Os segundos em que nos olhamos parecem horas, por que uma infinidade de coisas passa pela minha cabeça, começando com o fato de que meu peito parece explodir de tanta saudade, até o fato de eu querer voar no pescoço dessa mulher que está ao lado dele, e antes que eu decida qual dos dois lados ouvir, ele se solta dela e vem até a mim, só precisam de dois passos e então estamos quase nos tocando, sua boca se abre num sorriso, o sorriso mais lindo que eu já vi na minha vida, ele estica a mão e toca meu rosto, o calor da sua mão desperta todo o meu corpo e eu não sei se consigo controla-lo, então ele me abraça apertado, sinto seu corpo junto ao meu se encaixando em cada pedaço e me religando nele de um jeito quase que imediato, é como cair dentro de um redemoinho de lembranças, todas as vezes em que esse abraço me acolheu, me esquentou, me tranquilizou e me fez me sentir a pessoa mais amada e sortuda do mundo, enquanto ele continua me apertando nele, seu rosto afunda no meu pescoço, mas o cheiro de álcool que está impregnado na sua pele quase me deixa bêbada também, e mesmo que eu devesse empurrá-lo, não consigo, não posso me afastar dele, nunca pude, mas tento me convencer que só não o empurro por que existe a chance dele desabar e cair no chão de tão bêbado que deve estar.

— Me perdoa – ele pede assim que afasta o rosto, seus olhos estão cheios de lagrimas, e isso me dói de um jeito de dor totalmente nova pra mim – Eu faço o que você quiser, qualquer coisa, só... Me perdoa. Eu... Eu não sei viver sem você... Não sei – ele levanta os ombros – Eu não sei o que fazer, não sei pra onde ir... Eu só... Me perdoa, por favor – quando eu acho que ele já disse o suficiente, e que posso negar, virar as costas e deixar tudo como está, ele me solta e se ajoelha – Me perdoa – ele se prosta quase com o rosto no chão e imediatamente eu me abaixo junto com ele.

— Não faz isso, levanta, Rafael, levanta – eu tento puxar ele pra ficar de pé, mas ele se recusa e então começa a chorar, realmente chorar, forte e doído.

— Diz que me perdoa ...

— Eu não tenho nada pra te perdoar – e é a verdade, ele não fez nada, eu sei disso e ele também, então ver ele assim é inadmissível, mesmo se ele tivesse feito algo.

— Por favor, por favor, levanta, eu tô te implorando, Rafa, não faz isso comigo – eu peço já quase chorando também, ele me olha como se tivesse acabado de ver algo impossível – Por favor, levanta – eu peço mais uma vez, dessa vez ele me deixa levantá-lo, o que é realmente trabalhoso já que o equilíbrio dele está terrivelmente comprometido – Você mal consegue ficar em pé – eu falo quando consigo botar ele em pé, mas apoiando-o com meu corpo, eu olho em volta e só agora percebo que a mulher que estava com ele simplesmente sumiu, mas vindo de dentro do hotel, vem um segurança.

— Precisa de ajuda? – ele oferece quando me vê toda torta com Rafael.

— Ele tá muito bêbado – eu falo tentando segurar a cintura dele contra a minha, o segurança me dá um sorriso de que entende, e vai para o outro lado, mas quando encosta no Rafael, ele se esquiva.

— Eu não consigo te carregar sozinha, Rafa – ele novamente me olha do mesmo jeito de quando se levantou do chão.

— Você me chamou de Rafa. Duas vezes – eu acabo liberando um sorriso, por que isso ainda é importante pra ele, da mesma maneira que era quando o chamei assim pela primeira vez.

— Ele vai me ajudar a te levar lá pra cima, ok? – ele parece confuso.

— Você vai subir? – eu reviro os olhos e não respondo, mas começamos a andar para dentro do hotel.

— Você tem o cartão? – o segurança me pergunta e eu nego.

— Rafa, o cartão do quarto tá com você? – ele parece meio perdido em pensamentos, na verdade deve estar perdido no meio de todo o álcool que tá circulando dentro dele – Rafa, o cartão – ele tenta se soltar do segurança pra enfiar a mão no bolso de dentro do terno, mas não consegue acertar, então eu empurro sua mão e eu mesmo procuro, encontro o cartão e levanto pro segurança.

— Você me perdoou? – Rafa pergunta como se tivesse me visto pela primeira vez.

— A gente não vai conversar sobre isso agora – eu falo séria e ele faz uma cara de dor.

— Eu não encostei nela, eu juro, eu nem olhei pros peitos dela – o segurança meio que me olha meio sem graça – Eu nem sei se ela tinha silicone, embora pelo jeito dela, acho que tinha, mas não quis dizer como um machista, só que eu acho que tem – eu reviro os olhos e agora o segurança já não está sem graça e sim tenta esconder um sorriso divertido.

— Eu acho que consigo levar ele daqui – eu falo pro segurança assim que o elevador abre a porta.

— Tem certeza? – ele olha meio duvidando.

— Tenho sim, além do mais, qualquer coisa eu o arrasto pelo corredor, não é como se ele não merecesse – dou de ombros e ele ri, mas mesmo assim me ajuda a entrar no elevador e então se afasta.

— Você lembra o numero do quarto? – pergunto pro Rafa que fica olhando nosso reflexo no espelho de um jeito concentrado demais, e assim que entende minha pergunta ele arregala os olhos.

— A gente vai transar? – eu reviro os olhos mais uma vez, queria sentir raiva dele, mas o que acaba acontecendo é que eu sorrio, me lembrando de uma das vezes antes de começarmos a namorar, em que ele ficou bêbado lá em casa e fez a mesma pergunta, mas não respondo, apenas olho no cartão e procuro a identificação, encontro. Suíte presidencial, claro. O celular dele começa a tocar, ele tenta encontra-lo no bolso da calça, mas parece ainda mais difícil do que foi quando ele tentou achar o bolso do terno, então novamente eu tenho que ajudar, e assim que pego o celular e olho a foto que pisca insistentemente meu coração dispara e sinto toda raiva, ódio e nojo que um dia imaginei serem impossíveis de se sentir por outra pessoa.

— É sua mãe – minha voz sai fria e quase como se não me pertencesse, ele faz uma careta, pego o celular da minha mão e sai deslizando o dedo pra quase todos os lados e então desliga a ligação, logo em seguida a porta do elevador se abre e eu quase tenho que arrastar ele pra fora, passo o cartão na porta e então ela se abre, acendo a luz e chuto a porta pra que se feche enquanto ainda o mantenho apoiado em mim, o quarto é gigante, ainda maior do que o quarto que eu fiquei no resort, durante o festival de musica, e esse pensamento aparece trazendo junto cada lembrança daquele fim de semana.

— Eu vou vomitar – ele anuncia já se soltando de mim e correndo meio cambaleando até o banheiro, jogo minha bolsa no chão e corro atrás dele, ele se joga no chão com a cara quase dentro do vaso e então coloca tudo pra fora por quase 5 minutos, quando acaba ele parece sem forças e extremamente pálido, eu aperto a descarga antes de me aproximar se não seremos dois passando mal e então me abaixo no chão junto com ele, passo minha mão na sua testa, ele está gelado e suando bastante, o cheiro de álcool fica ainda pior misturado com o cheiro do vômito.

