Eu abro meus olhos e levo alguns segundos pra entender onde estou, o quarto ainda está meio escuro, mesmo que escape uma fresta de luz entre as cortinas, assim que reconheço o lugar qualquer ânimo que eu pudesse ter desaparece. Eu não bebi uma única gota de álcool ontem e ainda assim minha cabeça parece que vai explodir e meu estômago está totalmente embrulhado, respiro fundo e me levanto da cama king syse que parece ocupar o quarto inteiro, mesmo o quarto sendo realmente grande, o guarda roupa que ocupa toda a frente da cama tem espelhos em todas as portas, então assim que me levanto encaro um cara totalmente destruído, não só o cabelo, ou a roupa amassada, mas o próprio semblante, sinto como se tivesse sido sugado cada ponta de energia que eu tinha dentro de mim e honestamente, não vejo o por quê tentar recarrega-las. Vou direto pro banheiro que fica dentro do quarto, jogo uma agua gelada no rosto e desisto de me olhar novamente no espelho, viro as costas e saio, ouço a voz do lado de fora do quarto e vou até lá, minha mãe está sentada em uma das poltronas, falando baixo e assim que me vê, ela sorri, fala algo e então desliga, mas seu sorriso se fecha e ela parece preocupada.
— Conseguiu dormir? – eu a encaro como se não precisasse de resposta e só de olhar ela assente confirmando que entendeu – Eu já pedi o café – ela aponta para o balcão onde já está cheio, vou até lá, puxo um dos bancos, encho uma xícara de café e tomo sem açúcar mesmo, o gosto amargo é convidativo, combina perfeitamente com meu humor hoje, puxo o prato onde estão os ovos mexidos e o bacon, e começo a comê-los, não por que estou com fome, nem por que estão gostosos, talvez até estejam, mas o único motivo que me faz comer é não ter mais nada a se fazer. Sinto quando minha mãe se aproxima, mas ela não diz nada, então paro de comer e me viro pra ela.
— Aconteceu alguma coisa? – ela tenta forçar um sorriso, mas não consegue.
— Seu avô – sua voz parece preocupada.
— O que houve com ele? – imediatamente me preocupo também, desde o acidente, embora já esteja em casa e tenha voltado aos negócios, ele não estava bem de saúde e andava sentindo dores no peito, minha mãe me disse que na semana passada ele passou mal, um principio de infarto, eu não soube, não saiu na imprensa, eles conseguiram abafar tudo, mas a verdade é que o estado de saúde dele é delicado, nós tivemos momentos ruins, eu cheguei a odiá-lo algumas vezes, mas ainda assim eu o amo e espero que ele fique bem – Fala mãe, ele piorou?
— Eu não quero te chatear com isso, você já está passando por um momento tão difícil – ela leva a mão ao coração fazendo uma cara triste.
— Como ele tá? – eu insisto e ela solta o ar como se não adiantasse me esconder e realmente não iria adiantar.
— Ele passou mal essa madrugada, mas se recusa a ir ao médico... – sinto um certo peso no coração por que sei que ele é um turrão e mesmo se estiver mal não vai admitir – Eu sei que você precisa de alguém por perto pra superar esse momento difícil, mas eu estou pensando em ir pra lá, ficar perto dele, entende? – ela me olha como se eu fosse dizer para ela não ir, mas eu não posso fazer isso, pelo contrario.
— Eu vou com você – o sorriso logo aparece no rosto dela e ela parece aliviada.
— Tem certeza?
— Não tenho mais nada pra fazer aqui – dou de ombros e por mais que me doa, e dói, dói muito, eu realmente não tenho mais nada pra fazer aqui, por que o único motivo que me mantinha aqui agora deve estar me odiando e me querendo o mais longe possível dela.
— Bom, eu não queria parecer precipitada, nem intrometida, mas eu realmente acho que é o melhor pra você, sair daqui, ir pra longe de tudo isso, você vai ficar melhor rápido, rápido – ela parece animada, mas eu não, eu sei que eu não vou ficar bem em lugar nenhum, nem lá, nem aqui, não sem ela do meu lado, mas eu não digo nada, apenas me levanto e jogo o lenço sobre a mesa.
— Vou arrumar minhas coisas – assim que falo isso percebo outra coisa, eu não tenho nada pra arrumar aqui, por que tudo está no apartamento, todas as minhas coisas estão lá, aliás, toda a minha vida está lá, e eu não faço nenhuma ideia de como vou fazer as coisas agora, parecendo que leu meus pensamentos, o telefone toca, minha mãe atende e faz uma cara feia quando desliga.
