apaixonava ele sempre sonhava em ser pai e ele ama você, eu tenho certeza que ele não pensa em nenhuma outra pessoa pra realizar esse sonho...
— Mas não era esse o plano, nós ainda estamos namorando, a formatura dele é no final do ano, eu... Eu ainda tô na metade da minha, eu... A gente não tá pronto...
— Ninguém tá pronto pra isso, é um bebê, um filho, isso muda tudo, não importa quanto seja planejado, ninguém nunca tá pronto, mas uma coisa eu posso garantir, esse bebê – eu toco a barriga dela – Vai ser o bebê mais amado do mundo, por você, pelo pai e pela titia maisi babona desse mundo — eu falo com aquela voz de retardada e ela ri – Você tem que contar pra ele, eu juro que não posso segurar essa notícia por muito tempo... Eu vou ser titia! – eu dou pulinhos e bato palmas e ela ri.
— Eu não sei como fazer isso... Como contar pra ele – ela fala parecendo nervosa então eu sorrio.
— Eu sei – ela me olha meio curiosa – Mas preciso contar isso pra mais uma pessoa, pode ser? – ela concorda – Na verdade pra duas, por que a Lia pode acabar matando nós duas e eu quero muito ser titia – bato palminhas e ela ri.
— Tudo bem – então assim que saímos da salinha eu olho na direção da mesa que eles estão e faço sinal pra Lia, ela logo se levanta e vem até nós.
— Nós temos uma grande surpresa pra fazer – eu aviso e Lia nos olha curiosa.
— Que surpresa? – eu sorrio quando ela pergunta e a levo pra cozinha junto com a Bianca, então vou até o Rafa que termina de fechar um pedido, ele logo vem até a mim e me dá um selinho, então quando ele se junta a nós eu falo pra Bianca contar e ela ainda parece nervosa, mas quando dá a noticia Lia e Rafa são quase tão exagerados quanto eu e isso faz ela rir e parecer mais calma, então eu conto o que pensei em fazer, Rafa adora a ideia e Lia também, Bianca ainda nos olha meio receosa.
— Você só precisa ficar preocupada em ele não desgrudar mais de você nem pra você ir no banheiro – Lia fala e eu sou obrigada a concordar, ele pode ser bem protetor quando ele quer e com certeza um filho se encaixa na proteção máxima dele.
Nós deixamos Rafa preparando o pedido que fizemos e voltamos para o salão, dessa vez me junto a eles, Vinny e Bruno estão rindo de alguma piada de time de futebol e ainda bem que ele está distraída por que Bianca está quase arrancando as unhas de nervoso, e eu e Lia quase saltitando em cima da mesa de animação e quando Rafa aparece trazendo uma prato nas mãos eu, Lia e Bianca nos olhamos tentando nos conter.
— Pedido especial – Rafa fala antes de colocar o prato na frente do Vinny, é um brownie de chocolate que é o doce preferido dele, mas que está com o prato desenhado com calda de chocolate, na verdade escrito com a frase “Para o papai mais lindo do ano!”, ele ri assim que olha pro prato.
— Tudo bem que a casa tá cheia mas errar nosso pedido é sacanagem – ele fala rindo e já levantando o prato pra devolver, mas Rafa apenas levanta as mãos em inocência e sorri, então ele olha em volta eu não consigo disfarçar meu sorriso, nem a Lia, Bruno está com os olhos arregalados já entendendo a noticia e Bianca morde a boca nervosa olhando pra ele – Isso é... Eu... Você tá grávida? – ele pergunta meio em choque, ela apenas balança a cabeça e vejo uma lagrima escorrendo, então assim como eu imaginei o sorriso no rosto dele é maior do que qualquer outro sorriso que ele já tenha dado – Eu vou ser pai? Puta que pariu, eu vou ser pai? Caralho! Eu vou ser pai – ele não se importa com mais ninguém, apenas se levanta e dá a volta indo até ela que estava na frente dele, ele se abraçam e ele tira os pés dela chorando e a girando no ar, ele joga a cabeça pra trás e anuncia pra quem quiser ouvir – EU VOU SER PAI, PORRA! – nós rimos e batemos palma, então todo mundo dentro da hamburgueria também aplaude, assovia e faz barulho e automaticamente esse momento em que eu o vejo tão feliz assume o lugar de um dos meus momentos favoritos da vida toda.
— Eu vou ser titia – eu falo pro Rafa, ele ri e me beija.
— Eu nunca peguei uma titia – ele sorri de um jeito safado e eu acabo rindo.
— Quem sabe você tem sorte essa noite – eu finjo dúvida.
— Eu vou expulsar todo mundo agora mesmo – nós dois acabamos rindo.
— Ei, se controlem, eu só posso me concentrar em ser madrinha de um bebê de cada vez... – Lia avisa fazendo cara de que está de olho.
— ATENÇÃO, ATENÇÃO, UMA RODADA DE CHOPP PRA TODO MUNDO – Vinny anuncia todo animado e o pessoal vai a loucura.
— Se acalma aí o garotão, você vai ser pai e pelo que eu ouvi isso gasta bastante dinheiro – Bruno avisa e Vinny dá de ombros.
— Mas é por conta da casa – ele olha pro Rafa e dá uma piscada, Rafa tenta fazer uma cara feia, mas acaba sorrindo.
— Só uma! – ele avisa e Vinny manda um beijo no ar pra ele e depois volta a paparicar a Bianca e então quando todos estão com o chopp e nós brindamos, eu tenho certeza que esse é um daqueles momentos históricos em que nós sempre iremos lembrar e rir e sentir a mesma emoção que estamos sentindo agora.
Fale com o autor