Faz 6 semanas que eu passei do posto de melhor amiga para uma mera conhecida do Rafael, faz exatamente 42 dias que eu sinto que uma parte minha foi arrancada do meu peito e esse é um dos piores sentimentos que eu já tive, é horrível.

É horrível acordar e saber que tudo ainda está igual, é horrível chegar no escritório e ver minha mesa sozinha naquela recepção, é horrível sair pro almoço e comer em uma mesa de canto de um restaurante qualquer, é horrível não ter nenhuma piada durante as oito longas e intermináveis horas que passo no escritório, é horrível fazer o caminho pra casa sozinha, é horrível entrar no apartamento e ele estar vazio, mas é ainda pior chegar e encontrar eles rindo sentados no sofá vendo tv, é enlouquecedor ouvir os risos abafados dela enquanto eles chegam no meio da madrugada, é um exercício de auto controle acordar e esbarrar nela toda alegre e sorridente saindo do apartamento e o deixando ainda dormindo no quarto ao lado, é torturante ver o sorriso bobo dele sempre que ela está perto, tudo isso é horrível e cada dia que passa eu sinto que não vou mais suportar.

Eu tentei consertar as coisas, eu pedi desculpas e até tentei puxar assunto, mas tudo ficou estranho demais, é como se os 5 meses de amizades que tivemos não tivesse existido, como se fossemos duas pessoas que apenas dividem um apartamento, nas poucas vezes em que nos falamos tudo sempre parece ensaiado demais, formal demais, controlado demais, eu não sei mais sobre o que acontece na vida dele e ele não sabe mais sobre a minha, mas ainda é estranho, assim como foi abrir o jornal e ver a nota elogiando o Food Truck, eu senti uma espécie de orgulho com tristeza, por que se fosse umas semanas atrás eu saberia disso antes de abrir o jornal, mas hoje não, hoje eu não sou importante o suficiente pra que ele queira compartilhar isso comigo e isso dói, dói muito.

Durante essas semanas por mais que eu estivesse me sentindo horrível, eu me esforcei pra não parecer tão horrível assim, não aguentaria Lia atrás de mim o tempo inteiro ou pior ainda ela expulsando o Rafael do apartamento, já basta o Vinny me olhando desconfiado, mas agradeço que ele seja mais controlado que ela e ainda não tenha me colocado contra parede, por que eu não saberia nem o que dizer a ele, eu mesma ainda estou tentando entender essa bagunça que se transformou minha cabeça, pra isso aproveitei pra passar um fim de semana inteiro na casa dos meus pais, eles estranharam mas me receberam de braços abertos e cheio de sorrisos e mimos, mesmo que eu tenha dormido num colchão na sala, me senti melhor do que dormindo na minha própria cama no apartamento.

— Tô indo – Vinny avisa enfiando a cabeça pra dentro do meu quarto, levanto o rosto do prato e o olho pronta pra mandar um beijo um aceno, mas ele me olha meio estranho e entra no quarto – O que você tá fazendo?

— Jantando?! – ele se aproxima e olha meu prato.

— Isso é miojo? – eu reviro os olhos e me preparo pro sermão.

— Tem salsicha picada e até uns cheiro verde – seu rosto sério me mostra que isso não adiantou de nada.

— Já tem umas duas semanas direto que você come miojo...

— Eu gosto muito de miojo – ele me encara.

— Anda, levanta – ele puxa o lençol da minha perna.

— EI! – eu puxo de volta por que estou de calcinha e ar condicionado está muito gelado.

— Você vai sair comigo...

— Eu não quero sair!

— Mas vai!

— Não vou! – cruzo os braços e ele me encara sério.

— Se você não levantar dessa cama agora, eu te levo assim pro meio da rua – reviro os olhos.

— O Vítor vai vim pra cá daqui a pouco – ele não acredita nem por um segundo – Eu ia ligar pra ele agora mesmo... – dou de ombros.

— Então liga!

— Eu vou ligar, quando eu terminar de comer...

— Daniela – eu solto o ar e olho pra ele.

— Eu juro que tô bem, sério, eu tô ótima, só hoje eu não quero sair, só isso – seus olhos não suavizam – Vinny eu tenho saído todo fim de semana, com Vítor, com você, com a Lia e o Bruno, hoje eu só quero comer um miojo e ficar deitada, por favor... – agora sim ele parece relaxar um pouco, se aproxima mais, apoia um joelho no colchão e para o rosto de frente pro meu.

— Eu sou um melhor amigo muito melhor do que ele – reviro os olhos.

— Eu não tô assim por causa dele – um sorriso meio fraco me mostra que ele não acredita em mim, ele beija minha testa meio demorado demais.

— É, eu sei – ele se afasta e aponta pro prato – Eu vou jogar todos os miojos fora – eu faço uma careta e ele sai do quarto, solto o ar e encaro o prato com o miojo sem mais nenhuma sombra de fome.

A semana seguinte pareceu ainda maior, Vítor apareceu de surpresa pra almoçar comigo na segunda e toda essa confusão na minha cabeça só piora quando eu penso nele, por que a culpa é outro sentimento que sempre aparece, por que ele tem sido incrível, ainda mais do que já era e por mais que eu tenha planejado todo discurso de por que não sou a pessoa certa pra ele, não consegui dizer. Na primeira vez que me decidi ele apareceu na porta do escritório com um buquê de rosas vermelhas e eu não consegui dizer nada que ensaiei, na segunda vez eu simplesmente não tive coragem, quando olhei pra ele as palavras não saiam, por que por mais egoísta que isso seja eu gosto de estar perto dele, ainda não sinto borbulhas no estômago, nem palpitações, ainda assim parece seguro.

Eu sei que não é certo, mas eu não consigo deixar ele ir também.