— Um amigo seu tá subindo... – mal tenho tempo de perguntar quem é, e a campainha toca, abro a porta e Vítor me dá aquele olhar que só ele tem e mesmo que possa parecer estranho, eu apenas o abraço, e mais uma vez eu tenho certeza que não mereço um amigo como ele, os braços dele se apertam ainda mais em mim, ele segura minha cabeça e beija minha bochecha.
— Como que cê tá? – dou de ombros, e parecendo um moleque de seis anos molenga, as lagrimas escorrem, ele me puxa pro abraço de novo, mas dessa vez entrando e fechando a porta atrás de nós, ele ignora minha mãe, e ela o ignora, vamos direto pro quarto e ele só me solta lá dentro – E qual é o plano? – ele pergunta parecendo confiante.
— Eu to indo embora – ele parece surpreso e não de um jeito bom.
— Embora? Como assim?
— Meu avô tá mal, minha mãe tá preocupada... – ele revira os olhos.
— Seu avô tem os melhores médicos a disposição e cara, na moral, sua mãe... – ele para de falar e balança a cabeça como se não valesse a pena – O que você tem que fazer é ficar e tentar se aproximar da Dani, conversar com ela, falar a verdade que você não encostou naquela mulher...
— E pra quê? – ele me olha meio confuso – Pra daqui a um mês ou um ano, acontecer tudo de novo? Qual o sentido?
— Vocês se amam!
— É, cara, eu amo ela, amo pra caralho, mas eu já devia saber disso, eu nunca devia ter me aproximado dela...
— Tá falando merda
— Tô mesmo? – ele me encara e antes que ele diga algo eu continuo – Eu peguei mais mulheres do que me lembro, eu bebi mais do que meu fígado deve ter suportado, tudo que eu fiz foi só isso... Só me tornei um riquinho, babaca e pegador. E ela, cara... Ela é a pessoa mais incrível do mundo, ela é inteligente, honesta, boa, ela é foda. E se eu pudesse eu voltaria no tempo e ao invés de estragar minha vida inteira, eu abriria mão de todas as baladas, de todas as transas fáceis, de todas as loucuras só pra me preparar e me tornar o homem que ela merece, mas eu não posso e eu nunca vou ser esse cara. Então qual o sentido? Qual a merda do sentido de conversar com ela? Eu era esse cara, ela não tá errada em ter desconfiado, como eu posso culpar ela por isso? Não posso e se isso acontecer outra vez é esse Rafael que vai ser lembrado, aquele que só sabia fazer isso, merda e sexo. E eu não vou fazer ela passar por isso de novo. Não tenho esse direito.
— Ela te ama!
— E eu amo ela mais do que já imaginei ser possível e é por isso que eu prefiro viver o resto de uma vida infeliz, desde que isso dê a ela uma chance de ser feliz de novo...
— Só que seu babaca, a única chance dela é com você...
— Não, não é! – eu dou de ombros – Ela tem o Vinny, tem a Lia, o bebê, tem você...
— Se você acha que eu vou correndo atrás dela quando você virar as costas... – ele parece realmente irritado.
— Não acho isso! Só estou dizendo que eu tenho certeza que você não vai virar as costas pra ela, certo? – ele ainda está irritado, mas não nega – Você vai ficar do lado dela, não vai? Vai fazer ela enxergar que eu nem sou tudo isso – levanto os ombros.
— Você é um babaca!
— É, eu sei! E você é o melhor amigo que eu já tive, então eu sei que ela está em boas mãos, você vai cuidar bem dela...
— Você que deveria cuidar – ele joga na minha cara, mas acho que no fundo até ele sabe que não é uma boa ideia, então solto o ar e decido acabar logo com isso.
— Preciso de um favor... Pega minhas coisas lá...
— Não – ele fala sem nem precisar pensar e isso me surpreende um pouco – Eu entendi que você não vai mudar de ideia, mas quer mesmo fazer isso? Então faz você! – eu já ia contestar, mas ele me interrompe – Eu cuido dela, eu chego junto, mas isso você precisa fazer...
— Ok! Será que pode me ajudar com outra coisa pelo menos?
— Manda – eu explico o que já tinha decidido fazer e embora o rosto dele mostre que ele não concorda muito, ele não me interrompe nenhuma vez, só fala quando acabo – E você acha que ela vai aceitar?
— Tenho certeza que não!