— Você precisa tomar um banho – eu falo e ele me olha confuso, como se não entendesse o que eu falo – Rafa! Ei, tá me ouvindo? – bato de leve no rosto dele, enquanto seus olhos lutam pra se manter abertos – Tá me ouvindo? Você precisa tomar banho, ok? – ele balança a cabeça que entendeu, mas continua parecendo perdido, então eu mesma tiro o terno dele, jogo o no chão, abro os botões da camisa dele e agora mesmo bêbado, pós-vômito, sonolento e meio acabado, ele libera aquele sorriso idiota que só ele sabe dar.

— A gente vai mesmo transar né – eu tento não rir, mas é quase impossível.

— Será que você não consegue pensar em outra coisa?

— Que eu te amo – a resposta dele faz qualquer sorriso sumir, não por que eu odeie ouvir isso, mas por que me lembro do por que estamos aqui – Você me ama? – eu queria dizer que sim, mas não posso.

— Anda, levanta – eu ignoro a pergunta, enquanto o ajudo a ficar de pé, termino de tirar a camisa e ela cai no mesmo lugar que o terno, então abro seu cinto, sua calça e a tiro dele também – Fica parado aí – eu peço e então abro a porta do box, ligo o chuveiro e deixo na agua gelada, um sorriso aparece quando volto pra busca-lo sabendo que ele vai me xingar quando sentir a temperatura da agua, levo ele com cuidado e então quando o coloco debaixo ele xinga baixo enquanto se contorce – Anda! Não foge – enfio ele ainda mais debaixo do chuveiro, a agua desce pelos cabelos e rosto dele e então ele para de resistir e apenas fica de frente pra mim me olhando por debaixo d’água, espalho sabonete liquido nas mãos e passo pelo peito, ombros e braços dele na tentativa de amenizar o cheiro ruim, mas tudo que acontece é que a cada toque meu nele, quanto mais meus dedos deslizam sobre sua pele, mais difícil fica seguir qualquer plano que eu tivesse, é ainda mais impossível me lembrar do por que eu aceitei essa chantagem barata, tocar ele é me lembrar da certeza de que tive os dias mais felizes da minha vida e que não estou disposta a perde-los, tocar ele é me lembrar do quanto eu pertenço a ele e ele a mim. Ele dá um espirro e isso me desperta, fecho o chuveiro e puxo a toalha, eu mesma passo-a pelo corpo dele, dessa vez tiro sua cueca, mas logo puxo o roupão e o visto, embora agua estivesse fria, ele está ainda mais sonolento, então o guio de volta pro quarto e o coloco na cama, ele praticamente se joga, volto no banheiro pego outra toalha e volto pra cama, só então percebo que estou praticamente toda molhada e como só vou ter essa roupa amanhã, eu decido tirá-la pra secar, como ele está seguro na cama eu aproveito pra tirá-la, fico só de calcinha e sutiã e abro as peças sobre o sofá que tem no espaço ao lado do quarto, volto pra onde ele está e um sorriso escapa do meu rosto ao vê-lo todo largado na cama, dormindo profundamente, tento endireita-lo o máximo que consigo e ainda assim ele está torto, mas o cabelo molhado me chama mais atenção, então pego a toalha, me sento ao lado dele, e começo a secar os fios negros e macios, enquanto os seco um sentimento de estar no lugar certo começa a encher meu peito, é como a junção de conforto, segurança e alivio, tudo isso revestido por um amor tão intenso que rasga meu peito.

— Eu vi você! – a voz dele é rouca e baixa.

— An?

— Eu vi você – ele repete abrindo os olhos, o quarto está meio escuro, mas seus olhos brilham quando encontram os meus.

— Eu sei, eu tô aqui... – ele nega.

— Com o Matheus – ele fala e isso me pega de surpresa e me deixa sem saber o que falar – Você tava rindo – ele abre um sorriso com alguma lembrança e então se fecha – Você tava feliz – eu nego apenas balançando a cabeça, o que eu sentia naquele momento não era nada parecido com felicidade – Eu não devia ter vindo aqui – ele tira a cabeça do meu colo e se arrasta um pouco se afastando de mim – Eu não mereço você – ele conclui e posso ver as lagrimas nos olhos dele, mas ele se vira de costas pra mim – Eu devia ter quebrado o braço dele naquele dia – ele faz o que só ele sabe fazer, mesmo no meio de tanta dor, mesmo com toda culpa me corroendo, ele é único que sempre consegue transformar um momento de dor incalculável em algo suportável, ele continua sendo o único capaz de me fazer suportar qualquer coisa.

— Eu sinto muito – as palavras escapam da minha boca, ele já não diz mais nada, e enquanto olho pra ele, mesmo de costas pra mim, me lembro da reação dele ao me ver, como se ele achasse impossível eu ter vindo atrás dele, o que me faz pensar que... Eu realmente fui tão convincente a ponto dele achar que eu não o procuraria nunca mais. Como eu fui tão fria pra conseguir fazer isso? Se bem que, eu precisava que ele pensasse assim. O que na verdade faz de mim um ser humano ainda pior, afinal de contas, quem faria isso com alguém que ama? Alguém que está sendo ameaçada pela mãe dessa mesma pessoa. Meu próprio subconsciente me responde, mas uma parte minha ainda me culpa por isso, por ser fraca, por não conseguir achar uma saída, por fazer ele sofrer, por fazer ele pensar que eu o odiaria a ponto de não querer mais vê-lo, por fazê-lo pensar que eu poderia estar feliz longe dele, que poderia estar me divertindo com outra pessoa, sendo que tudo que eu quis a cada segundo que sai de perto dele naquela noite foi vê-lo de novo, tocá-lo de novo e eu me odeio por me sentir assim, odeio por transformar nossas vidas nisso, odeio a mãe dele ainda mais, odeio saber que desde o começo eu tinha razão, desde que ela apareceu na porta do apartamento de surpresa naquela noite eu sabia que não seria algo bom, eu sabia que ela não estava sendo sincera e que de alguma forma isso iria destruir o Rafa, eu só não achei que ela fosse me usar pra isso, não passou pela minha cabeça que eu fosse a peça principal pra ela o ter de volta e é horrível sentir isso, sentir que eu fui o motivo pelo qual ela conseguiu o envolver em toda sujeira que ele lutou pra sair, eu queria poder apagar tudo que vivemos nesses últimos dias, por que agora vendo ele assim eu sei que não existe uma maneira de viver me convencendo de que isso é o certo a se fazer, eu não posso mais, não posso agir como se estivesse sendo altruísta se pra isso estou destruindo a vida dele e a minha, eu não consigo mais fazer isso, não deveria nem ter tentado, eu amo o Vinny, amo a Lia e vou lutar com unhas e dentes pela felicidade deles, eu farei o possível e o impossível, eu farei tudo que eu puder e além do que minhas forças permitirem, mas eu não posso mais ignorar que estou destruindo o homem que eu amo, eu não posso mais fazer isso, eu não quero mais fazer isso. É depois de chegar nessa conclusão e tomar a decisão que com certeza vai mudar nossas vidas radicalmente (de novo) é que o cansaço me alcança, meus olhos pesam, meu corpo começa a desabar e meu cérebro parece a ponto de reiniciar, então eu me deito, me escorrego pra perto dele e pela primeira vez nesses dias, mesmo com toda situação ainda mal resolvida, eu finalmente me sinto em casa quando fecho meus olhos abraçando ele.

Abro os olhos e estou sozinha na cama, levo um segundo pra me localizar, e a noite de ontem desaba na minha memória.