Na verdade a única coisa que parece certa é o trabalho, tenho me dedicado tudo que posso, trabalho mais do que qualquer um, me mantenho ocupada a cada segundo, em consequência fiz mais relatórios do que qualquer pessoa por aqui e passei a ter tudo pronto antes mesmo de me pedirem, ajudei a qualquer pessoa que tivesse trabalho extra, resolvi problemas que nem eram da minha responsabilidades, iniciei reuniões quando já estavam começando a passar do horário, acalmei clientes mais exaltados, tudo que podia fazer, eu fiz, por isso quando Dr. Leones me chama na sala dele e elogia meu trabalho eu me permito sorrir orgulhosa, ele me diz que é uma honra pro escritório ter uma funcionária tão dedicada e ainda deixa sub-entendido que eu seria uma ótima parceira como advogada, ele me dá os parabéns adiantado já que amanhã não venho trabalhar e no sábado será meu aniversário, ainda estou quase explodindo de orgulho próprio então quando saio do escritório mal consigo me conter de satisfação e quando percebo estou parada na frente do prédio da principal faculdade particular da cidade, respiro fundo e pela primeira vez depois de 4 anos estou totalmente decidida, quando me sento na poltrona confortável sei exatamente o que eu quero fazer.

— Eu vim fazer minha matricula pro próximo semestre – minha voz sai firme, empolgada e estranhamente ansiosa.

Quando saio do prédio da faculdade sinto como se eu pudesse sair gritando daqui até o apartamento, eu quero contar pra todo mundo e ao mesmo tempo só tem uma pessoa pra quem eu quero contar, por isso mesmo que nossa relação esteja estranha e distante, mesmo que eu tenha me mantido afastada pra evitar que minhas confusões atrapalhassem a vida dele, mesmo que eu ainda esteja tentando algo com o Vítor, mesmo assim, quando eu entro no apartamento meus pés vão direto para o quarto dele, pra minha sorte ele está sozinho, deitado na cama e rindo de algo na tv, quando passo da porta ele me olha confuso e eu entendo o por que, eu nunca mais tinha entrado aqui, mas no momento não me importo muito com isso, mesmo que ele não ligue pra mais nada que aconteça na minha vida, eu preciso contar, isso tem a ver comigo e não com ele, então me permito ser egoísta mais uma vez.

— Eu acabei de fazer minha matrícula na faculdade, começo no próximo semestre – ele arregala os olhos e se senta rápido demais na cama.

— Você tá falando sério? – meu sorriso é uma mistura de animação com ansiedade, mas confirmo, eu esperava que ele me desse um parabéns seco e voltasse a olhar a tv, mas contrariando todas as minhas expectativas, ele pula pra fora da cama e me abraça – Isso é incrível! Eu sabia, sabia que você no fundo queria isso – eu estou rindo, não só por ter tomado coragem e ter feito a matricula, mas por ter vindo até aqui contar e mais ainda por sentir o abraço dele de novo, mas o abraço acaba perdendo um pouco de força e ele me solta e sorri meio sem graça – Meus parabéns!

— Obrigada, eu só... Tinha que te contar isso, independente de qualquer coisa, você sempre me deu maior força pra tentar e eu não podia deixar de te contar – ele me dá um sorriso, eu penso alguns segundos no que estou prestes a falar, talvez seja uma péssima ideia, mas se eu já tive coragem de fazer a matrícula e de vim contar pra ele, acho que posso estender essa coragem por mais dois segundos – Eu pensei em sair pra comemorar – as palavras saem antes que eu desista.

— Claro, tem mesmo que comemorar – ele sorri – Já sabem aonde vão? – eu nego.

— Na verdade, ninguém mais sabe – seus olhos me encaram confusos.

— O pessoal ainda não sabe? – balanço a cabeça negando – Nem o Vítor?

— Não, eu... Eu acabei de sair da faculdade e vim direto pra cá...

— Então eu sou o primeiro a saber? – ele parece ainda não acreditar, então tento ser o mais clara possível.

— Não tinha mais ninguém que eu queria contar antes de você – por um segundo ele parece confuso, meio surpreso, mas no segundo seguinte ele abre um sorriso largo.

— Então nós temos que comemorar...

— Eu acho que tá todo mundo se preparando pra amanhã – o Festival começa amanhã a noite e nós vamos pegar o voo ás 10 horas da manhã junto com a banda, então está todo mundo na correria.

— Eu não estava falando deles – dessa vez os olhos confusos são meus.

— Só nós dois? – ele dá de ombros.

— Como nos velhos tempos – ele sorri meio sem jeito e eu sorrio sem reservas alguma.

— Eu fico pronta em 5 minutos – ele ri.

— Pode demorar mais um pouco, não tenho certeza se você fica apresentável tão rápido – ao invés de reclamar ou devolver a implicância, eu apenas sorrio mais ainda, por que eu senti muita falta disso.

Corro pro quarto e fico quase 15 minutos apenas pra me decidir na roupa, depois entro no banheiro, tomo banho e começo a me arrumar.

Coloco um short preto, uma camiseta de seda preta com pedrinhas brilhosas, um colete jeans desfiado, o cabelo cai pelos meus ombros, passo delineador, lápis, rímel e batom vermelho, calço um tênis all star branco e saio do quarto com uma bolsa pequena onde está meu celular e meus documentos.

— Pronta? – ele pergunta já na sala, ele está com uma calça jeans clara, camisa em gola V preta, uma jaqueta de couro preta por cima e o cabelo bagunçado, ele também está com uma mochila nas costas e eu olho confusa, ele ri e dá de ombros.

— Pronta – eu falo e nós saímos do apartamento juntos, pela primeira vez em quase dois meses – Onde nós vamos? – ele sorri misterioso.