— Então, você basicamente quer que eu faça um milagre?
— Só quero que você faça ela entender que isso é justo
— Só que eu não sei se é justo mesmo – eu o olho confuso – Você criou tudo isso, Rafa. É ideia sua, você batalhou, você ficou até de madrugada ralando, não pode simplesmente abrir mão assim, mesmo por ela...
— Mas foi por ela que eu quis ser melhor...
— Então você vai desistir de ser esse cara e voltar a ser o outro cara?
— Não, não consigo mais ser daquele jeito, eu só... Só não tenho mais nada aqui...
— UAU! – ele leva a mão ao coração, eu acabo soltando um pequeno riso.
— Você entendeu! – ele bota a mão no meu ombro e aperta.
— Eu ainda acho que é um erro, que você vai acordar e perceber que tá fazendo a maior besteira da sua vida, mas... Ok, pode contar comigo – eu o abraço de novo.
Corro pra preparar todos os documentos que preciso, entro em contato com umas pessoas que me ajudam e agilizam tudo, então na hora do almoço já estou com os papéis prontos e entrego pro Vítor que vai entregar pra ela, saio junto com ele, mas vou pro apartamento.
— Tava sumido, garoto – Seu João fala todo simpático assim que chego na portaria, forço um sorriso, mas apenas passo direto pro elevador, entrar nele é o começo da maior prova de resistência que eu já passei ou ainda irei passar, por que as lembranças que tenho começam a me sufocar, quase posso sentir o cheiro do perfume dela, agradeço quando as portas se abrem, mas apenas por um segundo por que a visão da porta do apartamento me traz outra facada. Abro a porta e agora sim o cheiro dela parece impregnado em cada pedaço, olho pro sofá e me lembro imediatamente de todas as horas que passamos jogados lá rindo, vendo algum filme, série ou apenas ficando agarrados, lembro também de todos os nossos encontros aqui, os caras no chão, as meninas no sofá, todos bebendo, rindo e se divertindo, a lagrima ameaça escorrer e vou pro quarto, tudo parece intensificar, a dor se torna palpável, aqui dentro eu passei os melhor momentos da minha vida, cada segundo que passei aqui dentro me fez acreditar na felicidade e me fez acreditar que eu a merecia. Eu lembro de cada sorriso, cada gargalhada arrancada, cada olhar mau humorado, cada abraço, cada beijo, cada toque, cada vez em que ela corria da cama pro banheiro por que estava apertada por ter segurado o xixi durante quase a noite inteira, lembro de cada discussão por que ela simplesmente não conseguia deixar nada no lugar e olhando em volta eu vejo que isso não mudou, por que a calça jeans está jogada sobre a mesa do computador, algumas camisetas estão na cadeira e o perfume jogado na cama, não tento mais segurar as lagrimas, eu deixo que elas saiam, eu preciso que elas saiam, me sento na cama, puxo o travesseiro dela e afundo meu rosto nela, o cheiro dela ainda é o mais doce perfume que eu já senti, ainda faz meu coração acelerar, mas dessa vez ele dói a cada batida, por isso me obrigo a levantar antes que eu perca as forças, pego a mochila que estava esquecida em cima do guarda roupa, abro e encho ela com minhas roupas, vou até a prateleira, pego minha camêra e alguns livros, então a visão das fotos coladas na parede estremecem meu corpo, cada momento importante nosso está aqui e talvez, por puro egoísmo eu os arranco, e coloco um por um na mala, por que eu preciso disso comigo, preciso me lembrar que por um tempo eu fui o cara mais sortudo e feliz desse mundo todo, quando termino de arrumar tudo, respiro fundo, dou uma olhada em volta e então saio sem olhar pra mais nada, ou perderia a coragem, tranco a porta, desço o elevador e paro apenas no balcão do Seu João.
— Entrega pra Dani pra mim, por favor? – o nome dela sai doendo da minha boca, ele parece confuso.
— O que aconteceu ? – ele olha confuso pra chave.
— Não deu certo – é tudo que eu consigo dizer, viro as costas, voltando a chorar de novo.
— Seja feliz, menino – apenas assinto com a cabeça e saio do prédio.
Entro no carro e me deixo chorar, por mais infantil que isso seja, apenas choro, meu corpo treme e se balança com os soluços, mas só paro quando sinto um pouco de alivio, mesmo que essa palavra pareça tão distante do que eu sinto.
Volto pro hotel, minha mãe está novamente falando no celular, as malas já estão no meio do quarto preparadas e ela está espantosamente ansiosa e animada.
