Superando o passado
20 Pov Rafael
Já tem um mês que eu e Dani não trocamos mais do que uma frase por dia e eu ainda odeio isso tanto quanto odiei no primeiro dia, as vezes eu não consigo entender como posso sentir tanto a falta de alguém assim, é horrível, é doloroso, apavorante e surreal, mas eu não posso voltar atrás, não é justo com ela, não é justo com o Vítor e sendo meio egoísta, não seria justo comigo, eu não quero me transformar num filho da puta como o Henrique foi pra mim, se fingindo meu amigo e comendo minha namorada pelas minhas costas, não que eu tivesse intenção de “comer” a Dani e então só de pensar nessa palavra me lembro dela toda brava brigando comigo e me chamando de machista.
MEU DEUS, SÓ FAZ ISSO PARAR DE DOER!!! É enlouquecedor isso tudo, eu sinto tanto a falta dela que outro dia eu estava deitado na cama pedindo pra ter um avc, ou sei lá, qualquer coisa que me causasse uma amnésia e apagasse os últimos 5 meses da minha mente, mas é claro que isso não aconteceu. E eu sinto mais saudade dela do que já senti de qualquer outra coisa, eu só queria voltar até o momento em que as coisas mudaram, quando dei meu ataque... Eu poderia ter calado a boca, poderia ter aceitado aquilo tudo e ter mantido ela por perto, poderia ter engolido qualquer mágoa e sentimento de abandono, eu poderia, sei que poderia, fiz isso a vida inteira, deveria ter feito isso para mantê-la perto, um lado meu diz que era o exatamente o que eu devia ter feito, mas outro insiste dizendo que eu fiz o certo, que me afastar e afastar ela foi o melhor pra nós dois, eu esperava dela algo que ela nunca me prometeu, algo que ela nem sequer pensava que eu queria, então era totalmente injusto cobrar algo, eu não poderia exigir que ela abrisse mão de qualquer coisa no relacionamento dela por algo que era importante pra mim.O NAMORADO DELA É O VÍTOR, NÃO EU. E não importa o quanto eu sonhe com isso, ela nunca vai me ver assim, eu era o melhor amigo e por mais que por um tempo aquilo fosse suficiente, já não era mais, por que eu sentia como se estivesse enlouquecendo.COMO SE NÃO ESTIVESSE ENLOUQUECENDO AGORA NÉ? PARABÉNS RAFAEL, VOCÊ É UM GÊNIO. SEU TROUXA.— Comida mexicana ou tailandesa? – Nathy pergunta toda animada enquanto sai do banheiro enrolada na toalha, eu a olho e acabo sorrindo, ela é linda, qualquer cara daria um braço pra estar aqui no meu lugar, ainda assim quem está aqui sou eu e eu tento me lembrar todo dia o quanto ela tem sido incrível pra mim, e nem preciso de muito esforço, ela tem me dado todo apoio do mundo no food truck, mesmo quando ela chega cansada de algum compromisso ela vai pra lá e fica até a madrugada, ela faz anotações com post-its pelo meu quarto inteiro me lembrando das coisas que preciso repor no estoque ou sobre algo que combinamos e ela não quer que eu esqueça, ela é alegre, o tempo todo e mesmo quando tô sendo um mau humorado, ela não se irrita, ela me dá espaço e então depois volta na hora certa, isso sem falar em como nos entendemos na cama, isso também é algo incrível, parece que ela sempre sabe o que fazer e eu posso ter tido muitas mulheres mas ela não deixa a desejar nenhuma delas – EI!! Eu tô falando com você, seu tonto – ela fala se jogando em cima de mim na cama, os joelhos de cada lado do meu corpo e a toalha acaba abrindo e escorregando, eu abro um sorriso quando a vejo nua e ela sorri já sabendo que o jantar ficará pra depois, ela solta uma gargalhada alta quando eu a jogo na cama e deixo meu corpo por cima do seu, eu lhe dou um beijo longo e logo minha boca está descendo pelo seu pescoço, ela solta uma risadinha e eu continuo meu caminho – Você sabe que eles tão lá na sala né? Isso é estranho – ela ri mas não me afasta, então continuo agora beijando sua barriga – Você não acha estranho que o Vinny e a Dani estejam por aí? – então pronto, apenas a menção do nome dela consegue levar embora qualquer desejo que eu tivesse, paro e me sento na cama.— Ok, vamos sair pra jantar – me levanto rápido e abro o guarda roupa – Pode ser tailandês! — Desculpa ok? Não era pra você ficar bravo – ela fala já me abraçando por trás, eu respiro fundo e me viro pra ela.— Eu não estou bravo com você – garanto, sorrio e beijo a ponta do seu nariz, ela adora quando eu faço isso, suas bochechas sempre ficam coradas – Agora coloca uma roupa ou eu juro que vamos ficar dentro desse quarto pelo resto da noite – ela ri e corre meio que na ponta dos pés até uma cômoda no canto do quarto, como já estamos saindo há um mês e ela tem passado várias noites seguidas aqui, separei duas gavetas pra ela e quando a mostrei seu sorriso quase rasgou o rosto e no dia seguinte as gavetas estavam lotadas de roupa, então enquanto ela se arruma eu vou pro chuveiro, não demoro muito pra me arrumar e em 40 minutos estamos prontos, ela coloca a mão na minha e chegamos a sala de mãos dadas, Vítor está no sofá quase entrando dentro da Dani e preciso olhar pro outro lado antes de acabar perdendo o ar com a dor que sinto, Nathy finge uma tosse e eles param, não olho pra nenhum dos dois, mas Nathy sempre adora implicar com todo mundo.