— Fazer dessa noite memorável – ele segura minha mão e tenho que controlar o sorriso idiota que aparece no meu rosto, nós andamos até a estação de metrô e por sorte logo um para e nós entramos.

— Como você planeja fazer dessa noite memorável? – pergunto curiosa, então ele abre a mochila dele e pega a câmera, eu nunca o vi fotografar antes, mas ele a liga e vira pra mim, o click me faz esconder o rosto.

— Quê isso?!

— Uma noite não é memorável sem lembranças – ele dá de ombros e começa a tirar várias fotos minha.

— Rafa – reclamo e ele para com a camêra ainda na frente do rosto dele, um sorriso meio bobo aparece e ele olha em volta, então vai até um garoto que está mexendo no celular.

— Você se importa de bater uma foto nossa? É só apertar aqui – ele explica e o menino sorri todo simpático.

— Você tá me fazendo passar vergonha – falo quando ele se aproxima.

— Você ainda não viu nada – então ele me pega no colo, solto um grito surpreso e o vagão inteiro está olhando pra nós dois.

— Ai meu Deus, eu vou te matar – ele ri.

— Vai colega, bate logo que ela só tem cara de leve – eu acerto um tapa nele, mas acabo rindo, dessa vez os flashes indicam que várias fotos foram tiradas ao invés de só uma, quando ele está satisfeito, ele me bota no chão, vai até o menino e o agradece já pegando a câmera.

— Vamos, é nossa parada – ele avisa já me puxando pela mão, ele joga a mochila nas costas e enquanto eu subo as escadas pra sair da estação os flahses me fazem olhar pra trás.

— Dá pra você parar? – como estou rindo, ele ignora meu pedido, nós alcançamos a rua e estamos há uns dois bairros de distância do nosso.

— Anda, por aqui – ele agarra minha mão e me leva junto com ele.

— Onde nós vamos?

— Você já vai ver – nós andamos pelas ruas com ele batendo foto minha ou apenas correndo quando tento acertar um tapa nele e a cada passo e a cada brincadeira nossa eu sinto como se esses dois meses nunca tivessem existido.

— A gente nunca chega – reclamo e ele me imita de um jeito ridículo.

— É logo ali na frente, deixa de ser molenga...

— Não sou molenga – ele olha pra trás e ri da minha cara, reviro os olhos e continuo andando, até que alcançamos uma casa toda colorida, o teto é colonial, um portão de madeira está aberto revelando um caminho de pedras cercados por placas, bichinhos de gesso e flores, o nome “Cantinho da Felicidade” está brilhando acima das nossas cabeças, eu o olho achando graça.

— Achou que era um bar com stripper né? – não digo nada, apenas rio mais um pouco, o lugar é uma doceria, o clima é agradável aqui dentro, toca uma musica alegre e tem algumas crianças correndo pelo lugar e quase enfiando as cabeças nas vitrines onde tortas maravilhosas estão em exposição, o lugar não tem portas, nem janela, ficando todo aberto, apenas com o teto acima de nós e uma luminária cheia de borboletas presa que me faz sorrir enquanto olho o jogo de luzes em suas asas, as mesas também são bem coloridas e as cadeiras tem um acolchoado tão macio que são melhor que meu colchão – Eu vi esse lugar umas semanas atrás e lembrei de você – sorrio me permitindo imaginar que ele talvez também tenha sentido minha falta.

— Boa noite, sejam bem-vindos – uma mulher sorridente e com um chapéu desses de cheff colorido se aproxima da nossa mesa, ela entrega uma cartela de opções pra mim e outra pro Rafa, só de brigadeiro recheado tem uma folha inteira – Fiquem a vontade...

— Eu nem sei por onde começar – ela ri e Rafa também.

— Eu sim... – ele fala dando de ombros – Nós vamos querer um pedaço dessa torta de chocolate com nozes, uma cheesecake de frutas vermelhas, esse crepe com amora e morango, dois cookies com gotas de chocolate e duas tortilhas de chocolate e limão, ah e um brigadeiro de cada...

— Você fez o pedido pra todo mundo que tá aqui? – ele ri e a mulher também.

— Eu quero experimentar um pouco de cada coisa...

— Bom, então você deveria experimentar a novidade da casa... Suflê de goiabada com calda de catupiry – eu e Rafa nos olhamos e ela ri sem parecer se ofender – Essa é a reação inicial, mas depois vocês vão querer repetir...

— Bom, então que venha o suflê de goiaba...

— Com calda de catupiry – eu completo ainda não muito certa dessa escolha, mas a moça sai contente – Eu não posso ficar com dor de barriga no vôo...

— Você sempre pode usar uma fralda – eu faço uma careta e ele ri – Então, me conta mais, como foi essa decisão?

— Bom, eu ralei pra caramba nos últimos dias, aí hoje o Dr. Leones me chamou e disse que era um privilégio me ter no escritório e basicamente deixou em aberto uma chance pra advogar com ele – ele não parece surpreso, mas abre um sorriso sincero.

— Ele seria louco se não tentasse ter você na equipe dele – eu sorrio agradecida e lembro que ele também está indo muito bem.

— Eu li a nota que saiu no jornal sobre o food – ele abre um sorriso orgulhoso.

— Ainda nem acredito naquilo...

— Eu disse que ia ser um sucesso, não disse? – ele sorri.

— Ainda é estranho, mas é bom pra caralho...

— Você merece!

— E você merece esse reconhecimento também, quando eu tava lá você já ralava pra caraca...