— Mal vejo a hora de voltarmos – ela sorri enquanto vem até a mim – Você só tem isso? – ela olha com horror pra minha mochila – Como você sobreviveu tanto tempo?
— Tem tudo que eu precisava aqui – ela parece não acreditar, mas ignora.
— Você ainda precisava resolver esse lance da sua lanchonete – ela fala com desdém, mesmo tendo me ajudado com a festa aquele dia, ela parece animada com o fim disso.
— Eu já resolvi!
— Já? – ela parece surpresa e curiosa – Vendeu?
— Não!
— Então como você resolveu? – dou de ombros e passo por ela entrando no meu quarto – Você não fez isso, fez, Rafael? – ela vem a trás de mim, os saltos fazendo barulho no chão, mesmo com o carpete.
— Depende, do que você tá falando?
— Você não fez a besteira de deixar nada pra aquela...
— EI! Olha essa boca – ela engole parecendo furiosa – Sinceramente... O que eu fiz ou deixei de fazer não te interessa – ela parece surpresa com minha resposta, e logo está constrangida.
— Me desculpe, eu só... Só não acho justo você entregar tudo assim pra ela, sendo que ela nem te escutou... Mas tudo bem, eu não deveria me meter na sua vida mesmo – ela vira as costas e sai, assim que ela vai, eu percebo que posso ter sido duro demais com ela, tivemos vários problemas e ainda tenho muita magoa dela, porém ela está tentando se reaproximar, ela não tem culpa de ter sido justamente num momento tão ruim, por isso vou atrás dela.
— Desculpa, ok? Eu só não estou num bom dia, eu... Tive que voltar no apartamento, pegar minhas coisas, ver tudo aquilo, eu só... Eu preciso ir embora daqui antes de fazer uma besteira...
— Que tipo de besteira? – ela pergunta preocupada.
— Ir atrás dela, implorar perdão e me meter de novo na vida dela...
— Bom, ela que deveria te implorar perdão...
— Ela não tem culpa – ela finge uma risada.
— Ela te ignorou, nem ao menos escutou o que você tinha pra falar e além do mais, se ela te amava tanto e te conhecia tanto quanto ela falava por aí, deveria saber que você não faria aquilo com ela – por mais que o que ela esteja falando tenha um fundo de verdade, eu não consigo sentir raiva, nem magoa da Dani, ela teve todos os motivos pra desconfiar de mim, quer dizer, desde que namoramos ou mesmo antes disso, eu nunca dei motivos pra isso, mas eu tenho um currículo bem extenso pra exigir que ela esqueça, eu só consigo me sentir mal por ter, de alguma forma, magoado ela.
— Eu não quero falar sobre isso...
— Por que você sabe que eu tenho razão...
— Não, por que eu sei que você nunca vai conseguir entender o quanto ela é especial! – viro as costas e dessa vez me afasto, ela demora alguns minutos e então reaparece.
— Nós temos que ir pro aeroporto – ela avisa e eu concordo.
Saímos no meu carro, a viagem até o aeroporto dura poucos minutos e é silenciosa, deixo meu carro no estacionamento e depois vejo como faço, talvez eu venda ou mande alguém buscar, não sei, só sei que preciso sair daqui logo, nós vamos fazer o checkin e minha mãe despachar as malas, enquanto espero por ela, ligo pro Vítor, ele atende logo no segundo toque.
— Como foi lá? – ele me conta o que eu já sabia que aconteceria, ela bateu o pé, quis rejeitar, provavelmente está me odiando ainda mais agora, mas por fim ficou com os papéis e isso me deixa um pouco aliviado, falo pra ele que já estou no aeroporto e ele aproveita pra reforçar o quanto eu estou errado indo embora, mas é uma decisão já tomada, então apenas agradeço, peço que cuide dela e desligo.
O voo é tranquilo e rápido, pouco mais de uma hora, mas chegamos bem, a demora pra buscar as malas da minha mãe é meio estressante, e me lembra mais uma vez do por que prefiro as mochilas, mas assim que conseguimos, pegamos um táxi e vamos direto pra casa do meu avô, assim que o carro para na entrada, sinto uma coisa estranha dentro de mim, como um Djávu porém, acompanhado de todas as lembranças ruins, todas as vezes em que me senti sozinho, abandonado e infeliz, os grandes portões de madeira se abrem e revelam uma beleza que eu achei que já tivesse esquecido, o caminho de pedras leva até a mansão, em volta a grama verde parece brilhar com o sol, os carros parados na lateral da casa me lembram da vida de luxo que eu tinha, mas a mansão absolutamente impressionante me lembra do quanto eu fiquei sozinho lá dentro, assim que desço do carro a mulher que já tem algumas rugas no rosto e está com o fiel avental amarrado na cintura corre dos fundos da casa de braços abertos pra mim, eu ainda odeio essas sensações que estão voltando, mas vê-la aqui acalma uma parte do meu coração.