— Eu ia perguntar se o filme tá bom, mas acho que não tinha ninguém prestando atenção né? – ela ri e Vítor também, mas não ouço a risada da Dani, então dou um olhar rápido, ela está sem graça e também evita me olhar.— Nós já estamos saindo também...— Vão aonde? – as vezes Nathy realmente é simpática demais.— Num restaurante tailandês que tem no centro...— Sério? A gente também vai em um...— Na verdade vamos no mexicano – eu conserto e ela me olha meio confusa.— Mas você disse que...— Bom jantar pra vocês, vamos? – dou um selinho nela antes que ela fale algo e então saímos.— Eu jurava que você tinha dito tailandês... – ela reclama quando entramos no elevador.— Você não pode me culpar por não pensar direito quando você está nua na minha cama – ela ri e esquece qualquer irritação, passa os braços por trás da minha cabeça e me dá um beijo que quase me faz voltar pro apartamento de novo, quando o elevador abre, ela tira a chave do bolso e me entrega, ela odeia dirigir quando está comigo e eu acabo sendo o motorista mesmo o carro sendo o dela. Nós levamos cerca de 20 minutos pra chegar no restaurante e por sorte encontramos uma mesa vazia. O jantar é divertido, Nathy sempre tem algo engraçado e inteligente pra dizer e odeia que fiquemos em silêncio então ela está sempre contando alguma história, eu gosto disso, ouvir ela me distrai, me faz esquecer pelo menos por um tempo o quanto eu estou infeliz, por que por mais que eu esteja me esforçando pra não estar, quando eu deito minha cabeça no travesseiro e o silêncio da madrugada me atinge, a verdade é nítida demais pra ser ignorada. EU ESTOU INFELIZ E ESTOU INFELIZ PRA CARALHO. Eu tento não estar, tento mesmo, eu saio com a Nathy, escuto todas as suas histórias, conto todas as minhas pra ela, mesmo aquelas que envolvam universitárias semi nuas, eu faço compras pro food, eu arrumo meu quarto pelo menos 3 vezes na semana, eu arrumo a cozinha, malho de manhã e a noite, estudo receitas novas, testo novos molhos, saio com a Nathy novamente e tento me manter ocupado a maior parte do tempo e mesmo assim eu me sinto infeliz e é um sentimento que sempre fica ali a beira de tudo. Nós voltamos pro apartamento e ele está vazio, então antes mesmo de entrarmos no quarto Nathy pula no meu colo, suas pernas se encaixam no meu quadril e ela me dá um daqueles beijos que querem dizer apenas uma coisa... Nos levo direto até a cama e antes que eu tire minha camisa ela já está sem seu vestido com um sorriso safado que me faz quase arrancar os últimos botões mesmo que essa seja uma das minhas camisas favoritas e então pela próxima hora, eu esqueço de toda merda que enche minha cabeça e me sinto um puta cara de sorte... Até que acaba e eu fico encarando o teto, enquanto ela dorme com metade do corpo em cima do mão, eu me sinto tão vazio quanto antes. Eu odeio isso, por que parece que não estou dando valor a ela, quando eu admito que estou infeliz, mesmo que só pra mim, é como se eu dissesse que ela não é suficiente, mas ela é, qualquer cara poderia dizer isso, ela só tem um único problema pra mim, ela não é a Dani. Não é a mulher que me irrita e me deixa sem saber o que fazer, não é aquela que tem o humor azedo e que eu tinha que suar pra conseguir um sorriso, eu penso nisso e me lembro de uma semana que ela estava extremamente mal humorada e eu tomei como desafio fazer ela rir, então quando ela saiu pro almoço batendo o pé e me mandando calar a boca, eu me joguei na minha cadeira e esperei ela voltar, quando ela voltou parecia ainda mais irritada, então me virei pra ela e perguntei.— Dani, você viu se tinha um carro meio cor de gelo parado na frente da farmácia do outro lado? – ela nem ao menos olhou pra mim.