— É, parece que as coisas estão se encaixando – o sorriso dele é forçado, talvez ele tenha tido o mesmo pensamento que eu, que nessas semanas que nos afastamos foi quando conseguimos coisas nas nossas vidas, quase como se tivéssemos mesmo que nos afastar e esse é um sentimento estranho, mas por sorte, antes que o clima ruim se espalhe, a mulher que nos atendeu retorna, uma outra garota está com ela e as duas trazem duas bandejas cheias, eu acabo rindo, enquanto abrimos espaço e encaixamos todos os pratos na mesa.

— Espero não decepcionar – a mulher fala e se afasta sorrindo.

— A gente não vai conseguir comer tudo isso – eu olho pra mesa que está cheia de doces e mesmo que todos pareçam muito bons, ainda assim são muitos.

— Desafio aceito – ele sorri de um jeito animado e acabo rindo.

— E por onde que a gente começa? – ele olha as opções, pega uma colher e enfia no suflê, ele estica pra mim e eu olho meio indecisa.

— Ah para de graça, cadê a coragem? – eu fecho os olhos, abro a boca e então ele me serve, a principio estou meio indecisa, o sabor é bem diferente do que imaginei, o doce da goiabada começa a se misturar com o salgado do catupiry e em algum momento isso se torna uma explosão de sabor, arregalo os olhos e ele está me olhando com expectativa...

— AI... MEU... DEUS! – pego outra colher e tiro mais um pedaço, ele ri e experimenta também, assim como eu ele leva alguns segundos até arregalar os olhos e sorrir aprovando.

— Quem diria – ele parece impressionado e pega mais um pedaço.

Nós levamos mais de uma hora pra conseguir acabar com todos os doces, nós pedimos agua e rimos da cara um do outro por que já estávamos quase tendo uma crise de diabetes, quando ele pede a conta a moça retorna toda sorridente.

— E o suflê? – ela parece ansiosa.

— Surpreendentemente maravilhoso – ele fala e eu concordo, então ela nos leva quase saltitando até a saída.

— Voltem sempre, um casal tão lindo como vocês só deixa o lugar mais bonito – eu e Rafa nos olhamos, mas nenhum dos dois desmente e nem diz nada, apenas sorrimos e nos afastamos, por alguns segundos o clima do que ela disse ainda paira no ar, mas quando ele segura minha mão e quase me arrasta pro outro lado eu acabo rindo.

— Quê isso?

— Acabei de lembrar que dia é hoje...

— E o quê que tem?

— Você vai ver – ele continua me arrastando e andamos por alguns quarteirões enquanto comentamos sobre qual doce gostamos mais, até que alcançamos a praça que ele me trouxe uma vez, na primeira vez que saímos juntos. O lugar está bem movimentado, uma voz soa no microfone e tem barracas de lanche pra todo lado, como as férias acabaram de começar é normal que tenha tanta gente, mesmo assim quando nos aproximamos o lugar realmente está cheio demais, Rafa agarra minha mão de novo e nos leva passando pelas pessoas a frente, ouço quando a voz no microfone anuncia o novo competidor, mal tenho tempo de perguntar quando ele me pega pela cintura e me coloca em pé numa espécie de mureta que cerca a área de skate, no momento exato em que um garoto escorrega de um dos lados da rampa, fazendo uma manobra que me faz quase gritar impressionada, olho pra ele e ele também está sorrindo impressionado.

— É o primeiro campeonato! – ele sobe no mesmo muro que eu, mas já está com a camera na mão, ele olha procurando um bom ângulo e então desiste, pula no chão e me estende a mão dele.

— Aqui não é legal – eu o sigo e passamos por várias outras pessoas que gritam e torcem alto demais, conseguimos chegar bem perto da rampa e ele sorri orgulhoso, me entrega a mochila dele, eu coloco nas costas e ele se ajoelha posicionando a câmera e começando as fotos, fico dividida entre olhar as manobras e olhar ele fotografar, por que ele parece todo concentrado e ao mesmo tempo sorri como um bobo quando verifica a foto que acabou de tirar, até que a torcida vai a loucura quando anunciam o próximo nome, olho pra rampa e reconheço o garoto que Rafa pegou o skate aquela vez, ele levanta o skate acima da cabeça e a torcida grita ainda mais, então ele se posiciona e começa a apresentação, eu mal consigo respirar quando ele dá duas cambalhotas no ar e cai sobre o skate, os gritos são ensurdecedores e dessa vez até eu estou gritando, ele faz mais três manobras de tirar o fôlego e quando aplaudo e grito já tenho o meu favorito.

— Você viu isso? – quando me viro pro Rafa a câmera está virada pra mim e ele abaixa rapidamente como se tivesse sido pego no flagra.

— É, ele manda muito bem – ele sorri meio sem graça, acabo deixando pra lá quando anunciam que terá uma pausa pra ter o resultado – Quer comer alguma coisa?

— Eu comi uma doceria inteira, a meia hora atrás – ele ri.

— Quer beber alguma coisa então? – eu abro um sorriso – Cerveja? – ele entende meu sorriso e me pede pra esperar ele por aqui mesmo pro caso de acabar nos perdendo, obedeço e fico observando as pessoas ao redor, até que a garrafa surge na minha frente, levo um susto mas sorrio quando vejo o Rafa.

— Demorei?

— Quase não percebi que tinha saído – ele leva a mão ao coração e faz uma cara triste – Não foi isso que eu quis dizer – acabo rindo – Só que você foi bem rápido – ele me olha meio divertido e então começam o anuncio para os vencedores, todo mundo fica atento, as vezes gritando o nome do preferido e quando anunciam o primeiro lugar para o Gabriel, o menino do aluguel do skate, o pessoal vai a loucura e até eu estou gritando e aplaudindo, Gabriel sobe no pódio e levanta o troféu todo orgulhoso, os gritos são ainda mais fortes e quando olho pro Rafa ele também está gritando e assobiando com o dedo na boca, daquele jeito que ele e o Vinny já tentaram me ensinar mas nunca consegui aprender, eu sorrio ainda mais vendo ele tão animado.