— O meu garotão – ela me abraça e eu a abraço de volta tirando os pés dela do chão, ela ainda tem o mesmo cheiro de bolo de laranja e canela que eu sentia toda manhã.
— Tia Mara – beijo sua bochecha demoradamente e a coloco no chão, ela segura meu rosto me olhando como se não me visse a anos.
— Você tá tão lindo, eu senti tanto sua falta, essa casa fica muito vazia sem você, meu menino – eu sorrio, sei que ela está sendo sincera e também senti falta dela.
— E você tá gata, andou malhando é? – eu finjo olhar pro bumbum dela, ela ri e me acerta um tapa, eu sempre brincava com ela assim e ela sempre me batia, eu realmente senti falta disso.
— Anda, eu preparei umas coisinhas pra você – ela fala já me segurando pela mão e me arrastando.
— Ele vai subir e tomar um banho, sirva na sala de jantar – minha mãe fala com o mesmo tão de voz que sempre usou com todos os empregados, e eu odeio isso.
— Eu tomo banho depois e eu nunca comi na sala de jantar – dou as costas e volto a andar com tia Mara.
— E as malas? – ouço minha mãe perguntar, mas ignoro, entro na cozinha e mais uma chuva de lembranças me atinge, as centenas de madrugadas em que cheguei em casa bêbado ou apenas exausto e assaltava a geladeira, de manhã sempre ouvia um sermão dela, mas logo ela esquecia de tudo quando eu começava a ajudar a fazer alguma coisa, lembro de todas as refeições que fiz aqui quando era adolescente, apenas eu e ela, rindo, comendo e conversando, por muito tempo, ela foi a única amiga que eu tive, embora não tivesse dimensão disso na época. Ela preparou um banquete, com tudo que eu gosto, bolos, pães, sanduiches, geleias caseiras, sucos e vitaminas, eu como um pouco de tudo e quando sinto que minha barriga vai explodir, eu paro e saio da cozinha. Subo pra ver meu avô, ele estava dormindo quando chegamos e eu agradeci mentalmente por que não estava tão animado pra ver ele, não sou acostumado a vê-lo vulnerável, como aquela vez no hospital, a imagem dele em cima daquela cama, ainda me assustou por alguns dias, não quero ter que reviver isso, mas preciso, então entro no quarto devagar, a luz está baixa, embora a tarde ainda esteja caindo, vou até sua cama e ele logo se mexe e olha pra mim.
— Você veio mesmo – mas ele não parece feliz, sua voz é baixa e não parece com a do velho mandão que ele sempre teve.
— É, eu vim – me sento na cama ao lado dele, o colchão afunda um pouco e me acomoda, ele se endireita, e fica meio sentado, meio deitado, ele balança a cabeça como se estivesse pensando em algo.
— Não deveria!
— Tá me expulsando? – ele me olha feio.
— Eu nunca quis que você saísse...
— Então pronto...
— É diferente! – e eu sei que é, mas não digo nada, olho em volto, o quarto ainda está do mesmo jeito que me lembro desde que entrei aqui pela primeira vez, é estranho saber que nada mudou por aqui – Então, é isso? Acabou?
— Acabou! – balanço a cabeça confirmando.
— Não acredito! – ele me olha sério.
— Eu tô de volta, vô!
— Seu lugar não é mais aqui...
— E nem é mais lá – dou de ombros, sentindo um vazio maior do que eu achei que tivesse, pela primeira vez desde que toda essa confusão começou que eu realmente entendo isso, meu lugar não é mais aqui e também não é mais lá, eu simplesmente não tenho mais um lugar, não sou de nada, nem de ninguém, eu simplesmente existo. Ele pega na minha mão e olha nos meus olhos.
— Eu não te criei pra você fugir no primeiro tropeço...