— Não, só tinha um vermelho, mas era em frente a papelaria...— Ah tá, então ele deve ter derretido já – falei normalmente já mexendo no computador e então ela soltou uma risada.— Você é um idiota! – ela disse rindo e por mais que eu já tivesse sido chamado assim várias vezes antes e por várias mulheres, nunca foi o mesmo do que quando ela falava, por que cada vez que ela me chamava de idiota, eu sentia que tinha mais uma centena de coisas por trás daquele idiota e não sei por que sempre me fez sorrir.O ar parece ter sido sugado do quarto, sinto como se as paredes encolhessem e meu peito aperta procurando por algo que não está aqui dentro, então coloco Nathy sobre um travesseiro, me levanto da cama e saio na ponta dos pés, fecho a porta com cuidado e vou pra cozinha, o relógio na sala marca 3:46 da manhã, por isso o silêncio absoluto se espalha pelo apartamento, vou até a geladeira e fico encarando, mesmo estando cheia nada me agrada e depois de alguns segundos eu apenas fecho e saio de lá, volto pro corredor dos quartos e de alguma maneira acabo na frente da porta dela, todas aquelas vozes que vivem na minha cabeça parecem falar ao mesmo tempo, um lado meu diz que eu só preciso abrir a porta, entrar e acabar com toda essa merda, ela pode até ficar brava e com raiva, mas não seria nenhuma novidade, ela já ficava assim antes, e eu sinto falta disso, mas outra parte me manda me afastar, voltar pro meu quarto e parar de ser um babaca, ela está feliz com o Vítor, eu vejo eles dois saindo sempre, as vezes vão até lá pro food e ficam rindo, conversando e trocando todos aqueles beijos totalmente desnecessários, outro dia mesmo eu estava conversando com o Vítor e ele estava dizendo o quanto as coisas entre eles estão bem, que ele está até sentindo que ela está mais aberta a ele e não tenta fugir como antes, eu odiei saber disso, mas quando vi o sorriso dele todo animado tentei ficar feliz por ele, ele é um bom amigo, ultimamente tenho inventado umas desculpas pra não sair com ele por que isso significa continuar ouvindo sobre ela, por que ele sempre fala dela, mas ainda assim ele é um bom amigo, eu que sou um babaca. A mão no meu ombro me faz dar um pulo pra trás, Vinny está me olhando sério e eu posso imaginar o por que, afinal estava parado com a testa e a palma da mão na porta do quarto da Dani tentando decidir o que fazer, ele me aponta a sala e sai na frente, eu o sigo e ele para virado pra mim, cruza os braços e fica me olhando, eu não sei o que falar então apenas fico quieto.— Que porra foi essa? — sua voz está séria e ele parece irritado.— Eu achei que tivesse escutado um barulho...— E você ouve com a testa agora?OK. ELE NÃO ERA TÃO FÁCIL DE SER ENROLADO.— Que porra você tá fazendo, Rafael? — ele descruza os braços, mas parece tão tenso quanto antes — Sua namorada tá deitada na tua cama, no teu quarto, então você pode pelo amor que você tem aos seus dentes me explicar que porra você tava fazendo na porta do quarto da Dani?— Eu não ia fazer nada — sei que não é isso que ele quer ouvir, mas não posso falar sobre o quanto eu queria entrar lá, grudar nela e nunca mais soltar, com certeza eu terminaria sem dentes, mesmo não sendo a resposta que ele queria, ele parece relaxar um pouco, seus ombros caem um pouco e ele esfrega o cabelo e o rosto.