Quando as pessoas começam a se espalhar pela praça ele pendura a alça da camera no pescoço e enquanto caminhamos pelo lugar ele fotografa algumas crianças que correm e brincam sorridentes, um vendedor de balões que sorri simpático pra nós e até a lua que brilha forte sobre nós, mas quando ele vira a câmera pra mim eu tampo meu rosto com as mãos.

— Você já tirou muita foto minha – tento esconder o rosto, mas ele bate as fotos assim mesmo.

— Eu gosto de guardar os bons momentos – ele fala e eu paro de me esconder e olho pra ele, um sorriso divertido brinca nos seus lábios, mas a pergunta sai antes que eu controle.

— Então por que você tirou nossa foto do mural? – ele me olha parecendo meio surpreso, eu dou de ombros – A ultima vez que eu vi, ela não estava mais lá... Achei que aquele tinha sido um bom momento...

— E foi! – ele fala com convicção, mas isso só me deixa mais confusa ainda – O melhor de todos...

— Aí você tirou do mural? É, faz muito sentido mesmo... Não sei como não pensei nisso – mesmo não querendo estragar a noite, isso me deixa irritada, por que era a nossa foto, na festa dele, ele não tinha direito de desprezar isso tão rápido, foi um dos dias mais divertidos pra mim e ele nem pensou duas vezes antes de excluir e isso me deixa realmente magoada, mas ele apenas me olha e dá um sorriso meio bobo, então puxa a carteira do bolso, abre e a vira pra mim.

— É só que eu gosto de olhar pra ela mesmo quando não estou na frente do mural – ele dá de ombros enquanto eu estou sem palavras olhando pra nossa foto que está dentro da carteira dele, ela claramente foi recortada, mas nossos rostos estão intactos e as caretas me fazem sorrir.

— Você guardou

— É claro que eu guardei... É a minha preferida – ele olha pra foto – Foi minha primeira festa de aniversário – ele relembra com o mesmo sorriso bobo do dia da festa.

— Foi bem legal mesmo

— Você deveria ter uma também – eu nego rapidamente.

— Não gosto de festas e graças a Deus a viagem já vai ser meu presente, assim a Lia não consegue armar nada contra minha vontade – ele ri.

— Eu não apostaria tanto nisso

— Você tá sabendo de alguma coisa? – olho pra ele que apenas ri e levanta os ombros.

— Vou pegar mais uma cerveja, quer? – eu o encaro e ele ri e sai andando.

— Rafael Viana! – ele apenas olha pra trás, ri e me faz um sinal com as mãos me mandando segui-lo, tento parecer brava, mas acabo sorrindo e vou logo atrás dele.

Alcançamos a barraca e ele pede mais duas cervejas, ele mesmo abre e voltamos a andar pela praça, conseguimos um banco vazio e sentamos enquanto bebemos.

Uma música do Wesley Safadão toca no fundo e eu canto fazendo uma performance meio ridícula, ele ri.

— Tive uma ideia! Nós temos que ir num lugar – ele se levanta e me estica a mão, eu não preciso pensar muito e logo estou de mãos dadas a ele, nós saímos da praça e vamos na direção do metrô.

— Qual a aventura da vez?

— O quanto você é ruim no forró? – eu solto uma risada.

— Na verdade eu sou muito boa! – ele me olha duvidando e me puxa pra entrar no vagão do metrô.

— Ótimo, você vai ser minha professora – ele dá uma piscada e mesmo sem entender nada acabo sorrindo.

Cerca de 30 minutos depois chegamos a casa de forró mais famosa da cidade, ele paga nossas entradas e do lado de dentro o forró já está a todo vapor, os casais estão dançando agarrado e antes que eu possa me localizar, ele me puxa pela cintura pra junto dele.

— Vamos ver se você é tão boa assim – eu sorrio aceitando o desafio e nos arrastamos até a pista.

Quase uma hora depois já estou exausta, me jogo na cadeira perto do bar e ele também se senta ao meu lado.

— Até que você é boazinha – eu tento fazer uma careta pela implicância, mas acaba sendo pela dor no meu pé.

— Eu não acho que vou conseguir andar amanhã

— Pedindo arrego?

— Não conte com isso, só preciso de uma pequena pausa – ele sorri satisfeito e se levanta, sem avisar ele vai até o bar, fala algo com o barman e volta com duas garrafas de cerveja, me entrega uma e sorri quando se senta.

— Você tem 10 minutos – sorrio e bebo minha cerveja.

Dez minutos depois ele me arrasta até a roda de forró.

Já são 4 da manhã quando o som é desligado, meus pés deveriam estar em carne viva e eu morrendo de dor e reclamando que queria estar dormindo, mas ao invés disso estou rindo do Rafa que tenta convencer o moço do bar que ele é sim um bom dançarino, só que a cerveja tirou o equilíbrio dele, o homem ri e diz que até a sogra dele que parece uma múmia dança melhor que o Rafa, então ele fica ofendido e diz que iria dar uma gorjeta muito boa mas mudou de ideia, faz cara feia mas deixa uma nota de 20 extra logo abaixo da ultima garrafa de cerveja, ele puxa minha mão e me arrasta pra longe do balcão.

— Não vamos nos misturar – ele finge superioridade, mas olha pra trás e ri pro moço que manda termos juízo.

Do lado de fora, o céu ainda está estrelado e um vento mais gelado nos alcança, mas é bem vindo já que depois de horas dançando eu comecei a me sentir numa sauna.

— A gente podia pedir um UBER – eu sugiro e ele nega.

— Tenho outra ideia

— Sua ultima ideia vai fazer meus pés sangrarem – ele ri e me puxa junto com ele.