— Eu não posso – tento explicar, tento dizer a ele o por que é tão errado eu voltar, por que é tão cruel eu me colocar de novo na vida dela, mas nada sai, as palavras parecem apenas desaparecer e eu apenas fico olhando pra ele enquanto as lagrimas escorrem pelo meu rosto, ele me puxa pra perto dele e pela primeira vez na minha vida, eu choro no colo do meu avô, ele acaricia meu cabelo e me deixa ficar ali pelo tempo que preciso, até que engulo minha dor, esfrego meu rosto e me recomponho.
— Eu sei que não fui o que você precisava, e te afastei de quem poderia ter sido seu melhor professor, mas eu não posso mudar isso, nem posso mudar todas as coisas horríveis que eu já te disse, mas eu quero que você saiba que eu te amo, eu sempre te amei, do meu jeito meio turrão e mandão, mas eu amei, eu só queria o melhor pra você, queria te dar o mundo e esqueci que você primeiro precisava de um lar... Eu sinto muito, muito mesmo... – eu balanço a cabeça concordando e com medo de que se eu falar algo acabe chorando – Dizem que quando a gente chega no fim da vida que avalia tudo que fizemos e se eu pudesse mudar muita coisa eu mudaria, mas como eu não posso, só quero te dar um conselho... Não espere! A vida não para e não costuma dar muitas chances. Faça o que te faz feliz. Esteja do lado de quem te faz feliz e então, no meio do caminho, aí sim, você ganha o seu mundo... – eu sorrio, me inclino e beijo sua testa – Agora eu preciso descansar um pouco...
— Eu vou tomar um banho, arrumar as coisas no meu quarto – ele concorda e volta a se deitar, saio do quarto e encontro minha mãe no corredor, ela vem quase saltitando nos saltos altos.
— Ainda bem que te encontrei, eu tive uma ideia excelente... Uma festa de boas vindas – eu penso que ela está apenas brincando, mas a animação dela me faz acreditar que não – Pensei nessa sexta mesmo, alguns amigos, os acionistas, podemos chamar algumas amiguinhas suas – ela ri de um jeito que me faz ter ânsias, e eu poderia responder ela de mil maneiras diferentes, mas tudo que faço é virar as costas e ir pro meu quarto, ouço os ‘toc toc” do sapato dela logo atrás de mim – Rafa, Rafa! Eu preciso decidir as coisas, o que você acha? – eu paro na porta do quarto impedindo a entrada dela.
— Eu não vou aparecer em festa nenhuma – fecho a porta na cara dela e solto o ar do lado de dentro do quarto, olho pra frente e me sinto com 18 anos de novo, o quarto está exatamente igual, as paredes, os móveis, a roupa de cama, o vazio, a solidão, o medo de sempre estar assim. Solto o ar e me jogo na cama, encaro o teto com estrelas desenhadas e meu pensamento vai até ela, como ela deve estar, se está se alimentando, se tem dormido bem, se ainda me odeia da mesma maneira que me odiou naquele momento dentro daquele escritório e só de pensar nisso sinto um calafrio subindo a minha espinha, o olhar dela pra mim naquele exato instante é algo que nunca vai sair da minha cabeça, tinha tanta dor, tanto sofrimento que eu pude senti-lo antes mesmo dela abrir a boca pra falar algo, eu soube naquele momento em que ela me olhou que eu a havia perdido, que algo tinha sido quebrado e nunca fiquei tão apavorado e tão sem reação como naquela hora. Eu não paro de pensar que deveria ter reagido, ter respondido logo, ter me explicado logo, mas eu não consegui, não com aqueles olhos feridos me encarando, não vendo ela descer até o chão enquanto chorava o choro mais sofrido que eu já vi alguém chorar, foi ainda pior do que ver ela chorando naquela vez do dia que eu descobri do acidente, foi pior, mil vezes pior, por que ali, a culpa era minha. Eu sei que não fiz nada, nem ao menos cogitei a ideia de encostar naquela garota, eu apenas fui até o escritório pegar um cartão e ela entrou atrás de mim, ela abriu o vestido, colocou os peitos pra fora e veio pra cima de mim e no mesmo segundo a porta se abriu, eu juro que jamais passou pela minha cabeça, em nenhum momento desde que me declarei pra Dani, encostar em qualquer outra mulher que não fosse ela, mas vê-la ali naquela situação me mostrou que além do que eu sinto, além do que eu quero pra nós dois, eu não posso dar a ela a confiança de um passado limpo, eu sei que ela me ama, não duvido disso nem por um segundo, mas não posso dar isso a ela. E