— Rafa – o nome escapa da minha boca, eu me levanto e percebo que ainda estou de calcinha e sutiã, mas como isso não é um problema, ignoro e vou até o banheiro, está vazio, já estava voltando pro quarto quando ouço a voz alterada, e reconheço imediatamente, mesmo sem vê-lo e sem entender nada do que está acontecendo eu corro para o espaço ao lado, por que eu já ouvi a voz dele muitas vezes pra saber que agora ele está furioso, assim que abro a porta grande de correr que separa os dois cômodos, dou de cara com Vinny que ainda está com a respiração ofegante por conta de toda falação, a frente dele estão, Rafa e Vítor, os três se viram pra mim, e parece surreal que apenas eu esteja com uma cara de completa confusão.

— O que tá acontecendo aqui? – eu pergunto sem especificar um nome, mas olhando diretamente pro Vinny.

— Eu chamei ele – minha confusão deve ser ainda maior quando Rafa responde, ele já está arrumado, com uma roupa que provavelmente é do Vítor, por que eu já o vi com essa camisa, balanço a cabeça afastando o pensamento.

— Por que?

— Por que ele é um babaca, filho da puta, que só lembra de ter um pouquinho de dignidade depois que faz as merdas – Vinny fala com a mesma fúria na voz que eu tinha ouvido antes.

— Eu não encostei nela, ok?

— Uau! E você quer o quê? Uma medalha? – a ironia do Vinny é provocativa, mas Rafa apenas respira fundo e balança a cabeça.

— Isso é mesmo necessário? – Vítor tenta acalmar o Vinny.

— Que se foda vocês dois. Anda, vamos embora – Vinny fala já me esticando a mão, mas eu nego.

— Eu ainda quero saber o que tá acontecendo aqui... – eu exijo e eles se entreolham, enquanto isso pego o roupão que tinha sobre uma cadeira e me visto.

— O Rafa...

— Não! Eu quero que ele fale – eu corto o Vítor que já ia explicar, ele se cala e olho pro Rafa, ele ainda não consegue me encarar nos olhos.

— Eu acho melhor eles te explicarem, eu tenho que pegar um vôo – ele fala meio frio, embora eu o conheça bem demais pra saber que existe uma camada de coisas por trás da voz dele.

— É, melhor ir mesmo – Vinny fala meio ameaçadoramente.

— NÃO! – eu falo alto e firme, os três me encaram – Por que você ligou pro Vinny? – eu exijo e ele balança a cabeça negando e evitando me olhar, então ando até ele, seguro seu rosto e o forço a me olhar – Por que você chamou o Vinny?

— Pra te levar pra casa – ele responde tentando se manter o mais firme possível.

— E não podia ter me acordado? – ele nega.

— Era melhor assim – ele dá de ombros – Evitaria isso – ele faz um sinal entre nós dois.

— Seu filho da... – Vinny meio que tenta avançar nele, mas Vítor o segura – Ele não vai falar assim com ela e sair daqui inteiro...

— Eu só quis dizer que não íamos precisar passar por esse momento de novo... – ele fala respondendo pra mim e não pro Vinny.

— Por que você tá fazendo isso? – dessa vez ele não consegue esconder o olhar e então o mesmo olhar que ele teve ontem quando disse que eu estava feliz sem ele reaparece, é um olhar dolorido e magoado.

— Você merece mais do que isso, Dani, mais do que... eu – ele dá de ombros – O que eu fiz não tem perdão, você estava certa, vai ficar melhor sem mim... – ele já ia se afastar, mas eu o impeço segurando seu braço.

— Você não me traiu! – ele parece surpreso quando eu falo e para me olhando – Eu sei que não...

— Sabe? – ele parece confuso.

— A gente precisa conversar – aviso pra ele e me viro pro Vinny e pro Vítor – Vocês podem ir, nós vamos conversar...

— Não vou te deixar sozinha – solto o Rafa e vou até o Vinny.

— Você pode me fazer um favor? – ele me encara daquele jeito de quem está prestes a me colocar sobre o ombro e me arrastar daqui – Vai pra casa, fica com a Bianca eu vou ficar bem...

— Eu desço com você – Vítor fala incentivando ele a ir.

— Na verdade, eu acho melhor não, eu... Eu realmente tenho um voo agora – Rafa fala antes que Vinny concorde em ir embora.

— Eu não tô nem aí pro seu voo ou pro que você tenha que fazer lá, você não sai desse quarto até eu falar com você – eu falo firme e decidida a não viver nem mais um dia nesse pesadelo que me meti, Vítor deixa escapar um sorriso orgulhoso e cutuca o Vinny para saírem.

— Qualquer coisa me liga – Vinny avisa e aceita ir embora, eles saem e eu me viro pro Rafa.

— Por que você chamou eles? E eu quero a verdade – falo séria, ele apenas continua me encarando – Foi por que você me viu com o Matheus?

— Como você... – ele para a pergunta e parece lembrar, solta o ar e parece decepcionado com ele mesmo – Eu falei né? – concordo – Olha, ontem eu tava muito bêbado, seja lá o que eu falei, não deve ser levado em conta...

— Então você não me ama mais? – ele olha nos meus olhos, sua boca abre em alguma resposta, se fecha, então abre novamente, mas nenhuma palavra sai – Por que eu te amo – dessa vez sua boca se fecha, mas seus olhos se arregalam em confusão e descrença – Eu te amo mais do que eu imaginei que amasse e sinto sua falta mais do que eu pensei ser possível – eu me aproximo dele, estico minha mão e pego na sua, ele ainda está parado sem reação – A gente realmente precisa conversar – seguro sua mão e o trago para se sentar no sofá, me sento ao seu lado, respiro fundo e olhando nos olhos dele, começo a sentir um medo totalmente novo, por que agora que estou prestes a contar tudo que percebo o quanto eu fui cruel e que ele terá todo direito se me odiar quando souber a verdade – Eu sei que você não fez nada de errado naquele escritório...

— Sabe? — balanço a cabeça concordando.

— E eu vou te contar tudo, mas você precisa jurar pra mim que não vai fazer nada de cabeça quente, ok?

— Eu não tô entendendo

— Rafa, eu preciso que você jure pra mim que não vai fazer nada sem antes me falar, eu sei que não vou merecer nenhuma consideração sua, mas eu te imploro... Não faz nada sem que eu saiba...

— Eu juro – mesmo confuso, ele concorda e dá de ombros – Como você sabe que nada aconteceu?

— Por que foi tudo armado – os olhos dele se arregalam, ele pisca algumas vezes como se nada fizesse sentido e então para como se tivesse entendido, ele me olha e já posso ver o horror em seus olhos antes que saia pela sua boca.

— Minha mãe? – eu concordo balançando a cabeça – Como... Como você descobriu? – eu respiro fundo, olho para minhas mãos e depois volto a olhar pra ele que parece cada vez mais perdido e confuso.

— Eu já sabia

— Sabia?