Andamos por quase dez minutos e então ele me faz subir numa passarela, ele para no meio enquanto olha os poucos carros que passam abaixo de nós – Se você tentar se jogar eu vou ter que te segurar, é meu dever como boa cidadã – ele ri.

— Não vou me jogar...

— Que bom, por que provavelmente eu não ia te aguentar e eu meio que não tô com planos de cair de tantos metros de altura – ele dá uma risada e olha pra mim, de um jeito estranho, meio intenso demais – Que foi? – ele dá de ombros, então tira a mochila dos ombros, joga no chão e se senta no meio da passarela, eu acabo rindo – O que você tá fazendo?

— Sentando...

— Nós estamos numa passarela...

— Eu estou sentado numa passarela – eu fico olhando pra ele que não parece disposto a levantar – Anda, tem espaço pra mais um – ele bate a mão no espaço ao lado dele, eu dou uma risada, olho ao redor, mas estamos no meio da madrugada e não tem ninguém por perto, com exceção de alguns carros que passam de vez em quando abaixo de nós, então me sento ao seu lado, o céu está num tom de azul escuro, os pontos brilhantes o iluminam e o silêncio da madrugada é ao mesmo tempo relaxante e inquietante, por que traz alguns pensamentos que passaram adormecidos durante a noite toda e agora que estamos prestes a voltar a realidade parece que não consigo mais ignorar, ele coloca a mão em cima da minha que estava na minha perna, olha pra mim e abre um sorriso pequeno.

— O que aconteceu com a gente? – minha pergunta é direta e ele desvia os olhos imediatamente – Quer dizer, eu entendo que você estava concentrado no seu namoro, no food truck e tal, mas... O que aconteceu com a gente? – viro minha mão pra segurar a dele e ele olha nossas mãos juntas.

— Você tá namorando o Vítor!

— Eu não estou namorando o Vítor... – ele me olha com a sobrancelha erguida e talvez eu esteja mesmo namorando o Vítor – Mesmo que estivesse, o que isso tem a ver com a gente? Eu já saia com ele antes e nós éramos amigos – ele não responde mas aperta a mão na minha – Foi por causa da Nathy? – ele dá um pequeno sorriso quando digo o nome dela e sinto um revirar desagradável no estomago.

— Não teve nada a ver com a Nathy

— Então o que foi? – ele respira fundo.

— Eu só quero aproveitar esse momento, pode ser? – seus olhos são quase uma súplica e mesmo querendo resposta, concordo, ficamos sentados no meio da passarela, olhando o céu a nossa frente ganhar novas colorações, nossas mãos encaixadas uma na outra e o silêncio quebrado apenas pelo vento frio que me faz encolher os braços, ele tira a jaqueta dele e joga nos meus braços, eu encosto minha cabeça no seu ombro e me deixo relaxar.

O sol começa a aparecer entre as serras a nossa frente e quando olho pra mochila dele, sorrio, me estico e a puxo, pego a câmera de dentro e ele me olha curioso, me arrasto um pouco pra longe dele e ligo a câmera, viro pra ele e bato uma foto, ele tampa o rosto.

— Você tirou minhas – ele faz uma careta e então eu tiro mais uma foto, quase me deito no chão pra conseguir uma foto dele nas primeiras luzes do dia e quando vejo o resultado um sorriso aparece na minha boca.

— Sou tão fotogênico assim? – ele pergunta e eu finjo indiferença.

— A luz te deixa menos nojento – ele solta uma gargalhada alta demais que parece ecoar e me faz rir também e dessa vez quando volto a bater a foto ele faz poses ridículas, com dedo na boca, olhares sedutores e usando as mãos como se fossem garras, eu mal consigo tirar todas as fotos de tanto que acabo rindo.

Quando acabamos nossa sessão de fotos o sol já nasceu e então percebo que nossa pausa da realidade já está no fim.

— Que cara é essa? – Rafa pergunta cutucando minha perna enquanto guardo a câmera na mochila, tento forçar um sorriso mas não consigo – Ei! Relaxa, não vou postar essas fotos – ele brinca, mas ainda não consigo rir, por que a angustia que senti durante esses dias começa a retornar pro seu lugar – As coisas vão mudar, eu prometo – ele garante e eu o olho desconfiando – Eu também senti sua falta – mesmo sem ter muita certeza disso eu acabo sorrindo e como nosso tempo está acabando e eu posso não ter mais essa chance, eu apenas me jogo nos braços dele e o abraço o mais apertado que consigo, ele me envolve rapidamente e também me aperta.

— Eu não quero te perder de novo – confesso mesmo que isso vá contra tudo que lutei esses meses.

— Você nunca me perdeu...

— Você sabe que sim – ele não diz nada, apenas me abraça mais apertado – Não faz isso de novo, foi...

— Uma merda – concordo e ele afunda o rosto no meu cabelo – Essa foi a melhor noite que eu tive em semanas – levanto o rosto pra olhar pra ele.

— Essa foi minha melhor noite em 4 anos – ele mantem os olhos fixos nos meus e eu sinto tudo aquilo que tentei sentir durante tanto tempo, tudo aquilo que me esforcei pra sentir ao lado do Vítor, meu coração dispara, meu estômago fica cheio de borbulhas e eu esqueço como se respira.

— Acho que já tá na nossa hora, ainda tenho que terminar de arrumar minhas coisas – ele me desperta e eu me afasto dele o mais rápido que posso tentando fazer meu corpo voltar ao normal, isso dura o caminho inteiro e ainda assim quando ele segura minha mão pra entrar no metrô tudo parece voltar, mas tento não deixar transparecer.

— Eu tenho quase certeza que não tô sentindo minhas pernas — reclamo fazendo uma careta e me escorando nele enquanto entramos em uma das ruas que dão para o prédio, ele ri, avança um passo na minha frente e se agacha um pouco de costas pra mim.