talvez eu devesse odiar ela, talvez minha mãe esteja mesmo certa e ela é uma idiota de não ver o quanto eu a amo e jamais a trairia, mas a verdade é que por mais que eu tente eu jamais vou conseguir culpar ela ou ter raiva, tudo que eu sinto por ela é amor e uma saudade que provavelmente vai me enlouquecer e enquanto isso não acontece eu preciso organizar minha nova/antiga vida, desfaço minha mochila, guarda as coisas no guarda roupa que ainda está cheio de roupas que não levei, o closet é do tamanho do quarto da Dani e eu sei que ela iria me zoar pelo resto da vida quando visse isso, mas ignoro esse pensamento, abro meu notebook e já dou de cara com as fofocas sobre eu assumir a empresa, embora ainda não goste da ideia, agora sei que vou levar isso a frente, abro uma pagina em branco e já começo a preparar o provável discurso que terei que fazer quando confirmar as fofocas, já posso imaginar todas as câmeras e todos em volta, mas não é nada que eu não esteja acostumado, então sei que vou sobreviver. Acabo entrando numa conversa com o Vítor que estava online e nem vejo a hora passar, já estamos entrando na madrugada quando desligo tudo, tomo um banho e saio do quarto, desço as escadas com a mesma rapidez e discrição de quando eu tinha 17 anos e chegava no meio da madrugada, vou pra cozinha, abro a geladeira e um pedaço de uma torta de chocolate parece brilhar, eu pego, me sento e devoro cada pedacinho, depois lavo as provas do crime e subo, já estava indo pro meu quarto quando desvio e vou até o quarto do meu avô, entro devagar, a luminária está acesa por isso o chamo.
— Vô? – minha voz é baixa, mas com o silêncio, parece ecoar por todo quarto e nesse segundo percebo algo estranho, não que eu tenha visto alguma coisa, mas a sensação que me invade é meio fria, me aproximo da cama e antes de tocá-lo eu já sei o que significa, embora pareça dormindo, seu peito não sobe e desce, e quando o toco sua pele está gelada, meu coração dispara, eu acendo a luz principal e seus lábios estão levemente roxeados, meu coração para por um segundo. Ele se foi.
Os acontecimentos seguintes passam como um borrão, minha mãe chorando, o médico chegando, ele confirmando o óbito, tia Mara chorando, minha mãe ligando pra todo mundo, correria pela casa, telefones tocando e tudo que eu faço é me afastar, entro no meu quarto e me jogo na cama.
Eu só queria você aqui comigo, só isso. Só queria você.
Quando sou chamado me recomponho e preciso tomar as rédeas de toda situação, minha mãe já esta mandando o advogado ver o testamento, já amanheceu e a imprensa já está na porta, visto minha capa de homem de negócios que vi meu avô vestir tão bem durante tanto tempo e por cima o terno mais elegante que tenho e então começo todo o ritual.
O discurso que preparei acaba sendo substituído por um improvisado sobre morte e não sobre retorno. Mas confirmo que vou assumir tudo e quando me perguntam da sede na Alemanha, mesmo sem nem saber ao certo, eu digo que vou pessoalmente cuidar disso, só quero me livrar deles e sair de perto disso, quando chegamos na mansão de novo, minha mãe já esta pressionando o advogado, ele diz que precisa de 24 horas pra organizar tudo e ela não fica muito feliz, mas se conforma, enquanto isso eu tento me inteirar de tudo que está acontecendo na empresa, e descubro que a sede da Alemanha realmente precisa de atenção e talvez ir para lá seja mesmo uma boa ideia, afinal, eu não tenho nada por aqui mesmo, passo a madrugada pensando nisso e eu mal acordo e os acionistas começam a me ligar, todos querem saber o que eu vou fazer agora e a verdade é que agora eu não consigo nem sequer pensar, então eu invento uma história, digo que preciso apenas resolver uns negócios pendentes em uma rápida viagem de no máximo 24 horas, não falo nada pra minha mãe, ligo pro Vítor e mando me buscar no aeroporto bem cedo, então pego o primeiro avião de volta.
Talvez seja um erro, o maior deles, mas eu não consigo pensar lá, simplesmente não posso, aqui embora perto da minha maior dor, eu me sinto de certa forma mais leve.
Quando desço no aeroporto ele me recebe de braços abertos.
— Decidiu me escutar? – ele abre um sorriso esperançoso.
— Só preciso de umas horas pra pensar – ele parece meio decepcionado, mas me abraça.