— Rafa, eu sinto muito, sinto mesmo, mas... Eu não tinha escolha – seus olhos se estreitam e ele se afasta de mim indo para a outra ponto do sofá, ele apoia os cotovelos na perna e aperta a cabeça, então eu decido contar tudo de uma vez – Eu sabia que tinha alguma coisa errada desde que ela chegou naquela noite, mas depois eu achei que pudesse ser algum exagero meu, por que ela me provocava, mas não fazia nada, então quando a gente chegou na hamburgueria naquele dia ela me puxou pro escritório, e ela me fez algumas ameaças, disse que eu tinha que deixar você e é claro que eu mandei ela a merda, mas... Ela ameaçou o Vinny e a Lia. Ela disse que tinha uma mulher que ia fazer um escândalo, que ia falar que o Vinny tentou agarrar ela após um show, e que ela faria de tudo para destruir ele, a carreira dele, a vida dele, ele poderia até ser preso, eu não podia deixar isso acontecer, além disso, ela tem umas fotos da Lia, com um paciente, não aconteceu nada entre eles, mas as fotos com certeza vão fazer ela no mínimo perder o emprego. Aí ela me disse que já tinha pensado em tudo, eu só precisava entrar no escritório quando ela mandasse e te fazer pensar que eu te odiava... Eu sei que isso não é uma desculpa pro que eu te fiz passar e eu me odeio por cada segundo, mas eu não podia arriscar, não podia, se eu saísse de lá pra enfrentar ela, ela destruiria a vida das duas pessoas que mais me ajudaram a me reerguer, você entende? Eu não podia! E se eu te procurasse depois também, eu tentei pensar em alguma maneira de não levar isso a frente, mas eu mal conseguia pensar direito, eu só... Eu sinto muito, muito mesmo – quando termino de falar percebo que estou chorando e ele continua na mesma posição, eu espero alguns minutos e nada – Fala alguma coisa... – eu peço e nada – Rafa, por favor, fala alguma coisa, qualquer coisa, me xinga, grita, sei lá... – ele tira as mãos da cabeça, enche o peito de ar, se levanta e em menos de um segundo agarra a cadeira e joga contra a parede, o choque da cena me deixa meio paralisada, então ele agarra outra cadeira e faz o mesmo, em seguida vira a mesa, o vaso onde tinham alguma flores se espatifa no chão, ele ainda passa a mão derrubando tudo do móvel ao lado e quando para sua respiração está pesada e ofegante, ele encosta a testa na parede, suas mãos espalmadas ao lado da cabeça e então ele fica parado assim por alguns longos segundos e eu não aguento vê-lo desse jeito, mesmo que eu tenha culpa, então me levanto, passo entre as cadeiras quebradas e os cacos de vidro e o alcanço, respiro fundo e toco suas costas, a tensão do seu corpo se desata no momento exato em que eu o toco e eu encaro isso como um ponto positivo e me aproximo ainda mais dele, subo minha mão lentamente pelas suas costas, até seu cabeço, meus dedos se misturam aos fios macios e encosto meu corpo no seu enquanto a outra mão eu passo em volta do seu peito, coloco um beijo no meio de suas costas e inspiro seu perfume e então seu corpo começa a tremer, levo apenas um segundo pra entender e ouço seus soluços, ele chora como uma criança e eu gostaria de fazer algo, de dizer algo, de implorar seu perdão, mas não digo nada, assim como Vinny já fez centenas de vezes comigo, eu apenas o deixo chorar, até que seu corpo começa a perder as forças e ele escorrega até o chão, me deixo ir junto com ele e sem desgrudar dele por nenhum segundo o puxo para o meu colo, ele se agarra em mim e dessa vez chora silenciosamente pelo tempo que precisa, penteio seus cabelos com meus dedos e imploro em pensamentos que isso ajude ele, o choro para, mas ele continua deitado com a cabeça no meu colo sem dizer nada, deixo passar mais alguns longos minutos e tudo que ouço é a respiração dele, então decido que é hora de falar mais alguma coisa, mas descubro que não sei o que dizer, então decido ser sincera.

— Eu não sei o que dizer, eu queria saber, mas... Eu não sei. Eu sinto muito... Eu só... Você não tá sozinho... Eu sinto muito pelo que eu fiz, sinto muito por ter feito você pensar que por algum segundo eu duvidei de você, por que eu nunca duvidei, Rafa, nunca duvidaria, eu sei quem você é, sei que tipo de homem você é e eu amo cada pedaço dele, eu sinto muito, muito mesmo que tenha te feito pensar diferente disso...

— A culpa não é sua – sua voz é rouca e extremamente baixa, mesmo assim encaro que ele esteja falando como algo positivo, ele se mexe e levanta a cabeça do meu colo, seus olhos estão inchados, ele parece exausto como se tivesse passado dias num deserto – Eu só queria entender o que foi que eu fiz de errado...

— Quê? Não, Rafa, você não fez nada de errado... Isso não tem nada a ver com o que você fez ou deixou de fazer... Sua mãe me odeia, esse é o ponto...

— Não – ele me corta balançando a cabeça rapidamente – Ela ME odeia! – ele conclui e eu olhar fica vazio – Eu só queria saber o que eu fiz de errado – ele levanta os ombros e então eu entendo, ele não está se referindo a esse caso, não se trata de nós dois e de nossa separação, não se trata da chantagem que eu sofri, se trata dele e de como uma mãe tentou destruir o próprio filho – Você tava certa... Quando ela apareceu no apartamento – ele me olha – Ela não sentiu minha falta, não era culpa... – ele solta uma risada – Como eu fui burro! Burro! Burro! Burro! Burro – ele dá socos na cabeça enquanto se xinga, mas eu seguro suas mãos.

— Para! Olha pra mim – eu me ajoelho na sua frente, quase em cima dele, solto suas mãos e seguro seu rosto – Olha pra mim – eu exijo de novo e agora ele olha nos meus olhos – Não tem nada de errado com você, entendeu? Nada! Você é o cara mais incrível que eu já conheci em toda minha vida. Você é inteligente, engraçado, meio maldoso as vezes, mas tem um dos corações mais puros que eu já conheci e é o homem que eu amo, entendeu? – seu olhar de dor e magoa muda para algo mais brilhoso – Eu amo tudo em você, amo o que você me faz sentir, amo como me faz ver o mundo, amo seu irritante mau humor de manhã, amo que você saiba fazer uma pedra virar o melhor prato do mundo, amo que no meio de tudo que podia acontecer na minha vida, eu encontrei você e eu te amo, como eu nunca amei ninguém antes, então acredita em mim... Não existe nada, nada mesmo de errado com você – seu rosto suaviza.

— Só a minha mãe – ele dá de ombros e libera um sorriso irônico e divertido que me faz sorrir, então ele começa a rir e eu rio junto com ele, com certeza pra qualquer pessoa que entrasse agora nós pareceríamos dois loucos, no meio do chão com cacos de vidro e pedaços de uma cadeira quebrada, rindo como dois loucos, mas a cada risada eu sinto mais alivio do que a anterior e mesmo me faltando o fôlego essa é a primeira vez na semana que eu me sinto respirando de verdade, aos poucos nos controlamos e as risada param, ele também parece meio ofegante, mas segura meu rosto com as duas mãos e olha dentro dos meus olhos – Então você não me odeia? – eu abro um sorriso.

— Eu te amo! – falo com toda convicção que eu tenho, o sorriso dele é ainda maior que o meu, então ele me puxa para um beijo, forte e desesperado, exatamente no mesmo nível que a falta que eu sinto dele, e eu não tento me esquivar, apenas o beijo de volta, ele me puxa pra mais junto dele, passo minhas pernas de cada lado do seu corpo e sento no seu colo, sem parar o beijo, ele abre meu roupão e praticamente o arranca de mim, sua mão aperta minha coxa, subindo e descendo mantendo a pressão, meus dedos se agarram no seu cabelo enquanto nossas bocas exigem uma a outra, até que ele passa o braço pela minha cintura e se coloca de pé, pela primeira vez eu afasto minha boca dele com o susto.