— Vai, sobe!

— Eu não vou subir em você...

— Vai perder a chance de me fazer te carregar? — penso na cena, dou um sorriso e então subo, ele agarra minhas pernas e se levanta, acabo soltando um pequeno grito de nervoso e ele ri — Preparada? — em resposta eu dou um tapa na bunda dele, ele ri e então corre me fazendo gritar e rir mais uma vez.

— Não corre, é sério, eu vou cair...

— Eu não vou te deixar cair — ele garante enquanto faz zigue zague pela rua, alcançamos a rua do prédio que ainda está sem muito movimento, ele para de correr e quando estamos a poucos metros do prédio reconheço a moto parada na calçada a frente e o dono dela sentado no meio fio ao lado.

— Me coloca no chão — eu peço tentando descer.

— Eu não vou te deixar cair, relaxa aí...

— Não, Rafa, me coloca no chão agora! — ele para imediatamente e isso me dá o tempo necessário pra sair de suas costas, não paro pra explicar, só passo por ele e vou até o Vítor, ele se levanta, batendo as mãos na calça.

— Eu não sabia que você vinha, achei que tivesse arrumando as coisas pra viagem — falo sem saber direito como explicar a cena que ele acabou de ver.

— Eu pensei em passar aqui pra gente tomar um café juntos antes de irmos...

— Bom dia — Rafa se aproxima de nós e Vítor sorri e estica a mão pra ele.

— Eu vou subir, tomar um banho e arrumar minha mochila... Acho que não precisa mais disso, né? – ele pega a jaqueta dele que estava sobre meus ombros e entra no prédio.

— Eu ainda não tomei café — ele fala como uma sugestão.

— Nem eu — forço um sorriso então ele me entrega o capacete, coloco e saímos de moto.

Entramos em uma cafeteria da Starbucks e ele vai fazer os pedidos, enquanto me deixa sentada em uma mesa de canto mais reservada, observo enquanto a atendente sorri pra ele de um jeito bobo e fica vermelha quando ele sorri de volta, mesmo sem ouvir sua voz eu sei que ele deve estar falando daquele jeito suave e simpático de sempre, por que ele sempre é assim, ele é leve, é engraçado, mas sem ser maldoso, ele é inteligente, mas nunca tenta parecer superior, ele consegue ser o equilíbrio perfeito de tudo e eu tenho certeza que centenas de mulheres estão sonhando nesse exato momento em encontrar um cara como ele e esse pensamento me faz me sentir culpada por não corresponder a ele exatamente como ele merece, por que ele merece sim alguém totalmente apaixonada por ele, alguém que não consiga imaginar um único dia sem ver ele ou sem ouvir a voz dele, ele merece alguém que seja recíproco e por mais que eu tenha tentado, essa pessoa não sou eu, talvez seja a atendente que continua sorrindo pra ele, eu não sei, mas eu sei que não sou eu, por que se nesses meses não consigo ser, não faz mais sentido prender ele a mim, isso seria puro egoísmo e eu já fui egoísta demais, além do mais eu acabei de ter a melhor noite da minha vida depois de 4 anos e não era com ele que eu estava, era com o Rafael e agora sim eu realmente entendi o que está acontecendo comigo, por mais que eu jamais admita isso em voz alta, nessa noite ficou absolutamente claro que o quer que eu sinta pelo Rafa não é só amizade, por que mesmo o Vinny sendo meu melhor amigo eu nunca senti as coisas que sinto quando estou perto dele, eu nunca me senti assim na verdade, mas também não posso fazer isso, não seria justo com ele, nem com a Nathy, os dois estão indo bem, ele está feliz, não posso e nem vou fazer nada que atrapalhe isso, eu tive meu tempo e o desperdicei, agora já passou e se tiver que ser só a amiga, eu serei, só quero ficar por perto dele, apenas isso já me basta, mas pra isso preciso ser justa, não posso manter o Vitor amarrado a mim sabendo como me sinto em relação a outra pessoa, ele não merece isso.

— Prontinho, agora é só esperar — ele fala batendo levemente os dedos na mesa quando se senta a minha frente, eu forço um sorriso — E aí, saiu com Rafa? Como foi? — um filme rápido passa pela minha cabeça relembrando cada momento de ontem a noite e mais uma vez eu tenho aquela sensação que nunca mais tinha sentido antes como se eu realmente estivesse no lugar certo, na hora certa e com a companhia certa, mesmo assim me limito a responder.

— Foi legal! — dou de ombros.

— Ele me levou em uma festa uma vez que quase fez meus tímpanos estourarem — ele brinca fazendo uma careta e eu tento dar uma risada, mas minha cabeça está trabalhando em como dizer pra ele minha decisão — E teve tempo de arrumar a mala?

— Eu... Já tinha deixado quase tudo pronto, só falta algumas coisas de última hora, e as suas? — ele pega na minha mão e sinto meu estômago embrulhar, eu tenho que falar, mas parece que as palavras não querem sair.

— Um fim de semana inteiro do seu lado? Minhas malas estão prontas desde o dia que o Vinny falou do Festival — ele ri e pra minha sorte chamam o nome dele e ele se levanta quase num pulo, vai até o balcão e a moça sorri como boba novamente, ele pega a bandeja e volta pra nossa mesa, ele coloca o copo com meu pedido preferido, o prato com croissant e um brownie na minha frente, eu tento sorrir, mas cada vez que ele é perfeito isso me deixa pior ainda – Na verdade tem outro motivo pra eu aparecer tão cedo...

—Que motivo? — ele parece meio ansioso enquanto remexe o café dele.