— Sinto muito pelo seu avô
— Obrigado – ele beija minha testa, então vamos para o hotel, ele passa o dia comigo, como sai com a roupa do corpo, ele trouxe uma roupa dele, e nós conversamos, eu falo da minha situação, sobre a Alemanha e sobre como já estou me sentindo sufocado e ele apenas me repete o que eu já sabia que ele diria, que eu não preciso de nada disso e eu sei que ele está certo, mas não faz muito sentido tentar ser outra coisa, ele discorda, tenta me fazer mudar de ideia, mas acaba me dando apoio quando percebe que já me decidi, nós jogamos ps4, eu ganho dele umas 3 vezes e ele me dá uma surra 8 vezes seguidas, depois eu apenas durmo, finalmente apago por horas, quando acordo, ao quarto está vazio e ele deixou um recado que está no restaurante e me espera lá, eu boto minha roupa, e saio. Decido ir de metrô, saio da estação e percebo que desci na errada, mas quando me lembro de onde estou, acredito que na verdade meu subconsciente me trouxe pra cá, estou a apenas uma quadra da faculdade da Dani, eu paro na escada decidindo o que fazer, mas quando vejo já estou andando na direção dela, meu coração dispara e se aperta a cada passo, e então quando vejo o prédio, também a vejo na calçada, junto com Mateus e mais uma amiga, meu peito se aperta e parece querer explodir quando a vejo rindo, eu quase havia me esquecido o quanto é apaixonante vê-la sorrir, é e sempre será a melhor visão do mundo, mas ela se perde quando Mateus a abraça, ele tira seus pés do chão e faz ela gargalhar, sinto como se tivesse levado um soco na cara e paro onde estou, ele a coloca no chão, ela lhe dá um tapa, mas ainda ri, então encaixa o braço nele e na amiga e saem os três juntos, enquanto eu apenas fico parado observando ela se afastar, eu gostaria de gritar, ir até ela e dizer o quanto eu sinto sua falta e a amo, mas continuo parado, eu queria poder dizer o quanto estou perdido, angustiado e sofrendo sem ela por perto, mas continuo parado, queria dizer como é horrível dormir numa cama sozinho, sem a pele dele para me aquecer e sem seus lábios tocando meu pescoço, mas continuo parado, queria dizer o quanto sou infeliz sem ela, mas me parece errado dizer qualquer uma dessas coisas quando acabei de ver ela rindo, eu não posso, então viro as costas e volto a andar, sem me importar muito para onde vou.
Paro num bar, o lugar é caro, por isso está praticamente vazio, entro me sento num dos bancos de frente pro balcão e peço um uísque.
— Cowboy? – eu o encaro sério.
— A garrafa e um copo – ele me olha meio desacreditado, puxo a carteira, abro a pego as notas de cem, jogo no balcão e repito – A garrafa e um copo – ele junta as notas, sai e volta com a garrafa fechada e um copo com gelo, eu me levanto viro o gelo na lixeira ao meu lado e encho com o liquido amarelado, o primeiro gole desce queimando minha garganta, mas quando chego na metade da garrafa não sinto nada, literalmente nada.
— Parece meio egoísta beber tudo isso sozinho – a voz me alcança e eu me viro de lado.
— Eu sou bem egoísta as vezes – ela sorri, e me sinto cansado, e não tem nada a ver com a bebida, e sim com ela, eu já vi isso antes, todo o joguinho até chegar onde já sabemos que isso vai acabar, então decido encurtar o show – Nós já sabemos onde isso vai dar, e eu já pedi meu Uber então... Quer ir comigo ou não? – ela tenta parecer confusa e ofendida, mas reviro os olhos e me levanto, quando passo por ela sua voz me alcança.
— Você não é casado, nem nada, é?
— Absolutamente sozinho – eu respondo totalmente anestesiado pela bebida, ela sorri e logo se encaixa no meu braço, entramos no Uber e em menos de 15 minutos estamos descendo no hotel, eu saio primeiro, e dou a volta, ela sorri quando abro sua porta e mesmo sabendo que ela sorriu, não consigo fixar muito no rosto dela, por que tudo em volta gira, ela passa o braço entre o meu e então vamos entrar no hotel, mas então meu coração parecer perder uma batida quando escuto meu nome, a voz é doce, irritada e incrivelmente perfeita, me viro e então ela está parada na minha frente, primeiro eu tenho certeza que é minha imaginação, mas então ela fixa os olhos nos meus e tudo que estava morto dentro de mim se desperta sobre o olhar dela.
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