— Você pode se machucar – ele olha pro chão e depois pra mim que estou novamente de calcinha e sutiã, ele entra no quarto e vai na direção da cama e ainda sem me soltar ele sobe na cama, acabamos meio que caindo sobre ela.

— Tem certeza que é uma boa hora pra... – eu não preciso completar por que tenho certeza que ele entende.

— Mesmo se não fosse – ele dá de ombros sem se importar e vem pra cima de mim, mas então antes de me beijar de novo ele para – Ah não ser que você não queira – em resposta eu o puxo pela camisa e eu mesma o beijo, é incrível como mesmo tendo acabado de beijá-lo essa ainda parece a primeira vez, meu coração dispara tão rápido que tenho medo que ele possa explodir, mas ao mesmo tempo não ligo a mínima pra mais nada, eu só quero beijá-lo e tocá-lo e amar cada pedaço dele por todo o tempo que tivermos.

Minha cabeça descansa sobre o peito dele, e eu o observo subindo e descendo enquanto sinto toda minha vida entrando nos trilhos novamente, estar nos braços dele, sentindo seu calor e seus dedos brincando com meus cabelos é a perfeita definição de lar, por que é aqui o meu lar, ao lado dele, deitada sobre o melhor lugar do mundo.

— No que você tá pensando? – a voz dele já não é aquela angustiada, nem magoada, nem perdida, é a voz dele de verdade, a voz do meu Rafa e isso me faz sorrir.

— Que eu não queria sair daqui nunca mais – mesmo sem olhar pro rosto dele sei que ele sorriu, é como se toda nossa conexão nunca tivesse sido perdida – E você? – ele demora alguns segundos pra responder e antes de ouvir sua voz sinto seus lábios na minha cabeça e logo em seguida ele se move me transferindo para o travesseiro ao lado, eu me esquivo e meio que me sento na cama pra observá-lo melhor, ele se senta de costas pra mim – Rafa? – eu o chamo começando a ficar preocupada, então ele se vira de frente pra mim e força um sorriso.

— Eu preciso fazer uma ligação – ele fala e se levanta puxando e vestindo a cueca que estava perdida no chão.

— Uma ligação? – me enrolo no lençol enquanto fico realmente nervosa – Pra quem você precisa ligar – ele não responde e anda saindo do quarto, levanto o lençol pra não arrastar no chão e vou atrás dele – Pra quem você vai ligar? – ele alcança o telefone dele e começa a deslizar o dedo na tela – Rafa, por favor, você me prometeu... Disse que não ia fazer nada de cabeça quente... – ele desvia os olhos do celular e me olha, o rosto sério se transforma em seu sorriso divertido.

— Ah eu esfriei bastante minha cabeça lá dentro – embora ele esteja apenas sendo o Rafa de sempre dessa vez eu não consigo rir, tem muita coisa em jogo.

— Rafa, por favor...

— Ei – ele vem até a mim e segura meu queixo – Confia em mim, ok? Eu sei o que o Vinny e a Lia são pra você, e eu nunca faria nada que prejudicasse eles, ok? Você confia em mim?

— Confio – a resposta sai imediatamente da minha boca, ele sorri, me solta, volta a atenção pro celular.

— Mas o que você vai fazer?

— Bom, você tentou do seu jeito, agora vamos tentar do meu – ele dá de ombros – Como eu gosto de dizer chegou a hora de botar pra fuder – ele se afasta e coloca o celular na orelha, um sorriso me escapa.

— É muito errado se eu disser que você falando assim me dá muita vontade de te agarrar? – ele olha pra trás sorrindo orgulhoso, mas então seu rosto fica sério de novo.

— Doutor Guimarães, aqui é Rafael Viana... – entendo como um pedido para ficar sozinho e me afasto também, volto para dentro do quarto, vejo minha roupa e minha bolsa em cima da poltrona próxima da cama e vou até lá, procuro meu celular, encontro-o desligado, mas por sorte sempre ando com o carregador, então logo estou enfiando em uma tomada, demora alguns segundos e ele se acende, quando liga vejo 37 chamadas perdidas, da Lia, Vinny, Bianca e do escritório, decido começar pelo mais fácil, ligo pro trabalho, Fabi logo atende, eu digo a ela que estou com problemas e provavelmente não conseguirei ir para o trabalho, mas passo tudo que ela precisa e digo onde estão os documentos, então quando tudo está resolvido desligo e vou para o mais difícil, ligo pra Lia, ela atende logo no primeiro toque.

— Você quer me matar de preocupação, é isso? – sua voz é histérica e assustadora.

— Desculpa, fiquei sem bateria

— Você não dormiu em casa, Daniela, e simplesmente some? O que deu em você?

— Desculpa, ok? Eu realmente não tinha planejado nada, as coisas só aconteceram, sinto muito – ouço-a soltando o ar parecendo decidir se ainda quer me ouvir ou não, depois de dois segundos dramáticos de pausa, ela nãos e aguenta – O Vinny disse que você tá com o Rafa... – um sorriso escapa do meu rosto e meus olhos vão automaticamente para onde ele está, mesmo que eu não o veja, sorrio apenas pra parede.

— É, eu tô, nós conversamos

— E?

— E é isso!

— Sério? Você some, dorme fora, quase mata todo mundo de preocupação e é só isso que eu vou ouvir? Você não tem o direito de me fazer esperar até chegar aqui...

— Eu sei, Lia, é só que... É complicado

— Tão complicado quanto o envelope misterioso que você recebeu? – todos os meus instintos se atiçam.

— Que envelope?

— Chegou hoje de manhã, eu vim aqui ver se você tinha chegado, não tinha ninguém só um envelope debaixo da porta, parece até coisa de filme...

— Tinha alguma coisa escrita?

— Nada

— Tem certeza?

— Tenho, eu tô segurando ele agora mesmo...

— Quer saber, não deve ser nada demais, deixa guardado que eu vejo quando chegar...

— OU – ela faz um suspense e eu já sei o que ela está pensando, mas não posso arriscar que ela abra.

— Lia, coloca no meu quarto, é meu envelope...

— Achei que não tínhamos segredo

— Isso é invasão de privacidade

— Jura? Invasão de privacidade?

— Lia, por favor...

— Tarde demais – eu consigo até ouvir enquanto ela rasga o envelope, alguns ruídos se seguem, então um silêncio que dura uns 10 segundos, mas que parece uma eternidade.

— Que merda é essa? – meu coração dispara sem saber o que pensar – Sou eu! – eu fecho os olhos querendo que seja mentira – Dani, são fotos minhas e daquele paciente que eu te falei, da cafeteria... O que significa isso?

— Lia, presta atenção, tem mais alguma coisa?

— Não, só as fotos, um monte delas... – eu fecho os olhos, sentindo todo meu medo de falhar com eles ressurgindo.

— Dani, o que significa isso? Quem ia te mandar essas fotos? E por que? – abro os olhos quando ouço os passos entrando no quarto, Rafa para na minha frente e faz sinal que precisa falar comigo.

— Lia, eu não posso te contar nada agora, mas tá tudo bem, ok? Eu só... Só preciso de mais umas horas, só isso...

— Dani, não desliga...

— Confia em mim, por favor, eu te conto tudo depois, te amo, beijos – desligo antes que ela comece a me encher de perguntas ou apenas desconfie de mais alguma coisa e junte os pontos.

— A gente precisa pegar um voo – Rafa avisa assim que eu desligo.