— É que minha irmã vai vir passar uns dias aqui depois, então... — o embrulho no meu estômago aumenta — Eu queria muito que você conhecesse ela e ela a você, então pensei que podíamos marcar um almoço ou um jantar ou talvez fosse uma boa hora pra aceitar o convite do Lucas e passarmos um...

— Vitor — interrompo por que a cada palavra que sai da sua boca mais difícil fica pra respirar, ele para de falar e me olha já sabendo que tem algo errado, eu o olho mas não sei como dizer, eu nunca terminei com alguém antes.

— Tô indo rápido demais?

— Não, não é isso... Eu só... — respiro fundo gritando na minha mente pra que eu fale de uma vez.

— Você pode me falar qualquer coisa, ok? Eu vou tentar entender o que for...

— Eu não tô pronta!

— Tudo bem, sem apresentações...

— Não! Não, isso é tão... errado

— O que é errado?

— Isso — faço um sinal pra nós dois e agora ele parece surpreso, mas decido continuar antes que eu perca a coragem — Nós estamos saindo há quase cinco meses e eu não consigo achar nenhum defeito em você... Tirando o fato que você não gosta de mostarda — tento forçar um sorriso — Você sempre me respeitou, me deixou livre, não tentou me forçar a nada e sempre faz de tudo pra que eu não surte e saia correndo, eu... Eu passei 4 anos da minha vida me impedindo de conhecer qualquer pessoa que fosse por que nenhuma delas era boa o bastante e eu achei que isso nunca fosse acontecer mesmo, mas você apareceu e de algum jeito eu sabia que você valia a pena e eu estava certa, você vale. Você é uma das melhores pessoas que eu conheço, eu te respeito, te admiro, te acho o cara com mais qualidades que eu conheço, eu desejo todas as melhores coisas pra você, eu... Eu só... — as palavras desaparecem e é como se meu cérebro congelasse.

— Só não é apaixonada por mim — ele completa e a lagrima escorre pelo meu rosto, ele me dá a sombra de um sorriso — Não é como se eu não soubesse disso...

— Eu gosto de você, eu juro que gosto, eu adoro todos os momentos que nós tivemos juntos e eu juro que me esforcei pra ser a garota que você merece, eu só... Me desculpa!

— Você nunca me prometeu nada... Claro que isso é uma merda, eu realmente estou apaixonado por você e eu queria muito, muito mesmo que desse certo — ele me dá um sorriso triste e isso corta meu coração — Mas você nunca mentiu pra mim...

— Eu queria ser essa garota, eu queria mesmo, por que ela vai ser a mulher mais feliz desse mundo com alguém com você do lado, eu só... Não acho justo continuar te prendendo a mim quando essa mulher de sorte está aí fora te procurando...

— Não é como se eu fosse querer alguém agora

— Eu sei, eu sinto muito mesmo

— Tá tudo bem, eu não vou pular de nenhum prédio por causa disso — ele da um sorriso mais divertido.

— Eu espero que não...

— Eu só... Vou sentir muito a sua falta. Eu nem sei mais como era antes de você aparecer

— A gente ainda pode se ver – ele nega.

— Não, não podemos. Eu tenho certeza que vou continuar me apaixonando por você cada vez que você sorrir, então... Eu só preciso de um tempo

— É claro, eu... Eu entendo e mesmo sendo muito egoísta da minha parte dizer isso, eu também vou sentir muito a sua falta — ele segura minha mão de novo, olhando nossos dedos se encaixarem.

— Isso é quase reconfortante — ele me olha e minha boca já estava quase se abrindo quando ele balança a cabeça negando – Por favor, não diga que sente muito de novo ou eu juro que repenso sobre aquela história do prédio — eu junto meus lábios indicando que não vou falar mais, ele volta a olhar para os nossos dedos que estão encaixados — É ele, não é? — eu queria não ter entendido sua pergunta, mas eu entendi, não sou idiota e nem ele, com a cena que ele viu e o que eu acabei de fazer fica bem fácil fazer a conta, mesmo assim não respondo, só fico olhando pra ele, seus olhos se levantam e me encaram — Acho justo que eu saiba disso por você, na verdade, acho que isso é o mínimo — engulo em seco, ele está certo.

— Nunca aconteceu nada – não quero que ele pense que rolou algo durante esse tempo, ele dá um aceno com a cabeça – Nem vai acontecer. Ele tá namorando, tá feliz... Eu só não podia continuar te prendendo a mim

— Eu gostava de estar preso — ele dá de ombros e separa nossas mãos, sinto um aperto no peito em vê-lo assim, mas sei que fiz a coisa certa — A gente ainda pode terminar o café? — ele pergunta forçando um sorriso.

— Eu tô morrendo de fome — minha voz sai meio estranha, quase como de outra pessoa, ele sorri.

— Ainda bem que eu ainda não tinha comprado seu presente — ele fala de um jeito divertido e nós dois acabamos rindo, juntos.

Ele me deixa na frente do prédio e dessa vez quando eu saio da moto ele não desce, apenas me olha com a sombra de um sorriso.

— Então é isso! Acho que ta claro que eu não vou né? – eu faço que sim – Então aproveita a viagem e feliz aniversário – entrego o capacete a ele.

— Se cuida! – as lagrimas brotam nos meus olhos de novo, mas eu as impeço de descer, seguro o rosto dele com as duas mãos e beijo sua testa por alguns segundos demorados, quando nossos rostos param frente a frente ele me dá uma piscada.

— Eu não vou desistir de encontrar essa tal mulher de sorte e você... — ele toca meu queixo — Deveria falar pra ele – dessa vez ele que beija minha testa, depois me solta e logo coloca o capacete, ele liga o motor e pela primeira vez ele não espera que eu entre, apenas acelera e sai, eu fico parada olhando a moto sumir do meu campo de visão e então entro.