— Que porra você se meteu, cara... — não entendo o que ele quer dizer com isso, mas decido não perguntar e correr o risco dele ficar puto de novo — Olha, eu te avisei... No momento que você colocou os pés aqui eu te avisei que ela era minha irmã, que ela é mais do que minha irmã, eu avisei, não avisei? — concordo sabendo que ele tem razão, ele me deu uma dura de quase 40 minutos sobre isso — Ela já sofreu muito, Rafa, muito mesmo, você pode saber da história, pode até ter visto uma parte da dor dela, mas você não viu ela na época, não viu como ela desistiu de viver... — sua voz parece angustiada mesmo assim ele continua — Os pais dela não sabiam o que fazer... Eu não sabia o que fazer... Demorou um ano pra ela começar a se parecer com ela mesma de novo e eu jurei pra mim mesmo que não ia deixar nada, nem ninguém machucar ela... Nesses 4 anos eu mantive meu juramento, cada dia que passou ela foi melhorando, daí você apareceu, ela primeiro odiou você, depois passou a te suportar, depois não sei como ela abriu um espaço dentro da bolha dela pra você e vocês viraram uma espécie de Batman e Robin, sei lá que porra era a amizade de vocês, mas era importante pra ela, acho que você não entende isso...— Eu entendo!— Não, porra, você não entende... Por que se você entendesse não ia tá fazendo isso — ele aponta na direção dos quartos.— Eu só achei que tinha escutado algo — ele balança a cabeça e me olha com um sorriso meio estranho.
— Escuta, você fez sua escolha, você tá namorando, tem uma mulher gata pra caralho e toda apaixonada por você no seu quarto, essa foi a sua escolha, ok, eu respeito, não entendo, mas respeito, só não fode com a cabeça da Dani, cara, não faz isso... Se você escolheu seu namoro, se escolheu levar isso a sério, então leva, mas não faz isso, ela não é iô-iô pra você se aproximar e se afastar quando quer... Eu adoro você, de verdade, você é um cara legal, eu me acostumei a ter você por perto também, mas eu não vou pensar duas vezes em te colocar pra fora e nunca mais olhar na sua cara se você fizer ela sofrer mais uma vez, você entende isso? — ele me encara e eu concordo sem saber o que dizer, então ele passa por mim, dá um tapinha no meu ombro, escuto a porta do quarto dele abrindo e fechando, me jogo sentado no sofá, esfrego meu rosto e meu cabelo. Ele está certo, eu fiz minha escolha, me afastar dela foi o melhor, talvez não o melhor pra mim, mas foi o melhor pra ela, eu nunca fui o cara que ela merece, nunca fui o melhor pra ela, eu passei anos da minha vida passando de mão em mão e passando minha mão em várias mulheres, tantas que eu nem lembro o nome de todas elas, os 4 anos que ela levou pra ficar de pé, eu estava enchendo a cara e pegando o máximo de garotas que eu conseguia.NÃO SOU E NEM NUNCA VOU SER O CARA CERTO PRA ELA. O VITOR É.Eu não tenho o direito de bagunçar a vida dela, eu não posso fazer isso, o Vinny está certo, não posso ir e voltar, então agora que me afastei não tem mais volta. Só queria não sentir como se uma parte minha morresse cada dia que eu passo longe dela, mas talvez seja exatamente o que eu mereço, o pagamento por ter passado tantos anos da minha vida vivendo como um mauricinho babaca e irresponsável. Não tenho coragem de voltar pro quarto, só continuo sentado tentando pensar em um jeito de continuar vivendo sabendo que ela não vai mais estar ao meu lado.— Ei! Você não tava na cama — a voz sussurrada e meio rouca de sono me distrai, Nathy não espera nenhuma reação minha e apenas se senta no meu colo, suas pernas de cada lado do meu corpo, ela sorri de um jeito animado que só ela sabe fazer e então encaixa o rosto no meu pescoço, sua respiração quente me faz perceber que a madrugada está fria e seus lábios macios me mostram suas intenções, mesmo sem estar no clima pra isso as palavras do Vinny se repetem na minha cabeça.EU FIZ MINHA ESCOLHA, NÃO A QUE EU QUERIA, MAS A CERTA.Então passo meus braços ao redor dela e me levanto do sofá com ela agarrada em mim, ela tampa a boca abafando a risada e vamos para o quarto, pelo menos por uma hora eu vou esquecer dessa dor desgraçada.
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