— Oi?

— Tá com os seus documentos?

— Rafa, eu não posso viajar assim do nada...

— Não é uma viagem, só vamos acabar logo com isso

— E como vamos fazer isso?

— Pra começar, vamos pegar um voo...

— Rafa, eu não posso, não... Se sua mãe me ver já era, eu acabei de falar com a Lia, e chegou um envelope com fotos dela e do paciente, com certeza é alguma ameaça da sua mãe pelo seu sumiço...

— Então deveríamos resolver isso mais rápido possível, não acha? – eu ainda estou na duvida, ele se aproxima de mim, segura minha mão e me olha nos olhos – Você disse que confiava em mim, você mentiu? – nego – Então temos que pegar um voo.

— Ok! – concordo, então me solto dele e vou me vestir, demoro alguns minutos e estou pronta.

— Já fechei a conta e pedi um Uber – ele avisa quando paro arrumada e com minha bolsa.

— Eu tinha que avisar eles...

— Nós não vamos demorar – ele dá de ombros, segura minha mão e saímos.

Entramos no Uber e demora poucos minutos até o aeroporto, ele vai direto até uma sala especial, e depois de se apresentar, em menos de 5 minutos estamos com lugares no voo que sairá em 20 minutos, como nenhum dos dois tem mala, nem mochilas, somos levados a uma sala Vip para aguardamos o embarque, assim que nos sentamos nas poltronas impecavelmente brancas o celular dele toca, ele faz uma cara feia e atende.

— Rafael Viana – sua voz é séria e como a de um homem de negócios e novamente pensamentos nada respeitosos enchem minha mente, mas tento me controlar e prestar atenção na conversa, a pessoa do outro lado fala por alguns segundos e ele faz uma cara ainda mais séria, depois respira fundo e solta o ar de um jeito que qualquer um a metros de distancia escutaria – Eu não tô te pedindo nenhum favor. Você tá sendo pago e muito bem pago. Você tem duas horas. Nem um segundo a mais – ele desliga sem nem se despedir ou escutar alguma defesa da pessoa, seus músculos estão tensos e ele dedilha o braço da poltrona de um jeito que ele só faz quando está nervoso.

— Tudo bem? – pergunto apenas pra puxar algum assunto por que é obvio que não está nada bem, mesmo assim ele me olha com um olhar mais suave.

— Odeio gente incompetente – ele revira os olhos.

— Você ainda não me disse qual seu plano...

— Você ainda não tomou café – ele muda de assunto.

— Devem servir alguma coisa no voo – ele me olha de um jeito reprovador, se levanta e vai até uma mesa que está posta com um farto café da manhã, ele pega um prato coloca algumas coisas e volta pra perto de mim colocando o prato na minha frente, eu reviro os olhos, mas pego, tem uma fatia de bolo, alguns biscoitos amanteigados e uma fatia de peito de peru.

— Melhor comer antes que chamem nosso voo – ele avisa e o celular dele toca de novo, dessa vez ele se afasta para o outro canto da sala, eu observo enquanto como um dos biscoitos, ele põe a mão no bolso da calça, anda de um lado ao outro enquanto falo baixo no celular, vez ou outra ele para de andar e escuta algo que parece o preocupar, depois volta a andar falando novamente, e fica nisso até que anunciam nosso embarque, eu coloco o prato na mesa, pego minha bolsa e ele desliga o celular e vem até a mim, tento decifrar algo pelo rosto dele, mas ele me força um sorriso e logo está quase me empurrando pra dentro do avião, a aeromoça nos recebe, nos sentamos e então aguardamos a partida.

— Eu não quero ser chata, mas eu realmente queria saber o que está acontecendo – eu falo enquanto ele mexe no celular.

— Bom, eu não tive essa chance quando você tentou do seu jeito – o que ele fala me atinge certeiramente, as palavras engasgam na minha garganta e ardem conforme descem, talvez por ser verdade seja ainda mais dolorido encarar – Desculpa! Eu não quis dizer isso, quer dizer, não desse jeito...

— Ok – as lagrimas ameaçam escorrer e eu olho pra janela tentando me controlar.

— Ei – ele puxa meu queixo me fazendo olhar pra ele.

— Desculpa, de verdade...

— Eu não podia arriscar, entende? Não era só sobre eu e você...

— Eu sei!

— Então você realmente não precisa me fazer me sentir uma merda por ter feito você passar por isso, por que acredite, eu já me sinto assim...

— Não, não, não – ele enxuga a lagrima que sem querer escorreu pela minha bochecha – Eu não estou te culpando de nada, ok? Eu sei que você faria qualquer coisa por eles, sempre soube disso e acho que é isso que me faz te amar ainda mais... Essa sua capacidade de amar e fazer tudo que puder e não puder pra proteger quem você ama... Eu acho isso incrível – ele desliza o dedo pelo meu rosto, mas seu semblante parece triste – Eu só... Só queria que você tivesse a certeza que eu jamais faria nada que prejudicasse alguém que você ama... Eu entendo o que você fez e por quê você fez, só queria que você soubesse que eu entenderia se você tivesse me contado...

— Eu sei. Eu confio minha vida na sua mão, eu só... Só não podia arriscar. Não se trata de você, Rafa. Eu vi sua mãe, eu olhei nos olhos dela, ela tá disposta a tudo, nem você ia conseguir mudar algo... – sou interrompida pelo piloto avisando da partida, mas continuo assim que ele termina – É por isso que eu gostaria de saber o que você tá pensando em fazer...

— Eu tenho uma carta na manga, mas preciso ter certeza de tudo antes, por isso estamos indo pra lá, é tudo que eu posso te dizer por enquanto...

— É suficiente, por enquanto – ele me dá um leve sorriso e me puxa pra mais junto dele, e deixo ser aconchegada no peito dele e passo assim toda a viagem.

Quando descemos no aeroporto pegamos um táxi e fico meio confusa quando ele pede para irmos para o Hospital, o mesmo que o avô dele ficou internado, e esse pensamento me traz outra coisa a memória.

— Com tudo que aconteceu, eu nem falei nada, mas... Eu sinto muito pelo seu avô, como você tá com isso?

— Tô bem, nós tínhamos problemas, mas ele era uma boa pessoa, as vezes bem no fundo, mas era – ele libera um sorriso cansado – Nós tivemos uma boa conversa antes... Foi bom – eu concordo e me inclino pra ele, coloco um beijo demorado na sua bochecha e depois descanso minha cabeça no seu ombro, não demora muito e descemos no Hospital, ele segura minha mão e entramos, ele pega o celular, dá uma ligação e em poucos minutos um médico aparece, cumprimenta o Rafa com um abraço meio apertado e aperta minha mão e beija minha bochecha, somos apresentados rapidamente e ele pede que eu espere na sala de espera, enquanto ele e Rafa desaparecem num corredor. Cerca de quase 40 minutos depois Rafa volta com um envelope branco nas mãos e o rosto sério, ele me estica a mão, aceito e saímos do Hospital sem nada a ser dito, um carro já nos esperava do lado de fora e Rafa entra no banco de trás falando no celular, mas logo segura minha mão parecendo nervoso enquanto diz frases curtas e que parecem sem sentidos pra mim.

— Doutor – o motorista olha pra trás ao diminuir a velocidade e essa é a primeira vez que vejo o Rafa ser chamado de Doutor, é estranho – A entrada principal já está comprometida – Rafa afasta o celular da orelha e estica o pescoço olhando a frente, faço o mesmo e vejo os carros e uma pequena confusão montada.

— Dá a volta e entra pelo campo – o motorista assente, e dá meia volta, uma rua de terra é menor porém parece livre, um portão alto abre assim que nos aproximamos, e entramos, a grama verde se estende por todo o lado, arvores parecem ter sido plantadas propositalmente em cada ângulo, e só entendo que tipo de campo é quando vejo os dois carrinhos parados e os buracos no chão.

— É um campo de golfe – escapa da minha boca.

— Um dos caprichos do velho – Rafa fala já tendo encerrado a ligação, eu olho pra ele e faço uma cara de impressionada.

— Ainda não viu nada... – ele fala com aquele ar de esnobe que ele tinha.

Enquanto o carro segue o lugar parece não ter fim, consigo ver uma piscina ao fundo, imensa, logo mais a frente um jardim de tirar o fôlego, então alcançamos uma estradinha de pedras e a mansão que surge a frente me faz arregalar os olhos impressionada.

— Eu disse que era maior que a do Vítor – eu acabo rindo com a competição idiota que ele criou, mas não posso negar, é mil vezes maior e um milhão de vezes mais impressionantes, é quase um castelo de tão grande, quando descemos do carro ele me dá a mão e subimos os degraus até a porta principal.

Do lado de dentro tudo é ainda mais impressionante, é como entrar num museu e ao mesmo tempo no lugar mais incrível que eu já fui na vida, tem quadros maravilhosos em cada parede que se olha, o lustre do centro onde ficam as duas escadas, uma em cada lateral, parece ser de diamante, a luz brilha tão forte por ele que me sinto dentro de um conto de fadas e como em todo verdadeiro conto de fadas a bruxa logo aparece.

— O que ela tá fazendo aqui? – a voz arrepia cada pedaço meu, uma mistura de medo, raiva e desespero tentam me dominar, mas antes que eu diga alguma coisa Rafa toma a frente, ele entra na minha frente e olha pra ela.

— Escritório – ele fala apontando para o lado que eu imagino que fique o escritório, ela parece confusa, mas não perde a pose.

— Eu exijo saber o que essa garota faz na minha casa...

— Essa casa não é sua – ele a corrige e ela arregala os olhos meio surpresa – Eu não vou repetir... Escritório!

— Eu não sei o que essazinha te falou, mas seja lá o que for, tá na cara que é algum golpe agora que ela sabe que você é um dos herdeiros de tudo isso...

— Ah, você chegou – o advogado do avô dele que eu conheci naquela vez do hospital se aproxima de nós vindo do lado que eu acredito que fique o tal escritório, e enquanto ele cumprimenta o Rafa a mãe dele me encara com uma série de ameaças apenas pelos olhos, mas antes que ela diga algo Rafa se vira pra nós.

— Vamos!

— Rafael, eu exijo saber do que se trata...

— Você não estava tão desesperada pra ler o testamento? – ele pergunta e agora ela se acalma um pouco.

— Eu só preciso buscar uma coisa lá em cima...

— De jeito nenhum – Rafa fala e vai até ela – Eu não quero ficar longe de você nem mais um segundo – ele fala com ironia e coloca o braço dela por dentro do dele – Vamos acabar logo com isso – ele aponta pro advogado indicando que ele vá na frente, depois me sinaliza para ir logo atrás dele e eles vem atrás de mim, o corredor é largo e com mais obras de artes penduradas, passamos por três portas laterais e entramos na porta de frente, dois homens já estão lá dentro, além de uma senhora que é a primeira pessoa que eu encontro aqui com um sorriso simpático e que logo me conquista, pela roupa ela provavelmente é a empregada, ela está sentada ao lado de um senhor muito bem vestido, mas sério e do outro lado um homem mais novo com uma barba bem aparada e olhos azuis parece meio entediado, Rafa só solta a mão quando a coloca sentada, então e senta numa cadeira ao meu lado, o advogado toma a frente e avisa que ira começar a leitura do testamento.

Um pequeno texto até meio emocionante, que quase me faz acreditar que o avô dele realmente era uma boa pessoa nos prepara para o que está por vir, ele cita os nomes das pessoas que deveriam estar presentes na leitura e tirando eu não tem mais ninguém de fora, porém ninguém fala nada da minha presença, nem mesmo a mãe do Rafa, logo após isso ele começa a listar todos os bens e com quem deve ficar, a principio são coisas mais neutras, ele deixa uma quantia em dinheiro muito boa para a senhora que realmente era empregada, além de uma casa de campo, ela fica muito emocionada e agradece ao Rafa, mesmo que não tenha vindo dele, depois deixa mais dinheiro para o homem de olhos azuis, além de 7% de ações de alguma coisa, e a vice presidência de uma filial, para o homem mais velho ele deixa além da quantia de dinheiro, uma rede de hotéis e uma bola de golfe autografada por sei lá quem, então pro advogado ele deixa 39% de ações da empresa dele, um relógio, um carro de colecionador e par de chuteiras, que deve ser alguma piada interna por que todos riem, então chega a parte do Rafa, ele deixa 41% das ações da empresa, a mansão que nós estamos e todos os bens que ele ainda possuir, pra mãe dele restou um valor mensal razoável que com certeza irá manter um padrão de vida alto, um apartamento em Londres e umas jóias.

— Isso é ridículo! Eu sou a filha dele – é claro que ela tinha que reclamar – Quer saber, isso é ridículo, era óbvio que ele não sabia o que estava fazendo. Eu exijo que isso seja cancelado, sei lá...

— Você não tem posição de exigir nada – Rafa fala e ela o olha furiosa.

— Tudo isso é meu! Vocês quem não podem exigir nada...

— Doutor – Rafa faz sinal pro advogado, então ele abaixa o papéis do testamento e pega outros.

— Nós fizemos uma avaliação mais detalhada das contas, documentos e movimentações dos últimos anos, e nós descobrimos um apoio de verbas, que era para um fundo de investimento de pesquisa e ciência, do ex-marido da senhora... Eu mesmo entrei em contato com ele, e ele desconhece o recebimento de mais de 500 mil dólares que ele deveria receber mensalmente há dois anos... Com isso procurei mais a fundo e há 4 anos também havia uma doação para uma instituição carente, que coincidentemente também era de um ex-marido da senhora, e o mais incrível ainda é que ao entrar em contato com ele, ele também desconhecia ajuda de 300 mil reais que ele deveria estar recebendo...

— Isso é absurdo, o que você está insinuando?

— Ele está AFIRMANDO que você roubou milhões do meu avô – Rafa fala sério e todos na sala parecem surpresos e a encaram, ela parece furiosa e se levanta rapidamente.

— Isso é um absurdo e eu posso processar vocês por isso. É ridículo, eu não preciso disso, eu sou a herdeira de tudo isso...

— Nós temos provas! — o advogado fala levantando os papéis.

— Você não foi muito inteligente ao assinar você mesma os papéis – a fúria dela parece aumentar, mas agora com uma camada de desespero.

— Eu me recuso a ouvir mais uma palavra, isso é absurdo e eu juro que vocês vão se arrepender – ela já ia se virar pra sair.

— Se eu fosse você não faria isso – Rafa avisa e ela para e o encara, então quando acho que ela vai fazer um escândalo ela apenas começa a chorar, fazendo o maior drama que eu já vi na vida.

— Eu não entendo por que você tá fazendo isso comigo, meu filho, por quê? Eu te amo tanto – Rafa revira os olhos.

— Vocês podem nos dar licença? – ele pede e os outros se levantam e saem, inclusive o advogado, eu já ia sair também, mas Rafa segura minha mão pra que eu fique.

— É ela não é? O que ela te disse? Por que nós estavamos tão bem, com certeza é alguma mentira que ela inventou – eu realmente deveria bater palmas pra cara de pau dela por que é inacreditável que ela consiga mentir tão bem assim.

— Chega de show! Eu já sei de tudo – Rafa fala e quando eu acho que ela vai continuar o show, ela apenas revira os olhos, esfrega o rosto limpando as lagrimas falsas e o encara friamente, de um jeito que me causa arrpeios e náuseas.

— Se você sabe de tudo, então sabe que eu estou disposta a tudo também, não sabe? – mesmo que ele não pareça tão surpreso com a reação dela o sinto balancear um pouco, mas ele logo se recupera.

— É, eu sei!

— Bom, então vamos lá, eu esqueço que sua namoradinha é uma pulguinha irritante e vocês nunca mais me veem, pra isso eu só quero que você passe essa casa pra mim e o prédio em Paris, claro e uns 20% das ações por que se alguém realmente merece um dinheiro fácil aqui não é você...

— Você é inacreditável, sabia? Eu... Eu realmente não sei como você pode ser minha mãe... – ela revira os olhos.

— Nós nunca nos entendemos, não haja como se a culpa fosse só minha, quem quis ir embora foi você...

— EU ERA UMA CRIANÇA – ele grita e ela o encara – Você não tava nem aí, nunca esteve... Eu era só seu recibo... Você nunca me ajudou em nada, nunca...

— O que você quer que eu diga?

— Nada! – ele dá de ombros – Eu finalmente entendi. Você é oca! Por isso nunca conseguiu ser uma mãe decente, por que você simplesmente não tem nada por dentro – por mais raiva que ele tenha ao falar, por mais que pareça frio, eu sei que por dentro isso deve ser a coisa mais difícil que ele já fez, e apenas na tentativa de amenizar e mostrar a ele que não está sozinho, eu seguro sua mão, os olhos dela vão diretamente para nossas mãos e ela solta uma risada.

— Você é patético! Podia ter tudo isso, e tá jogando fora por causa de uma paixão?

— Eu já tenho tudo isso – Rafa fala dando de ombros e ela nega.

— Acho que você não entendeu... Eu não cheguei até aqui pra ver você pegando tudo que é meu e estragando tudo... Eu não cheguei até aqui pra perder – ela o encara séria – Ou eu recebo o que eu quero ou seus amiguinhos vão ter muito o que explicar – meu coração dispara com a possibilidade de tudo que eu fiz ter sido em vão, mas Rafa me solta, anda até a mesa e pega o envelope que tinha trago do Hospital.

— Talvez você queira olhar isso antes... – ele entrega pra ela, seu olhar é quase entediado, mas ela abre o envelope, puxa um papel, e enquanto lê seus olhos se arregalam, ela olha pra ele e depois pro papel de novo, pela primeira vez ela não tem nenhum indicio de altivez no olhar e isso é algo novo.

— Como você conseguiu isso? – sua voz é assustada e eu não faço ideia do que tem no papel.

— Isso realmente importa? – ela balança a cabeça algumas vezes voltando a olhar pro papel.

— Isso é mentira!

— Essa vai ser sua defesa? Por que bom, é uma merda, eu posso provar isso a qualquer segundo – Rafa fala e ela rasga o papel em vários pedaços – Você sabe que isso não adianta né?

— Como você sabia disso?

— Não importa! O que importa é... EU posso acabar com você, assim, num estalar de dedos e quando eu quiser – ela parece realmente assustada.

— Eu sou sua mãe!

— Não, você é só a mulher que me botou no mundo – por mais que seja verdade, sei que é duro de ser dito, mas ele se mantem firme.

— Você não pode fazer isso comigo...

— Ah eu posso! E acredite, eu vou... – ela já ia falar algo, mas ele levanta um dedo – MAS... Eu ainda posso aceitar um acordo – ela balança a cabeça concordando – Você aceita o que ele deixou pra você, esquece qualquer golpe que ainda possa pensar e desaparece da minha frente... Ou eu mesmo abro a denuncia pelos desfalques na empresa, e faço isso daí – ele aponta para os pedaços de papel no chão — Ser a maior notícia do país... Você tem 10 segundos pra decidir... 10...9...8...7

— Eu posso pelo menos pegar minhas coisas?

— Você tem uma hora! – ela me dá uma olhada antes de se virar e sair, mas dessa vez não tem toda arrogância de sempre, mesmo assim ainda tenho medo e assim que a porta se fecha eu me viro pro Rafa.

— Você tem certeza que ela não vai fazer nada?

— Eu te garanto – mesmo que ele fale com toda segurança do mundo, eu ainda tenho duvidas.

— O que tinha no papel? – ele puxa o ar, fecha os olhos e quando os abre parecem perdidos em alguma coisa.

— Uma noite antes de eu ligar pro meu avô e pedir que ele fosse me buscar, eu ouvi uma conversa da minha mãe com um advogado dela, ela queria exigir a parte dela da herança pra se livrar logo das exigências dele, mas o advogado disse que era perigoso, que ela não deveria arriscar, que o mais seguro era esperar ele morrer então herdar tudo, mas ela insistiu, então ele disse que ela não deveria arriscar causar uma polêmica que ele poderia se irritar, o advogado dele questionar muitas coisas e quem sabe pudesse até gerar um teste de DNA, eu fiquei meio confuso na hora, mas foi ela mesmo quem logo continuou, dizendo que meu avô era tão imprestável que até pra fazer um filho precisou da ajuda do motorista... Eu nunca disse isso pra ninguém, nem pra ela, nem pro meu avô, eu só peguei o telefone e pedi pra ele me buscar – ele fala e eu ainda estou tentando ter certeza que entendi direito, mas isso só pode significar uma coisa.

— Ela não é filha dele! – ele concorda.

— Aquilo era um exame de DNA! – ele aponta pro papel picotado no chão.

— Ele sabia? – ele nega.

— Não tinha ideia, quer dizer, eu nunca falei nada e nunca desconfiei que mais alguém soubesse... – o choque da noticia ainda está sendo administrado na minha mente, mas o olhar dele me faz desistir de fazer perguntas e eu apenas o abraço.

— Eu sinto muito que você tenha tido que guardar isso por tanto tempo... – ele me aperta nele.

— Ele nem era meu avô de verdade – ele confessa o que realmente está incomodando ele.

— Mas ele foi sim, um avô meio merda as vezes, mas ele foi... – ele deixa escapar uma risada e me aperta um pouco mais.

— Eu não me importo. Agora eu tenho você – um sorriso se abre no meu rosto, mas ele afrouxa os braços e se afasta um pouco me olhando dentro dos olhos – Só me promete uma coisa... – não preciso que ele diga o que é, quando olho nos olhos dele eu já sei.

— Eu nunca mais vou me afastar de você, eu juro, por tudo que eu mais amo no mundo – ele revira os olhos.

— Não vale jurar por mim mesmo né – o sorriso brinca nos lábios dele.

— Idiota! – ele fica sério, aproxima a boca da minha e nossos olhares ficam cravados um no outro.

— o SEU idiota – antes que eu sorria, ele me beija, e antes que ele me beije, meu coração já está totalmente entregue a ele. De novo. E dessa vez pra sempre.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.